De Engenheiro a Engenheiro: Nótula sobre a correspondência entre Eugénio Lisboa e Jorge de Sena

Depois de breve introdução, transcreve-se abaixo a primeira carta que Jorge de Sena endereçou a Eugénio Lisboa.  Por acaso, apreendida pela PIDE…

 

Capa do livro em homenagem a Eugénio Lisboa
Capa do livro em homenagem a Eugénio Lisboa

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Do relevante contributo de Eugénio Lisboa à leitura crítica e divulgação da obra seniana, melhor do que as palavras elogiosas que eu aqui possa arrolar, há o testemunho material dos títulos que publicou: a incontornável coletânea Estudos sobre Jorge de Sena [1], duas antologias [2] e vários ensaios – a maioria hoje reunidos em As Vinte e Cinco Notas do Texto [3] . Com aquela assumida independência que o caracteriza, lança luzes originais, por vezes polêmicas – ou “ácidas”, como diria o próprio Sena –, mas sempre argutas, sobre a obra e o autor em foco. E, sobretudo, envoltas num savoir lire invejável, num amplíssimo background erudito, numa costura argumentativa clara e cerrada, algo escassa nos tempos que correm. Ou seja, também quando trata de Jorge de Sena, Eugénio Lisboa não foge à “agilidade hermenêutica incólume” e ao “perfil imune a lobbies” com que Eduardo Pitta [4] bem o definiu.

Dentre seus artigos, respigo a recensão [5] publicada na Colóquio-Letras, pouco depois de editado o primeiro volume da correspondência de Jorge de Sena – aquela trocada com Guilherme de Castilho. E se tendenciosamente o faço, é porque muito do que aí nos diz Eugénio Lisboa poderia aplicar-se igualmente à posterior correspondência publicada e a muita da inédita, inclusive àquela que faz de Eugénio Lisboa e de Jorge de Sena especiais interlocutores. Interlocução que, segundo penso, rapidamente deveria abandonar o ineditismo e vir a público, revelando não só um diálogo vivaz entre dois mestres da heterodoxia, como ainda muito de uma contextualização cultural portuguesa (e não só) dos efervescentes anos 70 do século findo, comentada com o à vontade da mútua confiança entre amigos.

Compreendendo apenas 35 missivas [6] – 11 de Jorge de Sena e 24 de Eugénio Lisboa – e concentrando-se entre 1972 e 1978, não resultaria em alentado volume. Mas seria substantiva o suficiente para caracterizar um excepcional diálogo entre duas personalidades fortes, dois engenheiros que, por conta própria, pavimentaram suas rotas pelas letras e nelas edificaram obras inquestionavelmente respeitáveis.

São de Santa Barbara, e apenas daí, as cartas de Jorge de Sena, que sumarizam sua vida de scholar numa universidade americana, sua produção literária, suas andanças um pouco partout sob vários propósitos, com destaque para os acadêmicos. Da parte de Eugénio Lisboa, as cartas datadas de Lourenço Marques, Pretória, Joanesburgo, Paris, Londres, Santo Amaro de Oeiras e S. Pedro do Estoril atestam, já por tais registros, a vasta e variada experiência internacional que o signatário então acumulava, conciliando a docência e as letras com a carreira ligada ao ramo petrolífero, que só no fim de 1976 por completo abandonará.

À guisa de exemplo e ratificando o que afirmo, transcrevo abaixo [7] a primeira carta endereçada a Eugénio Lisboa por Jorge de Sena, de 7 de Junho de 1972, e que, por artes escusas dos tempos então vigentes, foi logo apreendida pela PIDE. Que sua leitura sirva de estímulo a quem tenha poder decisório sobre a edição que ora advogo – a qual viria a prolongar por páginas impressas as comemorações dos bem vindos 80 anos do meu, do nosso, muito estimado amigo Eugénio Lisboa.

 

Meu caro Eugénio Lisboa

Só umas rápidas linhas para muito lhe agradecer a carta que teve a boa lembrança de escrever-me em 26 de Maio, há dias recebida, e também a remessa da revista com a sua palestra sobre a Literatura Moçambicana (se assim pode dizer-se – eu, nos meus cursos de literatura Brasileira [um “caso” de cissiparidade em relação à mãe portuguesa, que julgo que Vocês deveriam estudar, culturalmente, com a maior atenção, sobretudo na época colonial e no século XIX] sempre chamo os alunos a considerarem três ou quatro critérios que longamente, e ainda, os brasileiros confundiram: literatura sobre o Brasil; literatura no Brasil [repartida entre “estrangeiros” que incluem os fieis a Portugal, os “naturalizados” como politicamente o Gonzaga foi, os “brasileiros” radicados em Portugal, em que se contam alguns dos que tentaram, no século XVIII, a mais “brasileira” literatura, e os “naturais”] e literatura brasileira propriamente dita – e assim comecei por tratar a questão em lugar de grande responsabilidade, que é o artigo geral, muito vasto, sobre a Lit. Bras., para a futura nova edição da Enciclopédia Britânica [8], que escrevi, além de paralelo trabalho para a Lit. Port. aonde incluí necessariamente referência às lit. “africanas”) [9], que achei excelente e só o não parecerá a quem se deixe apenas irritar pelo tom “ácido” que, vamos e venhamos, V. desembaraçadamente usa. Acabo de receber um ensaio do Moser (“How African is Afro-Portuguese Literature?”), publicado agora em Review of National Literatures, II, 2, e em que ele trata o caso de maneira que a si sobremaneira importa – e está a responder aos delírios de base estritamente política e de “negritude”, com que muita gente se dá a fazer carreira por estas partes, excluindo (dessa gente) quase todos Vocês por insuficientemente ou nada pretos. Tais coisas já chegaram ao ponto de organizações negras, para protestarem contra Portugal, terem tentado (não levaram por diante) “disrupt” o simpósio de Connecticut, e as celebrações camonianas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, só porque o Camões era português… Como a eles disse, uma vez, no Wisconsin, em situação paralela, têm os portugueses da metrópole maior representatividade ou mais liberdade política, a grande massa da população portuguesa chega à educação em melhores condições e mais protegidamente?… São Cabo Verde, ou mesmo Angola e Moçambique, assimiláveis ao Congo ex-belga, ou à Nigéria, Quénia, Senegal, etc., que nunca foram, nem em pequena escala, colónias de fixação? Em que língua escrevem os internacionalmente antologiados Senghor, Césaire (que vem deste lado), Camara Laye, Diop? Com o que ficaram grandemente embatucados. O que nada altera à minha velha posição, bem conhecida – mas demagogias baratas são outra coisa.

Tenho a minha próxima visita a Moçambique [10] como altamente importante para mim, com um conhecimento tão ocasional do que se publica e publicou (o que sempre me fez recuar de celebrar coisas que admiro, para não cair nas atitudes falsamente confundíveis dos Césares Amândios [11], o qual até a mim incluiu na incrível antologia por dois ou três “sketches” mais ou menos africanos, e, saiba Você, para poder dizer – o que, naquele tempo, não significava nada – que dois dos ditos haviam aparecido na revista da então Agencia Geral das Colónias, por obra e graça do José Osório de Oliveira que a dirigia…, ou nos humanismos do José Régio, para quem tanto fazia que um sujeito fosse da Cochinchina como da Patagónia, não apenas por respeito aos valores estéticos, mas porque não tinha a mínima noção de circunstancialidade histórica ou cultural, para além do nacionalismo literário lusitano, de fraca cepa, a que se entregara nos seus últimos anos), e para os estudos de Português aqui nos Estados Unidos (de que algum vislumbre V. cita muito a propósito). Com efeito, quanta informação directa e quanto material (livros, artigos, depoimentos, etc.) eu possa colher permitir-me-á, melhor que americanos bem intencionados, entender e apreciar o que se passa, para oferecer algo de mais equilibrado do que a palhaçada por aqui dominante. Embora, é claro, o ser eu português-nato, e branco, me corte muito da autoridade que me reconhecem para outros efeitos gerais. Partirei daqui, com minha Mulher, pelo dia 20, se o bilhete vier a tempo, a Roma, Atenas, se possível Cairo, Lourenço Marques. Depois, Luanda e Lisboa. A seguir, aproveitarei a oportunidade para algumas pesquisas na Europa, e voltarei nos meados de Setembro. Assim, mais ou menos Julho será dedicado a Moçambique.

Quanto a que a universidade aí seja dirigida por um Barbais Morosa ou vice-versa é-me totalmente indiferente. Se ele me convidar a falar lá, aceitarei. Mas não convida, e não apenas por ser o que será – mas porque a “universidade portuguesa” faz absoluta questão de me ignorar ou atacar, com algumas honrosas excepções (e muitas dedicatórias em obras recebidas – qualquer dia, eu publico um volume de dedicatórias dessa tropa e mais outras da praça literária lusitana e vai haver grandes surpresas). Que quer, meu caro, eu sou duas vezes “estrangeiro”: não estudei letras com eles ou com ninguém, vim da tarimba ao doutoramento em Letras, adquiri a nacionalidade brasileira (passaporte que possuo), e ensino nas universidades norte-americanas. Reconhecerem-me enquanto catedrático seria reconhecer que, no mundo, a tal se chega sem passar pelas partes baixas deles. Eu quáse já faço questão, por vingança biográfica, de que me não convidem – para que conste que tenho falado ou falarei em tudo quanto é universidade ilustre deste mundo (está a organizar-se em Inglaterra um convite coletivo de 12 universidades [12], para eu ir ensinar lá, a uma semana em cada uma, no 2º trimestre lectivo de 1972-3, e dois convites formais, o de Londres e o de Cardiff, já chegaram, e serei o “guest-speaker” para a conferência de escritores e críticos, em Março de 1973, no País de Gales), sem jamais ter falado em tais lugares mais ou menos impróprios. Como acabo de ser nomeado chefe do departamento de Literatura Comparada da Un. da Califórnia, poderia mesmo até, com alguma autoridade, explicar-lhes o que isso seja (a Lit. Comparada) – mas de que adiantaria em cabeças tão impérvias ao que não seja a supremacia universal (infelizmente não reconhecida urbi et orbi) da lusitanidade?

Não tem nada que desculpar-se de me citar – os textos publicados são propriedade pública, a menos que cobertos por específico “copyright” mesmo para citações (e não o fiz), ou que sejam desvirtuados fora do contexto (caso de polícia), o que não é seu caso na conferência e não o será no livro sobre o Régio. Cumpre-me a mim agradecer o relevo que me é dado. Apenas gostaria de observar que se tem insistido muito no meu lado ácido, sem se insistir igualmente no meu lado brando: nunca ataquei ou insultei ninguém especificamente (e tenho sido das pessoas mais relesmente insultadas, como me informa regularmente, há muitos anos, a agencia de recortes), mas sim situações e estados de espírito condenáveis que algumas pessoas poderiam representar (o que é apontado por um dos fragmentos que V. cita), tenho escrito altamente bem de muita gente a quem não devo amizade, e poucos têm, tanto como eu, posto a crítica acima de antagonismos pessoais ou ideológicos. A lenda da minha violencia (não no seu caso) tem sido uma das armas forjadas contra uma imparcialidade que fere vários interesses estabelecidos ou a estabelecerem-se. O que eu uso é de uma coisa rara em Portugal – a ironia, coisa escandalosa na pátria do varapau e do arroto.

Quanto a que não tenham dado aí pelo Guerra da Cal, aliás meu amigo, não deixa de ser irónico resultado da justiça imanente – porque pouca gente destas bandas têm fruído tanto, e em tão alto nível, dos favores super-oficiais e universitários do Jardim da Europa, com safaris e tudo. O que não é o meu caso, nem nunca aceitei que fosse (e ainda no Verão passado recusei delicadamente um convite mais ou menos oficial para ir a Angola, que me foi feito em Lisboa). Aceitei, sim, recentemente, o convite oficial para tomar parte no Colóquio de Camonistas em Lisboa, porque sei o que foi a luta – e o triunfo que isso representa – de gente limpa e leal dentro da “universidade”, para que fosse convidado. E, provavelmente, não irei a Lisboa em Novembro, porque a reunião quase coincide com a do juri internacional do Grande Prémio Internacional de Literatura de Books Abroad, a que pertenço, que desejo arrancar para a língua portuguesa [13], e que é, por certo, evento mais importante (acerca do outro, falam os meus livros sobre Camões, e o mais que conto fazer por ele).

Como vê, meu caro, escrever-me pode às vezes ser pior do que tocar a campainha para matar o mandarim. E, sobretudo escrever-me informalmente – ninguém é menos palaciano do que eu, ou mais detesta os engravatamentos e brilhantinas que até os “hippies” religiosamente conservam em Portugal (ou não fossem filhos das boas famílias deles) – verá no meu próximo livro de poemas, a sair, um terrível contra tudo isso e mais alguma coisa – o que não quer dizer que, por sistema, aprecie a má criação que hoje impera naquele mesmo lugar do orbe (ó tu, Sena, eh pá, etc.), e com que a falsa juventude julga que acerta o passo pelo resto do mundo.

Até breve, pois. E creia na melhor estima e simpatia do sempre seu

(ass.) Jorge de Sena

 


NOTAS:

[1] LISBOA, Eugénio (Compilação, organização e introdução). Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa, IN-CM, 1984

[2] LISBOA, Eugénio. (Prefácio e seleção). Versos e alguma prosa de Jorge de Sena. Lisboa, Arcádia/Moraes, 1979 e LISBOA, Eugénio. Jorge de Sena. Lisboa, Presença, 1984.

[3] LISBOA, Eugénio. As Vinte e Cinco Notas do Texto. Lisboa, IN-CM, 1987

[4] PITTA, Eduardo. “Perfil de um amigo”. Blogue “Da Literatura”, 8 de maio de 2010, ver (http://daliteratura.blogspot.com/2010/05/perfil-de-um-amigo.html)

[5] LISBOA, Eugénio. “Sena: o primeiro volume da Correspondência”. In: —. As Vinte e Cinco Notas do Texto. Lisboa, IN-CM, 1987, p. 51-57.(rep. de Colóquio/Letras nº 71, janeiro de 1983)

[6] A listagem é de Mécia de Sena.

[7] Com autorização de Mécia de Sena, e a partir de fotocópia do original datilografado que gentilmente me forneceu, acompanhada da seguinte observação: “A carta que aqui lhe envio é precisamente a que estava na PIDE”

[8] Os dois textos mencionados encontram-se em SENA, Jorge. Amor e outros verbetes. Lisboa, Ed. 70, 1992, p. 233 -272

[9] Neste longo trecho parentético, são de minha responsabilidade os colchetes aqui inseridos. GS

[10] Visita efetivada entre 7 de julho e 01 de agosto.

[11] Amândio César, autor ligado ao regime, publicou em 1972 uma Antologia do Conto Ultramarino, depois de publicar Parágrafos de Literatura Ultramarina (1960), Algumas Vozes Líricas da África (1962), Elementos para uma Bibliografia da Literatura e Cultura Portuguesa Ultramarina e Contemporânea (1968) e Novos Parágrafos de Literatura Ultramarina (1972)

[12] Este “tour” de conferências efetivamente assim ocorreu.

[13] Sena tinha em mente o nome de Carlos Drummond de Andrade. A propósito deste prêmio e dos esforços que Sena empreendeu junto a Drummond, ver o elucidativo artigo de Frederick Williams “Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Sena and International Prizes: a Personal Correspondence”, In: PICCHIO, Luciana S., org. Quaderni portoghesi 13-14 (Jorge de Sena), Pisa, Giardini, 1985, p. 331-358

 

In: Martins, Otília & Almeida, Onésimo, orgs. Eugénio Lisboa: vário, intrépido e fecundo – uma homenagem. Guimarães: Opera Omnia, 2011 p. 143-149

 

Cartas inéditas de Jorge de Sena e Fernando Lemos

Fernando Lemos, "Desenho", 1954 (Acervo do MAC/USP)
Fernando Lemos, “Desenho”, 1954 (Acervo do MAC/USP)

 

Porto, 20/4/954

 

Meu caro Lemos

Você tem mil razões para estar zangado comigo – ou tem só uma, que é a de eu não lhe ter escrito. Mas pense nisto: eu não ando a “cavar” a vida, com todo o entusiasmo ou amargura que isso pode saudavelmente dar; ando, sim, a “aturar” a vida, a trabalhar como um cão: no serviço, na Ponte sobre o Tejo (sem chavos a mais), nas traduções que me dão o mais que ninguém me dá, nos artigos que, para não me calar de todo, aceito ir fazendo – e calcule que, de há um mês e meio a esta parte, rebentou-me um filão poético que já produziu, por cima de tudo e não sei em que tempo, vinte sonetos – “As evidências” – cuja série, logo que o filão acabar e estiver tudo passado à máquina, lhe enviarei por cópia, já que não sei quando nem como poderei publicar coisas que, pela violência, é impossível publicar. Mas são, suponho do mais importante e do mais belo que tenho escrito. Verá.

Fui no sábado à abertura da sua exposição [1] e ontem a colectividade fotografou-se devidamente diante dos desenhos. E que desenhos, Lemos! – que admirável, que esplêndida, que grandiosa coisa! Se lhos não aceitaram e entenderem, pode V. estar certo de que são de facto tão puros que não deve esperar compreensão. E desde já gratamente lhe agradeço aquele que, por sua ordem, comunicada pelo França,[2] eu escolhi. Convinha pelo menos fotografar ordenadamente as séries, antes de dispersas aqui e no Brasil, depois de efectuadas as disposições. Porque as acho essenciais para se ver como se inventa o desenho em si mesmo.

Mande-me, quando puder, novas “cartas” como a magistral sobre a Bienal [3], que achei excelente, e que foi um grande êxito apreciado por toda a gente, menos pelos incapazes de apreciarem seja o que for. Tenho em meu poder 97 ou 98.00 escudos, que são o que eles pagam no Comércio  [4]. Diga-me que destino lhes devo dar. Não recebi nem vi “Jornais de Letras” [5], e nada sei dos meus artigos. E a quem devo dirigir-me para receber a “massa”, já que não é V. a recebê-la aí? E devo ou não mandar mais colaboração aos Condés? [6]  A página em que o seu artigo saiu já V. a deve ter recebido, pois que o Costa Barreto, o diretor das páginas, me garantiu que lha mandava.

Espero que esse trabalho em S. Paulo seja bom sobre todos os aspectos. E contactos, que tal? Já viu Drummonds, etc? E a sua ideia de uma revista limpa e poética, como vai?

Estou a escrever-lhe do Porto, aonde acabo de chegar vindo de automóvel de Lisboa, em serviço. Andarei cá pelo norte uns dias, e voltarei a Lisboa, onde me espera tudo o que descrevi na 1ª página. Só os sonetos andam comigo – já é alguma coisa. Calcule V. que o Zé Portugal [7] ia hoje jantar a minha casa… e eu vim repentinamente para aqui. Assisti ao jantar doméstico pelo telefone, poucos minutos antes de começar a escrever-lhe.

Não deixe de me escrever, porque eu não lhe escrevo com regularidade – lembre-se que eu mal tempo tenho de ver os amigos comuns e de saber de si; e não se esqueça nunca de como sou seu amigo e o estimo como artista que é. Isto não é mais do que a verdade.

Fiquei contentíssimo com a ida do Casais ao Brasil – que ao menos vá lá mais um de nós.

A Mécia manda-lhe muitas e afectuosas lembranças. Não está cá, mas V. já sabe que lhas manda.

O França parte amanhã para as Europas – pouco a pouco lá acabarei veraneando em Lisboa, e sem um mês de licença, que ainda este ano o muito trabalho me não permitirá ter. Viva a energia atómica… de que – sabe? – se criou oficialmente cá um organismo.[8] Agora é que vai ser… o raio que os parta. Um grande abraço amigo do

                                                                       Jorge de Sena

 

NOTAS:

[1] Mostra individual de desenhos de FL na Galeria de Março, em Lisboa, criada por FL e José-Augusto França em 1952.

[2] José-Augusto França, amigo de JS e FL.

[3] Na 2ª Bienal de São Paulo, em 1953, FL ganhou o “Prêmio Aquisição”

[4] Jornal O Comércio do Porto, no qual JS muito colaborou e conseguiu a publicação de alguns textos de FL.

[5] Jornal de Letras, publicado no Rio de Janeiro de 1949 a 1993. Em 1954, JS teve dois artigos aí editados.

[6] Os irmãos José, João e Elysio Condé dirigiam o Jornal de Letras.

[7] José Blanc de Portugal, amigo de JS e FL.

[8] Um Decreto-Lei, de 29 de Março de 1954, criou a Junta de Energia Nuclear.

 

 

São Paulo 2. 3. 55

 

Caro Seníssimo:

Não estou hoje com muito tempo para alinhavar uma longa carta, mas não quero deixar de lhe mandar alguns abraços. Para a Mécia também e as razões vão já bem explicadas na carta do Casais [1].

Um grande abraço pelos seus sonetos [2]. Até onde eu sei ler essa elegantíssima maneira de poetisar, li, reli e regostei tremendamente. Você diz cada coisa, homem! Mas que evidências! É uma evidência que por vezes até parece explicada demais. Quem não sentirá os seus piolhosos pentes? E quem não sabe trazer as amarguras diárias no gráfico dos testículos? Não sei se assim é que É; mas assim é mesmo que muitas coisas nos pesam. Grandioso parto o seu, homem! V. é o único engenheiro da terra que se salva, já que os do céu estão salvos por natureza.

Qualquer dia voará uma grande carta. Por aqui nem o meu pai morre, nem a gente almoça… “mais ça va”. E é verdade que amo duas de cada vez. Uma amo, mas a outra é só para trair a primeira. Credo!…

Logo que tiver prontos os mamarrachos para a Bienal [3], mando-lhe fotografias deles. Quanto a Portugal neste certame, acho que… não acho!

Desculpe-me a pressa desta epístola, mas a carta está quási a fechar-se nas mãos do Casais para entrar no correio. Até qualquer dia, muitos abraços para amiga Mécia e para si um dos grandes deste seu amigo

certo

sg

 

NOTAS:

[1] Adolfo Casais Monteiro

[2] As Evidências, livro publicado em 1955, foi apreendido pela PIDE sob a acusação de “subversivo e pornográfico”, mas depois liberado.

[3] Em 1955, FL expôs trabalhos seus na 3ª Bienal de São Paulo

 

 [*] Claudia Atanazio Valentim, “O mundo visto do exílio: uma leitura da correspondência de Fernando Lemos e Jorge de Sena”. Convergência Lusíada, 19 (Relações Luso-Brasileiras), Rio de Janeiro, Real Gabinete Português de Leitura, 2002  p. 99-107

Das cartas de Jorge de Sena para Helder Macedo

De passagem pelo Rio de Janeiro, onde lançou seu último romance — Tão longo amor, tão curta a vida –, Helder Macedo ofereceu ao nosso site uma seleção das muitas cartas que trocou com seu amigo Jorge de Sena, sob a recomendação de editarmos somente trechos com interesse literário. Aprovado o recorte que delas fizemos — excertos de 8 cartas e 1 transcrita na íntegra —  pareceu-nos importante acrescentar algumas notas contextualizantes, para melhor situar o leitor. No que abaixo se lê, encontram-se várias referências a obras dos dois interlocutores — ambos professores, ensaístas, romancistas e poetas, aos quais, também por isso mesmo, não faltavam interesses comuns, o que não raro levou a uma colaboração mútua. Emitidas de Araraquara, Madison, Santa Barbara e Lisboa, entre 1964 e 1972, registram período de grande produtividade seniana, apesar das muitas mudanças geográficas. Transcrevemos por completo a única manuscrita, que é aquela enviada de Lisboa, onde “pousara” o casal Sena depois de um périplo africano e europeu, que aí está sumariado. E nesta sua “Lisbon revisited“, o poeta parecia já detectar indícios do que o Abril de 1974 traria a Portugal.  A leitura desta correspondência ainda mais se enriquece com o “testemunho” em video de Helder Macedo (ver)

 

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Araraquara, São Paulo, Brasil, 27 de Março de 1964

 ... enfim notícias suas. Depois disso, indirectas, tive-as quando me lembrei de si para conseguirem-se as gravuras que faltavam para o meu último livro de poemas[1], e soube que Você foi utilíssimo na resolução do problema. […]

O meu livro de poemas, que espero terá recfebido entretanto, aguardou dois anos e meio na COR, que me dissessem que afinal não iam fazer a edição pomposa que deveria ter sido a primeira, e esperei meses e meses que a Morais, que quis fazê-lo mais modestamente, o publicasse.[…]

Ainda há pouco, uma tremenda conspiração pretendeu cortar-me os subsídios que recebo do govêrno estadual para a edição que preparo da lírica de Camões, a pretexto de que Camões já está estudado e editado muito bem (como… é o que, para terror dos catedráticos portugueses, donos da indústria, eu ando demonstrando), e que ele e eu somos portugueses… Desta vez, porque também tenho as minhas influências, não levaram a melhor. Mas vai ser o bom e o bonito, quando sairem os volumes de estudos camonianos que tenho no prelo, um em Lisboa, outro em São Paulo… Será um escândalo de enormes proporções, porque se demonstra que ninguém foi às fontes originais disponíveis verificar sequer os textos… Todos os camonistas deste mundo, alguns já defuntos, todos em cuecas, é uma coisa que jamais me perdoarão, aqui, aí, e por esse mundo de Cristo.

Vamos agora ao seu livro[2]. Li-o, quando o recebi, e reli-o agora, para escrever-lhe. Gostei muito dele, porque cada vez menos suporto a retórica balôfa que em Portugal, em caudais de imagens sem nexo, ou em haikais informes, passa por ser poesia, com grande aplauso dos entendidos. Você é dos poucos que consegue que uma frase passe de um verso para outro, e com sujeito e predicado, como nos velhos tempos da gramática, e sem desencadear um arraial de comparações absurdas ou de abstrações sem sentido. Depois, encontro ainda, nos seus poemas, uma segurança rítmica que também é importante, quando parece que, em Portugal e no Brasil, toda a gente tem vergonha de acertar pelo menos ritmicamente um verso, a menos que logo empunhe, para a quadrinha a viola. E uma certa displicência no uso dos temas e das ideias poéticas, certo humor interno, igualmente me agradaram muito. Acho especialmente de meu gosto o poema que é a primeira parte, o quinto e o sétimo da segunda parte, e os dois últimos da última. A parte que apreciei menos foi a terceira, o que não quer dizer que não encontre nela belos versos. Mas tudo isto melhor direi, se os deuses me forem propícios, num artigo sobre poetas portugueses mais recentes[3]. Aqui, meu caro, depois do José Régio que poucos conhecem e acharam, com razão, muito antigo (pelo que lhe sobra de simbolismo de escola, cuja memória se perdeu em Portugal e aqui ainda não) não sabem quem é quem. Nem o Sá-Carneiro é conhecido devidamente. E, no entanto, graças a mim, como assessor que fui do Ministério da Educação, para a reestrutruação dos cursos superiores de letras, a nossa literatura é matéria obrigatória, que não era, de todos os cursos, e num mínimo de dois anos. Em Portugal, ninguém tomou conhecimento disto; e não serão os brasileiros que irão proclamá-lo…

 

Araraquara, São Paulo, Brasil, 8 de Junho de 1964

E agora peço-lhe um favor ainda: quer obter-me, se lhe é possível, uma lista das universidade inglêsas ou escocêsas com estudos de português (e, se possível, de literatura portuguesa e ou brasileira)? Não se trata de pesquisa académica. Mas, pura e simplesmente, de tentar a possibilidade de saír daqui para fora, porque não aguento mais isto. E a América espanhola, que está tentando muita gente, não me tenta a mim: é igualmente incerta, igualmente “peninular”, e igualmente americana. Eu, como a Natália Correia (tarrenego), descobri que era europeu… O que não quer dizer que não vá parar, se puder, ao México (que sempre teve os astecas), ou aos Estados Unidos (e então é que a comunistada lusa se queima de vez, pois que só deu alvará ao Rodrigues Miguéis para ser americano…)

 

Araraquara, São Paulo, Brasil, 10 de Julho de 1965

 Há quase dois mêses que estou para agradecer-lhe a sua carta de 10 de Maio, e o quanto ela representa de estima pelo meu livro[4], e de esfôrço para que ele passasse as barreiras da insularidade anglo-saxônica. Mas estes mêses carregados de trabalho têm sido, também, o de tratar eu de passar as barreiras individuais no mesmo sentido. Não sei se anteriormente lhe dissera que estava em perspectiva, por ter-se tornado muito parecida com um perigoso impossível a vida aqui, a minha tranferência para os Estados Unidos. E agora é certo. Irei, como “visiting Professor”, para a Universidade de Wisconsin, e partirei, com a minha tribu e a minha biblioteca, no dia 27 de Agosto próximo[5].

 

5 de Janeiro de 1968  [Madison, Wis., USA]

É evidente que, tendo saído do Brasil onde a vida se me tornara economicamente impossível com a inflação e com a atmosfera política (a gente não sai de uma para cair noutra…), me instalei no país que me convidou e me deu o “status” que tenho. Mas é evidente também que, com todo o hábito que fui adquirindo, cada vez mais me sinto em muitas coisas irremediavelmente europeu – do que espero tirar a prova na viagem que farei a partir, queira a Providência, já que a minha saúde é algo precária, de meados de Setembro do ano que ora começa. “Regressar à Europa”, isso não depende de mim, meu caro, mas da Europa…

 

30 de Junho de 1970  [Madison, Wis., USA]

PS – […] Não sei se nunca lhe disse que, naquele dia, em que, chegado a Londres, jantei na sua casa (e o dito cujo[6] se ausentara por razões óbvias) a conversa estava agradável e ficamos a falar e a falar – mas, de certa altura em diante, eu não podia deixar de pensar que o estafermo andaria talvez a fazer horas até que eu saísse, ou estava à espera de ver-me sair. E por isso mesmo e pelo gosto de estar convosco, deixei-me ficar até que o sujeito se fartou de esperar ou achou que eu já saira. E diverti-me bastante com a boa educação que ele, sabe Deus com que vontade, aceitou exibir, respeitando a sua casa de ser malcriado comigo. O curioso é que nós nunca tivemos, de perto ou de longe qualquer contacto – e nos teremos falado talvez, até hoje, umas quatro vezes: lembro-me de o ver na Sera Nova uma vez, quando o Lopes Graça mo apresentou como seu aluno de piano (seria?…); outra vez quando ele entregou poemas para os Cadernos de Poesia, com sorrisos, no Chave de Ouro[7] (e mais tarde foi à tipografia, brigou lá, e forçou a desmanchar-se toda a composição – mas nenhum de nós, dos Cadernos, assistiu à cena, nem ele deu qualquer explicação que lhe não pedimos); outra, na estreia de Jornada para a Noite, em tradução minha, dirigida pelo António Pedro, quando me veio dar informações que eu pedira para as Líricas[8] – terceira série, em preparação – e creio que, com o encontro em sua casa, é tudo. Quanto aos meus artigos sobre a famosa exposição, de que ele e “eles” da sua corte de Sampaios e Pachecos fazem cavalo de batalha, creio que ninguém os leu senão naqueles tempos de Seara – mas sairão em volume, qualquer dia, com a minha execução capital  deles todos. O mal não é essa gente ser má – o mal é ser rasca e ordinária: ser a grosseria de Alcantara aliada à putaria do antigo Bairro Alto, sem a inocencia natural de Alcantara ou as virturdes profissionais das putas. A maldade nunca me incomodou muito: o lixo, sim. E é isso que tanto odeiam em mim, meu caro. Mas, nisso tudo, perdoe-me que lhe diga, todos Vocês da sua geração e algumas ulteriores têm muita culpa, porque aceitaram como génio surrealista o espírito da defunta Praça da Figueira. E a poesia é outra coisa – e não é Villon ou Rimbaud quem quer.

 

20 de Maio de 1971 [Santa Barbara, Ca, USA]

Fiquei contente por saber que o seu livro[9] vai entrar em segunda edição – é bem feito, para os medos editoriais que havia. Mas não creio que isso se deva ao meu prefácio… – ou quem sabe? A coisa funciona, apesar da guerra de silencio que me fazem, e que, segundo depreendo […] assumiu extremos de raivoso ódio (o que é tanto mais cómico, quanto eu há anos que não faço crítica frequente a nada ou a ninguém da contemporaneidade e me consigno em deixá-los a todos no silencio da fava…)

[…]

O seu projecto de traduções de poesia portuguesa[10] parece-me coisa séria, e de boas perspectivas – sobretudo se viesse a significar o volume de poesia portuguesa que não há nas séries Penguin. Mas então, para esta séries, não está há séculos em gestação um volume de autoria do famigerado Alberto[11] (que há tempos publicou numa revista no Texas umas pavorosas traduções de Camões, em que até o largo rio do soneto das lágrimas é traduzido por Amazon river…)? A propósito, e para meu govêrno, essa flor está por ocasião da minha estadia a ornamentar as margens do Tamisa, ou não?

A sua seleção de poemas meus parece-me muito bem, e francamente gostaria que um dos sonetos ilustres aparecesse também (mas teria que ser, ainda que com correcções ou arranjos de poeta-linguista, traduzido por mim mesmo, para evitar que o interpretassem à maneira de Finnegans Wake, que de todo em todo não é o sistema). As traduções literais poderei fazê-las eu mesmo. Tinha, aqui na América, um excelente tradutor de poesia minha, um jóvem poeta americano que foi meu aluno, e que publicou numa revista de vanguarda vários poemas meus – mas não sei aonde ele pára. E outra pessoa que tem traduzido, e bem, com a minha colaboração, muita poesia minha é Jean Longland, bibliotecária da Hispanic Society of America, e que publicou há tempos um volume de poesia moderna portuguesa[12]. Acho que ela poderia ser – e não só para mim – excelente colaborador seu. Mas, em qualquer caso, eu preferiria fazer as traduções não apenas literais, sujeitas a sugestão revisora, porque sempre temo, em línguas muito fixas em tradições expressivas quando de tradução se trata, como o francês ou o inglês, a imposição de “estilos” já consagrados que fazem a gente parecer discípulo pobre de Eliots mais pobres que nós. Não me diz V. qual é a urgencia deste seu projecto – é coisa que posso tratar depois de voltar da Europa no fim de Setembro? Porque, agora, não encontro as publicações, nem os envelopes com as inúmeras traduções, muito boas, da Jean. E, no contra-relógio de acabar várias coisas antes de partir, não posso em verdade dedicar-me a uma coisa que tanto me interessa. Mas não deixarei de fazer cópias, caso encontre a papelada, das traduções que mais ou menos coincidam com a sua lista.

 

Santa Barbara, Cal., USA, 27 de Novembro de 1971

Recebi há dias da Jean Longland um punhado de excelentes traduções que ela entretanto lhe terá enviado, e às quais só tenho que sugerir uma que outra pequena mudança que ela, aceitando-as, lhe comunicará depois. Grande ideia de tentar o Griffin[13] para a minha Afrodite – dê-lhe as minhas mais afectuosas lembranças, diga-lhe que em breve lhe vou escrever.

 

18 de Maio de 1972  [Santa Barbara, Ca, USA]

A Jean Longland é pessoa de infinita paciência e gosto de acertar, e não ficará escandalizada que V. volte a insistir em certos pontos. Creio que o problema maior, precisamente nos pontos que V. torna a levantar para melhor acerto, resulta de que é americana, V. do inglês da Inglaterra, e que eu mesmo já sou menos sensível ou consciente de alguns sentidos duvidosos que expressões correntes aqui podem ter aí.

[…]

Os outros dois casos de First Variation[14] são, creio, diversos. Spasmic howls soa-me, e soou à Jean, menos expressivo, por o adjectivo ser “raro”, do que o uso do substantivo. Havíamos discutido isso.  Orgasmic howls talvez fosse melhor, embora eu não goste da palavra “orgasmo” em qualquer língua (o que significa, é outra questão… de que o poema aliás trata muito claramente) – quase preferiria uma crua obscenidade que evitei no português. Mas deixo o caso ao seu critério. Quanto a glances, que foi um dos pontos que mais longamente discutimos na pressa de entre-simpósio, o problema é a repetição variada: no 4º verso eu uso “olhos humanos”, mas no penúltimo terceto do poema digo olhares em vez de olhos, num contexto análogo, intencionalmente. Daí glances. O que a Jean quis dar foi esta variação – e, conversando, não conseguimos encontrar solução para tal. Concordo que, se olhares não podem espiar em inglês tão bem como em português, e como os olhos podem espiar em ambas as línguas – como havemos de dar a diferença entre “olhos” que espiam e provocam a impudicicia dos deuses, e “olhares” sequiosos e turvos, e que por isso fazem promíscuo o amor dos mesmos deuses (como o poema se desenvolve em acontecimento disso mesmo)? Ponho-lhe a questão. Que fazer realmente? Abandonar esta variação que me encanta? Ou ir para uma outra solução que a mim e à Jean não ocorreu, e pode, depois destas explicações, ocorrer a V.?

 

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Lisboa, 17 agosto de 1972

Meu caro Helder Macedo

 

A sua carta de 27 de Julho, remetida de Santa Barbara, chegou-me aqui há um par de dias. Das Áfricas pousámos em Lisboa há onze dias que têm sido uma correria tremenda; e dentro de dois ou três vou para o Porto, e depois Salamanca, Madrid, Paris, de onde volto a casa a 13 ou 14 de Setembro. Mas a Mécia volta daqui, no dia 24. Havíamos partido de casa a 24 de julho, para Nova York (2 dias), Atenas (3 dias), Roma (4 dias) e Moçambique, aonde estivemos sobretudo em Lourenço Marques, com pousos na Beira, Quelimam, Nampula, e uma visita magnificente à Ilha de Moçambique. Trago disso tudo um reportório fotográfico esplendido, tirado pelo Knopfli”[15], que sempre nos acompanhou. No regresso, estivemos dois dias em Johannesburg (recebidos pela D. Lidchi de sua fraternal e minha telefónica lembrança, e que é encantadora) e três em Luanda. Em artigos (quatro) do Popular rezei dos meus encantamentos e emoções, e, nas entrelinhas, das minhas indignações. Mas Moçambique é um país extraordinário que me comoveu profundamente. A gente foi admirável toda, em toda a parte – e acabei na última conferencia e no aeroporto, em lágrimas. Fiz quatro conferencias em L.M., duas na Universidade; e uma outra na Beira. Foram a modos que triunfais, e uma delas, que o secretário de governo proibira por ser para os estudantes, ganhei-a pondo prazo de ultimato… ou telefonava para Lisboa (o que teve o apoio do Min. da Educação, com quem já me avistei, por dever de pô-lo ao corrente do que se passa, e para obter, o que creio ter conseguido, um leitor para Santa Barbara). A imprensa – extrema direita e maoistas de mãos dadas, òbviamente – teve-me por incógnito, sem uma reportagem sobre as multidões que se juntaram; a rádio entrevistou-me várias vezes e furou quanto pôde o corte de notícias, em receios das mesmas  alfurjas da 1ª linha desta página[16]. Conheci o seu irmão que achei um admirável sujeito, mais a mulher dele, e ambos foram gentilíssimos comigo.

Muito obrigado pelas suas palavras sobre os Exorcismos, acerca de que houve só umas notícias e uma crítica de morde-não-morde. Mal distribuído o livro, não o vejo em parte alguma – e creio que todos têm medo de escrever sobre ele, apesar dos louvores (aterrados e chocados) que me chegam aos ouvidos.

Fico aguardando o volume das traduções, que bom será que me mande para Santa Barbara, aonde chegarei mais ou menos quando ele sairá.

O trimestre de Inglaterra está em grande marcha – antes de partir dos States pedi a licença que me foi concedida na base dos convites então recebidos. São agora cerca de 14, e penso que em Setembro virão mais. Como é que vou encaixar tudo isso, mais as viagens, em dois meses e meio, é o que resta vêr. Tenciono chegar aí em princípios de Janeiro para regressar à América em meados de Março, se não estou em erro, cansado e exausto como ando. Logo que os programas das andanças estejam estabelecidos, contactaremos, para arranjar-se o hotelzinho de Cartwright Gardens, aonde ficar nos “intervais”.

Não sei se em Novembro virei à Europa ou não, já que o Colóquio Camoniano de Lisboa e a reunião do júri do Grande Prémio Internacional de Literatura, em Oklahoma, mais ou menos coincidem – e é possível, a menos que as cartas estejam já muito marcadas para o jogo, que valha mais ir à 2ª reunião do que vir à 1ª.

