Versos de Jorge de Sena como mote a chamada de trabalhos da revista ‘eLyra’

Revista eLyra

 

Num poema de Peregrinatio ad Loca Infecta, «Tentações do apocalipse», Jorge de Sena escreve: Que os sóis desabem. Que as estrelas morram. / Que tudo recomece desde quando a luz / não fora ainda separada às trevas / do espaço sem matéria. Nem havia um espírito / flanando ocioso sobre as águas quietas, / que pudesse mentir-se olhando a Criação. / (O mais seguro, porém, é não recomeçar.) Performativo trágico, a convocar o fim dos tempos, mas para pensar um recomeço de todas as coisas – ou nem isso: fim sem recomeço, fim do fim, coisa nenhuma.

Que relação existe entre a poesia e o fim de todas as coisas – convocação, exorcismo, desejo ou temor? Como pode o poema dizer os fins – Auschwitz, Vietnam, Kosovo – e reivindicar a resistência da esperança? Entre o culminar do tempo no Apocalipse joanino e a dissolução da fala em Paul Celan, como se enuncia o fim do mundo?

A revista eLyra, editada pela rede de investigação internacional LyraCompoetics, dedicará o seu número 5 ao tema «poesia e fim do mundo».

Aceitam-se propostas de artigos até 31 de março de 2015, para: lyracompoetics@letras.up.pt

Para mais informações, consultar: Elyra

Sessão de entrega do Prêmio Jorge de Sena/2013

No dia 11 de novembro de 2014, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi entregue a Gilda Santos o Prêmio Jorge de Sena/2013. Na ocasião, a responsável pelo então laureado site — este nosso “Ler Jorge de Sena” — proferiu a palestra “Memória e atualidade do ‘Discurso da Guarda'”.

Nas fotos, além de Gilda Santos, o Júri do Prêmio e alguns dos presentes à sessão.

 

 

Jorge de Sena em palavras cruzadas

Neste 2 de novembro de 2014,  para assinalar o dia em que Jorge de Sena completaria 95 anos e também o 4º aniversário de nosso site, aqui reproduzimos recorte do jornal Diário de Notícias, de Lisboa, que, em 18 de dezembro de 1982, ofereceu a seus leitores a habitual coluna de “Palavras Cruzadas” tomando como mote a vida e a obra de Jorge de Sena. Esperando que nossos leitores se animem a preencher as quadrículas, só oferecemos as respostas em posição invertida… 

 

 

Quatro Anos em Números

 

No dia em que o poeta completaria 95 anos, o Ler Jorge de Sena chega a seu quarto aniversário. Apesar de ter sido um ano com inúmeras dificuldades técnicas que impediram que mantivéssemos a regularidade desejada e o número de publicações habituais, ainda temos muito o que comemorar: atingimos a marca de 286.000 visitas, de 138 países, em nossas 513 postagens. Recebemos de diversos professores e pesquisadores, especialmente brasileiros e portugueses, a notícia de que nosso site tem sido uma frequente fonte bibliográfica e de pesquisa para alunos de várias universidades. E, como se não bastasse, fomos agraciados com o Prêmio Jorge de Sena, em sua quarta edição.

Entre as 50 matérias que publicamos ao longo dos últimos 12 meses, destacamos a edição de uma série de estudos dedicados a O Físico Prodigioso, escrito por Sena no Brasil há 50 anos. Com esses ensaios, chegamos à marca de 117 textos dedicados à obra seniana. Os depoimentos de amigos, estudiosos, leitores e ex-alunos de Jorge de Sena, a maioria em vídeos gravados especialmente para o site, já são mais de 60.

Esperamos expandir ainda mais esses números ao longo de 2015. Que tenhamos ainda mais parceiros, colaboradores e público até o quinto aniversário deste projeto. Seguimos determinados a divulgar a obra e a fortuna crítica de nosso autor, para que sejamos sempre muitos, cada vez mais leitores de Jorge de Sena.

Jorge de Sena: Los trabajos y los días – Una antología

Los trabajos y los días es una antología -seleccionada por Jorge Fazenda Lourenço─ que ha resultado de un esfuerzo por registrar las diversas y prolíficas peregrinaciones literarias y culturales de Jorge de Sena (Lisboa, 1919-Santa Bárbara, California, 1978), «Los trabajos y los días» es el título de uno de sus poemas y también de esta selección de textos, porque cifra bien la dimensión épica y lírica de toda la obra de Sena. Incluye no sólo una sección bilingüe de poemas. sino también de cuentos y ensayos. A propósito, menciona Fazenda Lourenço en el prólogo: «En el terreno de los discursos y ensayos, las elecciones recayeron, mayoritareamente, en textos en que el poeta se presenta a sí mismo, en relación con el mundo y la literatura de su tiempo, ». La selección de los cuentos, dificilísima, buscó establecer un diálogo con aspectos importantes de la poesía: el testimonio como transmutación poética de una experiencia vivida, el erotismo, la centralidad de Camões en la vida y en la obra de Jorge de Sena, En lo que concierne a la poesía. busqué que sus ejes principales, antes mencionados ─erotismo y escatología, exilio y peregrinación. testimonio y lenguaje. humanidad divina y dignidad humana─, estuvieran representados. La poesía de Jorge de Sena es una poesía total, que toca y profundiza todos los géneros, en una especie de reactualización de la tradición poética y de toda la literatura ─entendida como un palimpsesto─ desde los tiempos de Gilgamesh al tiempo de los saberes y experiencias que con Jorge de Sena se construye. De cualquier modo. Como, dice en un verso de su poema “Espiral”, incluido en esta antología: “Un solo poema basta para alcanzar la tierra”.»

 

Novo título nas “Obras Completas de Jorge de Sena”

 

 

Sinopse (divulgada pela editora):

«Este volume reúne a ficção de Jorge de Sena escrita entre 1936 e 1940 (partes I e II) e outros tentames e projectos posteriores (parte III) que Mécia de Sena, por razões de oportunidade editorial, havia publicado, separadamente, em Génesis (1983) e Monte Cativo e Outros Projectos de Ficção(1994).

A reunião dos contos juvenis e projectos de ficção num único volume, pela ordem cronológica da escrita, permite acompanhar os primeiros passos do Jorge de Sena ficcionista, marcados pela experimentação genológica (da narrativa histórica ao «conto em moldes infantis») e de processos narrativos, com particular incidência na focalização, na construção das personagens, do tempo e do espaço. “A Personagem Total” é o texto mais ambicioso, e mais oficinal, com o seu jogo de níveis narrativos, o seu ludismo verbal, a sua indeterminação entre o sonho e a realidade, as suas notações metaficcionais e a sua questão do nome e do duplo.»
 

(Jorge Fazenda Lourenço in Prefácio).
Esta edição contém uma breve nota de introdução 
e notas bibliográficas de Mécia de Sena.

 

Jorge de Sena para o Panteão nacional & Literatura portuguesa de parabéns

Desde a trasladação dos restos mortais de Jorge de Sena, da California para Lisboa, em setembro de 2009, ouvem-se vozes a clamar pelo Panteão Nacional como derradeira morada do escritor. Com a recente transferência de sua amiga Sophia de Melo Breyner Andresen para o local, mais vozes adensaram o coro. E o tema permite outras considerações, outros passos em volta…

 

JORGE DE SENA PARA O PANTEÃO NACIONAL*

JULIO DE MAGALHÃES

 

A recente trasladação de uma poetisa (escrevo poetisa, porque é o feminino de poeta) para o Panteão Nacional, suscita, mais uma vez, a questão dos critérios a que deve obedecer a “selecção” das figuras públicas dignas do reconhecimento da nação.

Não parece que seja a Assembleia da República, cujos deputados são escolhidos pelas direcções partidárias, que se movem por interesses políticos e que não possuem, na generalidade, especiais creditações na matéria, o órgão mais habilitado a decidir quem deve, em função dos seus méritos, receber as honras de uma sepultura consagrada pela pátria. Não que a panteonização acrescente (ou retire) algo ao valor dos trasladados, mas porque, tratando-se de uma homenagem simbólica, e sendo o Panteão, por definição, um lugar de alojamento restrito, importa distinguir bem os maiores de entre os grandes. E não é certamente o Parlamento a sede própria para o efeito, ainda que se lhe possa atribuir o direito de ratificação.

Encontram-se sepultadas no Panteão Nacional figuras de nível muito desigual, mas isso também não deve estranhar-se, pois o mesmo acontece em congéneres estrangeiros. Basta olhar para o Panthéon de Paris para termos uma ideia. Todavia, essa realidade não deve confortar-nos, nem levar-nos a exageros ridículos como o protagonizado por um deputado socialista que, logo após a morte de Eusébio, pediu a panteonização do futebolista. Acho que o caso de Amália, por quem tenho, aliás, a maior admiração, foi já uma excepção evidente, para não falar da inconcebível trasladação de Humberto Delgado. É por isso que o prazo do reconhecimento dos “altos feitos” deveria ser sensivelmente alongado.

Entre os grandes nomes da cultura, Camões (se os seus despojos são autênticos) e Pessoa estão ausentes daquele templo cívico, o que não incomoda, uma vez que se encontram sepultados no Mosteiro dos Jerónimos. Já merece uma interrogação a ausência do famoso político Passos Manuel, a quem se deve a criação do Panteão Nacional, e cuja trasladação dos restos mortais foi recusada por falta de verba.

Pergunto-me porque não está Cesário Verde, um dos maiores poetas do século XIX, no Panteão Nacional? Ou porque não se trasladam para lá os restos mortais de Jorge de Sena, certamente o maior intelectual português da segunda metade do século XX?

Ignoro se Jorge de Sena, alheio a capelinhas, dispõe de “apoios” e de “conivências” bastantes para mobilizar as energias necessárias a desencadear uma operação nesse sentido, ou se tal movimento contaria com a aprovação da sua viúva, Mécia de Sena? Presumo que esta, que já autorizou a vinda do corpo do marido para Portugal, a tal não se oporia.

Assim sendo, deixo aqui o meu apelo: JORGE DE SENA PARA O PANTEÃO NACIONAL. JÁ!

 

[*] Blog “Do Médio-Oriente e afins”, de 11 de julho de 2014. Ver

 

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 LITERATURA PORTUGUESA DE PARABÉNS**

ANTÓNIO JACINTO PASCOAL

 

Não faz muito que demos passos em volta do caso Herberto, paradigma do país saloio em que vivemos, a começar pelos rebarbativos talentos que mitificam a sua existência nos exílios da imortalidade. Herberto escolheu entrar nas trevas, o que, paradoxalmente, lhe confere maior visibilidade do que supõe – aquilo que se encripta torna-se mais facilmente evocável, senão idolatrável. E, ainda que se diga “defendido contra as vertigens da dissipação”, o facto é que, na sua relação com a História, não controla o processo implacável da distribuição do livro, isto é, o resultado da sua própria criação.

Se, já com Servidões, o autor permitiu a servidão ao destino escandaloso e caprichoso da visão editorial que transformou a obra em fetiche e o leitor no seu trágico refém (também eu fiz parte daqueles que não encetaram a corrida à livraria mas receberam com moderada benevolência o “já esgotou” da ordem), com A Morte Sem Mestre esvaneceu-se, do meu ponto de vista, tudo aquilo que generosamente ligava Herberto “às fontes naturais do mundo” e o metamorfoseou, contra sua vontade, num vácuo fantasma da feira das vaidades, permeável a todo o tipo de especulações. Uma só palavra de Herberto Helder, se dela ainda fosse capaz, esmagaria o brilho das falsas pedrarias do circuito livreiro.

Nada contra o panteónico atributo a Sophia e a sua famosa “unanimidade” (seja lá o que isso for), ainda que mereça reflexão aferir critérios de selecção, lugar do arbítrio, silêncio de omissão e cedência à aporia – como estarão cotados Eugénio, António Ramos Rosa, Torga, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, O’ Neill (mesmo que com estrondosa gargalhada), Jorge de Sena (passe o paradoxo), David Mourão-Ferreira ou José Gomes Ferreira na bolsa de valores do luso Panteão? O que não deixa, porém, de constituir perplexidade é a declaração de Miguel Sousa Tavares sobre a escritora. Segundo ele, Sophia é uma autora “que não precisa nem de crítica nem de explicações”. Conhecemos o “complexo da crítica” a que se referiu Eduardo Lourenço, instituição que “sempre esteve desarmada diante da obra, [e que] foi sempre um corredor atrasado e impotente”. É, todavia, a crítica que legitima a obra, por mais que esta transporte no seu corpo “a única luz capaz de distinguir os vivos e os mortos” (E. Lourenço, O Canto do Signo). Porque não há obra sem leitor por mais autotélica que se queira, nem obra sem faculdade de renúncia para se submeter ao cepo. Aliás, não há obra incólume por natureza. Nem mesmo a da “unânime” Sophia.

Os exames (1.ª e 2.ª chamadas) de Português (9.º ano) esqueceram as obras de leitura obrigatória, a epopeia de Camões e um auto de Gil Vicente. Ora, neste ano decisivo, é comum os professores despenderem a quase totalidade do ano com os dois autores. Há uma obra narrativa (com frequência um conto de Eça) que passa também pelo escrutínio dos docentes. Mas nada. Em vez disso, uma entrevista ao grande Mário de Carvalho, um trecho de Machado de Assis, um texto de Gonçalo Cadilhe e outro trecho de Jorge de Sena. Nada a opor, não fosse o esquecimento do essencial. À saída da 1.ª chamada, os alunos diziam sentir-se defraudados, em “boa gíria”.

A juntar à pertinente preocupação de Maria Edviges Ferreira (PÚBLICO, 17 de Julho), talvez se possa reiniciar um diálogo sobre o que é canónico naquilo que, polidamente, se chama agora “Educação Literária”. Começando, por exemplo, por tentar perceber o que significa “unanimidade” (trinómioquantidade de leitores/qualidade literária/reserva moral (vulgo pudor)?). E, já agora, o que se entende por poesia, sobretudo poesia em contexto escolar, protegida, à boa maneira puritana, de todos os seus desvarios demoníacos.

 

[**] Jornal Público (Lisboa), de 22/7/2014. Ver

Leia mais:

Cerimônia de Trasladação

29. O Regresso do (In)Desejado

Lançamento do livro de Correspondência Jorge de Sena/João Gaspar Simões

Recente volume dedicado à correspondência de Jorge de Sena reúne aquela trocada com João Gaspar Simões, a qual é amplamente documentada e anotada pelo seu organizador.  

