Um video-graffiti inspirado em JS (Letter to my children / Graffiti by Banksy)

Publicado no Youtube em 7 de março de 2014, o video Letter to my children, produzido pelo Cine Povero, traz-nos excertos do poema “Carta a Meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” (na tradução de Richard Zenith) entrelaçados com os graffiti de Banksy sobre um fundo de música eletrônica. Trabalho inovador excepcional, que bem comprova a atualidade de Sena e a potencialidade de sua obra em aceitar releituras criativas que se valem dos mais recentes recursos audiovisuais.

 

Posted on Youtube on March 7, 2014, the video “Letter to My Children”, produced by Cine Povero, brings us excerpts from the poem “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” (on the translation of Richard Zenith) intertwined with Banksy graffiti over a background electronic music. Outstanding innovative work that well proves the actuality of Sena and the potentiality of his work in accepting creative reinterpretations that make use of the latest audiovisual resources. 

 

Jorge de Sena (1919-1978) was a Portuguese poet, novelist and professor at the University of California, Santa Barbara.
Banksy (born in 1974) is a pseudonymous England-based graffiti artist, political activist, and painter. He is often considered as the most famous graffiti practitioner in the world.
Music by Diagram of Suburban Chaos (pseudonym of William Collin Snavely, a composer of electronic music). Around seventy percent of the audio was made of his OST for “Black day to freedom” by Rob Chiu.

 

 

Poemas de Natal – III

Dos 15 poemas de Natal assinados por Jorge de Sena, ainda nos faltava a transcrição de quatro — que agora aqui oferecemos aos leitores. Dentre estes, está o primeiro de todos, escrito em 1938 pelo jovem Sena, meses depois de excluído da Armada. O de 1943, descortina um cenário de guerra. Em 1965, há duas versões de um texto, com a mesma data, e uma delas explicitamente endereçada ao poeta Sidónio Muralha,  companheiro de exílios. O de 1971, reiteradamente interrogativo, explicita contradições e impasses entre o que seria a essencial mensagem natalina  e o “mundo todo bombas” em que se vive, particularmente em tempos de guerra colonial portuguesa. Sem dúvida, a melancolia e as inquietações expressas nestes versos continuam a fazer todo sentido hoje.  

 

António Santos-Natal_73
Cartão de boas-festas da guerra colonial portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Natal de 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma Justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido.
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se.
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé.
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm.
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Novembro 71

 

Natal  1965 (a)

(Cartão de Boas-Festas a Sidónio Muralha)

«Quando São Paulo só tinha
quatro milhões de habitantes»
este mundo em que vivemos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
nenhum de nós lá vivera.
nenhum de nós lá escrevera,
nem nossos filhos havia
com que São Paulo aumentasse.

 

E nestas neves que tombam
exactamente na véspera
do Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.

 

Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem
se poetas portugueses
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal que não há
nem nunca ainda haverá
neste mundo em que vivemos,
e de que sempre podemos
cantar São Paulo ou a lua.
Venha pois poesia tua,
apaixonada ou serena,
que gratamente a recebo
«ex corde»

 Jorge de Sena.

24/12/1965

 

(b) (Versão original )

Quando São Paulo só tinha
4 milhões de habitantes
este mundo em que vivíamos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
Nenhum de nós lá vivia,
nenhum de nós lá escrevia,
nem filhos nossos havia
com que São Paulo aumentasse.
E nestes neves que tombam
exactamente na véspera
de Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.
Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem,
se dois poetas portugas
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal vivo que pode
mesmo cantar de São Paulo
que tinha por habitantes
não quatro milhões, mas quatro
brasucas de Portugal.

24/12/1965

 

Natal – 43

Nos aviões que o mar imenso cruzam,
para que as ondas desçam das alturas
à terra em que se espraiam, ninguém vai.
Quais pássaros, se os move o coração,
ficou na primavera a esperança do regresso.
Descem com a noite, pousam no arvoredo,
e, afinal, mais longe é que pousaram…

 

Não há já folhas secas, este ano;
o vento frio leva papéis velhos
sobre a terra húmida… E as ervas
encurvam-se, e levantam-se manchadas
de alguma tinta: como a humanidade.
Em toda a parte, os mortos se demoram,
os feridos se recordam… Será sangue, então.

 

“Há dois mil anos…” – dizem várias vozes,
e várias letras, várias forças de hábito.
No entanto, quem nasceu foi um segredo,
um querer encher de nomes uma ausência
e de confiança as mães que nos embalam.
…  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …

Crianças se sumiram no incêndio…
Que rósea aurora as ressuscitará?

27/12/43

 

NATAL

Fim… Não se sabe donde sopra o vento…
As terras e o mar olham com espanto
a extensão afogada em desencanto,
em falsa verdade, em legal tormento.

 

Houve, dizem, em tempos um momento…,
Deves saber, de sacrifício santo…
se houve… nós fizemos do teu manto
o inverno deste nosso pensamento.

 

Sim… Procura ter dentro da bondade
um sentimento de oportunidade
e vê na lama… a cor azul que é linda…

 

E vê que nunca a noite foi tamanha…,
nem houve tantos, em torno da montanha,
olhando o céu, esperando a tua vinda…

24/12/38

 

Há 50 anos: poemas de 1963

Os poemas que transcrevemos a seguir pertencem ao mesmo livro – Arte de Música – e têm ainda em comum a inspiração musical germânica de que traçam uma espécie de histórico, embora tenham sido escritos fora de uma ordem, digamos, cronológica: do romântico alemão (que inspira o poema escrito a 8 de abril de 1963) passamos ao barroco compositor do Sacro Império Romano-Germânico (poema de 04/05), seguido do moderno maestro austro-húngaro da virada do século XIX para o XX (08/05, e portanto na mesma semana do poema anterior), e, por fim, do clássico vienense do século XVIII (12/11).   
Acompanhados pela música de Brahms, Bach, Mahler e Haydn, vale reler estes poemas cinquentenários de Sena.

 

 

http://youtu.be/o3a4v1TWUNo

Oitava, ouvindo a primeira sinfonia de Brahms

 

Da música ao sentido, que palavra
preenche o vácuo de silêncio entre este
fluir contínuo de timbrados ritmos
e o que desperta em nós de não sonhada vida?
E que palavra traz consigo o som
do que ela mesma evoca em nós: imagem
de uma ideia, cor de uma lembrança.
perfume de um desejo, forma de um conceito?

 

Esta que ouço orquestralmente ansiosa.
o que me diz? De que soluços seus
eu posso, com palavras ou sem elas,
humedecê-la do que sinto ou sofro?
E que soluços são palavras que
flutuem ténues neste rio fluido
dentro de mim, sonhando que sonhei
da vida que não tenho ou que já tive?

 

Dulcíssima harmonia, sopro e gesto,
ouvida sem ser vista, e pressentida
no imprevisto da sequência firme
de um cálculo de pausas e de alturas:
o mundo sem palavras, movimento imóvel,
frase destituída de sentido.
É isto a Vida: algo que se ouviu
num timbre momentâneo e sobreposto

 

ao vácuo entre as palavras, para além
do som ou do sentido. Ó triunfal
dormência da verdade! Ó suspensão
de todas as certezas! Ó fervor
tranquilo, infrene, ardentemente frio!
Ó trégua, ó paz, vitória sem vencidos!
Eu te saúdo como noite eterna
onde por sons se escreve que existimos.

 8/4/1963

 

Concerto “Brandenburguês” n.º 1, em Fá maior*, de J. S. Bach

(*) Por lapso Sena indicou “Fá menor” no ms. e nas primeiras edições.

 

I

Como se modulando neste espaço-tempo
que se desenha espaço em mero som contínuo
de um tempo trespassado,
a fina imarcescível
dor
é timbre e andamento,
e proporção de altura
a desdobrar-se na serena angústia
de um nada preenchido.

 

Intensamente.
Quietação.
Vácuo.
Tudo.

 

II

Canta o impossível.
Que voz humana
sustentaria
esta pressa alegre
ou a tensão suspensa
do lento sonho?

 

III

Madeiras, cordas, gestos, sopros. tudo
avança imóvel, sem parar, quieto,
a passo irresistível.

Não há que os contenha
senão o inaudível.

 

IV

Neste silêncio, que ficou, flutua?
O quê?
Nós?
Como tão pouco restaria?

4/5/1963

 

 

 

«Das Lied Von Der Erde», De Mahler

 

São versos de poeta* chinês. Depois de sabermos
Isto, é fácil percebermos o exotismo
da orquestração estranha e convencional da
China coada em salas de concerto da Germânia
em que os Siegfrieds, as Brunhildas, as Isoldas.
os Parsifais, e tutti quanti, espreitam dos veludos
vermelhos e coçados de Bayreuth. Mas
por entre os timbres ricamente escritos
uma voz humana, em que o sexo alterna,
ergue de agudos a clara esperança
de que: a dor e a morte sejam alegria,
E tudo isso um pouco uivante e repetido,
mesmo alongado em gesto de só rttmo e orquestra,
é tão mais que Chinas e Germânias de concerto,
é tanto mais que a própria voz de compromisso
entre ópera e lied, galantemente soluçando
mágoas, piririri, tararara,
que a voz, os versos (traduzidos), a orquestra
se fundem neste dia de tão claro céu
em que os não ouço já.
Das Lied von der Erde – será da terra que isto canta, ou canta
do que não somos terra? Eu creio que
…para que crer ouvindo este sonhar da vida?

8/5/1963

 

 «Andante Con Variazioni, em Fá menor, de Haydn
Firmemente suave e docemente atenta vai seguindo em variações serenas
até que ao fim exclama resumidamente a mesma doçura
tenuemente harpejada que ao princípio dissera
como esta vida é urna simples coisa tão subtilmente amarga
que só variando em torno de perdê-la a toleramos toda.
Neste suspenso e continuado recordar sempre diverso
que nunca na memória se repete, mas recorre
mais vago ou mais nítido conforme
o vento passa, a luz se apaga, as vozes se entrecruzam.
e um gesto se desdobra em mil volutas que não foram
sequer as mesmas que o tão vulgar nunca chegou a ser,
trila, remia, reexpõe, repete,
e vai seguindo pensativa, sem pensar em nada
porque pensar, em música, seria mentir tranquilamente
à sucessão de que é possível transitar de uma ideia
ao ponto concordado na memória imaginada da frase que
só de si tira tudo o que será tirado dela.
Como é terrível ser-se tão sereno assim,
perante todos os passíveis que nos não dá a vida,
mas a música dá. Como dói esta imensamente delicada e tão viril
tranquilidade mais do que inumana. Como ultrapassa tudo
este meditar de sons e sentimento, que finíssimo
penetra onde lá nada tem sentido mas uma existência
que num silêncio termina após o acabar-se.

12/11/1963

 

[*] No ms, como na ed. original, onde está cortado pelo Autor, estava um poeta.

 

 

A morte vista pelo jovem JS

A 4 de junho de 1978 falece Jorge de Sena. Bem antes, o tema da morte já inquietava o autor e percorria insistentemente a sua obra (vide Como se morre? e Eu e a morte). Ainda jovem, no fértil período dos anos de 1938 e 1939, quando escreve mais de 400 poemas, são vários os que evocam a “indesejada das gentes”. Dessa fase, que também registra a comédia em um ato com o título de “Luto”, selecionamos os três poemas abaixo, procurando vislumbrar nos versos imaturos o gérmen do poeta algo elegíaco que se agigantaria no decorrer dos anos. Versos iniciantes a assinalar o fim “que é de todos e virá”. Porém, como sabemos, 35 anos depois de nos deixar, Sena continua vivo e hoje avulta entre os maiores da Língua.

 

  • “Morte” (40 anos de Servidão)
  • “Imortalidade” (Post-Scriptum II)
  • “Necrológio”  (Post-Scriptum II)

 

MORTE…

 

Quando morrer

não verei o mundo apagar-se,

enegrecer,

à minha volta.

Morrerei de olhos fechados.

 

Mesmo quando morrer

jã estarão mais do que fechados

porque os fechei há muito

ao espaço que rodeia

a minha presença material

de cada instante…

 

Morrer para mim

não será deixar de ver,

nem de ouvir, nem de sentir qualquer coisa,

porque os meus outros sentidos

também descansam do cansaço

de não terem encontrado

o cansaço procurado…

 

Enfastiaram-se de monotonia…

Queriam outros perfumes…

outra gente…

outros horizontes…

e não tiveram nada,

tiveram mal,

ou tiveram para depois ficarem

com menos do que tinham…

 

Na minha morte

não há-de haver

despedidas dos sentidos.

As despedidas já estão feitas.

 

A minha morte

há-de ser só morte.

uma simples morte de morrer…

 

14/9/1938

 

 

IMORTALIDADE

O meu tempo começou quando nasci

mas não há-de acabar quando eu morrer.

Eu não sei terminar nada,

gosto de não saber

e tudo fica assim, no ar, indefinido…

 

A minha morte talvez seja incompleta.

 

Morrer é ocupar no espaço

uma posição que não depende da vontade.

Mas quem a ocupa é o corpo.

 

O Corpo deixa então

de existir no tempo.

 

Só o espaço ficará conosco?

Que direitos tem o espaço a mais do tempo?

Do nós que na verdade somos

não haverá um resto acorrentado ao tempo?

 

Se o espaço sem tempo não é vida,

talvez o tempo sem espaço o possa ser.

 

E eu fique assim

vivendo sem matéria…

 

E o meu tempo,

sendo então eu mesmo,

não há-de acabar quando eu morrer.

 

25/9/38

 

 

NECROLÓGIO

 

Terei terminado um rumo e então morri.

Não se fazem convites,

ninguém conhece o morto.

Só eu, já póstumo,

aqui estou na rua enlameada e escura

a ver passar o Fim.

 

Lá passam os carros com as flores

que eu próprio me ofereci por mim

e pelos outros durante a vida.

 

Agora é o carro em que me vejo a mim.

 

Agora um carro vazio.

 

Começa a chover.

Molham-se as luzes e apagam-se… uma… outra …

 

E eu guardo o cortejo na gaveta

para não se molhar mais.

 

25/ 12/39

Outras Metamorfoses

A Metamorfose, seja como termo, como conceito de transformação em processo, ou como exercício ecfrástico de diálogo com outras artes, não se restringe na poesia de Jorge de Sena apenas aos volumes de Metamorfoses e Arte de Música. Como já deixamos anteriormente registrado, nos Verbetes para um modo de ler as Metamorfoses de Jorge de Sena, “é o próprio Jorge de Sena quem relembra a seus leitores sua primeira incursão pelo diálogo da poesia com as artes plásticas. Diz ele: “De longa data me interessou uma repercussão poética das outras artes. […] Na minha coletânea, Pedra Filosofal, publicada em 1950, mas reunindo poemas de anos anteriores, há uma sequência de três pequenas líricas – Primitivos – que, comentando “Uma Anunciação”, “O Patinir das Janelas Verdes” e “Bonnard”, antecipa, a uma escala miniatural, os poemas longos sobre objetos pictóricos, escultóricos, ou afins, que constituem estas Metamorfoses” (Sena:151). Em direção oposta, recorde-se que depois das Metamorfoses, Sena publicou vários poemas que poderiam integrar a coletânea, como, por exemplo, “Chartres ou as pazes com a Europa” (Peregrinatio ad loca infecta), “Piazza Navona e Bernini” (Exorcismos), “O Hermafrodito do Museu do Prado” (Conheço o Sal…).” 

Apresentamos então, uma breve antologia com algumas dessas “outras metamorfoses”(ou talvez “off-metamorfoses”).

 

Metamorfose – (Coroa da Terra, Poesia I)
Primitivos (I, II, II) — (Pedra Filosofal, Poesia I)
Vila Adriana — (Peregrinatio ad Loca Infecta, Poesia III)
Piazza Navona e Bernini — (Exorcismos, Poesia III)
O Hermafrodito do Museu do Prado — (Conheço o Sal…, Poesia III)
Narciso – (Conheço o Sal…, Poesia III)

 

 

Metamorfose

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter…
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.

25/10/42

 

Primitivos

I – (Uma Anunciação)

Que música sabeis de mensageiros,
de alados, silenciosos tocadores,
curvados sobre a expectativa
ansiosa, fervorosa – ao fundo,
nuvens esbranquiçadamente azuis,
um pórtico, palmeiras, prados,
animais que passam, gente que trabalha.

E quem junto de nós, no limiar,
pôs numa jarra flores?
Vós, a quem pergunto
que música sabeis?

31/10/49

 

II – (O Patinir das Janelas Verdes)

Imenso o bosque verde, e o céu azul
imenso.
Corre sereno um rio. O ar dourado
estaca.
Sobre o pequeno prado resplandece
um manto.
Vermelho, roxo, alaranjado – um manto.

31/10/49

 

III – (Bonnard)

(a Miguel Barrias)

Montanhas de arvoredo na distância,
e casas de paredes velhas, frustes,
telhados curvos do voar dos anos,
uma fita de estrada entrecortada,
nem luz nem sombra, nem volume ou forma:
de vós o olhar, qual o tempo e a chuva,
só cores destila.
Do imo sobem a experiência e a amargura.
Condensa-se do ar a expectativa pura.
A vós só cores convergem os sentidos
– só cores, não uma, não esta sobre aquela,
mas esta, aquela, todas,
presença fervorosa em gradações conjuntas:
a vossa idade calma de existir,
de estar pousado sobre a terra humana
como coisa alada que repousa.

19/2/50

 

 

Vila Adriana

De súbito, entre as casas rústicas, e a estrada,
e o monte agreste e Tivoli, o invisível
oásis gigantesco.
Ao sol que passa
um arvoredo esparso, os campos verdes e
paredes, termas, anfiteatros, lagos,
e a paz serena e longa do Canopo
onde como antes cisnes vogam.

Palácio, o império em miniatura,
e sobretudo a solidão povoada
de guardas, secretários, servidores,
e gladiadores, e de uma sombra hercúlea,
ao mesmo tempo ténue e flexível,
e em cuja fronte os caracóis se enredam.

Neste silêncio em ruína, as sombras descem frias.
Mas para sempre o Imperador está vivo,
e o sonho imenso de um poder tranquilo
em que até mesmo escravos fossem livres
e as almas fossem corpos só tementes
de não salvar na vida o ser-se belo e jovem.

 7/5/1969

 

 

Piazza Navona e Bernini

Palácios com aquele ar que em Roma
descasca de velhice o mais moderno prédio.
E a fonte de Bernini. Essa água toda
de que ele tinha em Roma o monopólio.
Mas noutra parte a colunata ascende.
E Santa Teresa, ante a seta do anjo,
vem-se de penetrada em vôo de pintelhos
que o hábito lhe roçam esvoaçante
num pélvico bater que a estoura de infinito.

Chambéry, 27/7/1971

 

 

O Hermafrodito do Museu do Prado

Do deus que as almas aos infernos leva
e a toda a parte o que se compra e vende,
e da que, deusa, por amor da morte
aos altos céus o espírito conduz
ou corpos incendeia contorcidos
pelo desejo de só carne serem,
o filho és tu e mais que o filho a forma
do jovem deus teu pai porém quebrada
em gestos ondulados como se
tiveras seios e ancas invisíveis
qual é da carne a tua mãe a imagem.
Quanto ele viril penetra, tu penetras
com igual membro tenso ardente e duro
de que te pendem fluidas iguais bolas.
Ou quanto ela é uma fêmea em sua boca
e no outro extremo desta é o estrangulado
e obscuro porto às fezes penetrado
serás quando te entregas dorso e ventre
ao que te imita a frente varonil.
Hermafrodito – com teu leite geras
almas e corpos de mulheres e de homens,
mas em teu seio intestinal não tens
cavernas que se selem recebendo-o
para que almas e corpos lá germinem.
E se a teu dorso for fiel teu membro
o leite que ele projecta nada gera
senão nas almas corpos como o teu:
amor comércio inferno e a doce imagem
do jovem deus que dorme reclinado
sonhos de morte humana e de possuir-se
o deus que nos possui além dos astros
lá onde o Nada se revela Ele mesmo.

Madrid, 18/1/1973

 

 

Narciso

De n’água contemplar-se onde se vê Narciso
se inclina sobre si para beijar-se e a imagem
avança em lábios trémulos que o respirar
ansioso escrespa o espelho prestes a partir-se.

Não foi de contemplar-se ou de a si mesmo amar-se
que em limos se fundiu com sua imagem vácua
mas de não ter sabido quando não de olhar
nem só de húmidos beijos se perfaz o amor.

9/7/1970  

 

Leia mais:

Dedicatórias a seus contemporâneos

amigos.jpg

Não são poucos os poemas que Jorge de Sena dedicou aos amigos, ao longo de seus vários livros. Já aqui transcrevemos alguns, como os magníficos “A morte, o espaço, a eternidade“, “À memória de Adolfo Casais Monteiro” e “Eleonora de Toledo“. Ampliando o leque dessas ofertas aos seus contemporâneos, selecionamos mais outros, em vários tons, dedicados àquelas fiéis amizades de toda a vida: Casais, Sophia, Eugénio, Cinatti, José Blanc, França, Quadros… 

 

 

 

Posse

(a Adolfo Casais Monteiro)

Passaram pelos meus ombros longínquos as gaivotas negras
da esperança do poente erguido na extremidade do molhe
que as ondas adoram,
ou mansas ou duras com o amor ansioso
de atingir e penetrar o deus que sentem mesmo
sobre aquela fronteira da morte conquistada,
rolando a própria carne em volta dos pedaços,
quebraram-no, quebraram-no,
e aqui chegam os cadáveres
alheios ao mar
e erguem os olhos para a profundidade perdida
e entrevista ao voltear da queda
ao sufocar da espuma
e volteiam agora e lá está a outra profundidade
no poente erguido.
Rochas talhadas, nuvens vermelhas,
nunca mais
ferrugem sobre a areia
sobre a água
sobre o rombo que, aberto, não conheceu vazio.
Mas vêm gritos da alegria nova
de pairar ao rumo das camadas,
de obedecer apenas cautelosamente
e ver de cima
os mastros cheios de saudade do ar.
E a terra em fuga
e maiores gritos dentro da alegria suprema de descer…
Que a dor do corpo à morte é alegria suprema,
dor da nossa virgindade perante a morte em peso,
não dói a terra em fuga
areia de crepúsculo
areia de esperança
areia luminosa do abraço puro
de aquém
de além
rechina o Sol nas águas,
pousa na ponte erguida,
voam contra ele as últimas gaivotas,
são já verdes por baixo!…
A dor!… A dor… Ouçam-na inteiros!
E uma única onda há-de quebrar tranquila.

16/11/40

 

Caverna

(ao José Blanc de Portugal)

Tanta coragem, meu Deus, em perguntar por dúvida,
não vão os meus actos, amanhã pensados,
ser resposta,
vertigem à beira de um poço mais estreito que largo,
de Te querer tão puro e longe
isento do meu mundo.

Este pavor, meu Deus, de Te purificar em excesso,
de me afastar demais
para que não me compreendas ao dizer-Te o Nome…
Eu tiro-Te tudo, tudo, se principio a odiar-me!

Este pavor, meu Deus,
de Te reduzir ao som, à música das quatro letras;
e anda no tremer do ar,
quando o Teu Nome circula
e o ar não treme para as coisas,
fica afastamento
que não a força da Entrada em nós.

Chega o silêncio
passa uma aragem,
as árvores enchem-se de intervalos de nuvens,
– e eu assistindo completo ao ar em movimento!…
Este pavor, meu Deus, de Te confundir com o vento!

De Ti,
só o meu reflexo é irreparável.

19/6/41

 

“Era tão doce uma verdade…”

(a José Augusto França)

Era tão doce uma verdade entressonhada!

Mas quando, em torno dela, já verdade,
as outras vinham como pétalas
e pouco a pouco eram, também pétalas
de outras flores que também eram verdade
mas não entressonhada,
e uma rede florida se estendia
sobre o jardim ansioso da memória,
como era amargo entressonhar verdades!

Na teia tão florida os olhos se perdiam…
Da terra, um vago cheiro a coisa oculta…
E,
mergulhar no oculto,
ou desfolhar a teia?

16/8/48

 

A Sophia de Mello Breyner Andresen enviando-lhe um exemplar de Pedra Filosofal

Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?

15/12/1950

 

Para o aniversário do Poeta

(ao Ruy Cinatti)

Não passam, Poeta, os anos sobre ti,
embora sejas mais mortal que os mais:
no tempo, viverás longe daqui,
no espaço, apenas deixarás sinais.

E quando, pelos campos silenciosos,
lá te encontrarás nas ondas dos trigais,
repara como fogem receosos,
para o poente, os ventos luminosos
— antes que os homens nasçam teus iguais.

7/3/44

 

Dupla Glosa

(Para o  Ruy Cinatti, em Timor, pelo seu aniversário, em 1952)

“Não passam, Poeta, os anos sobre ti”
– eis o que em tempos uma vez te disse.

Não é bem verdade; passam sobre ti
como por sobre os seres que perecem.
Apenas sempre tu soubeste como
se vive no intervalo entre os instantes.

Os anos passam: mas, desta passagem,
a permanente essência em nós se cumpre,
que para testemunho só nascemos.

Mas de que falas tu? De ti? Do mundo?
Ou do intervalo em que te aceitas outro,
precisamente quando mais te julgam tu?

A pouco e pouco, nascerás de tudo.
Tu próprio, todavia, não disseste que
“anoitecendo a vida recomeça”?

3/3/1952

 

A Eugénio de Andrade, por «Véspera da Água»

Esta água vesperal que sobe em ti
e escorre em regos por areias campos
de verde negro crespas cabeleiras
levando flores vai e estrias brancas
do que tão chamas cal no ardor de tê-las.

Rumor de secos ramos e de olhares,
visões que os dedos têm tocando os troncos
e os caules duros por momentos longos.
correndo vai essa água transportando-os
a um mar que ondas recurva silenciosas.

Descendo pelo tempo que o desejo
anseia seja uma demora tensa
ante um passado a dissolver-se agudo –
essa água véspera de ser-se é tarde
pousando na paisagem das palavras.

Silêncio de só gestos que elas dizem
menos que dizem lembram ou contentam
na solidão sem rosto da nudez –
esta água corre escorre pedra em pedras
e sobe em ti como ervas sobre a terra
em que ninguém nos fita ou já nos vê.

28/1/1974

 

Epístola a Grabato e Quadros

António Quadros,senhor meu, chegou-
-me, nesta desconversa de correios
distantes tanto pelo globo e os fados
que acaso nos retardam as missivas,
a vossa mui prezada e laurentina,
sem data como cumpre a eternas prosas,
mas carimbada a treze deste mês.
Trocou-se ela coás décimas solenes
de minha fraca inspiração mandadas
em como que resposta áquela carta
grabática qual esta mas em verso
de suplicante pelas sacanagens
quibiricófilas e prefaciais
entanto enviadas por vosso amigo
enlanguescendo em praias do Pacífico,
roído de saudades africanas,
enquanto o sol se esfria o só bastante
a que de corpos elas se esvaziem,
qual não mais acontece em Califórnias,
se o Inverno se aproxima,como agora.
Grabato ou Quadros ou Grabatus Frei,
e não de quadras mas de oitava e quadro,
nenhuma gratidão vós me deveis.
Naquela minha prosa, tudo fiz
para provar-se o que não é de prova:
quem foi que algo escreveu, mesmo assinado,
quando possesso de altas Musas ou,
como é segredo, elas se alongam diante
o que se chama de fraqueza humana
e se não fora duro as não honrara.
Qual haveis visto em vossa tripla vista
de poeta de hoje e de ontem que é pintor
por símbolos e monstros minuciosos,
ninguém citei ou nada( quase nada)
que realmente exista. Assim se fritam,
em seu azeite mesmo, as sábias bestas.
No centenário da epopeia que
cavalos da instrução pensam ter sido
feita “a Bem da Nação” como de ofício
a prosa de Excelências se termina,
igual paixão usei nesse delírio
de pura fantasia vingadora,
qual a que punha no prefácio sábio
para a edição dos comentários que,
tão louco como nós, Faria e Sousa,
há trezentos e trinta e três anos,
publicou ao poema dos “lusíadas”.
Pensava a gente oficial comprar-me
com ser fingidamente proclamado
crítico-mor do nosso amigo Luís?
Para sacana só sacana e meio,
ao que dizia Sócrates bebendo
esta cicuta amarga que nos servem
só gota a gota de tarracha para
não de veneno mas de nós morrermos.
E assim, António, se lhes dou nas fuças
a ciência toda de que arrotam vácuos,
nos cuses rebolados lhes assesto
o pontapé que as fuças reclamavam.
A vós, Senhor de Quadros, vos sou grato
e temo apenas que as gorgonas pátrias
se quedem no prefácio furibundas,
e não penetrem pela poesia adentro
que não é de piada mas daquela
trágica farsa que em poesia agora
é quanto em grave troça nos compete
imaginar poesia neste mundo
tão torpe e tão vil, que as rosas e os encantos
são de deixar-se às putas rimadoras,
e às que, menos que putas, se deslaçam
em verso livre, ou se contraem tanto,
que menos que biputas são concretas.
Concreta é só a porra que nos roubam.
Lembrai-me, senhor meu, ao Quenofílico
de tanta minha estima, e ao Mafalalo
sobrequem vou escrever galante prosa.(1)
E ao que Lisboa tem no nome e não
na força com que urze asnos benditos,
de Nixon e de Mao dilectos filhos.
E a todos por aí, como é devido.
Deste palácio vosso em Santa Bárbara
(aposentada santa dos trovões)
de Califórnia, Outubro o dezanove,
JORGE DE SENA vos saúda e firma.

19/10/1972

(1) Quenofílico = Rui Knopfli; Mafalala = José Craveirinha, que vivia nesse subúrbio de Lourenço Marques; Lisboa = Eugénio Lisboa.

 

Arte romana e florentina em Metamorfoses

A arte da Península Itálica “inspira” três dos poemas de Metamorfoses: a delicada escultura da antiguidade romana, do séc. II, encontrada nas escavações arqueológicas de Milreu, Portugal, e duas peças magistrais do Renascimento florentino, de Piero de Cosimo (1461(?)-1521) e de Bronzino (1503-1572), ambas atualmente em Londres. Esta última — o paradigmático retrato de Eleonora di Toledo, Granduchessa di Toscana — motiva o poema dedicado ao amigo Murilo Mendes, fino cultor de muitas artes, que, depois de longamente lecionar Cultura Brasileira na Universidade de Roma, veio a falecer em Portugal. Datado de 1959, somente na carta que aqui transcrevemos, de 1963, Jorge de Sena o envia ao amigo, com estas palavras: “Porque pode ter interesse italiano […], junto lhe mando o poema da Eleonora de Toledo, em que procuro retratar o ‘maneirismo’ como época histórica, sem me afastar da figura da mulher de Cosme de Médicis, como a viu o Bronzino”.

 

 

 

Cabecinha Romana de Milreu

Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há os povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el’ tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos.

12/1/1963

 

Céfalo e Prócris

Do deus da lira e dos ladrões, do psicopompos,
senhor do caduceu; e da do orvalho deusa,
és, Céfalo, o filho. E neto de
Zeus e de Cécrops; e Cronos é com Rea,
a mãe dos Deuses, teu avô também.
De Erecteus de Atenas, Prócris, és
uma das filhas, neta pois de Gea
que mãe de Cronos fez Urano, o céu,
o sobranceiro Céu ao Caos originário,
de que emergiu o Amor, esse Eros que talvez
fosse do psicopompos e da deusa
(das águas ascendida fecundadas
pelo castrado sexo que a seu pai
Cronos cortou) um filho, e meio-irmão
do Céfalo que amaste e que te desposou
e que, por teu ciúme, te matou.

Ciúme apenas? Não. Se transformado
pela alvorada que o raptara ele volta,
e Prócris lhe é infiel consigo mesmo;
se, ao revelar-se o esposo, ela lhe foge
para ganhar de Artémis a infalível lança
e o cão veloz qual vento, que dará
ambos a Céfalo que a não conhece,
quando de novo se encontrarem e
for ela a que não é reconhecida;
se ela se esconde suspeitosa da
brisa que o envolve e à flor da pele o beija;
se um breve ruído a denuncia e faz
que a lança em mão de Céfalo a trespasse,
enquanto o cão contempla os semi-deuses
que, como os deuses, morrem uns dos outros;
se a praia imensa é de animais pisada
que estranhos sob o céu vivem seguros;
se o esposo é quase um sátiro que chora
a ninfa morta que não fora Prócris;
se a nitidez dos traços se prolonga
na sombra luminosa em que persiste infausta
a geração dos deuses: se de enganos,
de mutações, de incestos, e de crimes,
é feita a liberdade de nascer-se humano,
«nem do céu, nem da terra, nem mortal
nem imortal, mas livre e altivo artista
que o próprio ser esculpe e que o modela
na forma preferida» — o canto e a morte,
o roubo e a dádiva, e o doce orvalho
nas folhas matutinas, como a espuma
que às praias vem qual sémen de Cronos,
cinzel e a pedra são, gesto e modelo,
esse modelo ignoto, entre o devir e as coisas
e que se perde, livre, quando Prócris morre,
e se demora, altivo, quando a mata Céfalo.

9/3/1961

 

Eleonora di Toledo, Granduchessa di Toscana

(ao Murilo Mendes)

Pomposa e digna, oficialmente séria,
ê geometria ideal de príncipes banqueiros,
sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,
de reis, senhores de terras e armadores,
severamente equilibrados entre
o sexo, a devoção e as hipotecas.
O mundo é um imenso cais de intolerância austera,
a que aportam escravos, pimenta, a caridade
à sombra de colunas sem barbárie gótica.
Na boca firme, como no olhar duro,
ou no cabelo ferozmente preso,
ou nas imensas pérolas que se multiplicam,
ou nos bordados do vestido em que nem seios
se alteiam muito, há uma virtude fria,
uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,
uma reserva de distante encanto
em que a Razão de Estado era um passeio altivo
por entre as árvores de um jardim areado,
com áleas racionais e relva em secção áurea.
Sem dúvida que os astros presidiram,
numa ciência de terra já redonda,
às próprias proporções que o quadro regem.
Palácios, festas, complicadas odes,
e procissões e cadafalsos e a
de um céu toscano limpidez que pousa no
pó e nas ruínas da imperial Toledo,
tudo isto se condensa em penetrante
tom de ocre vago, onde as cores se opõem
como teses tridentinas muito práticas
elaboradas com paciência para o descanso eterno
dos príncipes cristãos que se devoram sob
a paternal vigilância de uma Roma etérea,
guardada pelos suíços, por cardeais e frades.
A grã-duquesa — se o foi, não foi, de quem é filha,
de quem foi mãe, ante um retrato assim
tão pouco importa! — fez-se pintar.
Mas a pintura era outra coisa, um escudo,
um escudo de armas e um broquel tauxiado,
para morrer tranquilo, quando a angústia brota,
como um vómito de sangue, do singelo facto
de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,
e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,
iluminando as multidões, as raças, tudo,
e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,
cujo estridor silente ao madrugar se ouvia
ranger discretamente, às portas dos castelos.

6/6/1959

O Futuro, a Luz, a Eternidade

Em áudio: “Ode ao Futuro”, lido por Jorge de Sena

Quando encerramos o ano de 2010, ano da criação do site “Ler Jorge de Sena”, preparamos esta pequena antologia, com alguns dos poemas que tratam de uma questão recorrente na poesia seniana: a eternidade. Que sirvam de reflexão para todos os anos que terminam e, possam ser ainda uma “pequenina luz” de esperança para todos os que nascem.

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* “Eternidade” (PerseguiçãoPoesia I)
* “Os Soldados de Chumbo e a Eternidade” (Post-ScriptumPoesia I)
* “Ode para o Futuro” (Pedra Filosofal Poesia I)  – Em audio
* “Uma Pequenina Luz” (FidelidadePoesia II)

 

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

22/9/1941

 

Os Soldados de Chumbo e a Eternidade
Nunca entendi tão perfeitamente as coisas
como desde que os homens se deixaram sê-las.

Quando, na minha infância, eu enterrava,
com solenidade imensa, dos meus soldados de chumbo
aqueles que eram mortos por decreto meu,
e, quando para continuar o combate,
os ressuscitava e desenterrava sem nenhuma pompa,
alinhando-os apressadamente para morrerem de novo
e tantas vezes quantas as que havia
até à condenação à frigideira fatal
onde acabavam e pareciam o mercúrio dos termómetros partidos
apenas com ligeiras escamas da tinta azul da farda,
como eram sempre outros, gerações,
sempre diferentes, sempre de arma ao ombro,
e os pés em marcha soldados à base.

A verdadeira consolação que me restava
– e que eu não sabia – :
Aquele pedaço de chumbo arrefecido
fôra soldados, generais, cavalos,
irremediavelmente.

Maio – Junho? /1947

 

 

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
– apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós – de nós! – como de um sonho.

7/10/49

 

 

Uma Pequenina Luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

25/9/1949

Poema escrito num Sábado de Aleluia

No apagar da Quaresma — tempo propício à reflexão sobre o transcendente — este poema celebra "um fim que nunca acaba", porque, na visão humanista de Sena, é inconcebível acabar: para emergir nascemos…

 

A Morte, O Espaço, A Eternidade

(ao José Blanc de Portugal, em memória de um seu ente querido, que eu muito estimava.) 

De morte natural nunca ninguém morreu.
Não foi para morrer que nós nascemos,
não foi só para a morte que dos tempos
chega até nós esse murmúrio cavo,
inconsolado, uivante, estertorado,
desde que anfíbios viemos a uma praia
e quadrumanos nos erguemos. Não.
Não foi para morrermos que falámos,
que descobrimos a ternura e o fogo,
e a pintura, a escrita, a doce música.
Não foi para morrer que nós sonhámos
ser imortais, ter alma, reviver,
ou que sonhámos deuses que por nós
fossem mais imortais que sonharíamos.
Não foi. Quando aceitamos como natural,
dentro da ordem das coisas ou dos anjos,
o inominável fim da nossa carne; quando
ante ele nos curvamos como se ele fora
inescapável fome de infinito; quando
vontade o imaginamos de outros deuses
que são rostos de um só; quando que a dor
é um erro humano a que na dor nos damos
porque de nós se perde algo nos outros, vamos
traindo esta ascensão, esta vitória, isto
que é ser-se humano, passo a passo, mais.

A morte é natural na natureza. Mas
nós somos o que nega a natureza. Somos
esse negar da espécie, esse negar do que
nos liga ainda ao Sol, à terra, às águas.
Para emergir nascemos. Contra tudo e além
de quanto seja o ser-se sempre o mesmo
que nasce e morre, nasce e morre, acaba
como uma espécie extinta de outras eras.
Para emergirmos livres foi que a morte
nos deu um medo que é nosso destino.
Tudo se fez para escapar-lhe, tudo
se imaginou para iludi-la, tudo
até coragem, desapego, amor,
tudo para que a morte fosse natural.

Não é. Como, se o fôra, há tantos milhões de anos
a conhecemos, a sofremos, a vivemos,
e mesmo assassinando a não queremos?
Como nunca ninguém a recebeu
senão cansado de viver? Como a ninguém
sequer é concebível para quem lhe seja
um ente amado, um ser diverso, um corpo
que mais amamos que a nós próprios? Como
será que os animais, junto de nós,
a mostram na amargura de um olhar
que lânguido esmorece rebelado?

E desde sempre se morreu. Que prova?
Morrem os astros, porque acabam. Morre
tudo o que acaba, diz-se. Mas que prova?
Só prova que se morre de universo pouco,
do pouco de universo conquistado.

Não há limites para a Vida. Não
aquela que de um salto se formou
lá onde um dia alguns cristais comeram;
nem bem aquela que, animal ou planta,
foi sendo pelo mundo este morrer constante
de vidas que outras vidas alimentam
para que novas vidas surjam que
como primárias células se absorvam.
A Vida Humana, sim, a respirada,
suada, segregada, circulada,
a que é excremento e sangue, a que é semente
e é gozo e é dor e pele que palpita
ligeiramente fria sob ardentes dedos.
Não há limites para ela. É uma injustiça
que sempre se morresse, quando agora
de tanto que matava se não morre.
É o pouco de universo a que se agarram,
para morrer, os que possuem tudo.
O pouco que não basta e que nos mata,
quando como ele a Vida não se amplia,
e é como a pele do ónagro, que se encolhe,
retráctil e submissa, conformada.
É uma injustiça a morte. É cobardia
que alguém a aceite resignadamente.
O estado natural é complacência eterna,
é uma traição ao medo por que somos,
áquilo que nos cabe: ser o espírito
sempre mais vasto do Universo infindo.

