Entrevista, 1976

A partir de uma busca nos arquivos da RTP, Mário Viegas apresenta excertos de uma entrevista de Jorge de Sena ao jornalista Joaquim Furtado, em 1976. Temos aqui uma versão mais completa do que aquela utilizada no documentário sobre Jorge de Sena “uma fiel dedicação à honra de estar vivo”, realizado por Diana Andringa em 1997. Ver: Jorge de Sena – um documentário.

 

Mais um 25 de Abril

Assinalando o 39º aniversário da “Revolução dos Cravos”, aqui trazemos o depoimento de Mécia de Sena sobre as reações de seu marido face ao acontecimento histórico e ainda uma carta-testemunho assinada por Jorge de Sena, datada de menos de dois meses antes de seu falecimento.

 

 

Nova Iorque, 20 mar (Lusa) – O 25 de abril entusiasmou o escritor Jorge de Sena tão rapidamente quanto o desiludiu. “A revolução acabou, naquele país só há ódio”, disse à mulher assim que regressou aos Estados Unidos de viagem a Portugal em 1974.

“Foi essa a frase que ele me disse na entrada da porta quando chegou. Ficou doente, emocionalmente doente – teve que ir ao médico e tudo – com o ambiente que no espaço de dois meses tinha encontrado em Portugal”, disse à Lusa Mécia de Sena, viúva do escritor, residente na Califórnia, Estados Unidos.

“A euforia que tinha encontrado ao chegar e a total desordem e briga no regresso. Nesse espaço de dois meses caiu das nuvens e ficou doente”.

A primeira reação após a notícia da revolução, recebida já na Califórnia, foi de euforia pela possibilidade de um regresso definitivo à terra natal.

“Se fosse possível economicamente e profissionalmente embarcar no dia seguinte ele teria ido. Disse-me que íamos no dia seguinte. Eu é que pus água na fervura, disse `Jorge, por favor, pensa duas vezes, não podes abandonar a universidade de hoje para amanhã, há que pensar o futuro com calma´. Se não ele teria ido a correr”, recorda.

Depois do regresso, de ver que os ideais tinham “dado lugar a uma luta medonha entre toda a gente, suicida”, Jorge de Sena entrou numa fase de prostração.

“Dormia, dormia, dormia… horas e horas… ele que era uma pessoa que normalmente dormia seis horas e se levantava sozinho durante a noite, acordava muitas vezes… começou a passar a vida a dormir, e era uma maneira de não pensar nisso”, afirma a viúva, hoje com 90 anos de idade, completados na semana passada.

Essa fase só foi ultrapassada com o regresso das aulas e uma nova oportunidade de trabalho na Universidade da Califórnia.

“Depois deixou de ter tempo de pensar nisso (…) passou a estar em duas universidades ao mesmo tempo, a tempo inteiro. Foi uma brutalidade, mas foi necessária, foi isso que o acordou, que o tirou da letargia desconsolada em que ele tinha caído”.

Jorge de Sena continuou a acompanhar à distância os acontecimentos em Portugal, com algum “desgosto”, e foi Ramalho Eanes quem lhe devolveu a confiança.

“O Ramalho Eanes deu-lhe uma certa esperança. Ele gostou muito de falar com ele, achou que ele tinha a calma suficiente e não iria fazer tolices (…), que era uma pessoa que poderia conseguir o equilíbrio de que o país precisava, isso tinha-o animado muito, mas infelizmente já pouco viu”.

“Se ele tem vivido um pouco mais, tenho quase a certeza que tinha ido naquele ano para Portugal para trabalhar de mãos dadas com o general Eanes, neste sentido de fazer justiça, não num caminho político mas social”, afirma Mécia de Sena.

 

Referência:
“A revolução acabou, naquele país só há ódio”, disse Jorge de Sena depois do 25 de abril. MSN Notícias, 20 Março 2013. Disponível em: <http://noticias.pt.msn.com/cultura/article.aspx?cp-documentid=152669312>. Acesso em: 24 Abril 2013.