As fotografias registram o lançamento da obra em sessão no Grémio Literário de Lisboa, dia 30 de maio de 2013, vendo-se à mesa F.S.S., Onésimo Teotónio de Almeida (apresentador do livro), José Macedo e Cunha (Presidente do Conselho Diretor do Grémio Literário) e Manuel Fonseca (editor da Guerra e Paz). Na assistência, entre outros, Vasco Graça Moura.
Vale registrar que na FNAC CHIADO, livraria de referência lisboeta, os exemplares da obra se esgotaram rapidamente, em menos de um mês.

 

 

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Prêmio Jorge de Sena/2013 – Divulgação do resultado

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Reunido no dia 28 de Maio de 2014, no CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), o Júri do Prémio Jorge de Sena 2013, composto por Isabel Rocheta, Margarida Braga Neves e Teresa Martins Marques, decidiu por unanimidade atribuir o Prémio a Gilda da Conceição Santos, responsável do site Ler Jorge de Sena.

 

Entendeu o Júri que este site se vem destacando de forma notável no âmbito dos estudos senianos, aprofundando e divulgando a obra deste escritor e contribuindo para a sua repercussão junto de um vastíssimo público, quer a nível nacional, quer a nível internacional.

 

 ​O Júri do Prémio Jorge de Sena

CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Alameda da Universidade
1600-214 Lisboa – PORTUGAL
Telef.: 00351 21 792 00 44

“Prêmio Jorge de Sena/2013” – Regulamento

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1.   Por iniciativa, e com o patrocínio, de mecenas anónimo, o CLEPUL, Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade  de  Lisboa,  através  da  sua  Área  1  –   Literatura  e  Cultura Portuguesas, atribui o Prémio Jorge de Sena – 2013, com o objectivo de homenagear o escritor maior que foi Jorge de Sena.

2.   O Prémio Jorge de Sena tem o valor de 5000 euros e distinguirá um ensaio literário publicado ou apresentado em 2013, ou uma realização de especial relevo no âmbito do estudo e projecção da obra do autor.

3.   O Prémio é destinado a monografias, éditas ou inéditas, em português, sobre a obra de Jorge de Sena ou a iniciativas no âmbito das novas tecnologias pretendendo dar a conhecer, de forma exigente e rigorosa, a personalidade do escritor.

4.   O prémio será atribuído a uma única realização e não ao eventual conjunto da obra do seu autor, não sendo admitidas a concurso obras póstumas.

5.   A  divulgação  deste  Regulamento  é  feita  através  dos  meios  de  comunicação social, nomeadamente o jornal JL, e instituições directamente interessadas, designadamente o CLEPUL.

6. De cada obra concorrente serão enviados, pelo autor ou pelo editor, cinco exemplares para a sede do CLEPUL: Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Faculdade de Letras de Letras da Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, 1600-214, Lisboa. Destinam-se elas ao Júri e à biblioteca do Centro, podendo ser entregues por correio ou em mão, até 15 de Maio de 2014. A candidatura de iniciativas online deve ser apresentada dentro do mesmo prazo para o endereço electrónico do CLEPUL.

7. Os concorrentes deverão enviar, junto à candidatura, os seus contactos, designadamente, morada, telefone ou telemóvel e endereço de e-mail.

8.  O Júri é composto pelas Professoras Margarida Braga Neves e Maria Isabel Rocheta e por mais uma personalidade de reconhecido mérito designada pela Área 1 do CLEPUL.

9.   Não podem ser membros do Júri ensaístas ou editores com obras a concurso.

10. O Júri disporá de 60 dias para deliberar, reunindo nesse período de tempo sempre que achar conveniente.

11. A deliberação é tomada por maioria ou unanimidade, excluindo-se sempre a posição de abstenção.

12. São excluídas as possibilidades de atribuição ex-aequo do Prémio Jorge de Sena e de menções honrosas

13. O Prémio não será atribuído se o Júri entender que nenhuma das obras a concurso o justifica.

14. O Júri lavrará uma acta dos seus trabalhos e da sua decisão não cabe recurso.

15. Incumbe ao Júri regular a matéria omissa neste Regulamento.

16. A  decisão  da  atribuição  do  Prémio  será  transmitida  à  comunicação  social, nomeadamente aos jornais Público, Expresso e JL, indicando-se a data e as circunstâncias em que ocorrerá a cerimónia pública de entrega do Prémio ao galardoado.

 

Sena Integral

Do blogue de Eduardo Pitta, “Da Literatura“, em Terça-feira, Dezembro 10, 2013:

 

 

Os leitores de Jorge de Sena sabem que a sua poesia está dispersa por nove volumes — Poesia I (cinco livros), Poesia II (três livros),Poesia III (cinco livros), 40 Anos de ServidãoSequênciasVisão PerpétuaPost-Scriptum II (dois volumes) e Dedicácias. A partir de agora, temos reunida em volume único toda a poesia publicada em vida do autor. São 875 páginas num volume editado por Jorge Fazenda Lourenço — Poesia 1. Seguir-se-á o volume que junta a poesia «esparsa ou inédita à data da sua morte, e posteriormente editada por Mécia de Sena…» Chama-se a isto um acontecimento.

Realça Fazenda Lourenço que «Esta é a primeira vez que os livros de poemas de Jorge de Sena são publicados, integralmente, por ordem cronológica Desde 1978 que a poesia de Sena sobrevivia em antologias avulsas. Agora temos o primeiro tomo da integral, como deve ser. Este volume inclui nota prévia, índice geral, índice alfabético de poemas e primeiros versos (uma ferramenta preciosa sempre ausente das edições portuguesas), prefácios das edições originais, um depoimento, as indispensáveis notas aos poemas e a vastíssima bibliografia de Sena. Publicou a Guimarães, que tem sistematizado a reedição da obra do autor.

 

Jorge de Sena e o exemplar de Os Lusíadas que teria pertencido a Camões

Do jornal Público, de Lisboa, em 27/11/2013:

 

 

CAMÕES NO TEXAS
Cláudia Silva, em Austin

O centro de investigação Harry Ransom da Universidade do Texas em Austin possui um dos raros exemplares da primeira edição de Os Lusíadas , impressa em 1572, em Lisboa. Camonianos defendem que este exemplar pertenceu ao poeta português, sendo por isso conhecido como o “de Camões”.

 

Ler e examinar um dos raros exemplares sobreviventes da primeira edição deOs Lusíadas – poema épico de Luís de Camões (1524?-1580) –, impressa em 1572, é uma cerimónia quase religiosa, como se tivéssemos ido parar a uma cena do filme O Nome da Rosa .

Esta experiência pode ser realizada no Harry Ransom Center (HRC), Centro de Investigação de Humanidades no campus da Universidade do Texas em Austin (UT Austin), onde está o exemplar que dizem ter pertencido ao próprio Camões e é um dos mais importantes entre os 34 que existem espalhados por três continentes.

Antes mesmo de entrar no edifício do HRC, o visitante já tem, do lado de fora, uma ideia do incrível acervo que o edifício abriga. Nas fachadas de vidro estão impressas várias imagens – retratos de escritores e textos dactilografados – que evocam o arquivo. Lá dentro, na biblioteca, no segundo andar do edifício, quem quiser ver a primeira edição de Os Lusíadas tem de criar uma conta de investigação, na página Web do HRC, e assistir a um vídeo de dez minutos para aprender como se devem manusear livros raros e quais os procedimentos de segurança.
Qualquer pessoa pode ver a obra, mas estes requisitos são obrigatórios para se ter acesso à sala de visualização. É também recomendável contactar a instituição com 24 horas de antecedência, porque o livro está guardado num cofre.

Depois de feita a requisição da obra, uma das bibliotecárias aproxima-se, segurando com as duas mãos uma caixa vermelha de capa dura. Com muito cuidado desata os laços, abre a caixa, põe-na sobre a mesa, retira o livro e pousa-o sobre suportes revestidos de veludo. O visitante pode então folhear o livro, tentar ler as marginálias (comentários escritos à mão nas margens), com a ajuda de duas lupas, identificando as diferenças ortográficas em relação aos dias de hoje. Céu era ceo, muito era muy, e as palavras hoje terminadas em ão acabavam em am. Não era nam.

A experiência de ver o exemplar de Os Lusíadas, considerado o mais importante dos que existem por conter manuscritos de uma testemunha ocular da morte de Luís de Camões, é entendida por alguns como um mapa literário para regressar ao passado. A jornalista brasileira Heloísa Aruth Sturm, quando era estudante de mestrado na Universidade do Texas, em 2010, analisou este exemplar durante um semestre para a disciplina de História do Livro. Todos os alunos tinham de escolher um livro raro, analisá-lo e escrever um artigo académico. Interessada em literatura colonial, Heloísa soube desta cópia de Os Lusíadas através do seu orientador, Ivan Teixeira, investigador brasileiro e na altura professor na UT Austin. A aluna ia pelo menos uma vez por semana ao HRC para analisar Os Lusíadas. Tinha medo de danificar o livro, por isso usava sempre luvas para o folhear. Sentia-se “num convento em pleno século XVI”. A paranóia era tão grande, diz ela, que “às vezes, até tomava cuidado para não ficar respirando em cima do livro”.

 

A edição “de Camões”
No entanto, não são muitos os que vivem esta experiência literária de Heloísa. Richard W. Oram, curador de livros raros do Harry Ransom Center, desde 1991, diz que este exemplar de Os Lusíadas raramente é requisitado. Porém, a sua aquisição pela Universidade do Texas tem sido de extrema utilidade para produção académica mundial sobre a obra de Camões.

K. David Jackson, director dos estudos de Português, na Universidade de Yale, foi professor na Universidade do Texas em Austin, entre 1974 e 1993. Conta ao PÚBLICO, por email, que a universidade já tinha adquirido o livro quando ele foi contratado por esta instituição texana. E quando deu um seminário no Harry Ransom Center usou o livro como recurso. Na altura, mostrou-o à filóloga italiana e especialista em literatura medieval portuguesa Luciana Stegagno Picchio (1920-2008) e “ela ficou fascinada” com os comentários escritos à mão nas margens do livro, a marginália. Em 2003, o investigador publicou um CD-ROM, Luís de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572, com 29 exemplares da primeira edição, de várias bibliotecas internacionais.

O trabalho foi apresentado na Fundação Luso-Americana, em Lisboa. Na introdução textual desse CD, K. David Jackson explica que este exemplar foi essencial e de extrema influência para a academia, por causa das suas qualidades raras, como o “comentário marginal assinado por frei Joseph Índio, padre do Sul da Índia, convertido ao cristianismo, que Camões deveria ter conhecido, que era pelo menos 30 anos mais velho do que ele, tendo chegado a Lisboa em 1501 com a frota de Cabral.” O que atesta a relação entre esse frei e Camões são os manuscritos nas margens nas primeiras páginas do volume. Todas estes dados levaram os investigadores a referir-se a este exemplar como “de Camões”. Dizem que o poeta o teria consigo, quando frei Joseph o terá assistido no leito de morte.

 

“De Camões” para os Estados Unidos
Parte da marginália é em espanhol, incluindo traduções de palavras portuguesas. Este facto permitiu aos investigadores concluírem também que este exemplar pertenceu ao “Convento de Carmelitas Descalços de Guadalcázar”, em Espanha, da ordem a que pertencia frei Joseph Índio desde que chegou a Portugal. Tudo indica que o padre levou consigo o exemplar de Portugal para Espanha ainda no século XVI, logo após a morte de Camões, como explica K. David Jackson no CD-ROM. Diz ainda o investigador americano, no seu artigo de introdução ao CD-ROM, que no século XIX o livro chegou às mãos do diplomata britânico John Hookam Frere (1769-1846), em Sevilha, e, em 1812, foi doado para a Holland House, onde permaneceu durante mais de um século, com excepção de um empréstimo de curta duração a Sousa Botelho, morgado de Mateus, que o usou para preparar a sua própria edição de Os Lusíadas, publicada em Paris em 1817.

Foi na década de 1960 que o livro foi levado para os Estados Unidos, tendo-se então iniciado negociações para a sua compra pela Universidade do Texas. K. David Jackson conta-nos que em 1966 o poeta e dramaturgo português Jorge de Sena (1919-1978), na época professor de Literatura de Língua Portuguesa na Universidade de Wisconsin, apanhou o autocarro em Madison, Wisconsin, onde morava, e viajou durante cerca de 20 horas para chegar a Austin, capital do Texas, para avaliar o exemplar e dar consultoria aos curadores do HRC. No entanto, de acordo com os arquivos do HRC, a compra só se efectuou no dia 4 de Março de 1970. As negociações foram realizadas pelo comerciante de livros Lew David Feldman, da House of El Dieff, em Nova Iorque, com quem Harry Ransom, então presidente da UT Austin e director do HRC, negociava constantemente.

De acordo com o curador de livros raros do HRC, Richard W. Oram, não há muita informação sobre a compra deste exemplar. Parece também não haver muita documentação sobre o mesmo. O curador não sabe as razões pelas quais o livro foi adquirido pela Universidade do Texas. E lembra que não há ninguém actualmente no HRC que tenha estado relacionado com essa compra. Por isso especula que uma das razões para a aquisição deste exemplar possa ter sido o facto de a universidade ter muito dinheiro nessa altura. Além disso, lidavam com o tal comerciante de livros Lew David Feldman, conhecido de Harry Ransom. Os arquivos do HRC que correspondem à compra deste livro estão guardados em quatro caixas. Aí descobrimos que a obra de Camões custou à universidade um pouco mais de cem mil dólares, incluindo seguro e transporte, valor que corresponderia hoje a cerca de 600 mil dólares.

 

O dilema das duas edições
O exemplar adquirido pela Universidade do Texas tem sido de extrema relevância para os investigadores por ter ajudado a desmistificar as supostas duas edições de 1572. A pesquisa sobre os problemas associados à primeira edição tem-se estendido por mais de três séculos, escreve o investigador de língua e cultura portuguesa na Universidade de Yale K. David Jackson na introdução textual do CD-ROM.

Tudo começou em 1685, quando um grande comentarista de Os Lusíadasobservou pela primeira vez que a imagem do pelicano no frontispício (ou folha de rosto) estava virada em alguns exemplares para o lado esquerdo do leitor, e em outros para o lado direito. Observações posteriores identificaram outras diferenças que pareciam estar associadas à posição do pelicano, como a leitura do sétimo verso da primeira estrofe, que começa “E entre” no caso do pelicano “à esquerda,” e “Entre” no caso do pelicano “à direita”. As duas edições ficaram conhecidas como “Ee” e “E”. O exemplar guardado no Harry Ransom Center classificar-se-ia como “E”. Mas K. David Jackson refere-se a estas duas edições como um mito que se fixou no imaginário português.