O Sol, a Via Láctea, as nebulosas,
teremos e veremos até que
a Vida seja de imortais que somos
no instante em que da morte nos soltamos.
A Morte é deste mundo em que o pecado,
a queda, a falta originária, o mal
é aceitar seja o que for, rendidos.

E Deus não quer que nós, nenhum de nós,
nenhum aceite nada. Ele espera,
como um juiz na meta da corrida
torcendo as mãos de desespero e angústia,
porque nada pode fazer nada e vê
que os corredores desistem, se acomodam,
ou vão tombar exaustos no caminho.
De nós se acresce ele mesmo que será
o espírito que formos, o saber e a força.
Não é nos braços dele que repousamos,
mas ele se encontrará nos nossos braços
quando chegarmos mais além do que ele.
Não nos aguarda – a mim, a ti, a quem amaste,
a quem te amou, a quem te deu o ser –
não nos aguarda, não. Por cada morte
a que nos entregamos ele se vê roubado,
roído pelos ratos do demónio,
o homem natural que aceita a morte,
a natureza que de morte é feita.

Quando a hora chegar em que já tudo
na terra foi humano — carne e sangue —,
não haverá quem sopre nas trombetas
clamando o globo a um corpo só, informe,
um só desejo, um só amor, um sexo.
Fechados sobre a terra, ela nos sendo
e sendo ela nós todos, a ressurreição
é morte desse Deus que nos espera
para espírito seu e carne do Universo.
Para emergir nascemos. O pavor nos traça
este destino claramente visto:
podem os mundos acabar, que a Vida,
voando nos espaços, outros mundos,
há-de encontrar em que se continui.
E, quando o infinito não mais fosse,
e o encontro houvesse de um limite dele,
a Vida com seus punhos levá-lo-á na frente,
para que em Espaço caiba a Eternidade.

Assis, 1 de Abril de 1961, sábado de Aleluia

Aniversário

O dia dos anos de Jorge de Sena, 2 de novembro, não foi particularmente fértil para o poeta. Dois poemas juvenis, recolhidos postumamente em Post-Sciptum II, e dois editados pelo autor, em Coroa da Terra e Arte de Música — eis tudo. Mas, dentre eles, o magnífico “Missa solene, op. 123, de Beethoven”, aqui acompanhado pela interpretação de Otto Klemperer à frente da Orquestra Sinfônica de Viena, exatamente a que Sena registrou em nota como “interpretação-base deste poema”. 
Mas essa data natalícia também nos remete ao poema “Mensagem de Finados”, do livro Fidelidade, o qual, quebrando a expectativa de aludir à celebração cristã do “dia dos mortos”, recebe a seguinte nota: “Este poema foi escrito e publicado em protesto contra os protestos que não subscrevi (como, de cabeça perdida, o fizeram alguns comunistas como eu nunca fui) pela invasão da Hungria, uma vez que, partilhando a opinião de António Sérgio, eu não protestaria de coisa nenhuma semelhante, lá onde não podia protestar de viver num país ocupado pelo salazarismo”. Exemplo, portanto, do comprometimento em poesia, que Sena tantas vezes exercitou, em nome da “fiel dedicação à honra de estar vivo”. 

 

 

 

O POEMA FALANTE

Ser poema é ser alguma coisa
que habitualmente se é sem dar por isso.

Poema puro, de mais nada,
aqui estou eu a dizer que o sou –
– tanto bastará p’ra me negarem.

2/11/39 – “doente”

 

 

ESPERANÇA PARA O DIA ANTERIOR

Na altura mesmo em que chegaste à porta
cruzava eu por ela… E apressei
o andar, e alteei o corpo, e dei
aos lábios queda… aos olhos visão morta!…

A luz por trás que ainda te recorta
à margem dos meus olhos!… Sim… Entrei…
lá estávamos os dois… não perguntei
nada… Como o futuro nos conforta!…

Só não entrei. Passei. Não é diferente?
…Ficou-me a impressão de teres tamanho…
Dava-te menos… Não sei ver de perto!…

E outra vez me feri dentro de gente…
Mas veio a decisão que agora tenho! –
– quando ontem lá passar… então é certo!…

2/11/39 – “doente”

 

 

BULÍCIO

Quarenta dias suspensos para concentração dos vermes
como o destino que audácia alguma enviará partido
no manto azul escuro de outras noites
mártires de auréola torta
não sei endireitá-la
esperam de mim um gesto de favor enganam-se
apenas vou de lado olhando as mãos banidas
e grito docemente a protecção de todos.
É branda a indignação
creiam-me por alto eu minto sempre
enquanto espero.
Durmamos hoje. Abramos hoje as águas
do ódio transparente enganam-se comigo
passem!
Passem. Falem que eu escuto, eu ouço
devagar
as vozes raras
e a penetração da esperança atinge
as cavernas menos solitárias:
uma aranha que passe e eu ouço-a,
uma flor que desista e eu quebro-a…
Viril a natureza e nem por isso
parará de erguer
o monumento de ervas cristalinas.
Oh olhos verdes cantantes!
pode um homem morrer sem fechar os olhos
pousar as mãos nos braços da cadeira
acariciar os braços da cadeira
enganam-se comigo
falem que eu escuto a despedida
a fome o despero
a queda as mães fecundas
e o medo que se arrasta absorto no sentido oposto.

2/11/41

 

 

MISSA SOLENE,OP.123,DE BEETHOVEN

Não é solene esta musica,
ao contrário do nome e da intenção.
Clamores portentosos,violência obsessiva
(por sob aqueles doces,lacrimosos)
de um ritmo orquestral continuado,
tanta paixão gritada, tanto contraponto,
que teimosamente impede que na tessitura
das vozes e dos timbres se interponha hiato
não de silêncio mas de um fio só
de melodia,por onde a morte
penetre interrompendo a vida.

É medo, um medo-orgulho, feito
de solidão e de desconfiança. Não
piedosa tentativa para captar um Deus,
ou ardente anseio de união com Ele.
não é também, com tanta majestade,
a exigência de que Ele exista,
porque o mereça quem assim O inventa.

É um medo comovente de que O não haja
para remissão dos pecados, bálsamo
das feridas, consolo
das amarguras, dádiva
do que se não teve nunca
ou se perdeu para sempre. É
desejo ansioso de que um Agnus Dei
se interponha (ao contrário da morte) mediador e humano
entre um nada feito música
e outro possìvelmente Deus.
E a esperança desesperada de que seja
uma grandeza nossa quanto fique,
de pé, no intervalo entre ambos.

02/11/1964

 

Crianças

A propósito do 12 de outubro, o “Dia das Crianças” no Brasil, uma breve antologia de poemas que têm nos filhos e nas crianças o seu mote, na trilha do paradigmático “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya“, já aqui transcrito.

 

 

O último dia

Crianças riem na varanda, riem
e brincam de maneira que já não são crianças.

Hoje não há Sol,
unicamente um céu esbranquiçado e carros que chapinham
e uma luz contínua que não entra dentro
e dentro um cheiro a terra, a pano, a sono,
a calor no rosto e nas orelhas.

As crianças brincam de pensamento morno,
umas com as outras sem mais nada.
E a ingenuidade, que nunca ninguém tem e lhes falta,
caiu aqui.

Este poema está errado.
Se não está, é o mesmo – não termina.

Repetir tudo várias vezes até não perceber.

1/10/39

 

Esgoto

I

Crianças pálidas brincam no esterco da rua
como se o esterco fosse a perpetuação do Sol
qual Sol que supurasse das paredes altas
em vão rodeadas pela mão da morte.

Alegremente o esterco toma formas náuticas;
um murmúrio de água incita-o com ternura,
um murmúrio no cano coberto de lages gastas,
um ciciar de restos não comidos, restos digeridos, vidas não geradas.

A cidade, do alto, é silenciosa,
porque as vozes não passam entre os beirais tão próximos.

Gerarão as crianças quanta vida ouviram:
algumas serão homens.

II

Para a verdade caminham corpos que a não conhecem
ou a conhecem apenas com nome trocado.

Assim desliza o vento pelas estradas humanas
entre as vozes das searas ondulando nele.

III

Ergo-me aflito da miséria do mundo.
Não basta que me erga ao nível das grosseiras máscaras
ou dos cruzeiros ingénuos de onde houve um crime.

Um crime é esta vida, e a atraiçoada cruz que lhe oferecem:
cruzeiro para povos que se entreolham trémulos,
para homens distantes (não vão eles viver…),
para mães que não têm a memória da carne,
para sinais do sangue de sacrifícios mal virgens,
para os poetas que buscam um contacto periódico…

IV

A miséria do mundo não existe,
nem o mundo existe:
andamos nós em bando sobre a terra.
Que o mundo é só a ignorância dos homens,
e a maior miséria dos homens só as palavras que os vivem.

25/5/42

 

Acção de graças

Às vezes, com minha filha no chão junto de mim,
Fecho os olhos numa ação de graças…

Mas logo ela galreia,
Nem isso me consente.

E regresso um pouco triste a uma alegria imensa.

1/10/50

 

Os filhos levam muito tempo a crescer

Precária a vida e consentida a morte.
Quanto eu julguei saber como assim eram!
Mas não sabia.

Morreram-me pessoas queridas
e é como se ausentes permaneçam;
mesmo quando morreram perante mim,
não foi à morte delas que assisti:
outrem morreu, que é outro alguém que morre.

Mas também isto ainda o não sabia,
como o sei agora,
se aos meus filhos o olhar se turva,
se não sorriem logo, prontamente,
ao mais singelo aceno desta vida
que tão precária acena por meus lábios.

A morte é consentida: se a consentem?
Se se desdobram, numa imagem fixa,
que se perde,
e noutra que parte para sempre,
como se só ausente permaneça,
mas que nunca mais volta,
para viver precariamente
e morrer consentidamente
depois de a morte a mim me haver vivido?

Tudo isto meus versos o sabiam,
que não eu.
E agora que o sei tão ansiosamente,
leio estes versos e suspeito
amargamente que estes o não sabem.

9/5/51

 

As crianças cantavam

Era um silêncio como de inocência
em que as ouvidas vozes não surgiam
de algum sentido que nas coisas reste
de iguais palavras com que foram ditas.
Silêncio apenas, como que silêncio
de quando a aragem pelas folhas passa
e em ténue erguida poeira se adivinha.
De um tal silêncio escuso havia rasgos
alheios uns aos outros pelo espaço
e pelo tempo como brandos lagos
de límpida planura circunscrita.

Dando-se as mãos na roda
as crianças cantavam:

                                       D. Beltrão nunca sabia
de que lado tinha a espada.
Dona Ximena morria,
porque D. Pio a prendia
com fitas de madrugada.

Anónimos espelhos percutidos
pelos olhares do acaso, nenhum deles
era mais que a suspensão de estar-se ali,
sem onde ou quando, sem sentido ou forma,
e sobretudo sem memória alguma.
Silêncio eram como de inocência.
Silêncio apenas como que silêncio.

Dando-se as mãos na roda
as crianças cantavam:

                                      Na torre à beira do mar,
Dona Ximena fechada.
D. Beltrão nunca sabia
de que lado tinha a espada.

6/7/1953

 

Noções de Linguística

Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguês daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.

Outubro, 1970

Odes de Jorge de Sena

A ode é forma poética canônica muito revisitada por Jorge de Sena, sobretudo nos anos 40 e 50. Das 14 que nos legou, já aqui editamos a "Ode ao surrealismo por conta alheia", "Ode aos livros que não posso comprar" e "Ode para o futuro". As que se seguem bem comprovam a variedade de modulações com que JS recria forma tão arcaica que varou os séculos.

  

 

 

 

Ode a Alberto de Lacerda

Ao longe, entre palmares e brumas
e ventos de monção erguendo espumas,
uma visita recebeste, gélida e ardente.
Beijou-te os olhos de menino doente,
as mãos ingênuas de menino arguto –
e tu, olhando as coisas e tocando-as leve,
ouviste que falavas
do que não tocavas,
e pelo mar partiste.

A ti, quem te chamou? Quem te expulsou?
Quem te acordou? Quem te mantém dormido?
Quem com palavras nuas te comprou?
Quem te despe da vida como a um deus vestido?
Ai nunca saberemos que ninguém!
E nem palmares, nem brumas, nem visita ardente
ou gélida, nem mesmo a tua velha infância,
nem mesmo tu, que morres de ser só
o sopro que te anima.

Mas tu, fechando os olhos, vês Diotima.

2/9/1951


 

 

Ode à Beira Nada

Eu leio estes poetas com imensa amargura.
É tão verdade que todos desejamos
( todos, menos quem deseja o sossego dos outros)
a liberdade mais perdida a cada sonho com ela
como flor tranquila vicejando algures
onde contemplá-la é só chilreio vago
do campo antigo!…Eu espero, eu vejo, eu quero,
mas há em tudo isto um travo exacto
a deslealdade, a fuga, a evasão, e não a luta,
um travo a imaginar que a outra humanidade
será melhor apenas para nós sermos os mesmos
com auditório melhor. Tudo será igual,
no fundo querem tudo igual, pois quando gritam
por este vácuo de universo e acaso,
delírio de estruturas consumindo-se
voltadas para um fim que não possuem,
pois quando gritam (e dizem nomes belos,
imprecações brilhantes, vocativos mágicos)
por este claro monstro que em mim trago,
de que não há cesariana que me salve,
não é por ele que chamam; não procuram
saber que existe, desconfiam, temem,
agarram-se uns aos outros, temerosos,
fingindo rir da ingenuidade aflita
dos que, outrora, se curvavam solícitos,
sonâmbulos, seguros, para a poeira do mundo,
nela beijando os sinais, patadas, marcas,
dos deuses que brincavam aos humanos,
como os humanos a imortais brincavam,
brincavam a invisíveis, a sem peso,
primeiro ainda orgulhosos de que as coisas
fossem a pedra com que faziam outras,
depois já tristes de que as pedras fossem
como o regresso ao ventre entressonhado,
mais tarde atentos à evidência de estar vivos,
e quase agora aflitos sem saber porquê.
Não, não, toda esta gente é ignóbil, miserável,
não posso deixar de os ler com imensa amargura.
Passam cantando inúmeros disfarces
contra a morte dos deuses e das leis, das classes,
de tudo o que por séculos inventou palavras
com que eles cantam; e, no calor do canto,
há um consolo atroz, gramatical, de sobrevida,
relento a vida viúva e mal lavada.
Não! tudo isso é falso! Acudam que é traição!
Ainda é tudo o mesmo, a mesma teatrada,
a margem da verdade que não é a verdade,
se não há razões, se nós, os que sabemos,
é que andamos cá por ver andar os outros?
Que fidelidade eu devo, mais que a de voluntário escravo,
a novas grades com que se preparem
para prender quem grite que não há uma causa,
que não há um fim, nem uma razão,
que de nos agarrarmos uns aos outros
não nasce outra razão além dos gestos?
Confessai, por uma vez, cobardes,
que até por corbadia particais heroismos!
confessai por uma vez, que não tendes coragem
para lutar alegremente e sem motivos!
confessai que não sabeis amar a vida,
que não a amais senão na dor dos outros!
Confessai, confessai, apenas uma vez!
E, se depois cantardes, se ainda então
o sexo a mais ou a menos que vos subiu à garganta
ainda for o pipilar das avezinhas,
por entre os ramos mentais de um arvoredo
que os montes não conhecem, nem os rios
reflectiram nunca, nem os homens viram,
então, sim, então podereis ser líricos.
Sereis só líricos sem máscara. Repipilareis
na doçura da tarde( ai como é doce!),
no silêncio da noite ( ai como é escura!),
no estalido róseo da madrugada próxima…
…………………………………………………………….

Alto! Alto aí! Não vos inspireis! Deixai nascer o Sol!…
Deixai que ele nasça, que, sem todos vós – el' nasce.


20/7/48

 

 

Ode à Incompreensão

De todas estas palavras não ficará, bem sei,
um eco para depois da minha morte
que as disse vagarosamente pela minha boca.
Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,
ou nem sonhei ou nem pensei
ou apenas sofri de não ter sofrido tanto
como aterradamente esperara –
nenhum eco haverá de outras canções
não ditas, guardadas nos corações
alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.

Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,
não encontrou eco. Por tudo o que,
para ecoar, ficou silencioso, imóvel –
– isso me dói como se ausência a música
não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,
eminente, destinado, isso me dói
dolorosamente, amargamente, na distância
do saber tão claro, da visão tão lúcida,
que para longe afasta o compassado ardor
das vibrações do sangue pelos corpos próximos.

Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,
da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos
a imensa altura para que me arrebatas
– meu palpitar de imagem à beira da alegria,
meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,
tão longe, que já não meus erros regressassem
como verdade envenenando o dia a dia alheio.

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!

E quem, ó minha imagem, foi contigo?

(De mim a ti, a mim,
quem de tão longe alguma vez regressa?)

9/10/49 – rev. 1950

 

 

Ode à Mentira

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos… – como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.  

31/3/49

 

 

Ode a Ricardo Reis

Rosas raquítas te of'reço, poeta,
porque é da ode of'recer rosas
e não há doutras nas palavras de hoje.

Desfolha-as sabiamente nos teus lábios
e fala esse perfume que el's não têm;
ah diz-me como é vão o vão das pétalas,
se as rosas que te ofereço não são rosas
para criar em ti novo desdém.

Dilui-te um pouco nesse amor vendado;
e, quando o teu cuidado nos buscar,
aventa a hipótese da morte inglória:
se algum de nós morrer da morte de ambos,
é que estas rosas te serviram tais
que assim raquíticas duravam mais.

8/4/1942 – 1947

 

 

Ode a um reformador do mundo

Outros, que não tu, puseram nos teus braços 
o mundo imprimido por ti à sede de justiça.
Mas foi como nascendo que lhes deste
o sangue de mais outros que já estavam mortos
tão antes de raiar o novo dia
a quem, também, traçaste o círculo da terra!

E a sede era maior porque vivia,
porque era, sobre o campo da alegria,
uma seara ardendo ao tempo que crescia,
um pão de eternidade sem um deus presente
abandonando os gestos ao fervor de outrora.

… … … … … … … … … … … … … …

A nós as cordilheiras entre as terras
suspensas dos montes como de um senhor!
A nós a perspicácia dos olhares impuros,
quando olham corpos que pertencem sempre!
A nós a mancha que as nuvens negras
passeiam parda sobre a terra seca!
A nós as cores do inatingível termo
em que a justiça embalará os homens,
se falsos homens há para atingi-lo!
A nós os dedos que emprestaste às mãos,
a que obrigaste as mãos dos que não entendem!
A nós a liberdade de cantar vitória
por cada espezinhar de um velho mundo!
A nós o círculo sempre traçado à terra!

E a mim o amor das searas invencíveis!
A mim as lanças das bandeiras do universo
e não as franjas de ouro do caminho andado!
Quero que a tua glória seja do meu rasto!

A mim todo o futuro e a multidão que o encha!
À minha voz, a dor da vida quando exige tudo
e rasga em homens a ilusão de paz!
Que eu grite a angústia firme da exigência eterna,
grito após grito, quanto um grito custa:
– e nem o meu mundo é já o que me dás.

8/2/42

 

 

Ode ao Amor

Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor…
            ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele… amor… amor…
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria…
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.

Distantemente, irónico, esquecido.  

17/7/49


 

Ode ao destino

Destino: desiste, regresso, aqui me tens

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais,
das ameaças
do recolher felino das tuas unhas retráteis
– ah então no silêncio tranquilo, eu me
acolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe
inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas
as coisas chegavam
em bandos,
que eu de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as
dos outros,
para dominar a tempo um gesto de
amizade inoportuna.
Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças,
em audácias;
descendo à fé em mim próprio, até busquei
sentir-te . imenso, exacto, magnânimo
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem razão constrói
de um Deus ínvio caminho, capricho
dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falia de vontade
minha,
superstição, metafísica barata, medo
infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos
freudianos,
contradição ridícula não superada pelo
menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito,
a solidão da vida,
existirão ou não, serás tudo isso ou não,
só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.
……………………………………………………
Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar
morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e de todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

17/10/47 


 

Ode aos Plátanos

Queda de folhas com que a aragem soa
a luz do sol em sombras sobre os vossos troncos
de esverdinhado ouro secular
– ó plátanos dourados e nodosos! –
que sempre o mesmo Outono vos consola,
dormência igual, Inverno já tão próximo,
carícia vegetal de esquecer tudo,
folhas tombando, esguios ramos hirtos,
tão doloroso e fácil contemplar-vos!,
tão lentidão de sombras mais antigas
que a dança cadenciada de escutar-vos.
Troncos, rochedos, grenha de braçadas,
chiar de sonhos, solidão musgosa,
e as folhas caem por entre a limpidez
de um ar sonoro levemente azul.
Ligeiras, secas, já de sempre ouvidas,
as folhas correm pelo saibro húmido.
Nas noites frias, rígidas, metálicas,
de sono lúcido e profundo além da névoa,
com vossos ramos nus tão numerosos,
que nevoeiros calmos esfarrapareis!
– ó plátanos dourados e nodosos!…

6/12/49


 

Ode às Ideias Irresponsáveis

Estou só, deitei ao nevoeiro que rodeia a fronte
à hora da partida para a dúvida já física
todos os mundos… Ó minhas irmãs,
como estou só! sem flores, sem barcos,
sem a minha voz, sem alma,
sem a alegria de um nascer diário
na força de astros múltiplos, sensíveis,
confiando auroras ao carrear do vácuo
e ao pálio de ondas que as falésias deixam
desdobrar em franjas,
                                       franjas que o azul alonga
ee já verde, enquanto um pássaro
persiste nos rochedos e o rochedo é o pássaro
pousado e as asas são a espuma
                                                           a um lado e outro,
e já verde o azul imita o frágil mar…
Ó minhas irmãs, cabelos sois e um corpo sempre virgem
e o que ele brilha, próximo do fim,
                                                         junto à inocência,
por ambição e medo do contacto!

Ó minhas irmãs, demora-se o destino
a ponto de ser vossa a tempestade
que a tempestade enfrenta, esmaga, calca,
nas nuvens lúcidas e livres,
nenhum vento,
                           nenhum vento aqui.

Ó minhas irmãs, dentro de mim,
numa insistência de lágrimas traídas,
elevam-se montanhas prenhes de raízes,
                                                                     ruge
essa cascata de que emana Deus,
emana a Sua Imagem rápida e vulgar
de eu não viver convosco,
mas para vós no espaço tão completo!

E bem sabeis
                        que a violência foi e não voltou ainda,
que não caminha nela o canto que a antecede,
que não existe um laço entre ninguém,
que nada é invisível,
                                  nada injusto,
nada um êxtase de pálpebras marinhas,
nada o vosso corpo e a multidão dos povos,
de cérebro convulso, em luta pelas margens
do rio que vós sois porque ela existe!
existe apenas, basta,
ó minhas irmãs, não sei chorar.

Não sei, minhas irmãs, e perdi tudo:
a confiança, a fé, a independência,
o amor único do arado em espírito.

Ó minhas irmãs, chorai por mim. Se foi,
no centro ardente dos bailados que dançastes
sobre a minha esperança, o meu lugar prateado
pela angústia humana de extorquir imagens,
se foi a minha esperança a erva das montanhas,
que, orvalhada de sangue, vos ungiu os pés,
se os vossos pés ungidos transportam pólen,
se o pólen era estéril longe dos meus olhos,
se os meus olhos não souberam ver
que uma verdade é só de estar contida
e prisioneira, e não sentido ou acto,
ó minhas irmãs,
                             as lágrimas traídas
são vossas, são do pássaro
que enegreceu na rocha
e da sua pupila
fixa e convexa
– e não minhas, que as não sei chorar…

Ó minhas irmãs, se montanhas vagueiam,
vagueia o Sol com a esfera dos planetas
e o firmamento vagueia na audácia dos homens…

E que homens há levando a verdadeira noite
nas pontas dos dedos com que vos tocaram
amorosamente,
                             recolhidamente,
para que a verdade suba vitoriosa,
neles e eles nela, ao miserável encontro
dos sublimes astros?
                                    Ó minhas irmãs,
é vossa a tempestade, eu perdi tudo,
eu deitei ao nevoeiro as minhas vestes
e o vosso orgulho, a vossa humanidade,
e o vosso heroísmo…

Estou só, minhas irmãs. Foram-se os séculos.
Não tendes vós os séculos da vida?!

Eis que vos peço que choreis por mim.

1/7/1942

Como se morre?

Ante a perplexidade do “memento mori”, alguns poemas senianos em torno da Morte. Em áudio Jorge de Sena lê o poema “Requiem de Mozart”.

Do motivo pictórico ao musical, do epicédio pelo amigo ao pressentimento do próprio fim, o tema da morte avulta em grandes poemas de Jorge de Sena, alguns dos quais aqui relembrados.

 

 

 

 

«A Morta» de Rembrandt

Morta. Apenas morta. Nada mais que morta.
Não parece dormir. Nem se dirá
que sonha ou que repousa ou que da vida
levou consigo o mais que não viveu.
Parece que está morta e nada mais parece.
E tudo se compõe, dispõe e harmoniza
para que a morte seja apenas sua.
É muito velha. Velha, ou consumida
na serena angústia de aguardar que a vida
vá golpe a golpe desbastando os laços
de carne e de memória, de prazer, piedade,
ou do simples ouvir que os outros riem,
e choram e ciciam ou silentes
se escutam tal como ela se escutava
na calma distracção de respirar
o tempo que circula pelas veias.
Em tudo a vida se extinguiu. Primeiro,
a que era sua e como que de todos
quantos amara ou conhecera um pouco
ou, vagamente vultos recordados, eram
sombras dos dias pensativos em
que os olhos pousam no que passa ou pára.
Depois a vida nela — o só viver,
o só estar viva sem saber seu nome —
e que não era sua mas lhe fora entregue
de posse em posse, no correr dos séculos,
desde a primeva noite pantanosa
àquele quarto em que vagiu nascendo.
Formas da vida não subsiste alguma
na luz difusa que a seu rosto aclara
tão marfinado no sudário branco
a destacar-se da coberta escura.
Morreu por certo há pouco, e já na boca
de lábios finos, comissuras longas,
como nas pálpebras pesadas ou
no afilamento do nariz adunco,
nada palpita, nem a morte, nada.
A luz deixa na sombra o crucifixo
que pende da parede ao pé do leito,
porém no rosto pousa aguda e leve
iluminando a teia de milhares de rugas
tecida pela aranha que se agita
entre nós e os outros, entre nós e as coisas,
entre nós e nós próprios, mesmo que
não fosse a vida esse crispar-se a pele
a um beijo que desliza, um vento que perpassa,
uma ansiedade alheada, um medo súbito,
uma demora de confiança triste.
Está morta. Apenas morta. Mas, no entanto,
na solidão a que nem cores resistem
não morre o mundo, não figura a Morte,
nada figura senão ela que
deixou de ser a solidão da vida,
para ficar ali, antes de apodrecer,
no breve instante em que a agonia acaba,
a solidão que vemos exterior enfim
no rosto amarelecido, no sudário branco,
no escuro cobertor, na luz difusa,
no jeito da cabeça repousada,
e nas pesadas pálpebras espessas,
fechadas sobre os olhos para sempre.

Lisboa, 12/5/1959
«Requiem» de Mozart

I

Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa escorre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

16/4/1962
lI

Ó música da morte, ó vozes tantas
e tão agudas, que o estertor se cala.
Ó música da carne amargurada
de tanto ter perdido que ora esquece.
Ó música de morte, ah quantas, quantas
mortes gritaram no que em ti não fala.
Ó música da mente espedaçada
de tanto ter sonhado o que entretece,
sem cor e sem sentido, no fervor
de sublimar-se nesse além que és tu.
Ó vida feita uma detida morte.
Ó morte feita um inocente amor.
Amor que as asas sobre o corpo nu
fecha tranquilas no possuir da sorte.

16/4/1962

III

Além do falso ou verdadeiro, além
do abstracto e do concreto, além da forma
e do conceito, além do que transforma
contrários pares noutros par’s também,
além do que recorre ou nunca vem
ao que se pensa ou sente, além da norma
em que o não-ser se humilha e se conforma,
além do possuir-se, e para além
dessa certeza que outro ritmo dá
àquele de que as palavras têm sentido:
lá onde ouvir e não-ouvir se igualam
na mesma imagem virtual do na-
da — é que tu vais, ó música, partido
o nó dos tempos que por ti se calam.

15/10/1967

IV

Tudo se cala em ti como na vida.
Tudo palpita e flui como no leito
em que se morre ou se ama, já desfeito
o abraço do momento em que, sustida
a sensação da posse conseguida,
a carne pára a ejacular-se atenta.
Tudo é prazer em ti. Quanto alimenta
esta glória de existir, trazida
a cada instante só do instante ser-se,
reflui em ti, puro, atlante,
certeza e segurança de conter-se
na criação virtual o renascer-se
agora e sempre pelo tempo adiante,
mesmo esquecido. Em ti, o conhecer-se
deste possível é a paz do amante.

15/10/1962 revisto em 15/10/1967 e acrescentados os dois últimos poemas
À memória de Adolfo Casais Monteiro

Como se morre, Adolfo? Tu morreste
(toca o telefone às duas da manhã em Lourenço Marques era a Joaninha em lágrimas a dizer que o padrinho dela tinha morrido eu não queria crer e mesmo perguntei — tendo tantos compadres — quem era o padrinho dela cuja morte chegava em notícia de Lisboa a Mécia e eu ficámos silenciosos com os olhos marejados das lágrimas que só vieram no dia seguinte esperávamos mais dia menos dia tão doente estavas aquela notícia agora mais incrível por chegada inopinadamente do outro lado do mundo que não era sequer aquele em que morrias)
— e diz-me o Pimentel numa carta tão triste:
enquanto dormias a tua solidão
e estavas morto e sereno pela manhã alta.
Morreste na mesma solidão altiva e tímida
com que foras discreção e delicado ser
escondido em máscaras de sorriso amargo
e de palavras ásperas e rudes. Igual aos versos
que escreveste como raros no molhar de alma
em sangue e sentimento já essência
e só profunda vida oculta em música
puríssima de câmara em cordas tensas
a que o ranger dos arcos se somava ambíguo.
Ninguém mais nobremente ergueu em si
o monumento da morte esse viver contínuo
num só de se indicarem por oblíquos
sinais os gestos limpos da amizade
e os limpos mais ainda de um amor constante
que o teu corpo buscou em tantas mulheres
amando só algumas fielmente na tortura
de não se amar tão bem quanto o desejo.
Adolescente, amadureceste para uma velhice
a que te deste como monge laico
incréu de tudo menos desse amor perdido
que à tua volta, em livros como em música,
era um sussurro de memórias silentes
a rodear-te de vácuo a tua sala vazia.
Como se morre, Adolfo? Trinta e três
anos — uma idade perfeita — conheci-te,
soube de ti o dito e o não-dito, o que escreveste
e o que não escreveste. Por instantes,
os teus olhos cruzavam-se num viés de vesgo
que era um saber terrível de estar só no mundo
e não haver que valha a pena que se diga
sem destruir-se quanto em nossa vida é o pouco
indestrutível se guardado à força
num silêncio de exílio e de distância.
E todavia como estiveste no mundo, como
duramente bebeste toda a dor do mundo,
ou a fumaste em nuvens de cigarros que matavam
os teus pulmões possessos de asfixia.
Foste o estrangeiro e o exilado perfeito
e por todos nós que recusámos de um salto
por outras terras esta terra há séculos de outrem,
morreste em dignidade, sem queixas nem saudades
a queixa e a saudade mais pesadas
pesadas para o fundo, sem palavras
que as não há entendíveis aonde não se entende
a perfeição tranquila em desespero agudo
a que te deste num morrer sem voz.
Morreste só, como viveste. Sem conversa,
como escolheste viver. Longe de tudo,
como a vida te deu que tu viveras.
E tão presente, mesmo se esquecido,
és como o fogo ardente a requelmar quem pensa
que em Portugal de Portugal se é.
Como se morre? Nesse instante extremo,
sentiste um respirar que te alargava
e te expandia o peito mais os olhos
até os confins deste universo inteiro?
Abriste os olhos? Só em sonhos viste?
Morreste — como se morre? — E no teu rosto
qual nos teus versos poderá ser lido
até que nem pensaste nem disseste.
Mas isso tu sabias, e creio que foi pouco
oh muito pouco o que a morte foi capaz de te ensinar.

 

Porto, 26/8/1972

 

Eu e a morte

A 4 de junho de cada ano, quando se cumprem anos sobre o falecimento de Jorge de Sena, recordamos alguns de seus poemas à volta da morte e do post-mortem, nos quais, sem disfarce, emerge a 1a. pessoa do singular, predominantemente em tom sombrio. As datas denotam o quanto o tema o ocupou, confirmando o forte veio elegíaco em sua poesia, já bem sublinhado por Rui Carlos Morais Lage na tese doutoral “A elegia portuguesa nos séculos XX e XXI — perda, luto e desengano”. (Univ. do Porto, 2010; disponível em http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/50420/2/tesedoutruilage000112866.pdf). “O desejado túmulo”, com seus laivos farsescos, merece ser cotejado com o “estouro’ do último poema escrito por Sena, duas semanas antes da “partida”: “Aviso a cardíacos e outras pessoas atacadas de semelhantes males“.

 

 

EPITÁFIO

Eu sou daquela espécie
de quem se diz depois da morte:
— a sua melhor obra foi morrer.

E contudo, e eles bem sabem,
todo o mal que tenho feito — tanto! —
só o fiz a mim;
e o pouco menos mau, que consegui,
anda p’raí todo emprestado aos outros.

Eles bem sabem…
o que é, é que uma pessoa assim irrita!…

Não sei sorrir em coro com os mais…
não sei falar…
nem estar calado…
e, quando seria preciso nem pensar,
penso que não sei.

Por isso logo que eu me for embora
(isto é, logo que eu ficar de vez)
haverá quem diga,
ai ocasionalmente na conversa,
que morrer
foi a mais perfeita acção da minha vida.

E tem razão —
Não sabe viver
quem não nasceu para isso.

Nascer, não é?, são coisas que acontecem.

3/9/38 e 15/10/39

 

CESSAÇÃO

Quando a morte vier, ou procurada
eu a tiver comigo apenas por um instante,
qual já nem for amante
a esperança conseguida à liberdade,
então do nada que a existência invade
alguma dor virá de não ter dito
que a vida eu não sofria como um rito
do Sol de outras manhãs. Expatriada?

Não. Que só a morte nunca existirá.
Sonharei — sonhará,
na treva, a cantiga:
Que luz não amiga
a treva será?

Nem longe, nem perto;
nem riso decerto.
Apenas um rumor de madrugada.

13/4/44

 

REQUIEM

Serenamente será que eu morrerei
talvez já p’ra morrer sofra conforme
o fim da vida quando o fim vier.

Toda esta calma de saber a lei
do mundo e a angústia de o saber enorme,
alheio a mim sendo eu tão dele, quer
doendo longe, quer magoando perto,
sussurra ao vento como areal deserto
— e morrerei da morte que foi vindo
serenamente no pavor que a trouxe
todos os dias (altas horas, noites
de insónia, estradas solitárias,
apitos de comboio, cães ladrando,
uma criança dentro de casa chorando,
vidros partidos remendados a jornal,
candeeiros numa cave) – todo o mal,
ah não nem mal nem bem: só morrerei
serenamente, se estiver já morto.
E não verei o dia de amanhã!?
E não quererei vê-lo!?

(Sobre o cabelo
estará pousada a tua mão.

Não! Não! Não posso: meu amor, tu, não.)

9/4/47

 

EPITÁFIO

De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.

Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.

Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.

8/1/1953

 

ELEGIA POR CERTO

Neste desespero ansioso de que o tempo dure
um pouco mais, não corra tanto, se não escape
não por entre os dedos, mas através da própria forma das coisas
e do som das vozes, e do pensamento mesmo, se diria
que me devera dar como um doente à morte
e despedir-me calmamente do que se deslaça
entre mim e as coisas, entre mim e os outros, entre
a consciência de existir e a de estar vivo.
Devera, sim. E o sono que me envolve surdo e escuro,
sem memórias nem do que não tive, é uma tão doce tentação de paz!
Mas na verdade nunca foi assim
que me sonhei para morto ou vivo.
Nunca assim me vi como real sem sonhos.
Este sossego que se me oferece, para além
do desespero, deste anseio de tentar ainda
não aceitar que a vida não nos dá que dê,
não me pertence, não se me destina, não existe em mim
para que eu seja e viva, mas
apenas para destruir-me. Sinto
que a quem não deram nunca nada
não pode este tão nada
ser dado assim. Alguém que não existe
pretende destruir-me. Alguém insiste
em que eu me esqueça de contemplar, de ver, de desejar,
e de gritar que a vida é uma injustiça, uma
conversa de surdos, um amor trocado,
um pânico de idiotas ante a beleza do mundo.
Não. Não dormirei ao som tranquilo do fugir do tempo,
terão de inventar outra coisa para adormecer-me,
para levar-me daqui. Este diabo eu conheço.
O que promete a paz, a eternidade, a luz,
a salvação segura e garantida, a troco de aceitar-se
por grande riqueza uma miséria inútil, por beleza
aquilo que não tem nome ou voz, e por verdade
a doce estupidez do tanto faz. Não.
Para levarem-me daqui, quieto e calado,
terão de inventar outra coisa. Quem terá?
Importa muito pouco o perguntar de quem, porque
todos somos responsáveis pelo silêncio de alguém,
não porque a morte de alguém me diminua,
ou a minha diminua o mundo. O mundo é grande,
incomensurável com a unidade parca de qualquer de nós.
Todos somos responsáveis porque nós matamos
o espírito da vida, assassinamos
em nós e noutros esse amor que ri
da ausência de amor com que fingimos
amar-nos uns aos outros como a nós mesmos
ou a nós mesmo como os outros se amariam bem
se verdadeiramente amassem. Somos responsáveis,
porque matamos noutros o que os outros
matam em nós mesmos. Não repetirei
o perguntar por quem há-de inventar o quê.
Eu sei que esta resposta está em não podermos
aceitar que os outros não aceitem. Mas não aceito
nada — nem a paz dos outros ou a minha.
Quieto e calado, nunca. Nem quando me dessem tudo, e
se me abrissem todas as pernas do mundo,
e tudo fosse possível. Não seria com
o saciar-me de tudo, o enjoar de tudo,
que eu dormiria à sombra de uma luz que passa
lá onde eu sei que não há luz que exista.
E no entanto o tempo escapa a cada instante,
e quanto mais é meu mais se me escapa,
e mais se escapa quanto mais é o meu,
Este sono que fica, este furor de ter sono,
este «entanto» que teima inexorável não
como uma alternativa
mas como a morte viva
do pouco que me resta,
que direi que é? que farei dele?
como hei-de escapar-me a este embalo?
a esta fuga de tudo? este crispar da pele
como quem estremece de presença estranha?
Não perguntarei. Estas perguntas
são como cair em tentação de morte.
Direi do tempo que me foge, e farei
da crispação da pele e do embalo que me torna tonto,
um medo horrível que me aguente vivo,
e desperto, e atento. Atento a quê?
Àquilo mesmo que me mata. Não
há-de fazê-lo impunemente. A minha morte
sentirá calafrios de sentir-se vista,
espiada, seguida, observada, exposta
à irrisão das palavras que a denunciam.
Tremerá de medo, e de vergonha, a cabra.
Com quem julgava ela que devia haver-se?
E o tempo foge desfiando tudo,
rasgando as frágeis teias que aprendi
à minha custa e à das coisas para
criar real o mundo e os olhos que
no mundo reconhecem o real.
Pois fugirá, que fuja. Eu guardarei,
no vazio imenso que se mostra já,
uma pedra negra, dura, imarcessível,
que nada nem ninguém destruirá.
E se eu não for a pedra que terei,
eu ficarei na pedra que não é uma pedra
e tem de pedra tudo a mais do que nenhuma pedra
pode ter: este existir apenas virtual
que aqui lhe dou por declará-la tal.