A minha saúde continua muito precária, e não sei aonde vou buscar energia para tantas andanças e trabalhos: sinto-me literalmente “à bas [?] de la flamme”, sem vontade para nada, a não ser quando me picam – o que sucedeu com o entusiasmo a que me empurraram em Moçambique. E tremo do regresso a Santa Barbara, aonde me esperam a chefia da Literatura Comparada e mais chatices concomitantes (e até, no 1º trimestre, como no 3º, os cursos que eu deveria dar no 2º, em cima dos já estabelecidos para esses trimestres …)

Quanto a Portugal, de que agora só vi Lisboa, esta parece-me (para além das demolições delirantes que abrem espaço às caixas de fósforos em pé, odiosas, que inundam o mundo todo que vou conhecendo ou revendo), à luz de um verão algo desnaturado, a maravilhosa cidade que é minha terra e tanto amo – mas não vou deixar-me cair destes amores e das saudades abaixo, pois que, como sublinhei, indirectamente num dos “exorcismos”, não sou dos tolos que voltam para o anonimato quotidiano por parte destes ladrões de estrada, que compõem, com honrosas excepções, esta pátria de alguns herois e muitos malandros. No entanto, sente-se finalmente uma efervescencia e uma consciencialização indignada, a todos os níveis populares, de que é preciso sair do beco e “andar para a frente” – e, sobretudo, uma revoltada exigencia de que a ladroeira e a negociata sejam postas na ordem (o que pode, também, abrir caminho a todos os perigos – mesmo de D. Sebastiões chamados Spínolas). É aliás a atmosfera em Moçambique que creio à beira de todas as soluções que não sejam continuar à ordem dos “reinóis” (e o mesmo senti em Luanda). Creio que se está à beira de transformações que podem ser tão catastróficas como o período que se iniciou em 1820-22. Ou, então, como sonham uns idiotas Agostinhos das Silvas, às vésperas do glorioso 5º Império. Já que os Brasis marcham em grande força para as Áfricas portuguesas (com quem já projectavam uniões no fim do século XVIII, com combinações moçambicanas e tudo). O pior é isso poder ser feito por “coroneis” (cujo peso senti na maravilhosa Grécia) ou por “salvadores” da civilização ocidental, quais tive horrorizadamente ocasião de apreciar em Johannesburg.

Até breve, pois. Muitas e amigas saudades nossas para vós, e o grande abraço muito amigo para V. do

Jorge de Sena

 

PS.- Tenho ouvido mto. boas referências ao seu coloquial artigo[17]. Em Los Angeles foi aprovada uma tese que dá o Mendes Pinto como cristão novo… E eu já lancei as bombas do Camões filo-judeu! Ai Fé Católica!

 

 

NOTAS: 

[1] Metamorfoses (1963). H.M. obteve as devidas autorizações junto aos museus londrinos.

[2] Das Fronteiras (poemas), Covilhã: Pedras Brancas (1962)

[3] Salvo erro, o texto veio a ser escrito em 1967 sob o título de “Poesia Portuguesa de vanguarda: 1915 e hoje” (in: Estudos de Literatura Portuguesa III), onde H.M. é mencionado.

[4Trata-se do livro A Literatura Inglesa – ensaio de interpretação e história, que J.S. editara no Brasil em 1963 e tentava editar também em língua inglesa, pedindo a colaboração de H.M. nesse sentido.

[5] Afinal, a partida de São Paulo só ocorreu a 6 de outubro de 1965.

[6Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), evidente desafeto de J.S. – o que não o impediu de declarar, em mais de uma oportunidade, que M.C.V. era “poeta de alta categoria”.

[7Café da Praça D. Pedro IV (Rossio), em Lisboa, já desaparecido.

[8] Líricas Portuguesas, 3a. Série – antologia organizada por J.S., editada em 1958, que inclui Mário Cesariny, em quem J.S. reconhece “excepcional talento de poeta”.

[9Poesia 1957-68, Lisboa: Moraes, 1969, com 2ª ed. em 1971. Como se deduz, é de J.S. o “Prefácio” do livro.

[10] Na bibliografia de H.M. constam 2 títulos relativos ao projeto: Portugal: Modern Poetry in Translation, 13-14, Londres, 1973; selection of poems, supervision of translations and notes  e  Contemporary Portuguese Poetry, Manchester: Carcanet, 1978; Introduction, notes, supervision of translations and collaboration (with E M de Melo e Castro) in selection of poems.

[11] Alberto de Lacerda (1928-2007)

[12] Selections from Contemporary Portugese Poetry, Hispanic Society of America, 1966

[13] Jonathan Griffin (1906-1990)

[14] “Variação Primeira” é poema do livro Metamorfoses

[15] Rui Knopfli (1932-1997)

[16] “que o secretário de governo proibira…”

[17] “A Menina e Moça e o Problema do seu Significado”, Colóquio/Letras, 8, Lisboa, 1972

 

O antes e o depois de um “sermão” cívico

Depois da “Revolução dos Cravos”, o “10 de Junho” só veio a recuperar a grande solenidade com que vinha sendo comemorado desde 1880 – ano do famoso “Terceiro Centenário” – em 1977, quando o General Ramalho Eanes, recém-eleito presidente da República por larga maioria de votos, decidiu rebatizá-lo de “Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas”, nomeando um comissário da celebração e descentralizando as cerimônias oficiais para cidades da província. Nesse ano de 1977 coube ao Major Victor Alves orquestrar os festejos na cidade da Guarda, que, além da comitiva oficial, recebeu espantoso número de visitantes – muitos depois apinhados no ginásio do então Liceu da Guarda para ouvir os pronunciamentos cívicos, destacando-se os discursos de Vergílio Ferreira e de Jorge de Sena.

Vários são os comentários que nos chegaram sobre a “atuação” de Jorge de Sena nesse dia, quer na imprensa, quer em testemunhos como, por exemplo, o de José Saramago, já aqui transcrito, o de Vergílio Ferreira, em Conta Corrente 2, e o de Baptista Bastos (ver http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=374958). Mas, aqui interessa-nos resgatar a própria avaliação do autor.

Dos registros publicados de JS, o primeiro anúncio sobre a sessão encontra-se na carta de 15/5/1977 que dirigiu a Eduardo Lourenço: A 5 ou 6 de Junho, voarei para Lisboa, pois que deverei proferir o sermão do 50º aniversário da presença em Coimbra a 7 […] e o sermão camoniano, na Guarda a 10, a convite das comemorações que são mais do “emigrante” a que se quer lamber o rabo e a bolsa do que do Camões emigrante também (fala, em nome da região, e não sei que mais, antes de mim, o Vergílio Ferreira, e, depois de mim, o Ramalho Eanes com quem está marcado que eu me encontre amanhã).

A notícia merece comentário de Eduardo Lourenço, em carta de 26 de maio: Essa história das “comunidades”, de inspiração Adriano Moreira nítida, em si podia ser aceitável, mas temo que faça parte de um “novo lusitanismo”, compensador de ilusões perdidas. Além de caça ao franco e ao dólar que sublinhas. Nem por outro motivo se escolheu a Guarda, a Guarda da minha emigração e filiação, para altar da lusitanidade. Cá espero as vossas celebrações ecumênicas (a tua e a do Vergílio) nessa capital de neve e de reaccionarismo pátrio.

E ainda, antes do evento, retorna JS ao assunto, em carta de 2 de junho: E a 10, [estarei] na Guarda, com o Presidente, se até lá houver o Presidente, e a Guarda, é claro. Meu caro: a ideia das “comunidades” será, e tanto se me dá, do Moreira Adriano, mas também é minha, por exemplo, que todos os anos celebro, de sumo sacerdote, o “Dia” na Califórnia, e sei a importância que a reunião tem para a colónia e para os laços dela com Portugal. […] Quando me convidaram para perorar e me disseram que era na Guarda (o convite veio do Vítor Alves, ou através dele, eu perguntei se a escolha era feita por ser a cidade mais “alta” de Portugal (800m que é que, sem “altura” têm Madrid ou São Paulo, e há quem tenha mais)… Se é o centro da reaccção, acho que é de boa política ir lá; se é centro simpatório, idem; e se é só o que é ou isso tudo, sempre haverá, em 800 metros, o Camões e eu falando dele que, com V. Senhoria e alguns mais, somos as alturas daquela caca que a Providência nos deu para nascer e amar.

Já da Califórnia, a 11 de julho, JS relata ao amigo: voltei de Paris a Portugal para pregar o meu sermão coimbrão sobre a presença, [e] o sermão nacional na Guarda, que foi uma grandiosa e comovente coisa de que nem jornais nem TV deram a magnitude (e o povinho miúdo a abraçar-me depois, agradecendo o que eu tinha dito), pois que a TV não deu uma só imagem da multidão imensa de milhares e milhares de pessoas dentro e fora do edifício.*

Contudo, onde mais largamente JS comenta a sessão da Guarda, e questões afins, é na “Carta aberta” que escreve, quase 10 meses depois, a 26 de março de 1978, ao “Exmo. Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, e também aos Exmos. Secretário e Sub-Secretário da Emigração”, publicada pelo Diário Popular de Lisboa, a 3 de maio desse ano [ver a transcrição neste site]

Como se sabe, Jorge de Sena faleceu quase que exatamente um ano após o “Discurso da Guarda” – sem mais tempo para voltar a tratar de Camões, note-se – e um mês depois da publicação dessa “carta-aberta”. Sem dúvida, os dois textos devem ser lidos como manifestações testamentárias.

Monumentos revisitados

O "Dia Internacional dos Monumentos e Sítios" (comemorado a 18 de abril, e instituído em 1982 com o patrocínio da UNESCO) nos traz à mente a quantidade de monumentos, ou de espaços históricos, ou de museus, referidos por Jorge de Sena em numerosos escritos. Para só ficarmos pela poesia, recorde-se, por exemplo e muito rapidamente, "A Nave de Alcobaça", "A Mesquita de Córdova", "Chartres ou as pazes com a Europa", "Vila Adriana", "Florença vista de San Miniato al Monte", "Plaza Mayor de Salamanca"…  Embora Sena não poupe referências ao patrimônio monumental português, fácil é deduzir que este é sobrepujado numericamente por aquele que se encontra na restante Europa. Dos registros de primeiras "descobertas" fora de Portugal, com o olhar de escritor, já aqui trouxemos suas cartas de Londres, relativas à viagem de 1952, pontilhada de "peregrinações" a museus e catedrais. Depois desta, a seguinte "viagem internacional" teve como destino a Galiza, anotada no diário de 1953/54, cujos excertos relativos ao "monumental" visitado transcrevemos abaixo. Bem mais do que este, o diário da viagem de 1968 é rico em apontamentos sobre lugares culturais, canônicos e não-canônicos, percorridos pelo olhar arguto e pela palavra certeira de nosso autor. Deles, recortamos os das páginas finais, voltados para terras de Espanha, que abaixo se lêem.


22 de abril de 1954: Estou em Santiago, depois de Tuy, Vigo, Pontevedra. A catedral e a cidade são admiráveis. Curiosa a catedral de Tuy, lindíssima a paisagem das rias, de uma extraordinaríssima beleza uma ábside gótica em ruínas, coberta de heras, que há em Pontevedra. Como é praxe, abracei S. Tiago a quem fiz um pedido. […] o Sousa andou a mostrar-me a cidade velha com o lagedo que a chuva molhou e as arcadas sucessivas. Chega a parecer-me incrível que aqui esteja.
 

23: Pela manhã, demos mais uma volta em Santiago e fomos à Colegiada del Sur. Depois — Orense, onde almoçamos. Catedral maravilhosa, e pouco citada. Entramos em Chaves ao fim da tarde.[…]  

25: Fui ao café onde dei largas ao meu entusiasmo. Conversou-se muito, tendo eu e o Casais defendido, com Galiza, o império atlântico. O Marinho, que admira o Pedrayo que acaba de traduzir, via antes a velha idéia da federação ibérica. Concedi que, dentro dos pactos regionais, o poderia haver com uma federação hispânica, que agrupasse a Espanha e a América espanhola. […] No pórtico de Orense, que copia muito de perto o pórtico da Glória, tive ocasião de ver, pois que a pintura está bem conservada (relativamente), como a escultura românica e gótica é para ser pintada, e foi concebida para ser completada com ela. À cor é confiado o que se pretende que a pedra não dê ou não dá mesmo. De resto, ambos os pórticos (como aliás Las Platerias na Catedral de Santiago) são muito belos.
 


16 de Dezembro de 1968, 2a. feira: […] Fui à Diputación, ao Ayuntamiento, à catedral, ao museu (capela real e salão nobre do palácio, sendo que o retábulo da capela é o que o D. Pedro de Portugal mandou fazer) — e mesmo percorri Barcelona romana que, subterrânea, foi posta extraordinariamente à vista. […] Barcelona é realmente magnífica, e a parte antiga esplêndida, sobretudo para embeber-me da evocação que pretendo. Bom é que me reste a manhã de 4a. feira (amanhã é a excursão pela Catalunha), para ver St. Maria del Mar, onde o Condestável jaz (a espada dele, descobri, está no tesouro da Catedral). […]


17 de Dezembro, 3a. feira: […] Fomos directos a Vich, onde entrámos na catedral para ver as pinturas de J. M. Sert, e depois a Ripoll, para ver o velho mosteiro fundado por Vilfredo, o primeiro conde de Barcelona, e onde está o célebre portal; vimos o claustro também, e abasteci-me de postais. […] De Ripoll, fomos ver San Juan de las Abadessas, com o seu calvário de figuras de madeira, monumental, incomparável coisa românica (a primeira abadessa foi a filha de Vilfredo). Seguimos para Olot, e ao longe eu vi o majestoso Canigou que, do outro lado, fora paisagem minha em La Tour de Carol. […] Fomos por Olot a Besalu dos velhos condes, cidadinha que conserva a atmosfera românica de casas, ruas e igrejas. Aí almoçamos, e vimos também a ponte romana-gótica. Por Figueras, descemos – e a paisagem abria-se sobre a Baía de Rosas, luminosa – para Ampúrias, onde vi as ruínas da cidade e do porto grego, e o museu. […]


18 de Dezembro, 4a. feira: O Badia veio buscar-me às 9 horas, e levou-me a ver a loucura do Gaudi, que eu queria contemplar de perto, e depois a Luja del Mar. E deixou-me à porta de St. Maria del Mar, que é uma das mais elegantes coisas góticas que já vi na minha vida […]. Conseguimos, entre as obras de Sta. Maria que está em restauro, encontrar a pedra sepulcral, muito deteriorada, do Condestável D. Pedro – resta confirmar. E fomos ver o belo museu Picasso, feito num palácio antigo, com a colecção Sabartes – e as "Meninas", a sério, que Picasso doou a Barcelona. […]  

20 de Dezembro, 6a. feira: […] Saí por volta das onze horas, fui à Calle do Barbazán, e depois fiz caminho para os correios pela Calle Lope de Vega, onde está o convento das Trinitárias que recebeu Cervantes morto (e na esquina fronteira era a casa de Quevedo), e pela Calle Cervantes, onde está a casa onde viveu e morreu Lope de Vega (a razão de as duas ruas estarem trocadas é que não entendo), que contemplei. […] Fui ao Museu do Prado flanar nas salas, muitas sem luz, quase impossíveis de rever, um desespero. […] Agora, só quero rever a Plaza Mayor e visitar a mãe do D. Sebastião nas Descalzas Reales, o que farei amanhã, antes de ir à biblioteca.
 

21 de Dezembro, sábado: […] fui visitar as Descalzas Reales que é uma beleza barroca (com encanto e severidade), menos a igreja onde só vale a capela tumular de D. Joana de Áustria, neo-clássica, com a sua belíssima estátua orante. No museu, que é o convento que ela fundou e onde morreu (tinha nascido ali, quando a casa era de campo para Carlos V), está o retrato de D. Sebastião por Cristóvão de Morais. Pela Plaza Mayor, passando por S. Ginés, voltei ao hotel.

Há 50 anos: cartas de 1962

Na correspondência editada de Jorge de Sena, só 4 cartas testemunham o ano de 1962: duas dirigidas a Sophia de Mello Breyner Andresen, uma a José-Augusto França e uma a Vergílio Ferreira. Esta última é quase integralmente dedicada a responder, ponto a ponto, aos comentários que o romancista de Aparição fizera, também em carta, ao ensaio "O Poeta é um fingidor", e pouco há sobre as circunstâncias então vivenciadas por Sena. Eis porque a eliminamos da transcrição abaixo, que visa a contextualizar esse tempo seniano de Araraquara, lá se vão exatos 50 anos.


Araraquara, 1/3/62

Meu caro José-Augusto

Acabada a História da Literatura Inglesa (480 pgs. dactilografadas) que me ocupava imensamente desde Out. e acabados os exames de admissão e 2a. época, eis-me, antes de lançar-me aos novos trabalhos, exausto, cansado, desiludido, mais danado que nunca com o mundo e a humanidade, diante da sua carta de 14 de Janeiro.

De obra minha publicada, não sei se entretanto já viu o Reino da Estupidez. Por certo, e com gralhas pavorosas (que a precipitação de não me mandarem provas produziu), recebeu da COR «A Noite que fora de Natal», safadeza de que gosto muito e onde pus do melhor e do pior de mim próprio (não como estilo, que acho ser lá só do melhor).

Diz-me que não me importe com a supressão do meu nome praticado no Colóquio, porque eu sou eu! Muito bem: mas se eu não me alegro a mim mesmo como espectáculo, sem o aplauso público, já que não acredito na eternidade (sob nenhuma forma), tenho da perpetuidade histórico-literária da canalhice e da estupidez ideias assentes, e acho a vida demasiado chata para ser sofrida sem coroações, com louros, aos Capitólios — como quer você que eu não me sinta? Os meus poemas longos são muito bons; mas a COR acaba de confessar que afinal não os publica, e o seu «primo» Azevedo não mexerá uma palha para isso, enquanto publicam monumentalmente e pomarescamente uma merda poética da Sophia. Os meus contos são muito bons — mas quem mos publica? Os meus ensaios são óptimos — quem fala neles? E por isso que, meu filho, já agora me não contento se não vir Portugal a ferro e fogo, transformado à luz do mundo na sangueira torpe que merece ser. A índia foi-se? Pois até que enfim! O Salazar fique? Pois que a todos muito preste. Acaso isso impede que Urbanos e Mourões, Namoras e «tutti quanti» sejam grandes escritores? Não protesto, nem protestarei jamais, contra qualquer agressão, por mais vil que seja, de que Portugal seja vítima: nunca será mais vil do que ele colectivamente é. E, no entanto, não suponha que lhe prefiro o Brasil: que acho um país de espantosas virtualidades, se não fosse de gente sem carácter, sem dignidade, sem hábitos intelectuais, sem amor da cultura, só interessada em ganhar mesquinhamente um dinheiro com que nem sequer saberia deixar de comer na cozinha. Acho a Europa irremediavelmente podre; e as Américas irremediavelmente reles. Que o Manuel Anselmo vá para Paris e para a UNESCO, está perfeitamente certo: se a UNESCO se sentisse mal, protestaria. Não sente. Que me importa a mim? Às vezes penso que a Rússia e a China são melhores. Não são. A única diferença — consoladora durante um tempo — seria assistir a estes burgueses todos lá varrendo a rua. Mas já acabaram esses que tiveram de varrê-las; e agora começa a haver outros, muito conspícuos, que as novas ordens trazem sempre consigo, prontos a admirar a Gioconda e a Vénus de Milo, e a mijarem-se de puro amor de Pátria ainda que socialista. Como compreendo o Tibério em Capri, sangrando escravos, ou o Calígula desejando que a humanidade tivesse uma só cabeça para cortá-la de uma vez! Pobres imperadores! — mas homens muito razoáveis e sobretudo sinceros.

O meu estado de espírito não sei se é o pior possível. É, porém, este. E dificilmente me parece que venha a ser outro. Descri de tudo, e não espero em verdade nada: apenas, porque continuarei sempre a exigir o reconhecimento a que tenho direito, por parte de uma corja humana que nem me merece, e eu mereço apenas pelos meus pecados de amor infeliz dela. A tal ponto assim é, meu caro, que não só o muito trabalho me impediu de fazer ofertas e dedicatórias do Reino da Estupidez, apesar dos apelos lancinantes da Moraes, deixados sem resposta. Oferecer para quê? Para uns não dizerem nada? Ou os melhores amigos me escreverem dez linhas carinhosas? Se quiserem ler, comprem. Se não quiserem ler, que não leiam. Afinal, toda a gente anda ocupada em justificar a sua própria existência: é pedir muito que nos ajudem a justificar também a nossa.

Obrigadíssimo pelas suas démarches todas, de que me dá conta nesta sua carta. Dê notícias dessa pátria parisiense, onde proliferam gloriosos e «bolsistas» tantos Saraivas. A minha próxima crónica de «Letras Portuguesas» será, com justos elogios, uma execução capital da Hist. da Lit. dele e do meu cunhado. A seguir será o Namora. Com alguma antropofagia me hei-de contentar.

A minha História da Literatura Inglesa ficou uma coisa monumental, como informação, como originalidade crítica, como síntese do método histórico-sociológico, e do método «ontológico». Alguém, nestes países de analfabetos ou pretensos «comunas», quererá dar-se conta de que não é uma compilação sem graça? Claro que não. E é tudo assim. Na poesia, a minha disposição não é melhor. Junto lhe envio a ode «A Portugal» que em tempos escrevi, e será a abertura ou o fecho dos Grão-Capitães, em que intercalarei violentos poemas «políticos». Mas já me resignei a ser um Lautréamont conspícuo… os meus amigos entreter-se-ão a publicar-me, a pôr os olhos em alvo, a dizerem com emoção: «— O Jorge… ah…» E continuarão todos muito tolerantes com todos os Gaspar Simões que me infernizaram a vida.

Não, meu caro, Portugal não existe. É uma fantasia apenas, muito triste. Um Carnaval sangrento e malcheiroso. Viu que o Zaluar Nunes, brasileiro agora, para que o soltassem em Lisboa, declarou que lhe falsificámos a assinatura num protesto do Comité dos Intelectuais, publicado há dois anos?
O que não impediu que os estudantes do Recife o aclamassem à chegada, e que os jornais não publiquem o comunicado em que o tratamos como ele merece. Veja se tudo isto não é o Portugal glorioso dos Albuquerques — uma língua suja que ainda hoje não merece que Camões a tenha usado para outros fins e em outros lugares.

Dê aos Seus as nossas melhores lembranças. E receba o grande abraço muito amigo do sempre seu

Jorge

PS – Esquecia-me dizer-lhe que o meu compadre António Cândido gostou muito de V. e do Terra, e achou o Saraiva um pedante malcriado, surdo por dentro e por fora, e que é bom que fique aí. [1]
 

 

Araraquara, 4 de Junho de 1962*

P.S. Acuse imediatamente a recepção desta carta.

Caríssima Sophia

Chegado de São Paulo onde fui fazer uma palestra sobre poesia moderna portuguesa na «Mostra Internacional de Poesia» (onde li o seu Porque e a sua Meditação do duque de Gandia), encontro a sua carta sem data (a senhora da Intemporalidade!). Para que nada esqueça vou respondê-la a par e passo.

Obrigado pelos parabéns pelo nascimento da nossa «brasileira» que vai prosperando, com o frio pavoroso que tem sido o Inverno em que estamos agora a 5o, 8o, etc. – puramente europeus! E ainda bem que vocês vão singrando firmes no meio desses acontecimentos que já comentarei.
Também eu acho – com a ressalva de A Janela da esquina, de que V. não gosta muito, e de os Amantes de que V. não gosta nada – que A Noite que Fora de Natal é, dos contos que a Sophia conhece, o meu melhor. Nele pus todas as minhas ambições de renovação literária, e as «teológicas» também: não lhe terá escapado que é visceralmente «anti-cristão» o conto, embora não seja «anti-católico». Mas os meus contos melhores, na opinião dos amigos daqui, que os têm lido, são os que tenho escrito e estou escrevendo: uns para Novas Andanças; outros, para um livro agora impublicável em Portugal (não recordo se já falei dele), Os Grão-Capitães. Estes são, além de implacável libelo contra a sociedade portuguesa das últimas décadas, uma exemplificação do manifesto que as prefacia, em que proclamarei o «realismo fenomenológico» e integral… São, tematicamente, estilisticamente, pelas situações, etc. terríficos. Não sei se a Sophia, apesar da dignidade que eles possuam, tolerará o estadeamento de tamanha miséria e degradação – que temos de vomitar. Creio que são dos melhores contos que já se escreveram em português, até pela audácia técnica e experimental de todos eles. São, porém, verdades medonhas e pavorosas: não poupo nada, nem ninguém.

De certo ponto de vista, tem V. razão quanto ao Reino da Estupidez; mas há no meio daquilo tudo, uma série de tomadas de posição que são afinal o que mais me interessa. Parece que o livro, apesar da cortina de silêncio que os nossos insignes confrades têm lançado sobre ele (et pour cause…), tem tido êxito…

Não recebi ainda o Livro Sexto, que já vira anunciado e aguardo ansiosamente.

A carta francesa recebi, sim. E não respondi a ela, porque queria escrever ao Murilo, e mandar à Sophia a carta em cópia… acontece que a minha vida é inenarrável de trabalho nestes últimos tempos, e fez-me inclusivamente suspender toda a correspondência. Com efeito, repentinamente, desde meados de Março a fins de Abril, compus uma gigantesca tese sobre Camões (300 páginas de máquina), em que joguei todas as minhas teorias de técnica literária e camonianas… Tinha de ser entregue até 30 de Abril, data do concurso de livre-docência em Belo-Horizonte, na Universidade de Minas Gerais. A Universidade que é a 3a. do Brasil, depois do Rio e São Paulo (esta última, a cujo âmbito externo eu pertenço), queria que eu concorresse à cátedra, na sucessão do [Manuel] Rodrigues Lapa. Não me convém financeiramente, pois que como catedrático federal ganharia (independentemente do mais que me arranjassem), menos de metade do que São Paulo me paga (cerca de 120 contos, ou sejam 10 portugueses, que valem cá mais do que aí, apesar da alta do custo de vida, e o tempo livre para fazer o que quiser…). A livre-docência é o título acima de doutor, e equivale a catedrático sem cátedra e eu preciso de um título de letras, que não tenho, para não estar à mercê de qualquer conspirata que, «legalmente», me exclua do ensino. Aqui, Sophia, é como aí… é preciso usar navalha, e aguentar as navalhadas: só que se está menos só, e a luta é mais de igual para igual… Acabo de ser excluído, «legalmente», do concurso de «livre-docência», perdendo o trabalho e a paciência. Mas, como queriam que eu concorresse à cátedra, «amigos» e inimigos uniram-se para isso: e, agora, os «amigos» prolongam o prazo de concurso de cátedra, para eu concorrer… E uma comédia. Este mês de Maio foi de desgosto, de expectativa e de exaustão total, o que culminou tudo numa gravíssima «virose» ou seja um festival bacteriano que me ia levando a garganta, o pescoço, e não sei se a vida. Só na passada semana me recuperei um pouco. Aqui tem a razão do meu silêncio, e de não ter escrito ainda ao Murilo, explicando-lhe quem são esses «cafagestes» (adorável expressão brasileira): os Urbanos, Natálias & C.a. O que farei agora.

Já notara pelos recortes e uma ou outra «página» (e até pelo boletim do Grémio dos Editores, vendo que se publica), que a canalha tomou conta do «poder» literário, na preparação para a tomada do outro (que garantirá os êxitos financeiros daquele). E o resultado inevitável da degradação geral de um país que perdeu, totalmente, nas pessoas e nas coisas, o sentido da dignidade e da decência.

E, acerca disto, creio, Sophia, que, por carta, se pode dizer tudo, menos aquilo que seja inconveniente que se «saiba»… para prevenir os acasos de «leitura», que não se dão sempre, nem tanto quanto o terror aí imagina.

Neste momento – pegue lá esta bomba – chegou ao Brasil, com autorização do governo brasileiro, o A. Cunhal, ou seja o famigerado secretário-geral… Sabe ao que ele vem? Procurar uma reunião «deles», com o Manuel Sertório, com o [Henrique] Galvão (!!!), e com o [Humberto] Delgado, da qual seja excluído este seu amigo, o Casais e o Paulo de Castro, isto é, o triunvirato da esquerda não comunista. Já ninguém está pensando na queda do Salazar, mas na sucessão dele. É provável que, a estas horas, um emissário do Marcelo [Caetano] já se tenha avistado, em Paris, com o dito cujo secretário-geral… Está vendo o golpe? É preciso, quanto antes (e nisso estão todos de acordo), eliminar a esquerda que faça balanço entre a direita foragida do Estado Novo e o extremismo partidário, que mutuamente se servem. Eu continuo a pensar que não se deve entrar em combines com os reformistas caetânicos: eles que «sucedam», se quiserem e puderem, que nós assistiremos de palanque ao festival (e deve ser essa a nossa posição). Tudo o que muda é mudança: mas sem compromisso. O futuro limpo que desejamos pertence às esquerdas descomprometidas; que todos se associem e lhes preste muito. Considero que a unidade de toda as forças é necessária, mas sem entrar pelo Estado Novo adentro, ou é ele o que se passa para nós: já pensaram que é o que está acontecendo? Mas é preciso que essa unidade se faça lealmente, e sem aventureiros, que um partido que se não destalinizou (senão na fachada) continua a achar, inescrupulosamente, interessantes, como o caso do Galvão, de partida para os States com visto dos EE.UU., para depor sobre Angola nas Nações Unidas (os «trusts» do urânio, dos diamantes têm mais força do que nós… e do que o [Getúlio] Vargas…). Curioso, não é?

Tenho a impressão de que, aí, falta perspectiva para se verem e apreciarem estes «ballets». Eu, por mim, continuo apenas a querer ser… embaixador fora daí! E, entretanto, serei o professor universitário que todos se aplicarão em que eu não seja aí…

Para o Francisco e para a Sophia vão as nossas saudosas e afectuosas lembranças. Dê notícias. Escreverei logo que possa. E beija-lhe as mãos o seu muito amigo

Jorge

P.S. – Como vão os seus pequenos? Conte o que fazem. O Casais está morando aqui, perto de mim, que o trouxe para reger a Teoria da Literatura. Não sei ao certo o número da porta. Mas pode enviar-lhe o livro para: Faculdade de Filosofia de Araraquara, Caixa Postal 174, Araraquara – São Paulo – Brasil. [2]

Araraquara, São Paulo, 20 de Dezembro de 1962

Caríssima Sophia

Perdoe-me, se pode o meu silêncio. Mas eu já não sei que fazer para aguentar o trabalho incrível que é e cada vez mais vai sendo o meu. Todos os dias penso nas cartas que preciso de escrever àqueles que estão sempre presentes no meu coração; e todos os dias sucumbo ao peso das urgências atropeladas de tudo o que tenha aceitado fazer. Se, nestes últimos meses, eu não estivesse livre da direcção do Curso de Letras de que me demiti, não sei como estaria vivo… Acabo de enviar, hoje mesmo, para Ocidente, a primeira parte dos meus estudos medievais – será que sairão? Estão, a meu lado, as provas da minha História da Literatura Inglesa, para fazer o índice onomástico… Tenho, até ao fim do ano (é bem de ver que não posso), de entregar os meus estudos antológicos de Garrett e de Pascoaes. Acabo de assinar o contrato para a publicação do Livro do Desassossego, do Pessoa, cujos originais recebi. A Ática insiste pelos poemas ingleses dele, de que estou redigindo o prefácio. Recebi duas bolsas, uma federal e outra estadual, para a realização de uma edição crítica da Lírica de Camões. Terei de, depois do ano novo, partir para o Rio de Janeiro, com demora, para montar a máquina camoniana necessária. Estou concluindo um monumental estudo sobre Inês de Castro e a política portuguesa até ao fim do século XVI (que inclui a análise estrutural da Castro de [António] Ferreira). Tenho em mãos uma tradução imensa, porque preciso desse dinheiro. No sábado, tenho os exames finais de Literatura Inglesa, cuja especialização de 4o. ano regi, com um curso sobre Shakespeare… Junte a isto a falta de dinheiro, as tricas sinistras da vida universitária, a amargura com as canalhices da «oposição» (de cuja acção activa me afastei por completo), o desgosto por nada saber das minhas edições portuguesas (poemas, ensaios, etc.), a solidão que é a nossa aqui em Araraquara, e terá uma pálida imagem da minha vida e da Mécia.
A única alegria e a única certeza que ambos tivemos, neste fim de ano que foi para nós duríssimo, foi o feliz nascimento do nosso segundo brasileiro, um rapaz desta vez, o Nuno Afonso, que veio ao mundo, a este mundo que não sabemos já (e talvez não importe muito) que seja, no dia 5 deste mês.

Não foi, pois, por desinteresse que tenho estado calado, mas por humana impossibilidade. Espero que esta carta lhe chegue às mãos e se lhe demore nelas. Nunca imaginei que a P[IDE] se tentasse com os meus autógrafos… Resta-nos a consolação de pensarmos que ficaram sabendo o que já sabiam ou o que até bom seria que soubessem. A minha posição política continua inalterável: não tenho, e não terei nunca (a menos que me filie em mim mesmo), filiação partidária. Penso que a unidade de todos é a suma necessidade; mas reconheço que é impossível colaborar com a mediocridade invejosa, que é a dos nossos políticos, desde a clandestinidade em que mesmo no exílio se comprazem os comunistas, até ao Palácio de São Bento. Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará sempre perdido como merece. Nós todos é que precisamos que nos salvem dele. Mas sabe que não há maneira fácil? Eu, por exemplo, tenho feito por comportar-me como brasileiro em tudo, o que a minha vida oficial me impõe aqui: eu sou funcionário do Estado, assessor do Ministério da Educação (constará aí que se me deve que a Literatura Portuguesa seja obrigatória em todos os cursos superiores de Letras?), figura pública de mérito reconhecido. Isto sem abdicar em nada de ser o português que ninguém é mais do que eu. Pois só consigo ser suspeito a todo o mundo: aos «exilados», porque me abrasileirei, quando eles se recusam a tomar conhecimento do país em que vivem e do que vivem; e aos brasileiros (não aos meus amigos, é claro), porque sou um agente temível de «portugalidade»… No momento em que, no Rio, eu conseguia o triunfo (e consegui-o, sacrificando-me a partilhá-lo com brasileiros…) oficial da nossa cultura, recebi na imprensa a mais violenta campanha de que jamais fui objecto na vida. Tudo isto são as minhas alegrias – sem compensação alguma. E a vida encarece, vertiginosamente: se estou, com os vencimentos actualizados, ganhando três vezes mais do que quando entrei para o ensino, o custo de vida subiu quatro vezes… E, no momento em que o Brasil se encaminha para uma emancipado espantosa (que nos não é indiferente), não sabemos se os Estados Unidos não propiciarão um golpe de direita…

O primeiro número da Távola que recebi foi, há poucos dias, o 19, em que vem a notícia da morte do Bernardo Marques (que eu já sabia e me entristecera muito – sei que se suicidou). Foi no anterior que a vossa direcção começou? Neste vem a sua «Procelária», que é muito belo. Recebi, sim, o Livro Sexto acerca do qual ainda não escrevi nas minhas «Letras Portuguesas» do Estado de São Paulo, que têm estado suspensas pelas razões supra. Gostei muito do seu livro; parece-me – e creio ter-lhe já dito isto, em carta anterior – uma admirável renovação da sua mesma identidade de poeta sempre fiel a si próprio. Mas direi isto melhor e mais longamente.

Não sei já que poema meu lhe mandara para a sua revista que não houve… Mas deve estar inédito, porquanto há séculos que não publico poemas em Portugal. Aonde os publicaria? Pode, sem dúvida, publicá-lo na Távola.

Vou mandar-lhe um capítulo da minha magna tese inédita sobre Camões. E desculpe-me a pergunta: a Távola paga? Se paga, eu depois lhe direi a quem, que é meu cunhado de Lisboa, o nosso procurador aí.

Não posso agora pensar numa colaboração regular para vocês, que não cumpriria. Mas farei todo o possível por estar presente. Crónica sobre a literatura brasileira – poesia ou prosa – não farei; porque tenho mais que fazer do que ocupar-me das porcarias que aqui, como aí, se vão publicando. O que não quer dizer que eu não me considere especialista em Brasil, como poucos portugueses terão sido… É provável que, num momento de alívio (e de menor amargura, para não dizer coisas demasiado graves, que me criassem mais complicações do que as que já me bastam), eu retome convosco as "Cartas do Brasil" que eu escrevia para a Gazeta Musical, e que não continuei por estupidez dessa comunistada honorária.

Eu e a Mécia mandamos à Sophia, ao Francisco e a todos os vossos, os nossos mais afectuosos e saudosos votos de Natal e de Ano Novo. E creia na dedicação e na amizade do sempre seu

Jorge [3]

 

 

[1] —> Correspondência Jorge de Sena/ José-Augusto França, Lisboa, IN-CM, 2007, p. 223-5
[2] —> Correspondência Sophia de Mello Breyner/ Jorge de Sena, 3.ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010, p. 58-62
[3] —> Correspondência Sophia de Mello Breyner/ Jorge de Sena, 3.ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010, p. 67-71
 

Correspondência inédita com Luciana Stegagno Picchio e Carlo Vittorio Cattaneo

As 4 cartas inéditas a seguir transcritas — reunindo como interlocutores Jorge de Sena, Luciana Stegagno Picchio e Carlo Vittorio Cattaneo (este apenas como destinatário) — formam um conjunto homogêneo que tem como elo o primeiro trabalho acadêmico sobre a obra seniana: Una poesia di Jorge de Sena: Studio di strutture, tese de licenciatura defendida em 1970 por Cattaneo, poeta e futuro tradutor de Sena, na Università degli Studi di Roma, sob orientação de Luciana.

Escritas entre fevereiro de 1970 e fevereiro de 1971, revelam-nos, da parte de Sena, dados sobre os últimos tempos que passou no Wisconsin e os primeiros que passou na Califórnia, sua intensa e constante produção, seus projetos, seus problemas de saúde, seu modo de ler, atento e minucioso, do referido ensaio de Cattaneo, centrado no poema "Imenso de searas…", de Pedra Filosofal; da parte de Luciana, também há problemas de saúde a superar, pesado trabalho acadêmico e burocrático a conduzir, questões internas na sua universidade a contornar, mas, sobretudo, a ânsia de muito mais vir a fazer, inclusive com a colaboração do bom amigo Sena — o que os anos seguintes confirmarão.

Luciana e Jorge conheceram-se pessoalmente em agosto de 1959, no famoso IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, promovido pela Universidade da Bahia, e desde então tornaram-se amigos. Dez anos depois, Sena divide com Luiz Francisco Rebello as badanas da edição portuguesa da pioneira História do Teatro Português, assinada por Luciana e editada pela Portugália. Além de manter o carteio, Sena não deixava de visitar o casal Picchio em suas viagens à Europa, estreitando o fértil diálogo intelectual. Em 1976, é Luciana quem se desloca a Santa Barbara para um ciclo de conferências, a convite de Sena. Pela mesma altura, Luciana integra o grupo de amigos italianos que propõe Sena ao Prêmio de Poesia Etna-Taormina, a ele atribuído em 1977. Após o prematuro falecimento deste, aceitando convites de Maria de Lourdes Belchior, será ela Visiting Professor em Santa Barbara, em períodos de 1980, 1981 e 1983. Em memória do amigo, deve-se a Luciana a organização do primoroso número dos Quaderni Portoghesi dedicado a Sena, datado de 1983. E assina ainda uma pouco falada coletânea de poemas, que ela própria escreveu em cenário californiano, evocando o amigo que partira — La Terra dei Lotofagi – poesie con note (Milão, All'insegna del pesce d'oro,1993).

A correspondência abaixo, verdadeira prenda a nossos leitores, deve-se à generosa atenção de João Nuno Alçada, que a "descobriu", e à família de Luciana Stegagno Picchio, que, muito gentilmente, autorizou sua reprodução, bem como à consabida aquiescência de Mécia. A todos, imensamente agradecemos.

 

Madison, 8 de Fevereiro de 1970

Caríssima Luciana

Nao respondi logo à sua carta, porque o trabalho tem sido muitíssimo, as arrelias algumas, e a saúde pouca (em verdade, a um ano de diferença de ter sido em Lisboa operado das pedras da vesícula, acabo de descobrir-me uma incipiente e prometedora úlcera no estômago, após longas suspeitas minhas de que o meu mal-estar era excessivo para só adaptação a condições normais – pelo que eis-me de volta a dieta ainda mais rigorosa e selecta que a que tinha antes..»). Mas respondi, entretanto recebida, à carta do seu aluno Carlo Cattaneo, acerca de uma possível tese a meu respeito (mais exactamente, da minha poesia). Nela fiz algumas observações, e manifestei o meu evidente agrado (não se pode ser indiferente a estas coisas). O que, se a carta chegou, por certo V. terá visto. A V., porém, é que me cabe agradecer a ideia – e gratamente lha agradeço.

Desde que vim da Europa que a minha vida tem sido um inferno de trabalho, e também de algumas daquelas pequenas arrelias de que V. teve longa experiencia universitária. Embora seja catedrático do Departamento de Espanhol e Português, os estudos de Português continuam a ser um pequeno clube dos fundadores, que tudo fazem e dispõem como lhes apraz – e os meus antecessores ou estavam de visita e não se ralavam, ou não estavam, e aguentaram menos tempo do que eu (vai para cinco anos já que aqui estamos). A gente de Espanhol, muita da qual é ciente da situação, ou alinha com o chefe de departamento que é um modelo de jesuitíca doçura e paternalística ditadura, ou fica à espera que eu ponha a mão no fogo por conta das retaliações entre eles todos… O que evidentemente nao farei. Estou decidido a ir-me embora daqui. Tenho em vista uma oferta da Califórnia (melhor clima mas mais longe ainda da Europa), e concorri documentalmente à vaga da cátedra de Português em Amsterdam, anunciada urbi et orbi. Não sei se terei alguma possibilidade. Devo dizer-lhe que, entre os nomes que citei como comprovantes possíveis de quem sou, dei o seu, e peço-lhe desculpa de nao ter havido tempo para pedir-lhe a licença prévia que se devia.