Desde então, vários investigadores têm-se dedicado a responder à questão: se há duas edições diferentes, duas impressões do mesmo impressor, ou ainda uma edição autêntica e outra falsa. Foi este exemplar adquirido pelo Harry Ransom Center, com capa de pergaminho e em excelente estado, que em 1976 deu início ao estudo comparado de 34 exemplares da primeira edição, levada a cabo por K. David Jackson, e que desafiaria posteriormente a hipótese de que a primeira versão impressa teria sido recomposta numa nova edição.

Conforme o artigo do investigador de Yale, “existem em cerca de um terço dos exemplares sobreviventes – em 12 dos 34 – variantes que representam a combinação, num único volume, de elementos normalmente associados a “E” ou “Ee”. K. David Jackson concluiu, no seu artigo “Luís de Camões e a Primeira Edição d’Os Lusíadas, 1572”, que os dois pelicanos, assim como “E” ou “Ee”, “não correspondem a edições na íntegra, mas sim a estados de impressão de Os Lusíadas em 1572”.

Dos 34 exemplares comparados, 12 estão em Portugal (um deles é um fac-símile), sete nos Estados Unidos, cinco no Brasil, dois em Espanha, quatro na Inglaterra, dois em França, um em Itália, e um na Alemanha. De acordo com o investigador, devem ainda existir outros exemplares em Portugal “em mãos de particulares”.
Conforme os escritos académicos de K. David Jackson, Os Lusíadas é o décimo sexto título publicado pela tipografia e o sexto em língua portuguesa. Foi impresso por António Gonçalves, que tinha oficina própria, em Lisboa, na Costa do Castelo.

Apesar de não ser muito usado, este volume pode ser de extrema valia para várias áreas de investigação. Afinal, como diz o historiador inglês Peter Burke, professor emérito em Cambridge, as marginálias funcionam como uma “evidência da recepção daquilo que o autor emite ao leitor.” Marginálias dos séculos XV e XVI são entendidas, por alguns investigadores, como a primeira forma de hipertexto, de narrativa não linear. Peter Burke defende que as marginálias expressam o que o leitor considera importante, aprova ou desaprova numa leitura.

 

 

Cartas trocadas entre Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade na ‘Granta’/2


No segundo volume da Granta Portugal, cujo tema é o Poder, publica-se a correspondência (até agora inédita, segundo release dos editores) trocada entre dois grandes poetas de língua portuguesa: Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade. Naturalmente, numa conversa entre escritores fala-se de escritores e sobre o poder de cada um no mundo das letras. Quem será, então, o ‘escritor importante’ (extraordinariamente importante, diga-se), brindado na correspondência entre os dois poetas com estas palavras?

 

– “um dos maiores estafermos humanos que já foi escritor importante (conheci-o pessoalmente aqui, e tenho lido as perfídias dele, e as respostas que têm provocado), literato até à medula dos ossos (faz lembrar aquele papagaio do Tagore, que tinha lido tanto, para compor as suas falas, que, quando morreu e lhe fizeram a autópsia, se descobriu que a causa mortis havia sido que as vísceras todas se tinham transformado em folhas de livros), reaccionário de meter aflição, inimigo declarado da língua portuguesa”.

 

A resposta está no número 2 da Granta Portugal, que chega às livrarias no próximo dia 18 de outubro, mas já foi expedida para os assinantes. Ver GrantaPortugal.

 

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A mais polêmica correspondência de Jorge de Sena

Avaliado pelo habitualmente comedido Eugénio Lisboa como “um livro, a todos os títulos, exemplar“, o volume que reúne a correspondência trocada entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões mereceu ainda mais elogios do articulista na página 12 do JL de 21 de agosto último (ver): “É um modelo do que um livro de epistolografia deve ser: abundantes e bem investigadas notas de pé de página, textos dos autores, que enquadram a correspondência e melhor iluminam certas passagens dela, testemunhos, um elenco das resenhas do crítico presencista à obra de Sena, índice de outras edições das correspondências, indispensáveis cartas de Mécia de Sena a Simões, umas muito interessantes e esclarecedoras Memórias dos Anos 40 em forma epistolar, de Mécia, um útil Índice Cronológico, um longo, percetivo, bem fundamentado e inteligente “Estudo Introdutório”, da autoria de FDS, que é, de resto, também o responsável por toda a formatação e execução organizativa, e, last but not least, um precioso Índice Onomástico. /// É um autêntico festim a leitura de um livro assim concebido, tão rico de informação, de interpretação fina e de minucioso cuidado organizativo.”

A importância desse carteio agora trazido a público já fora antes apontada por George Monteiro na resenha que aqui editamos (ver).

Contudo, no jornal Expresso de 10/8/2013, Arnaldo Saraiva desfere um contundente ataque contra esta edição ou mais ​propriamente envia ​“sinais de fogo” contra Mécia de Sena ​a propósito de uma referência sobre si próprio que encontrou em carta de Mécia a Gaspar Simões ​(ver), o que ensejou a réplica do organizador do volume, no mesmo jornal, duas semanas depois (ver).

​ Note-se que fora o mesmo semanário Expresso que dera acolhida, anos antes, ao polémico testemunho de Arnaldo Saraiva sobre ​Jorge de Sena, aliás mencionado em ambos os artigos.

 ​Até ao momento, nenhuma outra correspondência editada de Jorge de Sena desencadeou tantas páginas de acaloradas controvérsias.

 

 

 

 

À venda a casa de Jorge de Sena em Lisboa

Está à venda a casa da Rua Dinis Dias, 18, no Restelo. Ocupada pela família Sena desde janeiro de 1954, a mudança para esse novo espaço, depois de anos vividos na casa (alugada) dos seus pais, representou para Jorge de Sena a libertação de vários “fantasmas” familiares que o perturbavam. Aí nasceram três filhos do casal Mécia e Jorge e aí muito escreveu o Sr. Engenheiro da Junta Autónoma das Estradas, até sua partida para o Brasil em setembro de 1959. Já professor universitário nos USA, sempre que voltava a Lisboa, recebia no  “bairro de casas econômicas” visitas sem conta de amigos e jornalistas. Em 1968, ante a ameaça, por um despacho ministerial, de perder a propriedade, que pagava ao longo de 15 anos, Jorge de Sena pede o auxílio de Eduardo Lourenço para dirimir a questão junto ao Ministério, obtendo sucesso. Depois de sua morte, a casa abrigou, além da família em férias, inúmeros estudantes e pesquisadores, acolhidos graciosamente durante todo o período que necessitavam permanecer em Lisboa.Os custos da manutenção e a dificuldade em conseguir vigilância contínua levaram a família Sena a optar pela alienação da propriedade. A exemplo de muitas existentes em Portugal, que dizem as autoridades, ou a iniciativa privada, sobre a hipótese de uma “Casa-Museu Jorge de Sena”?  

 

 

 

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A casa da Rua Dinis Dias, 18 – Restelo

 

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Casa Restelo
Mécia à janela de sua casa

 

 

Mécia de Sena, a “viúva prodigiosa”

Com tão preciso título, a última edição do JL – Jornal de Letras Artes e Ideias (21/8 a 3/9/2013), dedica a capa e alentadas páginas a Mécia, fazendo-lhe justiça como a grande e infatigável organizadora das obras de Jorge de Sena. Com a devida autorização, aqui reproduzimos esse histórico dossier.

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(Clique na Imagem para ser Redirecionado)

Recorte antigo: Sinais de Fogo na Figueira

Mencionado por José Augusto Cardoso Bernardes no testemunho que nos concedeu, desentranhamos de arquivos mortos este breve artigo que assinou n’O Figueirense, há mais de 20 anos, a propósito do romance de Jorge de Sena.

 

“SINAIS DE FOGO” NA FIGUEIRA

José Augusto Cardoso Bernardes

 

“Para aquele lado, a praia estava quase deserta; e o areal encurvava-se até ao Cabo Mondego, com os barcos varados, e um ou outro vulto perdido na areia. Entre os barcos, e também sentados na borda das muralhas, havia pescadores cosendo redes…” p. 109.

Muitas descrições como esta referentes a espaços da Figueira podem ser encontrados em “Sinais de Fogo”, um romance de Jorge de Sena publicado postumamente, em 1979. As situações aí descritas têm, sobretudo, a ver com a animação estival na década de 30 e vão desde o bulício da zona da praia e do Bairro Novo, até às cercanias de Buarcos (onde, por vezes, se alugavam quartos à hora para amores furtivos) e de Tavarede por onde jovens verancantes, apaziguadas as ardências do meio-dia, estendiam os seus passeios de lazer e de namoro.

Mesmo para quem não tenha conhecido a Figueira daquele tempo (o romance ocupa-se de apenas de alguns meses do ano de 1936) não é difícil, ainda hoje, reconhecer os locais descritos no livro. Os cafés e as pensões do Bairro Novo, por exemplo, não deveriam ser muito diferentes. Naquela altura fervilhavam de espanhóis: turistas na sua maioria, mas também alguns refugiados da guerra civil que entretanto eclodira no país vizinho.

O romance tem um nítido suporte autobiográfico: o narrador e personagem principal chama-se mesmo “Jorge” e o “Tio Justino”, professor de um colégio local, frequentador incontido do jogo do Casino e inveterado mulherengo, inspirou-se numa figura real que muita gente ainda lembra. A sua quinta dava para a estrada de Tavarede e nela se refugiaram, realmente, muitos perseguidos políticos e estrangeiros.

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A intriga que atravessa o romance é, também, se não real, bem verosímil pelo menos. As personagens principais são jovens em férias na Figueira a quem a vida social e recreativa da cidade proporcionava, naturalmente, borgas e “rapaziadas”, convívios chiques de chá ou de praia, encontros e desencontros mais ou menos duradouros. O pano de fundo de toda a acção é porém, a Guerra Civil de Espanha e os ecos que ela ia tendo no nosso país nesse Verão que de 36. Esse acontecimento constitui de resto, a base do encontro dos jovens com os problemas políticos e sociais do seu tempo.

Apesar disso, “Sinais de Fogo” não se confina aos limites de um romance de espaço social. A categoria romanesca que mais avulta, em termos de história e de discurso, é a final a personagem e o seu processo de maturação. Uma maturação que se desdobra em vários planos com destaque para o plano cívico (em que sobressai a figura tutelar do “Tio Justino”) e para o plano existencial, que implica a descoberta da vida e o confronto com as grandes questões que ela coloca ao jovem e ao adolescente de ontem e de hoje.

O livro de Jorge de Sena é, assim, um livro de circunstâncias pessoais e políticas. Mas é muito mais do que isso: é também, sob o ponto de vista literário um dos mais importantes romances portugueses deste século.

E não é só pelo facto de se relacionar com Figueira que merece ser lido.

In: O Figueirense, Figueira da Foz, 7 set, 1990, p.8

O acervo de Jorge de Sena continua a preocupar…

Na cerimônia de entrega do “Prémio Jorge de Sena–2012” a Jorge Fazenda Lourenço, Margarida Braga Neves, em nome do júri, leu algumas páginas condizentes com a ocasião. Destas, destacamos o trecho abaixo, que nos parece oportuníssimo, por trazer novamente à ribalta a premência de medidas eficazes para preservar, em Portugal, o rico acervo de Jorge de Sena.

 

O ACERVO DE JORGE DE SENA CONTINUA A PREOCUPAR…

Margarida Braga Neves

 

Para além da inesgotável arca pessoana, existe um outro grande acervo do século XX que continua em grande parte – e para preocupação nossa – a 10.000 Km de Portugal, instalado numa residência sem condições especiais de segurança nem de climatização, para mais numa zona como a cidade de Santa Bárbara que é periodicamente flagelada por fogos florestais devastadores. Claro está – e é da mais absoluta justiça referi-lo aqui – que esse espólio tem vindo a ser cuidado há longas décadas, com a maior devoção,  por aquela que é a sua maior especialista – Mécia de Sena, a viúva do Poeta – que lhe tem dedicado o melhor do seu vasto saber e da sua extraordinária capacidade de trabalho. Contudo, e dada a sua avançada idade, é chegado o momento de as autoridades que tutelam a cultura em Portugal assumirem plenamente as suas responsabilidades e concluírem de uma vez a transferência já iniciada e entretanto suspensa de tão importante acervo para a Biblioteca Nacional de Portugal, que é o lugar mais adequado à sua preservação, estudo e divulgação.

Se após trinta anos em solo estrangeiro os restos mortais de Jorge de Sena repousam finalmente em solo pátrio, como sempre foi seu desejo, é tempo de, pela mesma ordem de razões, o imenso espólio que nos legou ser acolhido e instalado na instituição mais vocacionada para tal efeito, disponibilizando aos investigadores da sua obra, nas condições mais adequadas, os materiais que, com inexcedível generosidade e o maior espírito de colaboração, Mécia de Sena sempre disponibilizou a todos aqueles que, ao longo dos anos, a procuraram na sua residência em Santa Bárbara.

Por ocasião da entrega deste prémio, num dia que se reveste do simbolismo [4 de Junho de 2013 assinala o 35 º aniversário da morte de Jorge de Sena, em Santa Bárbara, na Califórnia, em 1978] cabe talvez recordar que Jorge de Sena apenas recebeu um prémio em Portugal, o Prémio António Ramos de Almeida – 1976, atribuído a uma colectânea de ensaios, Maquiavel e Outros Estudos (1974), por ocasião da Feira do Livro do Porto. A sua obra poética ou ficcional nunca foi premida.

Em contrapartida a Itália foi incomparavelmente mais generosa, tendo-lhe atribuído o 15º Prémio Etna-Taormina, que anteriormente apenas galardoara um autor de língua portuguesa, o poeta brasileiro Murilo Mendes. O prémio foi entregue a Jorge de Sena  em Catânia, na Sicília, em 1977. No discurso de agradecimento, o poeta teve palavras duras para aqueles que, no seu país de origem, lhe negaram ou roubaram as honras à última hora, acentuando que “Pela primeira vez na vida, por estranho que pareça recebo um prémio de poesia” (p.203). E prosseguiu a sua intervenção proferindo palavras, que continuam e continuarão a ecoar,  tanto pela justeza da dimensão ética que é a sua, como pela peculiar definição de poesia enquanto testemunho que nelas (se) formula:

“ [Esta] é (…) a poesia de um homem que viveu muito, sofreu muito, partilhou a vida pelo mundo adiante, sempre exilado e sempre presente com uma vontade de ferro. Mas é uma poesia que sempre que se forma, não sabe nada, porque é precisamente a busca ansiosa e desesperada de um sentido que não há, se não formos nós a criá-lo e a fazê-lo. Quis sempre que essa poesia fosse o testemunho fiel de mim mesmo neste mundo, e do mundo que me deram para viver. Mas uma testemunha que cria no mundo aquele sentido que eu disse, e, ao mesmo tempo, deseja lembrar aos outros que há uns valores essenciais muito simples: honra, amor, camaradagem, lealdade, honestidade, sem os quais a vida não é possível, e toda a poesia, por mais sábia que seja, é falsa. Uma testemunha de que, sem justiça e sem liberdade, as sociedades humanas não dão ao homem a dignidade que é a sua, e que ao poeta cumpre afirmar. Não uma testemunha passiva mas activa. Porque é esse o papel da poesia. Pode ela ser panfleto, ou ser visão mística, ou ser sátira, porque ela pode ser tudo. Mas tem de ser activa, não só no sentido meramente panfletário, mas no de, herdando tudo o que a Antiguidade e o passado nos legaram, criarmos a língua do presente e a língua do futuro.” (Poesia e Cultura: 205-206)

Essa língua do nosso tempo e dos tempos por vir que os grandes poetas criam e de que nós, seus estudiosos, temos o privilégio de ser os arautos.