Madison, 28/5/1966

 

O DESEJADO TÚMULO

Numa azinhaga escura de arrabalde
haveis de sepultar-me. Que o meu túmulo
seja o lugar escuso para encontros.
Que o jovem desesperado e solitário
vagueando venha masturbar-se ali;
que o namorado sem um quarto aonde
leve ao castigo a namorada, a traga
e a force e a viole sobre a minha tumba;
que o invertido venha ajoelhar-se
à beira dela ante quem esperma vende,
ou deite abaixo as calças e se entregue,
as mãos buscando apoio nessa pedra.
Que bandos de malandros ali tragam
a rapariga que raptaram, e
a deixem lã estendida a escorrer sangue.
Que as prostitutas reles, piolhosas,
na laje pinguem corrimentos quando
a pobres velhos se venderam lá.
E que as crianças que brincando venham
jogar à minha volta, sem pisar nos cantos
a trampa mais cheirosa do que a morte
e que é memória humana de azinhagas,
ali descubram, mal adivinhando,
as nódoas secas do que foi violência,
ou foi desejo ou o que se chama vício
e as lavem rindo com seu mijo quente
a rechinar na pedra que me cobre
(e regressem um dia a repeti-las).

25/12/1970

 

AVISO A CARDÍACOS E OUTRAS PESSOAS ATACADAS DE SEMELHANTES MALES

Se acaso um dia o raio que te parta
(enfim obedecendo às fervorosas preces
dos teus muitos amigos e inimigos),
baixa de repente gigantesco
e fulminante sobre ti, e mesmo se repete:
e não te quebra todo, e como desasado,
ou quem morto regressa à sobrevida,
tu sobrevives, resistes e persistes,
em estar vivo (ainda que à espera sempre
de novo raio que te parta em cacos) —
— tem cuidado, cuidado! Arma-te bem
não tanto contra o raio mas principalmente
contra tudo e todos. Sobretudo estes.
Ou sejam todos quantos pavoneiam
o consolo inocente de pensar que a morte
não os tocou nem tocará jamais.

Porque não há ninguém por mais que te ame,
ou por mais que seja teu amigo (e,
com o tempo, os amigos, mais que as criaturas
fiel ou infielmente bem-amadas, gastam-se),
que te perdoe que tu não tenhas estourado,
no momento em que se soube que estouravas.
É uma «partida» (ou um «regresso» sem piada nenhuma)
absolutamente e aterradoramente inaceitável,
humanamente e vitalmente imperdoável.
Pelo que, sobrevivente, pagarás, como se diz,
com língua de palmo. Se és um pobretana,
solitário, abandonado, entregue aos teus fantasmas
que são um palpitar, um estertor, uma opressão no peito
uma tontura, um como que silêncio negro,
podes estar certo e seguro que nem amigo nem amante
está livre de ocupações prementes para te acudir.
Uma que outra vez apenas, para alívio
dos borborigmas morais dos seus estômagos,
irão visitar-te carinhosos. Outros
tentarão acudir-te, ajudar-te, como podem,
e quando em desespero tu reclamas.

Não contes com mais nada senão morte.
Se tens família, amando-te sem dúvida,
inteiramente delicada a ti que seja ou é,
não penses que não és constante imagem
sem desculpa alguma de andar pela casa,
um pouco vacilante, às vezes suplicando
uma pílula, alguma companhia, ou mesmo atrevendo-te
a fazer referências tidas de mau gosto
à espada que para onde vás segue suspensa
sobre a tua cabeça. Porque ninguém, ninguém,
até contraditoriamente porque te amam,
suportam que não sejas quem tu eras,
mas só morte adiada, o que é diverso
do horror de um cancro que não se sabe
quando matará mas é criatura de respeito,
crescendo em ti como se estiveras grávido.
Assim, meu caro, com coração desfeito
sem metáfora alguma, és apenas uma
indecorosa e miserável chatice.

Portanto, irmãos humanos, se estourais,
estourai por uma vez aliviando
quem vos quer ou não quer por uma vez.

19/3/1978

 

As circunstâncias à volta do último poema escrito por Sena foram registradas por Mécia, em breves e sentidas palavras:
Ia a entrar no escritório e vi que o Jorge escrevia um poema. Já não entrei e fiquei à espera que me chamasse para mo ler, como sempre fazia. Não chamou, e daí a pedaço voltei. O poema estava em cima da secretária. Li: “Aviso a cardíacos…” Comentei que era terrível, e “tu sabes que profundamente injusto para mim e para todos” – Olhou-me com uma tristeza infinita, e com voz magoada, tão magoada!, respondeu-me: “Eu sei… eu sei, mas é o que eu sinto”.
Entardecia. Estávamos de pé, no corredor, em frente à porta para o pátio. Sentíamo-nos ambos angustiados – e nem sequer sabíamos de que tínhamos de ter medo. A terrível notícia só veio onze dias depois.

Perseguição

1942 foi uma data de primícias editoriais para Jorge de Sena. Dentre elas, seu primeiro livro de poemas, Perseguição, editado sob a égide dos Cadernos de Poesia, pago por Ruy Cinatti e Tomaz Kim, e impresso na tipografia Atlântida, de Coimbra, graças ao papel ofertado por João Alves Gomes dos Santos. Iniciava-se assim a sua longa “servidão” à poesia. Dos 51 poemas que o compõem, selecionamos os seguintes:
 

 

DESERTO

Recusarei aos velhos a braseira —

foi conquistada muito para nada;

venham, dos bandos, despejá-la inteira…

comentem-na, por mim, bem comentada.

Venham mentir de sonho à minha beira

e que eu não tenha pressa agoniada.

Juntemo-nos à volta da cadeira

que, nessa beira, nos ficou pregada.

Quanto calor do assento ali vazio

encontrará, na palha da vaidade,

as brasas forasteiras de outro frio,

aquele mau cheiro terno da saudade!

Venham do mundo as dunas que estão sós;

reuna-se o deserto em todos nós.

2/1/41

 

DISTÂNCIA

Aqueles para quem não resta sempre uma simplicidade a trair

vêm pousar tão leves na saudade alheia

que nem os seus olhos se abrem

na imagem recordada

e a que ponto as ondas

vão convergindo para a independência

afluem brancas pálidas e de novo brancas…

até ao horizonte que esgota a solicitude,

afluem num debruçar translúcido das velas puras

por aqui, por ali.

Aqui e ali – não:

tu crês e aniquilas.

29/9/41

 

NOCTURNOS

ao Alberto de Serpa

I

Há um inverno cansado nas copas extáticas

e as estrelas acendem-se de um vento alto

que azula o céu

de um azul que a noite vai roendo consigo.

As grades, ao prolongarem-se por aí fora,

trazem-me um sinal contínuo de muro falso

e enferrujado.

As grades não apontariam nada,

se cada uma delas se prolongasse também

no voo completo de ambas as curvas da seta.

II

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,

cheio de confiança,

os degraus de uma escada própria interminável

– os degraus serão sempre os mesmos,

nunca haverá outros degraus no fundo.

III

Contaram-me, quando era pequeno,

a história de várias estrelas,

não a história dos nomes que têm e não conhecem por nós,

sim uma história em que eram estrelas,

verdadeiras estrelas nem pregadas no céu.

Muitas vezes, ouvir contar foi só:

estar de cabeça pousada no peitoril da janela

a vê-las tremeluzir…

e tornarem-se mais salientes com o escurecer.

Muitas vezes, foi só

aceitar o frio e fechar a janela

– e, em pequeno, não era eu quem a fechava.

IV

Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.

Nas noites claras de mar imenso,

enquanto a proa ia ensinando às águas

o murmúrio para depois, ao longo do navio,

os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.

Para baixo do centro havia tês estrelas juntas.

Quando calhava passarem por entre duas,

repetiam todo o princípio

e vinham passar por entre as outras duas.

V

Já tudo escureceu;

contudo ainda resta algum dia

suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia

e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,

compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.

VI

Há um inverno nas copas extáticas

e as estrelas acenderam-se de um vento alto

que azulou o céu

de um azul que a noite foi roendo consigo.

VII

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

20/2/41

 

CONTRIÇÃO

Que importa que todos me esqueçam

mesmo sem querer?

Que importa que a humanidade não exista

e apenas haja homens

embora vivendo, nascendo, morrendo, semelhantemente?

Se os homens são tantos que, procurando bem,

sempre se encontram mais alguns;

se são tão frágeis que mal podem cair;

e se eu sou tão desgraçado, tão ímpar, tão mental,

que tenho de voluntariamente

desejar amá-los.

23/3/41

 

DESPERTADOR

Um dia acordarás do sonho em que te rodeaste

com almas pressupostas pela altitude do sonho.

E sentirás um grande frio è tua volta.

Quase nunca os olhos delas pousarão em ti;

circulam, circulam,

mas, quando pousarem,

mais sentirás do que frio uma grande vergonha,

uma tristeza enorme de ter sonhado ali.

Então nascer-te-á a chaga do espectáculo gratuito,

aumentará sempre que te aproximares dos outros,

embora, mesmo de longe, lhes sirva

de alegria para as certezas tranquilas.

16/8/41

 

SEM DATA

Esta voz com que gritei às vezes

não me consola de só ter gritado às vezes.

Está dentro de mim como um remorso, ouço-a

chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta

sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.

Quando acabava uma soma de silêncios,

gritava o resultado, não gritava um grito.

Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar

circula entre as folhas paradas,

conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

27/1/42

As flores da poesia seniana

Maio, mês das flores, mês das rosas. Não faltam flores do bem e do mal na poesia de Sena e disso já aqui demos exemplos, como Variações sobre cantares de D. Dinis (Quarenta Anos de Servidão), Os Paraísos Artificiais (Pedra Filosofal, Poesia I), Equinócio da Primavera (de Pedra Filosofal, Poesia I), Camões dirige-se aos seus contemporâneos (Metamorfoses, Poesia II), ou mesmo o longo rimance das rosas de leite e sangue na "novela poética" O Físico Prodigioso. No entanto, como o tempo é propício e como nas corbeilles sempre há lugar para mais completas nuances, ampliamos o florilégio…
 

 

 

Génesis II

Nenhum altar te resta que o não sejas
no breve tempo entre morrer e estar.
E quando não estiveres, como desejas,
não menos pedra o ventre há-de encerrar

a perspicácia anónima. Não vejas!
Não queiras adorar nem comparar,
porque não estão suspensos nas igrejas
pálidos do tempo ou sombras do lugar.

Como esta aurora, purgação doirada,
ara serás da noite já entrada,
que, enquanto altiva, a noite é mais funesta.

Tudo não és. Basta que as flores nocturnas
se humilhem, uma a uma, sobre as urnas.
Não entres mais agora: esse te resta.

18/2/43

 

 

De relance, o Alentejo

Um céu abafadiço, um ar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.
A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,
roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem de esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,
menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante
conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,
as casas surgem brancas e compactas.
Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.
Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.
Um rio se adivinha. Mas, de ao pé da ponte,
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.

30/5/1950

 

 

Solícitas as flores

Tão junto a mim, roçando-se por mim
que numerosos corpos me palpitam!
Na sombra crescem tensos porque me sabem esperando
o momento em que o desejo de se libertarem
vence a muralha que defende a dádiva.
Imóvel, trémulo por dentro, aguardo a denúncia,
uma leve contracção que enfim me reclama.

E logo milhares de silenciosos gritos
em mim mesmo me expulsam para tão longe
que novamente numerosos outros me palpitam
e só bebendo-lhes o sangue me consolaria da ebriedade instantânea
em que possuo tocando.

Apenas um leve toque –
– as flores, solícitas, desfolham-se.

4/9/50

 

 

Bucólica e não

Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos – que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musguentos
em troncos, ou no chão buracos de formigas,
é de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
E orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
e rios e regatos murmurantes – que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
jorrando intermitentes num agudo jacto?
Que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?

Londres, 13/6/1971

Camões, personagem poética

Em áudio: “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”, lido por Jorge de Sena

Manuscrito de "Camões dirige-se aos seus contemporâneos"
Manuscrito de “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”

Além de dedicar a Camões largo espaço de seu ensaísmo, Sena constantemente presentifica o poeta em sua obra de criação com inúmeras menções, citações, glosas… Porém, nada supera a força dramática que emana do Camões-protagonista, presente tanto no conto “Super Flumina Babylonis”, como nos dois poemas abaixo transcritos.

 

* Camões dirige-se aos seus contemporâneos (Metamorfoses, Poesia II)

* Camões na Ilha de Moçambique (Camões dirige-se aos seus contemporâneos, Poesia III)

 

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CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as idéias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Assis, 11/6/1961

 

CAMÕES NA ILHA DE MOÇAMBIQUE

A Amilcar Fernandes e Rui Knopfli,
moçambicanos de alma e coração,
que me passearam a Ilha de Moçambique

É pobre e já foi rica. Era mais pobre
quando Camões aqui passou primeiro,
cheia de livros a cabeça e lendas
e muita estúrdia de Lisboa reles.
Quando passados nele os Orientes
e o amargor dos vis sempre tão ricos,
aqui ficou, isto crescera, mas
a fortaleza ainda estava em obras,
as casas eram poucas, e o terreno
passeio descampado ao vento e ao sol
desta alavanca mínima, em coral,
de onde saltavam para Goa as naus,
que dela vinham cheias de pecados
e de bagagens ricas e pimentas podres.
Como nau nos baixios que aos Sepúlvedas
deram no amor corte primeiro à vida,
aqui ficou sem nada senão versos.
Mas antes dele, como depois dele,
aqui passaram todos: almirantes,
ladrões e vice-reis, poetas e cobardes,
os santos e os heróis, mais a canalha
sem nome e sem memória, que serviu
de lastro, marujagem, e de carne
para os canhões e os peixes, como os outros.
Tudo passou aqui – Almeidas e Gonzagas,
Bocages e Albuquerques, desde o Gama.
Naqueles tempos se fazia o espanto
desta pequena aldeia citadina
de brancos, negros, indianos, e cristãos,
e muculmanos, brâmanes, e ateus.
Europa e África, o Brasil e as Índias,
cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco
como do forte a cal no pátio, e tão cruzado
como a elegância das nervuras simples
da capela pequena do baluarte.
Jazem aqui em lápides perdidas
os nomes todos dessa gente que,
como hoje os negros, se chegava às rochas,
baixava as calças e largava ao mar
a mal-cheirosa escória de estar vivo.
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. Pendendo para as pedras
teu membro se lembrava e estremecia
de recordar na brisa as croias mais as damas,
e versos de sonetos perpassavam
junto de um cheiro a merda lá na sombra,
de onde n’alma fervia quanto nem pensavas.
Depois, aliviado, tu subias
aos baluartes e fitando as águas
sonhavas de outra Ilha, a Ilha única,
enquanto a mão se te pousava lusa,
em franca distracção, no que te era a pátria
por ser a ponta da semente dela.
E de zarolho não podias ver
distâncias separadas: tudo te era uma
e nada mais: o Paraíso e as Ilhas,
heróis, mulheres, o amor que mais se inventa
e uma grandeza que não há em nada.
Pousavas n’água o olhar e te sorrias
– mas não amargamente, só de alivio,
como se te limparas de miséria,
e de desgraça e de injustiça e dor
de ver que eram tão poucos os melhores,
enquanto a caca ia-se na brisa esbelta,
igual ao que se esquece e se lançou de nós.

Ilha de Moçambique, 20 de julho de 1972

Há 50 anos: poemas de 1962

O ano de 1962 foi particularmente trabalhoso para Jorge de Sena. Nos primeiros meses do ano escreve a tese Uma Canção de Camões, com vistas ao ingresso, abortado, na Universidade Federal de Minas Gerais. Em termos de docência acadêmica, teve de dividir-se entre São José do Rio Preto e Araraquara — aqui incumbindo-se de três disciplinas: Literatura Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Inglesa. Assim, imerso em lides universitárias, a sua produção literária stricto sensu, se comparada a outros anos, não foi das maiores. No entanto, dentre os poemas que ora completam 50 anos, há marcos importantes, alguns já antes transcritos neste site, como é o caso de “Uma sepultura em Londres”, “Requiem de Mozart” e “Pot-pourri final”. E o magnífico “A nave de Alcobaça”, que antes só editáramos em versão inglesa, agora reaparece em sua forma original.

Mas, dos 14 datados desse ano (a metade formando uma sequência cronológica no livro Peregrinatio ad loca infecta, 1969), vale destacar o quanto são representativos das mais recorrentes temáticas senianas, onde sobressaem as referências políticas e as grandes inquietações existenciais.

 

 

 

GLOSA DE MENANDRO

«Morrem jovens os que os deuses amam», dizia o poeta.
E eu pergunto: morrem velhos os que eles detestam?
O sábio antigo, cheio de rugas e barbas,
com os olhos vazios, de estátua, resumando
a sageza acumulada nas vigílias austeras
(ou não) – os dueses detestavam-no?
Entre a juventude e o amor dos deuses,
não teria ele escolhido a dor de envelhecer desamado
no vácuo ardor das paisagens marinhas
em que os deuses são a ausência de uma humanidade?
Ou nâo teriam deuses escolhidos que ele
escolhesse a dor de nâo armá-los, quando,
na plenitude marinha dos ventos e das águas,
os deuses sâo tâo-só o oceano sob o céu azul,
o céu zul tão-só no oceano reflectido,
o olhar vazio como o vento entre ambos?

1962

 

 

PEQUENO TRATADO DE DERMATOLOGIA

(intermezzo cubano)

De cada vez que um povo exige liberdade
– oh não bem o povo, mas os grupos que o grupo no poder
não inclui na partilha da pele do povo propriamente dito –
os clamores são comoventes pela democracia.
No entanto, é claro, nada pode fazer-se
que não clamar de mão no peito
(a outra coçando nos lugares impróprios),
pois que, em verdade, os poderes dos grupos
é sempre o poder dos grupos.

Mas de cada vez que, farto de palavras,
um povo estoura com tais odres rotos,
e faz deles passadores que esguicham
muito menos sangue que o chupado em séculos,
os clamores são, a mais de comoventes, trémulos
de indignação, não já co’a mão no peito
(a outra coçando sempre nos lugares impróprios),
mas exigindo acções colectivas em defesa da ordem,
da justiça, da liberdade. E sanções (e bombas).

Pois que em verdade o poder dos grupos
é sempre o poder dos grupos, e lá dizia o poeta
«qualquer morte de homem me diminui», e o número
de mercenários diminui assim terrivelmente,
neste mundo em que são precisos tantos para manter a ordem,
a justiça, a liberdade, sobretudo aquelas
que são feitas da pele de qualquer povo. E enfim,
considerando que a circuncisão é altamente uma prática higiénica
e desde há séculos predilecta de Jeová,
talvez que o grupo no poder nos quisesse vender
nem que seja um prepúcio em que investir capital.

30/1/1962

 

«NEL MEZZO DEL CAMIN…»

I

Quarenta e dois… Provavelmente já
vivi mais de metade a minha vida.
Provavelmente até, em mim escondida,
não como inevitável, mas guarda-

do fim com que termina tudo, está
a morte a me roubar da consentida
afirmação de que se finge a vida.
Provavelmente, não verei o que há

Além do tempo que me é dado. Não
assistirei às pompas da vitória.
Mas, se eu morrer de raiva, como cão

a que é negada a própria liberdade,
provavelmente não terei memória
de quanto a vida só me foi saudade…

II

…de tudo, sim. Não me contento nunca.
Não me contentarei. Mesmo que eu visse
mordendo a lama a secular canalha,
dona de tudo; e mesmo que ainda visse

liberta e justa a sórdida espelunca
de bancos e palácios, catedrais,
em que a arrogância dela se esparralha
– não me contentaria. Porque há mais

que mesmo dessangrados não vomitam:
os séculos roubados e mentido,
os corpos mortos de prostituídos,
o esgar humano com que humanos fitam.
E nem morte nem vida podem mais
do que apagarem sem deixar sinais.

30/1/62

 

 

POST-METAMORFOSE: VARIAÇÃO SEGUNDA

Cariátide retensa que o teu corpo é
na expectativa ansiosa do prazer lembrado,
sustentas sobre os ombros desmedidos,
e nas abertas mãos, o voo aflante
que te rodeia a pel’ salgada e fina
sob que, atenta, a carne rósea e espessa
palpita em sangue concentrado e duro.
Nos pés pousada e sobre os ombros tudo
o que invisível tece o trémulo dos dedos,
sustenta ancas, pernas, seios, pêlos,
e olhar perdido, e braços e cabelos.

Ondulam-te os desejos, cariátide!
Assim de pé, nas pernas afastadas,
na curva alada que, do queixo ao ventre,
alonga o mundo que em teus dedos vai,
como redondas nádegas tranquilas
de céu azul, pousar pelo horizonte
de adolescentes ancas, tu sustentas
o giro dos planetas; e, nos eixos
do sexo e do torso, a geometria
inscreve o gesto com que as ancas rodam
sobre si mesmas, pendulares, contidas
entre colunas que coluna tornam
a humedecida estátua que tu és.

Olhar vazio, ó templo demolido,
ó tecto aberto, ó treva esquartejada,
ó forma variável e perfeita
do que há e que não há! ó cariátide!
Pilar do mundo! Como é suave o braço
descendo dos teus ombros! Como é frágil
a firme decisão que pousa em ti,
dos ombros à cintura, da cintura às pernas,
e das pernas abertas ao espalmado pé
que assentas delicado sobre o tempo
escoando-se por saltos do desejo,
que te contraem, lambem, e deslizam
para o chão das cousas, para o pó que o vento
levanta em nuvens à tua volta. Quando…
Quando acabar, quando voltar teu sangue,
quando na noite ejaculares o brilho
dos astros coroando os teus cabelos,
quando, cariátide, os teus seios forem
a fonte de que mana vertical
esse universo que finito rói
a fímbria ausente ao nada ilimitado,
sustentas, ampla e diminuta já,
na curva dos teus lábios, na saliva
que entre eles petrifica as línguas tensas,
sustentas tudo nos teus dentes brancos:
o retornar do tempo, o repelir do gesto
que, aflante e alheio, te percorre toda,
senhora do destino, vida congelada,
que um toque liquefaz, salgada e fina,
em sangue espesso e negro, em mãos abertas,
em dedos afilados percutindo o espaço.

7/3/1962

 

 

A NOITE PROFUNDA

É de repente que a noite profunda chega,
como um enjoo, uma agonia, uma vertigem,
uma queda irreparável, no vácuo, no vazio,
na treva em que tudo perde significado,
em que não há gestos, palavras, sombras,
nem memórias de espectros e remorsos,
nada senão a queda repousada e lenta,
a descida tranquila, inenarravelmente amarga
de tranquilidade, indiferença, de abandono.

Repentinamente (a música tocava, a noite
física do mundo viera serena e perpassante
para ficar), a outra noite chegou
abrupta, inexorável, impiedosa,
feroz, cruel, tirânica, no entanto
extensamente e vastamente alheia,
tomando posse do que um corpo é,
posse por dentro, por fora, não deixando um vão,
um vão sequer que seja livre.

Descemos juntos por mim dentro
como se houvera algum recanto não prostituído ainda
à rígida amargura de existir sabendo
que nada há senão esta descida,
a uma hora qualquer, quando essa outra,
essa outra noite caí repentinamente,
fechando as asas negras sobre o que já negro
interiormente lhe pertence.

Tal como veio, partirá. De súbito,
o claro dia está. O sol de coisa alguma.
e é como se nada tivesse acontecido,
e o enjoo, a agonia, a vertigem, a queda,
não houvessem sido mais que imaginados.

Apenas, e é isso a alma, uma sensação
de nódoa, como de dedos, dentes, que apertassem,
mordessem algures no âmago da carne, lá onde
o âmago não existe senão como o que fica
de sentir-se a nódoa negra dessa uma outra noite.

18/05/1962

 

EXPULSÃO DA POESIA

Neste crepúsculo dos deuses que incendeia serenamente de púrpura
os massacres sem conta, e em que nada
é já significativo, porque tudo sempre significou alguma coisa
e não ressuscita ninguém (a ressurreição é
negócio individual, requerendo vítima, sepulcro emprestado,
alguns guardas, dedicadas mulheres, e vários fiéis
desinteressadamente interessados nela – enfim,
a ignomínia tratada com exemplar dignidade,
sem improvisos de última hora, nem excessivos
planejamentos ou ensaios, por modo a que
as imaginações possam com ela despersonalizar-se inteiramente
da sordidez sordidamente sórdida, etc.),
um fenómeno se verifica, observa, e que, ele, sim,
é altamente significativo.

Com efeito: ela cantou os tiranos, as revoluções proletárias,
as guerras todas de libertação nacional. Em séculos
e séculos, cantou ou chorou sempre nas
grandes horas. Ás vezes com atraso. Outras,
com adiantamento desagradável, sobretudo,
se era o caso de choro. Muitas outras vezes,
para dar-se importância, reles importância, inventou mesmo
as grandes horas. Quantas outras vezes,
se deixou matar de fome, de miséria e solidão,
para repetir com alegria infrene que
a imortalidade existe, que o céu existe,
e que a terra, só ela, a pobre terra, não existe.
Fizeram-se por esta letrada ciência os maiores sacrifícios
de vidas e papel impresso. Não comparáveis,
é certo, aos massacres habituais, em que
se molhava delicadamente a pena.

E, agora, neste delicioso crepúsculo que devia inspirá-la,
porque se cala, porque não canta nem chora?
Porque se limita a coçar o cu tranquilamente,
como prostituta honesta que se retirou da vida?
Com que então, a brincadeira acabou?
S. Excia já não serve? Já não é livre? Já não é
nem deixa de ser coisa nenhuma?
Então não era eterna, a voz da justiça,
a voz da liberdade, do mais profundamente humano,
não era imortal, mais que divina, mais
que o raio que a parta? Então
não era tudo isso e o céu também?

É que, meus amigos, a coisa está difícil.
A agonia chegou. O vómito que se não vomita.
Porque não se descobriu maneira de sair do beco:
a salvação é só de cada um, e diz respeito
a cada um, mas ninguém se salva sozinho,
nem se perde por própria culpa. E não é possível,
sem fazer cair as cotações da bolsa, ou a produção
que é necessário elevar para bater as potências capitalistas
na coexistência pacífica, que seja dado a cada um
o direito de arrastar os outros para
a sua pequena salvação pessoal.

A coisa está difícil, não é verdade, velha prostituta?
Como é difícil a paz! Como é difícil… –
Quanto veneno, quanta raiva, quanta miséria,
Quanta ignomínia, quanta falta de ressurreição
– sobretudo isso dói muito… – é preciso engolir!
E o ódio de que se tem vivido ou morrido?
Que fazer dele? Transferi-lo aos pedantes,
aos cretinos, calinos, alarves, bestas, cavalos,
safardanas, que se ocupam dos teus piolhos?
E valerá a pena? Os teus piolhos chegaram
às universidades, são classificados lá por outros que,
conscienciosamente, fazem o seu currículo de aracnídeos
ensinando aos outros insectos como evitar o DDT
e continuar comendo em paz folhas de livros.

Vai, puta! Já não enganas ninguém!
Leva contigo a tua corte de semis de tudo,
o homem macaco, a mulher eléctrica, o que voltou
da Abíssinia, o que se enforcou na
Vielle Lanterne (não confundir o lampião
com a rua), o que hipotecava casas
em Blackfriars, os que eram cegos
de um olho ou dois, o barbaças
das profecias, o soneteiro
suicida, o da picada
do espinho da rosa, ali!
(tecnicamente, um acúleo),
toda essa canalha solitária
de todas as cores e feitios,
tomando banho ou não,
fazendo a barba ou não.
Vai! Vai! Espoja-te no chão,
e pede humildemente que as crianças do mundo,
todas as crianças do mundo,
te mijem em cima.

26/5/1962

 

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As flores, solícitas, desfolham-se.

Há mais de uma década, ao fim de um longo poema,
verifiquei que assim era.

Que as folhas se desfolhem não é novidade alguma.
Que o façam solícitas, tão prontas como tudo
a despetalar-se de si mesmas, assumindo
o destino implícito na frágil inserção
das próprias pétalas, eis o que constitui
peculiar observação. Mas
será que importa muito registar
analogicamente este saber de nada,
tão antigo e vulgar, que não se vê,
não se ouve, não se considera
senão como imagem de como perdemos
de boa mente, de boa vontade, ou
gostosamente, numa resignação que é alegria,
numa jovial complacência, aquilo mesmo
por que sendo, nos somos e vivemos?

Solícitas, as flores deixam-se não ser
as flores que eram pelas perdidas pétalas.
E finalmente, ao fim, no fim das contas,
ou no fim de tudo, que flores
seremos nós? Eu creio petulância,
infantilidade, gosto de confundir,
além de irreparável pretensão à delicadeza,
esta mania analógica: um triste
hábito milenário de ser por conta de outrem
o medo de não ser por conta própria.
E não é tudo ainda, porque o hábito implica
perigos de grande gravidade. Com efeito
a gente começa por comparar aceitando,
por forma oculta ou inconsciente, o mimetismo
que o comparar assimilando arrasta;
depois, a gente não distingue já
a cor de coisa alguma; e daí a crer
que somos mesmo flores solícitas
solicitas se dando a desfolhar-se,
apenas vai um passo; e, dado o passo,
jamais seremos só, como compete, homens.

As flores não se desfolham.
As flores são desfolhadas por nós, pelas brisas,
enfim pelo que for a circunstância delas.
Não é destino serem-no, porque,
para passarem de flor a fruto,
elas estão estruturadas tais
que perderem as pétalas lhes é
perfeitamente consentâneo. Se umas perdem,
e se outras secam sem as ter perdido,
não é destino esta alternativa
que nem chega a ser de tão ocasional,
de tão fortuita, e tão inexorável
como morrer fecundo ou estéril, morrendo.
Se o destino fosse apenas isto,
nada haveria que mecanicamente não fosse
um destino fatal.

Solícitas as flores. Destino é isto,
mas não de flores. A escolha obrigatória,
mas livre escolha entre dois passos que
são já milhares de passos livremente dados
e limitadamente irreversíveis. Destino é não sabermos
se aquela escolha marca o transmutar
de tantos passos noutro ser diverso.
Destino é suspeitar, temer, que possa
irreparavelmente ser-se essa mudança.
E dado o passo, quando tal soubermos,
não seremos sequer os mesmos já
para sabermos, pois que o que nos fora
esse saber Ião longo de chegar-se ali
deixou de ser, e vai recomeçar
como do nada um novo e tentativo
saber aflito que, e todavia,
sem ser perdido aquele não recomeçara.
E que não é sequer um recomeço:
começa onde o outro se acabou, se visto
ao nível de se olharem flores
perdendo as pétalas no fim do tempo;
mas, se visto ao nível do dever
obrigatório de escolher, começa
como um salto no espaço para uma outra órbita.

Isto de órbita é porém um aspecto
da mesma mania analógica: o átomo
como sistema solar, etc., etc.,
tal qual havia o microcosmo, e o macro,
e os espíritos vagando no intervalo.
Quando, ah quando, os homens deixarão
de crer em tudo, de exigir que tudo
seja como tudo? Se tudo é como tudo,
o nada é como nada? Mas tautológico
é só o medo, o medo de escolher
entre duas coisas, dois entes, dois momentos,
duas coincidências diversas de milhares de instantes,
de que escolhê-las se nos faz o tempo,
tempo que foge no ampliar-se o espaço.

27/5/1962

 

A MISÉRIA DAS PALAVRAS

Não: não me falem assim na miséria, nos pobres,
Na liberdade.

Se a miséria e a pobreza
Fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,
A imaginação possuída e vomitada que deviam ser,
Viria a liberdade por acréscimo,
Sem palavras, sem gestos, sem delíquios.

Assim, apenas se fala do que se não fala,
Apenas se vive do que não se vive,
Apenas liberdade é uma miséria
Sem nome, sem futuro, sem memória.

E a miséria é isso: não imaginar
O nome que transforma a ideia em coisa,
A coisa que transforma o ser em vida,
A vida que transforma a língua em algo mais
Que o falar por falar.

Falem. Mas não comigo. E sobretudo
Sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,
No silêncio que à linguagem faz
Imaginar-se mais do que o próprio mundo.

5/8/1962

 

REQUIEM PARA O MUNDO PERDIDO
É noite, eu sei. Mas como é tanta a noite
que nada resta humano entre os mortais?
Como tão negra e espessa, tão nocturna
ainda se esconde em luz do sol e em estrelas,
ainda a atravessa, embora fluído, o luar?
Como vivemos e porquê, se as sombras
nem sequer se projectam, devoradas
pelo restar das coisas insensíveis
que são vazio de órbitas sem astros
entrelaçados, virtuais, não sendo?
Porquê e para quê, se nada somos,
se nada mais sonhamos de completo
amor que a tudo mova e nos refaça?
Humanos éramos quando o desejo
nos dava a angústia de não sermos já
mais do que as coisas resistindo ao espanto.
Palavras inda são fímbria de sol,
de estrelas e planetas, são memória
da integridade que só espera nelas
o sopro derradeiro que a dissolva.
Nesta noite do mundo, nada resta
de humano e de sensível; nada resta
que tempo seja e que limite o espaço,
precisamente quando o tempo é espaço
que em si mesmo se move limitado.
Nocturna a noite é tão trans-noite que
nada somos nem fomos nem seremos
daquela falsa bem-aventurança
de quando o sofrimento nos doía
lá onde a dor era uma imagem cénica
no espelho embaciado que partíamos
sem que nenhum dos cacos rebrilhasse,
imagem que eram sem vidraça ou estanho.
Ali como a noite é tanta, como é noite
o tanto que seríamos felizes!
Mas não resta mais nada; instante a instante,
mortais mas não de humanos mais que efígie
parada, envelhecendo. E breves são
os toques delicados, a violência
de que palpita o triturar da carne.
Vento perpassa arrepiando efémera
a escassa pele tão crestada pela
secura em que águas se atomizam.
Falávamos de inferno. Acaso ainda é memória de um sentido? Acaso a mú-
sica ressoa no deserto mi-
croscópico e sem cor, gelado e quente?
Nem pegajosa ao menos se demora
a noite. É noite, eu sei. Nunca pensei
que o fosse tanto, tanto, que nem noite
— das órbitas vazias de partículas
anónimas voando em luz extinta —
obscura, inominada, noturnal,
zodíaco de meses sem figura.
E debruçado, pensativo, um rosto
sem traços ou feiçõs tem noite dentro
e fora do perfil, fora da linha
em que uma testa, o supercílio, as ór-
bitas, nariz, o recurvar dos lábios,
o queixo, linha são contínua e pura
de uma pureza que não significa.
Nem mesmo, noite em noite, esse perfil
se vê. Quem o veria? Com que olhar
e com que luz na treva iluminada?
Morramos de estar mortos, esvaindo
em pura perda que não existe
entre anjos que não há e os viventes
que como nós não vivem. Como pedras
sejamos, transmutáveis no destino
de raios que matéria se transformam
na perda em espaço do passar do tempo.
Pedras amantes e nocturnas que
se chocam como seixos nas espumas
do mar que os lava. Mas, se humanidade
subitamente vier de tanta noite,
de outrém será que não do espelho negro
de humano se não ser entre os mortais.

9-10/11/1962

 

NOÇÕES DE LINGUÍSTICA

Fumo névoa emanação
da boca: o dom da fala
o sentido sonoro
o gesto verbal
fumo da boca
exacto e vago
invisível
na China
apenas
a palavra.

*

Sinónimo
analogia
sentido paralelo
e o fumo — só na China —
impresso e desenhado
é som (conforme)
e conformado.

*

Dor uivo silêncio
muda mão
crispada
imagem
fumo na cabeça
nos olhos
confusa névoa
clarão
(na China não)

*
Como que tranquilo escreves e pontuas
frases consentâneas com ideias
que frases consentâneas com
ideias que frases consentâneas
com ideias que frases con-
o fumo foi transcrito.

*
A China parece que procedeu à reforma do seu alfabeto (dos jornais)
o vento varreu o fumo (dos dicionários)
e nós tão sânscritos tão gregos tão romanos
tão fonéticos morfológicos sintácticos
e sintagmáticos (que é mais)
sem ideogramas para o fumo
(das chaminés dos campos de concentração)
na ponta da língua
(de fogo dos foguetes nucleares)
que fazer?

*
Ideogramemos.

11/11/1962

 

A NAVE DE ALCOBAÇA

Vazia, vertical, de pedra branca e fria,
longa de luz e linhas, do silêncio
a arcada sucessiva, madrugada
mortal da eternidade, vácuo puro
do espaço preenchido, pontiaguda
como se transparência cristalina
dos céus harmónicos, espessa, côncava
de rectas concreção, ar retirado
ao tremor último da carne viva,
pedra não-pedra que em pilar’s se amarra
em feixes de brancura, geometria
do espírito provável, proporção
da essência tripartida, ideograma
da muda imensidão que se contrai
na perspectiva humana. Ambulatório
da expectação tranquila.
Nave e cetro,
e sepulcral resíduo, tempestade
suspensa e transferida. Rosa e tempo.
Escada horizontal. Cilindro curvo.
Exemplo e manifesto. Paz e forma
do abstracto e do concreto.
Hierarquia
de uma outra vida sobre a terra. Gesto
de pedra branca e fria, sem limites
por dentro dos limites. Esperança
vazia e vertical. Humanidade.

27/11/1962

 

"Pot-Pourri Final"

 

“Pot-Pourri” Final

Chegou e disse: – Caríssimo! –
Carissimus, carissimi, compositor de opereta
para violoncelo de igreja. Ergui
– oh – os olhos da persiana, e respondi:
– Cameta adinomata apropicterón –,
Sorriu e, lentamente, começou a despir-se.
Não direi que falámos. Nem que me despisse
eu. Para quê? Porquê? Adinomata.
Quando tudo acabou, para ganharmos tempo
era mister que falássemos. De quê?
Trifles, trifles. Bagatelles. Como
se conta assim a infância que não tivemos,
as estreias amorosas – tantas desde o bico do peito –
que não foram assim, os sonhos e amarguras
mais condizentes com o físico – não o nosso –
ao nosso lado. Nosso?… Meu, talvez.
De resto, a posse, ó cara, a posse,
não sei que seja: um gorgolejo interno?
Quem de nós dois se possuiu? Tolice.
Adinomata – e sussurrei, atento
aos dedos que avançavam, música.
Trifles, trifles, estou velho, meu amor,
para recomeçar. Amanhã. Ou antes,
dentro de uma hora ou duas. Conversar?
De quê? Porquê? Carissimus, carissimi.
Para quê Mozart? E Palestrina?
Missa do Papa Marcelo. Apropicterón.
Quão bagatelle! Avia-te. Cameta.
Sempre caro mi fu quest’ermo colle…
Ah, ritrovata, adonimata, adinimata!
Pff… Piazza d’Espagna.
Ave Caesar, morituri te salutant. Que bonito.
Andrócles, então, escuta, escuta,
converteu o leão ao catolicismo.
Romano? Pois se foi em Roma.
Tal como numa aurora que se estraça,
os homens mijam no recanto da praça,
avec l’assentiment des grands héliotropes.
Abre a boca e fecha os olhos. Isso.
Se o heliotrópio é cucurbitácea? Bissexuado?
Francamente, não sei. Engole. Esqueci a botânica,
pela mesma época em que – la plaza tiene una torre –
descri por completo das noções de posse.
Nil humani (ou vice-versa) a me alienum puto.
Não, não é palavra feia, é só latim.
Acredita. Compreendo. É melhor que tu saias
primeiro. Ou que eu saia,
primeiro. Não, combinar, para quê?
Não há como este acaso que jamais
repetirásse. Ass? Que jamais, repito,
se repetirá. Pensemos gloriosamente:
como éramos bem um para o outro,
como éramos bem um para o outro,
como éramos, não éramos, e bem,
a surpresa agradável de não sermos.
Undo this button. Thank you, adinomata.
Amanhã… se eu morresse amanhã…
O botão. São mais cómodos aqueles fechos
de correr. Mas arrepelam. Guarda esse botão,
contigo.
Addio! O “Mayflower” apita.
Ouvem-se as fanfarras do Novo Mundo (a sinfonia,
feita com temas do Velho). Vai, não percas
a passagem, as estribeiras, a cabeça:
as pradarias esperam-te.
Pasta nelas.
E, para mim mesmo, murmurei: Carissimi!…

29/2/1962

 

Nota do poeta:

É evidente que este poema não se refere directamente a experiências musicais, embora contenha alusões a Carissimi e a Dvorak, etc. Alusões ou citações literárias serão reconhecíveis imediatamente: pela ordem, Leopardi, Bernard Shaw, Rimbaud, Antonio Machado, Terêncio, Shakespeare, Álvares de Azevedo, além de dicta bem conhecidas como a saudação dos gladiadores romanos.