 

DEPOIMENTO SOBRE O 25 DE ABRIL, EM FORMA DE BREVE CARTA A ARTUR PORTELA FILHO*

Santa Barbara, Califórnia, 12 de Abril de 1978

Meu caro Amigo e Camarada

 

 A sua carta de 5 do corrente, com a tão amável solicitação do depoimento em epígrafe acaba de chegar-me (e até que não foi muito, nestes estranhos tempos em que a liberdade democrática faz que o correio leve umas duas semanas a chegar daqui aí e vice-versa). É uma honra e uma distinção a pergunta, a que não quero deixar de corresponder. E não só por isso. O caso é que, há umas duas semanas, remeti para um jornal de Lisboa uma Carta Aberta a um membro do Governo, que creio ser das coisas mais duras que já vi escrevi. É possível que, entretanto, tenha saído. De qualquer modo, o pedido seu, vindo após que aliviei a acumulada náusea, cai como sopa no mel, para colocar em serena perspectiva, e sem desânimos que sinto alastrarem por esse país adiante, o 25 de Abril. Mas sucede que, de repente, na minha vida a ocasião é má, e buscarei limitar-me o mais que puder a verborreia notoriamente sábia, e sem dúvida independente. Porque me encontro a braços com uma luta terrível contra uma doença das que não perdoam, se a gente se descuida, e submetido a intensivos tratamentos. Não deixar de ser irónico que isto suceda a quem há dois anos resistiu a monumental ataque de coração que,  segundo todas as regras e leis, o deveria ter reduzido a cisco. Mas, meu caro Amigo, ainda que eu seja duro de roer, é algo difícil a gente resistir a tanto mau olhado conjugado de uns três continentes. As minhas aventuras clínicas – que espero muito brevemente transformar em precioso conto de puro humor negro – não são para aqui. Mas, antes de entrarmos em comento do 25 de Abril, que este lugar sirva para um gesto de refinado mau gosto, daqueles com que me agrada beliscar os delicados. E é anunciar, para tristeza dos meus autênticos amigos e de quantos me têm ajudado a levar a cruz de ser português (ainda que com um passaporte brasileiro que incomoda e, ao mesmo tempo, tem sido útil a tanta gente, e ainda que emigrante que não é daqueles que pede pé de meia para o único patriotismo que a essa classe se solicita, o bago mandado para a santa terrinha), que agora é altamente incerto quanto eu dure. Notícia que, por outro lado, trará delíquios de ansiedade em expectativa de notícias a quanto canalha e hipócrita em sucessivas gerações me faz a vida negra há quarenta anos de literatura que se cumprem exatamente este ano. No entanto, será bom que essa gente se lembre de que eu posso bem vir a ser como aquele cadáver de uma bastante mpa peça do Ionesco que nunca admirei muito, o qual não fazia senão tornar-se maior e mais inamovível. Longe de mim a ideia de isto significar vaidade póstuma, mas é o que às vezes sucede que os defuntos fazem aos vivos mais defuntos que eles. Em todo o caso, juro não ter a mínima intenção de competir com outro cadáver, cuja realização ocupa afanosamente tantos patriotas, e que, segundo a geografia, tem cerca de 90 000 quilómetros quadrados, e ainda dá pelo nome de Portugal (a não ser que, como sucedeu a Lourenço Marques, e para melhor se apagar um passado a todos os títulos vergonhoso, como o de todos os povos antigos e modernos, decidam mudar-lhe o nome que eu adequadamente, e para fazer pendant com o Maputo das Áfricas, propriamente que, só familiarmente, passasse a ser, Bonaputa, em homenagem a tantos dos seus mais vorazes filhos).

Posto isto, não é segredo para ninguém que o 25 de Abril não foi de facto uma revolução, mas uma ampla mistura de muitas, na maior parte todas escondidas uma das outras, tal como claramente se tem verificado na contradança de sucessivos golpes e contra-golpes, nunca inteiramente bem sucedidos, nem inteiramente mal sucedidos, em que, desde então, os inquéritos nunca se concluem, as amnistias de toda a espécie alternam com as demissões, etc., etc., tudo se passando, segundo a melhor tradição salazarista de que todos, por mais que não queiram, são filhos, nas câmaras e antecâmaras civis e militares, nunca chegando o povo a saber o que é que realmente se passou ou não passou, já que até parece que, nos ataques mútuos, todos se combinam para deixar na sombra os rabos-de-palha, que todos sabem que os outros têm, quando não são os outros que seguram pela sua ponta o dito rabo (de palha). Não há como o poder ou a ebriedade do poder para revelar, quando longa experiência de liberdade é ainda breve e inquieta, a que ponto os políticos de farda ou à paisana, mesmo nas melhores das intenções, usam continuamente dos métodos autoritários ou de combine secreta da tradição fascista, no mais absoluto desrespeito pelo povo que tem o direito de saber, mais do que ninguém. Porque os políticos ou quem se julgue tal não são o povo, a menos que o representem; e , nesse caso, o dever deles não é pregar a cartilha mal lida e digerida, mas auscultar o povo, e distinguir as realidades da prosa de que encheram as cabeças, nos anos da resistência em que toda a gente estava fora da realidade que só Salazar controlava e conhecia, e até os ministros dele, como mais de uma vez tive oportunidade de verificar, nos meus avatares de funcionário público. Tem sido dito que a política é a ciência do possível – e isto aplica-se igualmente ao funcionamento normal das instituições, como aos planos de golpes e revoluções redentoras que todas, como é sabido, até as traições começarem, são.