Novas publicações de e sobre Jorge de Sena

Novo livro nas "Obras Completas de Jorge de Sena": Enrevistas - 1958-1978
Novo livro nas “Obras Completas de Jorge de Sena”: Enrevistas – 1958-1978

 

 

Novo livro sobre Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço -- "Prêmio Jorge de Sena 2012"
Novo livro sobre Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço — “Prêmio Jorge de Sena 2012”

 

Edição anotada por Maria Otílida Pereira Lage da correspondência entre Jorge e Mécia relativa ao período brasileiro (1959-1965)
Edição anotada por Maria Otílida Pereira Lage da correspondência entre Jorge e Mécia relativa ao período brasileiro (1959-1965)

Em breve:

Correspondência Jorge de Sena/ João Gaspar Simões Anunciada para maio de 2013, pela editora Guerra & Paz, o volume de correspondência de Jorge de Sena com João Gaspar Simões, em edição “rigorosamente cuidada e profusamente anotada por Filipe Delfim Santos” (ver http://www.delfimsantos.net/)
Correspondência Jorge de Sena/ João Gaspar Simões
Anunciada para maio de 2013, pela editora
Guerra & Paz, o volume de correspondência de Jorge de
Sena com João Gaspar Simões, em edição “rigorosamente
cuidada e profusamente anotada por Filipe Delfim Santos”
(ver http://www.delfimsantos.net/)

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Prêmio Jorge de Sena

 

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Atribuição do Prémio Jorge de Sena 2012 a Jorge Fazenda Lourenço

Reunido no dia 22 de Abril de 2013, o Júri do Prémio Jorge de Sena, constituído por Margarida Braga Neves, que presidiu, Maria Isabel Rocheta e Ernesto Rodrigues, decidiu por unanimidade atribuir o prémio à obra Matéria Cúmplice. Cinco Aberturas e um Prelúdio para Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço (Guimarães, 2012).
Além de dois ensaios sobre a recepção de Jorge de Sena nos anos quarenta e sobre Sinais de Fogo como romance de aprendizagem, o Júri relevou a presença dos tópicos da Guerra Civil espanhola, do exílio e da diáspora em três densos trabalhos que iluminam outras tantas facetas da criação seniana. O volume encerra com a bibliografia de Jorge Fazenda Lourenço sobre o autor de Metamorfoses, ao longo de trinta anos (1982-2012).
O prémio Jorge de Sena, instituído em 2010 pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa), com o patrocínio de mecenas anónimo, galardoou anteriormente ensaios de Vítor Aguiar e Silva (2010) e de Jorge Vaz de Carvalho (2011).

Lisboa, 22 de Abril de 2013

 

A cerimônia de entrega do prêmio de 2012 a Jorge Fazenda Lourenço está marcada para o dia 4 de Junho de 2013, dia em que se assinala o 35.º aniversário da morte de Jorge de Sena. A sessão realiza-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, como é da tradição, o autor premiado proferirá uma conferência, ora intitulada “Erotismo e escatologia: inquirições senianas”.

 

EDIÇÕES ANTERIORES:

Prémio Jorge de Sena 2011: Jorge Vaz de Carvalho.

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Prémio Jorge de Sena 2010: Vítor Aguiar e Silva.

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Novos Estudos em Livro: Portugal como (Im)possibilidade continuada (abril/2011)

De Maria Otília Pereira Lage

Deve-se à Ed. Afrontamento, do Porto, a mais recente publicação em livro a focalizar Jorge de Sena: Portugal como (Im)possibilidade continuada: Cidadania e Exílios (1930-1970). "À conversa" com Jorge de Sena. Trata-se do resultado de extensa investigação de Pós-Doutoramento, na área de estudos sociais e históricos, da Professora Doutora Maria Otília Pereira Lage. Eis a apresentação que se lê na contracapa:

"… Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem..." é o conhecido verso seniano que, problematizando um dos principais constructos históricos modernos, a nacionalidade, concentra e antecipa o processo de conhecimento que a autora se propôs levar a cabo. Este estudo mobiliza a relevância singular da poliédrica vida-obra de Jorge de Sena, na sua trama polifacetada de poeta, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta, crítico e tradutor, com a qual se estabelece aqui um diálogo metafórico, privilegiando as relações entre história e literatura na compreensão sócio-histórica da contemporaneidade portuguesa. Em causa estão fundamentalmente as relações entre o literário e o social, a função que a sociedade atribui à literatura e o papel que esta última admite aí representar. Assim, o livro é também uma viagem por representações político-sociais e culturais da nossa história recente, tornada visível por Jorge de Sena, "cidadão do mundo", em seu ideal emancipatório de escritor e intelectual de vanguarda, onde temas como humanidade, fidelidade, utopia, cidadania, desencanto, amargura, exílio, ironia e, naturalmente, Portugal são recorrentes. Com um enfoque na materialidade do texto e na corporeidade do leitor potencial, socioculturalmente construída, este livro torna possível, em hipotéticas leituras do texto, pensar a literatura comprometida no seu sentido de transformação radical a partir de um modo peculiar de denúncia constante da repressão, da censura, da mesquinhez e do autoritarismo instalados pelo regime salazarista.

 


 

Novas Edições e Novas Obras: tradução e correspondência (abril/2011)

Pela Guimarães Editores

Encerramos 2010 com mais duas ótimas notícias no que diz respeito à edição de obras de Jorge de Sena. Dando prosseguimento ao projeto de publicação das Obras Completas do autor, a Guimarães Editores acaba de (re-)lançar o volume 80 Poemas de Emily Dickinson, um belo encontro entre a poetisa norteamericana e o poeta português, num livro que, esgotado há muitos anos, é um bom exemplo de uma das vertentes da produção seniana: a do tradutor.  Ao mesmo tempo, a Guerra & Paz – editora que já havia publicado a correspondência de Jorge de Sena e Sophia de Melo Breyner Andresen (já em sua 3a. edição) – lança a correspondência até então inédita entre Jorge de Sena e Raul Leal, um dos menos conhecidos colaboradores de Orpheu.

De acordo com Jorge Fazenda Lourenço, em depoimento registrado no site da editora, «Esta breve, mas intensa, correspondência vem recordar Raul Leal como uma das grandes figuras do nosso modernismo. As suas cartas, dominadas por um êxtase de linguagem, chamam a atenção para aquele veio ocultista, esotérico, que foi uma das matrizes dos poetas da Orpheu, na continuidade de algum simbolismo e decadentismo finissecular. Quanto a Jorge de Sena, esta correspondência vem mostrar, uma vez mais, a importância do seu trabalho de mediação, feito pelo convívio e admiração crítica, na afirmação de uma plêiade de poetas que ousaram ser modernos em Portugal.» Em suas 136 páginas, Jorge de Sena / Raul Leal: Correspondência 1957-1960 traz 19 cartas de Raul Leal, seis de Jorge de Sena e ainda uma introdução de Mécia de Sena e prefácio de José Augusto Seabra, que afirma: «A publicação da correspondência de Raul Leal e Jorge de Sena […] constitui um alto acontecimento cultural, para além de uma justa homenagem, como ela [Mécia de Sena] belissimamente escreve, a um grande espírito de fidalga e inesquecível presença.»

Novas Edições e Novas Obras: reedições de Jorge Fazenda Lourenço (dezembro/2011)

Acaba de chegar às livrarias uma "nova" antologia de poemas de Jorge de Sena, organizada e prefaciada por Jorge Fazenda Lourenço. Trata-se, na verdade, de uma reprodução – com algumas alterações – da antologia publicada pela editora ASA em 1999, esgotada há tempos. Publicada pela Guimarães Editores, a Antologia Poética de Jorge de Sena é uma seleção de 168 poemas (dentre os 1600 que constituem a poesia seniana), em uma edição de 130 páginas com capa dura. Faz parte da coleção "Obras Completas de Jorge de Sena", lançada pela editora, que define o volume como "uma das mais belas e importantes antologias da Poesia mundial do século xx".

Ao mesmo tempo, a Guerra e Paz lança uma reedição de A Poesia de Jorge de Sena. Testemunho, Metamorfose, Peregrinação, tese de doutoramento de Jorge Fazenda Lourenço, defendida em 1993 e publicada em livro em 1998. O longo ensaio de Fazenda Lourenço é um dos mais completos estudos dedicados à poesia de Jorge de Sena e sua reedição, bem como a de sua antologia, é uma enorme contribuição àqueles que se interessam pela obra de Sena. A julgar pelo interesse editorial, somos muitos os leitores; que as novas publicações nos tornem cada vez mais numerosos.

Novos Estudos em Livro: Sinais de Fogo como romance de formação (dezembro/2011)

De Jorge Vaz de Carvalho

Acaba de sair, pela Assírio & Alvim, o livro Jorge de Sena: Sinais de Fogo como romance de formação, fruto da tese de doutorado de Jorge Vaz de Carvalho, originalmente intitulada Jorge de Sena: Uma poética da Formação e tendo Jorge Fazenda Lourenço como orientador. O volume de 448 páginas vem preencher um vazio nos estudos senianos, como aponta o autor em sua Introdução: «De toda a criação literária de Sena, a menos favorecida comparativamente pela investigação é o romance único e inacabado Sinais de Fogo. Embora haja sobre ele estudos parciais, faltava, sem dúvida, um trabalho mais volumoso e profundo sobre este que consideramos um dos mais notáveis romances da literatura em língua portuguesa.»

Fazenda Lourenço, em seu prefácio à obra, afirma que «a partir de agora, não é mais possível ler e estudar Sinais de Fogo, ou mesmo abordar alguns aspectos da obra multímoda de Jorge de Sena, e em especial a questão fulcral do erotismo, sem fazer referência a esta investigação de Jorge Vaz de Carvalho, que veio suprir uma lacuna imensa no estudo e na recepção de um dos romances fundamentais do século XX.»

Mais recente "doutor em Jorge de Sena", como noticiamos aqui há alguns meses, Jorge Vaz de Carvalho, atualmente na FCH da Universidade Católica, além de docente e investigador no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, é o Diretor Científico da nova área de Estudos Artísticos — tudo isto, sem abandonar a música e a carreira operática que abraçou em 1984.
 

Novas Edições e Novas Obras: Poemas Selecionados e Rever Portugal (dezembro/2011)

A obra editada de Jorge de Sena acaba de receber dois novos acréscimos. O primeiro, lançado pela Companhia Nacional de Música, é Jorge de Sena: Poemas Seleccionados e Ditos pelo Autor, uma antologia publicada na forma de audio book. Reedição do disco publicado pela Divisão do Disco Falado da Editora Sassetti na década de 70, a partir de gravação realizada nos estúdios da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, o CD contém 20 poemas:

1. Felicidade
2. Humanidade
3. Ode Para o Futuro
4. Glosa à Chegada do Inverno
5. Ó Doce Perspicácia
6. As Evidências-Soneto XI
7. Epígrafe Para a Arte de Furtar
8. A Paz-I,II,III,IV,V
9. Quem a Tem
10. Uma Pequenina Luz
11. Como Queiras Amor…
12. Camões Dirige-se…
13. Anósia
14. Requiem de Mozart-I,II,III,IV
15. Missa Solene de Beethoven
16. Sonetos da Visão Perpétua I,VII
17. Os Ossos do Imperador
18. Madrugada
19. Tu és Terra…
20. Conheço o Sal…
A segunda novidade, lançada pela Guimarães, é Rever Portugal, edição dos textos políticos de Jorge de Sena, escritos entre 1959 e 1978. O volume de 476 páginas apresenta, segundo as palavras de Jorge Fazenda Lourenço na contracapa, as reflexões de Jorge de Sena sobre temas como “a questão colonial, a unidade no combate à ditadura, a reavaliação da herança republicana, a afirmação de um imaginário simbólico e cultural fora do estreito nacionalismo colonialista, a definição de uma identidade portuguesa pós-colonial, o papel dos intelectuais antes e depois do 25 de Abril”. Os textos escritos por Sena ao longo de seus anos de exílio, constituem uma revisão crítica de Portugal e sua história recente, observada sempre pelo olhar atento do humanista apaixonado pela liberdade.

Novos Estudos em Livro: Poesia e arquitetura em Jorge de Sena (julho/2012)

Lançamento recente da Assírio & Alvim, Corpo Arquitectura Poema – Leituras inter-artes na poesia de Jorge de Sena, de Jorge Fazenda Lourenço e João Borges da Cunha, é a mais nova publicação acerca da poesia seniana e suas relações com outras artes. Reproduzimos aqui a sinopse de divulgação da editora:

Estas duas leituras de dois poemas de Jorge de Sena nas suas relações com a arquitectura resultam de um seminário sobre Literatura e Outras Artes. Os textos foram apresentados publicamente numa dupla palestra, «Da arquitectura dos corpos aos corpos da arquitectura», realizada no âmbito das actividades científicas do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura daquela Faculdade, no dia 10 de Dezembro de 2010. Como lembra Bruno Zevi, «a arquitectura é como uma grande escultura escavada, em cujo interior o homem penetra e caminha».

Novas Edições e Novas Obras: Jorge de Sena e Delfim Santos (outubro/2012)

Jorge de Sena e Delfim Santos: Correspondência 1943-1959, apresenta a amizade entre os dois intelectuais, documentada através das cartas organizadas e anotadas por Filipe Delfim Santos. O volume de 127 páginas, recém-publicado pela editora Guerra & Paz, conta ainda com uma nota complementar de José-Augusto França e comentário introdutório de Mécia de Sena. 