Recital virtual: poemas de JS lidos no youtube

 

Optando pela diversidade de tons, cenários e atores, aqui segue uma pequena antologia da numerosa produção de videos, encontrados na web, que focalizam a leitura ou recitação de poemas de Jorge de Sena.

 

 

Luís Gaspar, "Fidelidade" (de Fidelidade, Poesia II):

 

 

"Quem muito viu" (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III), dito por Anabela Almeida e com comentários de Jaime Braga Figueiredo e Urbano Bettencourt:

 

 

António Cravo, "Ode aos livros que não posso comprar"(de Quarenta Anos de Servidão):

Do mesmo leitor, temos:

– "A Portugal" (de Quarenta Anos de Servidão): http://youtu.be/V601fVQRJwk

– "Roma no verão" (de Quarenta Anos de Servidão): http://youtu.be/nXDDlnWL6gU

– "Paráfrase de Melina Mercouri" (de Quarenta Anos de Servidão): http://youtu.be/fdqZFfIIDuo

 

 

Io Appolloni, "A uma calista de Milão" (de Exorcismos, Poesia III):

 

 

Mário Viegas, "Não, não, não subscrevo" (de Quarenta Anos de Servidão):

O mesmo poema aparece em: http://youtu.be/mfvnbow9npc

Também lido por Mário Viegas, o poema "Lamento de um Pai de Família" (de Quarenta Anos de Servidão) pode ser ouvido em: http://youtu.be/koz7Z_K85X8

 

"Uma Pequenina Luz" (de Fidelidade, Poesia II):

– Samuel Úria: http://youtu.be/fnb8-uwZNNs

– Catarina Guerreiro: http://youtu.be/WJKnTfY1Hlk

– Tânia Pinto: http://youtu.be/hyBoTT7qbwk

– Paulo Campos dos Reis: http://youtu.be/lB_TQ9O8rVM

– Susana Neves: http://youtu.be/LS3Qkv6S-Dg

O dinheiro em poesia

Dentre os vários temas rastreáveis ao longo da obra poética de Jorge de Sena está o do valor, associado ao dinheiro. Este, habitualmente, ligado à necessidade de ganhar a vida através do trabalho e de prover o sustento próprio e da família – uma tarefa em geral marcada por dificuldades quando se vive num sistema onde o que importa é o lucro, mas que pode ultrapassar o suprir de necessidades materiais.

Compõem esta seleção poemas em que o dinheiro, ou sua ausência, surge marcando a desvalorização do ser humano, como é o caso de “Tudo é tão caro”, “Rendimento”, “Ode aos livros que não posso comprar”, “Lisboa 1971” e “Filmes pornográficos”. No fértil campo dos valores mais abstratos – como o conhecimento, o amor e a própria vida – fazem-se enunciar poemas como os bem conhecidos “Carta a Meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” e “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”. Um poema que fortemente concentra ambas as temáticas aqui destacadas é “Lamento de um pai de família”.

Observando a ordem da datação dos poemas, esta pequena coletânea atesta a permanência do tema dos anos 40 aos anos 70 – ou seja, durante o período mais maduro e produtivo do autor.

 

  • Ode aos livros que não posso comprar (40 Anos de Servidão)
  • Rendimento (Post-Scriptum-1960, Poesia I)
  • Tudo é tão caro (40 Anos de Servidão)
  • Lamento de um pai de família (40 Anos de Servidão)
  • Lisboa, 1971 (Exorcismos, Poesia III)

 

Ode aos livros que não posso comprar

Hoje fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
– sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quantos sentiram, ou sós, ou mal acompanhados,
alguns outros que, se lhes falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que não se perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.

Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
Nem de que, em breve, se morrerá de outra fome maior,
Do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
Ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
Capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
Uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei
Para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles
Folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
E sair de casa, contando os tostões que me restam,
A ver se chegam para o carro elétrico,
Até a outra porta.

27/6/1944

 

 

Rendimento

Estava sentado num degrau da porta,
encostado à ombreira,
numa rua de ligação, sem montras,
onde só passam carros e as pessoas a encurtar caminho.

A face pálida, boca entreaberta,
barba por fazer e o cabelo em repas desoladas.

Dificilmente respirava, nada seguia com os olhos,
ora muito abertos, ora piscando muito.

No regaço, e protegido pelos joelhos agudos,
tinha um boné no qual
esmolavam os transeuntes.

Da lapela, preso por um alfinete,
pendia amarrotado e sujo um boletim
da Assistência Nacional dos Trabalhadores.

Era o cartão de visita, o bilhete
de identidade, a certidão, a carta
de curso, a apólice de seguro,
o título do Estado.
E, no boné, como se vê, caía o juro.

Lisboa, 25/6/1946

 

 

Tudo é tão caro

Tudo é tão caro!
Como afinal a vida.
Pedes que te dê
quanto não tenho
para comprar-te.
Se nada pedes
apenas por que eu veja,
nem mesmo com possuir
eu poderei pagar-te.

27/05/1951

 

Lamento de um pai de família

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus gênios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de São Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo, Ou demônio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-los aos filhos
da puta. Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer.
Mas que adianta morrer? Quem nos garante que a morte
não existe só para os filhos da puta? Quem me garante que
não fico lá, assistindo a tudo, e sem sequer poder chamar-lhes
filhos da puta, com o devido respeito a essas senhoras que precisamente
se distinguem das outras por não terem filhos, nem desses nem dos outros?
Mas mesmo isto não consola nada. A quantidade, a variedade,
gastaram a força dos insultos. E não se pode passar a vida,
esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos, a chamar nomes
feios a sujeitos mais feios do que os nomes. Como pode um homem
sequer estar vivo no meio disto, sem que o matem?
E o pior é que matam, sim, e sem saberem primeiro a quem,
para não se inquietarem com o problema de terem morto por engano
um irmão, desfalcando assim a família humana de algum ornamento
que a tornava menos humana e mais puta.

15/06/1964.

 

 

Lisboa, 1971

O chofer de taxi queixava-se da vida.
Ganha 400$00 por semana, o patrão conta
que ele se arranje do a mais com as gorjetas.
Os meus amigos morrem de cancro,
de tédio, de páginas literárias,
vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu
na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele
só queria por enquanto “calçar” uma das
que, artificiais, lhe preparou tão róseas).
as pessoas esperam com raiva surda e muita paciência
o autocarro, aumento de ordenado, a chegada
do Paracleto, bolsas da sopa do convento.
Mas o chofer de táxi contou-me que
discutira com um asno e lhe dissera:
“…V. que nesse tempo ainda andava a fugir
de colhão para colhão do seu pai
para ver se escapava de ser filho da puta…”
E é isto: andam de colhão para colhão
a ver se escapam – e muitos não escapam.
E os outros não escapam aos que não escaparam.

Lisboa, 5/8/1971

 

 

Leia mais:

Poemas para começar o ano

Talvez por conta dos rescaldos festivos, a primeira semana de cada ano não se revelou muito fértil em poesia para Jorge de Sena. Ainda assim, dentre os poemas datados do reinício do calendário civil, encontramos alguns de grande qualidade, como os quatro a seguir transcritos, repassados da melancolia inerente a questionamentos sobre o escrever, sobre o que vem e o que fica, sobre o "é como se…", sobre a "vita brevis" em espaço e tempo… Enfim, temas marcantes da poesia seniana neles estão exemplificados e aqui os elegemos como "chaves poéticas" para abrir as portas do novo ano e de novas leituras nesta obra inesgotável.

 

 

Tendo lido uma carta acerca de um seu livro de poemas, que oferecera

Por que entristeço ao ler o que de meus
versos escrevem, se não é de mim
que escrevem?
Será que chora em mim o que meus versos foram
antes de ser meus?
Por que pergunto, se já sei por quê?

Escuto longamente, leio, espero,
e o poema é voz de toda a gente, todos eles, que,
não se tendo ouvido, não a sabem sua.
E vêm chorar em mim o coração traído,
a música perdida em distracções urgentes,
umas palavras que ninguém falou.

Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta,
e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.

05/01/51

 

Mesquita de Córdova

Haviam sido os fustes de pequenos bosques
a recortarem-se no azul do céu,
ao cimo das colinas, ou à beira de água
espelhando-se nelas como a cristalina
de ninfas ondulância. O dardejar do tempo
e da cristandade os fulminou. Jaziam
tombados entre as ervas, como sexos
dormindo na revôlta grenha; ou, inda agudamente,
inúteis penetrando sem desejo
a macieza húmida das nuvens.
                                                    Róseos,
brancos, irisados, foram convocados
para a glória de Alá. De toda a parte vieram,
a rastros, dorso, em carros, convergindo
para a cidade branca, atravessando os rios,
as serranias áridas, as planícies pálidas;
e as chuvas lavavam-nos da poeira do tempo
e dos caminhos.
                              Um a um erguidos,
já de um a outro os arcos se dobravam,
tão curvamente ultrapassados, duplos,
na intensidade tensa de reuni-los
em floresta imensa, erguidos e coroados.
E de bosquetes para, aladas frondes,
serem dos deuses o repouso, ou de
nítidas cercas em triclínios calmos,
vieram concentrar-se na penumbra
em que o mihrab a um lado é uma estridência de ouro.
De novo um tecto é o que sustentam na viril
segurança para que são fustes. Mas um tecto só:
de toda a parte vieram, ruínas fulminadas,
suportes dispersos dos deuses e dos homens,
para alinhar-se múltiplos na escrita
marmórea e colunar da inefável glória
do nome que é um tecto horizontal
sobre o deserto humano, frio como as lages,
macio como a aragem que se enrosca neles,
cruel como a faísca que os derrubaria,
e ardente como o sol que amadurece
os laranjais do páteo.
                                      Vieram e ficaram
floresta exacta.
                          Alá partiu, deixando a branca
cidade às moscas, à poeira, às torres de onde
dura de sinos se tornou a voz
do muezzin cantando à tarde.
              
                                                   Mas
alguém pode partir de uma tão rígida
viril floresta: deuses traduzidos
e congregados para Sua glória?

7-8/1/1963

 

Se

É como se sentisse que a vida me foge. É como se,
das pontas dos dedos, eflúvio inútil, um magnetismo se
escapasse inócuo, sem penetrar as pessoas e as coisas. É como se
eu sentisse em mim um vaso, um lago, um mar, e se
esvaísse o nível dele. É como se um motor em mim se
ralentasse pouco a pouco. É como se
a fala, a minha e a dos outros, soasse com surdina e se
perdesse sem tinido num lençol de neve. É como se
um frio me cobrisse resistindo a tudo, e se
nenhum entusiasmo, nenhum aquecimento, nada, se
mantivesse em mim que os ouço e sinto e me ouço. É como se
nem mesmo a morte ou mesmo a sobrevida se
pudessem demorar mais do que isto. Se
ainda escrevo, estou escrevendo, escreverei, é como se
as palavras juntando-se criassem, mais do que um sentido se-
melhante a outros ou diverso, apenas um silêncio e se
fizessem fuga de que vivo só, alguém que assiste, mas não se
conhece vivo. É como se,
ouvindo e vendo, se
passasse ao longe tudo, e se
ouvisse e visse o que não se
ouve nem vê, Ou se,
em vez de nada, se
criasse nada, e se,
na melancolia de um sono imenso de que se
não adormece,
desse
um sono maior
do que o da morte ou do amor.

2/1/1966

 

 

Vita Brevis

A vida é breve mas que a faz mais breve
não é morrer-se nem morrer quem foi
connosco nela espaço forma e tempo.
Que mais que a morte a humanidade encurta
e torna mais estreita a nossa vida.
Só brevemente e por um breve instante
seu corpo nos concede. E brevemente
é que pensar deseja que existimos.
Antes de mortos, antes de sozinhos
e apenas visitados de memórias,
já todos somos um jornal antigo
deitado fora sem sequer ser lido,
ou somos uma imagem desenhada
na borda do passeio em que se exibem
pisando-a com os pés que desenham
seus mesmos rostos que outros pés já pisam.
A vida é breve, breve, mas mais breve
quanto a quer breve a estupidez humana
fiel ao tempo ainda em que de espaço
o tempo se fazia e o pouco espaço
na terra imensa a todos não chegava.

05/01/1971
 

31 de Dezembro

O último dia do ano não foi particularmente inspirador para Jorge de Sena. Segundo os indispensáveis Índices, organizados por Mécia, escreveu apenas 5, ao longo de toda a vida. Destes, já integram nosso site o fundamental “La Cathédrale Engloutie, de Debussy”, de 1964, e “Não é já de Natal…”, de 1947 (inserido em “Cinco Natais de Guerra”). Aqui trazemos, pois, os demais (de 1961, 1971 e 1975), nesta última edição de 2011 do “Ler Jorge de Sena” — convidando os leitores que nos vêm prestigiando a meditarem, com estes versos, sobre o correr do tempo. E, deste modo bem despojado, que propõe o introspectivo em meio ao alarido circunstante, desejamos a todos um excelente 2012.

 

“Por este anoitecer…”

Por este anoitecer, o ano acaba.
Cinzento e azul no céu por entre as árvores,
acaba o calendário. Muitos crimes dele
serão futuras efemérides nos outros
que, folha a folha, acabarão também.

Como anoitece igual este ano às noites
com que, dia por dia, o ano foi passando
gregorianamente. O mundo ocidental,
cesáreo, atlântico, ex-mediterrâneo,
conta do Cristo. Mas os outros mundos

também contarão dele, quando este ocidente
deixar de fingir dele – os deuses morrem –
para funções de calendário laico.
O tempo passa, os calendários mudam,
na vida e morte as horas se sepultam.

E, no entanto, o tempo vai conosco;
é desta Terra só, e só por haver outros
que de outros astros são por haver este
diverso tanto a cada movimento.
Por este anoitecer, o ano acaba.

31/12/1961

 

“Deste mundo que morre…”

Deste mundo que morre como pedra
a dissolver-se em lama e poeira humana,
destruído de maldade e de mentira,
envenenado de cobiça e raiva,
não me despeço. Morrerei tranquilo,
ciente de que isto acaba de acabar-se,
e uma outra raça há-de nascer na Ibéria
que será minha como esta não:
um povo aguarda e espreita, e sabiamente espera
que os ratos se devorem uns aos outros.

31/12/1971

 

“Os calendários mudam…”

Os calendários mudam, são diversos,
povos contaram o tempo de outra maneira,
mas mais curtos ou mais longos desde sempre,
os anos passam. Como medida em que os dias
morrem agrupados numa série que mais longa
morre. Por eles e com eles somos gerações
uma após outra que desaparecem. Alguns ficam
na memória, nos museus, ou transformados
em ideias, sonhos, pesadelos, as imagens
do que fomos ou não, quisemos ser ou não.
Os anos passam. Este, como os outros,
está já nos últimos minutos que tão longamente
se não contaram quanto agora contam.
Foi como os outros sempre um ano triste
de mortes e massacres, insensatos crimes,
traições e mesquinhez, maldade e vis paixões,
e algumas guerras encobertas, exilados,
e foragidos, gente espoliada, tudo
o que sempre se fez na humanidade que
existe em nós maligna além aquém de quanto
às vezes nos faz grandes: um gesto, amor,
a música, e a bondade, as artes, toda a fé
seja em que for de puro e de profundo,
num só que se dedica, em todos que no dia
a dia vão perdendo o tempo que lhes resta.
Este ano morre, outro virá igual,
melhor, pior, terrível, este horror contínuo
de ser-se humano enquanto o ser-se humano é pouco
um pouco mais apenas que existir-se à sombra
do que nos rouba a liberdade clara
de sermos nós e amor, de sermos só sem ódio.
Vai-te como os outros, ano que terminas.
Outro virá cheio de morte e vida,
feito de tudo o que nos cria mais
tristes e mais velhos quando somos velhos,
raivosos e mais velhos quando somos jovens.
Vai-te e que se vá contigo o fétido clamor
de um ano mais. E que outro venha e traga:
oh nada, nada, nada, que não seja só
o tempo que se esvai neste sonhar da vida
como algo de viver-se dentro em nós e em todos.

31/12/1975
 

Poemas de Natal – II

postal.jpg
Laura Costa, “Cântico do Natal”, bilhete postal emitido pelos CTT em 1942.

Continuando nossa seleção dos poemas que Eugénio Lisboa define como os “antinatais de Jorge de Sena”, apresentamos os Natais de 1942, 1950 e 1972.

 

Estupro, ou Natal-42

Da passagem da aurora vem uma noite dizendo
que alguém resiste à coragem da vida.
E a noite supõe que só alguém resiste.
A noite desce, não pode saber que são muitos
que resistem todos por qualquer canto do ser,
mesmo quem finge, mesmo quem não finge
e sofre solitário por saber da força,
a força teima dentro quando se fareja,
ó noite, a resistência invade o coração do mundo,
terra não lavrada, terra que ficou incólume
do sangue dos justos, das lágrimas das mães
e das mulheres que quiseram ser mães
sem que qualquer homem lhes servisse
e das que não serviram para nenhum homem
e dos homens virgens porque o tempo urgia,
terra que ficou incólume
como se houvesse mais que duas mãos
para a esconder do orvalho!

Não, não querem que as palavras tristes
a humedeçam; querem reservá-la
para fins ocultos, para bruxarias,
para bonecos de barro de que fala a Bíblia,
muitas estátuas com rostos de empréstimo,
rostos roubados a quem sofreu pela esperança
e morreu lutando contra uma membrana ténue
entretecida pelo tear do medo.

Querem-te virgem, terra, para violações sangrentas,
e não consentem que sejas amada pela teimosia de estrelas
com que o Universo fecunda triunfante
o véu mísero e obscuro que, até tu sem querer,
estendes, quando planeta, sobre o firmamento.

28/12/42

 

Natal – 1950

Nenhum Natal será possível: sei
que tudo enfim suspenso aguarda
não já Natais sempre de guerra mas
a morte iluminada como aurora
entre esta gente que se junta rindo
e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;
entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,
entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,
entre muralhas de janelas sob a chuva,
entre agonias dos que lutam porque são mandados
e a cobarde angústia dos que apenas mandam,
no meio da vida, círculo de fogo,
à luz de que se vê uma calçada suja
de restos de comida e de papéis rasgados
– se sei, embora saiba, quanto soube:
ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,
nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,
e tanta gente, e mesmo que um só fosse,
já louco, envelhecido, apenas hábito,
que poderei fazer, senão humildemente
cantar?

25/12/50

 

Natal de 1972

Neste comércio festivo que há dois mil anos quase
perdura mal cobrindo remendadamente
o solstício do Inverno e os deuses sempre vivos
de cuja falsa morte o mundo paga em crimes,
como em vileza humana, o medo que escolheu
quando ao claror da aurora rósea e livre
de viver como os deuses e com eles
preferiu a lei e a ordem projectadas
na sombra em sombras da caverna obscura
e desejou o mal em preço de ser-se homem —
tudo o que em milhares de anos é tribal
congrega-se feliz num doce rebolar-se
da traição de que fomos contra a vida.
Tão vil que levou séculos a inventar
um deus assassinado para desculpá-la,
e fez dele o comércio das famílias
que cortam no peru as raivas de existirem,
beijando-se visguentas, comovidas,
tal como têm babado os pés dos deuses,
ah não eles mesmos mas imagens vãs
que não resplendam da grandeza humana.
Alguma vez teremos o dinheiro
para comprar de novo o Paraíso,
em vez de prendas para o sapatinho?
O Paraíso aqui — aquele que venderam
no começar do mundo. E que nos trocam
por outros no futuro ou nos aléns,
agora, aqui, aberto a todos, claro
– um sol sem fim nos bosques ou nas praias,
uma nudez sem morte nos corpos sem alma.

Talvez que o só vejamos por um instante
naquele espaço-tempo entre morrer
e o ficar morto para os antropófagos
dos deuses e dos homens, hóstia ou ossos.
Entretanto, senhoras e senhores, as Boas Festas.

23/12/1972 

 

Poemas de Natal

Jorge de Sena costumava dizer que era católico sem ser cristão, por reconhecer o quanto a Igreja de Roma soube, como nenhuma outra, captar, manter e sublimar tradições antiquíssimas. Eis porque em muitos dos seus livros encontramos poemas de Natal, modulados em vários tons. Aqui selecionamos os três editados em Quarenta Anos de Servidão, de anos bem espaçados e com diferentes modos de meditar sobre esse tempo misterioso do Advento.

 

Natal de 1951

No silêncio da noite que ruídos cortam
habituais, comuns, e nem sequer tardios,
procura-me, flutuando mansamente,
ao lume de não estar pensando,
um desejo hábil de recordar outras noites como esta,
de enternecer-me, esquecido de mim e do mal que busco,
sobre o espetáculo delicioso da inocência,
que seria nem prazer aniquilar,
da virgindade, cujo sangue mal me saciaria,
da bondade, que tão ignobilmente me conhece
em horas de vício ou de traição,
da paz que ansiosamente nos procura nos caminhos do crime.

Ai com que habilidade esse desejo me cerca,
me amolece, me penetra e inunda!
Lágrimas são já, e de ternura,
as que me assomam aos olhos e embaciam
carinhosamente os rostos que me cercam,
tão queridos e tão próximos! Sorrio,
e é já discretamente que sorrio humilde,
com misericordiosíssima ironia.
E havia imensa gente, e luzes, e cantava-se,
e bolos se comiam que eram só dessa altura do ano,
enquanto à volta da mesa o círculo se formava mágico,
em comovido e misterioso contacto com outros círculos distantes.

Em repetir-se não perde, em recordar também não;
e amanhã será tarde, inoportuno, mesmo impossível,
além de que ficaria apenas um amargo na boca sem memória doce
que amanhã mesmo dará tão esquisito gosto,
ao amargor já velho e conhecido.

24/12/1951

 

Sobre uma Antologia Lírica do Natal

Natal de 69

Dos céus à Terra desce a mor Beleza
(não foi Camões quem disse realmente)
Queimando o véu dos séculos futuros
(disse Bocage – inquisidores à espreita)
Jesus nasceu! Na abóbada infinita
(sem fé com só Parnaso é de Bilac)
Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
(Fernando António Nogueira Pessoa)
De novo a noite longa escura e fria
(o Cristo Régio Cristo dos Reis Pereira)
Fosse eu Jesus do céu e não viria
(era Moreira só e mais das Neves).
Brinquedos, prendas, doces, bacalhau,
missa do galo, o sapatinho, o abeto
a concorrer pagão com o presépio,
cartões de Boas Festas, e as cantigas
nacionais importadas e folclóricas,
e pombinhas da paz de maus poetas,
e a fé sem fé da crença que não crê,
ou escreve versos de Natal raivoso,
e peste e fome e guerra e dor de não
doer o coração que não existe.
Mais dia menos dia todos vão
pôr um versinho bom ou mau como ovo
e não se sabe o que nasceu primeiro
se a galinha se o ovo. Antes calar
que este sofrer de prometida glória
sem ter vivido em honra e liberdade
amando os outros como se a nós mesmos.
Que saudade de alma, e que brandura
(Fr. Agostinho espera edição crítica)
Amor que tudo vence e tudo apura
(talvez que seja Baltazar Estaço).
Dormes, Jerusalém? Acorda, acorda
(clamava o árcade Garção, coitado)
Bairro elegante – e que miséria! (disse
em raros octossílabos Feijó)
Ó noite santa, e clara, inda que escura
(Diogo Bernardes escreveu tranquilo)
Turvou-se de penumbra o dia cedo
(por certo Ereira onde este Afonso estava)
Crianças se sumiram num incêndio…
Que rósea aurora as ressuscitará?
(há já vinte anos perguntei – não digam).

Dezembro de 1969

 

Natal 77

Natal mais uma vez. Setenta e sete.
Há anos já que não escrevia como
por alguns outros sempre me escrevi
do que Natal não foi, não há, nem será nunca,
senão em desejar-se enfim com ele ou não
quanto de humano em nós seja o divino
que humanos nos constrói do nada em que persiste
sem de existir saber mais que pensarmos nós
ou nós querermos sem conhecimento
não de do mais além, ou mais aquém,
ou só de nós, mas só conhecimento
deste circunviver a que Natal se chama.
No mundo mais que nunca o sangue corre,
de todos escondido, por todos pago para
que se morra ou se mate em juro dos impérios.
Na pátria as hidras erguem as cabeças
e é perigoso gritar “não passarão”
como na Espanha há mais de quarenta anos,
quando co’a benção das potências todas,
elas passaram cilindrando tudo.
Culpados todos – porque não dizê-lo,
em vez de acusações que nada salvam?
Porque não confessar erros horrendos
que fizeram haver uma Direita
que não houvera nunca além de uns quatro asnos
ou gente ingénua defendendo a pátria
como lhe diziam que ela fora sempre,
ou meia dúzia de malandros que se enchiam
naquelas negociatas que o próprio Salazar
dizia consentir aos mais malandros deles?
Natal setenta e sete. Todos sentem
que foram ou têm sido sabotados,
traídos, ou vendidos. Mas só poucos
podem dizer que, mesmo santamente,
honrando os sonhos ou seus compromissos
até com as ideias que não tinham,
não sabotaram, ou venderam ou traíram,
em nome da liberdade e da democracia.
É triste mas é vero: com essas duas palavras
que juntas desejámos longamente
só é possível ainda o escrever-se
um verso inteiramente erado.

24-25/12/1977

Música erudita do século XX

O século XX é marcado pelo domínio da música popular, pela evolução do jazz, do rock n’ roll, e de uma infinidade de gêneros. No entanto, alguns compositores eruditos ainda resistem e até influenciam as novas modalidades musicais, por meio das experimentações rítmicas e harmônicas da modernidade, em especial nas primeiras décadas do século. Apresentamos aqui os poemas de Arte de Música dedicados a tais compositores e suas obras.

 

FINAL DA SEGUNDA SINFONIA DE SIBELIUS

Se alguma vez clamor pela grandeza
há sido concebido em majestoso fogo
que em contraponto avança triunfante,
foi este acumular de força e de vitória,
sempre mais amplo de si mesmo, sempre
mais alto, mais confiante na verdade
com que insistente o som se cria eterno
mas não-palavras que o transportam como
sédia gestatória da nobreza humana.

Será pomposo e grandiloquente. Ingénuo mesmo.
Até ridículo. Será fácil demais
na pretensa complexidade de uma orquestra
em que Brahms, Dvorak e muita Scherazade
se entrelaçam sem vergonha. Será cantante
de mediocridade. Tudo o que quiserem
os eunucos da certeza de que a vida
é vale de lágrimas, infâmia, grosseria,
é porca e suja, e só se lava em finas
rendinhas de alta manga, em que os Mozarts limpavam
as ventas refinadas mas ranhosas qual
as dos ranhosos que seremos. Todavia
do mundo o mundo se não vê nem ouve,
se alguma vez os olhos se nos não marejam
felizes e esmagados sob as ondas de
este teimoso confirmar do inteligível
lá onde o ter sentido é sonho de grandeza
apenas grande, apenas majestosa,
sem mais significado que o estrondear que pisa
aos pés o chão da mesquinhez e do «distinguo»:
o chão, reparem, nenhum céu, o chão.

27/3/1966
 

ERIK SATIE PARA PIANO

As notas vêm sós por harmonias
como de escalas que se cruzam
em sequências descontínuas de figuras
singelamente acorde surpreendido
de se encontrar num instante pensativo.
São como vagas vindo no perlado
tão diminutas, solitárias mas ligadas
de pura sucessão ocasional
que se rebusca em cálculos descaso
contrário ao hábito de estarem escritas,
ou juntas ou seguidas. Mas é como
se desde sempre este hesitante fluido
houvera de estar pronto a ser pensado
e a soar tranquilo em espaço diminuto
não por ser breve mas por ser silêncio
de uma memória em que a surpresa ecoa
lembranças perpassantes de quanto não foi,
não existiu, não foi vivido e entanto
pungente fere as águas espelhadas
onde de imagens passam vultos claros
em túnicas voando transparentes
e muito curtas sobre membros duros
que dançam devagar a dança juvenil
num salpicar de pés além do tempo antigo.

9/1/1972

 

 

OUVINDO O «SÓCRATES» DE SATIE

Tão sábio, sereno e calmo,
irónico e risonho, deram-lhe
cicuta. Alcibíades descreve-o
como um Sileno cheio
de suaves imagens divinas.
Fazer que os homens se nascessem
de si mesmos no contido
ardor de um diálogo incorpóreo
era o seu mister. Não ensinava
nada senão o mais além
de em nós — o juvenil
interrogar do corpo até á morte
sem responder-lhe nunca.
«Críton, devemos a Asclépios
um galo. Não te esqueças
de pagar esta dívida». E calou-se.
Havia amado a terra e os homens
como se os deuses não
fizessem mais que existir:
«Que encantador lugar para o repouso!
Como esse plátano é tão alto e forte!»
Um sátiro: «Que fascínio exerce
em mim a flauta dele», disse Alcibíades,
A música soprada e linear
do espírito que fala e não se entrega.

8/1/1972

 

 

CONCERTO PARA ORQUESTRA, DE BELA BARTOK

Como amargura leve brinca com a morte,
a sua própria morte. E, músico que ê,
brincar com ela é música dos outros,
que perpassa irrisória entre lamentos
desgarradores mas parecendo ser
solenes pretensões ridículas: pudor
de uma pureza que se não contenta
com a medida comum das mais humildes coisas,
nem com a incomum das mais extraordinárias:
e fica neste dilacerar das harmonias em invenções de orquestra,
vingando-se em rigor que a morte, a Rigorosa,
não pode ter. De quando em quando
o rigor entreabre-se, e uma treva funda
é como abismos que se sobrevoam
no escárnio inútil de voar sobre eles.

29/5/1964

 

«NOITE TRANSFIGURADA», DE SCHÖNBERG

Como tão tensas cordas
vibram assim, apaixonadamente,
a dor dos gestos que nos arcos vai
e volta em contrapontos tão contínuos
que a tessitura de inconsútil música
é como um mar de luz sombria
em que se afunda este rigor furioso?

Depois do desespero destas formas puras
que se entregeram sem cessar abrindo-se
em novos horizontes sempre iguais
num repetir-se dos acordes que
se vão do espaço-tempo renovando
no próprio desdobrarem-se em suspensas
pausas de som chorando cataclismos,
sussurros e murmúrios, gritos, e, sem voz,
o cântico dulcíssimo que volta ansioso —
depois de tais excessos de ser música
a música que nasce de sentir-se
o próprio ser abstracto de ela ser escrita —
que música podia haver?

Tão tensas as arcadas, tão furiosas,
tão grandiosamente este pavor que canta
— que humanidade resta após o dissipar-se
deste sonho de som perpetuado em cordas
vibrando assim frementemente humanas?

28/9/1964

 

CONCERTO DE PIANO, OP. 42, DE SCHÖNBERG

Seria pouco dizer que é o desespero,
a derrocada monstruosa e caricata
das presunções melódicas e harmónicas
de uma sociedade vil e condenada à morte,
Multo pouco. Porque o mais terrível
desta dissertação heteróclita
e rigorosamente prosseguida no seu próprio tempo
de que o piano marca os seriados sons propostos
é que não há sentido em dar sentido
a uma estrutura musical, já que o sentido
é ele mesmo a sequência falsa que não significa.
É que o desmascarar da música
reduzida à sua mesma inumanidade
reduz tudo o que somos e julgamos ser
nas horas de melancolia
a este beco sem saída:
uma raiva melancólica e cordata
sem qualquer nexo com a própria solidão que exprime.
Se a solidão sobre si mesma fica
como a serpente que se morde a cauda,
neste chinfrim tão comovente por não cornover-nos,
não há nada que escape ao inescapável, nada,
a não ser isto mesmo, mesmo, na seriação
tão implacável que nem se dá por ela.
Música do vácuo, do vazio, do inútil, do insensível, do sem vida,
mas, mais terrível que isso, não do nada,
já que o nada, a negação, seria
ainda um pouco de consolo dúbio,
um pouco de ternura e ilusão.

21/10/1963

 

 

Uma Sepultura em Londres

Em seu “Discurso Diante do Túmulo de Marx”, Engels escrevia que “o maior pensador de nossos dias parou de pensar”. Poema de Peregrinatio ad loca infecta (Poesia III), “Uma Sepultura em Londres” vem acompanhado por uma nota do autor: “Em 1969, na 1a. edição desta Peregrinatio, não podia anotar-se, para notícia dos distraídos, que esta sepultura era obviamente a de Karl Marx”. Hoje, não havendo qualquer dúvida sobre o homenageado, o poema-lápide dedicado a Marx permanece como monumento da presença de seu pensamento na poesia seniana e do esforço de Sena em manter sempre vivo o diálogo com as testemunhas da História, para que, mesmo que na mente e na obra de outros, não parem de pensar nunca.

 

No frio e no nevoeiro de Londres,
numa daquelas casas que são todas iguais,
debruça-se sobre todas as dores do mundo,
desde que no mundo houve escravos.
As dores são iguais como aquelas casas
modestas, de tijolo, fumegando sombrias, solitárias.
Os escravos são todos iguais também:
De Ramsés II, de Cleópatra, dos imperadores Tai-Ping
De Assurbanípal, do Rei David, do infante
D. Henrique, dos Sartoris de Memphis, dos
civilizados barões do imperador D. Pedro II.
Ou das «potteries», ou da Silésia, de África,
da Rússia. (E o coronel Lawrence da Arábia
chegou mesmo a filosofar sobre a liberdade moral
dos jovens escravos com quem dormia.)
No frio inenarrável das eras e das gerações de escravos,
que nenhuma lareira aquece no seu coração,
escreve artigos, panfletos, lê interminavelmente,
e toma notas, historiando infatigavelmente
até à morte. Mas o coração, esmagado
pelo amor e pelos números, pelas censuras
e as perseguições, arde, arde luminoso
até à morte. – Eu quero ver publicadas
as suas obras completas – diz-lhe o discípulo.
– Também eu – responde. E, olhando as montanhas
de papéis, as notas e os manuscritos, acrescenta com
esperança e amargura – Mas é preciso
escrevê-las primeiro -.
Como têm sido escritas e rescritas! Como
não têm sido lidas. Mas importa pouco.
Naquela noite – creiam – a neve inteira
derreteu em Londres. E houve mesmo
um imperador que morreu afogado
em neve derretida. Os imperadores, em geral,
libertam os escravos, para que eles fiquem mais baratos,
e possam ser alugados sem responsabilidade alguma.
O coronel Lawrence (como anotámos acima), com os seus jovens escravos,
também tinha um contrato de trabalho. Mais tarde,
criou-se mesmo a previdência social.
No frio e no nevoeiro de Londres, há, porém,
um lugar tão espesso, tão espesso,
que é impossível atravessá-lo, mesmo sendo
o vento que derrete a neve. Um lugar
ardente, porque todos os escravos, desde sempre todos
aqueles cuja poeira se perdeu – ó Spártacus –
lá se concentram invisíveis mas compactos,
um bastião do amor que nunca foi traído,
porque não há como desistir de compreender o
mundo. Os escravos sabem que só podem
transformá-lo.
Que mais precisamos de saber?

1962

A música russa cantada por Jorge de Sena

Embora confessasse sua admiração por outros compositores russos, apenas Mussorgsky e Tchaikovsky receberam interpretações poéticas de Jorge de Sena em Arte de Música. Reproduzimos aqui os poemas e as notas explicativas de Sena, acompanhados da música que lhe serviu de inspiração.

 

«BORIS GODUNOV»
O velho honestamente escreve a História.
O jovem (falsamente) vai fazê-la.
Os boiardos (oligarcas) desfazê-la.
Boris — assassino e virtuoso czar —
morrerá de mágoa e de agonia.
E o idiota canta de adivinho
as dores do povo que não sabe nunca
quem trai ou salva, nein quem escreve ou canta.
Mas com poesia (de Pushkin) e música tudo isto
é só tragédia cénica — e a tragédia como
Aristóteles disse e é sabido
purga. É certo que não sabemos
muito bem de quê. Mas se orquestrada
por Rimsky-Korsakov-Scherazade
à custa do Mussorgsky sabido
em canções e danças da morte:
A ti moi sin, chiem zániat?*

[prov. 8-9/1/1972]

 

*”E tu, meu filho, que fazes?” – pergunta de Boris a seu filho, B.G., ato II.

 

Nota do autor: A tragédia de Pushkin, que li muito cedo, e a ópera que dela fez Mussorgsky sempre exerceram sobre mim particular impressão. Até certo ponto, a personagem de Boris, a sua voz. etc., identificaram-se para mim com o cantor Boris Christoff, pessoalmente e em gravação. Mas não esqueço a gravação soviética que repõe em quase Mussorgsky o que a gente sempre ouviu com os «melhoramentos» e acrescentos amistosos de Rimsky-Korsakov, e com a ordem trocada das duas cenas finais. A transcrição fonética do texto russo citado no poema é da responsabilidade do presente autor que não conhece ainda (e provavelmente para nomes consagrados não aceitará nunca) qualquer decreto oficial sobre o assunto, e apenas os esforços de tanta gente que, dantes, em Portugal, não sabia russo, e agora parece que sabe, o que já não era sem tempo.

 
Vídeo: Boris Christoff como Boris Godunov.

 

«ROMEU E JULIETA», DE TCHAIKOWSKY

Ele era muito jovem quando imaginou esie poema
das ânsias triunfantes contra tudo e a morte.
Por certo ainda tinha intacta a confusa esperança
de que possível fosse, na vida, ser-se como ele era:
Romeu e Julieta num mesmo adolescente apaixonado e tímido
que não se conhecia como um falso homem para Julietas,
e como impossível mulher para o Romeu que via
nos seus sonhos ambíguos. Por isso pôde conceber
tão belo cântico, cheio de estrondos e lirismos fáceis,
em que o mesmo fácil tem a doçura ingénua
da confiança pura e de uma ignorância inocente
que faz ser bela a morte. E já nestes requebros há de tudo
o que fará mais tarde a ilusão de música,
com que ele encherá de público desprevenido a sua solidão:
os passos de bailado, os soluços patéticos, a melodia casta
fingindo sabiamente que não ê obscena.
Mas há também premonição do desespero harmónico,
estridente e lamentoso, oculto sob o sorriso amável.
É este um poema da juventude que se desconhece no horror
de não se diferenciar. Não canta a união de Romeu
e de Julieta; canta do que seriam ambos
na união, no amplexo em que foram um só corpo
bern mais que uma só alma; canta do que eram ambos
antes de os sexos serem dois, na infância.
Canta da paz e da certeza, antes do bem e o mal.
E sonha e faz sonhar, nesta grandeza tão sonora e fútil,
do horror de ser-se e de não ser-se dois.

24/5/1964

 

Nota do autor: Se a música de Tchaikowsky não é de primeira grandeza, não é sempre, nem tanto quanto parece, «música de consumo». Referindo-se à sua 6a. sinfonia (Patética), um crítico disse uma vez (Martin Cooper, em The Symphony, ed. Ralph Hill, Londres, 1949) que, «enquanto a fome espiritual e a perplexidade (do homem moderno) durarem, a Sexta Sinfonia gozará da devoção apaixonada do público e da reacção favorável, ainda que inconfessada ou envergonhada, mesmo de muitos dos que acham de mau gosto o seu desvergonhado emocionalismo». Isto é, em grande parte, aplicável até ao neo-romantismo elegante, quase de salão, da sua música de ballet. Mas não é inteiramente justo, porque o emocionalismo pode ser parte da criação musical, e não há lei nenhuma que proíba que ele seja «subjectivo» até à vulgaridade. Esta pode aparecer sob as mais diversas formas, ou, melhor, esconder-se habilmente nelas: Wagner, com toda a sua grandeza, é bem às vezes um exemplo disso. A interpretação-base do poema é a magnificente de Leonard Bernstein, há anos gravada com a Orquestra Filarmónica de New York (do outro lado, numa interpretação não menos brilhante, está a suite do Pássaro de Fogo, de Strawinsky).