Nao cheguei a voltar ao Leste americano, desde que cheguei da Europa há quase um ano. Apenas fui a três lugares aonde tinha de dar conferências, e eram para o outro lado (St.Louis, Denver, e New Orleans). Mas, indo para aquelas bandas, não deixarei de visitar o seu irmão. Diga-lhe que, aqui, fui nomeado catedrático da Literatura Comparada, para dar (a partir do próximo ano, se cá estiver…) um curso sobre Maneirismo e Barroco.

Peregrinatio tem posto em aflições os críticos portugueses, que agora estão em maré de considerar-me génio, mas não conseguem perceber porquê, e muito menos naquele livro. Estão para sair o 3o volume camoniano, e o das traduções de Cavafy, em que tenho trabalhado intermitentemente desde 1953. Está também para sair o das minhas traduções desde Arquíloco até ao fim do século XIX, uma montanha de mais de 60 poetas e cerca de 200 poemas, em que a Itália ocupa lugar largo. Seguir-se-á o da poesia moderna de várias partes, que sempre também largamente traduzi.

Recomende-me a Seu Marido, e ao Tavani (cujo repertório da métrica medieval nunca recebi). Como ficou, se já está definitivamente, resolvida a vossa situação catedrática? Se eu fôr para Amsterdam, faremos um eixo com Roma…

As mais afectuosas lembranças e um abraço muito amigo do sempre seu

Jorge de Sena

 

 


Santa Barbara, 5 de Janeiro de 1971

Exmo Senhor
Dr. Carlo Vittorio Cattaneo

Meu caro Amigo

Os melhores augúrios para 1971, trouxe-me ontem o correio, com a sua tese que muitíssimo e reconhecidamente lhe agradeço por duas razões principais: havê-la feito, e por ser excelente. Por ela — e não por mim — lhe dou os parabéns (extensivos também à Professora Luciana Stegagno Picchio, minha boa Amiga).  Não creio sinceramente que, em vida minha, fàcilmente eu veja repetir-se o seu feito de analisar tão cuidadosamente, e com tanta inteligência, um poema meu: a crítica portuguesa nao se dá a esses trabalhos de rigor, não sou grata figura das universidades aonde tais coisas lá se poderiam fazer (e não fazem), e o resto dos lusófilos está à espera de que eu morra… para continuar a ocupar-se da mediocridade lusitana à escala deles. E, nas Américas, não sou suficientemente brasileiro para interessar os meus ilustres colegas que aliás evitam poesia como o diabo a cruz. Ontem mesmo estive a ler com a maior atenção o seu estudo, e cuido de escrever-lhe já hoje – sem deixar amadurecer um pouco mais as minhas ideias — , para que as aulas do novo trimestre, que amanhã começam, me não protelem o agradecimento e o comentário que me cumpre fazer.

Houve tempo em que gostei desse poema que, depois, por comparação com outros ulteriores, passei a achar um pouco tosco e imaturo – razão pela qual, ao saber da selecção, me lembro de haver dito que outros poderiam ser mais fecundos para a análise. A sua análise, porém, mostrou-me que ele é muito mais "sólido" de estrutura do que eu havia pensado sem demorar-me em observá-lo — e o modo seguro como o decompõe não é dos menores méritos do seu estudo. As simetrias, os paralelismos, as recorrências, foram admiravelmente postas em relevo, e não poderiam tê-lo sido melhor. Por outro lado, a forma como o método foi aplicado, gradativamente, permite uma integração sucessiva dos círculos de significação, em que melhor ressaltam, ampliadas ou modificadas, as ressonâncias semânticas. Tudo isto lhe digo, para mostrar-lhe como apreciei o método e a sua aplicação, e como considerei excepcional a qualidade da análise. Posto isto, tenho discrepâncias de pormenor, que quero comunicar-lhe, não para diminuir o seu trabalho, mas para contribuir, se posso, para a exactidão dele. Note que eu, se disse que não sei o que os versos dizem de mim, não disse que não sabia, o que não dizem…

Vamos por partes. Compreendi perfeitamente a intenção e o alcance dos capítulos introdutórios, subordinados ao fim de explicar de quem se tratava: e mesmo me pareceu que vão bem mais longe do que essa mera limitação com que os define na sua carta. A tradução é excelente. Apenas nela creio que há um pequeno lapso: no v. 45 traduziu V. tremeluz por tremola. Tratava-se do verbo tremeluzir, que raramente se conjuga (= brilhar com luz trémula, e não apenas "tremer"), e de que em geral só se usa, além do infinitivo, o p. presente tremeluzindo. Parece-me que essa luz trémula posta na garganta fez falta para enriquecer a sua interpretação. Depois, até à p. 92, não tenho senão louvores a dar pela subtileza de tudo. Na p. 92, creio que a "vida inteira", no contexto, não é a "vita stessa del poeta", mas, como habitualmente significa,"a humanidade como ser vivente". Daí que se faça a transição para o que, na humanidade, limita essa humanidade: a teimosia, a vacuidade honesta, etc. E creio que é, neste ponto, que nos separamos. Verá porquê. A p.103,
fala V. de "disgustosa immoralitá". Não há tal. O que o poema pretende condenar é que existam todos os constrangimentos de uma moralidade normativa que me desgosta. O que ninguém ousou dizer é que não há que dizer senão o uivo animal (comento a p.8). Parece-me muito boa a aproximaçao de marmóreo do v. 35 e dos deuses do v. 39. Mas, naquele verso, creio que existe uma específica progressão de lunar, que paraleliza o "desolado" do v. 31, para marmóreo (figura sem vida, estátua, e, irònicamente, evocação de um epíteto muito comum para as formas à luz da lua), logo cortada mas ampliada pelo "prosaico" pardacento (que é a cor de uma paisagem lunar), deste para infausto (transformando em "aziago", "infeliz", o colorido triste de "pardacento") e para humano – o céu humano, infausto, pardacento, marmóreo (= pétreo), lunar, que esmaga o uivo desolado do animal preso. Assim, se o final de p. 30 e a p. 31 merecem a minha absoluta concordância, o mesmo não sucede com o parágrafo que começa "C'è la convinzione…" (p. 128). É assim que também não posso concordar com 3.7 (p. 136-39). Os deuses e as vestais são usados satiricamente, à luz do que imediatamente os precede — e por isso, considerando o que fica dito, creio que reconhecerá que o achou estranho por tê-lo tomado a sério. "Vestal", em português, num contexto de sugestão sexual, é já por si termo irónico. Se eles e elas (ou eles, e eles em sentido genérico, já que "vestais", ironicamente, se usa para os dois sexos), os símbolos da pureza e do angelismo e os que pretendem imitá-los na vida, "gritam de horror", numa falsa pudicicia, note que o fazem com o sexo a humedecer-se – com o que rigorosamente eu não quiz sugerir polução ou ejaculação, mas a ironia de se horrorizarem (fingindo), quando precisamente o sexo se lhes humedece (e não "inunda") daquela humidade que a excitação ou atracção sexual faz que o sexo se humedeça… apenas em preparação premonitória. Não é, pois, possível que os deuses sejam a poesia e as vestais o poeta. Trata-se de uma crítica da hipocrisia sexual, e não da possibilidade ou impossibilidade de comunicação. Daqui resulta que as palavras foram criadas para prender o homem, e nao para libertá-lo, a menos que a poesia as refaça inteiramente para dizer do uivo último.

Suponho que, se aceitar a razoabilidade destas minhas sugestões, a parte 4, sobre os vs. 43—56, que é excelente, encontrará ainda maior possibilidade de análise, para além da admirável qualidade em que se coloca. Porque não é o artista quem é esmagado pelo bicho, mas o poeta convencional que ao bicho e ao seu uivo se recuse.

Como lhe disse, tudo isto lhe digo pelo enorme e grato interesse que a sua tese me suscitou, e pela alta qualidade da análise do meu poema. Se quizer: a sua análise foi que me deu asas para discordar aonde me parece que se não trata de divergência, mas quiçá da circunstância de a imagem dos vermes e das sugestões de animalidade o terem focalmente atraido. E isso pode ser deficiência do poema, dado o meu gosto de certa ambiguidade e de imagens violentas que se sobrelevam quiçá demasiadamente. Os vermes rolando-se animalmente sao uma imagem dura, acrescentada pelo "lixo podre". É uma ambiguidade – todos nós, por repressão civilizacional, recuamos ante a sujidade animal, mas todos nós somos isso mesmo, quer gostemos ou não, e não há razão para não aceitar que isso nao é agradável nem desagradável. Além do mais, o "lixo " é uma criação da civilização (que quanto mais desenvolvida mais lixo faz) – de modo que, se ele é podre, apodreceu das repressões civilizacionais. Não pense que escrevi agora de propósito (escrevi há tempos) o poema inédito que adiante lhe transcrevo e explica tudo isto melhor do que faço agora:

Quem diz de amor fazer que os actos não são belos,
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado, por fazê-los,
que goza de si mesmo e com alguém ?

Só não é belo o que se não deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.

Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento ?
E que movor-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento ?

Olhos se fechem não para não ver,
mas para o corpo ver o que eles não;
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão. [1]

Gostaria muito de ver a sua tese publicada [2], e espero ter contribuído para o entusiasmo que pôs nela. Creia que, em tantos anos de ler coisas inteligentes, ou malignas, a meu respeito, raras vezes me foi dado ler, sobre mim, um texto tão seriamente e tão aprofundadamente escrito. E, de um ponto de vista metodológico que para mim o mais importante, nunca. A sua tradução faz-me pensar no que seriam outros poemas meus traduzidos por si. Não quero, porém, influi-lo a este respeito – e sou um péssimo propagandista de mim mesmo, que sempre se sente preso para solicitar o interesse alheio. E sobretudo quando o meu prazer seria maior – como é o caso da Itália, já que ser-se traduzido em francês ou em inglês não adianta nada a um poeta português, porque só será lido pelos que leriam o original, e esses países não acreditam que haja poetas noutras línguas, particularmente em Portugal. Se o próprio Camões ainda nao é conhecido, que podem esperar os outros?

Transmita as minhas melhores lembranças aos Profs. Tavani e Luciana. A ela diga que vou escrever-lhe. Gratamente lhe retribuo os seus desejos de Feliz Ano Novo. E receba o mais grato abraço do sempre seu

Jorge de Sena

PS – Se receber para o verão uma bolsa que solicitei, tenciono ir à Europa e sem dúvida a Itália (que, como esperava, me encantou na minha veloz visita, a primeira, há dois anos). Conto ter então o prazer de conhecê-lo pessoalmente. E, é óbvio, fico à espera, dos seus comentários às minhas observações. Que livros meus não tem, a ver quais terei eu que possa oferecer-lhe?
Repare na minha nova morada pessoal, visto que, há meses, mudei para a Universidade da Califórnia (Santa Barbara).

 

 

Roma, 12 de Janeiro de 1971

Meu caro Amigo

o meu querido aluno, agora licenciado, Carlo Vittorio Cattaneo, trouxe-me ontem a sua carta de 5 de Janeiro. Ma perché far tanta fatica a scrivere in portoghese quando Lei sa benissimo l'italiano?

Dunque: ho saputo da Cattaneo del Suo nuovo indirizzo: Mudança definitiva o provvisoria? Sono contenta comunque che Lei stia finalmente al caldo.

Io sono stata molto ammalata, mi hanno squartato e ricucito e adesso torno, pian piano, alla vita e al mio lavoro. La cattedra di Lingua e letteratura portoghese presso l'Università di Roma finalmente istituita e attribuitami a partire dal 1o. novembre 1970 mi libera finalmente dalla provvisorietà. Pisa è rimasta sguarnita; altre tre cattedre sono però state istituite in aggiunte a quella del nostro beneamato Rossi (Venezia, Lingue, Tavani – Bari Lingue, Macchi, Roma Lettere, io – Napoli, Orientale, Rossi), In quattro riusciremo a fare di più per la "difusão da cultura portuguesa na Italia e no mundo?" Lo spero proprio.

E cominciamo da noi. Sono contenta che in linea di massima la tesi di Cattaneo Le sia piaciuta. Anche a me, che l'ho seguito e in un certo senso, provocato, pare un lavoro serio e degno di ogni rispetto. E grazie, per quanto mi riguarda, della Sua accettazione. Adesso besognerebbe pubblicare il tutto. Ma, io ho l'impressione che sarebbe meglio farlo in una lingua diversa dall'italiano. O inglese o portoghese. Se lo pubblicassimo in italiano andrebbe a finire o in una rivista generica qui (che pretenderebbe molti tagli, fino a ridurre ad un massimo di 30 pagine il lavoro), o in una rivista di poca diffusione e di scarsa rilevanza internazionale come (mi dispiace dirlo, ma è la verità) gli "Estudos Italianos em Portugal".

Se lo traducessimo in portoghes potremmo tentare o una rivista portoghese, o una rivista americana (la "Revista ibero-americana" di Austin, Texas? o qualche cosa di simile). Che cosa ne pensa Lei? Si potrebbe fare anche un libretto autonomo, da dare alla Portugalia o a casa editrice affine. Quali sono i suoi suggerimenti, anche a proposito dell'eventuale traduzione?

Lasciando a Lei di risolvere questo problema, se Dio mi dà grazia e salute, io mi occi però prossimamente di trovare un Editore qui in Italia per una antologia poetica Sua fatta eventualmente da Cattaneo, o da Cattaneo e me a quattro mani. Sarebbe una bellissima cosa.

Per il resto… tiriamo avanti. Qui mi trovo completamente sommersa dal lavoro: anche burocratico. Come ultima arrivata sono infatti anche Segretaria della Facoltà. Troppo, per il mio temperamento. Ma non mi è stato possibile tirarmi indietro.

Chissà comunque che io riesca a fare una puntata in America entro i prossimi mesi. Il fratello mi reclama, con la scusa che i medici americani sono migliori degli italiani. E chissà che io finisca per dargli ragione. Nell'attesa di rivederLa, o qui o lì, La prego di non scomparire e di esistere ogni tanto, almeno per gli amici.

Con tanta stima e amicizia de

Luciana Stegagno Picchio

 

Santa Barbara, 21 de Fevereiro de 1971

Caríssima Luciana

Perdoe-me que, com a sua carta de 12 de Janeiro há um mês diante dos meus olhos, só agora lhe responda, quando, tendo sabido por Cattaneo da sua falta de saúde e operações, já antes andava em angústias de escrever-lhe. Mas estes últimos tempos têm sido – felizmente que a menor escala – também de pouca saúde para mim, e sobretudo de uma espécie de agonia, que não me deixa mais que o trabalho quotidiano e as provas tipográficas ou escritos urgentes, a remeter ràpidamente (em especial, artigos para o Dicionário do Cochofel [3], alguns longos e de especial responsabilidade por tocarem em ideias feitas). Faço votos por que V. esteja, entretanto, recuperada (o que não posso dizer que, a menos a vesícula e respectivas pedras, tenha sido o meu caso, desde que regressei há dois anos da operação em Lisboa), e em plena actividade – quanto aos médicos americanos não partilho a confiança de seu Irmão, e, pelo contrário, tenho deles um medo danado. Esse trabalho extra – de ser secretária da Faculdade, desgraças burocráticas que às vezes nos caem em sorte – é que me parece excessivo para uma pessoa que se refaz de aventuras cirúrgicas!

Não, não vim para a universidade da Califórnia em caráter provisório. Os tempos de Wisconsin, aonde todos os problemas existentes (mais o que se haviam aproveitado para fazer durante a minha ausência europeia) explodiram com as sucessivas crises estudantis e políticas, dentro da universidade e na rua, foram muito duros e desagradáveis, desde que eu havia voltado de Lisboa. Enchi a paciência, como dizem os brasileiros, e aceitei o convite de Santa Barbata, para onde fui nomeado, ao fim de muito tempo de delongas burocráticas, em Julho – mas ensinei em Madison até ao fim do verão, quando me lancei à magna aventura de mudar a família, a biblioteca e mais pertences, através da América, de Madison à Califórnia, tentado pelo clima de primavera eterna, pelo mar e a montanha, a proximidade de Los Angeles (hora e meia de automóvel daqui) e de San Francisco, e decidido a não ter de cruzar no corredor com rostos e sorrisos que me metiam nojo. Que numerosa tropa reles e fandanga é a nossa profissão em grande maioria, não é verdade? E recusei as ofertas do Wisconsin para lá ficar, e que igualavam, e até cobriam a daqui. Estamos instalados, ou vamos estando, a família e eu, desde os princípios de Setembro, com saudades dos amigos que deixei em Madison (embora a minha saída e do Diego Catalán, e outras que vão efectivar-se, arraste a derrocada do departamento e tenha destruído os estudos graduados de Português) e dos excelentes estudantes que formara ou dos que me acarinhavam, sobretudo depois das posições que eu, ainda que com os cuidados do bom senso, tomara em favor deles, que todos compreenderam, com tristeza, as razões de eu me demitir, espectacularmente, de um coio de intrujões. Já lá estava, como estou aqui, também em Literatura Comparada que é, tanto ou mais que a Lit. Port. e Bras., meu campo. E estou nela, a ensinar um curso, aqui, sobre o Maneirismo o o Barroco (em inglês, é claro). Santa Barbara é um dos nove "campuses" (plural de fazer tremer as pedras) da universidade da Califórnia, com Berkeley, Los Angeles, etc. Mas os tempos vão maus, com a tendência de reacção feroz contra as universidades como  centros de agitação, e com o oculto desígnio governamental de as fazer descer ao nível antigo, para controlá-las melhor e pô-las na dependência política dos dinheiros federais (e respectivos programas bélicos – ex: sabe acaso V. a razão de os extremistas terem feito ir pelos ares, em Madison, o Centro de Pesquisa Matemática? Porque era inteiramente pago por dinheiros secretos da CIA e do Pentágono – e foi lá que se fizeram, em computador, os cálculos para caçar o Ché Guevara…). A repressão vai acesa ainda que subterrânea, e a eliminação de todos os controlos democráticos por parte do professorado, também (nem já a "tenure", efectividade, é segura, pois que pode ser revogada pelos Regentes – e quem é que tem dinheiro, sem ajuda de grupos de resistência, para ir a tribunal contestá-los?). É esta a atmosfera geral – que evidentemente não só dá inquietação como enjôo, mesmo a pessoas não-políticas como eu. E, muito mais americanamente do que se julga, toda a gente se encolhe e baixa a cabeça.

Muito folgo – e dou-lhe os parabéns – por ter sido resolvida a sua situação e a dos estudos portugueses, com a criação da cátedra. Concluo, do que me diz, que só a sua (a do Rossi também?) é de Língua e Literatura, sendo só de Língua as do Tavani em Veneza (continua lá o meu velho amigo brasileiro Alexandre Eulálio de leitor?) e do Macchi em Bari. É assim?

Claro que a tese de Cattaneo me agradou muito, não só por ser sobre mim, mas por ser especialmente inteligente e subtil – independentemente de eu discordar (e não creio que seja matéria de opinião mas de facto) de alguns pormenores (tenho, a este respeito, uma carta dele, para responder, em que ele responde à minha). É sem dúvida um trabalho sério – e será que muitos poetas modernos portugueses se podem gabar de terem sido tratados em mais que estilo ensaístico? Concordo consigo que a publicação em outra língua que não o italiano, realmente só lido por quem se interessa por estudos italianos (e não por portugueses), seria preferível. O facto de ser publicado o estudo numa revista (para o que teria de ser condensado) não prejudica que possa ser oferecido, paralelamente, ou logo depois, na sua forma completa (e quiçá com um capítulo final e outro introdutório a enquadrá-lo na minha obra poética), a um editor português: ou a Portugália ou a Inova, do Porto, que se interessa também muito pelas minhas coisas. Mesmo nos Estados Unidos, conviria que, não sendo traduzido para inglês, o fosse para português. Os "estudos italianos em Portugal" seriam uma possibilidade – mas que lê e recebe essa revista? Quanto à tradução, poderiam VV. aí preparar uma versão que com muito prazer eu reveria (sem que isso figurasse em mais que dizer-se que eu vira a tradução – o que só se diria a modos que prefaciais, pois que de outro modo as pessoas pensariam que eu tivera mão no trabalho e na publicação dele).

Quanto a um volume de poemas meus traduzidos – por Cattaneo, ou por ele e V. "a quatro nãos" — , seria para mim alta recompensa (e estaria ao dispôr para esclarecer ou sugerir, como tenho feito com Jean Longland, de New York, que tem traduzido poemas meus na ideia de um eventual volume). Poesia minha tem aparecido em inglês, francês, alemão, em antologias, ou artigos (e, pasme, em croata e lituano) – mas, que eu saiba ou recorde, nunca em italiano, língua que me é tão cara e de país que amo tanto. Seria uma grande coisa. Haverá editor? Quando eu não sou dos lusos ou dos brasílicos que têm feito as suas "cavações" em Itália?

Antes que me esqueça: um estudo mais breve, e diverso, de Cattaneo (como a ele direi) poderá aparecer num volume que a Inova, do Porto, prepara, e sobre o qual me consultou, de "21 Ensaios" sobre mim (está para sair um assim sobre o Eugénio de Andrade, e encomendaram-me a preparação de outro sobre Camões). A propósito, esse volume, que é para coincidir com o centenário de Os Lusíadas, não incluirá necessàriamente só estudos sobre a epopeia. Escrever-lhe-ia, em breve, sobre o seu e meu interesse em colaboração sua. Está V. disposta a preparar alguma coisa? Quem mais, de Itália, pensa V. que poderia fazer algo interessante? Não necessariamente um camonista – ainda há pouco recebi, de Oklahoma, um interessante artigo
publicado por especialista de Milton, que abre de novo a questão de Camões ter "influenciado" (termo que detesto) aquele.

Pedi a esta universidade uma bolsa de viagem para ir à Europa no verão. Não sei se ma darão. Se derem, tenciono estar principalmente em Espanha, por causa das minhas pesquisas nesse sentido. Mas é minha ideia ir à Itália, para demorar-me em Roma mais dias que da outra vez, e visitar um ou outro lugar mais. Aonde estará V. por Julho e Agosto?

Ouvi dizer que Yale (não é aonde o seu irmão está?) andava à procura de um "nome" para Português – não fui contactado, talvez porque — e é sempre o problema na América – não seja suficientemente brasileiro para o gosto dominante, nem suficientemente português para as miragens deitadas às benesses oficiais lusitanas. Mas haverá nos EE.UU. nome maior do que o meu? Claro que há a considerar, também, o analfabetismo universal da maioria dos sujeitos que, na América, fingem que sabem português… ou cultura de qualquer dos dois países. Razão pela qual só me quero aonde esteja 50/50 em Português e em Literatura Comparada – até o momento em que, vivendo aqui, possa ter o português corno o escritor que sou, e esquecer-me de que ele é ou possa ser ensinado. No fim das contas, para que lutar pela melhoria de algo com que Portugal e o Brasil estão tão contentes?

E aqui vai o grande abraço da melhor amizade do sempre seu muito grato

Jorge de Sena
 

 

Notas:

1. Trata-se do poema "Arte de Amar", publicado em Exorcismos (Poesia III)

2. A tese de Cattaneo virá a ser publicada, refundida, em Estudos Italianos em Portugal, nª 38/39, Lisboa, 1975/1976, p. 29-78.

3. Como se sabe, pouco veio à luz do Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, projetado por João José Cochofel em fins dos anos 60. Os 37 verbetes destinados por Jorge de Sena a essa obra monumental integram hoje o volume póstumo Amor e outros verbetes (Lisboa, Ed. 70, 1992).
 

Correspondência com Delfim Santos  

Quando em 1966 José-Augusto França pergunta por carta a Jorge de Sena se ele “- Soube da morte do Delfim Santos, em Setembro?”, o autor dos Sinais de Fogo respondeu: “- Soube, sim. Mais outro que morre de frustração portuguesa”. Certamente evocava o Poeta o amor tão pouco retribuído dele próprio e de Delfim à cultura, ao pensamento e às letras portuguesas – um e outro aguardam ainda o reconhecimento que lhes é devido, entre tantos motivos, pelo seu pioneirismo, pela sua ousadia, pela sua frontalidade e sobretudo por essa tão fértil atitude de exemplar inconformismo e perdurável esperança, sempre iludida e sempre forçosamente adiada, num Portugal que pudesse ser realmente digno dos seus escritores e pensadores. (Filipe Delfim Santos)

As cartas que aqui reproduzimos fazem parte do volume Correspondência 1943-1959, e nos foram gentilmente cedidas por seu organizador, a quem agradecemos esta pré-publicação.

 

31.VII.51

Meu caro Amigo:
Li imediatamente a conferência sobre Camões [1] que amavelmente me enviou. Mas só hoje lhe posso agradecer e comunicar que a apreciei com toda a simpatia. Afastado de Camões, como toda a gente — incluindo aqueles que o estudam sem talento embora com erudição — senti o que de grandioso, pela sua conferência, a nossa geração poderia fazer pelo nosso Poeta. V. mostrou o caminho através de um ensaio dialéctico revelador de Camões.

Julgo ser esta a grande via e ser este o sentido apontado por si, embora [esteja] em desacordo com o seu subtítulo…[2] Porque não realiza V. um inquérito sobre Camões – o nosso possível Camões – entre as pessoas que tenham lido o seu ensaio?? Aqui vai uma sugestão que poderia resultar… e invalidar o Poeta dos eruditos, estragado e subsumido.

Um abraço com os agradecimentos e a admiração do seu
DELFIM SANTOS

[anotação de Jorge de Sena: respondi 7-8-951JS.]

Lisboa 6/8/951

Meu caro Amigo

Cartas como a sua consolam-me da maldade com que toda a gente se tem recusado sequer a fazer crítica ao meu trabalho sobre Camões, que julgaria sempre o grande caminho, não por ser o que eu vi, mas porque é o que lá está e era só preciso olhar – julgaria, mesmo que ninguém mo dissesse. Que V. mo tenha dito é uma consolação para fora da roda mais estreita de amigos próximos que nada chegam a dizer porque aí tudo é tácito, até a consideração; e para fora da roda mais vasta do público que nunca diz nada, e take for granted através de uma consideração que foi passando secretamente, rodeando as escolhas de pertinácia e estupidez.

Quanto ao meu subtítulo, a palavra ensaio está empregada em todos os sentidos – nem eu lá digo que não esteja. Inquéritos, onde os farei? – o Unicórnio não é meu e nunca me proponho para coisa alguma [3].

Creia gratamente amigo e camarada o
JORGE DE SENA
1. A conferência foi proferida no Porto em 12.06.48, no Clube Fenianos Portuenses, e publicada em Lisboa (veja-se a nota seguinte).
2. Jorge de SENA (1951) A poesia de Camões, ensaio de revelação da dialéctica camoniana, Cadernos de Poesia 7, Lisboa.
3. A revista -Cómio era dirigida por José-Augusto França e nela a colaboração de Jorge de Sena surgira por convite e não por sua proposta.

Menções a Eduardo Lourenço nos Diários de JS

Ampliando referências pessoais, respigamos aqui as sucintas menções a Eduardo Lourenço nos Diários de Jorge de Sena — o que nos propicia mais detalhes do diálogo contido nas cartas que trocaram.


(Lisboa) 24 de outubro de 1953 – Encontrei o Eduardo Lourenço, que vai para Hamburgo como leitor.

(Lisboa) 7/8/9 de abril de 1954 – À noite fui à casa do [José-Augusto] França que telefonara a convidar. A Mécia não foi. E eu, exausto como estou, fui, porque estava o Lourenço, que veio da Alemanha para casar e regressa já. Devia-lhe carta, gostava de o ver, e apeteceu-me ler-lhe os sonetos [de As Evidências], que é ele uma das raras pessoas, como o Zé [José Blanc de Portugal], capaz de apreciá-los in the full. Pelo telefone disse isso ao França que achou muito bem (com a reserva, que se verá, de haver ambiente…). Ambiente havia, se ele não estivesse determinado afinal a, do mesmo passo, receber o Lourenço e tratar de uma "discussão" sobre arte abstracta, que vai realizar ad Galerias majorem gloriam. No momento em que podia ter proposto a leitura, expôs os termos para discussão, a título experimental, pois que nos convidava para a sessão próxima, como estrelas… Eu não teria entrado a fundo, se, a propósito de academismo e arte moderna, o Lourenço não tivesse começado a desenvolver ideias que eu expandi no artigo entregue ao Magalhães Filho. Se não apanhava o fio, e expunha o resto, ficariam julgando, ao vê-lo publicado, que eu fizera um artigo com as ideias do Lourenço. Isso levou-me depois a desenvolver, com desagrado geral e apoio do Lourenço, a ideia de que o surrealismo é uma ressurgência conservadora da "arte antiga", enquanto o abstraccionismo é o peso mortal a que chega a "arte moderna" dos Cézannes e Van Goghs. Eu, porém, disse reaccionarismo – e foi o diabo. Tardíssimo, exausto, tive de me vir embora, e decidido a não pôr os pés no festival da discussão. Estavam: [Adolfo] Casais ]Monteiro], [Fernando] Azevedo, [Marcelino] Vespeira, Lourenço e um abstracto simpático mas pouco à vontade, Joquim Rodrigo, que eu não conhecia. O Casais, como sempre nestas ocasiões, antipático comigo, aproveitando-se do meu cansaço evidente, sem o desculpar ou evitar. Será que alguém alguma vez será capaz de compreender e aliviar o cansaço dos outros?

(Lisboa) 2 de julho de 1954 – Entreguei ao Casais, que me pediu para conferências e artigos no Brasil, uma cópia à máquina de As Evidências. Outra mandarei para Hamburgo ao Eduardo Lourenço, que tanto empenho pusera em ouvi-los.

(Londres) 3 de outubro de 1968 – Comprei em Dundee um brochezinho de penas para a Mécia, a quem escrevo agora um postal (e outro ao MacNicoll). E ao Eduardo Lourenço, e ao [José Rodrigues] Miguéis.

(Roma) 29 de novembro de 1968 – A Luciana [Stegagno Picchio] informou-me que o [Giacinto] Manupella publicou "tudo" do E. [Estêvão] Rodrigues de Castro [1559-1638]. Preciso absolutamente ver esse livro aqui ou em Paris, pois que disso depende a organização das minhas notas ao E. Lourenço, anunciando a minha em breve passagem por Nice.

(Roma) 30 de novembro de 1968 – É uma e meia – e parto para Pisa às 8:20, e estarei em Nice à noite. Amanhã de manhã, telegrafarei ao Lourenço. Que dia, Deus meu!

(Nice) 01 de dezembro de 1968 – [Em Pisa] Entrei ainda em duas outras igrejas, vi o Palácio dos Cavaleiros, tentei almoçar num restaurante onde, com o movimento dominical de famílias e "comendatores", só consegui comer a sopa, e embarquei para Nice (por Livorno, Spyria, Génova) às 13:50. E cheguei às 9 da noite. Estava a mulher do Eduardo à minha espera, porque ele está de cama com uma hemorragia nasal. Trouxe-me de automóvel e estou instalado em casa deles. Como jantara um jantar volante no comboio, limitei-me a matar saudades do meu chá de "menthe", enquanto falámos ininterruptamente durante duas horas.

(Londres) 2/3 de dezembro de 1968 – Perdi a manhã toda, no que a Nice respeita, na conversa com o Lourenço, e almocei com eles. Depois do almoço, ele foi ao médico tirar o penso do nariz, passámos na estação para comprar couchette para Paris, e já anoitecia quando de automóvel me levaram a dar uma volta pela baía e até Cap Ferrat que tudo achei lindíssimo, mas muito Estoril demais (ou vice-versa). O velho Nice não vi, é claro, e D. Brites* nicles. Como sempre, onde tenho amigos não vejo nada ou quase nada – ou não faço o que preciso, para ver alguma coisa. Jantei em casa deles, e largaram-me na estação para o comboio das 8 que 12 horas depois me depunha na Gare de Lyon.

 

* Durante esta viagem pela Europa, JS procurava coletar dados para um projetado estudo sobre príncipes de Portugal que viveram no exterior. D. Brites era Beatriz, filha do rei D. Manuel (nascida em Lisboa, em 1504, faleceu em Nice em 1538) e foi duquesa de Sabóia pelo seu casamento, em 1521, com Carlos III.


 

Correspondência Inédita entre Mécia e Jorge de Sena: “Vita Nuova” (Período brasileiro, 1959-65), segunda parte

B) Cartas do Brasil
De Assis, a 11 de Jan. de 1960, Mécia escreve a Jorge de Sena uma carta dactilografada (a primeira, do corpus em análise) de 2 páginas com um breve post scriptum manuscrito, a qual merece uma referência especial, designadamente, pelo que denota de um sentimento profundo de expatriamento e exílio e de uma especial sensibilidade feminina para com o homem amado.

Nesta carta muito expressiva, Mécia começa por tranquilizar Jorge de Sena em relação à chegada do seu trabalho sobre Brecht passando depois a transcrever o seguinte poema de Veiga Leitão, poeta português, enviado ao casal:

“ Um – ao cabo da terra / Outro – para além dela/ Ambos – a dimensão do homem/ E de uma estrela”

Seguem-se as notícias do correio chegado, mudando-se o tom informal num desabafo de magoada desilusão e intranquilidade sentidas neste seu novo destino que é comparado a vivências anteriores e expectativas, face aos frequentes afastamentos físicos de Jorge de Sena. “Monólogo”, lhe chama Mécia, que o informa ainda de que está passando a sua tese da Bahia, trabalho denso e demorado. Noutra carta, 4 páginas manuscritas datadas de Assis, 21/1/960, Mécia reconhece o seu anterior pessimismo e retoma, no seu sentido prático, expedito e reflexivo, os comentários críticos, as informações de tudo e sobre tudo. Insiste, a finalizar, no pedido de notícias por carta (demoram 5 /6 dias a chegar) ou telefone.

Numa breve ponderação retrospectiva da correspondência de Mécia de Sena, que ela própria chega a classificar, com algum chiste, de “epocalmente camiliana”, são recorrentes temas tão diversos como a literatura e a tradução, a política, as intensas relações sociais e culturais, a amizade, camaradagem e solidariedade, os constantes contactos com editores portugueses e brasileiros, mas também os atritos, os quotidianos de muito trabalho, agitação e pouca disponibilidade financeira, os desabafos de angústia e sensação de abandono, as saudades e a dor do afastamento físico, tal a intensidade amorosa.

Por entre esta diversidade e abundância de pormenores de sua escrita metódica e sistemática, perpassa um discurso pragmático, elegante e cuidado em que se entrecruzam traços narrativos, diarísticos e descritivos de que emerge, nítida, a singular mulher e intelectual que é Mécia de Sena.

As mais de 100 cartas escritas, por Mécia de Sena a Jorge de Sena, neste período brasileiro, são cartas de uma espontânea sensibilidade literária, estética sensualidade e genuíno erotismo que caracterizam a intimidade do casal e o seu mundo de privacidade sabiamente resguardado da intensa rede de relações sociais em que sempre se moveram. Para além desse traço constante, expressam também, a par da latente narrativa de um viver quotidiano, extremamente rico e variado, as constantes confissões de amor, fortes valores morais, políticos e éticos, suas relações de amizade com escritores, intelectuais e figuras públicas proeminentes do Brasil e de Portugal, insatisfações sociais, preocupações familiares, desejos de afirmação e reconhecimento, lutas pela liberdade política e solidariedades cívicas, literárias e culturais.

2. Cartas de Jorge de Sena: “Minha querida Mécia, meu grande e único amor/…meu imenso amor”

Afere-se das cartas recebidas de Jorge Sena quanto da sua leitura se verte no tom das respostas que merecem a Mécia. A sua análise exaustiva permitiria demonstrá-lo. Tal não se mostrando aqui possível, resta-nos seleccionar para análise algumas cartas de Jorge de Sena e destacar desde já uma delas, por nos parecer mais representativa, sem porém deixar de seguir os traços de leitura-escrita que transparece das cartas analisadas.

Nessa carta de 6 páginas, datada de 24/7/63, e expedida do Rio de Janeiro, Jorge de Sena atento ao desejo repetidamente expresso por Mécia de sempre ter notícias suas, escrutina minuciosamente as últimas cartas recebidas e enviadas, tantas das vezes trocadas através dos amigos e dá-lhe conta da longa demora das ligações telefónicas. E antes mesmo de responder à carta de Mécia, conta longa e pormenorizadamente tudo quanto fez entretanto no Rio, desde os frequentes almoços e encontros com numerosos amigos e conhecidos, como Adolfo Casais Monteiro, António Pedro, Agostinho da Silva, etc. com destaque para uma incompreensível conversa ditada por despeito, com um amigo português, “relatório de raiva feroz” que o deixa amargurado e triste, sentimentos só ultrapassados com o jantar amistoso com outro amigo, brasileiro, as suas idas ao cinema e as críticas à má qualidade dos filmes no Rio, até à descrição minuciosa das longas pesquisas na Biblioteca sobre as várias edições (1616, 1645 e 1666-68, todas cotejadas) das Canções de Camões e outros assuntos candentes do momento, editoriais ou políticos, como a possível edição de trabalhos senianos (ex a Tipologia deixada na Agir por Meyer) ou a notícia de carta confidencial recebida de S. Paulo, por um dos do grupo, sobre reunião de democratas em Praga para preparação dos destinos da Pátria a que Jorge de Sena contrapõe a ida a Argel, Paris e Roma.

“E aqui tens, faltam-me ainda umas leituras na BN e no Gabinete P. de Leitura onde ainda não fui. No Gabinete do Livro apareceu-me o Joel Pontes que me fez grande festa. E agora a carta. Espero que tenhas ao menos conseguido que a encomenda do Parthenon não seja devolvida até eu voltar. Pela minha carta já sabes que vi as provas do Bernardino em S.Paulo.”

Seguem – se as suas opiniões quase sempre indexadas ao que D.Mécia entender sobre assuntos de família e bens próprios, como a sua casa em Portugal. E insiste com a mulher para que vá ao médico.

Ora, se do anterior conjunto de cartas femininas é ilustrativo do que foi e como foi vivido por Mécia de Sena quer o afastamento físico de Jorge de Sena e a curta fase preparatória da decisão da partida definitiva para o Brasil, quer a sua vida em Portugal, com ele longe, já no seguinte sub-conjunto de cartas de Jorge de Sena, podem seguir-se, em traços largos, aspectos dominantes da carreira e biografia literária, cívica e política de Sena, nos anos 1960/65 no país cuja nacionalidade adoptou por razões de natureza académica e onde desenvolveu intensa produção literária e actividade de investigação e docência, como investigador e professor universitário doutorado em Assis (São Paulo) e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, ou ainda de intervenção política, como co-fundador da Unidade Democrática Portuguesa, membro do conselho de redacção do jornal Portugal Democrático e participante em actividades do Centro Republicano Português, de São Paulo.

A leitura que se faz deseja-se orientada pela advertência que o próprio Jorge de Sena faz em relação ao lugar especial que atribui às cartas de Mécia: “É evidente que convém distinguir entre cartas de “expediente profissional”, cartas de amigos e, neste caso, cartas da Mécia.” bem como pela percepção que tem da intensa correspondência trocada entre ambos: “E nós que podemos estar a fazer uma escrita de felicidade”.

Efectivamente, assim é o diálogo entretecido de cultura e literatura que emerge nítido das cartas de Jorge de Sena agora em foco e que iremos ilustrar com a selecção de alguns fragmentos de 12 cartas do escritor.

Logo em 1959, numa belíssima carta de amor enviada por Jorge de Sena do Recife, em 7/8/59, para Mécia, então ainda em Lisboa, ele colhe fotograficamente e assim regista na memória, o momento inicial do doloroso afastamento da mulher, seguido de uma profunda sensação de liberdade ganha.

“…saudade e amargura de não estares ao meu lado sobrelevam a sensação estranhíssima de respirar o ar livre do Brasil, que logo no avião começou. Revejo o teu “vulto” na porta de embarque…e de tanto sermos um, foi esta a separação mais dolorosa… mas cada vez mais somos um só, vivemos mais um no outro, meu Amor, não é?”