O facto essencial, porém, e tanto faz que as pessoas tenham sensibilidades – como agora se diz – «pluralistas» ou «monolíticas» (recusando-me eu a mencionar uma espécie de gente, incertamente humana, que se diz, quer ou sonha fascista, a qual, por sua vez, nas paixões boçalmente partidárias de muita esquerda que não devia ser boçal, já que «esquerda» é por necessidade uma forma superior de inteligência, é constantemente confundida com «direitas» ou com gente conservadora que não será obrigatoriamente reacionária e que, gostemos ou não, tem o seu lugar e o seu papel, no leque político «pluralista», tal como, ainda que não seja bonito dizer-se, o desempenham adentro dos sistemas unitários dos Estados ditos socialistas), o facto, repito, é que a Revolução plural DE Abril de 1974 trouxe o que não havia há décadas: a liberdade, e uma liberdade como pode dizer-se que hoje não existe tanta (e também com tão desvergonhada e irresponsável licença a que os governos, para sacanearem o partido do lado ou passarem a mão pelo pêlo do partido do outro lado, nada fazem para controlar naquela naquele mínimo necessário a que um país saia do atoleiro e sobreviva), em nenhuma parte do mundo. Todos sabemos que, em várias ocasiões, nestes agitados anos, os atropelados aos direitos civis e às liberdades de numerosos cidadãos foram muito grandes, envolveram desvergonhas que não estão corrigidas e nada têm que ver com a justiça social, etc., etc. – e é triste que essas coisas sejam ditas em jornais e periódicos menos afectos à democracia ou à situação vigente, que as não denunciam (excepto em honrosos casos de criaturas que, nas hora de ser incerto se alguns sujeitos tidos por homens os tinham no sítio, mostraram que as mulheres os podem ter, e potentes, em forma de metáfora e de voragem)  para que se corrijam os males, mas como parte de orquestrada companha de sinistras direitas para desacreditar na opinião pública um regime que tem problemas de sobra que o desacreditem ante um povo e que nunca disseram que a liberdade é cara, e o socialismo ainda mais, E, se não é orquestrada (porque a gente deve evitar propagar tais paranoias de que os fascistóides se sustentam), é como se o fosse. O mal está em que, as chamadas «esquerdas» desde sempre não têm feito por falar a verdade, que mais que ninguém lhes competia dizer e denunciar, mas, ao contrário, «por vender o seu peixe», sem escrúpulos e sem rebuço. E a falta de escrúpulos nada tem que ver com as pessoas respeitarem ou não a chamada moral burguesa (quando tão fervorosamente a respeitam em tudo o que diga respeito à moralidade burguesíssima), mais sim com não  terem nem categoria, nem direção responsável e inteligente, para lá do fanatismo que faz as vezes das frustações que essas pessoas a si mesmas se criaram, ou por serem realistas por demais, ou por de menos, cujo resultado final é a mesma lástima. Choram todos pela Revolução que não fizeram ou, às últimas horas, se sabe muito bem que recuaram de fazer: e passam a vida a acusar o vizinho, em vez de fazerem aquela auto-análise (a sério, e não meramente ritual, como o bater no peito das avozinhas deles quando iam à confessa), sem a qual as posições políticas se não adequam às realidades. A insistência na agitação pela agitação, sempre, nestes casos, menos defende o ganho e o perdido, do que faz o jogo das direitas. E faz sobretudo o jogo de uma coisa infinitamente mais trágica, e que é a irresistível atracção de certo tipo de comunistas pelo catastrofismo (positivo, se é a revolução deles o que triunfa, e negativo, se não é), em que se incluem o fascínio porquanto seja as Diretas que sonham de os esmagar e pôr fora da lei, e a consequente atracção fundamente freudiana por regressarem ao líquido fetal da barriga da mãe, ou seja a clandestinidade em que tudo se manobra e nada se sabe ao certo, sobretudo a quem cabe a responsabilidade de seja o que for. Não podem eles acusar-me de antipatia que não tive nunca: e ninguém melhor do que os menos decentes deles sabe como, apesar de décadas de pertinazes esforços, nunca conseguiram fazer de mim, por mais que me esfaqueassem de golpes baixos e falsos, o anti que não sou e nunca serei, por várias razões: a minha crença e filosofia marxistas sem pitada de socialismo de ida e volta, e a minha inabalável consciência democrática em que todos têm um decisivo papel a desempenhar, o qual em nada, nada, trai ou é «revisionismo» (porque pode ao menos  ser aquele maquiavelismo realista que é timbre, ou  deveria sê-lo, de todo o partido revolucionário, não no sentido das manobras de pura manipulação, mas no sentido de adaptar à realidade uma política que não tem de ser alterada para integrar-se naquela). A clandestinidade é ima tentação terrível que não dever ser cortejada, sobretudo por aqueles que tão longamente se habituarem a subsistir na autocracia dela.