 

Vídeo: Leonard Berstein, The New York Philharmonic – Romeo And Juliet Fantasy Overture (segunda parte)

 

Primeiros poemas norte-americanos

Os dois poemas que se seguem, escritos em outubro de 1965, são os primeiros escritos por Jorge de Sena em solo norte-americano, aonde chega no dia 7 daquele mês. Trazem já algumas das marcas que se farão presentes na produção do poeta em sua terceira e última pátria: no primeiro, os filhos e a vida cotidiana doméstica; no segundo, a meditação sobre a própria noção de pátria e a solidão do exílio, agora vivido não só em outro país, mas em outro idioma.

 

“Não há nada…” (Visão Perpétua)

“Não posso desesperar da humanidade” (Quarenta Anos de Servidão)

 

“Não há nada…”

Não há nada que canse estas crianças.
Pulam e gritam, de regresso a casa,
após longo passeio, como se
fosse apenas um caso de memória
o cansaço que traziam nas pernas e na noite.

Gritam, pulam, brigam,
já esquecidos de que estavam cansados.

É horrorosa esta energia indomável,
sem graça e sem encanto, que deleita e baba
os que fazem mentalmente os filhos que não querem ter
ou que não podem ter, ou que perderam.

Porque é gratuita, é inhumana, é
dissipação de um passado selvagem
que a cada hora espreita nos tranquilos gestos.

Eu sei que é a vida – a vida, oh sim, a vida –
manifestando-se nesses uivos, neste gosto
da grosseria, da brutalidade, e de andar sujo,
despenteado e descalço, o gosto
fascinante e medonho da degradação.

Não há nada que canse estes animais
que amamos com tédio, e pelos quais tememos
o futuro e a morte, ou mesmo os olhos deles.

Hão-de crescer cansados e viver cansados
da humanidade delicada e terna
que apenas um ou outro, menos bruto,
descobrirá por conta própria apenas.

Belas as crianças? Se o forem.
E porque o hão-de ser por serem minhas?
E porque hei-de fingir que os amo como gente,
se ninguém pensou nelas para serem feitas?
E porque hei-de aceitar que seja amor
este teimoso orgulho de ter crias?

Não há nada que canse estas crianças,
nem mesmo o desespero de que o sejam.

17/10/1965

 

“Não posso desesperar da humanidade…”

Não posso desesperar da humanidade. E como
eu gostaria de! Mas como posso
pensar que há povos maus, há maus costumes?
A América é detestável. Mas deu – americanos –
Walt Whitman e Emily Dickinson. Posso
não confiar neles? A Rússia é
detestável. Mas Tolstoi é tão russo!
São maus os japoneses? Como podem
sê-lo, se têm Kurosawa e o Sr. Roberto
que me vendia hortaliças no Brasil?
E o meu Brasil tão infeliz amor, e tão
ridículo? Mas não são brasileiros Euclides
e o coração dos meus amigos? E
Portugal, como pode ser mau e detestável,
se mesmo eu que amo sobretudo o vário mundo,
o amo – ao mundo – como português?
A humanidade e as pátrias são uma chatice, eu sei.
Mas como posso desesperar delas, desde que
não sejam para mim o gesto ou as sardinhas,
o feijão ou o sirloin, ou a terrível capa
dos usos e costumes, da vaidade,
mas uma forma de ser-se humano e solitário
acompanhadamente?
30/10/1965

 

Leia mais:

Primavera em prosa poética

“Humanamente verde” é a primavera de Jorge de Sena, numa meditação poética que, além de evocar os parágrafos iniciais da sua novela O Físico Prodigioso, traz excelentes aportes aos estudos sobre paisagem/texto literário, agora tão em voga.

 

I

Neste anseio desenhado em claros píncaros de montanha, ao longe o mar que perto é de águas frias se espraiando em lâminas de metal opaco, a luz se faz tão plácida, tão ténue escurecendo, que é de silêncio memorado o vácuo espaço sob o céu de branco azul, em que perpassam fímbrias de manhãs, farrapos de floridas tardes coloridas, e um de ouro ardente crucial meio-dia em halos purpurinos. Além da muita idade acumulada em minuciosa angústia solitária, o que se irrompe inominado como os contornos de preciosa alvura é de expectante insónia transdiurna a persistência aguda. Que mais se desejar neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, em seiva se concentra e liquefaz, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo. Desabrochar fluindo em de escorridos passes, concêntrico de círculos e de ecos, por rochas de água entretecida em verdes não ainda o verde mas lembrança, música sem fio de harmonia, só cadência e pulsação que pelo corpo vai de longos cílios.

Uma claridade se insinua pelo que é noite adentro, enquanto em lentidão tenteante mas irresistível se aproximam saudosas imagens sem feitio, que se desdobram em leves duplas sombras de outros dias. Que foram ou não foram alastra suspendido entre névoas matutinas de imaginar-se visões de luz aberta, desenhando acessos interiores de expectativa. Ao longo do fluir de espaços repetidos, que de Outono e Inverno se vão continuando, vem devagar a presença viva de explosões sangíneas. É como se houvera veias por toda a parte. E humanas formas assumem tons silvestres, e os gestos das árvores e arbustos parecem de animais.

Vozes não há até que pelos campos e as encostas se ouçam vindos do interior das coisas dispersos gritos como cortes no silêncio das crostas e cascas que se animam. Goteja lenta seiva sob as rugas áridas da dormência hibernal; e os ramos, que estremecem como as mãos se aquietam, distendem-se de internas contorsões que pela superfície apenas são os nódulos de folhas invisíveis.

Nos ares que mesmo em tempestade conservam por detrás uma frieza tranquila, começam a formar-se estrias de trémula transparência, sopros de brisas tão ligeiras, que é como alheio, longínquo e sem futuro, o leve ardor que nelas se acalenta. Nas águas reclina-se em murmúrios um frescor que vai perdendo o gélido crispar-se de ainda há pouco, mas não se esvai de estagnação estival. E o térreo de entre as pedras amolece friável, sem que nenhuma poeira se levante.
II

Não há que pressentir ou que fitar. Tudo se coordena para além do sentir-se, como um movimento que, por incerto, não menos se destaca em passo inexorável. Isto sucede sempre com todas as mutações. Mas nesta é como se as outras viessem porque esta veio, e dela ascendessem e declinassem no ciclo repetido. Espera-se da vida humana que renasça mas ela não renasce senão em outrem, fugindo pouco a pouco ou de repente num outro plano mais ou menos fundo, que não coincide com este tremor prenunciado. Todavia, por ele se conhece que o despertar se situa nesse espaço temporal entre o movimento da Terra que provoca o circular repetir-se, e o esvair-se da vida em cada corpo único. De um e de outro lado deste espaço, em margens que ora avançam ora se retraem, cada corpo enfrenta a visão de um movimento em que vai mas não é o seu. De um lado e de outro deste tempo (como intervalo e não como diferença), as margens multlpllcam-se e refluem som se tocarem nunca, e cada corpo adquire a consciência física de não ser um outro, recorta a sua imagem e a sua semelhança, mas também a sua superfície intransponível.

Ill

Desde dentro ou como do que é fora do existir-se, assim se desenham no ardor as coisas e os seres. Um leve ardor que é rapidez, ou intermitência que prossegue, ou lentidão que é uma certeza de tensões seguras. E um dia, sem que da noite se adivinhem mais que por estalidos indistintos os contornos, a madrugada acende o seu clarão alheado sobre o que já era um transformar contínuo. Como que vapores nimbam as formas, como que fosforescências brilham por sobre elas. Do negro ou claro e cor de terra de que montes e campos se constroem, emerge como musgo um verde esparso e tenro. Aqui e ali as hastes se levantam, esguias e flexíveis, tal como em ramos brota desenroladamente o que será folhas ou flores. Os animais se movem com gestos de quietude ou de instantânea graça, qual o suspendido imóvel do arvoredo. E os ramos entrecruzam-se na imobilidade de uma brisa que apenas os rodeia, e quedam-se no ar com a mesma curiosidade do animal que estaca, erguido em suas patas rápidas.

IV

Humanamente verde, como puro imaginar do acontecido, o corpo humano agita-se iludido, arrastado na fusão de coisas e paisagem, esquecido já, no curto instante do estourar das seivas, de que o seu tempo e o seu espaço são outros e um só, no intervalo que não é tempo do mundo nem tão-pouco espaço da Terra. Esquecido de que para ele as estações coexistem num longo Inverno do nascer à morte, engana-se a si mesmo, crendo-se uma coisa, ou então um ser vivo apenas entregue ao fluxo de ser-se. E, por suas mãos que se contraem, seus olhos que fitam persistentes, seu anseio que o faz erguer-se abrupto e vertical, sente em si mesmo o tudo que não sente, e pensa que renasce como a terra em que pisa.

Assim a Primavera chega em desenlace e espuma de humida-des ao homem que imagina a primavera que vê. Ao animal humano separado de todos os ciclos menos o de ser mortal. Humano porque se separou e viu as coisas e lhe deu os nomes da sua voz aprendida. Animal porque conserva em si mesmo o jogo de existir. Mas animal humano abandonado a si mesmo, que estende as mãos para pro¬messas de flores e frutos que lhe são exteriores, que contempla embevecido o mover-se da vida pelos seres adiante para além dele, e que se levanta diverso de tudo o mais para contender com o perigo de não ser como eles.

É como se, nesse encontro imaginado com a Primavera, houvesse para o homem um retorno que não há ao espaço sem tempo mas só ciclos, em que não era ainda o ser que se tornou; é como se, deixando-se penetrar, pelas ondas que atravessam os mais entes vivos, ele regressasse ao tempo sem espaço em que tudo fluía como se não houvesse distâncias, nem as formas estivessem fechadas nos seus mesmos contornos. É como se, neste anseio desenhado em claros píncaros de montanha, ao longe o mar que perto é de águas frias, a luz se fizesse tão plácida, tão ténue escurecendo, que no céu de branco azul perpassassem fímbrias de outras manhãs, farrapos de tardes coloridas, e halos purpurinos de crucial meio-dia. De além de muita idade — acumulada em minuciosa angústia solitária — irrompe a persistência aguda de uma expectante insónia trans-diurna. Que desejar-se neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, concentra-se de seiva e liquefaz-se, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo, quando, só cadência e pulsação de longos cílios que pelo corpo vai, a música sem fio de harmonia, concêntrica de círculos e de ecos, desabrocha por rochas de água entretecida em verdes não verdes mas lembrança.

Humanamente verde, a Primavera chega.

Santa Barbara, Dezembro de 1974.

 

Primavera em verso

Embora no texto ensaístico dedicado à Primavera Jorge de Sena só associe três poemas seus ao tema, entendemos que, pelo menos, mais três, com novas modulações, deveriam ser listados nesta antologia…
 

angelo_de_sousa.jpg
Desenho de Ângelo de Sousa para “Primavera”, no livro As Quatro Estações (Porto, Inova, 1977)

 

 

 

 

Equinócio da Primavera

Da noite a aragem, tépida refrescando vem
surpreender as luzes, que interiores, se apagam
lentamente, uma após outra, como em madrugada
ao longe as luzes de outra margem – rio
descido pelas águas tenuemente crespas,
sombras passando, e escorre matutina,
ainda sem brilho, a vibração das águas,
enquanto rósea apenas de uma aurora ausente
a crista das montanhas reverdece.

Por sobre a plácida e pensante aragem física
das violações diurnas, de amarguras,
vilezas vistas e traições sonhadas,
notícias de jornal e desafios,
guerra eminente ou, mais que dolorosa,
cravada nas imagens de uma paz sombria,
perpassa a noite véus de primavera,
glicínias que amanhã estarão floridas,
e folhas verdes, muito frágeis, tenras,
e o azular-se o mar, o distanciar-se o céu
na crua luz que juvenis sorrisos,
traços ligeiros de alegria funda,
devora lentamente, e as rugas ficam..
– ao longe as luzes de outra margem, rio
onde a noite se esconde até à morte.

15/03/1947

 

Primavera no Wisconsin

Na limpidez tranquila da manhã diáfana
em que as despidas árvores imóveis
são como nervos ou expectantes veias
no corpo transparente do azulado ar,
as águas quietas, mas não tanto que
nelas se espelhe mais que a concentrada cor
do ar tranquilo, nem tão menos que
pareçam gelo perto as águas mais distantes,
pousam na margem delicadamente
como na mesma terra infusas se dispersam
dos ramos e dos troncos sombras confundidas.
A terra se amarela de ante-verde
e, sêca, espera, entre a neve que foi
e o ténue estremecer da seiva que desperta.

15/03/1966
 

Não flores de primavera ou recorrentes águas
que das montanhas pardas se descendem
aos vales que o horizonte encobre verdes,
eu peço ou espero. Apenas no arvoredo
imagens do que erecto é corpo humano
entre as pedras esparso e soerguido.
Como de acaso é visto o que em desejo
olhando nos buscamos e buscámos,
assim se movam ramos e folhagens
em movimentos leves e contidos.
E o mais não seja quanto em sonho os sonhos
não são de primavera mais que ardor, perdidos.

10/1974

 

Variações sobre Cantares de D. Dinis

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
onde está o meu amor?

Diz-me aonde ele está,
aonde está o meu amor,
p’ra que eu buscá-lo vá
florido de bela flor.

Ramo verde tão querido
tão querido do meu amor,
de belas flores florido,
florido de bela flor…

… Diz-me aonde ele está,
florido de bela flor,
p’ra que eu buscá-lo vá
aonde ele está, o meu amor.

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
tão querido do meu amor.

17/5/1938
 

As Quatro Estações Eram Cinco
O verão passa e o estio se anuncia
que o outono se há-de ser e logo inverno
de que virá nascida a primavera.
Mais breve ou longo se renova o dia
sempre da noite em repetir-se, eterno.
Só o homem morre de não ser quem era.

8/7/1970

 
Entranhas de Água

Vento de primavera que assobia
nas árvores e esquinas recortadas
de azul tão pálido no céu varrido,
ao sol sacode as folhas e os cabelos.

O namorado par se alonga em relva
de sexo verde aceso na friagem
que os corpos une em paralela forma.
E no calor menos da luz que seu

se agita imóvel no ranger do vento.
Assim se tocam ramos como dedos
e as voses se penetram ciciadas.

Não entardece ainda. Está-se o instante
em que declina o sol sem descair-se
ao leito fluido das entranhas de água.

19/4/1974

Os poemas Wagnerianos de Jorge de Sena

Wagner é um dos compositores mais evocados por Jorge de Sena em Arte de Música: são a ele dedicados nada menos que três poemas (o que o coloca num empate com Bach, perdendo apenas para Mozart e suas cinco representações). E, ao final do volume, escreveu sobre cada um destes, em notas que esclarecem as fontes de inspiração dos versos.

No caso de “A Morte de Isolda”, afirma não se referir particularmente “a qualquer das muitas interpretações da Liebestod do Tristão“, trecho do terceiro ato da ópera Tristão e Isolda que, em sua lista de eleitos, “ocupa naturalmente um primeiro lugar”. Sobre o “Final da ‘Valquíria'”, afirma “ter em mente a interpretação de Ferdinand Frantz, com a Orquestra Filarmônica de Viena, dirigida por Furtwängler (…), segundo a qual Votan é, ao mesmo tempo, o deus e um pai humaníssimo, cheio de tristeza ao condenar Brunhilde”. Por fim, sobre a “Marcha Fúnebre de Siegfried”, peça do terceiro ato do Crepúsculo dos Deuses que é, segundo Sena, “uma das coisas mais terríficas e grandiosas que alguém terá composto”, afirma escrever “sob a influência da interpretação de Klemperer, com a Orquestra Philarmonia”.  

Seguindo, portanto, as instruções do poeta, apresentamos aqui sua seleção wagneriana, acompanhada de suas respectivas influências sonoras. 

 

 

A Morte de Isolda

Nesta fluidez contínua de um tecido vivo

que se distende arfando como um longo sexo

viscosamente se enrolando em torno ao mundo

que não penetra mas ansiosamente

estrangula em húmidos anéis

fosforescentes de ansiedade doce

e resignada à morte

em roncos e estridências lacrimosas,

palpita a frustração do amor maldito

porque de um filtro só nasceu.

Por mais que de crescendo delirantes

se evolem as volutas de uma chama ambígua,

nesta fluidez sem tempo não há gozo algum,

mas o prazer remoto do que não foi vivido

senão como entressonho e fatal gesto;

e mesmo este balanço largamente harmónico

que se exaspera e expira em tão agudas poses

é cópula mental.

Nesta doçura que ao silêncio imóvel

acaba retornando, não há uma paz dos rostos que se pousam,

enquanto os sexos se demoram penetrados

no puro e tão tranquilo esgotamento da chegada

que só ternura torna simultânea.

Não há, mas só tristeza infinda e fina

e tão terrível de que, estrangulado,

o amor no mundo é morte impenetrável: dois

seres que o sexo destruiu,

estéreis como o sopro da serpente eterna.

Fica-nos o gosto da piedade.

E uma vontade de enterrá-los juntos

p’ra que talvez na morte – imaginada – se conheçam

melhor do que se amaram. E também o ardor

de uma impotência que se quis só sexo

virgem demais para um amor da vida.

8/3/1964

 

Final da “Valquíria”

Deuses podiam de um Valhala em chamas

sumir-se nos escombros quando o Reno

cantante como o fogo inundaria verde

o palco e o catafalco dos heróis:

cavalo ardente de Valquíria amante

que o pai sofrendo humanamente triste

condena ao sono não de eternidade mas

da inércia solitária de quem espera

o amado herói que há-de tocar-lhe os lábios

soprando-lhes ardências de fatal destino.

O anel dos deuses, dos mortais esse ouro

(mas por agora é só Votan partindo,

e do futuro ainda é que desastres pendem):

“Assim de ti o deus se afasta agora,

num beijo te roubando a divindade”.

4/7/1973

 

 

Marcha Fúnebre de Siegfried, do “Crepúsculo dos Deuses”

Na tarde que de névoas se escurece

escuto a marcha que ao herói transporta

fúnebre e doce, tão violenta e fluida,

à sua pira em que arderá cadáver

a cinzas reduzido. Erguem-se os metais

nos ares entreabertos, terra se contrai

onde tambores reboam, e as madeiras

e cordas acompanham o cortejo

descendo para o rio que perpassa

igual sempre a si mesmo de outras águas

como os heróis que morrem tão humanos.

E é o que nos diz este mostrar por música:

os semi-deuses morrem como nós,

como nós sofrem mágoas de derrota,

e como nós desejam, amam, gozam

ou raivam da tristeza de não ter.

Mas nós não possuímos quanto a eles cabe,

neste fervor de imaginá-los, quem

nos cante o fim de tudo o que foi grande,

o que foi puro, o que de consentido

foi gesto dedicado sem usura

ao simples existir além de nós

na terra que nas trevas se nos fecha

de noite enevoada só distância

nas pálpebras cerradas deste corpo,

o herói que assassinado me transportam

neste cortejo em majestade e lágrimas.

Não temos isto mais do que em só música,

mas os deuses também não, que aos heróis mortos

nunca sobrevivem.

13/1/1974

Primeiros poemas brasileiros

Os três primeiros poemas do recém-exilado Jorge de Sena, e os únicos escritos em 1959 desde que aportou no Brasil, glosam a saudade e o amor, em consonância com as primeiras cartas que dirigiu a sua mulher, que permanecera em Lisboa (vide cartas). Aqui os reproduzimos, acompanhados de bela foto de Mécia, retratada nos anos 40 por Fernando Lemos, fiel amigo do casal Sena.

 

 

 

Nas Terras de Além do Mar

Nas terras de além do mar,
está meu Amor assentado.
Seus olhos fitam a noite,
seu seio sobressaltado

respira em brandos soluços
nas cartas que está escrevendo
o meu silêncio de ausente,
de distante e de presente
no corpo que se torcendo
está de saudades por mim.

Ó meu amor, minha amada,
meus ouvidos, minha fala,
minha dama de amargura!

22/8/1959

 


Vespertino do Rio de Janeiro

Na noite as luzes furam treva, não
para além dela, mas de mim com ela;
não sei se arranha-céus, ou se favelas
que lado a lado arranham morros para
sustento de miséria. Imenso mar,
de altíssimas sombrias transparências,
na noite em que perpasso qual silêncio.
Não sei se amor me evita ou me protege,
ou se é de amor que eu velo o brando sono
ruidoso e povoado.

Meu coração é só de amor que sabe;
mas o que sabe, de saudoso esquece,
na angústia dúplice de não ter-te ao lado.

22/08/1959

 


Soneto ainda que não

Como quando indiscreto às coisas me insinuo
e de infinito amor lhes dou sentido
que de mim próprio é voz e precisão
de ser um ser que sendo as reconhece,
me vejo ambíguo e distraído e firme
na vã presciência que, rememorada,
é como um estar por sempre ininterrupto,
aliciando humanamente as coisas.

Mas, meu amor, por ti tudo contemplo.
Por ti penetro como em ti em tudo
e torno realidade este fortuito
encontro permanente de que vivo.

Se noutro mundo fora que existisses,
eu te criara neste e às minhas coisas.

9/9/1959

 


 

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

 

A 7 de agosto de 1959 chega Jorge de Sena ao Brasil, desembarcando no Recife a caminho de Salvador e do congresso que justificou sua saída de Portugal.

Prestes a deixar para trás família e amigos, escreveu a 25 de junho seu último poema antes do longo exílio que adivinhava: “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, insuperável testemunho/testamento sobre a “fiel dedicação à honra de estar vivo”.

Como emblema desse salto entre dois tempos e dois continentes, aqui retomamos o poema-legado, na voz da grande Eunice Muñoz, sua afilhada de casamento e amiga da vida toda, comovidamente lido na cerimônia que selou o regresso definitivo do exilado ao cais da partida — a recepção dos restos mortais de Jorge de Sena pela terra que o viu nascer.

Nossos especiais agradecimentos a Eunice Muñoz pela gentileza em nos facultar estas imagens.

 

Leia mais:

 A música francesa cantada por Jorge de Sena

A predileção de Sena pelos grandes mestres franceses é visível nesta antologia de Arte de Música.
Comemorando mais explicitamente o “14 juillet”, não resistimos a retomar o poema “A Piaf” como estímulo a ouvir e rever “la Môme” interpretando o “Ça ira” no filme “Si Versailles m’était conté” (1953), de Sacha Guitry.

 

 

 

 

“La Cathédrale Engloutie”, de Debussy

Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles: alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
______________[porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.

 

Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.

 

Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.

 

Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo – esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se irisa em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.

 

Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.

 

Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!
Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?

31/12/1964

 

Sinfonia Fantástica, de Berlioz

Programas, poetas, sonhos de ópio,
pastores pipilando, e as guilhotinas,
e o sábat das bruxas ao som do Dies Irae,
comédia melancólica e sarcástica
de romantismo sentimental e crítico
desesperadamente triste de si mesmo,
na solidão do espírito perdido
num mundo burguês sem fantasia,
sem mais maravilhoso que o da infâmia,
sem mais espanto que o da hipocrisia.
Tudo isto com bem pouca reserva,
bastante vulgaridade, muito efeito fácil,
e um colorido por vezes novo rico
como os cristais e as pratas dos barões banqueiros.
Mas é música, violentamente
música. Agressivamente
música. Os ritmos
de cadência, colorido, timbres,
estilos, tons – é tudo música.
Da solidão romântica imensamente pública – mas solidão.
Da amargura romântica tremendamente amena – mas uma amargura.
Da raiva de não ser o mundo uma obra de arte,
um indivíduo, a glória, a liberdade.
Música pungente, irónica, raivosa,
ainda saudosa das doçuras clássicas
com deuses imortais (de pedra branca).
Se não sentimos isto, porque a grosseria
cresceu à escala cósmica, nenhuma culpa
acaso cabe a tais visões sonoras,
em que a tristeza sabe imaginar-se
tão puramente um canto de oboé,
com percussões pontuando o mundo a que assistimos,
ao som dos arcos e metais:
grandeza caricata deste inferno amável
(cheio de róseas profundezas – e assassinos).

23/10/1964

 

“Festas”, de Debussy

É como se as ruas de Florença se abrissem no espaço,
cheias de gente e colgaduras e festões de flores,
para passarem nelas grandes carros alegóricos,
ao som de chamarelas e canções, enquanto
Il Magnífico e o Poliziano nas tribunas,
rodeados de damas e de pagens,
lêem poemas de alegria pagã,
maliciosos e obscenos,
que ninguém ouve na licença que
vai no cortejo, na massa do povo, nos salões,
onde todos rolam e se apertam rindo.
O cortejo porém passa e todos adormecem,
num suspenso gesto, num detido amplexo,
como congelados no tempo e feitos invisíveis,
enquanto as ruas se nos despoavam.
Séculos esperaram por esta música fugaz,
tão breve que, quando ela soa,
se reanimam ávidos.
Mas o tempo falta
para acabarem gestos,
concluir a posse
iniciada
outrora.

6/12/1964

 

Erik Satie para piano

As notas vêm sós por harmonias
como de escalas que se cruzam
em sequências descontínuas de figuras
singelamente acorde surpreendido
de se encontrar num instante pensativo.
São como vagas vindo no perlado
tão diminutas, solitárias mas ligadas
de pura sucessão ocasional
que se rebusca em cálculos descaso
contrário ao hábito de estarem escritas,
ou juntas ou seguidas. Mas é como
se desde sempre este hesitante fluido
houvera de estar pronto a ser pensado
e a soar tranquilo em espaço diminuto
não por ser breve mas por ser silêncio
de uma memória em que a surpresa ecoa
lembranças perpassantes de quanto não foi,
não existiu, não foi vivido e entanto
pungente fere as águas espelhadas
onde de imagens passam vultos claros
em túnicas voando transparentes
e muito curtas sobre membros duros
que dançam devagar a dança juvenil
num salpicar de pés além do tempo antigo.

9/1/1972

 

Ouvindo o “Sócrates” de Satie

Tão sábio, sereno e calmo,
irónico e risonho, deram-lhe
cicuta. Alcibíades descreve-o
como um Sileno cheio
de suaves imagens divinas.
Fazer que os homens se nascessem
de si mesmos no contido
ardor de um diálogo incorpóreo
era o seu mister. Não ensinava
nada senão o mais além
de em nós – o juvenil
interrogar do corpo até à morte
sem responder-lhe nunca.
“Críton, devemos a Asclépios
um galo. Não te esqueças
de pagar esta dívida”. E calou-se.
Havia amado a terra e os homens
como se os deuses não
fizessem mais que existir:
“Que encantador lugar para o repouso!
Como esse plátano é tão alto e forte!”
Um sátiro: “Que fascínio exerce
em mim a flauta dele”, disse Alcibíades.
A música soprada e linear
do espírito que fala e não se entrega.

8/1/1972

 

 

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

6/10/1964

 

Leia mais:

Sobre esta praia… Oito Meditações à beira do Pacífico

Dos poemas da “fase americana” de Jorge de Sena, talvez nenhum outro exceda a qualidade e importância dos oito que compõem a sequência californiana de “Sobre esta praia… Oito Meditações à beira do Pacífico”, que, depois de ter publicação isolada (1977), encerra a grande coletânea Poesia III, a última a sair das mãos do autor. E, tal como nas redondilhas de “Sobre os rios que vão…” Sena lê o “testamento poético” de Camões, podemos nós aqui ler o seu próprio. Tendo seguramente Camões em seu horizonte, nas palavras de Ida Ferreira Alves é este poema octogonal “obra exemplar para compreensão de seu projeto poético atento ao encontro/desencontros de culturas, [conduzida por] um sujeito que se debruça sobre um determinado espaço, com seu olhar examinador e comparativo, configurando/desfigurando paisagens que se lhe apresentam na sua experiência de homem e intelectual, o qual viveu três realidades nacionais diferentes e muito percorreu e conheceu por viagens em diversas direções” (Alves, I.F. “Sobre esta praia, sobre esta página. Um estudo de paisagem com Jorge de Sena“).

Além da conhecida nota que Sena lhe apôs, transcrevemos também o elucidativo prefácio da edição italiana do livro.

 

I

Sobre esta praia me inclino.
Praias sei:
Me deitei nelas, fitei nelas, amei nelas
com os olhos pelo menos os deitados corpos
nos côncavos da areia ou dentre as pedras
desnudos em mostrar-se ou consentir-se
ou em tombar-me intentos como o fogo
do sol em dardos que se chocam brilham
em lâminas faíscas de aço róseo e duro.
Do Atlântico ondas rebentavam plácidas
e o delas ruído às vezes tempestade
que em negras sombras recurvava as águas
me ouviram não dizer nem conversar
mais do que os gestos de tocar e ter
na tépida memória as flutuantes curvas
de ancas e torsos, negridáo de pêlos,
olhos semicerrados, boca entreaberta,
pernas e braços se alongando em dedos.
Aqui é um outro oceano.
Um outro tempo.
Miro dois vultos na silente praia
pousada rente à escarpa recortada abrupta
que só trechos de areia lhes consente:
dois corpos lado a lado como espadas frias.
Ainda que desça a perpassar recantos
onde se acolherão mais corpos nus,
é um outro oceano, um outro tempo em outro
diverso em gente organizado mundo.
Ambíguos corpos, sexos vacilantes,
um cheiro de cadáver, que ao amor não feito
concentra de tristeza e de um anseio
de matar ou ser morto sem prazer nem mágoa.
Aqui mesmo de olhar-se um qual pavor gelado
pinta de palidez o rosto que sorria,
o corpo que se adiante ao gesto desenhado.
E nem mesmo de outrora e de outros mares
se atrevem a deitar-se imagens soltas
que uma vez alegria acaso tenham sido.
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado.

27/9/1972
 

II

Pargunto-me a mim mesmo — tão curioso
Como a criança a ser-se adolescente
que mal se entende em como os corpos agem —
a que diversos jogos ou não-jogos
se dão na intimidade estes que vejo
Inteiramente nus no areal da praia
entre uma escarpa que os esconde e o mar
que tudo aceita em ondas sucessivas.
Deitados no saber de ao sol queimarem
o mais oculto de si mesmos são
dois |ovens e uma jovem misturados.
Um dos rapazes se recosta contra o corpo
do outro rapaz que alonga dorso e pernas,
enquanto neste se debruça e dobra,
pendendo os frescos seios e os cabelos,
o corpo feminino associado aos de ambos.
Mas nada Indica excitação nos machos
de quem se pousa o sexo ou distendido pende
em de sereno indiferente como
a só vazia ausência de mistério
que a corpos dava um fervor quente e humano.
Suo, como deuses, animais sem cio?
Ou são, como animais, humanos que se aceitam?
Ela é de quem? De um deles só, dos dois?
Um deles será dela mas também do outro?
Será cada um dos três dos outros dois?
Ambos os machos serão fêmeas do oulro?
Ou só um deles? Qual dos dois? O que
sentado se recosta? O que deitado
aceita contra o seu o corpo recostado?
Os três são muito belos, e não só
daquela de escultura juvenil audácia
cifrada em curvas duras de suaves linhas,
mas igualmente da pureza límpida
que só em torno ao sexo se enegrece um pouco.
Quem se pergunta como eu me pergunto
confessa claramente que distância
existe entre o passado e este presente
assim deitado ao sol à beira de água
como estes três se deitam ou recostam
sem que sequer com as mãos os sexos toquem,
senão o de outrem, mesmo o de si mesmos.

4/10/1972
 

III

Sobre estas águas a que luz de inverno
dá não sombrias cores, ou nestas praias
em que uma brisa fria não levanta areias,
paira ou perpassa a calma e tamisada
serena paz das tardes infinitas.
Rareia só a gente num silêncio
de corpos isolados que deambulam
dispersos na distância ou que se deitam nela
a dissolver-se glabros na ondulada linha
de linhas sucessivas em que as algas secas
são como escuras crespas cabeleiras nuas
de sexos e cabeças de gigantes que,
sumidos no sem tempo, mais não deixam deles
que essa memória solta por gastado em águas
o corpo que o seu foi por sobre a praia em rochas.
Nesta nudez total do que ainda se demora
dispersamente humano ou imagem sobre-humana,
o que fisicamente não tem voz nem gestos,
ou nem mesmo de olhar se comunica além
de uma presença solta pelo espaço límpido,
é como se do mundo espelhos se partissem
que nem sequer em estilhas neste sol dardejam.
e como se Narciso os não tivera para
se contemplar lá onde as águas o chamassem
para afogar-se mesmo em olhos que o fitassem.

6/10/1972
 

IV

Escurobscuro cendriplúmbeo e vento
em de rajadas pálido céu-tempo
o sol esconde e luz só de calor
esfria de suspensa na manhã rompente
além do manto-sombra como espessa
apenas uma ausência de azul duro
que ardido ardente em torno à pele humana
a nua gente insectos voar fizesse
ao longo desta margem serranias
do mar lambidas em pequenas praias
onde pousaram de entre rochas forma
em por de areia o espaço procurado
a solidão sem nome de se verem nus
como rosados pontos distendidos
ou caminhantes pela de água-areia
fímbria molhada em que perpassam lentos
deambulando o quanto na nudez se move
cm danças do que preso se balouça e salta
a cada passo de hesitante voo.
Visão estival.
Mas hoje só memória.
E é tarde já, no dia como no ano,
até que voltem mais do que manhãs
de sucessivas em continua série
bastante a despertar o gosto habituado
em estios que hoje súbitos se acabam,
ou a – que é mais – a novos que antes nunca
se haviam visto assim por praias de si mesmos
morder a tentativa que até aqui os traga
à mesma solidão de humano corpo Inteiro
em vértice cruzando o céu, a terra, o mar,
numa diagonal de enviesados olhos
que a todos os perfure na inocência
com que se entregam de distância e luz,
virgens de nada menos de ali estarem,
ali se desnudarem e passarem nus.
Num outro tempo hão-de voltar ou não,
se como enxames ou marinhas aves
uma outra margem mais deserta encontrem
de humanidade que se não despindo
é como olhar que os veste das suadas roupas
com que de humana a carne se envergonha
o quanto desejou não ser vergonha ali.

7/10/1972
 

V

Ansiosamente que o sol nasça espero
olhando as nuvens pelo céu tão claro
que é ainda incerto o sol romper de entre elas.
Últimos dias estes são estivais
e um frio se desliza no ar imóvel
anunciando já os dias sucessivos
a só de luz não serem como inverno
(aqui, não mais inverno que este engano
bastante a remover desnudos entes
para dentro das roupas tão cingidas
que menos se adivinha o que cingir mostrara).
Assim, se o sol sair, talvez que seja
este hoje um pouco de calor por horas
de ardência e mar, e os poucos pertinazes
em não perdê-lo venham junto às águas
sempre outros que não voltam repetidos
passear no espaço os corpos invisíveis
no dia a dia que se abeira rápido.
Ainda de vê-los me contentarei,
neste país aonde a vida esconde
de todos e si mesma até um gesto vago
em que de alguém a natureza espreite
como uma confissão de estar-se nu
em pensamento ao menos (de quem olha
ou de quem por olhado se aumentara
daquela carne que saliente ou funda
se aponta a quanto se abra, ou se abre ao que se aponta).

10/10/1972
 

VI

Como de outrora deuses pelas praias
(ou na Camargue de hoje aldeões marinhos)
desnudos cavalgam rente às ondas
na húmida areia e vasta pela baixa-mar
deixada a descoberto com seus molhos de algas,
e as patas dos cavalos chapinavam
num mesmo brilho em que do sol fulgiam
claror e sombras nos divinos corpos
cujo cabelo voava como crinas, caudas,
dos animais, flutuando entre o limite de águas
e o céu que de centauros se recorta,
estes deslizam dois, silêncio não
mas pares de rodas de estrondeantes máquinas
ao próprio mar calando o som tranquilo,
centauros (sim e não) nessa unidade
entre nádegas nuas e mãos duras
e o mecanismo a que transmitem quanto
não de vida recebem de animais unidos
em pele contra pele, suor contra suor.
Chapinam chispas e cabelos voam,
mas doura o sol com brilhos de metal
as máquinas e os torsos que fulgiram
melhor noutro silêncio. Ainda resta,
e mais violenta, a graça de correr
montando-se o que corre às ordens do
impulso de existir-se em corpo e sexo
absorto no de voar pelos espaços
que de cortados ares se rasgam brisa.
Mas não existe já essa unidade
de ser-se em quatro patas duas pernas
mais que de prometido salta sexo
em movimentos fluídos e dormentes,
e que duro viria sangue e carne
(e não metal da máquina ruidosa)
a penetrar a carne entreaberta
e quando o centauro as quatro patas deixe
e se desmonte em duas mais terceira
erguida no ar como os cavalos erguem,
num sacudir de crinas, a cabeça
de olhos arregalados, boca espumejante,
e o corpo tombe horizontal no abraço
em que de humanas línguas e entrelaços
se façam deuses de que os homens sejam.
Como de outrora deuses — mas não deuses
nem mesmo aldeões de agora antigos tanto:
e não qual sendo humanos se desmontam,
as máquinas largando silenciosas.
Os corpos de esbelteza, ei-los tão frios,
ao se alongarem solitários tais
que aos sexos um tremor lhes não acode
de quando no metal eram vibrados,
e o mar que se ouve agora não convoca
à luz do sol os sonhos repousados
de que ligeiramente, só ligeiramente,
um pouco se engrossassem distendidos,
qual em leito de pêlos se destacam,
de que também mais claras pendem bolas
tão flácidas como eles, uns e outras
como que exaustos antes de uma posse
que só abstracta se cumpriu na força
de duas rodas cintilando acasos,
fortunas não cumpridas e em si mesmas
fechadas, prisioneiras, no volver velozes
por patas que não houve que ao destino cravem
na terra como em carne a suspensão do tempo,
apenas por instantes (mais não seja),
de ser-se um corpo visto que deseja sê-lo
no que de amor centauros se prometem.
Neste ficar de corpos e de máquinas,
cavalos não passeiam na memória
pastando com seus dentes e seus lábios
as ervas cujos dedos se levantam
mas nada tocam do que os não conhece.

23/10/1972
 

VII

Não sonharei da névoa cobre os montes
e o mar se faz de névoa sem distância
que o sol não rompe senão baço e pálido.
Uma friagem resta mesmo quando
a luz aquece esta paisagem parda
e a aclara em escarpas que o silêncio rói
num simples de cascalho tombam pedras.
Ao longe, entre os arbustros ressequidos
na areia sobrevivos onde o mar não chega,
o brônzeo e róseo de um desnudo corpo
as nádegas redondas e por certo duras
alteia em curvas luminosas como
o dorso e as pernas que ali estão também
na escura confusão de areia suja
e desses ramos nunca verdes antes.
Se se voltara para o sol volvendo
aquela frente que de ambíguos corpos
separa os que têm seios e de pêlos
na inserção das pernas só triângulo,
daqueles que só liso o torso têm
pendente a tripla parte que os diz homens
lá de onde os pêlos mais espessos sejam,
nada seria no deserto a imagem
da livre humanidade que é só carne
e encontro eventual de dois desejos
com que se esgrimem sexos ou penetrem
o que estrangule e precipite o fim.
Não há metamorfoses nestes mundo
que mesmo ardendo ao sol se esconde no
mostrar-se inteiro qual por outros mundos
apenas se entremostra o já desejo ansiado
as pernas apertando ou separando
na mesma força tensa, macho ou fêmea,
não existente aqui nas nádegas visíveis
ainda que tão duras de redondas
e do rosado brônzeo mal dourado ao sol.
Tão longe está de por onde outros passem,
nâo para que lá passem vendo ao longe
adivinhado corpo que se esconde
atrás de arbustros ressequidos. Longe
de todos e si mesmo. Um pobre corpo
esplêndido mas triste de o tão ser
que só distante aos ares se apresenta
como num espelho sem cristal a não
sequer o reflectir para lembrar-lhe
a própria imagem de que seja humano.
Mas aqui não. Aqui apenas é
na solidão do mundo a solidão buscada
para ter corpo inteiro sem que o saiba alguém,
nem mesmo ele saiba se é mulher, se é homem,
senão quando vestido for como lhe ordenam
que nas cidades vá como hábito de ser-se.