Novas Edições e Novas Obras: América, América (julho/2012)

Nas palavras de Jorge Fazenda Lourenço, "América, América reúne textos escritos por Jorge de Sena, entre 1968 e 1978, sobre a vida política e cultural dos Estados Unidos, e, de um modo mais testemunhal, sobre a sua experiência americana. O título procura fazer pendant com a série de poemas «América, América, I love you», de Sequências. Sob alguns aspectos, esta obra é o prolongamento complementar dos textos políticos e afins reunidos em Rever Portugal, volume anterior das suas Obras Completas, nomeadamente no que respeita à questão da diáspora portuguesa, na sua dupla feição de emigração (ou imigração) e exílio.

O ensino da língua portuguesa e os estudos portugueses nos Estados Unidos, quer quanto à (pouca) visibilidade oficial que lhes é dada, quer quanto à procura de articulações entre as universidades e as comunidades luso-americanas, são também objecto de uma atenção especial.
Esta obra inclui o último texto escrito por Jorge de Sena."

Novas Edições e Novas Obras: Jorge de Sena e António Ramos Rosa (outubro/2012)

A editora Babel acaba de lançar mais um volume da correspondência de Jorge de Sena: Correspondência 1952-1971
de Jorge de Sena e António Ramos Rosa.
O diálogo entre os poetas, até então inédito, inaugura um projeto de publicação em série da correspondência seniana, como sugere a nota de divulgação da editora:  

"Em paralelo com a edição das Obras Completas de Jorge de Sena, surge agora uma colecção dedicada à sua vasta e diversa Correspondência, cuja publicação é fulcral para o entendimento da sua obra, e da obra dos seus correspondentes, bem como para o conhecimento da vida cultural portuguesa da segunda metade do século XX. E não podia ser inaugurada da melhor forma, com a inteligência e o afecto de dois poetas: António Ramos Rosa e Jorge de Sena." – in Nota Editorial (Jorge Fazenda Lourenço)

Dois anos em números

O dia do aniversário de Jorge de Sena é também o de nosso site. Hora, portanto, de nosso balanço anual.

Em dois anos de Ler Jorge de Sena, foram mais de 100 atualizações semanais, com um total de 375 entradas de conteúdo, entre escritos de Jorge de Sena e a produção acadêmica sobre sua obra. Só na seção dedicada à poesia, já são 219 poemas, em 45 antologias. Apenas neste segundo ano, já publicamos 33 estudos (ao todo, 64), divididos entre as seções [LER E RELER JS] e [JS LIDO NA UFRJ]. Assinados por estudiosos renomados ou jovens pesquisadores, os artigos que compõem nosso acervo tratam das mais diferentes facetas da obra seniana, indo da poesia e suas pontes ecfrásticas ao caráter biográfico de sua produção, de Sinais de Fogo ao Físico Prodigioso, da correspondência ao teatro, passando por temas tão diversos quanto o cinema, a ciência, e suas relações e pontos de contato com diversos outros autores (Unamuno, Borges, Pessoa, Vergílio Ferreira, Maria Gabriela Llansol, David Mourão-Ferreira, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, etc.). Sobre o homem, o professor, o amigo e, até mesmo, sobre o escritor Jorge de Sena, já são mais de 30 depoimentos na seção Testemunhos, metade deles em vídeo, em gravações feitas exclusivamente para o site e nosso canal no Youtube.

Todo esse material já recebeu, ao longo destes dois anos, 36.750 visitantes, oriundos de mais de 1500 cidades espalhadas em mais de 100 países. Em comparação aos números de um ano atrás, em que contávamos com 12.000 visitantes, o crescimento é bastante significativo. A maioria dos visitantes ainda é brasileira, mas a cidade com maior número de acessos é Lisboa. 70% de nossos visitantes chegam através de pesquisas no Google e em outros sites de busca. Dos cerca de 16.000 termos de busca utilizados, os mais frequentes são “Jorge de Sena”, “Ler Jorge de Sena”, “poemas políticos”, “portugal democrático”, “homenagem ao papagaio verde”, “jorge de sena poemas”, “estudos sobre jorge de sena” e “carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”.

Do restante de nosso público, 14% chega através de nosso mailing list, e os outros 16%, como no ano passado, devemos ao apoio de tantos sites e blogs, bem como a leitores que reduplicam nossas mensagens em sites de relacionamento (facebook, twitter, scoop.it, yahoo groups, etc.). Pelas citações e links em portugaldospequeninos.blogspot.com, lereduardolourenco.blogspot.com, pequenamorte.com, autoreselivros.wordpress.com, etudeslusophonesparis4.blogspot.com, espacollansol.blogspot.pt e mais 342 fontes espalhadas pela rede, agradecemos o apoio e a divulgação.

Avançamos bastante com relação ao último ano. Esperamos continuar contando com a ajuda de cada leitor e cada colaborador do site, para que o próximo balanço anual seja ainda melhor.

Um ano em números

O Ler Jorge de Sena entrou no ar há exatamente um ano, no dia 2 de novembro, aniversário do poeta.

Ao longo dos últimos 12 meses, publicamos 52 "edições" semanais. Entre escritos senianos e estudos sobre Jorge de Sena, passando por séries iconográficas, depoimentos de amigos e ensaístas, arquivos em áudio e vídeo, e um noticiário atualizado sobre publicações recentes, eventos e a pesquisa em torno do autor, já apresentamos ao todo 245 entradas de conteúdo, em que se destacam mais de uma dúzia de contos, 31 antologias temáticas de poesia, além de correspondências até então inéditas, crônicas, ensaios, textos teatrais e traduções.

Todo este material já serviu de base a quase 12.000 consultas; mais precisamente, 11.850 acessos, oriundos de 771 cidades espalhadas por 61 países. O maior número de visitantes está no Brasil: são 5.245 contra 5.029 visitantes portugueses. No entanto, Lisboa é a cidade com o maior número de acessos: são 2.286 visitas ao site. As 10 cidades com mais leitores são um misto de Brasil e Portugal: além da líder Lisboa, recebemos um número expressivo de visitantes do Rio de Janeiro, Porto, São Paulo, Belo Horizonte, Coimbra, Aveiro, Curitiba, Recife e Niterói. Também é representativa nesta estatística a participação de Estados Unidos, Itália, França, Reino Unido, Canadá, Alemanha, Suíça e Angola. 

A grande maioria das visitas ao site, quase 54%, chegam por meio de pesquisas nos mecanismos de busca, como Google, Bing, etc. Os termos de busca chegam a quase 5.000, mas os principais são: "Portugal Democrático", "Ler Jorge de Sena", "Jorge de Sena", e "estudos sobre jorge de sena". Mas também há quem busque por "Trovadores Malditos", "Sophia de Mello Breyner", "Jorge de Sena tradutor", etc.

26% dos frequentadores do site chegam até nós através da newsletter semanal que enviamos para nosso mailing list. Os 20% restantes vêm do Facebook, do Twitter, e de citações e links em diversos sites e blogs, como portugaldospequeninos.blogspot.com, lereduardolourenco.blogspot.com, pequenamorte.com, autoreselivros.wordpress.com, etudeslusophonesparis4.blogspot.com e mais 210 fontes espalhadas pela rede, a quem agradecemos o apoio e a divulgação. 

São números animadores, mas ainda queremos mais. Para que no próximo balanço de aniversário os números sejam muito maiores, pedimos a ajuda de cada leitor e cada colaborador do site. Continuem a conferir nosso trabalho, a recomendar aos amigos, e a incentivar cada vez mais leitores a conhecer melhor a obra de Jorge de Sena.

Revista Estudos Portugueses

Após um longo intervalo, a revista Estudos Portugueses, criada em 1989 pela Associação de Estudos Portugueses João Emerenciano, da Universidade Federal de Pernambuco, acaba de lançar sua edição de número 8. O volume de retorno da publicação traz uma seleção multifacetada de ensaios sobre diversos temas e autores, incluindo-se aí um ensaio sobre nosso multifacetado Jorge de Sena, que aparece já na capa da edição. Que seja o primeiro de muitos novos números.

Jorge de Sena na Revista Pessoa

Publicação dedicada às literaturas lusófonas, com o apoio do Museu da Língua Portuguesa e da Fundação José Saramago, a Revista Pessoa apresentou na sua última edição (Ano II, n.2, Março-Abril-Maio) um texto até então inédito de Jorge de Sena, "Estudos de Português na América", que figura no livro recém-lançado América, América (Ed. Guimarães, maio de 2011).

Disponível nas versões impressa e online, a revista tem todo o seu conteúdo acessível em www.revistapessoa.com e pode ser assinada em http://www.revistapessoa.com/subscricao.php.

Prêmio PEN Clube 2011

Os vencedores do prêmio PEN CLube 2011 foram conhecidos na última semana, e o Ler Jorge de Sena faz questão de destacar a vitória, na categoria ensaio, do livro Jorge de Sena: Sinais de Fogo como Romance de Formação, de Jorge Vaz de Carvalho, que divide a honraria com O Género Intranquilo: Anatomia do Ensaio e do Fragmento, de João Barrento. A escolha do júri formado por Maria João Reynaud, Álvaro Manuel Machado e Fernando Cabral Martins, ao premiar um estudo sobre a obra de Sena, é ainda mais significativa se lembrarmos que a primeira edição do prêmio, que agora completa trinta anos, foi dedicada a Jorge de Sena e seu Trinta Anos de Camões.

Para mais detalhes sobre o prêmio e para lembrar os demais premiados ao longo dessas três décadas, clique aqui.

Prêmio Capes de Tese

Foi divulgado no passado dia 01 de dezembro* o resultado do "Prêmio Capes de Tese 2010" da área de Letras/ Linguística e a contemplada foi Luciana dos Santos Salles, por sua tese de Doutoramento “Poesia e o Diabo a Quatro: Jorge de Sena e a escrita do diálogo”, defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) é organismo do Ministério da Educação e instituiu este prêmio em 2005, avaliando anualmente as teses defendidas em todo o Brasil.

Pela primeira vez o prêmio foi concedido à área de Literatura Portuguesa e ao Estado do Rio de Janeiro.

Luciana é, desde novembro de 2010, uma das coordenadoras do "Ler Jorge de Sena" e a sua tese está disponível tanto em livro (no Brasil e em Portugal) como no link http://www.letras.ufrj.br/posverna/doutorado/SallesLS.pdf

*O resultado foi publicado no Diário Oficial da União de 01/12/2011, seção 1, páginas 41 e 42, e se encontra disponível no site: http://www.capes.gov.br/premios-capes-de-teses. O evento de entrega dos prêmios acontecerá em Brasília no dia 15 de dezembro de 2011

Jorge de Sena na FEUP: "o escritor da casa"

 

Noticiamos no ano passado a evocação de Jorge de Sena promovida na FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto), em sessão onde se pronunciaram o Professor Doutor Joaquim Sarmento e o Engenheiro João Lamas (ver:http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/ressonancias/arquivo/texto.php?id=247). A propósito do evento, para melhor dar a conhecer a figura do seu antigo aluno ora homenageado, a FEUP dedicou-lhe uma página no seu site (ver: http://biblioteca.fe.up.pt/cl/events/sena), contendo não só muitas informações sobre esse "tempo portuense" de JS, como também o acesso à gravação em video da referida sessão. Dela, reproduzimos a seguir a intervenção do Eng. Lamas, colega de JS nos bancos acadêmicos, complementando um depoimento já antes transcrito no nosso site (ver:http://www.letras.ufrj.br/lerjorgedesena/port/vida/testemunhos/texto.php?id=252).

 

Jorge de Sena na web

É incontestavelmente volumosa a presença de Jorge de Sena na web.

No dia 02.08.2013, o Google registrava para a chamada “Jorge de Sena – obra” nada menos do que 2.480.000 resultados. Se descartarmos as inevitáveis repetições, as homonímias e as informações truncadas, só considerando como útil, de modo muito radical, 1% desse número, ainda assim o “saldo” impressiona — mesmo incluindo nessas “míseras” 24.800, as entradas que se reportam aos 419 arquivos do nosso “Ler Jorge de Sena”.

Foi tal constatação que nos levou a um “zapping” pela internet, oferecendo a nossos leitores uma pequena coletânea de links que decerto lhes interessará, em acréscimo aos muitos que já registramos neste nosso site.

 

Sobre a obra de JS:

==>Alexandre Dias Pinto – Movimento pendular: ‘O Balouço, de Fragonard’ de Jorge de Sena

 ==>Anônimo – Entre a Idade Média e Jorge de Sena, uma questão de língua

==>Carla Ribeiro – Super Flumina Babylonis: Camões e Sena nas margens do mesmo rio

==>Danilo Bueno – Jorge de Sena: o ser como a grande máscara

==>David Rodrigues – Em torno da interrogação na poesia de Jorge de Sena

==>Emanuel Morgado – O conceito de «Perfeição»: Platão, Edmund Burke e Jorge de Sena

==>Fabio Ruela de Oliveira – Portugueses no Brasil: as trajetórias intelectuais de Casais Monteiro, Jorge de Sena e Vítor Ramos (1954-1974)

==>Fernando J.B. Martinho – A poesia portuguesa depois de Pessoa

==>Francisco Cota Fagundes – Do amor na poesia de Jorge de Sena: ‘A morte de Isolda’ revisitada

==>George Monteiro – In quest of Jorge de Sena

==>George Monteiro – Jorge de Sena’s ‘Eichmann Story’

==>Gregório Dantas – O diabo enamorado

==>Joana Prada Silvério – Jorge de Sena: para uma primeira leitura

==>Joana Prada Silvério, Maria Lúcia Outeiro Fernandes – Coroa da Terra: a poesia como (re)criação do mundo

==>João Barrento – A língua portuguesa na poesia portuguesa de hoje

==>Jorge Fazenda Lourenço – Lendo Jorge de Sena leitor de Fernando Pessoa

==>Jorge Fernandes da Silveira – Era uma vez Camões na Ilha de Moçambique

==>José Manuel de Vasconcelos – Caminhos da tradução: Cavafy, Montale e Jorge de Sena

==>Julielson Albernaz de Oliveira – O reflexo social do amor na poesia de Camões e Jorge de Sena

==>Júlio Conrado – Jorge de Sena: um exílio em cólera

==>Luís Adriano Carlos – Epistola aos realistas que se ignoram – Jorge de Sena e a Estética

==>Luís Adriano Carlos – Poesia moderna e dissolução

==>Márcia Vieira Maia – Sobre Brasil e Portugal: um percurso na crítica literária, do século XIX a Jorge de Sena

==>Mário Avelar – As Metamorfoses de Jorge de Sena

==>Patrícia Cardoso – Um rei não morre. Poder e justiça em duas tragédias portuguesas (O Indesejado e A Castro)

==>Paulo Mendes de Matos – Ensaio sobre a questão dum cenário medieval para o que é de facto uma obra sobre a sociedade portuguesa no século XX, referente à narrativa O Físico Prodigioso de Jorge de Sena

==>Rui Carlos Morais Lage – A elegia portuguesa nos séculos XX e XXI

==>Sebastião Edson Macedo – Uma ética da existência em Arte de Música, de Jorge de Sena

==>Silva Carvalho – A posição de Jorge de Sena na poesia portuguesa do século XX

==> Teresa Carvalho – Ut photographia poesis? (I)

==>Teresa Cristina Cerdeira – Jorge de Sena e Miguel Torga: o discurso bíblico na biblioteca do artesão

 

Comentários/ recensões a livros de JS:

==>Sobre Rever Portugal
==>Sobre América, América

 

Depoimentos sobre JS:

==>Baptista Bastos: Memória de Jorge de Sena
==>Baptista Bastos: Resistir é combater
==>Baptista Bastos: Mécia e Jorge

 

JS traduzido:

==>Em inglês, apresentação do autor, seguida de alguns poemas traduzidos:

 

Desserviços a Jorge de Sena:

Também não faltam na internet itens em desfavor de Jorge de Sena, que aqui omitimos. Porém, tanto quanto nos foi possível averiguar, a maioria deve-se a julgamentos apressados, inconsistência de informações, ou investigações sem rigor, e somente uma ínfima parte pode ser efetivamente atribuída à calúnia de má-fé.