O país atravessa horas difíceis, medonhamente difíceis, em que parece que os partidos desesperadamente apenas desejam sobreviver-se uns aos outros, à custa uns dos outros, e necessariamente, ainda que o não diga nem confessem, à custa do povo português, cujos anseios tosos proclamam representar. Por certo que presentarão, mas não dessa entidade algo abstracta e vaga em boca de políticos em situação semelhante, mas apenas, cada qual, daquele sector da população, que é partidário, ou simpatizante (ou como se tornou instituição nacional da eterna esperteza saloia em Santa Comba, «submarino»). O povo descrê – p que é uma tragédia que esperamos ainda reparável, com energia, coragem, e decência – daquele triunfal e magnificente liberdade que recebeu e goza há quatro anos. Tem numerosas razões para tanto, na complexa e contraditória situação económica-política – em que uns se fazer paladinos de uma revolução que houve em certos sectores (com muita desordem e pouca-vergonha em outros), enquanto outros anseiam pelo regresso aos bons tempos da Ordem, que tudo reponha como dantes com a palha em Abrantes. E isto porque ninguém insiste em esclarecer o povo, efectivamente, acerca do que a democracia seja. Todos o que no fundo querem é desacreditar o vizinho, mesmo que isso seja feito à custa da ignorância de um povo inteiro, ou grande parte dele, se em que o povo português tenha, parece-me. Aprendido muito mais que os seus rotantes português. Nestes quatro anos. Mas é um aprender desaprendido, aberto a não se perceber que querelas partidárias, coligações estranhas, compromissos insólitos, etc., não são de modo algum um escândalo público (parecem-no, por haver liberdade de informação, que não deve ser dominada por governo algum em seu proveito, sob pena de desacreditar-se irremediavelmente), mas o inevitável funcionamento da democracia mesma em toda a patê com os seus defeitos e limitações, preferíveis a qualquer ditatura em que sabemos muito bem que as mesmas combines, as mesmas querelas, etc., etc., se passam, apenas na sombra daqueles encontros a que os actuais políticos são excessivamente dados. Escândalo público é o erro que se não critica, o desmando que se não liquida, a tripa-forra que faz a gente pensar que a maior parte de algumas pessoas o que queriam era almoçar e jantar no Grémio Literário e nos restaurantes do faduncho de luxo, e dormir  – perdão da palavras – com as putas do Estado Novo. Isso sim, que é escândalo e desvergonha públicas, e é o que o povo mais claramente vê, na hora em que lhe pedem que aperte o patrioticamente o cinto.