24/10/1972
 

VIII

Um fósforo lançado ao chão do estio seco
as sarças incendeia no caminho
que desce à beira de água.
Em vão tento apagar as chamas que se ateiam
por de estalidos fogo
a propagar-se pela encosta acima.
Lá em tudo as águas silenciosas, rochas,
areias em que corpos
jazem desnudos se queimando ao sol
na frigidez da aragem
que distraída pousa como os sexos dormem
nos ventres de que são portas cerradas ou
colunas que se ignoram.
Não descerei lá hoje, o incêndio queima
este descer incógnito e vazio à praia
algidamente ardente
a que formas de corpos vieram procurar
só uma inocência que não têm na vida.

Crepitam sarças mas os corpos não.

6/12/1972
 

Nota: Esta sequência de oito poemas, escritos, como se vê das datas, entre 27 de Setembro e 24 de Outubro de 1972*, e referente a praias desertas ou semi-desertas dos arredores de Santa Barbara, Califórnia, havia ficado Inédita (excepto o primeiro e o último dos poemas, aparecidos em NOVA, Inverno de 75/76) até que, em Junho de 1977, apareceu numa edição muito restrita, plaquete de luxo, publicada pela Editorial Inova, Porto. A sequência poderia ter sido incluída em Conheço o sal… e outros poemas, que continha poemas de 1972-73, cujo período cobria o da escrita desta sequência octogonal. Duas razões, porém, impediram o que chegou a estar planeado: a convicção do autor de que a sequência merecia a possibilidade de uma edição separada, que entretanto me foi oferecida e seria de grande luxo, e acabou sendo, com menos luxo mas igual distinção, por ser realizada, anos depois, por outro editor; e a consciência de que esta sequência de poemas longos, inserida naquela colectânea de poemas mais breves, a desequilibraria (não digo que a esmagaria, porque penso, contra uma que outra opinião, conter Conheço o sal dos poemas melhores e/ou mais importantes que já escrevi). Tratando-se do nudismo nestes oito poemas — tema que vimos absurdamente ligado em Portugal, por quem já foi distinto oposicionista e é esclarecido espírito, à pornografia e ao aborto, questões inteiramente diversas — cumpre dizer que, conquanto alguns teimosos, pelas praias mais perdidas da Califórnia, perslstam em desnudar-se, dificilmente o fazem ante o tremendo aparato de barcos da Guarda Costeira, helicópteros policiais, patrulhas pelas praias, etc, etc, uma colossal e contínua operação para-militar, custando fortunas, e destinada a impedir que alguém mostre o pirilau, os seios ou o triangulozinho, ou o rego inteiro das nalgas, a quem não se importa de os ver. Como se vê, o puritanismo, lá mesmo onde o autor se arrepiou de não ver sexualidade alguma, não desarma, ao contrário do que pensam os que sempre imaginam a América dissolvida em horríveis decadências. Infelizmente, os reaccionários vigiam… — e estes poemas já quase são história antiga, se eles ganham.

1977
 

* JS refere as datas dos poemas de modo mais preciso quer no Prefácio abaixo transcrito, quer na edição isolada, da Ed. Inova (Porto, 1977), onde se lê: “Esta sequência de oito poemas, referente a praias desertas ou semidesertas dos arredores de Santa Bárbara, Califórnia, foi escrita, como das datas se vê, entre 27 de Setembro e 24 de Outubro de 1972, sete dos poemas, aos quais, em 6 de Dezembro desse ano, um último poema veio juntar-se.” (Poesia III, edições 70, 1978, p.263)

 

 

Prefácio à edição italiana* de Sobre esta praia…

Esta sequência de poemas foi escrita, sete deles, entre fins de Setembro e fins de Outubro de 1972, e aos sete veio juntar-se, em Dezembro desse mesmo ano, o oitavo e último do conjunto. Escritos assim há cinco anos, só vieram a ter publicação, e em edição restrita, em Junho deste ano de 1977, em que escrevo, para elucidação deles e dos leitores italianos que eles vão ter em tradução, estas breves linhas. Não é que poemas — para que leitores de poesia os entendam e amem — necessitem de explicações fora do propósito; e, sendo erótico como é, muito do que estes poemas são senão tudo, as explicações são mais do que despropositadas: poesia e ero-tismo constituem uma equação que toda a gente dotada de sexo, inteligência e sensibilidade não só pode como deve resolver, ou não vive por certo, ou não viveu nunca, ou ainda não começou a viver. As explicações são de outra ordem muito mais referencial e social, digamos. Em Setembro de 1972, havia dois anos que eu me transferira do Norte do Middle-West dos Estados Unidos para a Califórnia que é, ou era em sentido mais amplo, um outro mundo, inteiramente diverso do resto da América. É possível que a Flórida tenha o mesmo carácter irreal, de cenário hollywoodesco, sem que tenha a magnificência natural das praias, das escarpas abruptas sobre elas, e das montanhas da Califórnia. Mas eu, que em doze anos de Estados Unidos os tenho percorrido em tantas direcções e visitado tantos lugares, nunca fui à Flórida, e francamente não tenho vontade nenhuma de ir, para contemplar hotéis gigantescos ou colmeias de apartamentos medíocres, à beira de praias que parecem artificiais (ou o são), ou de pantanais imensos, aonde apodrecem lado a lado velhos reformados que se aquecem ao sol, e crocodilos não menos egoístas do que eles.

Se viajei e viajo muito pela América, em 1970 mudei-me de um habitat que era planura com lagos e um puritanismo equilibrado por muito catolicismo, o Wisconsin, para esta costa do Pacífico, aonde o clima não conhece Inverno por mais que algum frio, e as escarpas formam uma continuidade interminável de pequenas enseadas ou longas praias, muitas das quais distantes ou encobertas das vistas de quem vive perto ou passa na estrada mais próxima. Isto, uma certa liberdade de costumes, e o ambiente de rebeldia dos anos 60, criou, mais do que antes, o culto do nudismo, praticado por estas praias adiante. O desnudar-se alguém está perfeitamente certo; e não vejo mal algum na dialéctica implícita em que quem se desnuda conta que alguém o veja, como quem desce a uma praia que possa ser de nudistas sabe que poderá ver alguém nu — tal dialéctica é triste pensarmos que séculos e séculos de repressividade lhe roubaram a luz do sol ou o ar livre, quando o pudor não é o contrário disso, por mais que ladrem os moralistas, mas a aceitação disso mesmo sem exibicionismo mórbido que só a repressão criou (algum exibicionismo sempre foi, a todo o nível animal ou humano, parte da dialéctica erótica). Não pensaram nunca assim os puritanos de todas as cores e feitios, que só parecem ser maioria neste mundo, porque jogam com aterrorizara hipocrisia de imensa gente que não pensa como eles, mas não tem coragem de levantar a voz, quando se levanta a repelente gritaria dos castradores, religiosos ou laicos, que secularmente se empregam em reprimir nos outros o que temem em si mesmos. Já em 1971-72, se alguém passeava ou se demorava por essas praias semidesertas, percebia que barcos da guarda-costeira, um que outro aviãozinho, etc, passavam insistentemente em frente ou por sobre elas; e havia, é claro, as queixas indignadas de umas quantas criaturas pudibundas que vinham de binóculo, escondendo-se como podiam, à beira das escarpas observar os corpos nus, e corriam depois à polícia a manifestar a sua indignação. A polícia, um dia ou outro depois, descia em pequenos grupos à praia (um grande assalto, às vezes por uma escarpa aonde não há mais que um perigoso caminho estreito, não é inteiramente possível), as pessoas viam-na, vestiam um calção a tempo, etc, e não acontecia nada. Mas o caso é que os castradores precisam das polícias, e as polícias precisam deles, desde que o mundo é mundo. E, no mundo do puritanismo, o “vício”, a “desvergonha”, a “perversão”, etc, são coisas tidas por mais horrendas do que matar o nosso próximo a tiro (o que toda a gente, e a polícia ainda mais, é livre de fazer, havendo ocasião). Logo, os castradores começaram a multiplicar as queixas, e as polícias a multiplicar os assaltos. E chegou-se, contra desnudas criaturas que não tinham na pele um bolso para uma arma, a concentrar exércitos de helicópteros, polícia a cavalo, etc, enfim uma fortuna que se não gasta a liquidar o comércio das drogas, para acabar com o nudismo das praias, esse horrível crime contra a decência, tanto mais que, sem dúvida, actos sexuais se praticavam lá onde as pessoas se deitavam nuas (como se não pudessem praticá-los vestidos, que é o que a maioria da juventude americana, masculina ou feminina, teve como iniciação no banco traseiro do automóvel)… A seguir, as municipalidades começaram a ceder às pressões desses grupos de pressão, e a aprovar leis proibindo nudismos nas praias da área. Os nudistas mais convictos fazem-se prender, para levarem a questão aos tribunais, aonde o sistema judiciário norte-americano pode dar imprevisíveis resultados favoráveis. Mas a tendência actual é para a repressividade, com tremendas caçadas às prostitutas de rua, nas grandes cidades, etc, em paralelo com tudo isto. O trágico é pensar-se que o norte-americano pratica o pecado sem prazer, com a mesma seriedade com que é ferozmente puritano; e assiste a um filme da mais completa e real pornografia com a mesma atenta imobilidade com que assistiria a uma douta conferência, com projecção de slides, sobre a arte de fazer amor com invejáveis instrumentos. E, portanto, numa praia de nudistas, qualquer voyeur se arrisca seriamente, tal como qualquer exibicionista não se exibe para mais do que o próprio corpo indiferente, exausto do esforço de despir-se em público. E isto quando, naqueles meus anos gélidos de universidade nórdica, no Wisconsin, a piscina da puritaníssima universidade não permitia que os sexos se juntassem, pela simples razão de ser proibido usar-se calção de banho sequer; só nu alguém podia banhar-se ali… Contradições? Não. Mas o país que tem em horror os órgãos masculinos de um machismo obsessivo, inventado por mulheres frígidas que são mães-harpias. Nem todos são assim, felizmente: mas os apóstolos que gritam, os que intimidam os políticos e a polícia são isto ou filhos disto, ou os pais daquela juventude de sexo sem sexo, que se alonga nesta minha sequência de poemas.

Santa Barbara, Novembro de 1977
 

 

* Su questa spiaggia foi publicada em Roma, em 1984 (pela Associazione Culturale “Portucale”), em tradução de Carlo Vittorio Cattaneo (que traduziu este prefácio com o título de “Ai lettori italiani”) e de Ruggero Jacobi. A introdução foi assinada por Luciana Stegagno Picchio. (Poesia e Cultura, Porto, Caixotim, 2005, p. 199-202)

 

Leia mais:

As cantigas de D. Urraca e outros poemas medievais

Nome comum na Península Ibérica ao longo de toda a Idade Média, Urraca é uma personagem recorrente na escrita de Jorge de Sena. Além da participação em O Físico Prodigioso, ela já aparece numa cantiga bastante anterior à novela, escrita em 1942. Na Espanha do pós-guerra, a partir de 1948 Dona Urraca passa a ser personagem também de outro Jorge (pseudónimo do autor de quadrinhos Miguel Bernet), que a transforma numa espécie de bruxa, cruel, sarcástica, vestida sempre de preto e com um guarda-chuva como arma.

Marcas de ambos os Jorges, a ironia e o humor negro podem ser vistos na antologia a seguir, especialmente nos poemas acerca de Dona Urraca, mas não vêm sós – têm por companhia os exercícios senianos de experimentação da estética medieval, em seus componentes de estrutura, ritmo e linguagem. Todos os poemas abaixo foram publicados em Visão Perpétua (1982), inclusive os que já haviam aparecido anteriormente em O Físico Prodigioso (escrito em 1964 e publicado em 1977). 

 

* Cantiga Dita de Escárnio
* “Ao rio perguntei”
* “Ao castelo o cavaleiro”
* “D. Urraca tem um físico”
* “Morra o bispo e morra o papa”

 

Cantiga Dita de Escárnio

Dona Urraca tinha dentes
afiados e compridos
Ai minha vida!
Com eles serrados rentes,
os dias não eram idos.
Ai minha vida!

Vinham dias após dias,
as guerras não se cansavam.
Ai minha vida!
Cansaço, tu não fugias…
e com fome, te compravam.
Ai minha vida!

Teimavam luzes acesas,
mesmo na chuva pegada
Ai minha vida!
Havia prados, represas
de ternura desolada.
Ai minha vida!

Coragem, manhã, coragem;
as noites cortam-se à faca
Ai minha vida!
Não pagarás mais portagem
aos dentes de Dona Urraca.
Ai minha vida!

13/5/1942

 

“Ao rio perguntei…”

Ao rio perguntei por meu amigo
aquele que há tanto é partido,
e por quem morro, ai!

Ao rio perguntei por meu amado
e u será que ele se há banhado,
e por quem morro, ai!

Aquele que há tanto é partido
u lavou triste seu corpo velido,
e por quem morro, ai!

Aquele que há tanto é longado
e u será que se foi lavado,
e por quem morro, ai!

Ao rio perguntei por meu amigo
e u se lavou de dormir comigo,
e por quem morro, ai!

Ao rio perguntei por meu amado
e u se lavou de nosso pecado,
e por quem morro, ai!

E u se lavou de dormir comigo
e seu retrato foi nas águas vivo,
e por quem morro, ai!

E u se lavou de nosso pecado,
aquele que há tanto é longado,
e por quem morro, ai!

5/1964

 

“Ao castelo o cavaleiro”

Ao castelo o cavaleiro
vinha vindo sua via,
sem saber que procurava,
nem saber que encontraria.
As armas eram de ouro,
a lança na mão trazia.
Fechadas eram as portas,
mas co’a lança já batia.
As salas eram escuras,
e ninguém nelas vivia.
Só na torre uma princesa
esperava e gemia.
Prisioneira ali ficara
à espera de quem viria,
sem dama que a cuidasse,
ou donzelas e honraria.
Com a lança o cavaleiro
contra as portas investia.
Sentindo as portas forçadas
a princesa gritaria,
se não fora a liberdade
que a lança lhe prometia.
Já se rompem essas portas
com que o pai a defendia
dos homens e suas lanças
que mais que tudo el’ temia.
Mas este de lança erguida
já está na sala sombria.
E pela escada da torre
logo logo ali subia,
ao encontro da princesa
de que ele não conhecia.
Ao cimo, ouvindo seus passos,
[já] a princesa tremia,
e sua lança rebrilhante,
antes de o ver, ela via.
E cega de seu esplendor
aos braços dele corria,
sem contar que a lança em riste
já nela se cravaria.
Mortalmente trespassada
nos braços dele caía,
e morrendo e suspirando
estas palavras dizia:
De longe vinhas, senhor,
de tão grande valentia
para matar-me de morte
que o teu amor não sabia.
Donzela tão bem guardada,
para ti me guardaria,
que nestas salas escuras
só por amor eu vivia.
Descai-lhe morta a cabeça,
mais palavras não diria.
E ao lado da suja lança
o seu sangue refulgia.
Olhando-a morta e donzela
nas lajes em que a estendia,
o cavaleiro jurou
que nunca mais forçaria
as portas desses castelos
co’a lança que quebraria.
E os pedaços da lança
que mais que tudo ele queria
enterrou com a princesa
na cova que já lhe abria.
E triste o triste partiu
para seguir sua via
até ao negro mosteiro
em que p’ra sempre estaria.
Mas da cova nascem rosas
que ninguém colher podia
sem que a mão lhe mirrasse
no ramo que se partia:
rosas de sangue e de leite
que só a terra bebia.

5/1964

 

“D. Urraca tem um físico”

Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.

Dona Urraca é boa dama
para as donzelas que tem.
Quando elas adoecem
logo o físico ali vem.
Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.
Põe o gorro na cabeça,
não se vê como está nu.
Mas ao dar a medicina
é como tutano cru.
Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.
Físico prodigioso,
que tudo cura por bem.
Mas doenças de donzela
el’cura como ninguém.
Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.
E dor’s de mal maridada,
Dona Urraca que o diga.
Pois antes que el’apareça
aqui se acaba a cantiga.
Dona Urraca tem um físico…

5/1964

 

“Morra o Bispo e morra o Papa”

Morra o bispo e morra o papa,
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras,
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde,
maila toda fidalguia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco,
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos,
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher,
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante,
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente,
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!

5/1964

Vilancetes

Forma poética comum no Renascimento Ibérico, o vilancete é um poema construído em medida velha e a partir de um mote de dois ou três versos. Quando o último verso do mote é repetido no último verso do poema, temos um vilancete perfeito.

Homem de vocação renascentista, ainda que em pleno século XX, Jorge de Sena experimentou a forma algumas vezes. Todos com o mesmo título (roubado à forma, à guisa de rótulo), dois perfeitos e um imperfeito, eis os vilancetes senianos:

 

Vilancete

No instante da partida
há sempre uma demora
não do tempo – da vida.

Na verdade, não chora
quem sabe o espaço e o casto
abraço dessa hora:
instante só mas vasto
e ausência concebida.
Se ninguém deixa rasto
de verdade perdida,
tenuemente se cora
o escasso perfil gasto:
não do tempo – da vida.

13/7/46

(Pedra Filosofal, Poesia I)

 

Vilancete

Teus olhos deste: não queiras
outra esp’rança, outras maneiras
do amor buscado e perdido.

Olhando os corpos que passam,
olhando os olhos num lance
em busca de outro relance
da mesma sede… Não queiras
prender-te aos gestos que façam.
Teus olhos deste: não queiras.

Logo depois e mais tarde,
na sede sempre mais louca,
nenhuma imagem não arde,
todas se esfumam ligeiras,
nada lembras… E é tão pouca
outra esp’rança… outras maneiras!

Olhando os olhos num lance,
a vida entregas, vencido,
em busca de outro relance
do amor buscado e perdido.

23/8/47

(Post-Scriptum, Poesia I)

 

Vilancete

– Meu corpo, que mais receias?
– Receio quem não escolhi.


– Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
o corpo torna-se inteiro,
todos os outros ausentes.

Os olhos olham no vago
das luzes brandas e alheias;
joelhos, dentes e dedos
se cravam por sobre os medos…
Meu corpo, que mais receias?

– Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
me lembram quantos perdi
por este outro que terei.

23/12/49

(Pedra Filosofal, Poesia I)
 

Depois do 25 de Abril

Cidadão brasileiro vivendo nos Estados Unidos, Jorge de Sena recebeu a notícia do 25 de Abril como o intelectual português que era: com euforia no primeiro momento, logo substituída pelas dúvidas do espírito crítico. Da feliz utopia de uma nação livre, à constatação de que muito trabalho restava por fazer, a poesia de Sena conclui: “quem te amar, ó liberdade, tem de amar com paciência”.

 

* “Nunca pensei viver…

* “Com que então libertos, hein?…

* Poema de 28 de Maio ao contrário

* Cantiga de Maio

* Cantiga de Junho

 

Nunca Pensei Viver

Nunca pensei viver para ver isto: a liberdade — (e as

promessas de liberdade) restauradas. Nâo, na verdade,

eu não pensava — no negro desespero sem esperança

viva — que isto acontecesse realmente. Aconteceu. E

agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura, tantos se

exilaram ou foram exilados, tantos viveram um dia-a-

dia cínico e magoado, tantos se calaram, tantos

deixaram de escrever, tantos desaprenderam que a

liberdade existe — E agora, povo português?

Essas promessas — há que fazer depressa

que o povo as entenda, creia mais em si mesmo

do que nelas, porque elas só nele se realizam

e por ele. Há que, por todos os meios,

abrir as portas e as janelas cerradas quase cinquenta anos

E agora, meu general?

E tu povo, em nome de quem sempre se falou, ouvir-se-á a

tua voz firme por sobre os clamores com que saúdas as

promessas de liberdade? Tomarás nas tuas mãos, com

serenidade e coragem, aquilo que, numa hora única, te

prometem? E agora, povo português?

SB. 27/4/1974

 

Com que então libertos, hein?

Com que então libertos, hein? Falemos de política,

discutamos de política, escrevamos de política,

vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um,

essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho.

Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos

tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.

E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua

não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,

mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,

um boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.

Com o país dividido quase meio século entre os donos da verdade e do poder,

para um lado, os réprobos para o outro só porque não aceitavam que

não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua solidão

silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos de salamaleque,

há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política.

Não apenas pelo prazer tão grande de poder falar livremente

e poder ouvir em liberdade o que os outros nos dizem,

mas para o trabalho mais duro e mais difícil de — parece incrível —

refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só

da energia represa há tanto tempo. Porque é belo e é magnífico

o entusiasmo e é sinal esplêndido de estar viva uma nação inteira.

Mas a vida não é só correria e gritos de entusiasmo, é também

o desafio terrível do ter-se de repente nas mãos

os destinos de uma pátria e de um povo, suspensos sobre o abismo

em que se afundam os povos e as nações que deixaram fugir

a hora miraculosa que uma revolução lhes marcou. Há que caminhar

com cuidado, como quem leva ao colo uma criança:

uma pátria que renasce é como uma criança dormindo,

para quem preparamos tudo, sonhamos tudo, fazemos tudo,

até que ela possa em segurança ensaiar os primeiros passos.

De todo o coração, gritemos o nosso júbilo, aclamemos gratos

os que o fizeram possível. Mas, com toda a inteligência

que se deve exigir do amadurecimento doloroso desta liberdade

tão longamente esperada e desejada, trabalhemos cautelosamente,

politicamente, para conduzir a porto de salvamento esta pátria

por entre a floresta de armas e de interesses medonhos

que, de todos os cantos do mundo, nos espreitam e a ela.

SB, 2/5/1974

 

Poema de 28 de Maio ao contrário

Gigante foi a luz que acesa se estendeu por sobre as

trevas de um povo prisioneiro.

Ninguém esperava que no primeiro impulso

de um movimento militar se abrissem todas as janelas

e todas as portas. Mas abriram-se e por elas a luz e

as vozes foram restituídas.

Todos agora, exército e povo, os militares e os politicos, e

quantos nunca pensaram que a política é coisa

de todos os dias ter de aprender-se a ver, a falar

e a ouvir, lá onde na caverna

só sombras de fantasmas existiam.

Todos têm de aprender a governar e a governar-se n’alma

e a fazer governo a liberdade e as vozes e o

direito de existir-se à luz do dia

como gente viva num país que é ela.

Todos têm de aprender que a liberdade não existe

apenas porque é dada, pois pode ser tirada, ou

apenas porque é conquistada, pois pode ser

licença em que não reste senão ela perder-se. Têm de

aprender que não pode ter-se num só dia

o que se perdeu em décadas. E que a Justiça

é a Liberdade que pensa mais nos outros que em si mesma.

Santa Bárbara, 28/5/1974

 

Cantiga de Maio

Da prisão negra em que estavas a

porta abriu-se p’ra rua. Já sem

algemas escravas, igual à cor que

sonhavas, vais vestida de estar nua.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Na rua passas cantando, e o

povo canta contigo. Por onde

tu vais passando mais gente se

vai juntando, porque o povo é

teu amigo.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Entre o povo que te aclama,

contente de poder ver-te, há gente

que por ti chama para arrastar-te na

lama em que outros irão prender-te.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Muitos correndo apressados

querem ter-te só p’ra si; e gritam

tão de esganados só por tachos

cobiçados, e não por amor de ti.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Na sombra dos seus salões de

mandar em companhias,

poderosos figurões

afiam já os facões

com que matar alegrias.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

E além do mar oceano o maligno

grão poder já se apresta p’ra teu

dano, todo violência e engano,

para deitar-te a perder.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Com desordens, falsidade,

economia desfeita; com

calculada maldade, promessas de

felicidade e a miséria mais

estreita.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Que muito povo se assuste,

julgando que és culpada, eis o

terrível embuste por qualquer

preço que custe com que te

armam a cilada.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Tens de saber que o inimigo

quer matar-te à falsa-fé. Ah tem

cuidado contigo; quem te

respeita é um amigo, quem não

respeita não é.

Liberdade, liberdade,

tem cuidado que te matam.

Santa Bárbara, 4/6/1974

 

Cantiga de Junho

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Sonhou-se tanto contigo sem saber

como saber-te, que é muito grande o

perigo de não ver o sonho antigo nos

braços em que hão-de ter-te.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Alguns tão livres te querem que

só desordem restava. Outros tal

ordem preferem que de tanto que

a referem o velho tempo voltava.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Tantos, tantos se proclamam teus

amantes confessados, que os que em

verdade te amam mal se ouvem

quando te aclamam, nem por teus

serão contados.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Riqueza querem de ti, sem pensar

como fazê-la. Mas muitos que

sempre vi engordando por aí são

quem contínua a tê-la.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

E a paz? Contaram contigo para

assiná-la num instante. Mas quem é

mais teu amigo sabia-a duro castigo

que só o tempo garante.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Independência, há que dá-la às

colónias de ultramar. Mas uma

coisa é falá-la e muito outra o

prepará-la já tendo que governar.

Quem te amar, õ liberdade, tem

de amar com paciência.

Amem-te quantos não pedem que

sejas mais que teu ser. Amem-te

quantos te medem pelo que eles

mesmos concedem à tua força de

viver.

Quem te amar, ó liberdade, tem

de amar com paciência.

Cada dia há que fazer-te contra os

costumes de outrora. Cada dia há

que entender-te, que perder-te e

reaver-te numa luta a toda a hora.

Quem te amar, ô liberdade,

tem de amar com paciência.

Para a nação reformar,

trabalhem governo e povo. E

que ajunta militar lhes proteja

o caminhar: liberdade, país

novo.

Santa Bárbara, 29/6/1974

 

25 de Abril: dois poemas e dois telegramas

O 25 abril celebrado em dois tempos, dois olhares: na euforia da hora ansiada e na disforia do pouco depois…

 

 

CANTIGA DE ABRIL

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

26-28(?)/4/1974

 

NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO…

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas – armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del’ falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa – defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).
E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

(Fev. 1976)

 

Telegrama 1:

General Spínola
Presidência da República
Lisbon Portugal
Na hora em que assume presidência república é V. Exa. símbolo das liberdades reconquistadas e garantia da democracia futura. Calorosas felicitações

Jorge de Sena

(Abril, 1974)

 

Telegrama 2:

General Spínola
Presidência da República

Reencontrados agora no Porto, após anos de exílio que viveram no Brasil, os abaixo-assinados saudam V. Exa. nesta hora em que o reconhecimento do princípio de independência dos povos ultramarinos, abre uma nova era da História portuguesa.

João Sarmento Pimentel
Jorge de Sena
Francisco Sarmento Pimentel

(Setembro, 1974)

Há 50 anos: poemas de 1961

O ano de 1961 foi extremamente produtivo para a poesia seniana, em todas as suas vertentes. Abaixo o índice de primeiros versos desses poemas que completaram 50 anos em 2011. Em destaque os links para os já editados no site.

Desse conjunto, destacamos aqui 5 exemplos, representando as múltiplas (e concomitantes) facetas de Jorge de Sena: o diálogo com as artes em suas Metamorfoses, o lamento do exilado, o trabalho com a linguagem nos poemas “incompreensíveis”, a reflexão sobre a música, a percepção do tempo como História, Ciência e acima de tudo experiência humana.  

 

Índice:

 

"Instalada a justiça, ..." -------------------------------------------- ?

"Quem muito viu, sofreu, ..." ------------------------------------- ?

"Tronchela adúvia corimata, ..." --------------------------------- ?

"De que tristeza me farei liberto" ---------------------------- 21/2

"Do deus da lira e dos ladrões, ..." --------------------------- 9/3

"De morte natural nunca ninguém morreu" ---------------- 1/4

"Como balouça pelos ares no espaço" ---------------------- 8/4

"Suspensa nas três patas, ..." --------------------------------- 8/4

"Pandemos" -------------------------------------------------------- 6/5

"Anósia" ------------------------------------------------------------- 6/5

"Urânia" ------------------------------------------------------------ 14/5

"Em teu ultimo poema, ..." ------------------------------------ 15/5

"Água da vida, em memória" ---------------------------------- 2/6

"...Mas, meus senhores, ..." ---------------------------------- 10/6

"Estes cânticos ouço repetidamente" ---------------------- 11/6

"Entre o céu e a terra passam" ------------------------------ 11/6

"Os deuses, ladrões" ------------------------------------------- 11/6

"Podereis roubar-me tudo" ------------------------------------ 11/6

"Porque não espero de jamais voltar" ---------------------- 11/6

"Amátia" ------------------------------------------------------------ 20/6

"Como me alongo, cansado..." ------------------------------- 22/6

"Não me peças, ó vida, ..." ------------------------------------ 23/6

"Senhor: não peço mais..." ------------------------------------ 23/6

"Na transtornância impiala..." ---------------------------------- 5/8

"No planalto da Pérsia," ----------------------------------------- 4/9

"Esta é a ditosa pátria..." --------------------------------------- 6/12

"Entre a esquadra que aclama" ----------------------------- 23/12

"Por este anoitecer, o ano acaba" -------------------------- 31/12

 

Poemas selecionados:

* “O Balouço” de Fragonard (Metamorfoses, Poesia II) – 08/04

* Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos (Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III) – s.d.

* Colóquio sentimental em duas partes (Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III) – s.d.

* Estes cânticos ouço repetidamente (Visão Perpétua) – 11/06

* Por este anoitecer, o ano acaba (40 Anos de Servidão) – 31/12

 

“O Balouço” de Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!

 

Quem muito viu,…

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi-

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
qundo o buscar, há-de encontrá-lo morto.

 

Colóquio sentimental em duas partes

I

Tronchela adúvia corimata, que tuestes dilasta anquinudante,
furiça astria dova, retinuta, e quis? Nonória. A tutimão periva
a turidarta influva. Azis? Nocónia. Dimirita, aluina, dúria – oh
comisalva apene. Friscórida. Buliva? Nem ninúria. Que dívia alperidasta clido! Flara:
– Dumeste andorta oroladiara?
– Clande.
– I tru laridolosta zanque?
– Diata.
– Dileste me tisalva.

Aliara doriçara, tigorimenos. Erclusa atrisca duridanta,
merifluamos róvia. Diloguidermos:
– Verida turimana…
– Ciciarva…
– Ablera, ablera, diata.
– Anstria…
– Narva, adiarda, funje…
– Cerida!
Estuta. Nonôra dimirata.
II

Anaridassa, contrimat atuva, anadiramo trévia palpirada. Dimitidana
flurionca fliva. Mês conquiritanta nim puore avri discrote, undiva
aspranca fara, alima gêntia assunta etrétia i
vanta. Diloguidermos:
– Memorta oroladiara?
Nunda siventa ura pradona.
– Ovi trasida medirenta?
– Niata.
– Clito…
– Niata ciciarva anstria.
Arnuda transparara instívio. Impossidanta. Despridova, despridima, deses cara. Anfúria?
Estruta dimirasta.

 

Estes cânticos ouço repetidamente

Estes cânticos ouço repetidamente.
Hoje, atravessam o ar chuvoso e baço,
as ruas desertas, as janelas fechadas da manhã de domingo.
Não são a várias vozes do coro que os canta,
mas num cadenciado uníssono de fiéis devotos
fazendo por chegarem todos em congregação
juntos às Portas do Céu.

Ô-ó-ô-ó-ó…. Ô-ó-ô-ó-ó…
I-i-i-á-á… Ê-ê-ê-é-é…
Ô-ó-ô-ó-ó… Ô-I-ô-I-ô-ó-ó…
Ô-ó-ó-ó-ó…

E recomeçam teimosos, persistentes,
enquanto lá longe, em baixo, os sinos tocam
nas torres que não cantam, para o sacrifício
a que os fiéis assistem ante o cadafalso,
e curvam a cabeça silenciosos,
no momento da Transubstanciação,
tementes de pensar com o Céu ali.

Aqui sentado, eu ouço-os, entrevejo-os,
e fito além-telhados a parda brancura
do céu que é nuvens encobrindo o Sol.
Um automóvel passa chiando na rua molhada.
Provavelmente há pendente do volante
um grupo de amuletos que chocalham
uns contra os outros no ar morno.

ô-ó-ô-ó-ó…. ô-ó-ô-ó-ó…
ô-ó-ô-i-ó-ó… ó-i-ó-i-ó-ó…
O coro calou-se num estertor final.

 

Por este anoitecer, o ano acaba

Por este anoitecer, o ano acaba.
Cinzento e azul no céu por entre as árvores,
acaba o calendário. Muitos crimes dele
serão futuras efemérides nos outros
que, folha a folha, acabarão também.

Como anoitece igual este ano às noites
com que, dia por dia, o ano foi passando
gregorianamente. O mundo ocidental,
cesáreo, atlântico, ex-mediterrânico,
conta do Cristo. Mas os outros mundos

também contarão dele, quando este ocidente
deixar de fingir dele — os deuses morrem —
para funções de calendário laico.
O tempo passa, os calendários mudam,
na vida e morte as horas se sepultam.

E, no entanto, o tempo vai connosco;
é desta terra só, e só por haver outros
que de outros astros são por haver este
diverso tanto a cada movimento.
Por este anoitecer, o ano acaba.

 

Poesia Carnavalizante II

Ainda em ritmo carnavalesco e carnavalizante, mais alguns exemplos na poesia seniana:

 

Goya, "O Enterro da Sardinha"
Goya, “O Enterro da Sardinha”

* Vigília Cívica (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)

* Homenagem a Tristan Tzara (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)

* La dame à la licorne (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)

* “O Beco sem saída, ou em resumo…” (de Exorcismos, Poesia III)
 

Vigília Cívica

No planalto da Pérsia,
enquanto Quetzalcoatl se espaneja, arrasta a cauda,
eles votam pela adopção da ementa parlamentarista.
A ementa é:
sopa de nabos, feijão guisado, arroz com carne seca.
Seca? Sim, minha senhora,
é na secura que os dentes encontram, exploram
e desenvolvem
as mais lídimas virtudes mastigativas.
Acredita V. Exa., senador, na selecção natural,
ou prefere, peito de rola, o outro mundo como
vontade e representação?
Eu sei, Excelência, que a resposta é impossível,
que o vento sopra no altiplano irânico
por uma forma que a serpente pode –
– o quê? Minha senhora, que entende de serpentes,
a senhora, emplumadas? Não
interrompa as meditações patrióticas dos sábios da Grécia
que eram sete e não houve, que se saiba,
outros.
Sirva-se V. Exa., senador, e a madame
também,
deste precioso guisado. O nabo é,
como diria Freud, um símbolo.
Acreditam V. Exas. no inconsciente coletivo? –
– pode a serpente levantar voo,
com as penas adejando e a cauda pendurada.
Nem sempre, eu sei, minha Senhora; mas,
em sopa cozinhada a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode. Recorda-se, pai da pátria,
da sua juventude no planalto da Pérsia?
E de Édipo (o complexo), e de Jasão (o velo),
e de Ulisses (as sereias), naquela madrugada em que,
com ligeiro atraso, almoçámos juntos?
A cotação do café firmava-se nos astros
que Zaratustra lia apaixonadamente.
Foi nesse almoço que, na mesa ao lado, o cardeal falou,
citando CIF New York o Tigre de Bengala.
Creia, minha senhora, que de Ganimedes
nunca mais se soube, tranquilize
o coração maior que o mundo. Sobremesa?!
Mas como, senador, esta madama,
quando as serpentes passam exibindo as plumas,
deseja ainda pêssego em calda?!
O seu voto, senador, e o delas,
nesse altiplano irânico, Pamir, tecto do mundo,
são a derradeira garantia das instituições.
Mas pêssego, madame, com feijão
guisado e arroz com carne seca,
não é possível. Lembre-se de Ísis.
Repita a sopa. De nabo. Eu sei,
minha senhora, mas, a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode.

4/9/1961
 

Homenagem a Tristan Tzara

Que mundo este. Morre a Princesa do Traseiro-ao-Léu,
Bacoreca Sinfrásia d’Aldipopes. Morre o tribilinto asfásico
dourada pluma de popotássicos futebóis tintáceos.
Ascende no ar um cheiro a Presidente. E a Imprensa
cai em delíquio de pernoca e bunda. Ou pavelitches
mandam cantar missas de Requiem. Ou tam tam tam tam tam
pum. Mas tu, Tzara, morreste há ano e meio,
e é no acaso de um jornal que o sei “des poètes” o
jornal. Il y a des poètes, voyez-vous? Et ils ont
un journal. Oui, mais ma tente, elle tricote. Método Berlitz. Comme] il y a tantes, honni soit qui mal y pense.
Eras romeno e de monóculo. A România ou Roménia,
como sabem todos os jornalistas cultos, é
um país latino embora eslavo, oh coisa estranha.
Mas em francês é que escrevias das aventuras celestes
do Senhor Antipirina, por aquele tempo em que,
abrindo um dicionário, encontraste DADA.
As palavras ao acaso, os recortes de jornal num chapéu
(como a imprensa se tornou dada, não é verdade, e sem chapéu),
e o mundo então estourando dia a dia em lama da Flandes ou
dos Lagos Masúrios. Mas tu, em Zurique, na montanha mágica
que havia entre os montes sem magia mais que a das vaquinhas
(que todas são suiças), transformaste em loucura calculada
a tua nostalgia de romântico reclinado “onde bebem os lobos”,
e o teu sangue de “homem aproximativo”, como todos os homens
que se prezam de ser DADA, com chapéu, a única coisa sensata
de um mundo em petição de miséria. Depois
foi o surrealismo com o papa Breton, o sacristão Péret, o politiquelho Aragon,] Éluard-anjo-do-lar, Artud-a-fúria, o mártil Crevel, o bigodes
pré-franquistas Salvador Dali. E tu – poeta dadaísta, ali em francês
enquanto os outros estavam cavando a sepultura das Academias para] a fundação da grande Academia parisiense da poesie Frrrrrrrrçaise,] nouveau langage pour les prochains siècles: ó Racine: ó
pipoca saponácea de ceboso antraz. E haveria depois
o existencialismo (oh não de Malraux, não de Jean-Paul Sartre, mas] do bela letra pied noir si digne Albert Camus). E depois o
nouveau roman nouveau roman tão bem escrito oh nouveau roman.] Morreste há ano e meio, ou coisa assim. Ridiculamete,
como diz a notícia no melado tom do necrologio hipotético,
“quando o pai Natal enche de brinquedos as meias das crianças”.
Só te faltava esta para seres completo. Adieu, Tzara,
e que os antipirinas comovidos movidos vidos mu
te soltem sobre a tumba (Père Lachaise?) a gota militar
de um épico anúncio de jornal, como este:
“O armário de várias utilidades para o lar, solucionando
as medidas de espaço e de ambiente – 36 variações
à escolha” (CLIPPER dixit). Só 36? O Kamasutra! Adieu, Tzara.

1965
 

La dame à la licorne
Dona Semifofa erguendo o dedo
mindinho arqueado em asa sobre a asa da
chávena (ou xícara) disse: –
– Eu sempre soube que poetas não
são gente em quem confie uma senhora –
e num sorvinho delicado rematou
a mágoa de cinquenta primaveras.
O licorne, num doce balançar do chifre esguio,
gravemente assentiu,
um pouco perturbado
pela insistência obnóxia e recatada
com que a discreta dama confundia,
ou mais que a dama os olhos vagos dela,
o chifre legendário e o metafórico
que de entre as pernas longo lhe descia
ou já de perturbado não pendia.

Torcendo as ancas disfarçadamente
para encobrir das vistas semifofas
essa homenagem à inocência delas
(como o cavalheiro que pousando a mão
assim se esconde em pudicícia o quanto
não esconda muito mais que a discrição obriga),
D. Gil cofiou a capriforme pêra
e de soslaio viu que Dona Semifofa
do branco em ferro assento resvalava
para a verdura em que as florinhas eram
de cores variegadas, salpicantes.
D. Gil era o licorne, e disse com voz cava:
– Mas eu também, minha senhora, nunca
acreditei que de confiança eles fossem.
Se acreditasse, como não teria
a mágoa imensa de não ser centauro? –

No chão, erguendo as pernas, Semifofa uivou:
– Centauro, para quê? Não há centauros.
Licornes, sim, D. Gil, vinde a meus braços.