Um mês depois, Jorge de Sena escreveria assim, do Rio de Janeiro em 29/9/1959, como sempre, carinhoso, mas dando então notícia de diligências feitas para tratar de papelada oficial necessária à sua permanência no Brasil e à partida para aí da sua família, em Outubro de 1959:

“Meu amor, minha muito querida Mécia…Para simplificar, e porque fui ao Consulado por causa da licença militar e levar os retratos que me haviam pedido e tirei, fiz a declaração imediatamente, aproveitando a amabilidade deles. Aqui vai ela.Escrevo-te do correio para não perdê-lo. Espero que não haja encrenca com o engano dos dois nn no nome, tanto mais que a assinatura vai reconhecida. Beijos, beijos, beijos, infinitas saudades do teu que te aperta contra o coração. Jorge”

Numa deslocação de Jorge de Sena a S. Paulo, este escreve daí uma longa carta de 4 páginas, datada de “quarta – feira, 20/1/60” e endereçada a “ Meu amor, minha querida Mécia”, que envia “em mão” pelo seu colega brasileiro da Universidade de S. Paulo, o professor emérito de Literatura Portuguesa, António Soares Amora. Começa por indagar do bem-estar da mulher e dos filhos para logo desabafar:

“Que saudades tenho, que desirmanado, que desamparado fico sem ti!”

Pede que lhe envie o correio importante que haja chegado ou lho leve quando for ter com ele, deixando-lhe a decisão do que achar melhor, isto é, entregando-se nas suas mãos.

Descreve-lhe a viagem agradável que fizera com um dos filhos que levara consigo de passagem para a fazenda do amigo Décio, em Orlândia, depois de Ribeirão Preto, a cerca de 400kms de S. Paulo e a quem, diz, não deu dinheiro algum pois era ainda novo e não pareceria bem, não deixando porém de indagar da mãe “Que achas?”. Descreve-lhe em pormenor, tudo o que fez, os assuntos tratados no Instituto de Estudos Portugueses, as reuniões em que participara com amigos e camaradas sobre relações problemáticas no exílio e a participação, por alguns dos envolvidos, no golpe de estado em Lisboa do 11/ 12 de Março de 1959, i.é, a “Revolta da Sé”. Descreve actividades realizadas, políticas, ou de escrita, no jornal do Estado de S.Paulo:

“… No encontro no “Estado” tive de suprimir do artigo as referências, as notícias, a discriminação das obras completas do Sá –Carneiro. Mesmo assim, ainda ficaram de mãos na cabeça com o tamanho do artigo. O Bianchi e o Décio mostraram-me a carta que tinha ido para aí a dizer que eu não me ralasse com ter saído o artigo do Neves sobre o mesmo assunto. O Amora que agora foi lá recebera os 2.000; por isso não vai ser preciso por agora levantar dinheiro. …
A Conferência da Amnistia que afinal foi autorizada…dasabou em cima de mim. Eu pertencia com o Victor e o Sertório à Comissão de Resoluções e sou o redactor de todas as mensagens que serão expedidas. Além disso pediram-me para redigir …os entremeios da prosa do folheto que apresenta a documentação sobre “plenários”, “prisões”, demissões”, etc. Um folheto informativo que será distribuído aos delegados. Nem tempo tive ainda de pegar na crítica ao Nobre que no “Estado” esperam, nem de ir à Biblioteca. Ainda ontem à noite marchei para casa do Vítor onde havia reunião das comissões, com mais sossego do que na União dos Escritores que é uma balbúrdia. O Casais chega amanhã do Rio mas calcula que exigiu que lhe pagassem a viagem. Falarei com o Vítor para que ma paguem também, não te parece?. O trabalho merece alguma compensação , e ele tem dinheiro e nós não temos.”

Nesta carta, para além de outros assuntos seus do dia-a- dia, pede-lhe para ver com o Amora umas correcções a um trabalho seu, indicando-lhe concretamente o local dos livros que usou e a consultar. Sempre preocupado com Mécia, fala das diligências feitas para lhe conseguir um ortopedista e despede-se assim:

“Como vês meu amor nem tempo tenho para me coçar – mas sempre minha querida Mécia para pensar em ti. A pensar em ti mal durmo (hoje pela madrugada sonhei com o major Sequeira que nos ia processar, imagina tu! ), mal ando, mal faço tudo. Sem ti, sabes bem como nada sou e nada valho. Começo a nem saber falar sem ti ao pé de mim, como nem sei dormir sem ter-te a meu lado. E sem os teus braços, a tua boca, o teu corpo, não sei sequer, meu Amor viver. Beijo-te muito, muito, muito, aperto-te os seios com as mãos como tanto gosto – sou inteiramente teu. Dá lembranças à Clara, beijos aos pequenos. Recomenda-me aos amigos daí. Com imensas saudades aperto-te contra mim. Teu do coração. Jorge.”

Em carta de 4 páginas, datada de 6ª feira, 19/7/963, Rio de Janeiro, Jorge de Sena conta pormenorizadamente a sua viagem a partir de São Paulo e chegada ao Rio onde, diz, trabalho e contactos correram bem, com tempo ainda para conviver com os amigos, ir ao cinema e ao calista. Destaque para os seus comentários a aspectos característicos da situação no Rio de Janeiro e em Portugal, e reflexões existenciais:

“Imagina tu que o hotel – e o que me valeu foi ter telefonado de casa do Pimentel a fazer reserva – está custando como todos, a módica quantia de 3700 crzs!! Mais de quatro contos…só para dormir: amanhã vou fazer umas investigações a saber se estão todos assim pois que é uma dor de alma gastar assim o dinheiro.
O Salazar arranjou nova maneira de chatear as pessoas … o Nuno Fidelino de Figueiredo foi à Europa com a mulher e os filhos e tinha a intenção de passar um mês ou dois, primeiro em Lisboa, com os pais. Sabes o que lhe fizeram sendo ele já brasileiro? Declararam-no indesejável no aeroporto e não o deixaram desembarcar. Ele reclamou, entrou o cônsul em acção (o Negrão, não, é claro) e deram-lhe um visto de trânsito para 3 dias, e no 3º dia meteram-no no avião para Paris. A coisa agora é feita com elegância. Não é verdade?… Foste ao médico já?… Não deixes de ir mesmo que te sintas melhor…Não imagines que mesmo o ferro de que somos feitos não se gasta: gasta porque lhe temos dado muito uso.
Que vida a nossa! Como gostaria que estivesses aqui comigo onde inclusivamente com a tua mania de utilidade concreta (como se as pessoas não pudessem ser úteis só de existirem, D. Mécia!) me ajudarias a fazer render mais as pesquisas. Será que alguma vez levantamos a cabeça? Sabes que chego a ter medo de que isso aconteça algum dia? Será que somos daqueles que vivem longamente assim ou morrem quando a vida lhes melhora. Assim tivéssemos para aturarmo-nos a mesma energia que temos no amor e na luta pela vida, mas não se pode ter tudo….
Dá muitos beijos aos pequenos todos. E para ti vai com a minha saudade e o meu amor o grande e apertado beijo do teu Jorge.

Noutra carta de 6 páginas, datada do Rio em 24/7/963, Jorge de Sena escrutina minuciosamente as últimas cartas recebidas e enviadas, através dos amigos, e dá conta da longa demora das ligações telefónicas. Conta demorada e pormenorizadamente tudo quanto fez entretanto no Rio, desde os frequentes almoços e encontros com numerosos amigos e conhecidos: Adolfo Casais Monteiro, António Pedro, Agostinho da Silva, e outros. Refere-se a uma incompreensível conversa com um amigo português marcada pelo despeito, “relatório de raiva feroz” que lhe provoca amargura e tristeza só ultrapassadas em jantar amistoso com um amigo brasileiro. Fala das idas ao cinema, critica a má qualidade dos filmes no Rio e descreve minuciosamente as longas pesquisas na Biblioteca sobre as várias edições das Canções de Camões (edições cotejadas de 1616, 1645 e 1666-68). Aborda ainda outros assuntos candentes, editoriais ou políticos, como a eventual edição de trabalhos seus (ex a Tipologia deixada na Agir por Meyer) ou a notícia de carta confidencial recebida de S. Paulo, por um dos do grupo, para uma reunião de democratas em Praga para preparação dos destinos da Pátria a que por Sena foi contraposta antes a ida a Argel, Paris e Roma:

“E aqui tens, faltam-me ainda umas leituras na BN e no Gabinete P. de Leitura onde ainda não fui. No Gabinete do Livro apareceu-me o Joel Pontes que me fez grande festa. E agora a carta. Espero que tenhas ao menos conseguido que a encomenda do Parthenon não seja devolvida até eu voltar. Pela minha carta já sabes que vi as provas do Bernardino em S.Paulo.”

Seguem–se as suas opiniões sempre indexadas ao que Mécia entenda e insiste com a mulher para que vá ao médico,

“…essa aversão á medicina é pecadilho infantil. Afinal que queres tu? É complexo de auto-destruição? Os médicos também tratam isso e com pílulas. …
Hás-de concordar que não serão os remédios que fôr preciso comprar que desequilibrarão o nosso orçamento em teu favor, prejudicando o papel de anjo isento que só trabalha e não custa dinheiro que te obstinas em representar. Podes continuar a ser anjo e mais eficaz com pílulas angelicais contra os rins e vísceras maléficas. Estou e não estou brincando. Achas – e é verdade – que já não consegues aguentar o trabalho e os filhos? É sem saúde que esperas aguentar melhor?”.

Queixa-se de problemas nos olhos que lhe dificultam o trabalho na biblioteca, para logo passar a outro assunto, de implicações políticas:

“…Quanto à história do Kim [talvez o amigo Timás Kim dos Cadernos de Poesia] a coisa tem de ser considerada cuidadosamente; Um dos meus capitais –nossos – é a política que tenho mantido e o respeito que me têm. Pode ser que o Kim tenha tido uma inspiração nem duvido. E de resto se eu recebesse garantias da PIDE ( e pode-se ou deve-se confiar nela?), quem não pensaria que depois do que tenho dito e feito eu não traí? Um lugar em Lisboa, para educar os filhos, só com 6 ou 7 contos por mês, pelo menos. Quem mos dá? Quando voltar escrever-lhe- ei. E acho a história dos Cadernos muito divertida sobretudo num momento em que se fazem “sondagens” e se dará um golpe que provavelmente porá os comunistas em pânico. Eu estou tão cansado do Brasil como tu…mas a verdade é que sou (talvez até Agosto…) catedrático e vou escrevendo e editando coisas que lá ninguém me editaria…. e sempre vamos educando os nossos filhos… Mas tudo isto é para conversarmos longamente. Claro que se houver o golpe do Lacerda, aí regressamos a toque de caixa… mas ao menos de graça. (…)
Mas estas coisas desde que os livros saiam e eu possa escrever já não me aquentam nem arrefentam. O caso na faculdade envolvendo alunos que são também meus, é outra coisa. Os meus olhos não aguentam mais. Amanhã, telefonar-te-ei, e poderemos falar emocionalmente, já que tudo vai aqui tratado. Beijos muitos aos pequenos. E as saudades e o beijo do teu do coração Jorge.”

Em carta de 4 páginas enviada do Rio de Janeiro, a 31/1/965, iniciada como de costume pelo ponto da situação da correspondência entretanto trocada com Mécia, e seguida do relato comentado de peripécias do quotidiano (custos elevados de hotéis e restaurantes, incómodos vários de óculos e sapatos novos, metereologia de calor húmido comum a S.Paulo e contrastante com as securas de Araraquara …), encontramos, como de costume, a referência a vários temas e assuntos: encontros e conversas com os amigos (Casais, Pimentel, Lemos e outros), a boa recepção que em vários locais tem tido, (ex. Real Gabinete Português de Leitura), frequentes idas ao cinema (caríssimo, 500 e 600 cruzeiros), compras de livros, alguns em tradução brasileira para Mécia poder ler, dinheiros recebidos/a receber, desabafos de cansaço forte e memória fraca. Comenta a desatenção dos filhos que nem dão pela sua falta habituados que estão já às suas viagens, e continua preocupado com a saúde de Mécia com quem comenta ainda Lawrence e Balzac.

Na carta seguinte, mais curta, enviada do Rio em 5/2/965, é o convite recebido de Wisconsin, aceite, mas que como diz preferiria que fosse de Illinois, “menos nos confins do mundo” e as conjecturas da preparação da partida da família para essa nova etapa de vida que é o assunto principal. Não faltam as notícias dos almoços com amigos como Cleonice Berardinelli.

Do Rio de Janeiro, Hotel Nice, a 17/8/965, nova carta de 4 páginas em que retoma o assunto da preparação nos serviços de emigração e embaixada, da próxima partida para os U.S.A, com a notícia de que lhe são ofertadas 5 passagens por Scarabótolo que lhe promete recomendá-lo para director do Centro de Estudos Luso-Brasileiros na nova Universidade de Essex, Inglaterra, e que dele dá as melhores referências a adidos culturais dizendo querer prendê-lo pela gratidão porque o Brasil não pode perder um homem assim.. Comenta intrigas várias em universidades, meios de adidos culturais e outros de que teve conhecimento por diversas fontes, incluindo Maria de Lourdes Belchior com quem falara ao telefone e pede urgentissímamente a Mécia que avise o amigo Borba que está a ser alvo, pelas costas, de traição nos meandros institucionais, fornecendo indicações precisas sobre o que deverá fazer para não perder o lugar de direcção que tem.

Volta a queixar-se do calor insuportável do Rio, refere-se aos contactos feitos com agências de viagens aéreas e diz ter passado na Editora Agir onde mantém colaboração, a tratar de assuntos e também nos Livros do Brasil onde encomenda livros para enviarem ao amigo José Blanc em Portugal. Nesta, como aliás noutras cartas, ainda a referência a pedido/remessa de dinheiro dispendido e necessário para o dia a dia.

Em nova carta, 3 páginas, laconicamente datada de “seg. feira, 14h30m” [Setembro +/- 20, 1965, anotação posterior] diz ter chegado bem a casa de amigos onde se instalou com dois dos filhos e refere ter já o visto permanente, pelo que pede a Mécia que vá ter com ele, com os filhos: “Vem portanto já, já, já. Quem sabe se não poderias tomar um ónibus nocturno?”

Por fim, uma carta de 8 páginas enviada do Rio, numa 6ª feira de muita chuva, sem anotação de qualquer outra data. Como sempre, no Rio, o seu quotidiano é um corropio de afazeres, de manhã à noite, em que nunca está sozinho, sempre em contactos de trabalho, almoços e jantares com os mais diversos amigos, visitas a outros para planear e fazer avançar trabalhos de edição e/ou intervenção política, como desta vez os preparativos por Meyer da publicação das suas “Tipologias” ou o almoço com Sarmento Pimentel e Paulo de Castro em que “tudo ficou maquinado para o nosso corte com os comunas”, as pesquisas na Biblioteca onde o seu amigo Emmanoel lhe facilita os microfilmes – desta vez, “o Camões todo”, o “celebrado sumário dos Reis de Portugal” e outras fontes. A estas notícias, juntam-se ainda as novidades dos sucessos ou problemas dos amigos no Brasil ou em Portugal.

São recorrentes as referências, também aqui, às dificuldades de dinheiro e carestia de vida no Rio : estadia no hotel a 2.000 e refeições a 800 e 1000 cruzeiros. Conta os assuntos que tratara no Instituto e na Cultrix em S. Paulo. Como continuam também mesmo que entre parêntesis, as referências mordazes e críticas à situação de Portugal e aos que de lá trazem “notícias importantes…”:

“Não há nada, ninguém espera que aconteça nada e contam com o …Exterior! Seria de anedota se não fosse trágico”

De novo assoma o cansaço de uma vida errante e cheia de obrigações e responsabilidades várias:

“Estarei na sexta feira em Araraquarara. Nem que vá no trem que chega a desoras. Já não sei andar assim sozinho, vagabundo, metido em quarto de hotel, encontrando pessoas, etc., etc…. Virei animal doméstico. E cada vez mais me exaspero de viajar sem ti. Como seria bom se pudesses estar aqui comigo, só comigo! É uma coisa que quase já não sabemos que seja.”

Refere-se ainda a diligências feitas para tratar de subsídios, fala de outros amigos que encontrara na livraria Leonardo Da Vinci, dos comentários positivos feitos ao seu novo livro de Contos “Andanças”, e das notas históricas que pretende acrescentar a Afonso Henriques em estudos seus em fase de provas quase a terminar:

“Aqui tens, querida, o relatório destes quatro dias vertiginosos e chuvosos…. E as pessoas ficam arrepiadas quando digo que não tenho ninguém para trabalhar comigo!
(…) Minha querida, que saudades tenho de ti da tua presença, do teu amor (senhora saiba – e como sei! que ele está sempre comigo!”

Noticia que um seu plano de nova publicação foi muito elogiado, comenta um filme fraco mas divertido que viu e lembra os filhos: “Muitos beijos para os pequenos a quem espero levar uns fantoches de mão que vi na rua se ainda voltar a encontrá-los.”

Como se pode observar as cartas de Jorge de Sena para Mécia, são no geral, fragmentos de um diário quotidiano amoroso, afectiva e psicologicamente intrincado na estreita e profunda relação com sua mulher, companheira certa de todos os momentos, sincronamente correspondido, mas também uma sequência de relatos de vida mais ou menos circunstanciados, em que se destacam as múltiplas actividades, iniciativas, contactos, relações e projectos literários, académicos e de intervenção cívica, cultural e política, em que constantemente está envolvido no Brasil, com particular destaque em Assis e Araraquara, mas também no Rio e em São Paulo, onde se deslocava frequentemente, por temporadas mais ou menos longas.

Enquanto o registo epistolar revela em Mécia de Sena, a sua capacidade gestionária, proficiência e suporte à actividade criadora e profissional de Jorge Sena – um intenso e regular trabalho d(n)as margens, porém, socioculturalmente activo e influente, qual esteio essencial à constituição de uma formação social moldada por valores culturais; na escrita epistolográfica de Jorge de Sena, são dominantes o mundo do trabalho académico e da intervenção directa literária e cultural, o exercício activo da liberdade cívica e política, com ênfase particular na divulgação da língua e da cultura nacional de origem. Mas tal divisão de trabalho ao nível dos papéis feminino-masculino é subvertida pelo desejo vivo que alimenta um dispositivo maquínico de escrita comummente vivida que veio a revelar-se, sublimado, na tenacidade com que Mécia tomou para si, após o desaparecimento físico de Jorge de Sena, a sobrevida numa obra tecida pela experiência de vida intensamente partilhada.

Nesta correspondência de uma fase fulcral das vidas de Mécia e Jorge de Sena, diário escrito a quatro mãos, como se de execução de uma partitura musical se tratasse, assiste-se à experimentação comum da escrita e à construção de um diálogo cultural e político ininterrupto entre Portugal e Brasil através das impressões e notícias trocadas entre ambos.

A abordagem feita, especialmente suscitada pela figura de Mécia de Sena e seu papel de charneira neste diálogo epistolar inédito, assenta num registo biográfico das cartas, instrumento interpretativo dos contextos histórico-culturais em que Mécia de Sena e Jorge de Sena são protagonistas de especial interesse e relevância.

Relevou-se a vertente documental desta produção epistolar, cuja expressão, simultaneamente, íntima e pública, revela aspectos e meandros importantes para um conhecimento mais pormenorizado da vida-obra seniana, evidenciando-se a grande importância socio-histórica, a vários níveis, desta correspondência, espaço potencialmente rico de pensamento, cultura, história e literatura. Sendo que a mesma convive muito de perto com a marcante experiência dos exílios e a profunda consciência de seu significado político, social e histórico, que a vão impregnar com evidente capacidade de resistência, estas dimensões são igualmente relevadas.

Índice de Correspondência Mécia de Sena /Jorge de Sena (Brasil, 1959-1965)
(cartas invariavelmente precedidas dos invocativos “Meu amor”, ou “Meu muito querido Jorge.”

1. De Mécia de Sena para Jorge de Sena

1. Lisboa, 22/2/59, (1 pág.)
2. Lisboa, 24/2/59, (2 págs)
3. Lisboa, 24/2/59, (2 págs)
4. Lisboa, 7/8/59, (4 págs)
5. Lisboa, 8/9/59 [deve ser 9/8/59], (2 págs)
6. Lisboa, 9/8/59, (3 págs.)
7. Lisboa, 10/8/59, (3 págs)
8. Lisboa, 12/8/59, (2 págs)
9. Lisboa, 12/8/59, (2 págs)
10. Lisboa, 14/8/59, (4 págs A5)
11. Lisboa, 15 e 16 /8/59, (4 págs A5)
12. Lisboa, 17/8/59, (4 págs A5)
13. Lisboa, 17-18/8/959, ( 4 págs A5), seguida de uma cartinha da filha Isabel
14. Lisboa, 19/8/59, (2 págs. A4)
15. Lisboa, 20/8/59 , (4 págs A5)
16. Lisboa, 20/8/69 , ( 4 págs A5)
17. Lisboa, 22/8/59, (4 págs. A5)
18. Lisboa, 23/8/59 , ( 8 págs A5)
19. Lisboa, 27/8/59 , ( 4 págs A5)
20. Lisboa, 28/8/59 , ( 4 págs A5)
21. Lisboa, 29/8/59 , (4 págs A5)
22. Lisboa, 30-31/8/59 , ( 4 págs A5)
23. Lisboa, 31/8/59 , ( 6 págs A5(
24. Lisboa, 2/9/59 , (4 págs A5)
25. Lisboa, 3/9/59 , ( 6 págs A5)
26. Lisboa, 4/9/959 , (2 págs A4)
27. Lisboa, 5/9/59 , ( 2 págsA4)
28. Lisboa, 5 – 6 /9/59 , ( 4 págs A4)
29. Lisboa, 7/9/59 , ( 2 págs A4)
30. Lisboa, 8/9/59 , ( 4 págs A4)
31. Lisboa, 8/9/59 , (1 pág. A4)
32. Lisboa, 9/9/50 – [ sem invocativo e continuação da carta anterior ] (1pág A4)
33. Lisboa, 11/9/59 , ( 3 págs A4)
34. Lisboa, 11-12/9/59, (4 pags A4)
35. Lisboa, 12-13/9/59 , (2 págs A5)
36. Lisboa, 13/9/59 , ( 4 págs A5)
37. Lisboa, 14/9/59 , (2 págs A4)
38. Lisboa, 15/9/59 , ( 3 págs A5)
39. Lisboa, 16/9/59 , ( 4 págs A5)
40. Lisboa, 16/9/59 , ( 4 págs A5)
41. Lisboa, 17/9/59 , (4 págs A5)
42. Lisboa, 18/9/59 , (2 págs A5)
43. Lisboa, 19/9/59 , (2 págs A4)
44. Lisboa, 19/9/59 , ( 2 págs A 4, papel timbrado da Portugália Editora)
45. Lisboa, 20-21/9/59 , ( 2 págs A 4, papel timbrado da Portugália Editora)
46. Lisboa, 21/9/59 , ( 2 págs A 4, papel timbrado da Portugália Editora)
47. Lisboa, 23/9/59 , ( 2 págs A5) acompanhada de uma cartinha do filho Pedro de 23/9
48. Lisboa, 24/9/59, Jorge, meu querido (4 págs A5), acompanhada de um bilhete do amiguinho Pito
49. Lisboa, 25/9/59 , ( 3 págs A4)
50. Lisboa, 25-26/9/59 , (5 págs A5)
51. Lisboa, 26/9/59 , (4 págs A5)
52. Lisboa, 27/9/59 – [sem invocativo] Outro dia sem notícias (2 págs A4)
53. Lisboa, 28/9/59 , (3 págs A5) com anotação “Recebi Assis a 5/10”
54. Lisboa, 29/9/59 – Meu amor, meu querido Jorge (4 págs A5) com anotação em letras grandes na 1ª página “Vita Nuova”
55. Lisboa, 1/10/59, ( 3 pags A4) com anotação “Receb. 7”
56. Lisboa, 2/10/59 , ( 3 págs A4)
57. Lisboa, 2-3/10/59, (4 págs A4) com anotação “Receb. a 14/10”
58. Lisboa, 6-7/10/59, ( 4 págs A5)
59. Lisboa, 8/10/59 , ( 2 págs A4)
60. Lisboa, 9/10/, ( 4 págs A5)
61. Lisboa, 11/10/59 , ( 4 págs A5)
****

1. Assis, 18/1/60, (2 págs A4 dactilografada, com post scriptum manuscrito de 19/1)
2. Assis, 2171/60, (4 págs A4)
3. Assis, 10/6/60, (2 pág A4)
4. Assis, 3/7/60, (1 pág A4 , papel timbrado da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis)
5. Assis, 8/11/60, (4 págs A4)
6. Assis, 9/11/60, (3 págs A4)
7. Assis, 11/11/60, (2 págs A4/A5)
8. Assis, 8/2/61, (2 págs A4)
9. [s.l.] 8/7/61, (3págs); a 1ª pág com a seguinte anotação “PS: veio uma linda carta do Veríssimo”
****

1. Araraquara, 1/7/62, (1 pág. A4)
2. Araraquara, 18/7/63, (2 págs A4); anotação na 1ª pág “Receb. a 24/7/63”
3. Araraquara, 23/7/63, (2 págs A4)
4. Araraquara, 24/7/63, (2 págs A4)
5. Ararquara, 27/7/63, (3 págs A4)
6. Araraquara, 3/8/63, (3 págs A4)
7. Araraquara, 4/8/63 , (1 pág A4, dactilografada)
8. Araraquara, 13/12/63, (2 pág A4, dactilografada com post scriptum manuscrito)
9. Ararquara, 10/1/64 , (2 págs A4)
10. Araraquara, 11/1/64 , ( 2 págs A4) anotação na 1ª pág. “ Rec. dia 21”
11. Araraquara, 13/1/64 , (2 págs A4)
12. Araraquara , 15/1/64 , (1 págs A4)
13. Araraquara, 28/1/64 , ( 3 págs A4) rasurado o ano e escrito 65; anotação “Resp.”
14. Araraquara, 1/4/64 , ( 2 págs A4)
15. Araraquara, 31/8/64 , (1 pág. A4)
16. Araraquara, 4/9/64 , (2 págs A4)
17. Araraquara, 5/9/64 , (2 págs A4)
18. Araraquara, 2/8/, (2 págs A4)
19. [s.l.] Setembro 1965, (2 págs A4)
20. [s.l., s.d.] – Jorge (1 pág.A4)
2. De Jorge de Sena para Mécia de Sena
(cartas quase sempre precedidas do invocativo “Minha querida Mécia, meu Amor”)

1. Recife, 7/8/959
2. Rio de Janeiro, 29/9/59
3. S. Paulo, 4ª feira, 20/1/959 [rasurado o ano e substituído por 60], ( 4 págs A4)
4. Rio, 6ªf.[s.d.] , (8 págs A4)
5. Rio de Janeiro, 6ª f., 19/7/63 , (4 págs A4)
6. Rio de Janeiro, 24/7/63, (6 págs A4)
7. Rio de Janeiro 31/1/65 , ( 4 págs A4)
8. Rio, 5/2/65, (2 págs A4)
9. Rio de Janeiro, 31/5/65, ( 4 págs A4)
10. Rio, 17/8/65, ( 4 págs A4, papel timbrado do Hotel Nice)
11. 2ªfeira, 14h30m , (3 págs A4; com anotação na 1ª pág. “Setembro.+/- 20 de 1965”)
12. Rio de Janeiro 31/1/65 , ( págs A4)

 

Correspondência Inédita entre Mécia e Jorge de Sena: “Vita Nuova” (Período brasileiro, 1959-65)

Ao propor-me estudar e escrever sobre a produção e recepção epistolares de Mécia de Sena no que sou, aliás, reincidente, não posso ignorar quão dilatado é um desafio que envolve milhares de cartas escritas e recebidas.

A primeira dificuldade será o desconhecimento em mar aberto, por assim dizer, da grande maioria das cartas dessa produção, que permanecem inéditas, com a ressalva devida para “Isto Tudo que nos rodeia (cartas de amor): Mécia de Sena e Jorge de Sena” (edição IN/CM, 1982) e a recente publicação “O Re-descobrimento do Brasil: três cartas inéditas” no site “Ler Jorge de Sena” onde se divulgam as primeiras três cartas escritas do Brasil em 1959, por Jorge de Sena para Mécia.

Seguindo os itinerários dessa produção epistolar com lugar de relevo na tradição da epistolografia portuguesa, de elevado valor literário que, designadamente, na observância da estreita relação entre os interlocutores, permitem também conhecer aspectos sócio-culturais e políticos de espaços-tempos concretos, procura-se avançar no conhecimento do seu significado para o desenvolvimento da investigação em vários domínios da Literatura e da Historia.

Correspondência Mécia de Sena /Jorge de Sena: Do amor e da saudade, da separação e da ausência, da unidade existencial e do vivido

As 158 cartas, na sua maioria manuscritas, aqui em análise: 112 de Mécia remetidas de Lisboa, Assis e Araraquara e 46 cartas de Jorge, enviadas do Recife, do Rio e de S. Paulo, entre 1959 e 1965, são um contributo incontornável para um melhor conhecimento de aspectos essenciais da vida e da obra de Jorge de Sena e informam-nos ainda sobre uma multiplicidade de assuntos relativos a edição e produção literária, e respectivos quotidianos vivenciados e comentados, nesta fase decisiva de suas vidas.

Em ambos se mantém a estrutura formal clássica das cartas, com uma parte mais ou menos curta de desenvolvimento, uma conclusão e um prólogo com invocação nominal sempre acompanhada de expressões muito carinhosas.

Diversamente das cartas de Mécia de Sena, numerosas, diárias e geralmente curtas e muito concretas, escritas a partir de Portugal entre Agosto e Outubro de 1959 e depois, já no Brasil, mais espaçadas, as cartas de Jorge de Sena são em menor número e menos regulares mas em geral mais longas e quase sempre imbuídas de um pendor reflexivo e especulativo sobre a vida e os acontecimentos narrados. Mécia quase nunca se afasta de uma das características principais do género epistolar, a brevidade e mantém-se fiel às outras duas: a clareza e a propriedade.

Entretecidas na esfera do privado, nelas assomam a dor e angústia das saudades, as adversidades e vicissitudes do dia-a-dia, as cumplicidades, a coragem de ousar e mudar de vida, o profundo companheirismo e atenção de Mécia e Jorge de Sena na sua primeira separação física mais prolongada de casados e já pais de 7 filhos.

Estas cartas deverão pois ser objecto de uma leitura capaz de colher e transmitir, com sensibilidade, recato, fiabilidade e imaginação interpretativa, a sua dupla dimensão de história vivida e criatividade literária.

1. Cartas de Mécia : Meu amor/ Meu muito querido Jorge

As primeiras cartas deste período, escritas numa regularidade mais que diária, num curto período de 2/3 meses, são, fundamentalmente, o testemunho impressivo e ininterrupto de uma paixão amorosa feminina exemplarmente resistente a toda e qualquer adversidade.

Configuram-se como pormenorizado e agitado diário de bordo extremamente completo das hesitações, incertezas, motivos, circunstâncias e preparativos da decisão de fundo e partida definitiva do casal Sena para o seu exílio voluntário no Brasil (1959-1965), onde não faltam os registos das impressões de estupefacção e dor provocados pelo mesmo, apesar da vasta rede de amigos em que se contam muitos dos prestigiados intelectuais da cultura portuguesa e brasileira.

A) Cartas de Lisboa para o Brasil
A partida de Jorge de Sena para o Brasil e sua ausência é documentada na torrente de escrita epistolar de Mécia de Sena, a que, para sua ansiosa contrariedade sempre assinalada, Jorge de Sena responde, a espaços mais irregulares.

Em carta de 7/8/59, alusiva ao desembarque de Jorge de Sena no Recife, seguindo daí para Salvador, com vista a participar, a convite do governo brasileiro, no IV Colóquio Internacional de estudos Luso – Brasileiros, entre 10 e 21 de Agosto, na Universidade da Bahia, Mécia regista o que irá ser uma constante nesta correspondência: o recurso a intermediários portadores das cartas, estratégia a que ambos recorrem, presumivelmente, por atrasos de correio, insuportáveis.

“Escrevo-te ao cuidado do Eduardo Lourenço porque não encontro a morada do Casais.
É uma e meia da noite, e a estas horas irás já tu muito longe de todos nós.
Estou ainda atordoada destes últimos dias, e da tua partida com gente a mais, todos, memo os mais íntimos, varados, por ser possível que tanto nos queiramos. Mas sempre fico entristecida quando verifico que como não és nunca franco comigo, como vives enganando-me… e nem sequer em casa ao sair me tinhas dito toda a verdade. É isso que não compreendo em ti, que não me habituo a admitir, que faz que eu viva numa permanente e angustiante expectativa do que aconteça e que ainda hoje aconteceu…Acaba sempre tudo por desabar por sobre a minha cabeça quando precisamente em maiores dificuldades me encontro. (…) Temo que o desejo imenso que tens de, compreensivelmente, saires daqui te faça aceitar qualquer situação que aí te ofereçam. …Talvez o Urbano [Tavares Rodrigues] te possa deixar algum dinheiro e pago-lho aqui quando ele voltar. Mas só se vires que é muito necessário porque tudo é pouco…” [ a escrita da carta é retomada às 9h da noite] De manhã telefonou a Helena Moura avisando que o serviço de correio no Brasil é incrível…e oferecia que o pai te levasse notícias nossas. Como o avião parte à uma da noite irei ao aeroporto a ver se consigo quem leve os restantes exemplares da antologia e entregar a carta.
Vieram provas que vi nada tendo encontrado que me parecesse de te perguntar. (…) Mais nada, meu amor, senão que aguardo o teu regresso e que as horas da tua ausência me são intermináveis. (…)

Carta de 8/9/59 (deve ser 9/8/59) – descrição minuciosa, com grande sentido crítico, de episódios e membros da delegação portuguesa ao Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, na Bahia (designadamente, o historiador Veríssimo Serrão, o director do Arquivo Histórico Ultramarino, Azeredo Perdigão da Fundação Calouste Gulbenkian, escritor Vitorino Nemésio, professores Lopes de Almeida e Costa Pimpão, o diplomata André Gonçalves Pereira, o crítico literário Gaspar Simões, e outros.). Afectuosa e apaixonada, diz o que sente: as saudades e o desejo premente de notícias que dificilmente chegam, a imensa falta provocada pela ausência do companheiro e o temor manifesto de que ele decida ficar no Brasil:

“Meu querido Jorge, temo tanto que te entusiasmes a ficar aí, numa aventura que não temos o direito de tentar! E essa gente aí é tão falível, tão de promessas vãs!…E sobretudo temo que uma resolução tua seja razão de uma longa separação nossa, meu amor, e tu sabes como te quero, como só sei viver junto de ti, palpavelmente junto de ti. (..) E entretanto, meu amor, e como sempre, só da tua vida dependo, só tu preenches a minha. Que saudades dos teus braços, meu querido Jorge! …beijo-te ardentemente.”

Em missiva de 10/8/959, 3 dias após a partida de Jorge de Sena para o Brasil, Mécia regista a emoção sentida com a primeira carta que dele recebe e faz um registo fotográfico do seu quotidiano:

“…Ia eu a sair a porta com o pequeno para casa da Eunice, quando o carteiro chegou com a tua carta. Nem queria acreditar, meu amor. Foi como se finalmente alguma coisa me prendesse à terra, e um pouco de calor teu me chegasse.
Realmente nunca me custou tanto a separar de ti, nem saberei bem explicar porquê. Um temor da travessia do atlântico, um temor de que fiques por aí e eu me veja entre o desejo invencível de ir e a necessidade de ficar, sei lá mas talvez simplesmente e de cada vez mais não suportar estar longe de ti e saber que mesmo uma carta leva dias e pode nem chegar, de modo que sempre trocaremos correspondência de surdos.
Eu sei que não será possível eu ir e só para te fazer a vontade fui tratar do passaporte.
(…) Meu querido Jorge, és tudo quanto na vida desejo e quanto a vida me faz desejar. Compreender-nos-ão um dia os nossos filhos? Bem o desejo porque significará que encontrariam com quem se identificar. Beijo-te, meu amor, com uma infinita ternura, beijo-te sempre.”

Constante, a angústia da separação não impede o sistemático relatório de progressão da publicação da obra de Jorge de Sena, como se pode ver nesta carta de 12/8/959 (recebida a 17/8/59, conforme anotação manuscrita de JS):

“ Por certo ainda hoje não terei notícias tuas da Bahia que o transbordo do avião retarda. Estou ansiosa por saber como achaste o Casais, que tal é esse ambiente, como te pareceu assim em conjunto a heteróclita representação portuguesa. (…)
Vi já a prova da crítica do Monumental que devolverei, hoje mesmo, e mais umas páginas da Literatura que também devolverei, ou melhor, virão buscar hoje mesmo, se quiserem. Nada encontrei que impedisse a devolução imediata.
O Agostinho da Silva mandou o caderninho sobre o Fern. Pessoa. Meu Deus, mas o homem está louco de todo ou é da minha vista?
Veio também a página do Comércio com o teu artigo em grande relevo.(…)
Como estará decorrendo o Colóquio? (…)
A humanidade é vil, é pérfida e aquelas patacoadas do Agost.da Silva ainda me irritaram mais, bem se vê que está longe desta esterqueira há muitos anos para ter esperança de que este povo faça alguma coisa na vida. O paraíso terreal! Mas que gente!!! (…)
PS Os pequenos mandam-te sempre muitos beijinhos, bem como te mandam lembranças os amigos e conhecidos… Maria Lamas, etc, etc, etc. toda a gente com quem achego de falar”

Noutra carta datada do mesmo dia, a referência aos muitos amigos que a procuram e dele pedem notícia – outra regularidade desta correspondência.

“Esteve aqui há pouco e por pouco tempo o Cardoso Pires com a Maria Lamas (são íntimos e até compadres). Ela falara nas “Libertinagens e ele mostrara curiosidade em ver e ela veio cá pedir se eu me importava de lhe mostrar.
Esteve a fazer grandes elogios da tua Antologia. Acha o teu prefácio magnífico. Como toda a gente mostrou o seu pasmo por tanto que consegues produzir. (…)
Precisava de acabar a minha tradução mas não consigo por mais que faça, nem sequer chegar à regularidade que precisava das 12 páginas diárias. (…)
Não haverá um deserto qualquer para onde vamos os dois? Ou será que mesmo aí sairia de debaixo da areia qualquer verme para nos incomodar? Porque aí não há suficientemente longe, ainda há Pimpões que lá cheguem! (…)

Em carta de 14/8/959, o relato minucioso do trabalho de tradução e correcção de provas (ex. Literatura Inglesa), do numeroso correio que chega (recortes de jornais assinados, revista Vértice, Revista do Livro…), dos múltiplos afazeres quotidianos e ainda, apesar do estado de abatimento provocado pela morte da mãe, a convivência social e cultural, sempre presente no seu dia-a-dia:

“À noite, a convite da Maria Lamas, fui ao “Restelo” ver a “Grande Estrada Azul”. Uma coisa italiana bem feita, sem concessões de happy end mas muito lenta de acção, com interpretações boas mas não excepcionais. Uma coisa um pouco deprimente ou o meu estado de espírito é que anda deprimido. (…)”
A 15/8/959, Mécia exprime um contentamento indescritível com a chegada de carta de Jorge de Sena, através de mensageiro pessoal, regularidade também de toda a correspondência deste período, aliás, como a referência a dificuldades económicas resolvidas com empréstimos de amigos e dinheiro de traduções feitas por Mécia e Jorge de Sena, como a do “Hamlet” proposta de Luís de Sousa Rebelo, por 6.000.00, “uma ridicularia” mas “não há mais ninguém para a fazer”.

Em 17/8/959, confessa:

“ (…) finalmente nesta tua carta há já um começo de diálogo, que até agora as nossas cartas têm sido conversa de surdos, perdidos um do outro” e termina: “Meu, amor, vivo das tuas cartas e do teu amor. Beijo-te com muitas saudades…” para logo noutra carta do mesmo dia desabafar: “… isto aqui é atoleiro por todos os lados e ainda por cima é pobre, ao nível dos dez tostões que é a coisa miserável, desconsoladora. Não haverá no mundo uma Parságada qualquer para onde vamos? Meu amor, o mundo é nojento e a humanidade está ao nível do mesmo. E a vida é tão breve e tão poucas as coisas que nos dá meu querido. É-me insuportável estar sem ti, sem te abraçar, sem me sentir nos teus braços com a minha cabeça no teu peito quente, acolhedor, que eu sei pertencer-me como eu te pertenço inteiramente.”

Em carta de 17 e 18/8/959, Mécia de Sena, esgotada, ganha alento nesta confissão de amor:

“Pudesse a minha boca procurar a tua e não mais pensaria em nada… que os teus braços me protejam mesmo à distância e pensando neles eu tenha o repouso que tanto necessito”

No dia seguinte, em nova carta noticia os muitos comentários positivos ao estudo de Jorge de Sena sobre Florbela Espanca saído na Ática e indaga: “ Não percebo que voltas vais dar depois da Baia, mas entretanto o saberei por certo”, terminando por perguntar se as teses do congresso serão publicadas e se haverá hipótese de Sena publicar no Brasil uma antologia poética, lembrando por fim os presentes para os miúdos.

A 20/8/59, Mécia dá notícia da falta de pagamento por parte das editoras portuguesas e adverte Sena sobre as faltas na Junta Autónoma das Estradas (JAE), seu local de trabalho em Portugal.