Pois ponham-se todos a dieta, como manda a igualdade democrática! E escândalo maior, inadmissível, inaceitável, quase se diria revelando nem escreverei de quê, por puro horror, serão ataques ao Presidente da República, símbolo vivo da democracia e das instituições, por precárias e defeituosas que sejam. Ainda que se possa crer que haja razões para atacar alguém que puseram a defender uma constituição que não lhe dá poder quase nenhum, há algo que sagradamente é intocável: a dignidade da função mesma. Foi com estas e com outras que a Primeira República cavou a sua sepultura. Não é o que sonhámos por décadas, aqueles que sonharam e lutaram. Não é sequer o que convém a quantos oportunistas descobriram que, por enquanto, a democracia lhes redia que era um gosto. Nem se quer é também o que no fundo interessa e importa à extrema-esquerda que sabe muito bem o amor que certo Ocidente lhe tem, sem que seja certo que o Oriente acorra. No fim das contas, queiram ou não, e com o devido respeito por um continente magnífico, nós não somos África (ainda que uma certa cegueira masoquista às vezes faça as pessoas duvidar se muita gene em Portugal é na verdade cidadã do país, ou de algum dos novos países, mas que não necessitam, por uma questão de estômago que possuem, de tão rebaixada devoção, como se se tivessem tornado em substituto da Nossa Senhora de Fátima). E, a propósito do final do parêntese, creio oportuno – ou talvez tremendamente inoportuno e por isso mesmo conveniente – lembrar aos devotos mais devotamente saudosos dos bons tempos daqueles bispos que abençoavam o Salazar & C.ª com muita água benta, que jamais, em parte alguma, a Igreja deve imiscuir-se em política enquanto tal, e muito menos jogar na carta suja de misturar a «desordem democrática» com os perigos que as devoções podem ocorrer, mais, é claro, a permanência da cristandade. Eu tenho maior respeito pelo catolicismo. Mas posso resumir politicamente o resto do meu respeito, numa proposta que não é a primeira vez que apresento. Toda a gente sabe que, por século, a presença do papa na Cidade Eterna tem sido um bico-de-obra para a Itália: E toda a gente sabe que as Nações Unidas em Nova York são um bico-de-obra para as ditas cujas bastante desunidas mas é o melhor que se pode arranjar. Ora o Vaticano é um colossal repositório de tesouros pertencentes ao património da humanidade. Enquanto grande parte dos investimentos da Igreja estão nos Estados Unidos, aonde está também uma das maiorias concentrações de católicos do mundo. Pois o que se deveria fazer para boa harmonia, e maior esclarecimento de toda a gente, é bem simples: instalar o Vaticano nas Nações Unidas, em Nova York, com o papa, os cardeais assistentes, os bispos sub-assistentes, os cónegos auxiliares dessa gente toda, e mesmo as condessas e baronezas romanas que, há séculos, têm papel preponderante em todas as questões, desde anular-se um casamento a fazer-se um novo santo. E pôr as Nações Unidas em Roma, guardando «unescamente» aquele palácio imenso e aqueles tesouros esplêndidos (menos, é claro, aquelas catedrais feitas de caixas de fósforos que a gente é obrigado a admirar a caminho da Capela Sistina e dos biquínis que continuam a cobrir a nobreza criadora de Miguel Ângelo). Posto isto, retome Portugal o fio da sua História, de que não tem que envergonhar-se: esse sentimento de vergonha foi sempre uma das manobras dos imperialismos que desejam desarmar o espírito de um povo. Reze, se quer, pragueje, se lhe apetece, politicalhe o que necessite. Mas tendo sempre presente que há uma democracia a defender de tudo e todos, um povo que mobilizar para a tarefa de reconstruir uma pátria mesmo que seja a ranger os dentes de raiva por não ter tido as revoluções que queria, e um país em que acreditar e fazer acreditar, para lá de tudo o que possa assacarse a qualquer governo. Tudo o que não seja isto, só tem um nome que, noutro contexto mais acima, eu não quis escrever: traição. Depois, o futuro dirá, porque o mundo dá muita volta. Estes quatro anos foram um acervo de contradições, de sonhos, de delírios, de absurdidades, de realização, etc. Que queriam que eles fossem, no jogo de forças que divide o mundo e comanda tudo em toda parte? Pois cocem-se consolados, que ainda estão com muita sorte que cumpre a todo o custo não perder. E viva a República!

Grato pela oportunidade, subscreve-se o

 

Jorge de Sena

[*] Publicado com o título de “Longa experiência de liberdade que é ainda breve e inquieta. Depoimento de Jorge de Sena em forma de carta a Artur Portela” no dossier “25 de Abril” da revista Opção, Lisboa, 27 de abril de 1978.

Atualmente integra o livro Rever Portugal – Textos Políticos e afins. Lisboa, Guimarães, 2011. p. 357-365.

 

Discurso da Guarda

Em áudio: Trechos do Discurso na voz de Jorge de Sena

entrevistasDiscurso proferido na cidade da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”. Além de Jorge de Sena, foi orador Vergílio Ferreira, na presença do Presidente Ramalho Eanes, de altas autoridades e de enorme platéia. (Destacamos em negrito no texto, o trecho em áudio)