18/06/1967
 

“O Beco sem saída, ou em resumo…”

I
As mulheres são visceralmente burras.
Os homens são espiritualmente sacanas.
Os velhos são cronologicamente surdos.
As crianças são intemporalmente parvas.
Claro que há as excepções honrosas.

II
As pedras não são humanas.
Os animais não são humanos.
As plantas não são humanas.
Os humanos é que têm algo deles todos:
o que não justifica o panteísmo,
nem a chamada «Criação».

III
Humanamente feitas são as coisas,
e as ideias, as obras de arte, etc.
mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada
ou no Viet-Nam?

IV
Há por certo os poetas, os santos, e gente semelhante
(os heróis, que os leve o diabo)
– mas desde sempre, em qualquer língua,
qualquer das religiões (ilustres ou do manipanso),
fizeram o mesmo, disseram o mesmo, morreram igual,
e os outros que nascem e vivem e morrem
continuam a ser a mesma maioria triunfal
de filhos da mãe.

V
Que haja Deus ou não
e a humanidade venha a ser ou não
e os astros sejam conquistados (ou não)
apenas terá como resultado o que tem tido:
uma expansão gloriosa do cretino humano
até ao mais limite.

VI
A vida é bela, sem dúvida:
sobretudo por não termos outra,
e sempre supormos que amanhã se entrega
o corpo que já ontem desejávamos.

VII
O poeta Rimbaud anunciava o tempo dos assassinos.
Sempre foi o tempo dos assassinos
– e mesmo um deles é o que ele era.

VIII
Gloriosos, virtuosos, geniais,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Ignorados, viciosos ou medíocres,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Do primeiro, do segundo, do terceiro ou quarto sexo:
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter
– burros, sacanas, surdos, parvos.

IX
Canção, se te culparem
de infame e malcriada,
subversiva ou não,
ou de, mais que imoral, desesperada;
se te disserem má, mal inventada,
responde que te orgulhas:
humano é mais que pulhas
e mais que humanidade mal lavada.

15/10/1970

 

Leia mais:

Poesia Carnavalizante I

Tempo de carnaval: tempo do mundo às avessas, tempo de brincar com o sério, tempo de satirizar o instituído, tempo de dessacralizar mitos, tempo de desfazer limites e misturar opostos… Atrás de máscaras e fantasias, os cortejos liberam o interdito impondo a ordem da desordem… E o discurso poético, camaleônico em essência, poderia abdicar de sua potencialidade carnavalizante? Alguns exemplos na poesia de Jorge de Sena…

 

* Ode ao Surrealismo por conta alheia (de Pedra Filosofal, Poesia I)

* “Pot-Pourri” Final (de Arte de Música, Poesia II)

* “Dona Urraca tem um físico” (de O Físico Prodigioso)

* Hino dos Cocos (de Sequências)

 

 

Ode ao Surrealismo por conta alheia

Que levas ao colo, embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado

abomináveis trutas e outros preconceitos?

Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile

pespontado a verde com que limpas o suor, o sêmen, as fezes,

tudo o que abandonas, ofereces, vendes, expulsas, injetas,

convocas, reprovas, descreves, etc.?

Embalas e não respondes.

Temes a polícia, os tapetes, o capacho, o telefone, as campainhas

de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando

em por de baixo das roupas das outras que passam?

Temes as palavras?

Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,

satisfações apressadas em campos de arrabalde?

Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, os capelistas,

a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?

Que transportas ao colo

em silêncio e num xaile?

É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas? O mar? Irmãos?

Reivindicações? Um livro?

Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto? Um olhar?

Um quadro? Uma poesia lírica?

(Oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida)

 

24/09/1948

 

 

“Pot-Pourri” Final

Chegou e disse: – Caríssimo! –

Carissimus, carissimi, compositor de opereta

para violoncelo de igreja. Ergui

– oh – os olhos da persiana, e respondi:

– Cameta adinomata apropicterón –,

Sorriu e, lentamente, começou a despir-se.

Não direi que falámos. Nem que me despisse

eu. Para quê? Porquê? Adinomata.

Quando tudo acabou, para ganharmos tempo

era mister que falássemos. De quê?

Trifles, trifles. Bagatelles. Como

se conta assim a infância que não tivemos,

as estreias amorosas – tantas desde o bico do peito –

que não foram assim, os sonhos e amarguras

mais condizentes com o físico – não o nosso –

ao nosso lado. Nosso?… Meu, talvez.

De resto, a posse, ó cara, a posse,

não sei que seja: um gorgolejo interno?

Quem de nós dois se possuiu? Tolice.

Adinomata – e sussurrei, atento

aos dedos que avançavam, música.

Trifles, trifles, estou velho, meu amor,

para recomeçar. Amanhã. Ou antes,

dentro de uma hora ou duas. Conversar?

De quê? Porquê? Carissimus, carissimi.

Para quê Mozart? E Palestrina?

Missa do Papa Marcelo. Apropicterón.

Quão bagatelle! Avia-te. Cameta.

Sempre caro mi fu quest’ermo colle…

Ah, ritrovata, adonimata, adinimata!

Pff… Piazza d’Espagna.

Ave Caesar, morituri te salutant. Que bonito.

Andrócles, então, escuta, escuta,

converteu o leão ao catolicismo.

Romano? Pois se foi em Roma.

Tal como numa aurora que se estraça,

os homens mijam no recanto da praça,

avec l’assentiment des grands héliotropes.

Abre a boca e fecha os olhos. Isso.

Se o heliotrópio é cucurbitácea? Bissexuado?

Francamente, não sei. Engole. Esqueci a botânica,

pela mesma época em que – la plaza tiene una torre –

descri por completo das noções de posse.

Nil humani (ou vice-versa) a me alienum puto.

Não, não é palavra feia, é só latim.

Acredita. Compreendo. É melhor que tu saias

primeiro. Ou que eu saia,

primeiro. Não, combinar, para quê?

Não há como este acaso que jamais

repetirásse. Ass? Que jamais, repito,

se repetirá. Pensemos gloriosamente:

como éramos bem um para o outro,

como éramos bem um para o outro,

como éramos, não éramos, e bem,

a surpresa agradável de não sermos.

Undo this button. Thank you, adinomata.

Amanhã… se eu morresse amanhã…

O botão. São mais cómodos aqueles fechos

de correr. Mas arrepelam. Guarda esse botão,

contigo.

Addio! O “Mayflower” apita.

Ouvem-se as fanfarras do Novo Mundo (a sinfonia,

feita com temas do Velho). Vai, não percas

a passagem, as estribeiras, a cabeça:

as pradarias esperam-te.

Pasta nelas.

E, para mim mesmo, murmurei: Carissimi!…

29/2/1962

 

 

D. Urraca tem um físico

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

Dona Urraca é boa dama

para as donzelas que tem.

Quando elas adoecem

logo o físico ali vem.

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

Põe o gorro na cabeça,

não se vê como está nu.

Mas ao dar a medicina

é como tutano cru.

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

Físico prodigioso,

que tudo cura por bem.

Mas doenças de donzela

el’cura como ninguém.

Dona Urraca tem um físico

que cura toda maleita.

Quando Dona Urraca geme,

logo o físico se deita.

E dor’s de mal maridada,

Dona Urraca que o diga.

Pois antes que el’apareça

aqui se acaba a cantiga.

Dona Urraca tem um físico…

 

Hino dos Cocos

Nós os Cocos

estreptococos

gonococos

pneumococos

estafilo –

cocos somos

não queremos

outra terra

Viva a América!

penicilinas

estreptomicinas

cloromicetinas

tetraciclinas

só nos são dadas

em doses pequenas

que vamos comendo

dançando e bebendo

felizes contentes.

Enquanto duramos

doentes pioram

drogas se gastam

doentes se operam

drogas se injectam

e nós prosperando

e os hospitais

e os médicos idem.

Somos amigos,

somos consócios,

somos con-cocos,

viva a América!

12/08/1969

 

Leia mais:

Poemas Angolanos

Da visita de Jorge de Sena a Angola, 1972

* Aves na baía de Luanda

* Café cheio de militares em Luanda

* Foi há cem anos, em Angola

* Senhora da Nazaré em Luanda

* Na Igreja dos Jesuítas em Luanda

 

AVES NA BAÍA DE LUANDA

Cegonhas? São marinhas e se pousam
ora nas águas baixas, ou telhados
de cumeeira embranquecidas a pensamentos
de uma ave que medita intestinal
sobre as alfândegas da terra firme.

Pescoço curvo atrás de um longo bico
pairam-se lentas entre os seus dois pousos.
Água de espelho estanho sem reflexo.
Não creio que de imagens tão pernaltas
se adense por tranquila neste céu de névoas
que se concentram amarelas sobre
uma cidade agora boçalmente nova
onde não há lugar para cegonhas.
Cegonhas que não sejam – como podem
ficar nesta poeira de bancárias
e militares empresas que se espetam
em doze andares na névoa, em vez das casas
baixas e velhas, ao chão presas por
portas iguais de armazenar negócios
do patrão que por cima co’a família
tinha andar de sacadas em que recostar-se?

Cegonhas? São marinhas, e se pousam.
Luanda, 4/8/1972

 

CAFÉ CHEIO DE MILITARES EM LUANDA

O jovem Don Juan de braço ao peito
(por um dedo entrapado)
debruça as barbas para a mesa ao lado
numa insistência pública de macho
que teima em conversar a rapariga
(no dedo aliança, azul em torno dos olhos)
a escrever cartas e a enxotá-lo em fúria.

Um outro chega e senta-se de longe.
Cara rapada, pêlo curto, ombros erguidos,
é dos que o queixo pousam sobre as mãos,
e de entre o fumo lento do cigarro,
dardejam olhar fito para a presa
– é dele, é dele, os olhos dizem tesos.
Numa outra mesa, três outras fardas miram
de esguelha, enquanto falam vagamente atentos,
e os olhos ínvios de soslaio despem
a pouca roupa da que escreve à mesa.

Feito já seu papel para que conste,
oh ares de cavalão… outras à espera…
o Don Juan comenta pró criado a vítima,
saída num repente. Riem-se ambos.

Quando ela se ia embora, dois empatas
entraram e sentaram-se na mesa
do que ficara olhando o espaço aberto
pela partida dela. Conversam que ele não ouve.

Gingando a barba mais o braço ao peito,
vai-se o vencido (pagará uma puta,
para amanhã contar como dormiu com esta).

Os outros três, mais tarde, em casa, na retrete,
vão masturbar-se a pensar nela (e voltarão
amanhã ao café para contarem
de uma grande conquista que fizeram todos).

E aquele que – quem sabe – era a quem ela
acaso se daria (ou será que ele
é dos que só penetra com o olhar suspenso?)
foi quem não teve nada. Olhou demais,
e não saiu a tempo de escapar
à companhia idiota dos seus dois amigos.
Luanda, 4/8/1972

 

FOI HÁ CEM ANOS, EM ANGOLA

Minha avó subia de tipóia
de Mossâmedes para o planalto.
Dias e dias pela serra acima,
de acampamento a outro acampamento,
o esposo e os filhos dela noutras
tipóias pelos negros carregadas.
Ao lado dela, o chefe caminhava
de lança em punho. Conversavam ambos.
Uma figura estranha perpassou (quadrúpede?)
no mato poeirento e verdejante.
O que era aquilo? E o chefe respondeu
sorrindo levemente: – Aquilo é o diabo,
mas eu não tenho medo que não sou cristão – .
Enfim chegaram, professora régia
Como rainha se instalou. E o chefe,
tão agradado dela, não voltou
a comandar comboios de tipóias,
ficou vivendo co’a “senhora grande”,
Padre José da régia cardinala.
Caía a tarde um dia em rubros sóis
redondos no céu pardo. Minha avó,
sentada na varanda, conversava
com o chefe cachimbando acocorado.
Porque tão preguiçosos eram todos
os negros por ali? E o chefe disse:
– Senhora sabe que diferença que há
entre macaco e negro? Não? No tempo
em que chegou aqui primeiro branco,
macaco não falou, ficou calado.
Por isso não trabalha. Entende agora?
Sorriram-se entendidos um e outro.
Luanda, 5/8/1972

 

SENHORA DA NAZARÉ EM LUANDA

Em 1664, o governador destes reinos,
André Vidal de Negreiros (que nome,
ao fim de dois séculos do negócio
em vão visível no seu escudo de armas)
fundou esta capela. Os azulejos
representam a patada de D. Fuas
à beira do penhasco a que o demónio
pensava que o levava pra o deitar ao mar.
Ou do cavalo que estacou de espanto
e não se sabe se de susto ao ver
o cervo a despenhar-se das alturas,
se porque viu suspenso de entre as nuvens
o virginal clarão da mãe por obra e graça
do Santo Sprito em Roma agora banco.
Era devoto dela André Vidal,
embora este outro nome cheire a esturro
ardido noutros lumes.
Branca e de arcos,
pousou-a aqui à beira da Baía.

Luanda, 5/8/1972

 

NA IGREJA DOS JESUÍTAS EM LUANDA

Conversa a negra no recanto em sombra
da igreja tão de limpa restaurada.
No chão sentada e velha, se abre os braços
em frases de silêncio para o Cristo
que pende morto acima dela, imóvel
e silencioso. Que dirão os dois?
Qual a confusa indecisão que passa
angustia intimidade de sem línguas
nessa cabeça antiga de outra raça
e sobretudo de outros deuses que
falavam por sinais mas claras frases
como as sibilas feiticeiros sabem?
Na solidão vazia de seu espaço
em que de brancos Roma escureceu a luz
embranquecida de cacimbo e ardor
de longos rios, praias sinuosas,
e de planaltos as ravinas duras,
que deus pode inventar-se que não seja
dor de miséria de não ser-se, de não ter
de país a filhos a linguagem livre?
Que liberdade pede? Que morrer deseja?
Será que em frente do altar-mór não tremem
dentro da simples laje os ossos de
um Paulo Dias de Novais? Que de imbondeiros
os frutos como ratos suspendidos
ainda lhe roem um tutano seco
no fogo de queimadas e de incêndios
em que de povos só as cinzas ficam?
Porto, 24/8/1972

Desta vergonha de existir ouvindo

Um poema d’As Evidências no Portugal Democrático

O segundo soneto do livro As Evidências (1955) habitualmente não figura na listagem de “entradas” de Jorge de Sena no Portugal Democrático. No entanto, como lembra Douglas Mansur em seu verbete, é com estes 14 versos a sua primeira “aparição” no periódico: na página 5, do Portugal Democrático nº 29 , de outubro de1959, encimada pelo título de “Uma frente de batalha chamada poesia”, ao lado de mais 6 poemas, assinados por Alexandre O’Neill, Armindo Rodrigues, José Gomes Ferreira, Afonso Duarte, Carlos de Oliveira e Carlos Maria de Araújo. De organizador anônimo, a sucinta antologia (com textos datados de 1939 a 1958) é assim justificada: “Colhidos de livros e revistas publicados em Portugal, os poemas ora apresentados evidenciam a prolongada resistência oferecida pelos poetas à desumanização da sociedade portuguesa levada a efeito pelo regime de Salazar”. Cumprem-se, deste modo, as diretrizes do mensário, que, desde o “programa” estampado em seu primeiro número, declarava indissociável o político do cultural: ” a cultura portuguesa, que nas últimas décadas tantos atentados tem sofrido, merecer-nos-á especial carinho”.

Recorde-se que os sonetos de As Evidências “surgiram” a Sena depois de 7 meses sem produzir poesia — “crise de criação que sempre relembrarei com terror e saudade”, dirá no prefácio ao livro — que correspondem a período de vida extremamente angustiado, conforme demonstra no diário que na altura escrevia (de agosto de 1953 a outubro de 1954). Mas, eis que no dia 12 de fevereiro de 1954 aí registra: “Hoje, pela manhã, surgiram-me vários fragmentos de versos ou versos inteiros, que se me organizaram num poema e num soneto, que espero seja o primeiro da sequência por que anseio há tanto. Julgo-os do melhor que tenho feito, e satisfazem-me em comparação com o que, e raramente, andava fazendo”. Fechando a data diarística, lê-se na última linha: “Das 24 [horas] à 1:15, um segundo soneto”. Portanto, o poema “Desta vergonha…” é um dos poucos da obra seniana cuja gênese está minuciosamente datada (a ponto de, se quiséssemos ser rigorosos, permitir deslocá-lo para 13 de fevereiro…).

No aludido prefácio, recorda ainda Sena que, uma vez impresso, As Evidências “foi logo apreendido pela PIDE […] e só pode ser distribuído um mês depois, após repetidas visitas à Censura […]. O livro era, além de subversivo, pornográfico”. Para a imputada “subversão”, certamente este segundo soneto muito teria contribuído…

 

Desta vergonha de existir ouvindo,

amordaçado, as vãs palavras belas,

por repetidas quanto mais traindo

tornadas vácuas da beleza delas;

desta vergonha de viver mentindo

só porque escuto o que dizeis com elas;

desta vergonha de assistir medindo

por elas as injúrias por trás delas

ao mesmo sangue com que foram feitas,

ao suor e ao sémen por que são eleitas

e à simples morte de chegar-se ao fim;

desta vergonha inominável grito

a própria vida com que às coisas fito:

Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

12/2/1954

 

Poesia e Música Popular

Em áudio: Poesia de JS musicada

 

Bem mais conhecida a predileção de Jorge de Sena pela música erudita — haja vista o excepcional livro Arte de Música, bem como os muitos comentários a audições que faz nos diários ou cartas — a seu ouvido não passa despercebida, no entanto, a música popular, que lhe mereceu os poemas abaixo transcritos “A Piaf”, “Ray Charles” e “Música ligeira”.

Mas impossível de não ser destacada é também a musicalização de vários poemas seus, em várias décadas, com diferentes abordagens, a acentuar musicalidades distintas de seus versos. Desde o internacional Zeca Afonso, que — tal como vários outros cantores e compositores portugueses no auge da repressão salazarista — seguiu o veio do texto literário impresso e circulante para fugir aos inevitáveis cortes da censura; passando por revisitas críticas, a oscilar entre fidelidade e ruptura, como David Mourão-Ferreira aponta no trabalho de Luis Cília, ou ainda a recuperação de ecos da música tradicional portuguesa como prefere o grupo Pedra d’Hera, até jovens universitários brasileiros, Luis Maffei e Marcelo Gargaglione que, ainda há pouco, encontraram no texto de Sena a atualidade de suas inquietações e o estímulo a experiências sonoras — o que é explicitado pelo primeiro no breve “memorial” que segue a transcrição.
Poemas de Jorge de Sena musicados:

* “Epígrafe para a Arte de Furtar” (Fidelidade, Poesia II): poema musicado por Zeca Afonso, no álbum Traz Outro Amigo Também (1970)

* “A Piaf” (Arte de Música, Poesia II): poema musicado por Marcelo Gargaglione e Luis Maffei, no álbum na mesma situação de blake (2005)

* “No casto promontório” (Quarenta Anos de Servidão): poema musicado por Luis Cilia, no álbum Sinais de Sena (1985) com dez faixas dedicadas à obra de Jorge de Sena

* “Nas terras de além do mar” (Quarenta Anos de Servidão): poema musicado pelo grupo Pedra d’Hera, no álbum Ventos (1996).

 

Outros Poemas de Jorge de Sena dedicados à Música Popular:

* “Ray Charles” (Sequências, 50 Poemas)

* “Música Ligeira” (Exorcismos, Poesia III)

 

Epígrafe para a Arte de Furtar

Roubam-me Deus,

outros o Diabo

– quem cantarei?

roubam-me a Pátria;

e a Humanidade

outros ma roubam

– quem cantarei?

sempre há quem roube

quem eu deseje;

e de mim mesmo

– todos me roubam

roubam-me a voz

quando me calo,

ou o silêncio

mesmo se falo

– aqui d’El Rei!

(3/6/1952)

 

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,

ou docemente lírica e sentimental,

ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”,

ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,

dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,

e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado

nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma

de não ter tido plenamente a carne que a traiu,

esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,

como exactamente a vida que os outros continuam vivendo

ante os olhos que se fazem garganta e palavras

para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham

nesta sombra que se estende luminosa por dentro

das multidões solitárias que teimam em resistir

como melodias valsando suburbanas

nas vielas do amor

e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz

e na vida. Quem como ela perdeu

toda a alegria e toda a esperança

é que pode cantar com esta ciência

do desespero de ser-se um ser humano

entre os humanos que o são tão pouco.

(6/10/1964)

=> A partir de “A Piaf”

(por Luis Maffei)

O primeiro poema de Arte de música, “Bach: Variações Goldberg”, começa por dizer que “A música é só música”, no sentido de sua intraduzibilidade ecfrástica. O livro citado, sabe-se, é dedicado a poemas que partem de alguma peça musical existente, não para traduzi-la em versos, pois “música é só música” – o “só” seniano, aliás, sabendo a um sol restritivo, situa nietzschianamente a música num espaço nobre e amplo. O que faz Arte de música é, a partir de exemplares da chamada “grande música”, ou música de concerto, pôr a linguagem poética para estupefazer-se diante de compositores e temas e fazer-se harmônica e tensamente em concerto com compositores e temas.

“A Piaf”, poema composto por duas estrofes, a primeira longa e a segunda curta, cada uma ateúda em sua internalidade, é notável exceção. Edith Piaf é cantora popular, não apenas porque não faça música erudita, mas porque angaria boa parte de seus ouvintes entre pessoas sem especial educação musical. Melômano, Sena ouviu Piaf pela clave do humanismo, e também pela especialíssima voz “canalha e rouca”, ou “docemente lírica e sentimental” da francófona cantora nascida pobre e morta consagrada.

Marcelo Gargaglione e eu cometemos a audácia de, em nosso disco na mesma situação de blake, transformar “A Piaf” em música – uma valsa de certa evocação parisiense. “A Piaf” também funciona como exceção em nosso CD, pois as demais faixas possuem um mais acentuado caráter de experimentação (na falta de termo melhor) que a dedicada ao poema de Sena. A faixa conclui-se com uma gravação do próprio Sena lendo seu poema “Madrugada”.

Termos musicado “A Piaf”, desobediência, espero, criativa, foi como tornar à música um poema que sempre teve da música a vocação.

 

No casto promontório

No casto promontório dos teus seios

que sonhos nunca sonho de dormir

teus membros alongados que se curvam

abraço que já foi vai-vém de amor

e apenas é repouso respirado

e brandamente arfado

como um perlado

suor.

Tudo o que foste ainda serás por sempre

que auroras perpassarem rente a nós.

Tudo quanto és já foste e mais serás

no calor brando em que estaremos sós

agora e logo

neste silêncio –

voz.

Teu seio que repousa

no cristal que ousa

respirar por nós,

tão brandamente escuto

que, devoluto,

apenas sonho a transparência casta

em que mais vasta

se repete a vida.

Como um suor que fala,

como voz suada,

como repetição que se não cala

senão numa alvorada

consentida.

 

Nas Terras de Além do Mar
Nas terras de além do mar,

está meu Amor assentado.

Seus olhos fitam a noite,

seu seio sobressaltado

respira em brandos soluços

nas cartas que está escrevendo

o meu silêncio de ausente,

de distante e de presente

no corpo que se torcendo

está de saudades por mim.

Ó meu amor, minha amada,

meus ouvidos, minha fala,

minha dama de amargura!

(22/8/1959)
 

Ray Charles

Cego e negro, quem mais americano?

Com drogas, mulheres e pederastas,

a esposa e os filhos, rouco e gutural

canta em grasnidos suaves pelo mundo

a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há o sangue de presidentes assassinados,

as bofetadas e o chicote, os desembarques

de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança

para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,

e o plasma sanguíneo com etiquetas de black e white

por causa das confusões.

E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,

de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,

e a música do povo eleito por Jeová e por Calvino

para instituir o Fundo Monetário dos bancos e dos louros,

a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos

ao canto que ele canta em sábias agonias

aprendidas pelos avós ao peso do algodão.

É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,

nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,

nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,

nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,

e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.

E é negro por fora como isso por dentro.

Cego negro, uivando ricamente

(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)

sob a chuva de dólares e drogas

as dores da vida ao som da bateria,

quem mais americano?
(15/Mar/1964)
 

Música Ligeira

Vulgar, ligeira, música sem nome,

adocicada num rascante falso

de orquestração pedante e requebrada,

tão apelante para o sentimento

e a fácil lágrima pi-rí pi-rí –

mas em momentos de abandono é como

lubrificante cuspo que, secreto,

faz deslizante n’alma até ao fundo

o membro imenso de aturar-se a vida.

Depois, mesmo sem música, já está,

e a fêmea humana de aceitar-se a dor

até que as pernas juntas de prazer,

lembrando a melodia oleante e fluida,

vulgar, ligeira, música sem nome.

(25/11/1971)

 

Leia mais:

Cinema e poesia

Os poemas cinematográficos de Jorge de Sena. Em vídeo: o Encouraçado Potemkin (na íntegra, com legendas em inglês) e a dança de Zorba, o Grego.

Autor de diversas críticas e comentários sobre filmes, reunidos no volume Sobre Cinema (1988), Jorge de Sena também transformou sua leitura de alguns filmes em poema, em exercício semelhante ao que já havia feito com as outras artes em Metamorfoses e Arte de Música. Apresentamos aqui os “poemas cinematográficos” de Sena:

* “Couraçado Potemkin”, de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III
* “À memória de Kazantzakis e a quantos fizeram o filme Zorba the greek, de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III
* “Filmes Pornográficos”, de Conheço o Sal… e Outros Poemas, Poesia III

 

Couraçado Potemkin

Entre a esquadra que aclama
o couraçado passa.
Depois da fila interminável que se alonga
sobre o molhe recurvo na água parda,
depois do carro de criança
descendo a escadaria,
e da mulher de lunetas que abre a boca em gritos mudos,
o couraçado passa.
A caminho da eternidade. Mas
foi isso há muito tempo, no Mar Negro.

Nos cais do mundo, olhando o horizonte,
as multidões dispersas
esperam ver surgir as chaminés antigas,
aquele bojo de aço e ferro velho.
Como os vermes na carne podre que
os marinheiros não quiseram comer,
acotovelam-se sórdidas na sua miséria,
esperando o couraçado.

Uns morrem, outros vendem-se,
outros conformam-se e esquecem e outros são
assassinados, torturados, presos.
Às vezes a polícia passa entre as multidões,
e leva alguns nos carros celulares.
Mas há sempre outra gente olhando os longes,
a ver se o fumo sobe na distância e vem
trazendo até ao cais o couraçado.

Como ele tarda. Como se demora.
A multidão nem mesmo sonha já
que o couraçado passe
entre a esquadra que aclama.
Apenas, com firmeza, com paciência, aguarda
que o couraçado volte do cruzeiro,
venha atracar no cais.

Mas mesmo que ninguém o aguarde já,
o couraçado há-de chegar. Não há
remédio, fugas, rezas, esconjuros
que possam impedi-lo de atracar.

Há-de vir e virá. Tenho a certeza
como de nada mais. O couraçado
virá e passará
entre a esquadra que o aclama.

Partiu há muito tempo. Era em Odessa,
no Mar Negro. Deu a volta ao mundo.
O mundo é vasto e vário e dividido, e os mares
são largos.
Fechem os olhos,
cerrem fileiras,
o couraçado vem.

São Paulo, 23/12/1961

=> Nota do autor sobre o poema, em Poesia III, p.249: Este poema deveria ter feito parte desta colectânea Peregrinatio ad loca infecta, a que por todas as razões e mais uma pertencia. Mas houve que retirá-lo do original, por de impossível publicação naquela época. O poema foi escrito logo após a tremenda impressão que me causou ver pela primeira vez o filme de Eisenstein. Tendo em várias oportunidades visto antes alguns dos “clássicos” russos, nunca tivera ocasião de ver este. Foi em São Paulo, numa matinée, naquele mesmo dia, com Casais Monteiro que também, se me não engano, o não vira nunca. Se me permitem acrescentar, eu em 1961 tinha já dois anos de exílio no Brasil, e os tempos iam feitos para as nossas esperanças democráticas em Portugal. O poema reflecte, pois, não só aquela impressão que o filme causa como obra de arte, que é panfleto, e vice-versa (coincidência tão rara), mas também o estado de espírito naquela época.

 

À memória de Kazantzakis, e a quantos fizeram o filme Zorba the greek

Deixa os gregos em paz, recomendou
uma vez um poeta a outro que falava
de gregos. Mas este poeta, o que falava
de gregos, não pensava neles ou na Grécia. O outro
também não. Porque um pensava em estátuas brancas
e na beleza delas e na liberdade
de adorá-las sem folha de parra, que
nem mesmo os próprios deuses são isentos hoje
de ter de usar. E o outro apenas detestava,
nesse falar de gregos, não a troca falsa
dos deuses pelos corpos, mas o que lhe parecia
traição à nossa vida amarga, em nome de evasões
(que talvez não houvesse) para um passado
revoluto, extinto, e depilado.

Apenas Grécia nunca houve como
essa inventada nos compêndios pela nostalgia
de uma harmonia branca. Nem a Grécia
deixou de ser – como nós não – essa barbárie cínica,
essa violência racional e argua, uma áspera doçura
do mar e da montanha, das pedras e das nuvens,
e das caiadas casas com harpias negras
que sob o azul do céu persistem dentro em nós,
tão sórdidas, tão puras – as casas e as harpias
e a paisagem idem – como agrestes ilhas
sugando secas todo o vento em volta.

E que não só persistem. Porque as somos:
ou tendo-as circunstantes, ou em faces, gestos,
que vão do Atlântico ao Mar Negro, ou vendo-as
não só em sonhos, mas nesta odisseia
de quem, como de Ulisses, uma vida inteira
é qual regresso à pátria demorado
para que apenas de velhice ainda a aceitemos.

Na Grécia todavia, e mais que em Grécia Creta,
isso que somos regrediu. Distância
muito maior existe em ter ficado igual
num mundo que mudou, e em ter ficado o mesmo,
vivendo como de hoje, entre as antigas pedras
guardando em si o mugir do Minotauro
(e os gritos virginais das suas vítimas),
que, em como nós, não ter nascido ali
mas onde apenas derradeiros gregos
vieram.

Por isso, este vibrar de cordas que é uma dança de homens
saltando delicados em furioso êxtase
perante a própria essência de estar vivo
(ó Diónisos, ó Moiras, ó sinistras sombras)
nos fascina tanto. O que é profundo volta,
o que está longe volta, o que está perto é longe,
e o que nos paira n’alma é uma distância elísia.

No lapidar-se a viúva que resiste aos homens
para entregar-se àquele que hesita em possuí-la
e a quem, Centauro, Zorba dá conselhos de
viver-se implume bípede montado
na trípode do sexo que transforma em porcos
os amantes de Circe, mas em homens
aqueles que a violam; nesta prostituta que,
sentimental, ainda vaidosa, uma miséria d’Art Nouveau
trazida por impérios disputando Creta,
será na morte o puro nada feminino que as harpias despem;
e neste Zorba irresponsável, cru, que se agonia
no mar revolto da odisseia, mas
perpassa incólume entre a dor e a morte,
entre a miséria e o vício, entre a guerra e a paz,
para pousar a mão nesse ombro juvenil
de quem não é Telêmaco – há nisto,
e na rudeza com que a terra é terra,
e o mar é mar, e a praia praia, o tom
exacto de uma música divina. Os deuses,
se os houve alguma vez, eram assim.
E, quando se esqueciam contemplando
o escasso formigar da humanidade que
tinha cidades como aldeias destas, neles
(como num sexo que palpita e engrossa)
vibrava este som claro de arranhadas cordas
que o turvo som das percussões pontua.

Deixemos, sim, em paz os gregos. Mas,
nus ou vestidos, menos do que humanos, eles
divinamente são a guerra em nós. Ah não
as guerras sanguinárias, o sofrer que seja
o bem e o mal, e a dor de não ser livre.
Mas sim o viver com fúria, este gastar da vida,
este saber que a vida é coisa que se ensina,
mas não se aprende. Apenas
pode ser dançada.

Madison, Janeiro /1966

 

 

Filmes Pornográficos

Estes que não actores se alugam para filmes
da mais brutal pornografia crua
em que não representam mas só fazem
tudo o que possa imaginar-se e a sério
com a máquina espreitando bem de perto
por ângulos recônditos os gestos,
os orifícios penetrados e
quanto os penetra até que o esperma venha,
por certo são dos que prazer mais sentem
sabendo que afinal se exibem para tantos olhos.
São máquinas de sexo. Às vezes belas,
sem dúvida atraentes muitas delas,
imagens escolhidas como sonhos de
que possa ser a máquina perfeita.
Mas na verdade sentirão prazer?
E na verdade o dão no que se mostram?
Tão máquinas apenas – sem de humano
não digo só que o toque da carícia abrupta
mas mesmo uma atenção de sábio acerto
profissional de orgasmos a filmar –
que nada resta destes actos vistos
sequer desse animal mais que espontâneo
em corpos se afirmando que não falam
mas se penetram ao acaso dados.
Nada de humano ou de animal humano
flutua nestes ou na imagem deles:
até porque são vistos como nunca vistos
os actos cometidos ou espreitados,
e mesmo o esperma do ininterrupto coito
(para quem paga estar seguro de
não ser fingido nada o que foi feito)
ejaculado ou vendo-se escorrer
do corpo mais passivo numa cena
é como imitação que nada inunda
senão o olhar tornado a mesma máquina
que tão perto o foi filmar ampliado.
Horrível é tudo isto. Mas no entanto,
mecânico e brutal, sem graça nem beleza,
roubando ao imaginar quanto é sentido
porque se amor se faz mal pode ver-se,
isto possui uma nobreza estranha
e uma franqueza nua que nenhum amor
a si mesmo confessa: e contradiz
quanto mistério exista, que outro mais profundo
assim nos revela: actos de amor
são tantos actos de amor quanto são actos
de actores ocasionais para ele feitos
que todos somos desde que ele se faça.

13/10/1972

 

Leia mais:

Cinco Natais de Guerra, seguidos de um Fragmento em Louvor de J. S. Bach

Dos 15 poemas “natalinos” de Sena, esta sequência reúne os datados de 1944 a 1948. Em áudio, “Jesus, alegria dos homens” de Bach.

Os Natais de Jorge de Sena tratam […] de uma ausência que dói e nos incrimina, de uma impossibilidade que agrava a sede e a fome, de um vazio que insistimos em não encher, falam, em suma, dos antinatais que somos, por culpa de tudo e de cada um de nós que os não vive dentro de si, como exigência e responsabilidade que se não podem transferir… (Eugénio Lisboa*)

 

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1944

Possivelmente, meu Deus, a vossa existência não passa
de uma piedosa mentira com que vos embalam os homens
(e tanto vos embalaram, meu Deus, que respirais tranquilo
nos braços destes milhares de gerações sofrendo a vossa vinda).

Acordai, Senhor; nascei, Senhor; olhai
como se amam estes numerosos povos
que se entre-destroem furiosamente sem saber por quê,
inventando razões, procurando razões, acreditando em razões,
à semelhança do enamorado que persegue uma eterna visão,
e é (julga), porque as pernas são belas, os cabelos são louros
e o seio saltava mansamente ao cruzar por ele.

Mas basta, Senhor: não demoreis a conquista.
Deixai que vos esqueçam, que descansem, que se alegrem,
sem que a morte espalhe uma violenta alegria,
e um feroz desejo de ter imensos filhos,
e uma tremenda raiva de que levem tanto tempo a crescer,
e uma simples saudade de um azul do céu,
sob o qual se morra tranquilamente de cancro ou de tuberculose
ao conspícuo abrigo dos códigos e do Governo Civil.

24/12/44
1945

Toca a silêncio o clarim no silêncio já feito
do quartel que dorme. Como é fria a noite
e prolongada ao mais fundo fundo da treva
por estas notas lentas, sossegadas, graves.
A noite é igual às outras, e o clarim que toca
repete, com variantes, os clarins do mundo.
Toca a silêncio pela terra, longe, do outro lado,
e há homens que dormem sonhando com a paz,
que chegou desconhecida e pálida. Quem dorme
acordado ouvindo os clarins a tocar? –
– a silêncio na noite de Natal, que passa
igual a tantas, desde que há Natal, e a guerra
continua, continua sempre. Ah nunca, nunca
a guerra acaba! Morrem oprimidos
povos e povos, crentes de uma paz, da mesma
prometida outrora e por penhor rasgada.
Morrem os homens, quando a sonham mais,
e os que não sonham, e os que não a sabem
e morrem, já da paz, e não serão lembrados
sob um nome comum, com monumentos e festas.
Mortos da paz! Anónimos! Perdidos! Não dareis
um feriado às crianças que da escola
sairiam correndo, ignorando até
que poderiam estar com elas vossos filhos,
se os tivésseis tido.
Toca a silêncio, ó clarim do mundo!
Toca a silêncio, agora, manda adormecer
esta humanidade frenética de saber que existe,
manda que durma e sonhe de si própria
a existência que sabe e que não tem!
Toca a silêncio, ó clarim do mundo!
E na alvorada, quando na alvorada
acordarem todos para mais um dia,
não toques para todos nunca mais!
Acorda apenas os que não viveram,
os banidos, os perseguidos, os traídos, os infames,
os que te ouviram sempre com o desejo nas mãos,
os mortos juvenis, os mártires de todos os tempos,
de todas as guerras, de todos os tratados
– e chama-os para que vejam com os seus próprios olhos
a terra imensa: era tão grande a terra! E depois, logo depois, na noite extrema
que os abrigará materna em pleno dia
– toca de novo a silêncio, ó clarim do mundo!,
é silêncio o que eles pedem, só silêncio, mais nada.

5/1/46
1946

É muito fria a minha mágoa
neste Natal que, à beira de água,
referve em multidões embriagadas
por frios tão de outrora, que, apagadas
as brasas de uma esperança já perdida,
acordarão sozinhas junto à vida.

A mágoa, se é do mundo,
talvez não seja apenas de tão fundo
ser o desvão em que estou frio e só.
E o céu azul, e a raiva de o olhar
neste mau hábito infantil de paz sonhada,
e a solidão do amor, e o presunçoso dó
de longe haver a esperança de o cantar:
ridículo Natal, miséria e nada.

25/12/46
1947

Mécia:

Não é já de Natal esta poesia.
E, se a teus pés deponho algo que encerra
e não algo que cria,
é porque em ti confio: como a terra,
por sobre ti os anos passarão,
a mesma serás sempre, e o coração,
como esse interior da terra nunca visto,
a primavera eterna de que existo,
o reflorir de sempre, o dia a dia,
o novo tempo e os outros que hão-de vir.

31/12/47
1948

Dentro do frio os coros cantam docemente
em louvor de deuses por nascer
se os deuses nascem deste amor de um instante
como acontece aos homens
se da perpétua noite desesperada
que alegremente os coros tiram de julgar os astros
se pela terra massacrada as águas fogem
à ténue melodia da amargura
dentro do frio noite solidão
murmúrios de revolta silêncio rebelado
gritos de amor por tanta ausência pura
os deuses nascem de nenhum nascer
humanos passam como a terra em nós
até ao fim dos séculos dos mares
dos átomos descritos coração que pede
mão que se fecha lágrimas que secam.

Cantai cantai na hora mais que breve
a vossa dor de virgens só mentais
o parto ameno do ventre imaginado.