Mas há “desserviços” de difícil classificação, como a espantosa “pérola” que se lê em http://goo.gl/yPM8Ic e que não resistimos a transcrever:

My idea was that this might include some of my favorite poetry, curiously all of it non-English; books like Paveses’s Lavorare Stancathe Portuguese poet Jorge de Sena’s book about the Brazilian salt mines, Conheço o sal… e outros poemas (Moraes, Lisbon, 1974), or Nazim Hikmet’s Things I Didn’t Know I Loved. Whitman, in all of his rolling grandeur, was driven to document his times; and yet Soviet social realism and the dictates of the writer’s unions bowdlerized the poet’s natural impulse to “report.” The poetry that I called “documentary” didn’t give up aesthetic criteria. That is, it remained, first and foremost, poetry. Was “documentary” a useful term, or did it fail as so many others before it: “confessional,” “language,” or “beat”.

Sinais de Fogo na SIC

Série de treze programas dedicados às obras de alguns dos maiores nomes da Literatura Portuguesa, "Nós e os Livros" é uma produção da SIC Notícias, idealizada por Filipa Melo, com o intuito de levar a literatura ao grande público. Tratando de autores como Gil Vicente, Camões, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, os episódios contam sempre com a participação de leitores de renome, e são transmitidos pelo canal aos sábados, às 16:30. Todos estão disponíveis também no site http://noseosclassicos.blogspot.com/.

Representado pelo romance Sinais de Fogo, Jorge de Sena foi o homenageado no programa 11, exibido no último dia 2 de julho. Clique aqui para assistir.

Ler Eduardo Lourenço

Um blog ao qual nos irmanamos…

No ar desde 7 de janeiro de 2011, o blog Ler Eduardo Lourenço constitui, no mundo virtual, um novo espaço de pesquisa e literatura. Tendo sido tema de sua primeira entrada, na matéria intitulada "Três Cartas Inéditas de Jorge de Sena", o Ler Jorge de Sena dá as boas vindas a mais esta parceria, com quem esperamos poder dialogar sempre. E, iniciando tal diálogo, transcrevemos parte da matéria que nos refere e o novo contributo ao material que antes aqui divulgamos:

Num óptimo site da Universidade Federal do Rio de Janeiro dedicado à obra do autor de Sinais de Fogo, e que tem um título muito semelhante ao do blog Ler Eduardo Lourenço (que confessa, quase envergonhado, esta inspiração subliminar de que só agora se dá conta), a Professora Gilda Santos publicou recentemente três cartas inéditas de Jorge de Sena enviadas a Eduardo Lourenço. […] Por agora, apenas um brevíssimo comentário. A publicação destas três cartas permite, desde logo, reconstruir um diálogo que estava truncado e que, doravante, passa a fazer bastante mais sentido. Dois exemplos. Na carta com data de 3 de Maio de 1953, Jorge de Sena insere um poema com a seguinte indicação «transcrevo um dos meus poemas recentes – ele lhe dirá mais que esta carta que já vai comprida».De que poema se trata? Em nota explicativa à resposta (publicada em Eduardo Lourenço/Jorge de Sena. Correspondência) que Eduardo Lourenço redige à carta com poema dentro, Mécia de Sena arrisca uma solução para o enigma que, sabemo-lo agora, não era a correcta. Escreveu Mécia de Sena: «É provável que o poema aqui referido seja: Quanto eu disser…, (…) publicado em Fidelidade». Afinal, trata-se do poema Epitáfio, igualmente aparecido em Fidelidade (Lisboa, Moraes, 1958) e, de acordo com o que se pode ler no livro, escrito em 8 de Janeiro de 1953 .
 

Reproduzimos ainda a chamada de apresentação do blog:

A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu editar as Obras Completas de Eduardo Lourenço. O projecto científico desta Edição funciona, desde Julho de 2010, no Núcleo de Investigação de Ciência Política e Relações Internacionais (NICPRI) da Universidade de Évora. "Ler Eduardo Lourenço" visa noticiar as actividades do projecto (www.eduardolourenco.uevora.pt) e aspectos relevantes da obra e do pensamento do ensaísta. Toda a colaboração é bem-vinda (eduardolourenco@uevora.pt).

Jorge de Sena – um documentário

 

Pérola do acervo disponibilizado pela RTP em seu site RTP Memória, dedicado à divulgação online dos arquivos da emissora, o documentário realizado por Diana Andringa em 1997 sobre Jorge de Sena — "uma fiel dedicação à honra de estar vivo" — reúne, entre imagens originais e resgatadas, entrevistas, depoimentos, e leituras da obra de Jorge de Sena. Para assistir, na íntegra, clique aqui.

Jorge de Sena nas Tertúlias da Universidade de Coimbra

O professor José Augusto Bernardes, em nome do CLP – Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, convida:

Na sequência do ciclo de Tertúlias literárias que o nosso Centro tem vindo a promover (em colaboração com a Imprensa e a Biblioteca da Universidade), venho lembrar que no próximo dia 7 (quarta-feira) terá lugar mais uma sessão, desta vez dedicada a "Sinais de Fogo", de Jorge de Sena. No sentido de dar a conhecer alguns dos bons espaços da Universidade, a sessão terá lugar pelas 18h00, no Palácio de Sacadura Botte (Rua dos Coutinhos, nº 23).

Na ausência (imprevista e forçada) de um dos comentadores (João Queiró) caberá ao nosso colega Frederico Lourenço fazer uma breve apresentação do romance, seguindo-se uma troca de impressões entre todos os presentes, sempre sob a moderação da coordenadora da iniciativa, Ana Paula Arnaut.

Na expectativa da sua presença, envia saudações cordiais

J. Bernardes (coordenador do CLP)

Clube de Leitura: Jorge de Sena, o escritor da casa

Para celebrar o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, a Biblioteca da FEUP irá destacar a obra e a vida do antigo estudante de Engenharia Civil desta Escola, Jorge de Sena. Numa acção conjunta que envolve a Biblioteca e o Comissariado Cultural da FEUP. serão promovidas várias actividades em torno desta figura notável da cultura portuguesa.

A sessão terá lugar na Sala Nobre do Departamento de Engenharia Civil, no dia 28 de Abril, pelas 13 horas. Serão oradores dois convidados que conheceram de perto o escritor enquanto estudante: o Professor Doutor Joaquim Sarmento e o Engenheiro João Lamas. A moderação da sessão estará a cargo do Professor Doutor Manuel Matos Fernandes.

 

Mais informações: agora@fe.up.pt

Homenagem no Casino Figueira abre portas da toponímia a Jorge de Sena

 

 

“Ler Sinais de Fogo – Homenagem a Jorge de Sena” foi o título do simpósio que, no passado sábado, 27 de Abril [de 2010], reuniu no Casino Figueira um conjunto de especialistas em literatura e apaixonados pela obra do escritor que imortalizou a Figueira da Foz como cenário de um dos romances que marcaram o século XX português.
O administrador do Casino Figueira, Domingos Silva destacou, na sessão de abertura do evento, a importância de devolver Jorge de Sena às gerações mais idosas, e de entregá-lo às mais novas “para que conheçam e tenham orgulho no homem que pôs a sua terra no mapa”. Domingos Silva recordou ainda a génese da iniciativa, que nasceu de uma conversa com Paulo Teixeira Pinto, da Editora Guimarães, que integra o grupo Babel. Ao vice-presidente da autarquia, Carlos Monteiro, o administrador do Casino Figueira lançou o repto para que Jorge de Sena passe a constar da toponímia da cidade. “Vai sendo tempo de se preencher esta lacuna”, considerou, obtendo de imediato a concordância do vereador, que afirmou ser um acto de justiça. “Fará sentido dar resposta a este desafio, encontrando uma rua junto da praia, do Casino, que passe a ostentar o nome de Jorge de Sena”, admitiu Carlos Monteiro.

Uma gala,
75 anos depois
Domingos Silva aproveitou a oportunidade para recordar um evento que teve lugar no Casino Figueira à época da acção de Sinais de Fogo (1935-36), “a comemoração dos 60 anos do mais antigo clube português, o Ginásio Clube Português”, cujo sarau se realizou, a 23 de Junho, no hoje Salão Caffé. “É com prazer que anuncio que em Junho deste ano, 75 anos depois, o Casino Figueira vai acolher a repetição da Gala do Ginásio”, disse. O administrador do Casino Figueira destacou ainda a exposição de fotografia “de um dos grandes fotógrafos nacionais”, Alfredo Cunha, “que em Dezembro de 2009 passou, incógnito, três dias na Figueira da Foz, surpreendendo a cidade e os seus habitantes nos mais pequenos detalhes”. A exposição, de entrada livre, que pode ser vista até dia 18 de Abril, conta ainda com um painel de fotografias da Figueira dos anos 30 do século passado, fruto da “excelente colaboração do Arquivo Fotográfico municipal”, sublinhou.
Ainda na sessão de abertura do evento “Ler Sinais de Fogo – homenagem a Jorge de Sena”, coube a José Carlos Seabra Ferreira, em nome de Paulo Teixeira Pinto (que não pôde comparecer), realçar a missão assumida pela Babel: “Alcançar o melhor. E isso significava desde logo ser a editora de Jorge de Sena”, explicou, afirmando-se grato ao Casino Figueira por se associar à tarefa de “promover a leitura da obra seniana, mobilizando e convocando as sinergias intelectuais de uma plêiade de docentes nacionais e estrangeiros que, sem hesitação, se disponibilizaram para este evento memorável”. Também Sérgio Letria, director da Fundação José Saramago, elogiou “o conjunto de parcerias que culmina neste simpósio”, afirmando ser objectivo da Fundação que dirige “recuperar para o público escritores que, por motivos políticos, ideológicos ou outros, foram injustamente afastados ou esquecidos”. Sérgio Letria leu mesmo uma passagem de “O Caderno de Saramago”, em que o Nobel português escreve, a propósito de Sena, “que volte Jorge de Sena, que volte já. Voltou, enfim.”
Quem também não escondeu a satisfação por este regresso, não apenas aos escaparates das livrarias, mas à leitura dos portugueses, foi o editor da Guimarães-grupo Babel. Vasco Silva anunciou o conjunto de obras de Sena a lançar no mercado, num projecto com coordenação científica de Jorge Fazenda Lourenço, que conta não apenas com reedições mas também com a publicação de inéditos, nomeadamente entrevistas e correspondência. O mercado estrangeiro, nomeadamente o Brasil, integra as intenções editoriais da Babel.
Em representação da viúva de Jorge Sena, Mécia de Sena, falou Jorge Fazenda Lourenço, que destacou, no evento, a presença de “leitores qualificados, amadores no melhor sentido da palavra, da obra de Jorge de Sena”, para um evento que considerou “uma pequena grande conspiração a favor do nosso poeta e autor”.
Coube ao “conhecido barítono, poeta e autor da primeira tese de doutoramento em Portugal sobre «Sinais de Fogo», defendida em Março deste ano”, Jorge Vaz de Carvalho, ser orador da primeira conferência do dia, subordinada ao tema do “Realismo e poesia em Sinais de Fogo de Jorge de Sena”. Vaz de Carvalho, do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa, sublinhou a “dimensão ética” presente em “Sinais de Fogo”, e a sua defesa de um realismo que veio alterar a leitura da literatura como “menos do que a vida”.
Num dia dedicado a Jorge de Sena, José Luís Garcia Martin, poeta, escritor, crítico literário espanhol e professor de literatura da Universidade de Oviedo (Espanha), lembrou que “já antes de Sinais de Fogo a Figueira da Foz fazia parte da literatura espanhola”, já que a Praia da Claridade era destino de Verão de Miguel de Unamuno, poeta que deu a conhecer aos espanhóis autores como Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoaes, entre outros. O catedrático espanhol sublinhou que “ser português é também não querer ser espanhol”, e reconheceu que esse sentimento “é um eco da História”, algo que ficou do tempo da dinastia filipina e que só se compreende à luz de “uma relação complexa, porque tem muito de familiar”. Ainda assim, o docente defendeu uma “identidade cultural ibérica”, que integra nomes portugueses, “sem os quais não se compreende a poesia espanhola dos anos 70 e seguintes: o universal Fernando Pessoa, que é português e é do mundo; o poeta puro, que polia o poema como música, Eugénio de Andrade, e o homem total, o polemista, Jorge de Sena”.