Entretanto, nem um “torcicolo e problemas de fígado” a impedem de sair sob “um luar lindíssimo e temperatura muito agradável” para assistir a uma palestra, em companhia da escritora feminista Maria Lamas a qual esteve: “falando sempre muito de ti por quem ela tem verdadeira admiração”. Ainda na mesma carta, estranha: “Disseram-me ontem que os jornais brasileiros não entram cá, porque?!”

Em carta de 21/8/959, comenta: “os jornais de cá nem uma só vez, citaram, a propósito do Colóquio, qualquer nome fora do Perdigão, do Marcelo e do Reinaldo como se tivessem sido estes sempre os astros do Colóquio.”

A 22/8/959, manifesta a incerteza sobre o regresso de JS, desejando: “ Que venhas em breve, meu querido Jorge, para minha tranquilidade, que tranquilidade é estarmos juntos mesmo nesta inquietação tremenda que é a nossa vida aqui”; e prevendo ser esta carta a última a escrever-lhe para o Brasil, pergunta-lhe se recebeu uma carta que lhe enviara por Manuel Bandeira quando não sabia ainda que endereço usar.

A 23/8, em carta bem mais longa, em que acusa, com grande alegria, a recepção, através de intermediários, de 2 cartas de Jorge de Sena, com mais de 1 semana de atraso, diz “a Emissora está farta de anunciar uma série de palestras entre as quais a tua no dia 27 …na Baía”, e refere-se à boa recepção que em Portugal tem tido o Colóquio, e às diversas atenções e simpatia que tem recebido da tipografia:

“Entretanto foram para cá tantos os telefonemas, os recados, as idas e vindas nestes últimos três dias que parecia uma fita dos irmãos Marx. (Claro que quase não pude trabalhar na tradução e…só consegui, não sei como, ver as primeiras provas de mais um caderno da Literatura…tive algumas dúvidas, mas como entretanto me tinham mandado o original inglês lá resolvi…”.

E é ainda o amor incólume ao desgaste da vida, do casamento e do cuidado com os filhos, que continua a manifestar-se, como sempre:

“…a carta que me trouxe o Urbano foi para mim como um banho lustral, meu querido Jorge. Fico tão envergonhada quando me dizes coisas como estas, meu amor. Só realmente o amor que tenho por ti, me pode fazer avolumar tanto aos teus olhos. E vê lá eu acho sempre que te dou pouco…Só realmente quando me possuis eu creio não ser possível a ninguém, nem humanamente, uma dádiva mais total. É como se simultaneamente estivesses todo em mim, estando eu dentro de ti, abarcada pelos teus braços e pelo teu corpo, numa envolvência indescritível. E tudo te devo, meu amor. Quanto gostaria neste momento de pôr as minhas mãos na tua cabeça, nos teus olhos, na tua cara, como tanto gosto de fazer deitada a teu lado, às escuras, para ir moldando nas minhas mãos os teus contornos inesquecíveis e sentir aquela felicidade transbordante, sequiosa de ti, e apaziguada por ti, ‘quando deitada à tua beira sei que se rasga eterno o véu da graça’. Só desejo viver o suficiente para dizer um dia aos nossos filhos o que acima de tudo devem querer e como se o obtiverem nada mais contará para eles”

Em carta de 27/8/959 mostra-se preocupada com a demora do regresso e com o bem estar de Jorge de Sena em sua digressão pelo Brasil (Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo…) há cerca de 1 mês, repleta de solicitações e trabalho, mas também de contentamento.

Refere-se à amizade de JS com os Barradas de Carvalho, inteira-se das novidades do Colóquio, conta-lhe do convite do Jacinto Ramos para a estreia da peça “O Catão” de A. Garrett, e informa-o que o Ruy Belo (da Aster) fora buscar os poemas de Malarmé e um estudo sobre o mesmo, despendindo-se assim:

“Meu amor, deixei para o fim o agradecer-te o poema que me mandaste. Achei-o belíssimo, querido, mas como de costume quando a tua poesia me abrange, sinto-me enleada, e não sei como agradecer-te senão beijando-te”.

No dia seguinte, noutra carta, depois de desabafar, prossegue noticiando, com seu sentido crítico:

“ …Depois, isto de não saber nunca ao certo, onde estás ou para onde vais, aumenta a minha própria instabilidade. (…) Meu amor, não creio que o Brasil nos sirva. Está demasiado perto e tem demasiados contactos com esta piolheira. Há-de ter sempre a marca indelével deste povo irremediável que primeiro, lhe pisou descalço, o solo. (…)
Os jornais por cá não deram especial relevo ao Colóquio, salvo no respeitante à delegação oficial que só faltou dizer a que horas S. Exa ia ao WC.
Também esses brasileiros podiam ter sido um bocado menos pródigos em “honoris causas”. Quase já não dá honra nenhuma merecer tal honra depois desta distribuição quase ao domicílio. Mais do que a política de boa vizinhança exigiria não creio que fosse preciso e não há dúvida que se excederam. E afinal o Perdigão deu-lhes mesmo o coice. Tinha de se vingar da classe turística.”

Em carta mais breve de 29/8/59, diz com alguma preocupação, que pediu os ordenados dele a “Livros do Brasil”, conta-lhe dos muitos que a visitaram pedindo-lhe notícias suas, e continua a comentar a recepção na imprensa portuguesa ao Colóquio da Bahia:

“A notícia que correu exactamente nos D. da Manhã e do Notícias põe elogios à delegação oficial e também abrilhantava o Paço D’Arcos e tu…”
Confessando-se “perplexa e estonteada” com recente missiva de Jorge de Sena, de 30/8/959, em que pela primeira vez se refere à hipótese de ficar no Brasil, escreve:

“Antes de mais preocupa-me o estado de cansaço em que dizes estar. Isso não pode ser, Jorge. Como vais enfrentar cá depois um ano inteiro ou começar vida aí se as coisas para isso se proporcionam? Estou aflitíssima meu querido Jorge. Que tal é o Juscelino?
Hoje vem no jornal que houve barulhos em Niteroi. Fico preocupada mais ainda. A vida aí sofreu nova alta. Até onde chegará enquanto durar o sangradoiro de Brazília?
Como vai o Thiers arranjar-te esse dinheiro se não deres a tal lição na Faculdade de Filosofia? Isso em moeda portuguesa são 3 contos e tal?
Amanhã telefonarei ao Lyons de Castro. Também telefonarei ao Serrão e ao Rebelo.
Mas meu Deus, ficas a conhecer toda a gente….”

Sopesa depois as dificuldades e problemas que terão de resolver com a mudança para o Brasil:

“…Isto quer dizer que tens possibilidades de que ainda me não falaste? …
Penso que haveria uma possibilidade de se arranjar uma demora aí tua. Conseguires seres convidado para o Congresso da Estrada …dar-te-ia ensejo a uma demora até fins de Setembro o que seria já um prazo mais largo para resoluções tão graves como a que estarás sopesando.
Como poderíamos nós de repente, plantarmo-nos aí com uma familória como a nossa e sem ninguém que me ajudasse? Como mandaríamos dinheiro para cá? Como poderia eu fazer viagem sozinha com 5 ou 6 crianças e 3 praticamente de colo? Tudo é preciso pensar meu amor, e esta tua carta deixou-me desvairada de problemas e de desejos desencontrados. Como me aguentaria eu aqui, pouco tempo que fosse, sem um chavo de lado nenhum? (…)
Meu amor, contigo estarei sempre bem seja onde for…”

E num post scriptum de 31/8, relata todos os contactos feitos para acompanhar a publicação de trabalhos de Jorge de Sena e tratar de inúmeros assuntos da vida do casal.

Em carta de 31/8/1959 começa por expôr-lhe uma dúvida na tradução de uma frase do livro Expresso – Oriente, pedindo-lhe resposta rápida para devolver o trabalho à gráfica, facto ocorrido outras vezes. Regozija-se com o sucesso de palestra entretanto feita por Sena, pergunta-lhe se irá ainda à Baía e ao Ceará, preocupa-se com a incerteza e o receio de que ele acabe por não encontrar no Brasil possibilidades de ficar e de, mais desesperançado, vir encontrar novos problemas em Portugal, na JAE e no trabalho e relações com as editoras (Portugália, Morais, etc.).

Noutra carta datada de 2/9/59, mais curta, em que não deixa de informá-lo dos trabalhos com as editoras, confessa-se “grega com as provas da Literatura”, e “Estou cansadíssima do sarau das provas”.

Numa segunda missiva datada do mesmo dia, diz-se convencida de que ele “regressará”, consolando-o, se as suas expectativas de ficar se gorarem:

“…’dar o salto’ com tanta coisa cá entre mãos e difícil de realizar. …Sei que te é insuportável viver aqui…Não posso portanto, naõ tenho coragem para poder ser razão, mesmo pequenina, para que não procures por todos os meios sair daqui. Peço-te só que penses com calma e não acredites excessivamente nas pessoas: uma coisa é a afabilidade para quem está de visita, outra para quem está em permanência …”

As muitas incertezas sobre se Sena ficará ou regressará do Brasil que serão constantes nas cartas seguintes de Mécia, manifestam-se também nesta carta:

“Os pequenos andam um pouco pressentindo no ar qualquer alteração. Falam em ir ter contigo, fazem projectos vários e desencontrados. De resto, toda a gente pergunta, toda a gente opina, toda a gente aconselha, toda a gente…e ninguém dentro dos nossos reais problemas”

Em carta de 4/9/59, comenta uma entrevista de Pedro Támen, na rádio, pergunta pelas suas aulas na Faculdade de Filosofia, pelas suas andanças no Brasil (Ouro Preto, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro…) se aí ficará ou não e/ou se virá buscá-los. E em duas cartas do dia seguinte, depois de receber duas cartas do marido, de S. Paulo que lhe falam da sua decisão de ficar no Brasil e estar já a tratar da sua ida e dos filhos, projecta soluções e preparativos para a mudança da família. Recomenda-lhe que escreva a pessoas com quem tém compromissos de trabalho e promete enviar-lhe a tradução de Brecht pelo amigo França e pedir a Ilse Losa para que lhe envie também o que tiver já feito de tradução.

Três dias depois, a 8/9, conta-lhe a sua ida a Sociedade de Escritores onde se encontrou com a família de Jaime Cortesão (historiador exilado no Brasil), e vários autores portugueses: Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio, Cardoso Pires, Paulo Quintela, Piteira Santos, Manuel Nascimento. Recomenda-lhe que troque o seu visto por um permanente, no que terá ajuda de amigos, para “evitar mexidas de emigração” aconselhando-o a preferir S. Paulo “onde o clima é muito melhor e a vida, com todos os seus defeitos, muito mais bem organizada”.

Em carta de 9/9/959, Mécia de Sena alvitra a hipótese de, em caso de complicações, Jorge de Sena pedir asilo político na Embaixada, e numa outra carta do mesmo dia, interroga (-se):

“ Mas como vais ter tempo de fazeres tudo com um emprego em full-time? E quando te fica tempo para vivermos e produzires num ritmo finalmente que nunca aqui te foi possível? …mas o mais que estou é assustada com a nossa separação e a ver a minha ida cada vez mais difícil, à medida que penso que terás de arranjar aí casa onde caibamos e de a encher com aquele mínimo indispensável….quem vai pagar a nossa passagem?”

Em carta curta de 11/9, adverte para o pedido de licença ilimitada do marido e inquieta-se sobre se lhe pagarão o ordenado. Seguem-se duas folhas com apontamentos para ele lhos explicar e uma relação de livros com nomes de amigos para a respectiva entrega. Pergunta-lhe o que fazer com obras que aguardam a sua crítica e se deve anular assinaturas de revistas. Noutra carta do mesmo dia faz contas do que espera receber das editoras e diz da satisfação de se lhe reunir, com os filhos:

“Custa-me imenso a deixar isto, mas estou tão contente, meu amor, por te sentir liberto, confiante e contente. Agora só penso em ir o mais depressa possível.”

Entre 12 e 19 de Setembro, sucedem-se as cartas, diárias ou duas por dia, as quais traçam um impressivo e realista painel de uma miríade de assuntos e problemas de suas vidas: os preparativos da partida ao encontro de Sena no Brasil, tudo minuciosamente exposto e organizado por acordo entre ambos, os empréstimos espontâneos de dinheiro pelos amigos, as “cunhas” de uns e de outros para resolver mil e uma burocracias, as influências para obter os vistos de saída, os custos das viagens e os preços dos camarotes, a ida da empregada que conforme prática da época apenas pagaria 2/3 do custo normal da viagem, em 2ª classe, a súbita impossibilidade da sua ida por a fiscalização concluir não ter ela meios e em só autorizarem a saída de “prostitutas ricas” para o norte de Africa e Brasil, a compra das passagens e pagamentos a fazer por Sena a partir do Brasil, já que em cruzados são mais baratos os custos, o envio de trabalhos de Sena para correcção, por avião, através de mensageiros pessoais, como por exemplo “pelo Ferreira de Castro te mandarei mais Teixeira de Pascoaes e Pessoa”, a entrega na JAE da carta de pedido de licença ilimitada e pormenores envolvidos, perguntas sobre o que dele deverá levar, requerimentos a fazer para adicionar os sete filhos ao passaporte de Mécia e para manter a casa em sua posse, referência actualizada aos inúmeros trabalhos de edição e tradução pendentes em várias editoras e aos constantes contactos de escritores, intelectuais, editores, amigos e pessoas de suas relações, como José Saramago ou Mário Chicó, necessidade da declaração de Sena a autorizar a deslocação da mulher e filhos para o estrangeiro (Brasil), relação de amizades e familiares que Ferreira de Castro e outras pessoas das suas relações têm em Assis e São Paulo, documentação que se exige às crianças, nas escolas brasileiras, muita e variada correspondência recebida por exemplo de António Pedro e Maria Lamas, pesarosa e cheia de humanidade, por eles serem mais uns que se vão, etc., etc.

“ Quando irei? Quando assentarás arraiais em Assis? Estou desejosa que me digas que estás instalado…”

Mantém interrogações como esta, em carta de 14/9 que, aliás, noutras se repetirão:

“Parece-me que estás a fazer ondas desnecessárias, Jorge. Hoje recebi carta do Casais para me convencer a ir. Serei eu que estou maluquinha? Mas alguma vez será preciso convencer-me a ir para onde estiveres? …está na tua mão e não na minha que eu vá e eu não ficarei aqui nem uma hora mais que seja mal tenha ordem de seguir.
Relê as minhas cartas, vê o que tens a fazer, faz as coisas com calma e sobretudo escreve-me que estar sem notícias tuas é a pior das torturas…”

Em carta de 26/9/59, avizinha-se já mais seguro e próximo o reencontro, assim amorosa e apaixonadamente antevisto:

“se tudo correr bem espero estar aí daqui a um mês. Assim pensando já os dias começam a descontar e o tempo parece menor. Depois na minha tristeza começo a temer que te deixe de interessar, que meus beijos deixem de satisfazer-te. Que dura prova é a separação quando duas pessoas se amam como nós, meu querido. Quando passarei as minhas mãos pelo teu corpo fresco e macio? Nunca deixarei de te olhar e sentir junto de mim. Desejo ardentemente ser tua, que me possuas com aquela segurança e aquela total ausência de egoísmo em que és perfeito como não concebi nunca que se pudesse ser. “

Numa carta de 29/9/ 959 em que foi anotada e sublinhada a expressão “Vita Nuova”, numa alusão a Dante Alighieri, dá-lhe conta de uma série de telefonemas de amigos entre os quais se conta Sophia de Mello Breyner que se mostram desolados com a saída deles.

E sublinhado também segue o pedido para que ele “pergunte aí a qualquer senhora (a mulher do Lemos por exemplo…) se valerá a pena levar roupas de fazenda e de lã dos miúdos e dela, pois se tal não for necessário, a bagagem ficará bem mais reduzida”.

A 1 de Outubro, ansiosa “nunca mais saio daqui”, diz-se ainda às voltas com a papelada necessária, com a necessidade de arranjar dinheiro e admoesta-o “ porque não me escreves todos os dias ao menos um postal?” ou “vê se assentas, pelas alminhas”.

A carta do dia seguinte inicia-se assim:

“Fui hoje à Panair, tratar de tudo das nossas passagens. Põem-nos em S. Paulo por 50.000$00 com cerca de 200 kg de bagagem. A mulher do Fafe ofereceu-me o dinheiro e entre ela e Setas me arranjam. Vou, portanto logo que tenhas mandado a declaração para a Clara [a empregada] e os papéis estejam prontos. Se aí conseguires rehaver a tua passagem tanto melhor…”

A 3/10 diz estar pronta para partir a 12 de Outubro e que afinal os livros e papéis que ele lhe pediu pesam mais de 70 kgs, só para eles, duas malas. E prossegue:

“ quando eu digo a alguém a uma semana de partida que não tenho di. onde afogar-me as pessoas ficam varadas e o caso não é para menos.
Daqui em diante vou escrever-te apenas nos dias em que tiver carta tua que é para saberes como é agradável estar dias sem saber nada, sequer se as pessoas estão vivas!
É-me insuportável viver como tenho vivido e tu não te apercebeste ainda disso…
A mais do que isto é o amor imenso que tenho por ti e a minha inconsolação de estar longe de ti.
Beijos muitos da tua Mécia
4/10/59
Não veio correio.”

Em carta de 6/10 é logo anotada a “inconcebível” falta de correio dele e, a 7/10, há finalmente a notícia de chegada de carta sua, datada porém de 30/9, depois do que dá conta da iniciativa tomada para angariar novas traduções, de expediente que tratou em seu nome e da entrega e recepção ou retorno de livros no seu vasto círculo de amigos.

“Quantas saudades tenho de ti, meu amor. Estou contigo daqui a 11 dias? Deus queira…”

A 8/10 acusa recepção de telegrama quando tudo já tinha tratado na Panair e a de um telegrama expresso enviado 6 dias antes. A 9/10, Mécia diz ter reunido em sua casa um grupo de amigos em que se contava a Maria Lamas que conversaram até às 2h da madrugada sendo ele o assunto principal. Continua a mantê-lo a par dos trabalhos com as Editoras, como a Portugália, com quem vai tratando assuntos pendentes e novos, prosseguem os comentários ao “surrealismo” dos correios, e diz que finalmente sabe o que ele vai fazer em Assis, coisa que todos lhe perguntavam e ela não sabia explicar.

A 12/ 10, numa carta que será, segundo Mécia, a última antes de partir para o Brasil, temos notícia de “trapalhadas” quanto a marcações das viagens provocadas por desencontros de correio e ainda do aumento do peso das bagagens e dos livros até 100 kgs que o Padre Manuel Antunes e outros amigos a foram ajudar a separar, bem como de almoços e jantares de despedida com a escritora Sophia de Mello Breyner, a actriz Eunice Munoz e outras amizades que permanecerão pela vida fora.

 

Testemunho pessoal sobre viver nos Estados Unidos da América

Encontra-se no livro América, América — o mais recente das Obras Completas de Jorge de Sena editadas pela Guimarães — este depoimento até então inédito, datado de julho de 1968, no qual lemos não só o “testemunho pessoal” que o título anuncia, mas ainda uma ampla análise do american way of life e das peculiaridades que lhe são correlatas.

 

Há quase três anos que vivo na América do Norte, aonde cheguei, menos de visita que para ficar, em Outubro de 1965. Durante esse período, tenho residido sempre em Madison, capital do Estado de Wisconsin, e viajado extensamente por outras regiões, em geral correspondendo a convites para conferências em universidades ou para participar em congressos mais ou menos universitários. Porque detesto viajar de avião, estas viagens têm-me permitido conhecer melhor os Estados Unidos do que muitos americanos os conhecem. De aeroporto em aeroporto, que é como de hoje em dia a classe afluente deste mundo viaja, só se conhecem aeroportos, as estradas que os ligam às grandes cidades, os hotéis todos iguais como os aeroportos e aquelas estradas, e a mesma gente que percorre tudo isso ou nisso pousa. Mas de camioneta (que é na América um transporte tão confortável como um avião) uma pessoa, em 24 horas de viagem contínua, tem oportunidade de ver muita gente entrar em muitas cidades de importância menor e de conhecer a paisagem com uma intimidade que não pode ter quem faça o mesmo percurso ao volante do seu automóvel. Muito americano faz percursos enormes de automóvel e geralmente é de automóvel que o americano médio se muda de um lugar para outro. Mas, na América, as distâncias são apenas uma incomodidade que o condutor de carro procura anular a 100 km à hora, com o fito de chegar, mais a família, a bagagem diminuta, o cão e o gato (se os não deixou, aos animais, abandonados na rua), ao ponto de destino o mais depressa possível. Quer isto dizer que, apesar de radicado num lugar da América, tenho visto muita América, desde Chicago a New York, de Madison ao Novo México ou ao Texas ou à costa leste (a velha América de Massachusetts ou da Pennsylvania). Não conheço o Sul propriamente dito, nem a costa do Pacífico, nem os Estados das Montanhas Rochosas ou dos desertos, ainda. A América do Norte é, com o México, um continente imenso, e não é possível seja a quem for a pretensão de tê-la percorrido extensivamente, mesmo numa vida inteira. Há, porém, dois correctivos, um geográfico e outro de ordem social, que permitem corrigir essa magnitude que, por certo, assusta as mentalidades europeias. De um ponto de vista de conhecê-la, a América do Norte não é tão grande quanto se julga, porque a sua variedade, que é muita, não é maior que a da pequena Europa. Nesta, uma pessoa, se se distrai num passeio a pé, muda de paisagem física e humana. Na América, uma mesma pessoa pode percorrer centenas de quilómetros sem que a paisagem mude. É o correctivo geográfico da magnitude que coloca a América em termos, que são os seus, de escala em relação à Europa, mas não de concentrada diversidade. E, nestas extensões imensas, em que a densidade populacional é diminuta (uns 20 habitantes por quilómetro quadrado contra os 100 que Portugal terá), a civilização americana impôs uma uniformização de costumes, de aspecto urbanístico, etc, que pode levar o turista distraído a supor que, após milhares de quilómetros, está, por piada, no mesmo lugar… É o correctivo social da magnitude da América, embora ela tenha áreas nitidamente distintas umas das outras.

A minha reacção a tais grandezas não foi tipicamente portuguesa, nem mesmo genericamente europeia. Não podia sê-lo, depois de seis anos de vida num Brasil igualmente imenso que também percorri extensamente, desde o Ceará ao Rio Grande do Sul, e que, como a América do Norte, oferece essa esmagadora sensação de mundo ainda desocupado que o europeu não poderá deixar de ter nas Américas como no interior da Africa (a primeira sensação de uma extensão continental tive-a eu há trinta anos, quando fui de comboio do Lobito a Nova Lisboa, em Angola). No entanto, as planuras da Rússia ou da China, velhos países ou velhas áreas de civilização, darão por certo a mesma sensação que as Américas ou a Africa.

Por outro lado, tendo eu, durante muitos anos, lido literatura americana e estudos sobre a América, a vida norte-americana e o passado que até certo ponto a explica não eram para mim um mundo obscuro e ignoto. E eram-no menos ainda, pelo facto de essa actividade não ter sido senão uma extensão da cultura inglesa, cujo conhecimento sempre me ocupou. A Inglaterra não serve de explicação para a América do Norte, do mesmo modo que Portugal não serve de explicação para o Brasil. Mas, sem um ou outro de ambos os países europeus, é impossível compreender realmente as criações que ambos levaram a cabo nas Américas (diga-se de passagem que uma falta de conhecimento de Portugal explica muitas das perplexidades que os brasileiros sentem ante a sua própria consciência nacional, e que essa circunstância se repete, ainda que a menor escala, em paralelo, nos Estados Unidos da América do Norte, em relação à Inglaterra). Porque, em verdade, ainda quando a América do Norte se empenhasse em diferenciar-se da Inglaterra (e essa fase já passou, se é que alguma vez ocupou os norte-americanos com o mesmo carácter de obsessão que, paralelamente, ainda conserva no Brasil quanto a Portugal), não menos há que conhecer-se bem aquilo contra que se é… sob pena de acabarmos sendo contra nós mesmos.

Todavia, se o conhecimento prévio de um país ajuda muitíssimo a compreendê-lo, nem por isso facilita a habituação a viver-se nele. Porque a cultura de um país é muito mais feita de pequenas peculiaridades, constrangimentos, hábitos de vida e de reacção pessoal, que das grandes linhas que a constituem e a definem. É-o, pelo menos, para quem não está a viver turisticamente nele. Nesse plano do convívio quotidiano, muito pouco adianta a gente saber a história e a cultura de um país, às vezes muito mais extensa e profundamente do que a sabem aqueles com quem lidamos: eles estão no seu «meio», e nós não. E essas peculiaridades são precisamente aquilo que transparece na literatura ou nos estudos culturais, por mais específicos que sejam, porque são o que, de tão comum e tão instintivo quotidianamente, não é sentido, nem tornado em consideração como peculiar, quer pelos escritores, quer pelos estudiosos. Em contrapartida, os viajantes apressados — e a América, como todos os países, tem sofrido dessa casta de gente que, numa viagem de quinze dias, viu tudo e até escreve um livro — correm sempre o risco de misturar o profundo e o superficial, e de atribuir excessiva importância ao que na realidade a não terá tão grande.

Sob estes aspectos, eu e a minha família somos imigrantes portugueses na América, embora com seis anos prévios de abra-sileiramento. Todavia, com diferenças substanciais em relação ao imigrante português, tal como largamente o vi no Brasil, ou sei que ele é aqui, nas regiões onde se concentra (Massachusetts e Califórnia). O imigrante português chegou da Madeira, dos Açores, de Trás-os-Montes, não sabendo de Portugal mais que os horizontes da sua aldeia. As Américas (e o Brasil deixou de ser esse Eldorado) oferecem-lhe possibilidades de enriquecimento, de ascensão social, etc, que ele nunca sonhou que existissem. A tal ponto náo sonhou, que uma das características do imigrante português, com raras excepções, é a sua falta de altas ambições, a sua satisfação com uma mediania que lhe parece já uma ascensão infinita. E, se não faz esforço para compreender o mundo que o rodeia e integrar-se plenamente nele, não menos está em condições de aceitar passivamente como maravilhoso esse mesmo mundo. Esta não pode evidentemente ser a situação de quem imigra por cima, como é o meu caso pessoal. Eu não vim ser na América aquilo que não era, ou ter oportunidades que nunca tinha tido — e estou em condi¬ções de sentir agudamente as falácias do sistema americano de vida, que os americanos estão, eles mesmos, a sentir também.

Para um intelectual, a vida na América (seja ele quem for, menos americano) é extremamente difícil. Com efeito, a vida americana não está concebida e preparada para a vida intelectual, para aquela independência das pequenezas quotidianas sem a qual as ocupações espirituais não gozam da ociosidade indispensável ao seu florescimento. O intelectual europeu, quer sonhe com um capitalismo evoluído como o norte-americano, quer com uma socialização plena da sociedade pelo mito soviético, nem sonha, realmente nem sonha, o que arrisca… Não há como viver aqui, para descobrir-se essa terrível verdade. A menos que uma pessoa seja riquíssima (e ninguém, senão raros, o é na América a esse ponto), não há quem nos faça nada. E a tradição rural, campónia, de círculo familiar isolado, que é a da América, está na base dessa tragédia do grande nivelamento social da riqueza, pelo trabalho, ao alcance de todos… Temos de fazer nós mesmos tudo, ou desistir. O americano tem a obsessão da verdura a seu lado. Para mim, criatura urbana da Europa, a relva é uma instituição municipal que tanto me faz que exista como não exista. Se eu, depois de dar aulas, aturar alunos, participar de reuniões administrativas na universidade, ainda volto para casa para estafar-me a cortar a relva à volta da minha casa, que tempo e que forças me restam para ler e para escrever? Nenhumas. Mas isto é precisamente o mais natural para o americano. Se há um jantar, uma reunião, à tarde ou à noite, o europeu deseja naturalmente conversar dos seus interesses, trocar ideias, etc. Será raro o americano, mesmo de cultura, que se entregue a esse jogo com ele. As pessoas não se reúnem para continuar o esforço intelectual que profissionalmente fizeram durante o dia, mas, para de pé com o copo na mão, ou à volta de uma mesa de jantar, conversarem de nada, aliviarem-se do esforço que fizeram. Seria o mesmo que um engenheiro, em Lisboa, incomodar os seus hóspedes com os problemas técnicos dos seus projectos, ou um advogado com as subtilezas das causas que estudou nessa tarde… A diferença entre a profissão e a cultura não é sensível à maioria dos americanos que, contudo, são às vezes muito mais séria e largamente cultos que muito europeu com pretensões de cultura (basta pensar no número e riqueza dos museus cheios de gente ou na intensidade da vida musical nos Estados Unidos, para se poder reconhecer que esta é uma verdade mais funda do que a Europa julga ou o americano ostenta).

Vejamos agora o problema num nível mais íntimo: o das relações humanas, independentemente da solidão intelectual que é pavorosa para a nossa mentalidade, ou da angústia da falta de tempo, quando teoricamente se têm todos os meios para trabalhar intelectualmente (sim… mas é preciso limpar a neve, é preciso ir às compras, é preciso consertar a fechadura, etc, etc). O americano deve ser um dos povos do mundo mais curiosos de estrangeiro: vive num perpétuo fascínio com o exótico, e, para ele, tudo o que não é americano, é estranhamente exótico. Mas deve ser, também, um dos povos do mundo mais impaciente e menos tolerante das dificuldades do exótico em adaptar-se a ele. O sonho do americano médio é que o mundo todo, mantendo algum folclore mesmo fingido, se torne totalmente uniforme, com os mesmos restaurantes e as mesmas estações de serviço, desde a Cochinchina à Patagónia. Os países de imigração têm a obsessão de que as pessoas se integrem neles. Nisso, os americanos levarão a palma a toda a gente: e talvez que em nenhum país o filho de imigrante queira ser tão completamente americano como aqui, pela pressão impiedosa que lhe foi aplicada nos próprios bancos da escola. Na Europa, e em especial em Portugal, o estrangeiro é recebido com condescendência e solicitude. A América faz um grande esforço nesse sentido: mas um esforço inane e até certo ponto hipócrita, porque não está habituada a lidar com o estrangeiro em nível de turismo ou de relações internacionais. Só recentemente, pelos vastos planos que têm trazido à América massas de estudantes e de visitantes estrangeiros, o americano começou a aceitar que a presença de um estrangeiro na América não é necessariamente um quisto a reduzir ou a confinar num gueto. Com todo o seu nacionalismo, o Brasil nunca me perguntou quando eu me naturalizava brasileiro: na América, sabendo-me residente fixado, é raro o dia em que me não perguntam isso… Lembremo-nos de que um dos maiores crimes cometidos por Charlie Chaplin foi o de nunca se ter naturalizado cidadão norte-americano, do mesmo modo que a campanha contra o prestígio de Elizabeth Taylor, como a grande actriz que se tem revelado ser, vem principalmente de se haver naturalizado inglesa… Contaram-me, e não sei se é verdade, que, quando um sujeito aqui se naturaliza, é convidado, à saída, a deitar a sua documentação anterior num cesto de papéis, «porque recebeu uma nacionalidade melhor»… Nada disto acontece, por exemplo, no Brasil, onde a renúncia é formal e legal, mas não implica uma renúncia de consciência e de sentimento.

Mas voltemos às relações humanas. O americano é afável, familiar, com uma grande preocupação de aparente intimidade no trato. Ai de nós, se confundimos isso, mesmo ao fim de anos, com amizade no sentido europeu. O americano não é amigo de ninguém, nem de si mesmo. E é-lhe extremamente impossível compreender que as relações sociais se processem fora do nível dos interesses quotidianos, a menos que para uma orgia tão ébria que ele se não recorde no dia seguinte de haver contactado pessoas que, para ele, profissionalmente, não tinham interesse nenhum. As inibições da educação americana não consentem que uma pessoa abra a sua intimidade a ninguém, nem a si mesmo: de resto, a intimidade profunda arrisca-se a ser uma zona pecaminosa, comprometedora, em que uma pessoa se descubra, com horror, diferente daquela bem banhada e desodorizada que se exige que ela seja. Daí a reacção dos hippies porcos e de barbas, ou o refúgio nas drogas que são uma maneira de uma pessoa libertar a intimidade sem ter a consciência responsável do que sonhou… Daí a medonha solidão humana do convívio, para pessoas apaixonadamente conviventes como eu. Não que eu não seja uma pessoa «pré-americana» sob esse aspecto. Só uma vez na vida me deixei apaixonar eroticamente de verdade, e sempre tive horror de misturar todo o sentimentalismo com o sexo. Mas, no plano da amizade, é diferente. E o americano transporta para esse plano o mesmo receio (neste caso erradamente erótico) de deixar-se comprometer por alguém: ninguém fica mais dolorosamente perplexo que um americano quando descobre que estima uma pessoa, para lá das amabilidades quotidianas ou profissionais. É como que um assalto nosso à sua liberdade que é afinal o triste direito de ser angustiadamente solitário (mesmo no íntimo círculo familiar). E a gentileza do nosso trato amigo é para ele uma fonte de enleio sem limites, ao mesmo tempo que o comove profundamente (mas raro com reciprocidade).

Por natureza de outsider, que sempre tive a consciência de ser em toda a parte e em qualquer meio, ninguém mais do que eu gosta de praticar as artes do convívio fraterno: creio mesmo que a fonte 7 de muitas das minhas aversões está em mo terem recusado aqueles a quem o não neguei. Por isso, a minha vida na América é uma curiosa contradição. Constantemente recebo a lisonjeira referência a que sou uma pessoa de extraordinária adaptabilidade: pareço um americano, como compreendo bem como as coisas e as pessoas funcionam… E sabe Deus quanto quotidianamente sofro de solidão, de fome de convívio, de amizade, etc. Creio mesmo que até as pedras da minha vesícula são o preço psico-somático que eu pago em sorrisos e em compreensão…

Gosto de viver na América? É difícil a resposta, porque eu não gosto de viver em parte nenhuma. Cada vez mais a humanidade me parece monstruosa e bestial, e a vida uma monumental chatice com poucas compensações. Vejo os meus filhos serem sugados por uma gigantesca máquina de desumanização, que não hesitará um momento em esmagá-los, se eles, na sua ingénua adaptação, não cumprirem exactamente alguma das regras do jogo. Creio que estou a passar por aquela fase (que é a dos escritores que ultrapassam a maturidade e ainda não atingiram a velhice), em que o mundo é uma absurda e incongruente ridicularia nojenta, até que resignadamente o aceitemos como tal, numa tranquila preparação para a morte. Eu ainda não escrevi a minha Floresta de Enganos ou a minha Tempest. E não posso realmente culpar nenhuma América inteiramente disso… As pessoas diriam: que ingrato esse sujeito, que mais quer ele… E eu diria, com Manuel Bandeira, que quero a Estrela da Manhã. E quem iria entender-me ou perdoar-me?
Logo, na América, há muita coisa que eu amo: sou incapaz de não amar a humanidade que desprezo, e sou também incapaz de não aceitar até certo ponto quem me permita existir. No fim de contas, a minha situação na vida é esta: a de colaborar lealmente, mas não aceitar definitivamente coisa alguma, senão até ao ponto em que eu seja aceito também. E, todavia, se a América me faz sentir tremendamente europeu, será que alguma vez serei capaz de voltar a viver na Europa?

Madison — Wisconsin — USA — Julho de 1968

Dos primeiros tempos nos USA, em carta a Sophia

Da correspondência editada de Jorge de Sena, é na carta de 21 de maio de 1966, dirigida à amiga Sophia de Mello Breyner Andresen, que encontramos uma primeira avaliação da experiência americana da família Sena, iniciada poucos meses antes. Abaixo, transcrevemos esse trecho.

 

 

Nós estamos bem, e a adaptação necessariamente complexa, até pela dificuldade da língua para a maior parte de uma larga família que a não conhecia, processou-se e continua a processar-se, melhor do que poderia esperar-se de tanta gente, num meio inteiramente novo. A nossa vida não tem ainda o desafogo que poderia ter, com o nível de salário catedrático, que tenho, porque os encargos portugueses e brasileiros, juntamente com as despesas de instalação, ainda pesam bastante. Mas tenho esperança de que tudo melhore em breve. O meu trabalho pessoal, porque a universidade me ocupa e dispersa mais tempo do que ocupava no Brasil, é que tem ficado um pouco para trás: ainda não acertei devidamente o meu tempo (mas isto em parte se deve também ao atraso de meses nos trabalhos, que eu trazia dos últimos meses do Brasil, quando vivi correndo para o Rio e São Paulo, tratando das papeladas e mais dificuldades de conseguir vir para aqui). A universidade já me ofereceu a permanência, não sei se a partir do próximo ano lectivo, se do seguinte (visto que a situação de «visiting professor» pode prolongar-se normalmente por dois anos), que eu aceitarei. Em caso algum isto me prende para o futuro – mas dá-me maior segurança enquanto aqui estiver. E por quanto tempo aqui estarei? Ao Brasil, que amo, não pretendo voltar, porque é-me impossível sustentar lá uma família como a minha. A Portugal só quando for possível, e nunca para que pareça que pretendo pescar uma cátedra que ninguém me dará. No entanto, não creio que a América me prenda – com todo o heróico e devotado liberalismo autêntico que há por aqui muito mais do que oficialmente se faz saber, é outro mundo, ainda que um mundo, no meio em que vivemos, tão refinado como o europeu ou mesmo mais. E a nossa sensação será sempre a dos gregos que eram convidados a ensinar em Roma. Além de que ou isto aqui leva uma grande e clamorosa volta, ou teremos uma espécie de ditadura militar do «big-business», que tornará a vida impossível. Brincando, brincando, já começo a pensar em qual será o meu próximo país. Sonho com a Itália ou a Grécia – mas não dão emprego… Quem sabe se o Japão me dará. Pelo menos entretanto, os meus filhos aprendem o inglês que lhes facilitará a vida em qualquer parte.
 

Carta a um jovem poeta

 

Datada de 29 de agosto de 1966, esta 'carta' foi enviada ao poeta Walmir Ayala (1933-1991), para uma antologia temática que permanece inédita (Cartas aos jovens poetas brasileiros).

O texto foi publicado pela primeira vez no JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias, de Lisboa, a 10 de novembro de 1981, p. 5

A Correspondência entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena (3. ed, Lisboa, Guerra & Paz, 2010) nos traz alguns dados sobre o texto, a seguir transcritos.

De Lisboa, a 27 de junho de 1966, escreve Sophia: "Do Brasil vim com a incumbência de reunir colaboração portuguesa para o volume organizado pelo Walmir Ayala. O Walmir Ayala vai incluir "uma carta a um jovem poeta" que a Cecília Meireles deixou inédita. Encarecidamente lhe peço para este volume a "sua carta a um jovem poeta". Creio que é a primeira vez que no Brasil se publica um livro escrito simultaneamente por portugueses e brasileiros. A ideia parece-me óptima." (p.99)

Do Wisconsin, a 30 de agosto de 1966, responde Sena: "Só agora me foi possível compor a carta que me é solicitada pelo seu convite e do Walmir Ayala. Aqui lha mando — é uma coisa muito amarga e muito rude, mas por certo temperará o conjunto. Espero que lhe agrade como sincera coisa minha" (p.102)

 

 

 


Meu caro jovem poeta

Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim — embora isso não seja dito — que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.

De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.

Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso — mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos — não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, lhes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.

Quanto aos seus poemas, meu caro poeta, como V. é um poeta inexistente, cujos poemas são imaginários, e como eu não acredito na Poesia, com maiúscula, preexistente aos poemas em que ela exista, que lhe direi? Eu não faço ideia alguma da espécie de poeta que o meu amigo é. Cultiva as imagens e as metáforas, no seu anseio juvenil de seguir uma das modas, e de parecer que diz coisas extremamente profundas, sem na verdade dizer nada? Ou prefere as palavras despedaçadas, uma letra para cada canto, ou os graciosos joguinhos do pata, peta, pita, pota, etc? Isso também se usa muito, e granjeia grande prestígio. Acaso faz ou não faz sonetos, pelo melhor modelo (que é o que funda a tradição parnasiana, um pouco erótica, para a masturbação em família, com os ornamentos do mais safado mas sempre brilhante gongorismo)? Ou está preocupado com os destinos do mundo ou os da pátria, e confunde-os com aquela inacabável tradição que manda os poetas imitar os Nerudas & C.a? Ou a sua poesia é extremamente vaga e diáfana, confortavelmente distante de qualquer afirmação excessiva, neste duvidoso mundo? Ou, pelo contrário, é amplamente discursiva, transbordante de riqueza (termo este muito usado pelos críticos em petição de matéria substantiva)? Como vê, meu amigo, não posso mais que aventar hipóteses, segundo as linhagens mais ilustres do momento. Oh, mas esquecia-me de outra: acaso será herdeiro do surrealismo, com alguma tintura de beatniks e de psiquedélicos da Califórnia e arredores, e compraz-se em insultar o mundo, insinuando perversões horríveis, e despejando sobre ele os palavrões sagrados, por extenso? Não? Não?! Então, meu caro amigo, das duas uma: ou a sua poesia é um regresso aos velhos padrões arcádico-românticos, e sem dúvida terá êxito ainda nos salões de uma profunda província, ou, na verdade, o senhor é um poeta. E, sendo poeta, é-o de tal modo, que a sua poesia não pode ser reconhecida, nem o senhor tem o direito de esperar que ela o seja. Daqui a vinte ou trinta anos, quando estiver alquebrado, exausto, esgotado, descrente da poesia a que sacrificou a sua vida e a de quantos tiveram a desgraça de depender de si, talvez então comecem a reconhecer que o senhor existe. Claro que muito a contragosto, muito de má vontade, com muita reticência… Eles, meu caro, serão sempre os génios; o senhor será também um génio, um génio imenso, um génio enorme, mas um génio mas, um génio adversativo. E pode ter a certeza de que assim ficará nas histórias literárias: sempre com um mas tanto maior, quanto pior seja o génio que não possam negar-lhe.