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É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,]* em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.
Sejamos francos e brutais. Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o país, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. Deste modo, celebrar as Comunidades Portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do país é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral. O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.
Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Mas o restituir a quem o podia ler e o podia sentir mais fundamente um pouco de confiança em horas difíceis, é um acto de caridade, essa virtude que não é só cristã porque é, desde antes do cristianismo, a própria essência da civilização: a solidariedade humana quando a dor nos fere. E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi, ou denegrido como também foi desde a publicação do seu poema, é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. Camões e a sua obra têm pago esse preço como todos os outros. Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa: tê-la-iam por exemplo dois homens que merecem o nosso respeito: Almeida Garrett e Teófilo Braga. E quanto à reacção mais recente em face de Camões, eu lembro apenas dois pequenos exemplos em que a censura o proibiu, se não estou em erro: o caso do jornal de Vila do Conde, em que um tio de José Régio usava publicar os clássicos, citando-os convenientemente, e o da revista Vértice, de Coimbra, que fazia o mesmo. E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outro eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida: o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando, no liceu, líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. Claro que nós todos íamos logo ler as passagens “proibidas” e lendo-as assim, com olhos libidinosos, perdíamos a grandeza delas: a majestade do sexo e do amor, a magnitude da liberdade e da tolerância, a inocência magnífica do prazer físico e da paixão erótica, que, acima de tudo, Camões cantava e celebrava nessas passagens com uma abertura de espírito e uma audácia espantosas. Será possível que os frades o tenham feito alterar algumas coisas antes de publicar Os Lusíadas. Mas, em face de algumas daquelas que lá ficaram, temos de reconhecer que, mais do que aquilo, só um poema francamente pornográfico, incompatível com a dignidade e o decoro da grande epopeia que Camões desejou escrever e escreveu.
Tem-se dito que o grande protagonista da epopeia é o povo português, e na verdade o povo aparece, segundo as tradições clássicas, representado apenas pelos seus heróis, aqueles que Camões seleccionou para o efeito, à excepção dos marinheiros anónimos que acompanhavam Vasco da Gama ou os seus guerreiros anónimos sem os quais não haveria a magnificente descrição da batalha de Aljubarrota ou análogos momentos. Aqueles marinheiros, como o próprio Vasco, são deificados, ou transfigurados epicamente na Ilha dos Amores, em condições sem dúvida moralmente impróprias de quem deixara família em Portugal, mas altamente consentâneas, se me permitem a rudeza, com a promiscuidade sexual notória do povo português, ao mesmo tempo que de acordo com as convenções épicas e mitológicas pelas quais os heróis se dignificavam no conhecimento (que aqui uso no sentido intelectualmente neo-platónico e no sentido obscenamente público) das entidades divinas. Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos, e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas. Até certo ponto, isto é verdade. E é-o por algumas razões camonianamente importantes. Antes de mais, na filosofia que Camões assume e torna extremamente pessoal, os deuses pagãos possuem, como atributos do Deus supremo, invisível e silencioso, e como seus intermediários agentes, uma realidade autêntica que a criação artística faria necessariamente mais palpável e concreta. E é assim que nós vemos tão nitidamente Vénus, a Afrodite originária e primeva, um dos deuses anteriores a tudo, e também a deusa do amor que este sim, é todo poderoso – como a não veríamos? Ela é a amante, a esposa, a mãe, tudo o que o princípio feminino significa dentro e fora da nossa humanidade, naquelas complexidades psico-sexuais a que Camões se compraz em aludir, servindo-se de alusões mitológicas que parecem meros ornamentos ao longo da epopeia inteira. E como não veríamos Baco ou Diónisos, receoso de ser castrado da sua lendária glória de conquistador da Índia? Se, como descendentes de Luso, descendemos dele, e ele é o nosso pai receoso do triunfo e da liberdade dos filhos? Como não veríamos Júpiter, se ele é de certa maneira a providência divina, sempre disposta a sucumbir, mesmo incestuosamente, às atracções do amor? Estes deuses, na dialéctica camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra, e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. E é neste mesmo sentido que as referências a Cristo devem ser entendidas nos contextos camoneanos: ele é, supremamente, para Camões, o princípio divino que, como um fogo de vida, desce a encarnar-se humanamente, mas é também o homem, o herói humano que, pelo seu sacrifício, ascende ou regressa ao divino. E é este heroísmo do apostolado e do sacrifício o que, em toda a sua epopeia, Camões propõe continuamente pela referência ou pela narrativa. Até Inês de Castro, a grande matriarca do poema, ascende à glória épica pelo seu sacrifício de amor. Porque para o amor, para todas as formas de amor, Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é, para ele, a todos os níveis, a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor, não há heróis, nem há homens dignos desse nome. E amor, mesmo numa epopeia que transborda de feitos bélicos e de acções guerreiras, não existe sem uma infinita e total tolerância, um respeito pelos outros povos, as outras raças, as outras culturas, as outras religiões, ao ponto de, como já tenho chamado a atenção, o conceito de santidade ou a palavra santo se aplicar a todos, sem distinção alguma, cristãos, muçulmanos, brâmanes, etc., e até – não o esqueçamos – a uma ninfa que se deixa possuir, por bem requestada, na Ilha dos Amores. Este Camões de amor e tolerância permeia Os Lusíadas. Mas já se disse que, além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro (lembremo-nos de que as ordens daquele D. Sebastião a quem o poema é dedicado, dirigidas aos seus imperiais governadores, chamando-os à virtude e à dignidade, não tinham de tom diverso senão a diferença que vai de uma carta oficial a uma poesia de génio). E há nisso de Camões ser central uma enorme e profunda verdade que é o Camões-homem e o Camões-poeta. Não só ele se colocou, nos seus cálculos arquitectónicos do poema, nessa posição, e assim se colocando, se apresenta como a culminação da aventura portuguesa que ele conta, como o herói que o é por ser quem transforma Portugal numa obra de arte, acima das contingências históricas e da mesquinhês humanas. O Camões que na epopeia espreita ou se mostra a cada momento, roubando mesmo alguma realidade estética a tudo e todos, nós conhecêmo-lo e entendêmo-lo de outro volante do políptico que é a sua obra: o grande poeta lírico que é também um grande pensador, e que, na obra lírica como na épica, se apresenta como resumo e epítome da humanidade mesma, e não só do povo português. Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e – ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns – regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo. E essa construção ele trazia, reunindo o Portugal disperso, para o que ele deixara a vida, como disse, pelo mundo em pedaços repartida. Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.
Haverá ainda quem diga que esse homem cantou a expansão imperial, apesar de tudo, as conquistas imperiais do Oriente, e está portanto fora do nosso tempo e do nosso espaço históricos, e a sua epopeia ofende a consciência das Ásias e das Áfricas. Mas ele cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável. Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos. Isso Camões cantou: e vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida.