Desmistificar
Jorge de Sena
A iniciativa “Ler Sinais de Fogo – Homenagem a Jorge de Sena” não foi um desfilar de loas ao escritor que perpetuou a Figueira da Foz dos anos 30 do século XX. Recorde-se que “Sinais de Fogo” só foi publicado após a morte de Sena, e sem ter sido revisto. Assim, ao longo do dia, muitos dos estudiosos da obra de Sena se referiram a “Sinais de Fogo” como uma espécie de “capelas imperfeitas ou inacabadas” em versão literária, ou seja, uma obra-prima que não pôde contar com a mestria do seu autor até ao fim. Seabra Ferreira referiu-se-lhe como um romance que, numa primeira leitura, se lhe afigurou como “muito tradicional, na composição narrativa, no tratamento do erótico e na análise dos personagens”, mas que ao mesmo tempo o seduzia “com uma força tremenda, sem que soubesse bem porquê”. Considerando que o romance de Sena não cabe nas tipologias literárias estanques, Seabra Ferreira situou-o entre o romance histórico e o romance de costumes, entre o neo-realismo, o psicologismo e a auto-ficção, garantindo que, para o leitor, “o valor deste romance cresce com o tempo”, à medida que se vai acedendo “à consciência da consciência”. Mas foi António Manuel Ferreira, da Universidade de Aveiro, quem mais desapaixonadamente falou sobre Jorge de Sena, “Sinais de Fogo” e a Figueira da Foz. O professor, convidado no âmbito do painel sobre a “Aparição da Poesia em Sinais de Fogo”, começou por se apresentar como “um homem da serra”, a quem a praia nunca disse nada, e de cujas memórias de infância a Figueira da Foz está ausente. “Não sou fanático nem estudioso da obra de Sena, por quem tenho uma fria reverência”, disse, admitindo gostar muito, ainda assim, de “Sinais de Fogo”. Mas, acrescentou, “não vejo razões para ser considerado um dos melhores romances portugueses do século XX… aliás, se assim fosse, seria muito pobre a produção romanesca desse século”, considerou. Sobre a poesia que surge em “Sinais de Fogo”, o docente da Universidade de Aveiro tem-na como “uma maldição”, algo que o personagem, Jorge, dispensaria de bom grado, “porque a poesia não substitui a vida, nunca”, garantiu. Segundo este especialista, “Sinais de Fogo” revela “demasiadamente” as vertentes de poeta e de ensaísta do seu autor. “Quem começa a escrever poesia, como acontece no romance com Jorge, não escreve assim”, explicou, defendendo também que em “Sinais de Fogo” há “uma intromissão excessiva do ensaísta Jorge de Sena”, nas reflexões do personagem principal, “que não são compatíveis com a idade”, sustentou. “Na minha opinião, isto faz periclitar a verosimilhança (da obra)”, concluiu, não sem antes sublinhar que Jorge de Sena “era um intelectual como não houve mais, com uma enorme capacidade de trabalho… e nove filhos”.

um livro e um filme – duas obras distintas

O dia dedicado a “Sinais de Fogo” terminou com a projecção do filme homónimo, de Luís Filipe Rocha, de 1995. Para o apresentar a plateia contou com a opinião avalizada de Eugénia Vasques , professora e crítica de teatro portuguesa, e de Jorge Leitão Ramos, crítico de cinema. Eugénia Vasques lamentou que o filme tenha o mesmo nome do livro, por considerá-los duas obras distintas, ainda que o filme parta do livro. “Mas não há uma adaptação do livro para guião, há uma construção, a partir de alguma da matéria do livro, de um verdadeiro guião”, defendeu, lembrando que o filme “tem muitas e subtis referências à própria vida de Jorge e Mécia de Sena”, que não constam do livro. A distinção entre a obra literária e a cinematográfica foi partilhada por Leitão Ramos, que afirmou que “o romance Sinais de Fogo não cabe no filme”, desde logo porque o livro está escrito na primeira pessoa e o filme não tem um narrador na primeira pessoa. “E ainda bem, porque normalmente os filmes que têm um narrador na primeira pessoa são muito maus”, disse. Assim, o filme “é um olhar exterior, que está no código genético do cinema”, uma obra sobre “o fim da inocência, com sexo de um lado e política do outro”, que apresenta uma visão inovadora à época, a de “uma fase do PCP iminentemente desmantelável e sem organização formal”, ao mesmo tempo que se destaca por “uma cenografia, um guarda-roupa e uma excelente reconstituição da época, exemplar e rara no cinema português”, concluiu.

[Ler Jorge de Sena] no JL

Fomos notícia no JL em dezembro de 2010

Encerramos este ano de 2010, o primeiro de nosso site (hoje, com pouco menos de dois meses de existência, já tendo recebido visitantes de 143 cidades espalhadas por 24 países, e contando quase 500 amigos no Facebook), com a notícia da seguinte nota publicada no JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias:

 

A Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro lançou, este ano, uma plataforma digital dedicada ao escritor português Jorge de Sena (1919 – 1978). Desde que a profa. Cleonice Berardinelli fundou na pós-graduação "O poliédrico Jorge de Sena", em 1982, a obra seniana tem sido objeto de vários estudos académicos. O site "Ler Jorge de Sena" resulta da vontade de "ampliar o mais possível a sua rede de leitores", pelo que disponibiliza uma biografia, cronologia, fotografias, informação bibliográfica e, ainda, um arquivo com notícias, artigos e estudos sobre o autor.*

 

Esperamos que, através de registros deste tipo, bem como pelo apoio de nossos amigos e colaboradores, possamos, em 2011, ampliar ainda mais essa rede de leitores da obra seniana.

 

* "Jorge de Sena em linha", Nota publicada no JL, n.1049, 15 a 28 de dezembro de 2010  

Sena: Alguns Sinais

Centro Cultural de Belém, 1/11/2009


Trinta anos depois da publicação póstuma do seu extraordinário romance Sinais de Fogo, e no momento em que se fosse vivo Jorge de Sena completaria 90 anos, o CCB propõe um dia de evocação do autor de Arte de Música. Agente de uma certa ideia do amor (“só não é belo o que se não deseja ou o que ao nosso desejo mal responde”) e da liberdade (“o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos”), Jorge de Sena foi acima de tudo um agitador das ideias feitas, um corsário das palavras, um salteador de tesouros escondidos na nossa alma. Foi um fora-da-lei da consciência portuguesa do século XX, e é no desassossego que essa posição conota que se revela mais português e mais contemporâneo. Por isso, desde 1948 viu em Fernando Pessoa “um indisciplinador de almas”; por isso fez de Camões, o “seu” Camões, o mediador da aventura que é o seu constante diálogo com a pátria. Poeta acima de tudo, mas também ensaísta, tradutor, ficcionista e investigador, Jorge de Sena fez do exílio uma razão acrescida de amar mais dolorosamente o país que era o seu. O seu regresso póstumo, já este ano, assinala uma espécie de reconciliação com Portugal.
Neste dia de evocação, haverá leituras de poemas e contos seus e de alguns dos seus ensaios sobre cinema e literatura, uma apresentação do romance que deixou incompleto e a projecção do filme que sobre ele foi realizado: Sinais de Fogo, de Luís Filipe Rocha.

Fundação Centro Cultural de Belém

PROGRAMA:
LEITURAS . 14h30 > 17h

Fernando Luís Sampaio:
De Sobre esta Praia… , 5 das 8 Meditações à beira do Pacífico
De O Reino da Estupidez -1, "A Inflação Literária do Mundo Ocidental"

Luísa Cruz
De Arte de Música, "La cathédrale engloutie de Debussy", "Bach: Variações Goldberg", "Requiem de Mozart", "Chopin: um inventário", "Noite Transfigurada de Schoenberg"

Mafalda Lopes da Costa
De Visão Perpétua, "Sentemo-nos nas coisas…", "Dona Urraca tem um Físico"
De 40 Anos de Servidão, "Quem Fala de Partir"
De Sobre Cinema, "Rio Sagrado (Jean Renoir)", "Os Trovadores Malditos (Les Visiteurs du Soir – Marcel Carné)", "Otelo – (Orson Welles)"

Jacinto Lucas Pires
Poemas "Advertência", "Os paraísos artificiais", "Ode para o futuro", "Balada das coisas e não", "Quando penso".
Páginas iniciais do conto "O comboio das onze".

Helena Barbas
De Antigas e Novas Andanças do Demónio, "Um Conto Brevíssimo"
De Poesia III, "Em Creta com o Minotauro"
 

PROJECÇÃO DO FILME . 17h15
Sinais de Fogo (1995)
Antecedida por conversa com Jorge Vaz de Carvalho sobre o livro e com Luís Filipe Rocha sobre o filme
Duração do filme: 101 minutos. M/12 anos
Sinopse do filme: Portugal, Julho de 1936. A ditadura de Salazar está consolidada e controla totalmente o país. Um grupo de adolescentes passa as suas férias de Verão na Figueira da Foz. No outro lado da fronteira começou a Guerra Civil de Espanha e, apesar da distância, a sua violência vai repercutir-se na vida destes jovens, lançando-os num turbilhão de intrigas políticas e paixões desencontradas que marcará tragicamente a sua passagem à idade adulta.

Tino Navarro apresenta: Diogo Infante – Ruth Gabriel em Sinais de Fogo, um filme de Luís Filipe Rocha
Com: Marcantónio del Carlo – José Airosa – Rogério Samora – Henrique Viana – Caroline Berg – Glicínia Quartin
Fotografia: Edgar Moura
Som: Carlos Alberto Lopes
Direcção de arte: Rafael Palmero
Montagem: António Perez Reina
Música: Enrique X. Macias
Adaptação do romance Sinais de Fogo de Jorge de Sena
Argumento e diálogos: Izaías Almada e Luís Filipe Rocha
Uma co-produção MGN Filmes (Portugal) – Igeldo (Espanha) – AB Films (França)
Com o apoio Fundo Eurimages do Conselho da Europa – Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual – Centre National de la Cinematographie – Instituto de la Cinematografia y de las Artes Audiovisuales – Fundação Calouste Gulbenkian – Câmara Municipal da Figueira da Foz
Produção Tino Navarro
Realização Luís Filipe Rocha

 

Mais sobre o evento em http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/CCB/Documents/FS%20SENA.pdf

O mais novo "Doutor em Jorge de Sena"

Parabenizamos Jorge Vaz de Carvalho por se tornar o mais novo "doutor em Jorge de Sena", uma vez que, a 8 de março de 2010, defendeu na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa sua tese de Doutoramento Sinais de Fogo, de Jorge de Sena: Uma poética da Formação, concluída em outubro de 2009, tendo Jorge Fazenda Lourenço como Orientador. Além deste, integraram o júri os Professores Manuel Braga da Cruz, Maria Filomena Molder (arguente), Margarida Braga Neves (arguente), Peter Hannenberg e Isabel Capeloa Gil, que lhe atribuíram a nota máxima — Summa cum Laude — por unanimidade e aclamação. A tese tem sua publicação em livro prevista para janeiro de 2011, pela Assírio & Alvim, vindo a enriquecer a bibliografia crítica editada sobre Sena.
Já como "Professor Doutor", Jorge Vaz de Carvalho participou, no Rio de Janeiro, do Colóquio "O Atlântico como ponte: a Europa e o espaço lusófono", promovido pelo Polo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras (PPRLB) do Real Gabinete Português de Leitura, de 13 a 17 de setembro. Em sessão plenária, expôs sua comunicação "Jorge de Sena: Paisagem e Humanismo", na qual focalizou as "ilhas" destacadas por Jorge de Sena em sua prosa ficcional, particularmente no conto «Duas Medalhas Imperiais com Atlântico».
Na FCH da Universidade Católica, além de docente e investigador no Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, Jorge Vaz de Carvalho é o Diretor Científico da nova área de Estudos Artísticos — tudo isto, sem abandonar a música e a carreira operática que abraçou em 1984.
 

De volta a Portugal: matéria do "Diário de Lisboa", 23/12/1968

Chegado a Portugal, a 23 de Dezembro de 1968, Jorge de Sena volta a ser notícia no “Diário de Lisboa”, jornal que menos afecto ao regime ditatorial de então, publicara a entrevista já divulgada (vide seção Antologias/Declarações públicas). Relevam nesta significativa matéria adiante transcrita, as declarações de Sena elucidativas quer do seu notável trabalho de investigação sobre a História de Portugal, quer da sua esclarecida posição face ao sistema de ensino americano, à crise da juventude então em foco e à débil expressão da cultura portuguesa no estrangeiro. Estes temas, menos conhecidos e estudados na vida e obra de Jorge de Sena, adquirem aqui uma outra visibilidade susceptível de abrir para novas pistas de estudo.

Jorge de Sena em Lisboa

O escritor Jorge de Sena já na casa que sempre conservou em Lisboa e à qual chega após nove anos de ausência. Vem trabalhar como investigador histórico, com uma bolsa de estudo da Universidade de Wisconsin, onde é catedrático. Vem também rever e abraçar amigos firmes de longa data e revisitar esta Lisboa.

 

O escritor Jorge de Sena (que prepara o Romance “Sinais de Fogo”) entrou hoje em Portugal depois de nove anos de ausência

Ao cabo de uma ausência de nove anos, durante os quais tem sido professor catedrático das Universidades de Assis e Araraquara, no Brasil, e do Wisconsin, nos Estados Unidos, reentrou em Portugal o escritor Jorge de Sena.

O infatigável trabalhador do espírito veio à Europa com uma bolsa de estudos daquela Universidade norte-americana, para prosseguir as suas investigações históricas sobre Camões e iniciar uma pesquisa histórica sobre os príncipes portugueses que viveram noutras nações europeias, desde a Idade Média até ao fim do séc. XVI, “Príncipes e princesas que foram gente grada da Europa de então, que demonstraram que Portugal tinha voz na Europa desse tempo.

Jorge de Sena era esperado ontem, na Estação de Santa Apolónia, mas, devido a complicações fronteiriças geradas por um engano só hoje pode entrar em Portugal.
Um dos seus grandes amigos de sempre, o advogado e escritor dr. Sousa Tavares quis ter uma gentileza: resolveu ir buscá-lo à fronteira, esta madrugada, no seu automóvel.
Nele seguimos e às 8h 30 de hoje no café da estação vizinha de Marvão – Beirã, vimo-lo sair com duas malas, por entre o nevoeiro ante a expectativa enregelada de uma dúzia de ferroviários verificadores das alfândegas, guarda-fiscais e polícias.
O poeta regressado teve um ar hesitante de início, e logo um largo sorriso ao ver os amigos. Os abraços fizeram ressoar o cavername das costelas.
Depois foi a viagem até Lisboa o encanto da conversa de um dos mais altos valores da intelectualidade portuguesa.


Visita a 12 países e 60 cidades da Europa

A bolsa que a Universidade de Wisconsin concedeu ao seu catedrático consiste em pagar-lhe os ordenados normais, as viagens e uma ajuda de custo para fotocópias e microfilmes. Aquele estabelecimento de ensino norte-americano tem 67.000 alunos e 1500 professores dos quais 150 são catedráticos.

[J.S.] – “ Devo acentuar que esses catedráticos são eleitos por voto livre e responsável de todos os seus colegas. Estes, ao votarem, explicam francamente as razões do seu voto. A cátedra não é uma posse definitiva, mas sim um posto que tem de justificar-se sempre com próprio valor.”

E Sena acrescentou:
– “Não há sebentas, e todos os professores procuram variar e renovar os cursos de ano para ano. Os materiais de estudo são a bibliografia, os textos e as prelecções.”