24/12/48
Fragmento

… … … … … … … … … … … … … … … … … …

Em ti está a alegria
e tu não estás em parte alguma nem no céu,
na terra, sobre o mar, entre as trevas das magnas profundidades,
não, não estás no rosto amigo, no sorriso de amor
acompanhando o doce apertar de mãos antes ou depois das últimas palavras,
não, não estás na esperança de felicidade para os outros
sem que nunca serei feliz dessa alegria em ti,
nem estás na angústia das traições que vi
virem já dentro dos sonhos, dentro dos cânticos,
não estás em nada, nem no nada estás,
mas onde, aonde esta alegria, esta certeza, esta música,
mais silenciosas, mais humildes – tão orgulhosas,
tão altivas, tão amantes perpétuas de um tu sussurrado
com doçura firme, autêntica, viril,
e femininamente áspera e cortante,
sussurrado tudo, à luz do sol, à escuridão nocturna,
a qualquer sombra do amor fugidio, fugitivo, imenso.
… … … … … … … … … … … … … … … … … …

5/5/47
* “Os Antinatais de Jorge de Sena”. In: As Vinte e Cinco Notas do Texto. Lisboa, IN-CM, 1987 p. 45-50 (Texto destinado a uma coletânea de poemas de Natal de JS, nunca publicada)

**in: Poesia I (Lisboa: Edições 70, 1988). No áudio: Jesus, Alegria dos Homens – J. S. Bach

 

Os poemas "incompreensíveis" de Jorge de Sena

Em áudio: “Anósia”, lido por Jorge de Sena

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Entre invocações ao demônio ou a Afrodite, entre inversões e palavras inexistentes ou não usuais, alguns poemas de Jorge de Sena propõem um jogo: decifrar o enigma, ou resistir à tentação de atribuir significado ao que insinua mas não diz?

  1. Pandemos
  2.  Anósia
  3.  Urânia
  4.  Amátia

 

QUATRO SONETOS A AFRODITE ANADIÓMENA

I – PANDEMOS

Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!

Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrica donstália penicela
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão boíneos, ó primana!

Dentívolos palpículos, baissai!
Lingâmicos dolins, refucarai!
Por manivornas contumai a veste!

E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.

Assis, 6/5/1961
 

II – ANÓSIA

Que marinais sob tão pora luva
de esbanforida pel retinada
não dão volpúcia de imajar anteada
a que moltínea se adamenta ocuva?

Bocam dedetos calcurando a fuva
que arfala e dúpia de antegor tutada,
e que tessalta de nigrors nevada.
Vitrai, vitrai, que estamineta cuva!

Labiliperta-se infanal a esvebe,
agluta, acedirasma, sucamina,
e maniter suavira o termidodo.

Que marinais dulcífima contebe,
ejacicasto, ejacifasto, arina!…
Que marinais, tão pora luva, todo…

Assis, 6/5/1961
 

III – URÂNIA

Purília emancivalva emergidanto,
imarculado e róseo, alviridente,
na azúrea juventil conquinomente
transcurva de aste o fido corpo tanto…

Tenras nadáguas que oculvivam quanto
palidiscuro, retradito e olente
é mínimo desfincta, repente,
rasga e sedente ao duro latipranto.

Adónica se esvolve na ambolia
de terso antena avante palpinado.
Fimbril, filível, viridorna, gia

em túlida mancia, vaivinado.
Transcorre uníflo e suspentreme o dia
noturno ao lia e luçardente ao cado.

Assis, 14/5/1961
 

IV – AMÁTIA

Timbórica, morfia, ó persefessa,
meláina, andrófona, repitimbídia,
ó basilissa, ó scótia, masturlídia,
amata cíprea, calipígea, tressa

de jardinatas nigras, pasifessa,
luni-rosácea lambidando erídia,
erínea, erítia, erótia, erânia, egídia,
eurínoma, ambológera, donlessa.

Áres, Hefáistos, Adonísio, tutos
alipigmaios, atilícios, futos
da lívia damitada, organissanta,

agonimais se esforem morituros,
necrotentavos de escancárias duros,
tantisqua abradimembra a teia canta.

Assis, 20/6/1961
 

 

“NA TRANSTORNÂNCIA…”

Na transtornância impiala da firmusa
onde tão sulca de aridentes vem
a lúpida virónia damitem
que à fura imerna talifera e gusa,

alumibate a sintoscura etrusa.
Etrusa e tantimorta. E noctibem.
Como doriga e desinada quem
turidonada aflia a solidusa.

Regredassara detimura antrô-
temáqua adira apira escamivorta:
adominata incesca viridou
muldina igura talimen sigorta.

Nantida imbiva. Na primara andiata
e na danfia atedimasta aflata.

Araraquara, 5/8/1961
 

“ÁTIA CUÍ…”

Átia cuí dolcema trazidara
fistidonuta abadimeta pi-
tchesta morícula dojafa ri-
namudirata san. Omenicara.

Culipensteva. Chu. Manfemipara
alidorista infétia surpe si.
Seilascha tóvia senimor duri-
pendónis. Trabilástia assundigara.

Temedilíngra fraduslampo pórtio
vacrisdo abábio fluditorme abura
ganitonu medânti coligesta.

Vilo. Ver. Pess. Abilituno. Górtio
te trislanfa trisicanfa adura.
Intradijamba calimora resta.

(08/12/1963)
 

HOMENAGEM A SINISTRARI (1622-1701)
AUTOR DE “DE DAEMONIALITATE”

Os homini sublime dedit, coelumque tueri
Iussit et erectos ad sidera tollere vultus
(Ovídio, Met., I, 85-6)

Ó Belfagor Rutrem e Bafomet
Baclum-Chaam Sabazius Basiliscus
Mutinus Hautrus Chin Liber Strenia
Tchu-vang Tulpas Egrigors Churels
Lâmias Larvas Telazolteotl
Caballi Caballi Caballi Ca-
balli Caballi Caballi Caballi.
Melav oan em sonamuh euq
mim a edniv! Ó Laquiderme efiast!
Caste castina castinata cast!

Only he was heavie lyk a malt-sek
a hudge nature verie cold as yce.
(Boguet, An Examen of Witches)

1970
 
AFRODITE? NÃO
Aderga de agastura atabafada,
aterma barafusta e por betado
compeça batocante de chapado
numa cenreira a custo destrinçada.

Cuspido ao pai na lança definhada
se dissingula, esmera, escarmentado,
escafedendo-se elegante ao lado
na falcatrua, mística lufada.

Forfante de incha e de maninconia,
gualdido parafusa testaçudo.
Mas trefo e sengo nos vindima tudo
focinho rechaçando e galasia.

Anadiómena Afrodite? Não:
Apenas Duarte Nunes de Leão

(1971)
 

=> Sobre os “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, ver os comentários do poeta brasileiro Antonio Cícero (e de seus leitores) no excelente blog “Acontecimentos”: http://antoniocicero.blogspot.com/2008/03/jorge-de-sena-sobre-os-quatro-sonetos.html

Peregrinações Européias

Poemas selecionados das andanças do poeta pelo Velho Continente

Desenho de Jorge de Sena
Desenho de Jorge de Sena

Nem todas as viagens são de exílio. Jorge de Sena era um indivíduo em constante deslocamento, de andanças e peregrinações, sempre fixadas em poesia. Abaixo, alguns poemas de exemplo, registros das viagens do escritor pela Europa:

 

 

Chartres ou as pazes com a Europa

Em Chartres, ó Peguy, eu fiz as pazes
com a Europa. Não que eu estivesse zangado,
mas estava esquecido. Primeiro
o almoço num pequeno hotel da praça
nem sequer de luxo, e todavia,
no domingo burguês com as famílias
déjeunant en ville, tão vieille France,
e os criados felizes de servirem bem,
e a gente feliz de assim comer com tempo,
gosto, prazer, e elegância. Da Réserve
Couronnée, ou do meio-dia planturoso e fosco,
fiquei tocado até às lágrimas.
Estou a ficar gagá, tout doucement.

Depois, Nossa Senhora, Chartres, Idade Média,
e a paz desta saudade n’alma
e a certeza de que este mundo tem de resistir
– e há-de resistir – à grosseria,
às bestas e ao vulgar, às multidões, a tudo:
como o veau flambé, como os vitrais de glória,
como esta flecha erguida sobre a Beauce,
imagem tão viril de Nôtre-Dame
a meio das campinas infinitas
que os séculos dos séculos calcaram
até fazê-las este plano horizontal de que,
portais de majestade, concreção de fé,
a nossa humanidade é pedra sem retorno
à natureza informe. Tal como a Deusa-Mãe
na cripta contida se transforma
nesta de vidros ascensão fremente
de cores que a luz acende mas não passa.

Europa, minha terra, aqui te encontro
e à nossa humanidade assim translúcida
e tão de pedra nos pilares sombrios.
(Chartres, 10/11/1968)
 

Travessia

Após cinco dias de sonolenta travessia
quase sem barcos, e sem nenhuma ilha,
apenas sobre um mar de ondeado azul sombrio
ou de estanhada palidez monótona
(ó mar – perene sangue a que regresso
nesta viagem como um ventre, um ovo,
o sumptuoso paquete de New York a Southampton),
de madrugada entrámos um par de horas
no Havre.
O tempo era pouco para ver-se a cidade.
Desci porém a terra, tonto como uma criança,
pousando com cautela os pés no cais.
Não por ser a França o que pisava na calçada suja:
Europa
(mais velha, como eu, quase dez anos).
(5/5/1969)
 

Florença vista de San Miniato Al Monte

Abrigado na brancura multicor de um românico
italianamente clássico, o cardeal de Portugal
dorme, primeiro túmulo da Renascença,
o seu sono (inquieto?) virginal.
Será que a morte – erecta – lhe forçou
o orgasmo que ele recusou à vida?

Converso disto com os monges brancos,
risonhos, sem inibições. E desço a escadaria
de San Miniato al Monte. Outonal e fria
a tarde é rubra no Arno e em Florença ao fundo.

Na esplanada sobre o vale, sento-me
ao silêncio do entardecer, vendo
Florença, com as suas cúpulas e torres, que escurece
austera e refinada: o Duomo, o Bargello,
Santa Croce, os Uffizi, o Palazzo Vecchio
a ponte antiga, o Campanile, tudo – e os montes
e os ciprestes, e o céu pálido, a lua:
um momento incrível de fé na grandeza humana,
que não existe já mas paira ali suspenso,
ecoa pelas praças e nos pátios,
um misto de rigor e de volúpia, dignidade
das coisas e das formas, que o cardeal,
aqui do alto, e na margem oposta,
velou dormindo, e vela, virginal.
(10/5/1969)
 

Vila Adriana

De súbito, entre as casas rústicas, e a estrada,
e o monte agreste e Tivoli, o invisível
oásis gigantesco.
Ao sol que passa
um arvoredo esparso, os campos verdes e
paredes, termas, anfiteatros, lagos,
e a paz serena e longa do Canopo
onde como antes cisnes vogam.

Palácio, o império em miniatura,
e sobretudo a solidão povoada
de guardas, secretários, servidores,
e gladiadores, e de uma sombra hercúlea,
ao mesmo tempo ténue e flexível,
e em cuja fronte os caracóis se enredam.

Neste silêncio em ruína, as sombras descem frias.
Mas para sempre o Imperador está vivo,
e o sonho imenso de um poder tranquilo
em que até mesmo escravos fossem livres
e as almas fossem corpos só tementes
de não salvar na vida o ser-se belo e jovem.
(7/5/1969)
 

Amsterdam

Canais concêntricos e radiais – vermelho –
hippies milhares na praça da estação –
as velhas casas dos patrícios dormem –
a sinagoga portuguesa ardeu
com letreiros dos nomes dos rabis
Mynheer Monteiro (e Sousa) (e Santos) – no
museu as sombras e na casa em que
viveu Rembrandt com a esposa nos joelhos –
em montras aos passantes mulheres nuas
turinas loiras Rubens se exibem
todas em burga e respeitável calma.
Noutro museu as memórias judaicas
da cidade que pôs a estrela de David
quando os nazis mandaram que os judeus a usassem.
(1/1/1970)
 

Ampúrias

Na tarde como Grécia imaginada
o ar se pousando claro à beira-mar
do golfo a recurvar-se verde-azul.
O cais primevo pende em ruína n’água
tão calmente em volta como pela areia
ondículas de praia silenciosa.
Paredes, ruas, casas rente ao chão
de que escavadas emergiram: pedras
branquipardas, secas de um aragem
quão perpassante e rasa nas colinas.
Aqui de Ibéria os gregos se fizeram
primeiramente terra das Espanhas.
(26/1/1970)
 

O Anjo-músico de Viena

Por trás do Dom em Viena,
após ter visitado o imperador Frederico III
que aí jaz (o marido de Leonor de Portugal,
com ele a mãe de Maximiliano de Áustria
por ela desejado o novo Constantino
e até exigia que a tratassem por
imperatriz Helena – de grandezas
mania tão de lusitano típica,
tanto mais que ninguém de portuguesas
antes dela chegara ao Santo Império)
– a luz faltava sobre o túmulo gigante
e houve uma briga, padre e sacristão,
em busca do interruptor, irados e germânicos –
comprei por trás da dita catedral
numa rua escusa um pequenino anjo
músico, esculpido em madeira
dentro de uma redoma, “souvenir”
modesto do lugar. Ali, ali,
enquanto o Fidélio do Karajan
ainda me lembra em preto e branco e cinza
na Ópera assistido, o poente da
Califórnia o ilumina de ouro suave
na prateleira em que pousa.
Fugindo a luz, o anjo toca e dança.
Em silêncio, imóvel, dentro
da redoma de prosaico plástico.
(17/1/1971)
 

Piazza Navona e Bernini

Palácios com aquele ar que em Roma
descasca de velhice o mais moderno prédio.
E a fonte de Bernini. Essa água toda
de que ele tinha em Roma o monopólio.
Mas noutra parte a colunata ascende.
E Santa Teresa, ante a seta do anjo,
vem-se de penetrada em vôo de pintelhos
que o hábito lhe roçam esvoaçante
num pélvico bater que a estoura de infinito.
(Chambéry, 27/7/1971)
 

A uma calista de Milão

Sob uma carioca bruma seca
também negro smog de Los Angeles,
Milão se estende noveau riche e cálida
numa abafação de estio lamentável.
Não vi quase Milão. O castelo Sforza
tinha o museu fechado, e o pátio cheio
de caranguejolas de ópera ao ar livre.
Também não vi, em Santa Maria delle Grazie,
o Cenacolo do Leonardo, fechado para
descanso dos artistas à 2a. feira.
Em Santo Ambrósio, lá estava o santo escaveirado
o mitrado entre o par (exagero promíscuo) de esqueletos romanos
soldados que nunca converteu. Em São Lourenço
(que resto de colunas ante a igreja, ó Roma!)
a capela Portinari estava também fechada.
Mas na estação Central as putas sobretudo machas
eram a Itália corrupta da democracia cristã
e serão dentro em pouco mui viris fascistas.
E encontrei uma calista, uma princesa
como de Bizâncio, de ícone as mãos, Senhora do
Perpétuo Socorro, de origem sarda mas
nascida em Milão. Tratou-me os pés martirizados
pelas calçadas da Itália como se fora o Miguel Ângelo,
e falou da sua Itália que acha – patrioticamente –
reles e torpe. Segundo ela que é
da opinião do rei analfabeto
feito lenda heróica do Risorgimento
(e que em Londres perdeu vitoriano casamento
por ter observado que as inglesas não usavam calcinhas),
os italianos não são de nada em política
(só máfia e vagabundos e fascistas).
Dante e Petrarca (Italia mia) e o Tasso e o grão Boccaccio
e o Bruno e o Campanella, e Giotto e o Tiziano Vecchio,
e os Médicis banqueiros, e os condottieri
desvergonhadamente mercenários – ó Machiavelli, tudo em vão…
Calista soberana, artista em pés doridos!
Tu não disseste, mas a tua Itália
é o puro exemplo de que na vida humana
há só uns quantos raros transformando em ouro
a merda milenária, e sempre a multidão
ansiosa de burguesa e de servil a transformar em merda
os oiros todos de sofrer-se o mundo
e de lhe dar em forma o senso que não tem.
Para quê obras de arte? Pra quê a literatura?
Há sempre em tudo, como nas ruas gloriosas
da Roma do Império e dos barrocos papas,
um vago cheiro a estival merda que se escapa
dos respiráculos sob as galerias em que lojas e bares
são modern style como a catedral em Milão
cheia de agulhas ferroviárias e de confessionários
para alívio dos borborigmas de alma
desta canalha humana esbarrigada ao sol
de um Verão como que eterno. Ó calista esguia,
ó mãos tão afiliadas em brandir bisturis!
Meus pés vão recordar-te gratos neste caminho da vida,
de cuja selva oscura não há já saída.
(Chambéry, 27/7/1971)
 

Plaza Mayor de Salamanca

I

De luz e sombra se recortam corpos
que não nas gralhas-grilhos destas vozes
tão de Castela vertical chilreio.
Ou digam se não digam que não digam
me falam dons de na distância em tempo
quando na Espanha Portugal vivia.

Ou quando era de exílio que na morte entrava
altiva e sitibunda e lealtad de España.

II

Que português não só de Espanha morre
mas de morrer-se não sequer conhece
a morte que de Espanha o sopra e mata?

Sentado nesta praça em Salamanca
de arcadas, medalhões e de janelas,
este quadrado incrível de elegância trémula –
mas catedrais são duas que de ao sol se douram
e dentro em cores o Juízo para o céu explode
uma harmonia que destrói o inferno.

Que português não só de Espanha morre?
(Salamanca, 1/9/1971)
 

Galiza

Aires airinhos aires
airinhos da minha terra:
qual terra me dareis vós,
se a vida em morte se encerra?

Airinhos aires airinhos
de língua que fora minha:
que língua me dareis vós
na vida que vai sozinha?

Aires airinhos aires
da carne que se envelhece:
que carne me dareis vós,
se a rede a morte me tece?
(1/9/1971)
 

Atenas

Também na Grécia eu. Custou mas foi.
Cheguei depois dos outros. Só Atenas vi
sob um calor de trópico e derrete
os deuses e os humanos nesta poeira seca
de montes e de praias sob um céu de névoas
com mar azul de sol e de ilhas carcomidas.
Vulgar cidade e bizantinas pobres
igrejas sem de torres tesas para o ar
mas padres gordos negros e sebosos
de barbas e rabicho pelas ruas cheias
de gente mais ruidosa que latina,
morena e grácil, juvenil e glabra,
negra de pêlos e cabelos, olhos
que descarados se abrem de pagã malícia
aguada, oriental, risonha num comércio
de perpassar desejo que se exibe em graça
como de arcaica estátua, torso, pernas
andando em firme passo de ombros duros
que fluidas ancas pela cinta quebram
– tão como nós de Europa o outro extremo
se Roma e cristandade a nós nos não vestira
de uma ausência castrando os deuses atrevidos.
Ruínas há de Adriano imaginada
a Grécia já, que só de Antínoo foi
no desfazer-se o antigo em corpos que só mortos
a deuses ascendiam como heróis de amor,
sacrificados touros para império ou escravos
um pouco mais para viverem contra as Parcas fúteis
então mais implacáveis de acabar-se o fio
que por tempos de Apolo e de Diónisos
com de um ou de outro à morte entreteciam.
Mas como fortaleza, ou rocha, ou monte
a que não chega nem ranger da carne,
nem gritos dia a dia de sofrer-se a vida,
nem mesmo estalar de ossos no deserto,
ergue-se alheia a tudo e sobre tudo a Acrópole.
Polida a pedra tão marmórea em lâminas
como crispadas vida em deuses congelada,
degraus mais altos que a medida humana
não teve tempo de gastar, e ruínas
de templos de altares saqueados frisos:
é como se de um lado pousassem
em peso de balança contra o mundo
as lajes e as colunas do Parténon,
nem grande nem pequeno só exacto,
medida insuportável de consolo agora
que os deuses e os humanos se perderam de
numa escala encontrar-se à mesma escala unidos:
aqui, sobre esta pedra gigantesca
que a nossos pés se foge de polida,
e onde milagre o se milagre foi:
os deuses como humanos, como deuses estes
ao mesmo tempo uma cidade e gente,
um vértice jamais revisitado,
devastada memória do poder ter sido.
Não foi, e não será. Em vão Antínoo
se matará, em vão suas estátuas
desviam de fitar-nos seu olhar vazio,
no lateral volver de uma cabeça
a caracóis penteada com volúpia,
sonhando ruínas em que o amor não fôra
o sangue e a morte de suspensos corpos
em árvores cortadas à cortada vida.
Desçamos tristemente a escadaria
de Propileu que se abre para baixo,
para as cidades rentes à traição divina.
E fique no alto como só castigo,
irónico chicote da Ateneia Palas,
o vértice perfeito imaginado outrora
para que à luz do sol ou das estrelas,
ou da gélida Artemis virgem ciosa
como a que cuja lança ali marcou o ponto
de uma oliveira sacra de entre céu e terra,
fique de nós o estigma e o pecado:
a humanidade de si mesma alheia
que ali subiu um dia, e voltou costas,
e veio passo a passo até às vis
cidades da planície a desejar dos anjos
o que dos deuses teve medo quando
as virgens e os efebos que eles raptavam
passaram a vender-se por uma alma quanto
só de imortais teriam em gratuitas garras
das águias e dos cisnes recravadas
em corpos como os destes que perpassam
aonde o mar primevo já não lava praias
e só babugem deixa de universo podre
de humanos que o percorrem sem favor dos deuses
e não regressam nunca ao lar das Ítacas
de que nenhum pecado os separava
e só esse prazer tão dulciamargo
de retardar a volta como os deuses sempre
que voando se afastavam de um eleito
abandonado por um outro à beira
da fina linha a dividir o espaço
entre o divino e o humano onde os heróis se geram
ou nos corpos idênticos a nódoa
ficava de uma posse que seria voz
e um recordar em ritmo o milagre ideal
de ser-se por momentos em divinos braços.
Nem mesmo essa memória nos possui
como mais que maldita: e quando a escutam
é só por suporem-se expiados
do risco a que escaparam de ter sido eleitos.
Sentem-nos na sombra da explanada
em frente do museu. Lá dentro existem
– fechada à noite a porta – estátuas e
as máscaras douradas de Micenas,
que só em ouro as máscaras nos restam
afiveladas num pavor mortal.
Vejamos de entre as mesas como passa
gente inda ateniense. Iluminada
a Acrópole é cenário – nada mais.
(9/10/1972)
 

Memória de Granada

Pairam repuxos gorgolejam estuques
dourados arrayanes e os leões
tão delicados alvo de ciprestes
Generalife no alto silencioso
– que te pierdas tú y el reino
y que se acabe Granada –
e João da Cruz aqui escreveu Joana
Filipe o Belo a Louca dele os Reis
Católicos de mármore e na cripta em terra
sic transiit gloria mundi. Sacromonte
ciganos de flamengo. Desce o Darro
murado em fundas pedras águas não
mas gatos que os garotos apedrejam.
Serra Nevada ao longe.
Pingo a pingo
goteja da montanha o poeta em sangue
– con qué trabajo tan grande
deja la luz a Granada! –
sobre a cidade moura e hispanamente burra
(Federico dixit e maricón mataram-no).
(8/12/1972)
 

S’hertogenbosch

Cidade albina a catedral dourados
os capitéis dominicais silentes
ruas. Aqui de Santo Antão os monstros
tentaram e as delícias vícios e pecados
incêndios na distância flores no cu
patas de pato bicos de galinha
as árvores da vida. Bosque
ducal Jerónimo queimaram bispos
os quadros. Dele não resta
traço. O sacristão expulsou-me
da nave cheia de negrumes fiéis.
(8/12/1972)
 

Anderlecht

Nesta casa de um cónego hóspede peregrino
Erasmo esteve pouco tempo. Mas
não por reconstituída à sua imagem
a imagem se conserva tristemente irónica
do que opôs a loucura e o cavaleiro
cristão além de igrejas e deveres
de crenças pulhas como os homens nelas.
Morreu suspeito a todos. Não aqui.
Os lábios apertados, pega a pena,
e mira dos retratos o seu Deus só alma.
(9/12/1972)
 

Madrigal de Las Altas Torres

Cresceu aqui Católica Isabel
viveu aqui a amante de Sebastião
um dos falsos melhor que o verdadeiro
morreu aqui Fray Luís de Léon
(“Como íamos dizendo…” – reatou na cátedra
aonde a Inquisição cortara uns anos antes)
as torres altas não existem já
nem madrigais se cantam nestas ruas brancas.
À freira perguntei onde era que a princesa
no convento escondia o amante pressuposto
o rei que se esfumava de Encoberto.
Corou voltou-me as costas – um segredo
ainda hoje ao fim de quatro séculos.
(12/12/1972)
 

De Glasgow a Londres

Britânicos carneiros se passeiam plácidos
solenes (sobretudo lhes pendendo longo)
por entre o sol nevoento e a neve branca
não derretida por calor que lhes
fez que em casa deixassem o chapéu de coco
e o guarda-chuva quando vieram fora
a pastar pelos moors erva já de verde
que negra se parece como a terra
pisada pelos cascos delicados.
Bosques alheados todos ramo seco
os galhos entrecruzam no cinzento
discretamente vago em claridade
e neve ontem caída. São de Escócia
a terra, a lã, e esta nudez perdida.
(23/2/1973)
 

Terras de Escócia

Estas gaivotas que da Escócia em terra
brancas os campos sobrevoam pousam
grasnando longe do rolar das ondas
a vida por verdura e sementeiras
como se negros corvos discutiram
de pardo azul estrias céu e mar –
descem redondas se passeiam suaves
pé ante pé como terrestres aves
que pisam não areias mas o campo
e quanto quão de corvos o silêncio escuta
em Escócia o passo dos que reis mataram
furiosos unicórnios violadores
e as mãos lavando a sangue lhas marcaram
de chifre em riste onde as gaivotas vieram
fazer um ninho de esquecidas águas
e brancas fitam seu olhar raiado
nesta paisagem verde que hibernal se apaga.
(Leuchars – Londres, 1/3/1973)
 

Crepúsculo ao sul de York

Azul pardo e laranja tão de quietas nuvens
de um invisível sol o poente se prolonga.
E ramos ainda inverno as árvores em renques
se escuram lineares escondendo casas
de negras no crepúsculo que paira
como dos campos névoa suspendida.
Enquanto escrevo o alaranjado é rubro,
o pardo se acentua, empalidece o azul,
e a noite se entreafina de esfriar tranquilo.
(1/3/1973)
 

Paris, um verão

Nas escadas do cais tão gasto e branco
(acima as casas pardas, verdes árvores,
iguais do lado oposto, mas sem cais igual)
me sento à beira-rio. O sol requeima
não a cidade mas quem passa ou fica
como se praia houvesse neste breve espaço
ao pé das águas onde barcos passam
criando brilhos no castanho delas.
Sentei-me, antes direi, à beira-rio.
Um rio estranho, porque é meu homónimo,
e que de tanto vê-lo (e conhecê-lo antigo
antes de havê-lo visto), não devia sê-lo.
Simples e doce este sentar-me aqui,
famílias passam, gente dúbia passa,
ainda há clochards catando-se embebidos
no seu sem tempo, mas hippies também,
também fora do tempo, não catando-se,
que fumam marijuana. O tráfego passando,
e o som de uma cidade são distantes.
Perto de mim, desnuda-se um casal
de jovens que se alonga nos degraus.
E comem-se com os olhos – é possível
que tenham feito amor, mas não se viram nunca
assim ao sol os dois, junto do rio,
e à volta a grã-cidade em que ambos vivem,
e gente que perpassa e nos seus corpos crava
uns olhos de desejo, inveja ou raiva,
ou só saudade de ter sido jovem
num tempo em que tais coisas não havia
como estar quase nu com tudo à volta.
E os corpos mais se gozam de se verem vistos.
(4/12/1975)

O Exílio e as Pátrias

Poemas selecionados entre Brasil, Portugal e Estados Unidos

Como escreve em seu poema “Em Creta com o Minotauro”, Jorge de Sena foi cidadão de muitas pátrias: “Nascido em Portugal, de pais portugueses / e pai de brasileiros no Brasil / serei talvez norteamericano quando lá estiver”. Nesta seleção, apresentamos alguns dos poemas escritos em cada uma de suas pátrias, sobre cada uma delas, pelo poeta que nasceu português e morreu brasileiro em solo norteamericano.

 

Portugal:

•    “Pão” (de Visão Perpétua)
•    “Os Paraísos Artificiais” (de Pedra Filosofal, Poesia I)
•    “De relance, o Alentejo” (de Post-scriptum, Poesia I)
•    “A Portugal” (de Quarenta Anos de Servidão)
•    “Glosa de Guido Cavalcanti” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “O Douro preso em barragens” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Aviso de porta de livraria” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Lisboa um domingo” (de Visão Perpétua)

Brasil:

•    “Vespertino do Rio de Janeiro” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Vigília Cívica” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Borboleta brasileira” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Os nocturnos merecem respeito ou A salvação do Brasil em 1o. de abril” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Natal – 1965” (de Visão Perpétua)

Estados Unidos:

•    “Do Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Primavera no Wisconsin” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Noções de Linguística” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Duas paisagens da Califórnia” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Sobre esta praia… , III” (de Sobre esta praia… Oito meditações à beira do Pacífico, Poesia III)

 

Pão

Centeio novo do Minho
cresce depressa,
acompanha a vida:
o povo está sozinho
e vai partir.

Levanta-te bem verde.
A serra tem velas
e voa com nuvens
rolando nas velas.

Ergue-te e volta outro:
o povo parte sozinho,
não parte devagarinho.
(19/4/1942)

 

Os Paraísos Artificiais

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3o. andar e papagaios de 5o.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
(3/5/1947)

 

De relance, o Alentejo

Um céu abafadiço, um ar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.
A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,
roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem de esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,
menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante
conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,
as casas surgem brancas e compactas.
Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.
Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.
Um rio se adivinha. Mas, de ao pé da ponte,
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.
(30/5/1950)

 

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido dela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejeto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pro ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser’s minha, não.
(Araraquara, 6/12/1961)

 

Glosa de Guido Cavalcanti

                              “Perchi’ I’ no spero di tornar giammai”

Porque não espero de jamais voltar
à terra em que nasci; porque não espero,
ainda que volte, de encontrá-la pronta
a conhecer-me como agora sei

que eu a conheço; porque não espero
sofrer saudades, ou perder a conta
dos dias que vivi sem a lembrar;
porque não espero nada, e morrerei

por exílio sempre, mas fiel ao mundo,
já que de outro nenhum morro exilado;
porque não espero, do meu poço fundo,

olhar o céu e ver mais que azulado
esse ar que ainda respiro, esse ar imundo
por quantos que me ignoram respirado;

porque não espero, espero contentado.
(11/6/1961)

 

O Douro preso em barragens

Verde tão verde e as árvores no fundo.
No fundo os rápidos que de água se quebravam
subindo à sirga em de rabelos barcos.
Mais baixas as alturas se reflectem calmas
de rochas casas e arvoredo fundo.

Verde tão verde o rio se não corre
de lago é preso e um barco noutra margem
parado se contempla a esbelta proa arqueada
sobre o telhado inverso do solar antigo.
Só brisa matinal se encrespa de água e morre.

Verde tão verde era de espuma e rocas
polindo-se tranquilas no fiar das águas.
Vinham descendo os montes em socalcos que
lambidos se inseriam no passar dos barcos.
No fundo como nuvens se enverdecem rocas.

Verde tão verde era de rijas águas
de espumas e de pedras e de alteadas margens.
Tão verde ora de névoa surda
em que de gritos não barqueiros remam.
Que rio se era escuro e já de verdes águas.

Parado e sempiterno e velho de águas rio
não passas repassando as águas de outro tempo,
verde tão verde na manhã parada.
(Douro, 30/8/1971)

 

Aviso em porta de livraria

Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prémio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.
(25/1/1972)

 

Lisboa um domingo

              1

Dominical a rua
e branco de silêncio
Agosto varre o sol
e papéis velhos das
soleiras carcomidas
por beirais de sombra.

2

Não nada
e que fica
só mentira
alheia.
Não há nos defenda:
perfídia
alheia.
Que resta
e o durar mais
só como queira
maldade alheia.

3

Um vento que ouço de árvores:
nenhuma voz humana.
Ninguém me ouve ninguém:
um vento que ouço de árvores.

4

Do alto da ponte
encostas de cidade
e prata rio e mar.

5

Rapazes conversam
em gritos grosseiros.
Silêncio de alegres mortos.
(26/8/1973)

 

Vespertino do Rio de Janeiro

Na noite as luzes furam treva, não
para além dela, mas de mim com ela;
não sei se arranha-céus, ou se favelas
que lado a lado arranham morros para
sustento de miséria. Imenso mar,
de altíssimas sombrias transparências,
na noite em que perpasso qual silêncio.
Não sei se amor me evita ou me protege,
ou se é de amor que eu velo o brando sono
ruidoso e povoado.

Meu coração é só de amor que sabe;
mas o que sabe, de saudoso esquece,
na angústia dúplice de não ter-te ao lado.
(22/8/1959)

 

Vigília Cívica

No planalto da Pérsia,
enquanto Quetzalcoatl se espaneja, arrasta a cauda,
eles votam pela adopção da ementa parlamentarista.
A ementa é:
sopa de nabos, feijão guisado, arroz com carne seca.
Seca?      Sim, minha senhora,
é na secura que os dentes encontram, exploram
e desenvolvem
as mais lídimas virtudes mastigativas.
Acredita V. Exª, senador, na selecção natural,
ou prefere, peito de rola, o outro mundo como
vontade e representação?
Eu sei, Excelência, que a resposta é impossível,
que o vento sopra no altiplano irânico
por uma forma que a serpente pode –
– o quê? Minha senhora, que entende de serpentes,
a senhora, emplumadas? Não
interrompa as meditações patrióticas dos sábios da Grécia
que eram sete e não houve, que se saiba,
outros.
Sirva-se V. Exª, senador, e a madame
também,
deste precioso guisado. O nabo é,
como diria Freud, um símbolo.
Acreditam V. Ex.as  no inconsciente colectivo? –
– pode a serpente levantar voo,
com as penas adejando e a cauda pendurada.
Nem sempre, eu sei, minha Senhora; mas,
em sopa cozinhada a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode. Recorda-se, pai da pátria,
da sua juventude no planalto da Pérsia?
E de Édipo (o complexo), e de Jasão (o velo),
e de Ulisses (as sereias), naquela madrugada em que,
com ligeiro atraso, almoçámos juntos?
A cotação do café firmava-se nos astros
que Zaratustra lia apaixonadamente.
Foi nesse almoço que, na mesa ao lado, o cardeal falou,
citando CIF New York o Tigre de Bengala.
Creia, minha senhora, que de Ganimedes
nunca mais se soube, tranquilize
o coração maior que o mundo. Sobremesa?!
Mas como, senador, esta madama,
quando as serpentes passam exibindo as plumas,
deseja ainda pêssego em calda?!
O seu voto, senador, e o delas,
nesse altiplano irânico, Pamir, tecto do mundo,
são a derradeira garantia das instituições.
Mas pêssego, madame, com feijão
guisado e arroz com carne seca,
não é possível. Lembre-se de Ísis.
Repita a sopa. De nabo. Eu sei,
minha senhora, mas, a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode.
(Araraquara, 4/9/1961)

 

Borboleta Brasileira

Patas de prata
losango de asas brancas
de negro debruadas
plumas cinzentas como cauda insólita
e a longa e fina tromba alaranjada
instantânea língua
olhos de esfera negra que me fitam
da estática assustada imóvel calma
que as patas pousam na vidraça
um animal        ser vivo       e borboleta
a mosca como eu olha-a espantada.
(5/3/1964)

 

Os Nocturnos merecem respeito ou A Salvação do Brasil em 1o. de Abril

Como podem chamar noite
a isto?
Há uma dignidade e uma nobreza
das trevas.
Isto
é outra coisa: a luz do dia
lá fora (onde?),
os sons e os cantos de alegria
lá fora (onde?),
o amor
lá fora
(onde?),
e a vergonha
lá fora
(aqui).
Como podem chamar noite
a isto?
(7/4/1964)

 

Natal – 1965

(Cartão de Boas-Festas a Sidónio Muralha)

“Quando São Paulo só tinha
quatro milhões de habitantes”
este mundo em que vivemos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
nenhum de nós lá vivera,
nenhum de nós lá escrevera,
nem nossos filhos havia
com que São Paulo aumentasse.

E nestas neves que tombam
exactamente na véspera
do Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.

Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem
se poetas portugueses
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal que não há
nem nunca ainda haverá
neste mundo em que vivemos,
e de que sempre podemos
cantar São Paulo ou a lua.
Venha pois poesia tua,
apaixonada ou serena,
que gratamente a recebo
“ex corde”
Jorge de Sena.
(24/12/1965)

 

Do Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos

Deste Outono em árvores despidas
que em mil ramículos cruzados o livor enredam
celeste e nevoento de que as águas
tão crespamente se embranquecem frias,
eu não sabia já. Envelhecia
num Verão chuvoso ou num Inverno claro
em que de noutras árvores a folhagem viva
apenas de ser verde persistia.
Agora não. Neste hirto esbracejar de tantos dedos
que o ar sem unhas cortam tão tranquilos,
melhor hei-de saber que o tempo passa
em que sou eu quem passa como tempo
neste ficar do mundo sempre renovado,
com que da nossa vida é feito o tempo alheio.
(4/12/1965)

 

Primavera no Wisconsin

Na limpidez tranquila da manhã diáfana
em que as despidas árvores imóveis
são como nervos ou expectantes veias
no corpo transparente do azulado ar,
as águas quietas, mas não tanto que
nelas se espelhe mais que a concentrada cor
do ar tranquilo, nem tão menos que
pareçam gelo perto as águas mais distantes,
pousam na margem delicadamente
como na mesma terra infusas se dispersam
dos ramos e dos troncos sombras confundidas.
A terra se amarela de ante-verde
e, sêca, espera, entre a neve que foi
e o ténue estremecer da seiva que desperta.
(Madison, 15/3/1966)

 

Noções de Linguística

Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguez daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.
(Outubro, 1970)

 

Duas Paisagens da Califórnia

– As ilhas de Santa Bárbara

Tão lúcidas recorte no horizonte
a névoa ergue-as do mar em que flutuam
violáceas quietas pela tarde imóvel
até nas brandas ondas que esta praia pousam
recurva apenas de uma luz sem cor
e do silêncio da distância em ilhas.

– Big Sur

Do alto da escarpa escarpas se prolongam
em que de praias se entelaça o mar
sobrevoado de aves. Os rochedos
somem-se e brotam de sem espuma em volta
que só ressaca é depois deles areia.
(Janeiro, 1971)

 

Sobre esta praia…

                   III

Sobre estas águas a que luz de inverno
dá não sombrias cores, ou nestas praias
em que uma brisa fria não levanta areias,
paira ou perpassa a calma e tamisada
serena paz das tardes infinitas.
Rareia só a gente num silêncio
de corpos isolados que deambulam
dispersos na distância ou que se deitam nela
a dissolver-se glabros na ondulada linha
de linhas sucessivas em que algas secas
são como escuras crespas cabeleiras nuas
de sexos e cabeças de gigantes que,
sumidos no sem tempo, mais não deixam deles
que essa memória solta por gastado em águas
o corpo que o seu foi por sobre a praia em rochas.
Nesta nudez total do que ainda se demora
dispersamente humano ou imagem sobre-humana,
o que fisicamente não tem voz nem gestos,
ou nem mesmo de olhar se comunica além
de uma presença solta pelo espaço límpido,
é como se do mundo espelhos se partissem
que nem sequer em estilhas neste sol dardejam,
e como se Narciso os não tivera para
se contemplar lá onde as águas o chamassem
para afogar-se mesmo em olhos que o fitassem.
(6/10/1972)

Leia mais:

Alguns Poemas Políticos

Em áudio: “Quem a tem…” e “Epígrafe para a Arte de Furtar”, lidos por Jorge de Sena

des_JS-1O posicionamento político de Jorge de Sena, como manifestação ética e estética daquilo que define como “testemunho”, aparece como tema de boa parte de sua obra, em especial nos contos e crônicas mas também em poemas como os que transcrevemos a seguir:

 

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OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

3/5/47

 

“QUEM A TEM…”

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

9/12/1956

 

EPÍGRAFE PARA A
ARTE DE FURTAR

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
— quem cantarei?

roubam-me a Pátria;
e a Humanidade

outros ma roubam
— quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
— quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
— aqui del-rei!

3/6/1952

 

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,

foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sêmen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa — essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
— mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga —
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25/6/1959

 

EM CRETA, COM O MINOTAURO

I
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria de que escrevo é a língua em que por acaso de
[gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta

raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

II
O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da “langue”.
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo de investigar as origens da vida.

III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu,porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.

IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma.Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.

V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,

sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

5/7/1965

 

AVISO DE PORTA DE LIVRARIA

Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prêmio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.

25/1/1972

 

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