 

Paris, 3 de Junho de 1977.

* Corrigimos aqui um evidente lapso que aparece em todas as edições do texto impresso.

 

Depois do “Discurso da Guarda”: carta aberta a Ministros

 

Com a acidez agressiva que muitos lhe reconhecem, JS dirige esta carta aberta aos Ministros de Estado responsáveis pela emigração portuguesa e pela representação de Portugal fora de seu território. Em vários passos avalia o “Discurso da Guarda” e as circunstâncias que o cercaram, sem deixar de lado a figura do grande homenageado e tudo que ele representa. Datada de 26 de março de 1978, só a 3 de maio veio à luz, num “destacável’ do Diário Popular de Lisboa. Note-se, particularmente, ao fim, a longa “assinatura”, pejada de ironia.

 

 
Carta Aberta ao Ex.mo Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, e também aos Ex.mos Secretário e Sub-secretário da Emigração

Começo por pedir desculpa, ao dirigir-me primacialmente a V. Exa. Sr. Ministro, e também aos acima referidos membros do Governo, de náo mencionar nomes, não por qualquer calculada ou involuntária falta de respeito, mas porque os membros dos governos em Portugal têm mudado tanto, ou têm trocado entre si tantas vezes as mesmas cadeiras, ou estas cadeiras têm mudado de nome tantas vezes, que creio humanamente impossível ao povo português, quer o que vive e labuta em Portugal metropolitano (do qual até os chamados Distritos Autónomos já estão longe, pela distância que os separa do secular e sempre permanente eixo São Bento-Terreiro do Paço, que este último, ao menos no tempo das ladroeiras no Oriente e nos Brasis, não tinha São Bento com que reparti-las), quer, com maioria de razão, o que vive no estrangeiro, e para fins de retórica demagógica e de colecta de fundos para o desgoverno de Portugal, é sempre, e cada vez mais, com crescente desvergonha, cinismo e hipocrisia, chamado «português», com uns braços larguíssimos abertos em ansioso e lacrimoso apelo fraterno de cortar as almas incautas, se é que ainda subsistem portugueses desses em que possa pegar esta lambugem repelente, que cumpre denunciar em público de uma vez para sempre, com promessa dc repetição mais violenta de cada vez que qualquer dos Senhores tornar a repetir, seja onde for, afirmações de semelhante quilate. E poderão estar certos de que a mim nem a morte me cala, como acabará por calar e sumir nas sombras dela a maioria dos Senhores, de todas as cores e feitios, com suma caridade patriótica, apagando os vossos nomes e dos vossos comparsas, da lista dos ilustres da Lusitânia, na qual, como tem sucedido desde D. Tareja, a fundadora do Condado Portucalense, e senhora — já então — de notoriamente patrióticos maus costumes, numerosa gente tem feito por ser incluída, por mais que mudassem os reis, os sistemas de governo, etc., para não falarmos de revoluções gloriosas ou não, e de guerras civis de mais segura ou mais duvidosa glória.