A poesia, querido amigo, não é o que pensa, não. Ela não lhe pode trazer, se verdadeira for, essa satisfação que transparece da sua tão trémula confiança em si mesmo. Isso, se me permite que lhe diga, é uma ilusão da sua juventude. A poesia não é essa alegria de fazer alguma coisa que nem todos os outros fazem, e que eles aliás desprezam. Não é também esse prazer enganoso de que possui com palavras o amor que lhe escapa, as coisas que não consegue, as ideias que perpassam na sua cabeça, antes ou depois da solidão. A poesia, caríssimo, é a solidão mesma: não a que vivemos, não a que sofremos, não a que possamos imaginar, mas a solidão em si, vivendo-se à sua custa. Já pensou no que isso é? Por ela, o senhor será egoísta, sendo altruísta; será mesquinho, sendo nobre; trairá tudo, para ser fiel a si mesmo. Por ela, o senhor ficará completamente só. E, quando, de horror, penetrar lá onde supõe que o "si mesmo" está para lhe fazer companhia, verificará, em pânico, a que ponto ele não existe, ou já não existe, ou nunca existiu senão como uma miragem, ou existiu, sim, mas também ele o senhor vendeu à poesia, a isso que não tem qualquer realidade senão como abstracção do que o senhor pensa e escreve, e que, por sua vez, é já uma abstracção do que o senhor viveu ou não. Medite um pouco no significado terrível deste ou não, e nunca mais escreva versos ou prosa poética, ou lá que é que escreve para se julgar poeta.

Se for um poeta de verdade, meu caro, o melhor é com efeito não escrevê-los, e deixar de o ser. Porque a única alternativa é pavorosa: ou prostituta, dando à cauda, entre as madamas; ou monstro solitário, rangendo os dentes na treva, ainda quando só tenha visões de anjos tocando flauta, numa apoteose (ou epifania, que é mais elegante, e era o que o Joyce dizia). Guarde os versos, rasgue os versos, esmague os versos, arrase com eles. É isso o que pretende: ranger os dentes, mesmo postiços, pelo resto da vida? Se é, meu caro amigo, então não mande os seus versos a ninguém, não peça opiniões que ninguém pode dar-lhe, não espere conselhos de uma experiência que é pessoal e intransmissível, não solicite uma atenção que não haverá quem lha conceda. A menos que, para fim de festa, pretenda tirar, para seu uso, a contraprova de que a humanidade como humanidade, os povos como povos, as nações como nações, as classes como classes, os grupos como grupos são sempre colecções mais ou menos numerosas de infames bestas. Ou a contraprova de que, individualmente, ninguém vale para além do orgasmo, ou do olhar de simpatia, ou do gesto de ternura. Ainda quando sejam poetas, meu caro, ainda quando o sejam.

Não lhe estou dizendo que não publique os versos, uma vez que tenha ânimo e força para aguentar-se no equilíbrio instável entre a condição de prostituta e a condição de monstro. Na verdade, se a tentação que sente é irresistível de escrevê-los, se não procura a fama ou o proveito, se a dor de escrevê-los só se cura com a dor maior de escrever outros, se se sente vazio e triste quando eles estão escritos, e sofre de sentir-se vazio quando vai escrevê-los, e não sabe nunca o que vai escrever, e acha horrível tudo o que escreveu mas não é capaz de destruí-lo, então publique-os, publique-os sempre. E mande-os a toda a gente. Toda. Mas não peça opiniões ou conselhos a ninguém. Deixe que eles todos fiquem amarrados, para sempre, à culpa de o não terem lido, de o não terem sentido, de o não terem admirado. Dê-lhes, se a glória tiver de ser sua, o castigo da sua glória, implacavelmente. No fim das contas, lá onde nas trevas os dentes lhe rangem furiosamente, que isto lhe sirva de alguma consolação: todos eles passarão, como os ratos passam. Mas alguma coisa não passará, por mais que na morte, no silêncio, na paz dos túmulos ou das histórias literárias, se desfaçam em tranquila cinza: essa culpa que, dentro de alguns anos, será tudo o que se recordará deles todos tão poetas, tão aplaudidos, tão queridos das damas e/ou dos efebos, e tão estudados, tão bibliografados, tão comemorados, tão tudo o que lhe terão recusado entre dois abraços e dois sorrisos. Outros ratos virão — mas a culpa fica. Bem sei, meu caro, que não adianta muito, sobretudo se a gente não acredita na imortalidade, ou mesmo que acredite. Consola porém alguma coisa. E dá coragem à gente até ao poema seguinte. É quanto basta. Ou tem de bastar, porque não há mais nada.

Sempre seu (que o manda para o Inferno que é nossa província)

Jorge de Sena
 

Carta a Murilo Mendes


Datada de maio de 1963, a carta agora editada (graças à constante colaboração de Mécia de Sena) apresenta-nos uma excelente síntese do "tempo brasileiro" até então vivenciado por Jorge de Sena, com destaque para a intensa produção que enumera ao amigo Murilo Mendes, em Roma. Às vésperas da primeira edição de Metamorfoses, note-se particularmente o parágrafo dedicado ao livro, que, como se sabe, tem título paralelo a um do poeta mineiro As Metamorfoses, de 1944.

 

Araraquara, São Paulo, Brasil, 10 de maio de 1963

Querido Murilo Mendes


Recebi ontem a sua carta de 2, com o recorte do jornal sobre a sua palestra que, como sempre sucede com as suas notícias e a sua amizade, me trouxe grande alegria. Nem sei como possa agradecer-lhe o que me diz e o bem que isso me fez numa altura de abatimento e desânimo, a que inclusivamente se acrescem preocupações acerca da minha estabilidade como professor universitário» Estou extremamente cansado de tanto trabalho, carregado e necessitado de mais trabalho sempre, e a repetida agonia do que vivo e vejo começa a ser demais para as minhas forças. E, no que se refere a minha atividade como professor aqui, corro o perigo de ser envolvido no expurgo que a reação organiza, encabeçada pelo Ademar, o Reale, e o secretário da Educação (um inominável padre Baleeiro que você, aí em Roma, poderia prejudicar um pouco, visto que ele se diz fundador de uma ordem, os Oblatos de Cristo Sacerdote, que se destina a distribuir auxílio financeiro – de onde? – aos párocos, e que não se sabe se é cobertura dos notórios maus costumes do sujeito). É evidente que nunca fiz política brasileira, e que, como adiante lhe direi, nem estou fazendo da portuguesa; e que nunca usei a minha cátedra para mais que ensinar o que sei. Mas as faculdades de interior são visadas por este neofascismo, e em especial a minha – tutti comunisti, a velha história. Não deixa de ser ironia que me eliminem do ensino, com essa sub-reptícia acusação, precisamente quando, em política portuguesa , eu, o Casais, o Paulo de Castro, o Fernando Lemos (a esquerda independente) cortámos de todo com os comunistas, e abandonámos o Portugal Democrático, por estarmos fartos de lidar com estalinistas bestas e incorrigíveis no seu oportunismo e na safadeza desleal do comportamento. É facílimo ao governador pôr-me na rua: basta recusar a minha recontratação, ou cortar-me o tempo integral (pelo qual ganho o dobro do que ganharia sem ele), sem o qual é impossível ficar trabalhando no interior. E, nas capitais, as cátedras estão todas ocupadas pelos que, em todas as circunstâncias, me têm impedido que eu regularize com um doutoramento, ou uma livre-docência a situação precária de ser ilustre só com um currículo. De modo que, no momento em que estou desenvolvendo um gigantesco trabalho de pesquisa, terei de suspender tudo, para voltar à engenharia ou sei lá quê, visto que tenho de ganhar pão dos meus nove filhos, e não poderei fazê-lo aqui, ganhando uma miséria (sem tempo integral) de setenta e tal contos, isto na hipótese improvável de só ir para a rua pela metade. Mas a intenção é mais ampla, do governo estadual: a liquidação das faculdades de filosofia, e a entrega delas a padres que o IMD e o Lacerda não considerem comunistas como o Papa é e possam salvar a civilização cristã do Ademar. Tudo isto é de um nojo que brada aos céus, e não sei se você aí, pelos jornais quase todos reacionários, poderá dar-se bem conta da luta de morte que se desenha aqui, porque eles gritam, mas não falam das pressões e infâmias. Poderá você achar que eu estou doido: mas a desvergonha pública destas direitas quase dá saudades do Salazar.

Não sei quantos artigos meus do Estadão você já leu; ao todo, serão sete, dos quais deve sair amanhã o quinto. Aquilo é, como depreendeu do início deles, o resumo, da minha tese de livre docência para Belo-Horizonte, de que fui excluído três dias depois de inscrito, por falta dos documentos que não me haviam pedido, e haviam assumido o compromisso de receber logo que eu voltasse a São Paulo… A razão dos artigos foi o "roubo" de um exemplar por um fulano que me escreveu anunciando que ia fazer um concurso com os meus métodos de pesquisa, que coincidiam com os que ele também tinha… Veja só. A obra deve ser publicada até ao fim deste ano pela Companhia Editora Nacional, graças à ação de uma das grandes consolações que o Brasil me tem dado e é a amizade de um homem tão, admirável como o António Cândido. A Gulbenkian, em Lisboa, ignorou a obra…; e compreende-se, uma vez que, implicitamente, é a demonstração da desonestidade de todos os Cidades e Pimpões que têm tido o Camões por conta.

Pergunta-me você quando darei uma edição crítica do Camões: É precisamente o que estou fazendo a todo o vapor, com um subsídio do INEP para os microfilmes, e outro da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, para as deslocações ao Rio de Janeiro. Também nisto o Ademar me ameaça, visto que a ganância dele parece que cobiça as verbas desta meritória instituição. A edição vai ser revolucionária, sem deixar de ser acessível: restituirá os textos, livres de emendas abusivas que todos fazem ou admitem; apresentará os apócrifos que merecem ser conhecidos (e sobre os quais o meu método lança alguma luz); arrumará os textos segundo as edições sucessivas em que foram aparecendo, e não por classificações arbitrárias, etc, etc. Será só da obra lírica, com exclusão da epopeia, do teatro e das cartas. Ulteriormente, farei os autos e as cartas. E espero poder fazer Os Lusíadas também. Viu você, no no. 21-22 da Revista do Livro, o meu estudo (a primeira parte) da estrutura deles? A segunda parte está entregue – mas sabe Deus quando sairá novo número da Revista. O Mayer vai para Espanha (que diabo de gosto, nesta altura…), e quem lhe sucederá ? Na segunda parte, apresento as equações, muito simples, que regulam entre si as extensões dos dez cantos, e em relação com certos números mágicos, como seria de esperar que acontecesse com poema tão ambicioso!

Quanto ao Petrarca, muito me alegra ter confirmado a sua opinião (quando foi que saiu a entrevista de 1959, em que você me fala? – depois de eu ter partido para cá, em agosto, pois que não me lembro dela?). A independência do nosso poeta é total – o que não ocorre a quem não leu nunca o Petrarca. E ele é maior que o Petrarca — o que não ocorre a quem nunca o leu a ele. Em ambos os casos estão os eruditos de Camões, com a agravante de não serem poetas, a não terem cultura geral, e não perceberem nada de poesia.

Mas eu já sei de antemão que, sobre a minha edição, cairá um silêncio de ferro: único refúgio das incompetências que, em Portugal e no Brasil, se ocupam catedraticamente de literatura portuguesa. O mesmo sucederá com os meus Estudos de História e de Cultura, que começaram a ser publicados em Lisboa, na revista Ocidente, e tratam sucessivamente da família europeia de Afonso Henriques(com uma multidão de gente dos séculos X a XIII), de Filipa de Lancastre à luz da sua criminosa família inglesa), dos painéis ditos de Nuno Gonçalves que concluirão com um magno estudo sobre a formação do mito de Inês de Castro, desde a morte dela até Camões, como análise histórico-sociológica, e com a análise estrutural de todas as grandes obras que formaram o mito. Precisamente a inclusão deste magno estudo é o que mais me ocupa agora.

Dará, no fim, tudo isto um volume de 300 páginas. Acrescente você a estes trabalhos a conclusão da edição (texto inglês e tradução em verso, com prefácio e notas e variantes) dos Poemas Ingleses do Fernando Pessoa, a preparação da publicação do monumental inédito de Pessoa, o Livro do Desassossego (a prosa do “Bernardo Soares”) e diversos outros e sortidos estudos pendentes, e veja o que está ameaçado pela indústria ocidental do anticomunismo… Começo a crer que a Itália ainda é o único país do mundo onde se pode viver. Será mesmo?

Deve você estar prestes a receber, na lentidão do correio marítimo, a minha História geral da Literatura Inglesa, imenso e compacto catatau de 500 páginas, sonho de 25 anos, que finalmente pude redigir e acata de sair em São Paulo. Vai desde as origens até 1960. E – além de não haver nenhuma outra em português – a primeira escrita de um ponto de vista histórico-sociológico, e com compreensão correlativamente estática dos autores e das obras. Será que apareceria possibilidade de uma edição italiana dela (em que eu alteraria as referências de literatura comparada, acentuando mais as aproximações italianas)?

Espero que até ao fim do ano saia em Portugal, embora não na edição que eu desejava e falhou, o meu próximo livro de poemas: Metamorfoses. São 21 poemas muito longos, sobre obras de arte ou coisas parecidas, e creio que será, por eles e no conjunto, o meu livro mais importante. A ideia primitiva era um álbum de arte, com as reproduções a cores, quando fosse o caso. Sairá sem cores editado pela Morais. Entre dois poemas de grande violência pagã (e seguidos de quatro sonetos experimentais que não sei se você terá visto na revista dos concretistas paulistanos), estarão: Gazela da Ibéria (uma esculturinha pré-histórica), Demeter de Cnido, Cabecinha romana (que está no Museu do Faro, em Portugal), Artemidoro (uma tampa de caixão do Egito cristão-copta), Mesquita de Córdova, Nave de Alcobaça, Pietá de Avignon, Cáfalo e Prócris (do Cosimo), Retrato de um desconhecido (das Janelas Verdes, em Lisboa, dos chamados primitivos pelo especialista de vias-urinárias, Reinaldo dos Santos), Camões dirige-se aos seus contemporâneos (a cabeça do Bruno Giorgi), Eleonora di Toledo, Granduchessa di Toscana (do Bronzino, na Wallace Collection, de Londres), A Morta (de Rembrandt, no Museu Real de Bruxelas), O Balouço de Fragonard, Turner, A Cadeira Amarela de Van Gogh, Ofélia (meditação shakespeariana, sobre um quadro que possuo do surrealista português Fernando Azevedo), Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya (que você terá visto no Estadão, há anos), A Máscara do Poeta (a lifemask do Keats, que vi em Londres),A Morte, o Espaço e a Eternidade (longa meditação que não sei se você terá lido, naquela Távola Redonda que em Lisboa, a grande e querida Sophia agora dirige. É mais de um milhar de versos, meditando sobre tudo e mais alguma coisa, mas sobretudo sobre a morte mesmo. Espero que esse livro corresponda às palavras generosas e amigas que você, na sua carta, dedica à minha poesia, e que eu bem desejaria que fossem verdade, não por mim, mas por tudo o que essa poesia tem, por dignidade de missão, ambicionado ser. Porque pode ter interesse italiano (em breve sairá em São Paulo um meu ensaio sobre Maquiavel…), junto lhe mando o poema da Eleonora de Toledo, em que procuro retratar o “maneirismo” como época histórica, sem me afastar da figura da mulher de Cosme de Médicis, como a viu o Bronzino.

O que eu poderia fazer, meu querido Murilo, com algum sossego, alguma segurança, algum reconhecimento público… Mas será que faria mesmo? Que não nasci para me indignar com tudo, e incomodar toda a gente? Já tenho idade para saber; mas ainda não sei…

A Mécia e eu mandamos para Saudade e para você as mais saudosas e amigas lembranças.

A Bordo da Sagres: o cadete Jorge de Sena e a viagem do Navio-Escola

Um diário da viagem, feito das cartas enviadas aos pais

Bastante atípica, não faltaram peripécias na viagem do navio-escola Sagres que se estendeu de outubro de 1937 a março de 1938, na qual se encontrava o cadete Jorge de Sena. As cartas enviadas a seus pais na altura (lidas por seus superiores antes da postagem?), a par do registro factual, mostram o cuidado do jovem de 18 anos em prevenir a família sobre o pior que poderia acontecer — e infelizmente aconteceu. Complementando o conteúdo dessas cartas, escritas na viagem que mudou o rumo da vida de Jorge de Sena, Mécia nos traz algumas achegas, ouvidas de seu marido.

 

 

 

 

“Sagres”, 10 de Outubro de 1937
S. Vicente de Cabo Verde, 11 de Outubro de 1937

Minha querida Mãe

Escrevo-lhe hoje porque amanhã de manhã chegamos a S. Vicente de Cabo Verde depois de 10 dias de viagem que dá muito trabalho mas passa depressa. Vamos fazer um cruzeiro enorme – o maior que a “Sagres” até hoje fez – Cabo Verde, Brasil, ilha de S.ta Helena, Angola, S. Tomé, Dakar, Madeira (tudo pouco mais ou menos) e entretanto em Lisboa vão andando daqui para ali ou percorrendo o corredor para trás e para diante. Espero que a Mamã e o Papá tenham passado bem de saúde e de paz assim como todos na casa desde a Cassilda ao canário passando pelo papagaio e as baratas; a propósito de baratas – cá a bordo começam a aparecer em grande número mas de tipo muito simpático: castanhas e pequenas.

A Avozinha e o Padrinho e a mais família têm passado bem como espero? O Padrinho sempre faz a operação que estava marcada para este mês? Estou convencido que nada acontecerá. Parece que vamos estar até 2 ou 3 de Novembro no dito arquipélago de que me têm dito coisas medonhas: uma terra seca e escalvada onde nem a fruta se deve comer. Agora que estou a escrever tenho a impressão que embarquei ontem, quando não parece-me que foi há muito e por vezes esquece-me a extensão do tempo. O que lhe digo é que a bordo de um navio não se tem a noção exacta da distância a que se está da terra donde se partiu – parece que está próximo e ninguém nos pode tirar a sensação dessa pouca distância nem mesmo ver num mapa ou num contador as milhas andadas; quem pode pensar numa casca de noz, que em relação ao horizonte parece estar sempre no mesmo sítio, ter já andado cerca de 1500 milhas? Temos andado umas vezes à vela outras a motor. O calor a bordo é grande mas quando os motores vão a funcionar, os nossos alojamentos são destilações perfeitas. Não se pode imaginar a temperatura espantosa que existe dentro do navio. É de encharcar toda a roupa. Bem entendido agora – isto é para o Papá também – que se não me engano nesta altura já está a ruminar a minha “má educação” por não ter dedicado o frontispício da carta à sua pessoa. Feitas estas considerações gerais passo a falar de mim e da minha vida aqui. Tenho bastante maçada. O horário é o que vou dizer: levantar às 6; tomar café e lavar até às 7; às 7 vamos fazer a baldeação com escovas, vassouras e baldes – isto até às 8 (a baldeação puxa um bocado mas tem graça e sabe bem porque é cedinho); às 8 toma-se banho e vestimo-nos para a 1a. instrução, às 8 h 45 m e que acaba às 10; toca então a mudar de fato para embandeirar em arco com o fato de passeio para o almoço às 10 h 30 m; às 12 h instruções até às 3 h menos ¼ para lancharmos às três; depois temos outro tempo de instrução até às 5; descansamos até ao jantar (6 horas e meia) e depois deitamo-nos cerca das 9 horas – tudo isto acompanhado sempre da mudança de fatiota respectiva. Este horário foi só até hoje – amanhã entra outro mais apertado em que o levantar é às 5 h 30 m. Em todo caso gosto disto; é uma vida muito interessante e segundo me disse outro dia um oficial: “o pior tempo é o de cadete e esta viagem”. Mas tudo passa rapidamente. Sinto-me bem graças a Deus e até me dizem que estou mais gordo, no que não creio. Não sei se sabe o digníssimo Ministro da Marinha veio despedir-se de nós, ofereceu-nos a Vida de Nun’Álvares de Oliveira Martins e tirou connosco um retrato que deve ter vindo nos jornais. Procurem obtê-lo porque sempre tem interesse.

A propósito de jornal: cá a bordo quase todos os dias afixam um noticiário que se obtém pela telegrafia – talvez conseguíssemos ouvir telefonia se a tivéssemos em termos – mas os oficiais é que a possuem e na nossa câmara há só um alto-falante ligado à sala deles e que por tal sinal funciona negativamente. Quando saiu do navio o tenente Paiva foi falar ao automóvel. Que tal o achou a Mamã? Vou agora dizer para o Papá saber as instruções que temos tido: infantaria, nomenclatura de armas portáteis, prumo e barca, embarcações miúdas, marinharia, nomenclatura do navio e agora que vamos chegar a Cabo Verde começarão as instruções de remo e vela. Além destas ainda há sinais e deveres militares. A natação não começa por causa dalgum tubarão distraído do caminho e segundo parece o delegado da Escola Naval – o tenente Norberto que é o nosso principal instrutor, tem intenção de ensinar em Cabo Verde a jogar o ténis a quem não sabe. Agora vou falar um pouco dos acontecimentos mais notáveis da navegação. No dia 4 passaram por nós duas tartarugas – nunca tinha visto coisa assim como sabe e achei muita graça em vê-las a nadar muito descansadamente. Ia eu a entrar pelo diário dentro e esquecia-me de descrever a partida propriamente dita. Quando saímos da doca como viu tirei algumas fotografias e como aqui a bordo não se pode revelar desconfio muito da minha perícia nessas e nos três rolos de películas que já gastei até à data. Os rapazes estavam na ponta da ponte giratória quando a “Sagres” passou. Fomos rebocados até ao meio do rio e daí andamos a motor até S. José da Ribamar onde fundeámos. Devem a Mamã e o Papá saber tudo isto pelos jornais que com certeza falaram disto. Chegámos a S. José às 15 h e partimos no dia seguinte às 15 h depois do Ministro ter partido. Passámos diante das diversas praias conhecidas, diante de Sto. Amaro e saímos a barra. Estava, não sei se também em Lisboa, um vento fortíssimo e à saída tivemos um bocado de balanço; descemos do convés, viemos lanchar e eis senão quando o navio dá um balanço tão grande que toda a louça se vira na mesa, a chávena que eu tinha segura na mão entorna o chá por cima de mim e um de nós vai de escantilhão até à extremidade do alojamento e volta de rastos pelo chão para debaixo da mesa – e isto em baixo; em cima um oficial caiu no convés e andou de rebolão juntamente com outras pessoas e coisas. Foi um assombro que rasgou a vela grande, partiu frascos de tinta, remédios, etc. O balanço grande manteve-se e tornou a manter-se até perdermos de vista o cabo Espichel e de noite continuou; depois foi diminuindo progressivamente até que no dia 5 o mar já estava calmo e agora quase chão. No balanço grande o navio deu a sua inclinação máxima – 46o – e nunca balançou tanto na opinião de velhos marinheiros a bordo. Eu não enjoei – não é próprio de mim, de ascendência tão aquática o enjoar – mas no dia 2 vomitei três vezes sem mais nem menos: uma ao ver vomitar outro, a segunda logo a seguir e a terceira depois do jantar, ao deitar: vi o alojamento cheio de gente deitada, um balanço que fazia andar os baldes dos enjoados e botas e tudo num fandango desenfreado que não podia deixar de ser. O mar indispôs toda a gente, o que não podia deixar de ser dada a altura dos vagalhões. Eu nem tive medo, embora tivesse calculado que o mar não devia ser sempre assim. De então para cá temos tido as nossas instruções e baldeações. Tem passado por nós vários barcos uns ao longe, outros perto e destes uns delicados e outros malcriados – quer dizer que uns cumprimentam e outros fazem como um possivelmente inglês mas que se calhar era socapa que passou chegado a nós sem se ver viva alma a bordo.

Passámos no dia 6 à vista da ilha de Palma das Canárias e por nós têm passado bandos e bandos de peixes voadores que têm uma graça enorme.

Estou a escrever-lhe a umas linhas para cá de S. Vicente de Cabo Verde onde chegámos depois de termos passado o canal entre esta ilha e Sto. Antão. Nunca vi na minha vida coisa tão escalvada como estas aprazíveis ilhas. Nem se faz ideia. Ontem topamos com um bando de baleotes que o navio cercou para o Comandante dar uns tirinhos. E é tudo. As noites têm sido lindíssimas como nunca se vêem em terra assim como o pôr do Sol e eu gosto desta vida de ar livre que levamos aqui. Escrevi agora uma das maiores cartas da minha curta vida e nela vai além destas rápidas impressões, porque o tempo urge, um mar enorme de saudades em troca daquelas que eu sei vegetam aí em casa.
Peço que dêem notícias minhas a todas as pessoas porque hoje não devo escrever a mais ninguém e não o fazendo esta carta chega primeiro.
Saudades a todos e um grande abraço do vosso filho muito amigo que nunca os esquece e vos pede a benção querida,

Jorge

 


S. Vicente de Cabo Verde, 1 de Novembro de 1937

Minha querida Mãe

Esta carta de hoje é resposta a uma resposta. Fiquei muito satisfeito por ver que o Papá e a Mamã tinham gostado da carta que receberam. Estiveram então a ver a “Sagres” ao longe e gostaram das linhas, hein? Quando receberem esta carta já sabem por telegrama que vou amanhã para Santos. O Comandante chegou ontem num navio da “Blue Itao Line” que à tarde fomos ver. Fomos buscar o Comandante com um cerimonial medonho: canoa para ele, gasolina onde iam os oficiais, 2 baleeiras connosco e 2 escaleres com guarnição. Tive de entrar logo no navio para apresentar cumprimentos ao Comandante em nome dos cadetes. À volta os barcos formaram cortejo e cá na “Sagres” houve “Portos de Honra” ao comandante oferecidos pelos sargentos e por nós. Tanto num como noutro tive de fazer discurso. Imaginem! Temos ido a uma hipótese de carreira de tiro que existe em terra e classifiquei-me regularmente. Para quem nunca tinha apanhado coice de maior não é nada mau. Agora que já fiz um relatório é muito difícil dizer alguma coisa de novo em todo o caso… Temos tido instrução de vela; 2 lições e uma passeata duma tarde inteira na baía. Num dos 1.os dias vi a bandeirola dum tubarão e no passeio vi nitidamente passar alguns metros abaixo do barco um peixe-martelo.

Dêem notícias minhas às mais variadas pessoas: Sr. Mota, Sr. Faria, aí no r/c., etc. porque eu não posso escrever a toda a gente.

Recebi outra carta da Avozinha e outra do Padrinho a que vou responder agora.

Saudades, beijos e um grande abraço do vosso filho muito amigo que vos pede a bênção;

Jorge

 


Santos, 25 de Nov. de 1937

Meus queridos Pais

Cheguei a Santos no dia 22 mas hoje há, como vêem, correio rápido e aproveitei para mandar mais notícias do que as míseras e mesquinhas dum telegrama. A viagem decorreu menos mal e passámos pertíssimo do Rio que achei uma cidade fantástica e onde não nos deixam ir nem de avião. Contudo os oficias vão lá. Cá, meus queridos Pais, ao contrário do que eu pensava, existe uma extraordinária disciplina de funil.

Santos é uma cidade pouco bonita, onde tivemos uma desconsolada recepção ao contrário do que podem por aí vir a saber. Devo ir a S. Paulo um dia destes e segundo me dizem esta cidade é boa.

Demoramo-nos cá até ao dia 1 de Dezembro. Espero que aí em casa tenham passado bem de saúde e em boa paz. A Mamã dê notícias minhas à Avozinha e mais família e pessoas conhecidas. À Avozinha escreverei no próximo avião. Neste não pude.

Tive aqui no dia da chegada 24 h de serviço de guarda – uma maçada que me fez andar no virote (o 1o. dia é o das visitas oficiais) e que me fez dormir vestido e mal a noite toda. Não recebi notícias ainda, facto que estranhei muito. Na passagem do Equador tomei banho por ordem do Rei dos Mares. Uma patetice a que se acha piada à falta de melhor.

Procurarei no próximo avião escrever ao Padrinho. Espero que o Padrinho tenha passado melhor e que a Família toda esteja bem.

Muitas saudades e beijos do vosso filho muito amigo que os abraça e lhes pede a bênção,

Jorge

P. S. Parto no dia 1 para Angola.

 


Dakar, 12 de Fevereiro de 1938

Minha querida Mãe

Escrevo-lhe de Dakar onde o navio veio em lugar de voltar a Cabo Verde.

Vamos daqui directos para Lisboa e poucos dias faltam para nos tornarmos a ver. Depois de Luanda onde visitei a Sra. D. Castorina, o navio arribou a S. Tomé onde estivemos poucas horas e donde não escrevi. Mesmo que de lá tivesse escrito esta carta chega primeiro, e mais, chega primeiro que eu.

Tenho andado bem de saúde e espero continuar do mesmo modo até Lisboa. O fim que motiva a rapidez que desejo imprimir a esta carta é bem outro e passo a expô-lo. Agora no fim da viagem reúne cá a bordo o conselho de oficiais para de nós informar a escola. Isto fez-se sempre e dentro de certos limites nunca prejudicou ninguém. Mas agora há aqui o tenente Norberto que veio connosco. Tem a mania que é muito recto, etc., e é uma pessoa terrível. Não pode a Mamã imaginar certas coisas que ele faz. É totalmente diverso de todas as informações que possa haver dele. Diz ele que eu sou incontestavelmente superior a todos os outros em inteligência, não possuo contudo espírito militar; quer baseado nisto alterar a classificação do curso e até já disse que proporia ao conselho a minha exclusão para eu concorrer outra vez e poder assim fazer mais uma viagem de 5 meses.

Ora estes factos não vêm no Regulamento. Ele quer propô-los ao Ministro à chegada de Lisboa. Não é de modo algum justo o que ele quer fazer. Faço isto de comunicar para aí isto para que, sem alarmes e sem dizer nada a ninguém, se acautelem e preparem o terreno para estes golpes lhe falharem. Quer aplicar aqui – numa viagem em que nada sabemos do ofício – o critério dos tirocínios dos guarda-marinhas. Dar uma nota na prova de mar e tirar a média sem a nota que temos de média das cadeiras da Faculdade. A viagem é essencialmente diferente e a aplicação do critério agora em que nenhum deu provas escolares levá-lo-ia a pôr em primeiros lugares certas pessoas que ele lá entende. Que a classificação seja alterada depois de um ano de escola está certo mas já é uma injustiça. Para bem observarem conto um dos últimos feitos: deu a cada um de nós uma lista do curso para cada um ordenar os camaradas segundo o conceito que fazemos uns dos outros. É a maior infâmia e falta de camaradagem que se pode imaginar. Todos ficámos indignados mas não tivemos senão remédio de o fazer.

Ficam pois aí em Lisboa prevenidos e com tempo para agir.

Recomendo que não se aflijam e encarem a situação com calma mexendo os cordéis que forem necessários. Eu gosto desta vida. Somente com este oficial junto é que não se pode fazer nada.

Espero que estejam bem e recebam muitas saudades e um grande abraço do filho muito amigo que espera beijá-los e pessoalmente pedir-lhes a bênção dentro em pouco,

Jorge

P.S. Não se apoquentem como é vosso costume. Vejam a quem dizem e a quem mostram esta carta se é que venha a haver necessidade disso. Para verem bem como o tenente é fiquem sabendo que na Escola Naval antes de ele embarcar lhe chamavam Zuca.

Muitos beijos e abraços do
Jorge.
 

 

Sobre a viagem e a exclusão, alguns dados que, segundo Mécia de Sena, devem ser considerados:

=> Meu marido era o aluno mais jovem do curso (fez 18 anos a bordo) e era, de longe, o mais classificado. Após as provas de ingresso, meus sogros foram chamados à Escola Naval, para lhes ser dito que as provas indicavam que aquele candidato tinha a capacidade de "génio". E no mesmo nível de classificação se manteve até o fim.

=> A viagem foi uma das mais longas e mais tormentosas da Sagres, atingida que foi por um temporal que a fez dirigir-se para o Lobito onde o navio ancorou para ser devidamente reparado dos tremendos danos que sofrera, enquanto os alunos foram de comboio para Luanda, onde depois reembarcaram.

=> O Instrutor fora treinado na Alemanha, de onde regressara um ou dois anos antes.
=> Os serviços de bordo, como lavar o convés, não eram trabalhos que fizessem parte da instrução dos cadetes — foi uma das maneiras de humilhação que o Instrutor usou. Assim, por exemplo, os cadetes não tinham funções determinadas quando o navio estava fundeado, mas meu marido e outros não viram Santos no primeiro dia em que chegaram, porque o Instrutor os pôs a fazer serviço de sentinela.

=> O Instrutor aplicava-se a fazer os mais perigosos exercícios sempre que havia balanço ou temporal. Num desses exercícios, meu marido escorregou do mastro grande e salvou-se porque um marinheiro o apanhou no trajeto e com ele agarrado desceu até ao convés, onde o colocou. Os marinheiros fizeram nesse dia um "levantamento de rancho" em protesto pelo tratamento que estava sendo dado aos cadetes.

=> O outro "levantamento de rancho" ocorreu quando um marinheiro foi levado do convés para o mar por uma enorme vaga e nunca mais apareceu — o que foi tomado como descaso pela vida dos marinheiros.

=> De resto, leia-se a conversa que está transcrita no conto colocado em Cabo Verde [ "Duas medalhas imperiais com Atlântico"- ANAD], e que meu marido ouviu, e ficará claro de que gente se tratava.

=> A demissão de quatro cadetes, no final, foi caso inaudito — nunca tinha acontecido e creio não voltou a acontecer. O Instrutor… fez apenas uma viagem mais, em que, salvo erro, morreu um cadete, ao que se dizia, por deficiente tratamento.

=> Curioso será de notar que, pondo de lado o meu marido, cujo pai não o deixou ingressar na Marinha Mercante (embora ele dela fosse comandante, na altura já aposentado por invalidez — tinha perdido uma perna, em virtude de um pequeno acidente complicado com o facto de ser diabético) por entender que era "descer" de categoria, outro foi para o Exército, carreira que lhe durou toda a vida; um outro foi para a Marinha Mercante, onde foi imensamente conceituado; e um outro passou para o Exército nas mesmas funções… Como se vê… eram todos muito subversivos…

=> Tanto quanto sei, o ambiente da viagem era péssimo — infelizmente meu marido não viveu o suficiente para escrever as páginas de memórias que sempre tencionou escrever.

O Re-descobrimento do Brasil: três cartas inéditas

Recife, 7/8/1959 e Bahia, 13 e 19/08/1959

As três cartas inéditas a seguir publicadas são das primeiras que Sena escreveu numa nova "descoberta do Brasil", em 1959, logo depois de aportar no Recife e de seguir para Salvador, onde participou do Colóquio que justificava sua vinda. A par das reiteradas saudades de Mécia e da família, as observações rápidas e mescladas sobre a liberdade respirada, a paisagem, o calor tropical, o custo de vida, as desorganizações institucionais (particularmente os aflitivos correios que dificultavam sua comunicação com a destinatária) e mesmo as desconfianças quanto ao modo escorregadio de alguns nativos, permitem-nos perceber, apesar de tudo, a paulatina adesão do signatário ao novo espaço — a ponto de, em pouco tempo, pensar em permanecer…

* Recife, 7/8/959

* Bahia, 5ªfeira, 13/8/959

* Bahia, 19/8/959

 

 

Recife, 7/8/959

Minha querida Mécia, meu Amor


A saudade imensa que sinto de ti, a amargure de não estares ao meu lado, sobrelevam a sensação estranhíssima de respirar o ar livre do Brasil, que logo no avião começou. Revejo o teu vulto na porta do "embarque" no aeroporto, a dizer-me adeus, e de tantas vezes que nos temos separado e de tanto sermos um, foi esta a separação mais dolorosa. Creio que poucas vezes terei sofrido tanto, e sei também que cada vez mais somos um só, vivemos um no outro, meu Amor, não é?


Chegámos ao Recife, depois de uma excelente viagem, mas com duas horas de atraso. 0 avião cheio não permitia grande liberdade de movimentos, e apenas só de quando em vez dormitei alguma coisa. Isto me parece uma mistura heteróclita de Luanda, Braga, Setúbal, Aveiro (pelos canais à beira do rio) e pretensões novayorquinas sem arranha-céus. Não encontrei ainda o Alfredo Pereira Gomes [1]. O Alvaro Lins [2] foi para o Rio.


Os cruzeiros não valem nada. Um taxi – eu, o Urbano [3], a Maria de Lourdes [4] e o Luis Albuquerque [5], de Coimbra, viemos ver as praias celebradas – 160 cruzeiros (uma distância como da nossa casa a S.to Amaro). Comprei a camisa de nylon. Garantiram-me que aqui é tudo mais barato e melhor que na Bahia. Custou a dita 800 cruzeiros, o que me dizem ser bom. Que te parece. 160 esc. não é ? Não comprei ainda, prudentemente, as cuecas.


O inverno aqui é um calor equatorial, que aqui na praia nem do mar vindo, onde estou sentado na praia a escrever-te, uma brisa corta. Mas não ter-te aqui a meu lado é um desgosto infinito. Respirar esta sensação de distância dessa piolheira ignóbil, ouvir falar português à nossa volta – e não estares comigo, oh meu Amor, como é possível? Como estarás? Por certo amanhã terei notícias tuas trazidas pelo avião seguinte. Como estarão os pequenos? Sinto-me só, querida; eu não sei viver sem te saber perto, sem ter-te ao meu lado, sem falar contigo, sem ouvir contigo. E cada vez menos o sei. E quanto eu queria que viesses ainda! Amanhã, mexerei o céu e a terra, embora o Urbano na viagem me tenha descrito os esforços que fez. Receber-te nos meus braços no aeroporto, como te tive nos meus à despedida, será possível?


Partimos de facto amanhã às 6 horas para a Bahia. A vida no Recife é às 6 da manhã que começa: gente na rua, tudo aberto – não é cedo senão para nós. Vamos a ver como o Adolfo [6] reage à confissão geral do João Paulo [7], que aliás só pela rama e directamente lhe transmitirei.


Meu amor, queria ter-te comigo a meu lado, nesta paz que o não é por me faltares aqui. Abraço-te, minha vida, de todo o coração. Beija por mim os pequenos todos. A toda a gente transmite lembranças. E para ti, querida, meu Amor, minha vida, o meu coração inteiro num grande beijo, tudo o que valha e não valha e tu me dás a graça de amar. Teu

Jorge

 

 

Bahia, 5ªfeira, 13/8/959


Minha querida Mécia, meu Amor


Faz hoje uma semana que parti, e curiosamente (acabo de olhar para o relógio) pego da caneta para te escrever quando, com as 4 horas de diferença (são 6 da tarde), a semana se cumpre exactamente. Semana vertiginosa de despaisamento, de tropicalismo, de trabalho insano desde que à Bahia cheguei (passei a tarde inteira fechado no quarto a preparar o relato da tese do Casais, para amanhã pela manhã, que tinha de ser feito agora, pois logo à noite vou ver a Cacilda Becker na Maria Stuart). É noite. Por entre nuvens, um crepúsculo vermelho que sumiu rápido atrás da imensa ilha de Itaparica que está aqui defronte dentro desta baía sem limites de que a cidade é uma parte mínima. A minha tristeza é imensa. As únicas notícias tuas que até hoje recebi são as que a mulher do Cidade me deu. Só quando estou totalmente exausto te não tenho escrito todos os dias as cartas ou partes de cartas que terás recebido, meu amor. O Urbano levará esta, e por isso nela nada conto de especial senão o ar livre que se respira aqui e sem ti respiro, a amargura de não ter-te a meu lado nesta paz sem limites de uma noite quente e serena, em que saberia bem suarmos juntos. Isto é muito belo, de uma força tropical que se intromete nas ruas, e creio que poderíamos ser aqui, meu amor e minha Vida, incrivelmente felizes. Assim, nem sei que possa dizer-te, roído de saudades, sem ouvir nas tuas cartas a tua voz e o teu conselho que são o meu arrimo e a minha consciência, inquieta a todo o instante por uma falta de notícias, que, comunicada, não aflige ninguém, de habituados que estão à fantasia destes correios de cá, em que um telegrama a avisar de uma chegada 3 dias antes, chega depois do avião em que o sujeito vem (aconteceu ao Pedro de Andrade, ao ir daqui ao Rio, antes de eu chegar). Depois, com a ida dos Lourenços [8] para a Europa, estou a ver que a minha tortura só terá alivio no Rio, se entretanto carte tua tiver chegado às mãos do António Pedro Rodrigues [9] (aí, como o correio é directo, levará menos tempo a chegar, presumo). O Casais tem sido muito amigo, e abriu-se comigo, e creio que fui injusto na alucinação dos primeiros dias que não comunicarás a ninguém, de perigosa que é. Mas nada disto importa, senão o silêncio que me rodeia. Eu sei que estás sempre comigo, não só porque és a minha própria alma, como por teres o dom de invisível estares a meu lado sempre em toda a parte. Esse invisível, porém, me assusta. A tua presença, o teu calor, o teu afecto, o teu infinito amor de que os nossos filhos são, graças a Deus, a expressão viva, preciso de tudo isso agarrado a mim, colado a mim, na tua boca, nos teus olhos, no teu corpo que é o mais belo poço de ternura que jamais houve no mundo. Como se é injusto humanamente! Como pode ignorar-se e como só é de um e não poderia ser de mais ninguém (pois não seria assim, nem seria sequer) um tesouro maravilhoso como é a tua pessoa, meu Amor! Eu não tenho desejo senão de ti, e tudo o mais não conta, nem importa. Querida Mécia – é incrível que estejamos separados!