Sobre a viagem de estudo que tem efectuado pela Europa nos últimos cinco meses, referiu:
{J.S.] – “Visitei, sucessivamente, a Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Suiça, Áustria, Itália, de novo França (onde fiz conferências na Sorbonne) e Inglaterra (onde deu a lição inaugural no King’s College), Espanha e Portugal. Em todos estes países encontrei textos e códices jamais lidos pelos investigadores históricos portugueses, respeitantes a Camões e aos príncipes a que aludi. Faz pena ver o material de investigação desprezado pelos investigadores nossos compatriotas, a maioria dos quais, nos últimos 50 anos, se limitaram a copiar um restrito número de obras”

Referiu, ainda, que na Universidade de que é professor dois terços dos alunos estudam de graça e só um terço paga anuidades que são de 200 dólares para os naturais do Estado de Wisconsin e de 400 para os de fora.

Membro da “Hispanic Society of América”

Em certo passo da conversa, Jorge de Sena (que enquanto viveu em Portugal, a despeito dos seus reconhecidos méritos, nunca foi promovido para além de engenheiro de 3ª classe, até porque nunca poupava críticas justas a quem quer que fosse) informou em tom bem humorado:

[J.S.] – “Imaginem que me fizeram académico da “Hispanic Society of América”. Eu académico! Com o meu feitio independente, quem é aqui capaz de acreditar nisso?”

Veio à baila a nossa Academia das Ciências, e logo se obteve de Sena uma reacção pronta:

[J.S.] – “Não, dessa não. Já era assim como hoje quando foi criada. Encontrei nas bibliotecas dessa Europa, dezenas de cartas em que se podem verificar as brigas, as intrigazinhas e o provincianismo dos pseudo-intelectuais que se apressaram a pedir ao rei para nela ingressarem.”

Quanto a projectos literários, além daquelas investigações históricas e da edição dos respectivos volumes, Sena pensa publicar brevemente um livro de poemas recentes não incluídos nos seus dois últimos volumes. Está também a escrever
[J.S.] – “um romance enorme de que já completei 600 páginas. Constituirá uma história das nossas gerações desde 1936 a 1959.Nele haverá a minha experiência pessoal e muita ficção. Pretendo que seja una obra dura. Não há nada que eu não tivesse escrito ou que não venha a escrever. Já tem título: “ Sinais de Fogo”. Será uma obra cíclica e não sei em quantos volumes, nem sequer sei se chegarei a escrevê-la toda. Sei é que insisto, será enorme.”

Falou-se depois da cultura portuguesa:
[J.S.] – “Lá fora vemo-nos por vezes, muito embaraçados ante perguntas de alunos nossos que inquirem de nós como é possível ver propagandeados certos autores portugueses que eles logo verificam não valerem nada, e, por outro lado, verificar que lhes omitem outros que eles consideram essenciais. Uma das maiores dificuldades com que sempre tenho deparado é a indicação de bibliografia sobre assuntos portugueses, a pedido de alunos meus…

Por fim Jorge de Sena considerou a actual crise da juventude como resultante, em todos os países capitalistas, da evolução da tecnocracia. Para progredir, essas nações tiveram de formar técnicos em massa. Agora dão-se conta, pela primeira vez, que aquilo que na realidade vale são os técnicos e não as máquinas. E estes, são na realidade quem manda ou virá a mandar. Até porque ou formam técnicos ou entram em decadência. A Universidade é que é actualmente a maior riqueza de um país. E os técnicos não podem manobrar-se como máquinas.

Entretanto, chegávamos à encosta do Restelo, junto da vivenda que Jorge de Sena sempre ali conservou e que alguns dos seus nove filhos (nascidos já no Brasil e nos Estados Unidos) não conhecem. Foi com emoção que o poeta abriu a porta e entrou, após nove anos de ausência.

Jorge de Sena deverá regressar aos Estados Unidos em meados de Fevereiro, mas poderá dilatar a sua estadia em Lisboa, no caso de vir a ser necessário submeter-se a uma intervenção cirúrgica “Gostaria de ser operado por um médico português”.

A Bordo da Sagres: o cadete Jorge de Sena e a viagem do Navio-Escola

Diário de Notícias, 3/10/1937

Sonho acalentado por Jorge de Sena, e estimulado pela família, seu ingresso na Escola Naval mostrou-se inicialmente auspicioso: tendo obtido as melhores classificações, tornou-se o Chefe do “Curso do Condestável”, cuja viagem "de instrução e adaptação" no navio-escola Sagres se inicia a 1º de outubro de 1937 e dura 5 meses — ao fim dos quais, por motivos ainda nebulosos, é excluído da Armada. Este episódio traumático gera persistente mágoa — perceptível, por exemplo, no vasto campo semântico do roubar, furtar, excluir, expulsar, negar (e afins) que percorre toda a sua obra, a começar pelo conto "Caim" (de Génesis), escrito em 38, e pelas centenas de poemas que escreveu, algo catarticamente, na sequência do ocorrido.
Buscando lançar luzes sobre o fato, transcrevemos abaixo notícia sobre a partida da Sagres, estampada no Diário de Notícias, seguida de dois comentários de Mécia de Sena.

 

A CAMINHO DA ÁFRICA E DA AMÉRICA DO SUL
largou ontem do Tejo o navio-escola “Sagres” com os novos cadetes

O navio-escola “Sagres” empreendeu ontem mais um grande cruzeiro de instrução e, ao mesmo tempo, de soberania e de representação diplomática: largou de rumo a Cabo Verde, ao Brasil e a Angola, com demora de cinco meses.
O barco, que conduz a bordo os novos cadetes da Escola Naval, em viagem de adaptação, estava fundeado desde a tarde de anteontem em frente de S. José de Ribamar pronto para a “largada”. O sr. ministro da Marinha, a quem a preparação técnica e moral dos futuros oficiais merece um especial cuidado, quis ir a bordo antes da partida dizer algumas palavras aos cadetes e à tripulação da “Sagres”.
Cerca das 11 e 30, embarcaram no Centro da Aviação Naval do Bom Sucesso, para bordo daquele navio, a fim de aguardarem e receberem o chefe da Armada, os srs. contra-almirantes Mata e Oliveira, major-general da Armada; Ramalho Ortigão, chefe do Estado Maior Naval; Almeida Henriques, superintendente da Armada, e João Baptista de Barros, comandante da Escola Naval, acompanhados pelos respectivos ajudantes.
Pouco antes do meio-dia chegou ao Centro da Aviação Naval o sr. ministro da Marinha, acompanhado também pelos seus ajudantes srs. capitão-tenente Duarte Silva e 1o. tenente Henrique dos Santos Tenreiro. Formou a guarda e acorreram a receber o sr. comandante Ortins de Bettencourt, os srs. capitão-tenente José Cabral, director da Aeronáutica Naval, 1o. tenente Costa Gomes, comandante do Centro, 2o. tenente Bernardino Nogueira, 2o. comandante, e todos os restantes oficiais que ali prestam serviço.
Após os cumprimentos, o sr. ministro da Marinha embarcou na vedeta da Presidência da República, a qual largou imediatamente em direcção à “Sagres”, cuja guranição formou ao avistar-se de bordo o pavilhão ministerial.
Ao portaló do navio-escola foi o ministro recebido e saudado pelo comandante interino sr. 1o. tenente João Pais, visto estar ainda em convalescença o comandante efectivo sr. capitão-tenente, Gabriel Teixeira.
No convés encontravam-se os almirantes e os oficiais da “Sagres” e, a certa distância, os cadetes em uniforme branco. Depois de receber os cumprimentos de todos os presentes, o chefe da Armada percorreu algumas dependências do barco, que sofreram ultimamente importantes beneficiações e que se apresentam por forma modelar.
Finda a visita, o sr. comandante Ortins de Bettencourt desceu à câmara do navio onde, na presença de todos os oficiais e cadetes proferiu um discurso de alto significado político.

Importantes afirmações do sr. ministro da Marinha
Começou o sr. ministro da Marinha por lembrar a transformação que vão sofrendo os serviços da Escola Naval, de harmonia com os princípios orientadores da Revolução Nacional quanto à valorização da mocidade, afirmando a propósito:
“Mussolini disse há dias no seu discurso de Berlim que o povo alemão e o povo italiano se baseiam na sua juventude, dedicada num espírito de disciplina, de coragem, de força, de resistência, de amor à Pátria e de desgosto pela vida fácil. O desgosto pela vida fácil; o gosto pelos riscos e perigos; o prazer da disciplina; a alegria do esforço; o amor da Pátria: eis os traços mais salientes da formação do caracter militar; eis as primeiras regras do bem servir. Pois bem, a reforma da Escola Naval pretendeu pôr em foco a importância das qualidades morais e levá-las ao seu desenvolvimento e apuramento; quis atender às realidades da vida; teve em vista contribuir fortemente para transformar a Armada numa verdadeira força ao serviço da Nação, pronta, disciplinada, patriótica: procurou integrá-la no espírito de renovação nacional”.
Outras afirmações:
“Queremos uma Marinha forte e prestigiada – instrumento útil de política externa em tempo de paz, e de defesa da Pátria se tivermos de sofrer a guerra – e havemos de tê-la, porque a havemos de fazer: nós, os veteranos com a nossa experiência e a nossa dedicação, e vós, moços, cadetes, com a vossa fé, o vosso entusiasmo, a vossa juventude: simplesmente, ela se não fará com o gosto da vida fácil e o desprazer do esforço, com o desânimo e o abandono, com a indisciplina e o aborrecimento das virtudes militares”.
O ministro destacou depois a importância da viagem que a “Sagres” ia iniciar, dizendo:
“A rota que vos foi marcada, neste cruzeiro de cinco meses, levar-vos-á a um porto do Brasil, Pátria irmã onde trabalham e vivem muitos portugueses que, orgulhosos de o serem e cheios de saudade, seguem com devoção, com carinho, com ardente interesse, o engrandecimento de Portugal.
Transmiti ao Brasil os nossos sentimentos de simpatia, de estima e de admiração, e aos nossos compatriotas o terno afecto de irmãos.
Com as terras portuguesas de além-mar e com os portugueses que nela labutam sêde traço de ligação; que, ao ver-vos, esses portugueses sintam que há continuidade entre a terra de onde partis e aquela aonde chegais.
Faço votos para que tenhais uma feliz viagem. Estes votos, estendo-os a todos aqueles que seguem na “Sagres”, ao serviço da Pátria; a v. ex.a sr. comandante interino, encarrego de os transmitir em ordem ao navio”.
Falando depois propriamente para os cadetes, lembrou-lhes os deveres militares e as qualidades cívicas que devem constituir a formação do caracter do soldado e do marinheiro, dizendo:
“Quero prevenir-vos muito especialmente contra um mau costume que, fazendo arraial por toda a parte, veio introduzir-se e fixar-se também no meio naval: a crítica e a depreciação de toda a acção e designadamente das ordens e dos actos dos chefes.
Combatei viva e tenazmente este vício, de consequências sempre perniciosas e contrário à disciplina e ao próprio espírito militar; a sua prática constitue [sic] mesmo uma deslealdade e uma falsidade quando são desconhecidos os fundamentos e as circunstâncias que levaram a dar a ordem ou a praticar o acto criticado.
Escolhestes uma carreira que exige o exercício de altas virtudes e vocação própria. Se neste período de experiência, ou durante a vossa aprendizagem sentirdes que vos falta temperamento, tende a coragem de desistir, prestando assim um serviço a vós mesmos e à Pátria, pois podeis triunfar e ser mais úteis noutro sector da actividade nacional.
É vosso patrono o Condestável D. Nuno Alvares Pereira: estudai a sua vida e meditai nas altas virtudes que incarnou de forma tão perfeita e completa. São dignos de relevo especial: o amor da Pátria; a lealdade para com o rei ao serviço de quem se consagrou totalmente; o sentimento do dever, pondo de parte agravos e injustiças quando se tratava de cumprir; viver sóbrio e cristão; desprendimento dos bens e dos prazeres terrenos; iniciativa; energia; decisão; coragem intemerata; vontade rija como o aço; reconhecimento e recompensa dos serviços prestados pela sua gente; bondade, sem prejuízo da justiça e do serviço de el-rei; actividade; moral inflexível; confiança em si e fé em Deus; rigidez de princípios e aplicação rigorosa da disciplina; alma aberta a todos os sentimentos nobres e fechada às mesquinharias; temperamento franco, leal, alegre e sereno, nunca o abandonando o bom humor nem mesmo nos lances mais difíceis; inacessibilidade ao desânimo; insensibilidade ao sofrimento próprio.
Diz Oliveira Martins que para o Condestável: tudo era religioso, desde os costumes privados, até à disciplina guerreira, até ao culto da Pátria, até ao amor do rei, até finalmente à própria vida que votara a uma missão transcendente e ideal.
Que a sua vida seja a fonte onde haveis de temperar a alma para o serviço da Pátria e as suas virtudes constituam o modelo por onde moldar as vossas!”.

A largada da “Sagres” foi um espectaculo interessante
O sr. 1o. tenente João País proferiu então algumas palavras de agradecimento afirmando a sua esperança de que todos, mais uma vez, saberão cumprir o seu dever e honrar a Armada.
O sr. ministro da Marinha entregou então ao navio um exemplar da “História da Colonização Portuguesa no Brasil”, oferta do sr. ministro da Educação Nacional e, aos cadetes, exemplares da obra “A Vida de Nun’Alvares”, de Oliveira Martins, nos quais escreveu as seguintes palavras:
“Neste livro encontrará inspiração para a sua vida de soldado e de marinheiro da Pátria, tomando como guia e exemplo as altas virtudes do Santo Condestável. (a) Manuel Ortins de Bettencourt”.
O sr. ministro e os almirantes abandonaram depois o navio, cuja artelharia [sic] deu as salvas da ordenança, formando novamente a guarnição.
Ao meio da tarde a “Sagres” suspendeu e navegou a motor de rumo à barra. Uma vez ao largo e aproveitando a ventania rija que soprava, o elegante navio soltou todo o pano e aproou a sudoeste. Com as grandes velas enfonadas a “Sagres” ostentava na sua beleza cênica qualquer coisa de evocativo.
O primeiro porto de escala será S. Vicente de Cabo Verde, seguindo-se Santos (Brasil) portos de Angola, novamente Cabo Verde e, por fim, Lisboa.

(Diário de Notícias, 3/10/1937)
 

 

A propósito desta notícia, Mécia comenta:

=> Lendo essa notícia da partida da Sagres, entende-se claramente que a orientação que ia dar-se aos cadetes tinha novas directivas (e levando em conta que o desencadeamento delas estava ligado à "Revolta dos barcos", que acontecera no ano anterior, e esta era a primeira viagem depois desse acontecimento).

=> A bordo, houve variados acidentes, a ponto de, por duas vezes, os marinheiros terem feito "levantamento de rancho", um dos quais em protesto do tratamento que estava a ser dado aos cadetes.