Até ao Rio, não desisto de resolver este problema – o da glória infinita do teu coração batendo ao pé de mim, em mim, e para mim, dos olhos às pontas dos dedos. Meu Amor, estou tão cansado da vida, tão cansado de ver-te sem paz, acabrunhada de trabalho e de aflições, num buraco sem horizontes como é a nossa vida. Mas nela brilha "uma pequenina luz", a luz do teu amor – como ninguém entendeu que não há mais luzes, que toda a minha "fidelidade" é a ti? Beijo-te com uma profunda saudade, abraço-te com uma dorida ternura, e não me distraio um só momento da tua imagem tutelar, que beijo, beijo, beijo.


Teu do coração


Jorge

 

 

Bahia, 19/8/959


Minha querida Mécia, meu Amor

Recebi ontem das mãos do Lourenço (que hoje parte com a mulher para uma viagem de regresso, via Rio, Bolívia, Paris, México, França) duas cartas tuas: a de 9, em que não receberas notícias minhas, e a de 10, em que acabavas de enfim as receberes da Bahia. Ontem, relatei [10] pela manhã numa tempestade de meninotes que me chamavam "velho", a tese sobre a "poesia concreta" que aliás não ataquei. Ao almoço, no Hotel, o M. Caetano [11] veio a mim para agradecer-me o cartão com que eu declinara, "sobrecarregado de trabalho", a recepção dele, e felicitar-me pela brilhante actuação na secção de "literatura", onde de facto pareço um boneco de sabugo, sempre em pé, a meter a colherada. Após o almoço, o Thiers [12] veio muito doce trazer-me o bilhete de avião para o Rio (no sábado). A seguir fui com a Belchior ao Banco trocar 300$00 (o Casais pagar-me-á os artigos de S.Paulo adiantados e fará contas com eles depois, o que lá esclarecerei), dei uma volta pela Cidade com ela, voltei ao Colóquio, onde precisava de ir, fui jantar de despedida (com o Barradas de Carvalho, o Agostinho da Silva, a M. de Lourdes, o Victor Ramos, o Fafe, o Luis de Albuquerque) [13] ao Lourenço e à mulher (440 cruzeiros…), perdemos com a jantarada o espectáculo do Gil Vicente, vim para o Hospital [14] escrever o relatório da tese do Eudoro até às tantas, deitei-me, e aqui estou, às 8 da manhã (hora já tardia!), a responder-te. É extraordinário como recebo uma carta tua em que lamentas a conversa de surdos que o correio nos impõe, quando vai a caminho uma carta minha em que me queixo do mesmo. Mas é tão natural, da maneira que estamos afinados, meu Amor!


Espero que tenhas escrito ao Teu Pai [15] e ao Oscar [16] , pondo tudo bem claro, sem animosidades que complicam mais as situações. Não te arrelies, querida, demasiado – lembra-te daquele provérbio cínico: "nunca digas tanto mal de alguém, que não possas um dia dizer bem."… Será grave a coisa da Helena [17] ?


Querida, não temas que, impensadamente, eu me entusiasme a ficar aqui. Só se, preto no branco, nos aparecesse uma situação definidamente mais desafogada que a que temos. A minha experiência desta gente fugidia e vaga e irresponsável já é muita… Até agora, se a gente do Ceará tem projectos mais definidos, não financeiramente é certo, e mesmo isso… Lá irei ver, se a ida se concretiza. Mas só no Rio eu saberei as voltas que dou. Espero que escrevas sempre para o António Pedro Rodrigues, como te recomendei que fizesses.
 

Ainda bem que esteve agradável a tarde na Eunice [18]. Também eu não disse ao Adolfo tudo o que o João Paulo me disse, não era possível sem ofender e quase pactuar com uma violência que não temos de partilhar.


O Alexandre Eulálio "parece" que me arranjará o apartamento no Rio, mas mal o vejo no "flirt" um tanto estranho em que anda – ao que noto – com um jovem americano. É possível que eu me engane, e de resto nada tenho com isso. O Veríssimo é que tem sido amigo; envia-me americanos, escreve-me cartas – e eu ainda não tive tempo de escrever-lhe um postal. Nem sequer preparei o palestrório carioca (que aplicarei igual nas outras partes). Vamos a ver se hoje assento com o Amora a questão da ida a S.Paulo.


Vou começar a mandar pelo correio pacotes de papelada do Colóquio, para não ter de carregar com ela. Quero diminuir ao máximo o meu peso (já aliviado de alguns livros e dos que trazia para o Casais), para não dificultar a facilidade de movimentos. De S.Paulo, volto ao Rio, depois é que não sei a ordem das andanças na viagem de regresso, que pode meter Brasília, Minas, Amazónia, Ceará, etc. Informar-te-ei sempre de tudo, meu Amor.


Que infinitas saudades tenho de ti e da tua presença junto de mim. Toda a gente, de resto, sente isso. Ainda ontem, o Lourenço me dizia que a nossa correspondência é a contraprova das Evidências[19] … Minha muito querida Mécia, meu Amor: se não fosse estupidez perder as oportunidades que, dentro dos limites razoáveis de tempo, me aparecerem de ver o Brasil, eu chegava ao Rio e metia-me no avião, para Lisboa. Preciso de ti a todo o instante, nada sei ver sem ti, sem a tua presença comigo e em mim. Dá muitas lembranças aos nossos filhos e beijos muitos e que penso sempre neles. Dá lembranças a toda a gente a que nem tempo tive de escrever um postal. E para ti, meu Amor e minha Vida, as saudades, os beijos e os abraços do teu do coração


Jorge

Notas:

1. Matemático e professor português, então radicado no Recife. Oposicionista ao regime, foi expulso da universidade em 1947. Irmão dos escritores Alice Gomes e Soeiro Pereira Gomes, nasceu em 1919 e faleceu em 2005.
2. Diplomata e escritor brasileiro. Era Embaixador em Lisboa em 1959, quando deu abrigo político a Humberto Delgado, contrariando Salazar.
3. Urbano Tavares Rodrigues (1923), escritor português também participante do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, que transcorreu, de 10 a 21 de agosto, na Universidade da Bahia em Salvador.
4. Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998) professora de Literatura Portuguesa e ensaísta, também participante do referido Colóquio na Bahia.
5. Matemático e historiador da Universidade de Coimbra, também participante do mesmo Colóquio. (Nasceu em 1917 e faleceu em 1992)
6. Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) foi poeta, professor e crítico literário. Oposicionista, exilou-se no Brasil em 1954, passando a ensinar aqui em várias universidades. Além de participante, colaborou na organização do Colóquio baiano.
7. João Paulo Monteiro, filho de Adolfo Casais Monteiro.
8. Eduardo Lourenço era então professor na Universidade da Bahia – responsável direto pelo convite para que JS participasse do IV Colóquio. Durante o ano que passou na Bahia, esteve acompanhado por sua mulher, Annie de Faria.
9. Proprietário da livraria carioca Livros de Portugal, que também patrocinou várias publicações.
10. Todas as conferências do colóquio na Bahia tinham o seu “Relator”. JS foi designado para “relatar” várias.
11. Marcelo Caetano chefiava a delegação “oficial” portuguesa do IV Colóquio, e, no período de sua realização, costumava convidar os participantes para jantar (inclusive JS e outros que não integravam sua comitiva. Nosso escritor, como se vê, declarou sua indisponibilidade.)
12. Thiers Martins Moreira, professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, convidou JS para palestras no Rio, logo após o congresso baiano.
13. Todos participantes do IV Colóquio
14. Em carta de 8/8/1959 JS advertia sua mulher: “Não te assustes com o endereço: o Hospital Português é onde veio parar uma parte do grupo de viagem, como outro foi parar ao Retiro dos Franciscanos. Aqui, que (com camas articuladas de hospital, é claro) é um hotel com apartamentos, estamos…”
15. O pai de Mécia de Sena era o folclorista Armando Leça.
16. Óscar Lopes, professor e ensaísta, irmão de Mécia.
17. Maria Helena é a esposa de Óscar Lopes.
18. Possivelmente a atriz Eunice Muñoz, de longa data amiga da família Sena.
19. Livro de poemas de JS.

 

O Descobrimento do Brasil

Da Sagres, 21/11/1937

Ainda que em forma de sucinto relatório, são marcantes as impressões de uma primeira e pessoal descoberta do Brasil, pelo olhar do atento cadete Sena

 

Na madrugada de 21 fomos acordados por ordem do oficial do quarto. Estava terra do Brasil à vista: era o cabo Frio. A costa brasileira apresentava relevos arredondados cobertos de verduras e o horizonte terrestre que além se observava era todo verde. O mar manteve-se toda a manhã com calema e como navegávamos paralelos à costa sofríamos consequentemente um forte balanço bombordo-estibordo. Chegámos finalmente em frente do Rio de Janeiro. Entrámos na baía de Guanabara. Lá ao fundo a cidade com alguns edifícios altos destacando-se na brancura – o dia não está muito claro – um arranha-céus que deve ser o edifício da Noite. Vê-se um couraçado, o "S. Paulo" ou o "Minas Gerais", fundeado no interior da baía. O cimo do Pão de Açúcar comunica com o resto da cidade por meio de um transportador aéreo. Desenrola-se agora uma avenida junto a uma praia e nessa avenida há vários prédios enormes: a praia é Copacabana. Um forte fecha o extremo da baía. Lá longe no extremo interior vê-se o edifício longo da Escola Naval. Dominando tudo está o Corcovado com o seu Cristo gigantesco aparecendo por entre as nuvens. A baía é lindíssima. Os ilhéus da entrada arredondados e verdes são bonitos também. São cerca de 4 horas da tarde. Tivemos uma visão da capital do Brasil, na opinião de muita gente, o mais belo porto do mundo; cidade que para os brasileiros representa todo o seu Brasil, e que eles adoram acima de tudo e desejam mostrar a todos os estrangeiros. O navio continua o seu caminho porque o seu porto de destino não é o Rio. Outros lá foram. Nós vamos a Santos, um dos maiores entrepostos comerciais do Brasil, porto de descarga do seu Estado mais rico e onde trabalham milhões de portugueses.

Carta inédita a José Saramago

Assis, 18/05/1961

Dirigida ao amigo José Saramago (que, na altura era “diretor literário” da Editorial Estúdios Cor, responsável pela publicação do livro de contos Andanças do Demónio, e na expectativa de vir a publicar as Metamorfoses), esta carta de Sena constitui documento precioso sob vários ângulos:
1- ao comentar os meandros de um prêmio literário, avalia em traços largos um certo contexto intelectual português;
2- ao lamentar o prêmio perdido, revela sem pudor grandes aflições financeiras – uma constante em sua vida;
3- no apreço às cartas de seu interlocutor, a certeza de amizade recíproca com Saramago;
4- a partir de sumária retrospectiva biográfica, as marcas de muitos desencantos, particularmente os relacionados às questões universitárias vividas na altura;
5- carta escrita num mês particularmente fértil, registra sua produção, detendo-se sobretudo nos contos (só nesse mês de maio, Sena já escrevera “Os Salteadores” [4/5], “Conto Brevíssimo” [6/5], “Defesa e Justificação de um Ex-Criminoso de Guerra” [7/5] e “A Grã-Canária” [16/5]);
6- texto de exílio, avalia perdas e ganhos – portugueses e brasileiros –, e questiona um hipotético regresso a Portugal.

 

Assis, 18/5/961

Meu caríssimo Saramago

A sua carta de 10, que levou cinco dias (!) a chegar cá, não me acusa ainda a recepção do original de Metamorfoses, que lhe enviei. Mas, embora não recorde ao certo a data, não há provavelmente demora ou extravio, mas apenas desencontro.

Ontem, os jornais brasileiros noticiavam a concessão do prémio CCB [1] à Fernanda Botelho, o que eu esperava, desde que, junto, no mesmo correio, com aquela sua carta, me veio um recorte do D. de Lisboa [2] (ou coisa parecida), em que havia uma longa lista indiscreta com os nomes dos mais eminentes concorredores. Quero crer que meu cunhado [3] e o Dionísio [4] terão votado em mim; e que o espírito de corpo, em mistura, da Faculdade de Letras e da velha “Távola”[5], tenha, nas pessoas do David [6] (do qual o mesmo correio me trouxe uma obrinha sobre o Teixeira Gomes, com maviosíssima dedicatória) e do Jacinto [7], votado na Botelho que, se bem me lembro, já haviam querido premiar contra o Migueis [8]. Claro que os interesses da Bertrand, a que todos mais ou menos se encontram ligados, fez o resto, já que o Simões [9] votaria no diabo, e não no demónio em andanças [10]… Agradam-me, porém, duas ou três coisas: 1o – eu não concorri, mas a editorial…; 2o havia, na lista, o Régio, e outros (que eu não considero muito, mas são “eminentes”) como o Redol, o Abelaira, o Urbano, também premiáveis; 3o – a concessão do prémio à Botelho, notoriamente neutra ou fascistoide, mas pelo menos autora de uma literatura castrada do ponto de vista ético-político, é manifestamente uma “prudência”, uma subserviência, não digo à ordem estabelecida, mas ao não incomodarem-na. Enfim, não me lamento, porque o prémio sempre eu achei que o não ganhava; e não vos culpo: porque achei legítimo concorrer e não me opuz. Do ponto de vista financeiro, os cincoenta contos, para quem devia em Lisboa, ainda, mais do que isso e em requerência de pagamento urgente, sem saber onde há-de ir buscá-lo, esses trinta (cincoenta, não é?) contos, assim passados por diante do nariz, são um rude golpe. Do ponto de vista da minha situação aqui também o são, porque eram – embora eu não acredite em prémios – um acréscimo de prestígio entre os que acreditam neles; e, para os meus inimigos, é um farto motivo de goso. Mas não cuidemos mais desta história toda, ainda que eu fique, curiosamente, à espera dos seus comentários póstumos. E, se não fosse poder parecer uma “chantagem” moral, eu pediria a VV., sobre as Metamorfoses, um adiantamento; e quem diz sobre estas diz sobre uma tradução que VV poderiam dar (do francês) para minha Mulher fazer, que eu não tenho tempo. O que são as traduções dela pode ver-se nos livros que traduziu (assinando Freitas Leça): O Crime dos Justos e Adeline Venicien, do Chamson – por exemplo (Livros do Brasil), – e também Le Grand Ecart, do Cocteau, e O Ouro, do Cendrars, cujas traduções acho, com serem difíceis, perfeitas. E Os Nossos avós Gauleses (Portugália) – cujas provas, no nosso mútuo acordo, eu li, como ela lê as daquilo que eu publico.

Gostei muitíssimo da sua carta (e obrigado pela diligência junto desse imarcessível Amaro [11]), das melhores que tenho consoladamente recebido de V. Como sempre são aquela discreta amizade, uma desencantada e sã amargura, o humor de quem sabe que o riso nem todos o merecem; e, por trás de tudo, um bom senso e um equilíbrio que lhe invejo sinceramente, quando os meus me custam (e a V. também, quem sabe) olímpicos, tanto ranger de dentes… Quanto à imodéstia, meu caro, eu sempre achei, e acho, a modéstia a menos legítima das virtudes.

Se eu for, como pretendo, e insisto, para Araraquara (apesar da “côrte” contraditória e interesseira que parece esboçar-se aqui, e foi ao ponto de o meu Director rebaixar-se a pedir-me para vir jantar a minha casa, aonde não o convidáramos mais, para conversar comigo, o que será na próxima semana), não me parece que as coisas possam repetir-se, além do normal que V. tão bem descreve. Eu sou, humanamente, a mais desencantada das pessoas (quase sempre, é certo, sem a amargura acima referida) – e não impunemente se é demitido aos 18 anos do mais alto sonho da sua vida [12], já descrente então da vida de família, para percorrer depois os submundos da miséria, e ter sido, durante anos, tropa, funcionário público, político, homem de letras, na aquisição de uma experiência que me dará contos e poemas até ao fim da vida. A cátedra e, além da cátedra, a ilusão de renovação pedagógica autêntica que era Assis, foram, suponho eu, uma última metamorfose minha, em que era natural que eu entrasse impante e acreditando. Ter um “status” universitário e uma posição preponderante nesse outro mundo – eis sonhos que eu não realizara ainda. Naturais, pois, a ilusão e a desilusão, que não poderão repetir-se já para Araraquara nenhuma. Aí, como nas mais cátedras que eu venha a aquecer ou não, terei os desgostos e as arrelias que temos em tudo, maiores ou menores. Mas, como sou incorrigível no afecto desinteressado com que me dedico a tudo (e 15 anos de funcionalismo [13] não puderam corrigir-me), é possível que eu, no fundo de ingenuidades que me salva do tanto de horrível (e também de bom) que a vida tem me dado, ainda venha a ter, mais que arrelias, dores. Neste momento, meu caro, desconfiado com o longo silêncio do Conselho Universitário do Rio [14], eu já espero, naquela divisão entre indignação reservada e resignação risonha, que é a minha, eu já espero mais uma derrota: a de encalhar, num recife burocrático qualquer, o meu processo de doutoramento. Consolo-me, já pensando que, afinal, as derrotas, como a rude franqueza com que tenho incansavelmente denunciado tantas pessoas e coisas (aqueles pavões e perus, de que V. fala), cortando-me acessos e integrações “corporativas”, pondo-me à margem, me libertam, na medida em que me livram de silêncios, de concessões tácitas, de arregimentações quaisquer. Sempre assim foi. A esse último respeito, embora às vezes sonhe com o mundo a meus pés, nunca tive ilusões impróprias: desde que me conheci (e levei algum tempo, porque tinha muito que conhecer), sempre soube que sou daqueles que os Arcanjos da Estrada (que não é metáfora do Pessoa, mas termo das iniciações) têm por obrigação deixar em pelota. E não podem os ditos cujos queixar-se de que eu não tenha, às vezes com precipitada generosidade, facilitado, e justificado até, o trabalho deles.

A minha produção de contos – o que, há tantos anos, aguardava, dentro de mim, tempo que a poesia nunca me requereu – prossegue num ritmo exaustivo. Acabei ante-ontem um, muito longo, que creio, pela amplidão, a complexidade, a violência, das coisas melhores que já escrevi [15]. Mas também nisso flutuo numa libertação total que, neste por exemplo, deixa a perder de vista, mero exercício, Os Amantes, no que se refere à descrição e análise da experiência sexual. Escrevo-os como para um mundo ideal onde fosse possível publicar tudo. Além de Os Amantes e de Um Conto Brevíssimo (uma pequena brincadeira séria que vai sair no Estado de São Paulo) tenho já mais cinco contos mais ou menos longos que dariam um volume. Tecnicamente, e o que não é possível ainda, Os Amantes e Um C.B.[16] pertencem a uma reedição das Andanças. Por isso mesmo, de Os Amantes tirei cópias “mimeografadas” para distribuição restrita às pessoas que receberam oferta do volume (claro que lhe vou mandar uma). Os outros contos, com mais dois ou três, serão um volume terrífico, em que a “pátria”, o Exército, a Armada, a Justiça, a Moral, etc. etc. ouvirão o que nunca ouviram. É possível que eu tire, para já e para amostra, cópia de um deles, que lhe mandarei também. Esse volume será, não sei se lhe disse, Os Grão-Capitães. Com ele farei o seguinte: tentarei publicá-lo aqui, o que pode talvez conseguir-se, embora me desagrade, pelo escândalo político e “moral”. Em jornais e revistas… as dimensões e os “contextos” são proibitivos. Mas, em qualquer caso, reservarei os direitos de uma edição vossa, a publicar tão logo seja possível… Para tanto, oportunamente, receberão organizado um original. Tudo isto sem prejuízo de um volume que venha – se esta fornalha de ficção se demorar acesa – a coligir-se de contos publicáveis aí.

Recebi de Nova York e do Migueis, a Escola do Paraiso e o Passageiro. Este li e achei fraco; o romance não tive ainda tempo de o ler, mas emprestei-o, por exemplo, ao Victor Ramos, que o achou uma obra-prima. Não sei se VV mandam ao Migueis as vossas edições, eu, desorientado entre as ofertas de tanta obra sucessiva, creio que lho não ofereci. Poderia V. mandar-lhe, com a dedicatória que junto envio, um exemplar das Andanças? Muito obrigado, desde já.

Quanto ao Sr. Crippa [17], manda-se o livro desta vez, e logo vemos se também eu devo, como o Miguéis, cortar-lhe a coleta.

E, para a colecção de ensaios, e ainda bem que lhe agradou a ideia, cá estou gratamente às ordens.

Esta já vai longuíssima, mas ainda quero comentar essa de eu me guardar para o regresso… Será que eu regressarei alguma vez? Sem dúvida que, aqui entre nós, o Brasil, com todas as suas vantagens, é pior que Portugal, com todos os seus defeitos. Quando e se as coisas mudarem, as saudades que tenho da minha casa e dos meus amigos (e também o patriotismo de lágrima ao canto do olho) funcionarão activamente. Mas, meu caro, dentro das premissas que V. lucidamente expôs, de as cátedras e os lugares serem para os outros (que terão sobre mim a vantagem da minha ausência), com que hei-de dar de comer aos meus filhos? Muito provavelmente, eles voltarão, e eu gostaria que voltassem… Mas V. vê-me, a mim, depois destas aventuras catedralícias, voltado a engenheiro de 3ª da Junta Autónoma das Estradas? Com, para mais, uma viagem vertiginosa a quase-ministro [18]?… E, no Portugal que se avizinha, mesmo que eu fosse um glorioso mixto de Victor Hugo e Balzac, ninguém vai poder viver das letras… – que, aliás, não viveram delas. Talvez eu acabe na China.

Dê as minhas melhores lembranças ao Canhão e ao Correia [19]. Mande-me notícias do Nataniel [20]. E receba o grande, saudoso e grato abraço do seu muito amigo

Jorge de Sena

 

Notas:

1. Prêmio Camilo Castelo Branco – foi criado pela extinta Sociedade Portuguesa de Escritores. Não confundir com o ainda hoje existente "Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco", instituído em 1991 pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão e APE-Associação Portuguesa de Escritores.
2. Jornal Diário de Lisboa
3. Óscar Lopes, membro do júri
4. Mário Dionísio, membro do júri
5. Távola Redonda, revista literária surgida em janeiro de 1950, durou até julho de 1954. David Mourão-Ferreira foi um de seus fundadores.
6. David Mourão-Ferreira, membro do júri
7. Jacinto do Prado Coelho, membro do júri
8. José Rodrigues Miguéis, vencedor do Prêmio Camilo Castelo Branco de 1959, com o livro Léah e outras histórias (Contos e Novelas), editado em 1958 pela mesma Editorial Estúdios Cor onde atuava Saramago.
9. João Gaspar Simões, membro do júri
10. Andanças do Demónio era o livro de contos de Sena que concorria ao mencionado prêmio
11. Luís Amaro, intelectual modestíssimo, amigo de Sena e de Saramago, foi co-fundador da revista de poesia Árvore (1951) e veio a ter papel decisivo no alto padrão alcançado pela revista Colóquio/Letras (Fund. Calouste Gulbenkian), onde trabalhou anos a fio.
12. Exclusão da Armada em 1938 – ver Cronologia
13. Referência a seu trabalho na JAE-Junta Autónoma das Estradas – vide Cronologia
14. Universidade do Brasil, hoje UFRJ, onde pleiteara seu Doutoramento.
15. Referência ao conto “A Grã-Canária”, de Os Grão-Capitães, datado de 16/5/61.
16.Um Conto Brevíssimo”, que na publicação em livro perdeu o artigo inicial desse título.
17. Bernardo Crippa – professor italiano que pedira “o volume de contos para criticá-lo na imprensa italiana, e anotá-lo no Dicionário da Literatura Contemporânea” (cf. carta de Sena a Saramago de 30/4/1961)
18. Sena seria o Ministro das Obras Públicas se o “Golpe da Sé” fosse vitorioso – vide Cronologia (1959)
19. Co-diretores, com Saramago, da Editorial Estúdios Cor
20. Nataniel Costa – professor, tradutor, escritor e diplomata – convidou Saramago a ocupar seu lugar de “diretor literário” na Editorial Estúdios Cor quando teve de se ausentar devido à carreira diplomática.
 

Cartas Inéditas a Eduardo Lourenço

Lisboa, 3/5/1953, 15/6/1953 e 6/7/1959

As cartas a seguir, enviadas por Jorge de Sena a Eduardo Lourenço, e só recentemente encontradas por João Nuno Alçada no acervo do ensaísta, vêm a público pela primeira vez, graças à generosidade do destinatário, que autorizou sua divulgação. Assim, das 8 cartas extraviadas (mencionadas no volume da IN-CM), apenas 5 faltam ser localizadas.

 


 

Lisboa, 3/5/953


Meu caro Eduardo Lourenço


É mais de um mês depois que à sua carta respondo. Entretanto, o José-Augusto França, com quem logo falei, lhe terá escrito a desfazer o que afinal era, felizmente, um seu lapso de interpretação. E desculpe-me que, por tanto trabalho e estadias fora em serviço, lhe não tenha, apesar disso, escrito mais cedo.

Por certo que já recebeu o caderno do Pascoaes, que o França ficara também de mandar. Agora os “sonnets” do Pessoa… esses é que só apelando eu… para mais um inglês célebre… quando voltar a casa da família – mas não me esquecerei, esteja certo.

Eu colaboro, pois, ou tenciono colaborar ou o França tenciona que eu colabore no próximo “córnio” que, diz ele, se atrasou para depois do regresso dele dos turismos italianos, por minha e sua causa.

Simplesmente a minha vida é isto: uma profissão cada vez mais absorvente por dever de ofício (que não pelos proventos, que são os que o Estado dá e nada mais), uma oposição última de todo o meu ser intelectual a essa absorção, e uma necessidade financeira premente de ir realizando aqueles trabalhos literários (traduções, ensaios sobre isto e aquilo) que eu desejaria só escrever ad libitum ou depois de morto. São estes a ilusão de que continuo a realizar-me no que me é mais caro, e ao mesmo tempo a única ilusão que “vende” alguma coisa, comparada com a outra de aumentar o património operático. Uma poesia de quando em vez, que é ao que me vejo reduzido, mas era tudo o que eu sentia e sinto em mim. Por isso, cada vez mais detesto a crítica corrente, que fujo de fazer e nem leio dos outros. Por isso, cada vez mais mergulho em mim mesmo, na atenção ao mundo que me rodeia ainda que distante e através do jornal, e nos livros que me interessam. Dos contemporâneos, é um mero acaso eu conseguir ler com gosto meia dúzia de versos, que se me eternizam em cima da mesa. De tudo isto resulta que me é difícil – e subconscientemente protelo – escrever aqueles ensaios que me peçam… e é o caso do França, ao pedir-me um ensaio sobre os vário escritores à margem de escolas neste 1o. meio século da pátria novecentista. Foi isto o que o França terá intuído e V. farejou em carta dele. A eternização, em cima da mesa, das cartas dos amigos, daqueles cujo convívio é, de raro, o que mais vale ou só vale a pena aqui e agora – isso releva de outro aspecto. Uma carta dessas em cima da mesa é uma presença, uma forma de convívio, uma conversa que todos os dias prossigo: sou um mau correspondente na medida em que os que estimo estão para mim sempre comigo; fui melhor, quando me importava mais comigo que com eles.

Ao princípio que presidiu à criação dos “Córnios” continuo e continuarei a dar a minha adesão, embora pense que um vago “surrealismo” de intenção seja, pelos falsos profetas que já abundam medíocres e aclamados, uma confusão mais a acrescentar à tão confusa e charra vida nacional. Sempre pensei, e disse-o uma vez directamente na “Seara” (e em quantos outros sítios), que falar dos Rimbauds e Lautréamonts é mais do que literatura, ou deve sê-lo. Se assim se não fizer, para apenas opor um “dégout” superior à literatice e ao burguesismo pascácio, é literatura que se faz, e da pior, visto que se principia por declarações “anti-literárias”. A propósito de tudo isto, penso escrever para o outro “córnio” seguinte um ensaio sobre o Jean Genêt, que acho um admirável escritor, muito superior às pretensiosas considerações sartrianas ou bataillescas, que se me vão tornando também o tipo do ensaísmo insuportável, de mera ficção intelectual.

Cadernos” – nem mais realizações nem mais projectos: apenas o compromisso de uma colectánea de poemas do António Pedro. Os “Cadernos” enfermam de várias coisas: o desinteresse total do Portugal, que não dá um passo para eles; de minha impossibilidade em tempo de os fazer eu; de, no espírito do França, os “Cadernos” virem naturalmente depois daquilo que é só dele; e de eu, um pouco triste com tudo isto e com tudo o mais que lhe expus, andar desiludido tanto de “Cadernos” como de toda e qualquer vida intelectual autêntica.

Se leu o meu Sacheverell Sitwell, terá lido também o meu Pascoaes violento mas creio que justo, em que pus o que há muito acerca da questão me ia na alma e cabia num artigo de jornal. Eu penso, de facto, em realizar um volume de ensaios e traduções dos ingleses, que suponho (ó presunção!) interessante e útil. Viu, na Árvore, o terrível Auden que traduzi? E diga-me, se puder, alguma coisa do prefácio que fiz – e é para mim muito importante – para a minha tradução de O fim da aventura do Graham Greene. Ao fim e ao cabo, quando eu tiver setenta anos (se lá chegar, o que espero ardentemente não suceda), o Governo de Sua Majestade Britânica deve-me uma condecoração… O raio que os parta – mas não calcula V. que imagem de terra de promissão me deixou o mês e meio de Inglaterra que auferi! Enfim, de promissão o que ainda se pode arranjar (nunca fui a Paris – mas, com a admiração que nutro por tantos franceses desde o Villon até hoje, porque detesto “l’esprit français" não me daria bem com a mediania que sempre nos envolve e que é onde se alimentam, já dizia o Thibaudet, essas virtudes de Presidente da República).

Para V. ver, a seguir transcrevo um dos meus poemas recentes – ele lhe dirá mais que esta carta que já vai comprida.

Epitáfio

De mim não buscareis, que em vão vivi
de outro mais alto que em mim próprio havia.
Se em meus lugares, porém, me procurardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.

Essas palavras que em meu nome passam
nem minhas nem de altura são verdade.
Verdade foi que de alto as desejei
e que de mim só maldições cobriam.
Debaixo delas a traição se esconde,
porque demais me conheci distante
de alturas que de perto não existem.

Fui livre, como as águas, que não sobem.
Pensei ser livre, como as pedras caem.
O nada contemplei sem êxtase nem pasmo,
que o dia a dia
em que me via
ele mesmo apenas era e nada mais.

Por isso fui amado em lágrimas e prantos
do muito amor que ao nada se dedica.
Nada que fui, de mim não fica nada.
E quanto não mereço é o que me fica.

Se em meus lugares, portanto, me buscardes
o nada que encontrardes
eu sou e minha vida.


Aqui tem. Dê notícias. Abraça-o com muita estima o seu camarada
                                      
Jorge de Sena

 


Lisboa, 15/6/953


Meu caro Eduardo Lourenço


Por não me ter sido possível ir ao passeio (que sei ter redundado em excelente êxito – e perdoa-me V. que lhe diga da simpatia e consideração por V. que ressumam dos comentários que ontem ouvi?), não chegámos a conversar, quando eu nem sequer chegara a devidamente lhe agradecer a sua bela carta.

O que me diz da tradução – eu limitei-me estrita e esforçadamente a recriar em português o estilo do Greene, mesmo por vezes com sacrifício de uma clareza imediata, cuja subtil falta respeitei sempre que a encontrei por fazer ela parte da própria estrutura do romance.

Do prefácio: há muito, e cada vez mais, eu escrevo com a noção absoluta de pregar no deserto. Sei que uns entendem e não aceitam, e que outros, que aceitariam, não entendem. Mas a única justificação de uma existência que escreve para testemunhar de todas as verdades é persistir mesmo assim, e escrever da compreensão que era possível no nosso tempo. É provável também que me canse – mas isso nada prova senão contra mim, pois que sempre poderá haver, expressa ou não, uma compreensão profunda e amplificadora como a sua. A tristeza, porém, é muita; e não sei se, ainda que (quem sabe?) alegremente, não acabaremos por nos convencer definitivamente de que só nós estamos errados… e certos todos os outros. Eu não ando, de resto, muito longe disto: simplesmente as razões acima ainda se inserem no quadro de uma – como direi? – nada fatalista visão do mundo. Nem de outro modo poderia eu explicar o ter chegado a escrever o poema que lhe mandei e faz parte de toda uma sequência (pela unidade de ocasião no tempo e de inspiração) de igual ou análogo sentido.

Mais uma vez, pois, muito obrigado. Abraça-o com muito estima o camarada amigo
                                      
 Jorge de Sena
 

P.S.- Não deixe de ler os poemas do grego Cavafy que traduzi do inglês e publiquei no “Comércio”, no passado dia 9. Não me lembro se chegámos a falar nisto.

 

 

Lisboa, 6/7/959


 Meu caro Eduardo Lourenço

Não demorei tanto a responder à sua carta de 18, quanto V. possa julgar, porque me chegou às mãos atrasada. E escrevo-lhe hoje, porque só ontem soube, confirmada indirectamente pela Maria de Lourdes Belchior e pelos jornais que publicaram a lista dos convidados, cá a notícia que V. me dava. Mas agora passa-se o seguinte. Eu não recebi nem receberei comunicação alguma, que nem a Comissão Portuguesa ma manda, nem a Alta Cultura para onde a ilustre comissão enviou a lista se digna. Ora sem um papel que ninguém me dá não posso pedir licença ao meu Ministro para sair do País. Veja V. como os “maquiaveis” de bolso funcionam bem. Não será possível, só para achatar estes gajos, V. arranjar-me aí uma cópia autenticada, com o sêlo branco da Universidade, da lista? Por seu lado, a Panair do Brasil telefonou cá para casa a dizer que eu já tinha a passagem marcada e paga (por quem? – mistério).

De modo que, precisando de tratar de milhentas licenças – ministerial, militar, passaporte, visto, etc. – estou a um mês, sem poder fazer nada. E são tantos os trabalhos em mãos que ficam suspensos e que tenho de dispor para largar isto por cerca de 20 dias (pois não hei-de ir ao Rio?) que não posso dispor a minha vida nem des-dispô-la!

A lista, como veio publicada nos jornais (com todo o ar de provir da Comissão), varia muito de jornal para jornal. O Saraiva e o Joel não figuram nela (de resto, parece que o Joel não está numa lista dos que teriam passagem), e na do Diário de Notícias, que é a que o Prado Coelho viu, figura a Natércia Freire! Tudo uma macacada, que será devidamente orientada pelos Marcelos, como se verá.

Dê as minhas melhores lembranças e saudades ao Casais – e espero firmemente poder abraçar-vos em breve.

 Um grande abraço amigo do

  Jorge de Sena

Carnaval a Bordo: a travessia do Equador

Da Sagres, 10/11/1937

Da viagem na Sagres, um registro de momentos descontraídos, graças à tradicional celebração da passagem do Equador. Compondo o clima "carnavalesco", eis aí a fantasia em torno de Netuno, a quebra de limites hierárquicos e as disputas brincalhonas do velho entrudo…

 


 

Nesta tirada muita gente da guarnição e os cadetes iriam atravessar a linha do Equador pela 1a. vez e dentro da velha brincadeira não se poderia fazer isso sem licença do Rei dos Mares. Por isso na véspera da passagem (9) entrou a bordo para transmitir as ordens de Sua Majestade um almirante que à partida foi saudado com as salvas do estilo. No dia 10 às 3 horas passou-se o Equador por 27oW (GW) dando-se então início às festas. O Rei dos Mares entrou a bordo seguido do seu séquito e tribunal; este arrumou-se junto do cadafalso composto por uma tina de lona, cheia de água, na beira da qual os acusados se sentavam para fazer a barba, cortar o cabelo e rezar. As penas impostas aos réus eram "pesadas" e pagas de maneira a permitir o bom funcionamento futuro das goelas da corte do Rei dos Mares. O tribunal compunha-se do juiz, advogado de acusação, advogado de defesa e escrivão. Foram julgados S. Ex.cia o Senhor Comandante, o Snr. Oficial Imediato ambos por terem comandado o navio sem licença; o Snr. Engenheiro e os Snrs. Guardas-marinhas por passarem pela 1a. vez a linha. Do mesmo crime foram acusados todos os cadetes e os alunos. As primeiras execuções decorreram em boa ordem mas depois teve de ser em massa para acabar rapidamente. No fim a festa degenerou numa luta geral em que cada qual procurou molhar o próximo o mais possível. 

Carta a Antonio Candido

Madison, 27/04/1968

No seu notável depoimento “Intelectuais portugueses e a cultura brasileira” *, Antonio Candido registra: “Sena escrevia cartas longas, vibrantes, de uma qualidade que as tornava vrdadeiros textos literários, abrindo-se nelas frequentemente com a veemência que o caracterizava”. Pois aqui temos uma carta de Sena, então já nos Estados Unidos, a este seu compadre, acertando os detalhes de uma conferência e de um passeio a Chicago.

Sobre a conferência, dirá adiante Antonio Candido: “[Sena] tinha ido trabalhar na Universidade de Wisconsin, onde nos encontramos em 1968. Eu estava na Universidade de Yale e ele me convidou para fazer lá um conferência, que foi sobre Machado de Assis. Ao me apresentar, manifestou publicamente uma convicção nossa, convicção que debatemos várias vezes: que Machado de Assis e Eça de Queirós eram romancistas do mesmo nível que os maiores da Europa no século XIX. Foi a última vez que o vi.”

 

27 de Abril de 1968

Meu caro Antônio Cândido

Recebi a sua boa carta de 20, e não respondi logo, porque procurei contactar o Aldrich [1] – e soube que ele entretanto lhe escrevera uma que se cruzara com a sua. E ontem chegou a que V. me escreveu a 23, e que confirmava que o convite fôra realmente remetido (a bagunça americana, que se distingue da nossa apenas pela organização, dá sempre para desconfiar).

Virá então V. no dia 9, quinta-feira, para fazer a sua palestra pública, em vernáculo da região, nesse mesmo dia, às 4 da tarde. É preferível a quinta, por que as sextas se caracterizam pela fuga de gente para o fim de semana (que pode ser passado no backyard mas é sagrado por estas bandas, como já terá visto). Para tal, convirá que V. arranje maneira de chegar aqui cedo, na quinta-feira, para ter tempo de se repousar um pouco e fazer a sua concentração espiritual e ensaiar-se ao espelho que será o do Madison Inn, muito perto do “campus”, onde tem aposentos reservados para quinta e sexta. No sábado, a Mécia e eu iremos consigo a Chicago, onde lhe mostraremos o Art Institute e as colecções da Newberry Library (cujo conservador, o Frederick Hall é muito nosso amigo e brasileiro honorário). À noite desse dia, viajaremos de volta, e ficará V. para fazer as suas visitas. E, no domingo, poderá efectuá-las e regressar calmamente ao “haven” de New Haven [2]. Concorda com este programa? Se sim, marcar-lhe-ei reserva em hotel bom e módico em Chicago (ou V. pode hospedar-se com os seus parentes? – diga).

Uma vez que V. tem afinal as notas para, digamos, duas aulas (como eu tinha entendido – e não se classifique de velho cororoca, antes de ver como eu estou…) temos assim confortável material para os meus dois cursos – o da literatura brasileira (advanced survey, em que estou esta semana que entra a concluir o Machado de Assis), e o seminário sobre o romance do Modernismo (com ênfase nos aspectos urbanos, para combater o excesso de Nordeste, que já enjoa). Este é às quartas-feiras, mas usarei a minha aula de literatura portuguesa contemporânea (curso só deste semestre), ou o seminário do António Salles [3]. Aquilo que der para conversa mais longa com os alunos, sem esforço excessivo da sua parte, é o que V. pode programar para o tempo mais comprido (diga-me qual é, para eu anunciar já). Na 5a ou na 6a terá banqueteação magna aqui em casa, como é de tradição deste consul honorário escoucinhado oficialmente, e com maioria de razão para VExcia, ilustre compadre.[4]

Tivemos esta semana aqui os irmãos Campos [5] e concretistas, que se houveram com sucesso (embora não o de escândalo vanguardista que eu desejava que abalasse o “campus” dormente) e partiram hoje para Indiana. Foi aliás a razão de lhe não ter escrito ontem mesmo sobre todos estes assuntos de decisão urgente.

Tivemos muita pena de não ver Gilda [6]. Mas folgamos com a ideia de que VV. se espanejaram devidamente em New York, cidade da minha especial predilecção (como todas as cidades grandes).

O que temos para conversar não acaba mais – e os dias daqui não vão chegar. Mas, precisamente para aproveitarmos da sua companhia o mais possível, e conversarmos à vontade, é que fazemos questão, eu e a Mécia, de passear a Chicago consigo (cidade de que gostamos muito, ao contrário da maioria dos americanos que ainda vêem gangsters, nela, em cada esquina e bêco). Isso poderá aliás ser feito no domingo – mas parece-me que, para V. ter tempo de ver o museu e a biblioteca que grave falta seria que não visse (no museu está o que falta em Paris…), e ver quem quer ver, é melhor como ficou programado acima. A ida a Chicago faz-se confortàvelmente de ónibus (duas horas e meia, a três horas, conforme os horários, e poderíamos sair de Madison às oito e meia da manhã, boa hora), pelo que não vale a pena V. comprar bilhete de avião para esse percurso. E eu, meu caro, avião só de emergência ou entre os continentes… – até ao Texas vou de ônibus, pelo que vou conhecendo este país melhor que muita gente americana que só conhece aeroportos todos iguais.

Esperamos que Ana Luísa [7] não tenha sido envolvida – pelo menos mais do que o conveniente – naquelas confusões guanabarinas [8]. Também acêrca de tudo isto quero conversar consigo. Tenho a impressão de que a juventude brasileira (apertada entre a classe dirigente ou profitente, a que a maioria pertence, e uma consciência nacional sempre traída pelos donos do poder) está reagindo em termos de revolta pela revolta, ou numa cegueira de paixão de extrema frustração – o que, para o futuro, do ponto de vista de um renascimento político em relação à derrocada das estruturas, se me afigura um situação trágica: na medida em que pode ajudar a perpetuar o conservantismo egoísta das classes médias, sempre patriòticamente cobardes (ou vice-versa). Por mim, meu caro, estou cada vez mais marxista e mais triste. E cheio de curiosidade de ver o que vai sair desta situação em que a nossa matriz norte-americana se encontra (e de que depende a das filiais da emprêsa).[9]

 

Notas:

1. Personagem não localizada, mas, possivelmente, seria o Chairman do Departamento ao qual Sena estava vinculado na Univ. de Wisconsin.
2. Campus da Univ. de Yale, onde A. C. lecionou em 1968, como Professor Visitante.
3. Antônio Salles Filho, professor brasileiro que lecionava na Univ. de Wisconsin na mesma altura de JS. Retornou ao Brasil na década de 70, vinculando-se à Univ. de Brasília, da qual se aposentou em 1988.
4. A. C. e sua esposa Gilda de Mello e Souza foram padrinhos de batismo de Maria José, filha de J.S. e Mécia, nascida em Araraquara, em 1961.
5. Augusto e Haroldo de Campos, expoentes da Poesia Concretista brasileira.
6. Esposa de A. C., Professora de Estética no Depto. de Filosofia da FFLCH da USP. Faleceu em 2005.
7. Ana Luísa Escorel, filha de A.C. e Gilda.
8. Referência à forte repressão aos movimentos estudantis contra o Regime Militar em vigor no Brasil, sobretudo em 1968 no Rio de Janeiro (antigo “Estado da Guanabara”).
9. O fim abrupto é apenas da página datilografada (a que nos foi cedida por Mécia). As palavras de despedida foram manuscritas.

Notas sobre regressos a Portugal: Cartas inéditas de Sarmento Pimentel e Jorge de Sena

por Gilda Santos e Mécia de Sena

Em fins dos anos 90, ao preparar um dossiê* sobre a presença de personalidades portuguesas no Brasil, o nome de Sarmento Pimentel logo se me impôs. Participante do fracassado movimento revolucionário do "7 de fevereiro de 1927" contra a Ditadura militar, implantada pelo golpe de maio de 1926, antecipa com seu longo exílio no Brasil uma série de incontáveis exílios que o salazarismo motivaria. Personalidade íntegra e generosa a mais não poder, tornou-se logo, nas palavras de Jorge de Sena, "um símbolo da resistência ao fascismo", uma "figura tutelar" da "atividade dos oposicionistas no Brasil, capítulo de alguma importância na longa cadeia de ações que culminou no 25 de Abril." Homem de ação e de cultura, soube congregar em torno do jornal Portugal Democrático, de que foi feito "Presidente de Honra", um extraordinário grupo de colaboradores, capaz de imprimir ao periódico tal nível de qualidade como raras vezes se terá visto em publicações assim politicamente comprometidas.

Como foi Jorge de Sena o prefaciador, por duas vezes (1963 e 1974), de seu originalíssimo livro Memórias do Capitão, e como os laços afetivos entre o casal Sena e o Capitão eram dos mais estreitos, ocorreu-me pedir a Mécia de Sena que se incumbisse de o relembrar. Assoberbada de trabalho, mas, ao mesmo tempo, desejosa de homenagear o querido amigo, da conversa entabulada vingou uma sugestão sua: escolheria algumas cartas trocadas entre ambos, inéditas, e brevemente apresentá-las-ia. Como, graças à sua inacreditável capacidade de trabalho, a correspondência entre os dois encontra-se já preparada para publicação, não foi difícil a Mécia atender com rapidez a meu pedido. Poucos dias depois, chegaram-me pelo correio algumas páginas, numa inconfundível datilografia, precedidas da seguinte nota, datada de 25 de março de 1999:

Projectava eu, com o apoio de Vasco Graça Moura, então presidindo à publicação na Imprensa Nacional/Casa da Moeda, ir publicando, lenta mas regularmente, a rede imensa de correspondência que Jorge de Sena mantivera com as mais variadas pessoas, às vezes praticamente toda a sua vida de adulto. Mas as condições alteraram-se, e o projecto não foi além de quatro "diálogos" publicados: Guilherme de Castilho, José Régio, Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço, além de uma pequena selecção da larga correspondência que comigo mantivera.

Entre as muitas pessoas a quem me dirigi, no sentido de me darem acesso às cartas, sobretudo anteriores a 1963, quando Jorge de Sena começou a dactilografar as suas cartas e a escrever com cópia, já que as cartas que se "perdiam" entre o Brasil ou Estados Unidos, e Portugal eram muitas, contactei o nosso queridíssimo "Comandante" João Sarmento Pimentel, com quem prolonguei até o fim da sua vida, não muito frequente mas imensamente amiga (quase diria carinhosa) essa correspondência. Sarmento Pimentel, não só logo me enviou cópias, como ampliando a sua generosidade à altura que sempre lhe tínhamos conhecido, me mandou todos os originais, que guardo como coisa preciosa.

São mais de duas centenas as cartas, mensagens e postais trocadas, entre os dois amigos que se estimavam e admiravam mutuamente, com um imenso respeito que não estorvava a familiaridade.

Dado o limite imposto pelas dimensões da revista onde a matéria se publicava, acordamos, Mécia e eu, na seleção das cartas que se seguem (transcritas na íntegra), que têm como elo temático o relato de regressos a Portugal dos dois amigos — em tempos e circunstâncias bem distintas. Pensamos ser interessante observar, para lá do estilo de cada autor, os comentários feitos sobre a terra natal revisitada depois de longo afastamento, depois do constante compartilhar da vivência do exílio.


São Paulo, 05 de abril de 1969

Meu Caro Dr. Jorge de Sena

A última notícia da sua passagem por Portugal li-a hoje no Comércio vindo pelo correio marítimo, mais moroso que as naus dos quintos. As outras eram reportagens das suas entrevistas, conferências, triunfos literários, êxito da operação que lhe extraiu os calhaus encrustados no fígado e que certamente haviam tido origem nas malfeitorias dum exílio sem fim e de mil dificuldades que houve de vencer para atingir aquela fama de notável professor universitário, além do árduo e absorvente trabalho cotidiano que garantiu sustento à sua numerosa e encantadora família.

Eu imagino o carinho e a alegria dos nossos amigos portugueses por poderem abraçar o grande escritor, o poeta, o humanista que universalmente se projectou com os seus livros, sua inteligência, sabedoria, portuguesismo fidalgo um pouco quixotesco, mas victorioso, exemplar, pleno daquela nobreza de carácter que dignifica o homem e o clerc.

Nessas andanças, celebradas pelas gazetas ainda mais que as "andanças do Demónio", Você deve ter perdido alguns kilos e também aquele mau humor com que via a vida de lutas, de invejas mesquinhas, feiosas ingratidões. Suponho-o feliz e contente nesse meio de infinitas possibilidades e rodeado da mocidade alegre, inquieta, cheia de esperança, que são os seus discípulos. Adivinho também o seu lar encantador, ruidoso, quando não atento às "Fantasias de Mozart, para tecla" que Você refere na página 31 da sua Arte de Música. Eu recebi em novembro de 1968 este precioso feixe de poemas que tanto me encantou como surpreendeu, pois nunca havia dado pelo seu genial entendimento nessa divina arte. Poeta, e do mais alto gabarito, está ali o Jorge de Sena de sempre, mas o mestre, o conhecedor de tantos e tão diversos e famosos compositores dá uma ideia dum ilimitado poder de conhecimentos que me trazem à lembrança Leonardo da Vinci: — "Toute la curiosité intellectuel de la Renaissance, ses rêves de gloire et de progrés indéfini, son enthousiasme pour la beauté et la science, furent reunis, avec d'autres qualités de génie, en Leonard." Livro de cabeceira agora é para mim Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular, assunto já conhecido da leitura da tese que vi e ouvi defender em 1964 e à qual faço referência no 2° volume das Memórias. Mas é agradável reler as doutas e concludentes investigações e sábios comentários do mestre camonista. Este livro devia trazer a edição diplomática da Lírica de Camões e ficava assim o mais valioso e autorizado tratado do mais notável poeta lírico da língua portuguesa. Neste exemplar, que recebi há dias vem a autografá-lo as generosas palavras da sua amizade e que logo mostrei aos meus filhos e aos netos mais crescidos que já podem compreender a valoração bibliográfica dada pelo meu amigo às raridades da minha biblioteca.

Fico ansioso pelas impressões de ordem política da "Formosa Estribaria". Ando desanimado com a atitude dos sucessores e continuadores do fradalhão de Sta. Comba. Quando o Caetano falou pela primeira vez e consertou a perna no Mário Soares nós aqui tivemos a infeliz ilusão de que ia começar o fim do reinado pidesco. E telegrafamos-lhe em termos dignos, sem abdicarmos da nossa posição de democratas, evidentemente. "Que crédito que dá tão facilmente/ o coração àquilo que deseja" já dizia o Camões. Dura lição e eu, ao contrário do poeta, não fiquei contente por me haver enganado.
D. Mécia teve a gentileza de me escrever dando as suas notícias quando andava acompanhando de longe, como nós aqui, essa triunfal caminhada pela Europa universitária. Dê-lhe os meus melhores agradecimentos. Esta prosinha vai assim mesmo atabalhoada, emendada, e malfeita. Desculpe-a, é preguiça de velho amigo admirador e muito grato.

João Sarmento Pimentel

 


Madison, Wis., USA, 8 de maio de 1969

Meu querido Comandante,

Já não sei há quanto tempo lhe devo notícias, enquanto vou sempre recebendo sinais da sua amiga generosidade e gentileza. Não passa de hoje (em que um dos seus bilhetes me chegou e também o recorte das demissões e aposentadorias e mais belezas). E vivo tão exausto de trabalho (e mal recuperado da operação em Lisboa), que nem lembro claro se já lhe dei conta da minha viajem, ou não, e impressões de Portugal. Na dúvida (porque eu já perdi o controle da minha correspondência e de tudo o que não seja o trabalho contínuo que me mata), aqui vai. Há dois meses e meio que cheguei da Europa — e a viagem fez-me muito bem e muito mal. Bem, porque foi um prazer deambular pela Europa adiante como fiz, apesar da correria frenética que foi a minha (sempre quero ver o mais, não vá tudo acabar amanhã), e porque foi comovente o triunfal "regresso." Mal, porque trouxe saudades concretas e insuportáveis, quando as tinha já transcendidas e abstratas em dez anos de ausência. Os menos de três meses quase me parecem os dez anos anteriores — para o que contribui a agonia que é viver-se nesta América dilacerada pela estupidez, a maldade, a cobiça, a mais colossal mentira do que seja democracia política. E tornei-me dolorosamente sensível, já sem capacidade de irónico encaixe, à sorrateira ou agressiva hostilidade contra o que seja Portugal ou português, que é apanágio deste hemisfério — e mais repugnante aqui que no Brasil, por à sorrelfa, como tudo o que se faz ou diz neste país. E o espectáculo do Brasil é desolador — dá-me vontade de escrever uma carta aberta a esse Costa e Silva, declinando a nacionalidade, ou pedindo para ser "suspenso" por solidariedade… Mas de que adianta? Nenhum brasileiro entenderia, nessa ilusão de que ainda não saíram e que põe o sentimento pátrio acima dos governos que o não representam (tu és primo do tio do cunhado etc, — só setenta milhões de desgraçados, nesse país, não têm parentes pistolões).

De Portugal, que lhe direi? A decadência do país, por falta de braços e dinheiro, é manifesta. Lisboa suja, as estradas esburacadas, um ar de decadência que, se não fosse mesquinho e acabrunhador, seria saudável, por o país perder aquele ar lavado e penteado por decreto, que o tornava arrebicado e ridículo. Apesar de as possibilidades de informação serem hoje muito maiores e atingirem maior número, a sensação de irrealidade persiste. Mas o alívio geral pela desaparição do Fradalhão é evidente em tudo, ou era: até, se pode dizer-se, mais divertidamente indisfarçável nos próprios estado-novistas, tirando uns quantos ultras ferozes que clamam contra a traição que lhes desfaz o castelo. Creio cruamente que, se o Marcelo liberalizasse efectivamente a vida política (o que não fez por medo à reacção, e também por ser-lhe mentalmente impensável — essa gente acabou por acreditar na legalidade deles mesmos), teria o apoio tácito de praticamente toda a gente, ainda que muitos, por princípio, continuassem a bradar. E ele não o fará, porque a grande massa da população se apolitizou… pela guerra da África. Esta é inteiramente impopular como guerra — mas não como memória imperial (que é uma realidade, quer a gente goste, quer não), nem, tristemente, como possibilidade de ganhar mais dinheiro durante algum tempo. Sob este aspecto, as classes populares e as altas classes estão felizes… Se a guerra puder continuar a ser uma "drôle de guerre" em que se ganha dinheiro e se combate o menos possível (a este respeito, o cinismo é quase público). Por outro lado, a Oposição não pode, pela sua divisão, a sua senilidade etc, assumir quaisquer responsabilidades — e quem quer tomar a de acabar com a guerra? … E a massa geral até, por certa inflação e alguma desordem (greves, estudantadas etc) que habilmente o Marcelo tem permitido, fala, com estúpida saudade dos bons temos — e teme qualquer agitação, qualquer sacão brusco. O descontentamento é porém geral quanto à situação económica — e não levará tempo que o Salazar seja acusado de tudo (como o Estaline foi), sobretudo do atraso que coloca o país em situação dificílima em face de uma Europa integrada. O sentimento de frustração é geral também — toda a gente sente que perdeu a sua vida, e só o Salazar viveu regaladamente quarenta anos da sua. Mas basta isso? Parece-me só haver juventude. Mas esta, com gente muito boa, é ainda, como sempre, do ponto de vista de futuros dirigentes, muito reduzida. Fala-se muito de reformas universitárias — mas quem altera aqueles fósseis, e os filhos espirituais de 40 anos deles? Calcule que a decisão secreta das duas universidades maiores (a do Porto pouco conta) é que … no pânico da data de gente que se doutorou ou está a doutorar no estrangeiro (é o que a maior da rapaziada está a fazer em Paris ou Londres, graças às facilidades que foram dadas para isso), a universidade portuguesa não reconhece qualquer doutoramento estrangeiro: há que repeti-lo em Portugal! Por isso, insistentemente, nunca fui tão chamado respeitosamente de Engenheiro — e só os do contra me tratavam de Professor Doutor. Em Lisboa, só o Cintra, a Belchior e o Nemésio me cumprimentaram; e em Coimbra, só o Maios e Sá que me apresentou publicamente na Associação Académica, e o brasileiro Guilhermino César que me foi cumprimentar quase escondido. Havia porém uma multidão de um milhar de pessoas nas Belas Artes para aclamar-me de pé, e o mesmo aconteceu no Porto e em Coimbra. Chorei, meu caro — para mais doente como vinha. Em resumo. A atmosfera purificou-se um pouco: a polícia está mais discreta e contida na "legalidade", a censura algo acéfala corta e descorta — e a maior parte das pressões e denúncias vem de baluartes menos de opinião política que de comedoria, que controlam a Emissora, a TV, e a censura (porque o Salazar os pôs nessa posição). Não poucas partidas ao Marcelo, em quem vêem um "traidor" (porque, mais hábil, e necessitado de base de sustentação faz de bonzinho e talvez não seja mau de todo), lhes vi fazerem. Comigo ele foi de uma elegância e de uma correcção absolutas, como o Salazar não cuidaria de ser. Também o fui com ele; e é claro que, sem abdicar de nenhuma afirmação clara, não permiti que as minhas aparições se transformassem em comícios — o que me valeu a vaia da extrema esquerda chinesa (também lá há disso, o que prova a total irrealidade por absurdo) nas Belas Artes, e o aplauso das outras forças coligadas… Vim muito triste, no fim de tudo. Mas creio que, se uma pessoa desistir de salvar uma pátria irrecuperável, e for cultivar as suas couves desiludidas poderá lá fazê-lo em paz — vindo a amnistia geral que ainda não saiu (se ela sair, é claro, e se a situação subitamente não azedar para uma luz verde da CIA e do Pentágono a alguns generais… única forma de governo que lhes interessa em qualquer parte). Sei que o Marcelo mandou que fossem revistos todos os processos pendentes para serem arrumados de uma maneira ou de outra. Se isto terá andamento ou não, não sei.

Da Europa gostei muito — ah que saudades. Toda. Mas especialmente a Inglaterra, a Dinamarca, a Holanda, a Suíça, a Áustria, a Itália, até a Espanha. A França, como sempre, achei encantadora e detestável, como a Alemanha. Mas Londres, Amsterdam, Copenhague, Roma, Florença, Zurique, mesmo Colónia. E Viena. Enfim, estive em 60 terras diferentes, o que parece incrível. E não penso senão em voltar de qualquer maneira, a qualquer pretexto, para esquecer-me desta opressão americana, em que tudo se falsifica em nome de pretensa garantia das liberdades que não há senão de ser preso e andar nas bolandas dos tribunais que fazem e desfazem acórdãos como o Juiz da Beira.

A saúde não anda boa. Mas tenho trabalhado muito — e comecei depois de três semanas de operado, em estado já grave (a inflamação começara séria em Paris, onde cheguei sem poder dar um passo — e logo que me vi melhor fui para a Itália), e cansado de tanto correr. Em breve, sairão mais estudos camonianos, um novo livro de poemas, outro de traduções de poesia, outro de ensaios vários.

Tudo receberá a seu tempo. E a tensão que na América está agora em tudo, também chegou ao meu Departamento, onde os "estrangeiros" (eu, espanhóis, professores de espanhol que não são americanos) começam a ser vítimas da xenofobia conservantística e conformista que acabará por destruir estas universidades que os estudantes já assaltam à mão armada (e fazem muito bem).

Tenho muitas saudades de todos os amigos daí — do Brasil não, pois que acho que já não encontraria lá sequer o pouco ar que ainda se respirava quando parti. Vamos ver quando posso dar aí um salto. Recomende-me a todos.

E para si vai oferto o grande abraço do sempre seu muito amigo,

Jorge de Sena

 


Lisboa, 18 de outubro de 1974

Meu caro Dr. Jorge de Sena,

Aqui tenho permanecido, vai para um mês e cumprindo aquela promessa de assistir às comemorações do " cinco de outubro de 1970…"
Houve festa emocionante na Câmara Municipal. Eu, como o mais velho dos combatentes, tive ali grande honraria, hasteei a bandeira nacional e discursei agradecendo por mim e pelos outros dois remanescentes dos acontecimentos políticos de 64 anos passados. Esses meus dois companheiros foram-se abaixo das pernas, MacBride com uma paralisia geral, César de Almeida a fingir de vivo…

Disseram as gazetas e os circunstantes que a minha prosa esteve a calhar. A multidão confirmou, deu muitas palmas, muitos vivas e quando eu saí da Câmara levou-me em charola do Largo do Município até à Rua do Ouro, com beijos e flores as raparigas, os moços aos abraços, tantos e tão apertados que corri sério risco de sufocar! Valeu-me o Coronel Varela Gomes, soldados e homens mais calmos que puderam formar um cordão em volta do pobre de mim. Mas o entusiasmo deste bom povo de Lisboa gritando: Sarmento Pimentel, Sarmento Pimentel!, não foi inferior ao carinho e alegria ruidosa com que me receberam os portuenses em Campanhã.

Almoções de arromba (e cada vinho!), falas letradas simpáticas, os jornalistas, a TV, Rádio uma praga, até que fui parar no Instituto de Altos Estudos do Estado Maior do Exército para uma conferência que teve a parte escrita obrigatória e outra parte oral a modos de exame universitário com um júri de alto lá com ele!: dois almirantes, dois generais, um Ministro (o da Defesa). A escrita era para o arquivo, a fala de 20 minutos ouvida em silêncio disciplinar já que a assistência era só tropa desde os alunos cadetes da Escola do Exército, até senhores de galões largos e veneras por dezenas que nem montra de boteco armarinho!

Agradou a hierática palestra àquela gente de guerra hoje aplaudida de "Forças Armadas." Querem agora que eu vá a um regimento da guarnição de Lisboa para pregar aos soldados. Se calhar ainda me nomeiam capitão do E.M.!… Toda esta cativante camaradagem é testemunha de certa gratidão, compensadora dos 47 anos de exílio.

A Política andou por aqui meia embrulhada. Atirou de pernas ao ar com o Spínola, levou à cadeia alguns lorpas saudosistas, mas está voltando, ou indo, para uma posição mais estável e de rumo mais certo.

Regresso ao Brasil dentro de 20 dias e vou confiado que chegaremos às Eleições de Março sem empeno. Há ainda, (e havê-la-á até ao fim do mundo) uma burocracia desgraçada, capaz de atrasar a marcha do sol, que muito impede solução rápida e urgente de situações clamorosas, injustas, perigosas. A remodelação e actualização dos quadros faz-se lentamente, adiam problemas, perde-se um tempão.

Mas os males duraram meio século e temos de reconhecer que não se curam em seis meses. Os partidos começam a concentrar-se sendo que o P.C. não tem, como pensava, a posição cimeira. Penso que só 15% dos votos serão seus nas eleições. O Partido Socialista tem-se firmado e deve ser majoritário, ou ombro a ombro com os Democráticos centristas.

Lá vou amanhã para o Porto presidir um comício onde estão presentes os chefes socialistas da França, Alemanha, e um leader inglês trabalhista. Mário Soares é hábil, popular, inteligente. Veio almoçar comigo ontem (16) o José Augusto França e deu-me a agradável notícia das suas próximas conferências na Universidade de Lisboa. Estarei aqui quando o meu amigo vier abrir os olhos a esta mocidade ansiosa de ouvir a palavra eloquente e erudita do famoso humanista e grande Mestre Jorge de Sena? A minha nova volta ao Brasil talvez seja em 10 de dezembro para o Congresso do Partido Socialista.

Na ida de amanhã ao Porto aproveitarei uns dias a visitar os meus parentes transmontanos. O tempo do Outono é lindo e saudoso. O frio ainda se suporta e o cair da folha tem mutações de rara beleza na cor, na luz do sol, no crepúsculo silencioso e triste. Há assim um ambiente de despedida que diz um pouco com o doloroso sentimento da velhice.

Lembre a D. Mécia e a essa prole numerosa e inquieta que tem a salutar alegria de viver e traz no coração aquela esperança triunfante dum melhor futuro.

Um abraço de seu amigo muito grato e admirador

João Sarmento Pimentel
 

Breve notícia sobre cartas inéditas: Um “justo diálogo”, a correspondência de Jorge de Sena e João Sarmento Pimentel.

por Otília Lage

“…as cartas daquela preciosa correspondência que o [João Sarmento Pimentel] tornarão o vulto nobre que muita gente desconhece.”

Assim se pronuncia Mécia de Sena, em carta enviada de Londres, a 28/5/1981, para o Capitão João Sarmento Pimentel, onde considera um “justo diálogo” a correspondência trocada entre este e Jorge de Sena [1959-1977] [1], cuja publicação continua porém por fazer, apesar da intenção, cedo manifestada, e dos esforços entretanto desenvolvidos por Mécia de Sena, para a reunir, compilar, organizar, anotar e editar [2].

Infelizmente ainda inédita, a correspondência entre Jorge de Sena e Sarmento Pimentel configura-se como um trabalho de enorme importância cultural, social, histórica e literária, que muito explicará sobre o contexto e significado mais amplos dessas cartas, da amizade e cumplicidades entre seus autores, acontecimentos, projectos e exílios vividos por ambos, destacados opositores políticos à ditadura salazarista.

Por isso, vale a pena observar uma simples ilustração dessa correspondência e os matizes político-culturais e de profunda estima pessoal que marcaram o diálogo entre essas duas grandes figuras da cultura contemporânea portuguesa tão fortemente ligadas à história do Brasil. Diálogo que seria, na mesma linha e com idênticas características, continuado, ininterruptamente, por Mécia de Sena, desde a morte de seu marido até à de seu amigo[3].

Em 11/6/1961, 2 anos depois de seu exílio voluntário no Brasil, Jorge de Sena envia de Assis, São Paulo, a J. Sarmento Pimentel uma carta que termina assim “Copiado a seu pedido, com a mais grata estima para o Com.te J. Sarmento Pimentel, amigo de Camões…” em que apenas faz a transcrição integral deste seu poema:

“ Podereis roubar-me tudo:/ as ideias, as palavras, as imagens, / e também as metáforas, os temas, os motivos, /os símbolos, e a primazia/ nas dores sofridas de uma língua nova/ […]Nada tereis, mas nada: nem os ossos,/ que em vosso esqueleto há-de ser buscado, /para passar por meu. E para outros ladrões, /iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo”.

Passados 10 anos, já Jorge de Sena residindo em Santa Bárbara, Califórnia, USA, recebe uma curta e amargurada carta datada de São Paulo, 25/7/72, do “seu amigo e muito grato e dedicado João Sarmento Pimentel” (fórmula final da missiva). Dá-lhe conta, com profundo pesar, da morte e funeral do amigo comum, o poeta português Adolfo Casais Monteiro, também exilado no Brasil, terminando assim:

“ O exílio é um drama sem fim. Vejo os mais queridos e os melhores dos companheiros morrerem e aquela esperança de regresso a Portugal cada vez mais retardada. Vou ficando mais só e mais velho e mais inútil. A alegria de viver, a inutilidade de existir, confrontam-se e levam a um desespero lamentável”.

Três meses depois, a 29 de Outubro de 1972, Sena escreve de Santa Bárbara, a J. Sarmento Pimentel uma longa carta de 4 páginas com um poema seu, recente, dedicado “Ao Comandante João Sarmento Pimentel”. Aí se evidencia a profunda admiração do poeta pelo magno exemplo de homem, cidadão, exilado e patriota, do destinatário, cujas virtudes louva e enaltece, numa forma clássica de missiva, que é mais um diálogo e solilóquio em reverencial epístola poética:

“Tão tarde vai, senhor, esta missiva/ em termos de outros tempos em que epístolas/ serviam a saudar heróis e sábios/ como também quantos na vida exemplo/ dariam de inteireza e hombridade/ que às vezes sábios ou heróis não têm /(…)./Para destino, capitão, a pátria/ não dela mas quão dela é o que devera/erguê-la de si mesma, vos criou:/como isso dói e queima vós sabeis, /e quanto é magia de distante ausência./ (…)./Assim, senhor, em vós saúdo e digo/ de como em vida me vivi honrado/com conhecer-vos e por vós ter tido/por digno de amigo e amarada/nas horas duras de se amar a pátria/(…).”

Acompanhava este poema um outro dedicado à memória de Adolfo Casais Monteiro e destinado a ser publicado, no jornal Estadão, “ com o competente relevo e dignidade – o jornal deve-lhe isso e a mim também… e fio da sua influência a publicação do poema”.

Prática comum que, com Mécia de Sena se prolongará, depois da morte de Jorge de Sena, era também o constante envio para Jorge de Sena por Sarmento Pimentel de “remessas de jornais e de recortes de interesse”, a partir do Brasil, país que merece de Jorge de Sena esta consideração no fim de sua carta:

“Lembre-me a todos os amigos aí, com saudosos abraços. Quando irei ao Brasil? Hesito muito – o Brasil tem sido sumamente ingrato comigo, e ser-me-ia muito duro ser tratado de desconhecido depois de quanto tenho feito por ele em anos de dedicação a toda a prova, que só me têm merecido o silêncio ou os rosnidos malignos dessa raça que teria de ser danada por descender de quem descende. Aqui vai o grande abraço muito amigo do sempre dedicado e grato Jorge de Sena”

Esta carta de Sena termina com um extenso post scriptum em que critica a nomeação de um antigo ministro fascista do governo de Marcelo Caetano, para embaixador português no Brasil, dá notícia da publicação de seus “Estudos de História da Cultura” e pronuncia-se sobre aspectos da situação política da Àfrica do Sul, Angola e Moçambique, então em luta armada contra o colonialismo português:

“(…) De Moçambique – terra que me fascina e comoveu, e onde falei com gente de todas as cores e feitios, e a extrema-direita e os “maoistas” a soldo dela me silenciaram ou atacaram violentamente ( e continuam com torpezas nos jornais portugueses) – teríamos muito que conversar, bem como do que vi e senti e ouvi em Luanda, ou da longa conversa que em Lisboa tive com o Luandino Vieira (agora livre e só de residência fixa). É tudo uma questão diabólica e complexa em que ninguém, senão raras criaturas de bom senso e outras de paz, diz toda a verdade: uma tragédia agora, e talvez que em breve tragédias maiores, quando ainda seria possível evitar a catástrofe – branca ou negra – que, no fundo, só alguns loucos ou irresponsáveis desejam como independência, em face do que as Africas estão sendo. Johannesburg, como imagem da Rep. da Africa do Sul e o seu “apartheid”, linda cidade e repulsiva em estado policial como não se imagina que possa existir ( a não ser como o que vi na Grécia, em termos diversos.)

Como se pode ver, há entre ambos um clima de profunda e mútua estima e admiração, o qual vai ser assumido também por Mécia de Sena, na sua correspondência assídua com Sarmento Pimentel, até este falecer, nonagenário, e a quem sempre se dirige, tal como Jorge de Sena, carinhosa e respeitosamente como seu “queridíssimo comandante”.

Observe-se que, para além da recorrência dos interesses literários mútuos, também o carácter pessoal, político e literário vão perdurar nas cartas de Mécia de Sena para o Capitão J. Sarmento Pimentel, espaço de exercício do seu papel de cidadã crítica e reflexiva, que, à semelhança de seu marido, nunca se coíbe de fazer comentários amargos e perspicazes ao deficit de democracia e justiça social e política que minam a sua “pátria” e a sociedade portuguesa da época.
Cartas de Jorge de Sena para João Sarmento Pimentel [95 ítens]

Assis – 11/10/959
———————–Evocação de Jorge de Sena por Sarmento Pimentel
Assis – 27/11/59
Assis – memorando assinado por Jorge de Sena e Victor Ramos (28/11/59)?
Assis – carta oficial – 13/12/59
Assis – 27/12/959

Assis – 5/1/960
Assis –12/1/960
Assis – 5/4/960
Assis –20/4/960
Assis –14/5/960
Assis –18/5/960
Assis –20/5/960
Assis –26/9/960
Assis –24/11/960
Assis –13/12/960
Assis –17/12/960

Assis – 2/4/61
Assis – 27/4/61
Assis –9/5/61
Assis –19/6/61

Rio – 5/1/62
Araraquara – 15/1/62 – carta oficial
S.Paulo – 20/3/62 (*)
Araraquara – 18/5/62
Araraquara –22/6/62
Araraquara – 10/9/62

Araraquara – 6/1/63 (*)
Araraquara –24/3/63
Araraquara –29/3/63
Araraquara –10/7/63
Araraquara –20/7/63
Araraquara –13/8/63
Araraquara –22/8/63
Araraquara –10/9/63
Araraquara –5/12/63
Araraquara –23/12/63

Araraquara – 9/5/64
Araraquara –11/5/64 (no original,12/5/64)
Araraquara – 2/6/64
Araraquara –21/6/64
Araraquara –13/7/64
Araraquara – 19/7/64
Araraquara –25/7/64
Araraquara –7/8/64
—————- cópia de carta para o Barradas de Carvalho – 6/8/64 ?
Araraquara –23/12/64
Cartão de Natal – 1964

Araraquara –23/2/65
Araraquara – 9/4/64 ( no original 9/4/65)
Araraquara –27/4/65
Araraquara –13/6/65
Araraquara –4/7/65
Araraquara –21/7/65
Madison – 14/12/65

Madison – 9/4/66
Madison –19/8/66

Madison –23/3/67
Madison –15/7/67
Madison –24/11/67

Madison –2/9/68
Londres – postal ilustrado -22/9/68
Rotterdam – postal ilustrado – 17/10/68
Barcelona – 16/12/68

Madison – 7/1/69 (de Mécia de Sena)
Madison – 8/5/69

Madison – 23/6/70
Santa Bárbara – 15/11/70

Santa Bárbara – 3/1/72
Lisboa – 17/8/72
Santa Bárbara – 29/10/72 (com cópia do poema: “Ao Comandante…”)

Londres – postal ilustrado – 18/2/73
Santa Bárbara -23/2/73 (Mécia)
Londres – 10/3/73
Santa Bárbara – 4/7/73

Santa Bárbara – 9/1/74
Santa Bárbara –1/4/74
Santa Bárbara –7/5/74
Santa Bárbara –16/5/74
Santa Bárbara –28/6/74
Santa Bárbara –24/9/74 (Mécia)

Santa Bárbara – 2/6/75
Santa Bárbara –13/6/75
Santa Bárbara –14/7/75
Santa Bárbara – 29/7/75
Santa Bárbara –8/10/75
Santa Bárbara – 20/12/75

Santa Bárbara –3/1/76
Santa Bárbara –8/3/76 (remetida cópia a Norberto Lopes de carta de Sena a A.Amorim)
Santa Bárbara –21/4/76 (Mécia)
Santa Bárbara –22/4/76 (dedicatória ao poema “À Memória de Adolfo…)
Santa Bárbara –20/7/76
Santa Bárbara –31/8/76 (Mécia)

Santa Bárbara –23/3/77 (conjunta: Jorge e Mécia)
Lisboa – 14/5/77
Santa Bárbara – 12/11/77
Dedicatória aposta ao “speach” da AIH, em Toronto (Agosto de 1977)

 

[(*) estas duas mandou-mas há tempos o Comandante Sarmento Pimentel; mandei originais a Mécia a 10/12/84]

 

Notas:

1. Incluímos em anexo a relação dessa correspondência, gentilmente cedida por Mécia de Sena a quem agradecemos a confiança demonstrada e a generosa colaboração.
2. Sabe-se por correspondência trocada entre Mécia de Sena e João Sarmento Pimentel que os originais das cartas de Jorge de Sena foram generosamente cedidos por Sarmento Pimentel, na década de 1980 a Mécia de Sena que os dactilografou e anotou, tendo-os remetido posteriormente para o espólio literário de Jorge de Sena, à guarda da Fundação Calouste Gulbenkian até 2009, ano em que foi entregue à Biblioteca Nacional de Portugal onde actualmente se encontra, com o restante espólio seniano.
3. A correspondência aqui referida e comentada foi consultada no espólio literário de João Sarmento Pimentel, à guarda na Biblioteca Municipal de Mirandela, Biblioteca João Sarmento Pimentel.

 

Carta a Eduardo Lourenço, 15/6/1953

Lisboa, 15/6/953

                                                             Meu caro Eduardo Lourenço

    Por não me ter sido possível ir ao passeio (que sei ter redundado em excelente êxito – e perdoa-me V. que lhe diga da simpatia e consideração por V. que ressumam dos comentários que ontem ouvi?), não chegámos a conversar, quando eu nem sequer chegara a devidamente lhe agradecer a sua bela carta.
   
O que me diz da tradução – eu limitei-me estrita e esforçadamente a recriar em português o estilo do Greene, mesmo por vezes com sacrifício de uma clareza imediata, cuja subtil falta respeitei sempre que a encontrei por fazer ela parte da própria estrutura do romance.
   
Do prefácio: há muito, e cada vez mais, eu escrevo com a noção absoluta de pregar no deserto. Sei que uns entendem e não aceitam, e que outros, que aceitariam, não entendem. Mas a única justificação de uma existência que escreve para testemunhar de todas as verdades é persistir mesmo assim, e escrever da compreensão que era possível no nosso tempo. É provável também que me canse – mas isso nada prova senão contra mim, pois que sempre poderá haver, expressa ou não, uma compreensão profunda e amplificadora como a sua. A tristeza, porém, é muita; e não sei se, ainda que (quem sabe?) alegremente, não acabaremos por nos convencer definitivamente de que só nós estamos errados… e certos todos os outros. Eu não ando, de resto, muito longe disto: simplesmente as razões acima ainda se inserem no quadro de uma – como direi? – nada fatalista visão do mundo. Nem de outro modo poderia eu explicar o ter chegado a escrever o poema que lhe mandei e faz parte de toda uma sequência (pela unidade de ocasião no tempo e de inspiração) de igual ou análogo sentido.
   
                             Mais uma vez, pois, muito obrigado. Abraça-o com muito estima o camarada amigo
                                                                                                                 Jorge de Sena

P.S.- Não deixe de ler os poemas do grego Cavafy que traduzi do inglês e publiquei no “Comércio”, no passado dia 9. Não me lembro se chegámos a falar nisto.
 

Carta a Eduardo Lourenço, 6/7/1959

Lisboa, 6/7/959

                                                                                     Meu caro Eduardo Lourenço

    Não demorei tanto a responder à sua carta de 18, quanto V. possa julgar, porque me chegou às mãos atrasada. E escrevo-lhe hoje, porque só ontem soube, confirmada indirectamente pela Maria de Lourdes Belchior e pelos jornais que publicaram a lista dos convidados, cá a notícia que V. me dava. Mas agora passa-se o seguinte. Eu não recebi nem receberei comunicação alguma, que nem a Comissão Portuguesa ma manda, nem a Alta Cultura para onde a ilustre comissão enviou a lista se digna. Ora sem um papel que ninguém me dá não posso pedir licença ao meu Ministro para sair do País. Veja V. como os “maquiaveis” de bolso funcionam bem. Não será possível, só para achatar estes gajos, V. arranjar-me aí uma cópia autenticada, com o sêlo branco da Universidade, da lista? Por seu lado, a Panair do Brasil telefonou cá para casa a dizer que eu já tinha a passagem marcada e paga (por quem? – mistério).
   
De modo que, precisando de tratar de milhentas licenças – ministerial, militar, passaporte, visto, etc. – estou a um mês, sem poder fazer nada. E são tantos os trabalhos em mãos que ficam suspensos e que tenho de dispor para largar isto por cerca de 20 dias (pois não hei-de ir ao Rio?) que não posso dispor a minha vida nem des-dispô-la!
   
A lista, como veio publicada nos jornais (com todo o ar de provir da Comissão), varia muito de jornal para jornal. O Saraiva e o Joel não figuram nela (de resto, parece que o Joel não está numa lista dos que teriam passagem), e na do Diário de Notícias, que é a que o Prado Coelho viu, figura a Natércia Freire! Tudo uma macacada, que será devidamente orientada pelos Marcelos, como se verá.
   
Dê as minhas melhores lembranças e saudades ao Casais – e espero firmemente poder abraçar-vos em breve.

                                                                         Um grande abraço amigo do

                                                                                                       Jorge de Sena