Como é sabido de algum modo pelas pessoas de algumas letras em Portugal, e é sem dúvida sabido claramente pelo povo português mesmo sem letras mal gastas e desrespeitadas, desde que a ele e gara.ele falei, em 10 de Junho de 1977, nas comemorações nacionais na Guarda, eu tenho alguma autoridade — ainda que nada de oficial em sector algum — intelectual, moral e política para falar de Portugal e dos seus filhos, e da cultura que é chamada portuguesa, nos seus mais diversos aspectos. E como criatura que nasceu em Lisboa, filho de pais portugueses, aí viveu até aos quarenta anos, e de Portugal se exilou para o Brasil por motivos sabidamente políticos, aonde se tornou por necessidade e simpatia «cidadão brasileiro» (ponto de suma importância para o entendimento público desta carta aberta), e manteve sempre a sua casa de Lisboa, aonde, desde que em 1968 lhe foi possível regressar ao País (para ser imediatamente preso na fronteira e transportado para a Espanha pela PIDE, tendo depois sido autorizado a entrar, devido ao escândalo internacional logo desencadeado, altamente inconveniente para a fachada conciliatória que a ditadura de então desejava no momento assumir), sempre têm estado ele, sua Esposa, e alguns dos seus nove filhos, casa essa que o governo de Salazar tentou tirar-lhe uma vez, e a Revolução de Abril, pela qual o presente signatário sacrificou muito da sua vida e da dos seus ao longo de trinta anos de antifascismo (sem dúvida um respeitável recorde no Portugal de hoje, tão cheio de honrados e poderosos antifascistas que, não há muito, a gente podia ver em farda, palavras, obras e lucros de outra cor), tentou roubar-lhe duas vezes (precisamente ao pretexto daquela ausência minha que S. Exa. o Sr. Presidente da República galardoou com a Ordem do Infante D. Henrique, chamando-me «emigrante ilustre» que tem prestado no estrangeiro alguns serviços meritórios), criatura, o signatário que agora trabalha regularmente, desde 1965 nos Estados Unidos da América, onde, desde 1970, vivendo na Califórnia, está em estreito contacto com vastos sectores da colónia portuguesa e luso-americana, também mais alguma autoridade lhe não falta (com perdão do longo período que nunca afligiu os analfabetos quando falam a língua portuguesa viva, mas sim os semianalfabetos quando a escrevem ou lêem morta) para responder ao Sr. Ministro.

A razão desta resposta é a mensagem de não sei que data (e estas lamentáveis coisas, pelo carácter de repetidas e mastigadas, e o mais que já ficou dito, em verdade não têm data nem a merecem) que o Sr. Ministro lá pelos idos de Fevereiro ou Março distribuiu pelo Universo, e me chega agora no prestimoso boletim informativo publicado e distribuído pelo Consulado-Geral de Portugal de São Francisco (cidade muito próxima de mim, mas a 600 km). E antes de entrarmos na purulenta matéria, perdoe-me o Sr. Ministro uma outra falta: o não tratá-lo continuamente por V. Exa. Eu ingenuamente pensava que uma das conquistas da Revolução de Abril havia sido, não direi a abolição do Vossa Excelência (que deve reservar-se para os mais altos magistrados da Nação como o Presidente da República), mas a diminuição do seu uso. Ingénuo era: nunca se viu em Portugal tamanha multiplicação de Excelências como desde Abril de 1974, tal como nunca tanta gente que não é Doutor em coisa nenhuma senão em mudar de cadeira governativa, ou ser chefe de partido político, é Doutor, sendo muito simples e honestamente só Licenciados por terem ganho os respectivos canudos nas universidades salazaristas que é o que aconteceu com quem ainda não anda pelos setenta anos. Diga-se de passagem, e não fica mal a propósito, que com os títulos se deu o contrário do que sucedeu com aquele oficial A Bem da Nação que o Salazar mandara pôr no fim de todos os escritos emanados de entidades idem. Muito bem abolido foi. O que todavia cada vez mais parece, na politicagem de que não há grupo nenhum que possa procla-mar-se inteiramente limpo e inocente, é que a abolição daquela fórmula foi tomada demasiado ao pé da letra, com o desastroso mas evidente resultado de que, ao deixar de escrever «a bem da Nação», muita gente de responsabilidade, por si mesma jogando com a irresponsabilidade alheia, passou a confundir o bem do País com o seu próprio, e a esquecer que a Nação realmente existe, abaixo e acima das combines e traficâncias, e mais dia menos dia virá pedir as contas dos milhões desaparecidos.

Posto este intróito informativo e moralista, entremos em matéria, esquecendo de momento o adjectivo que ela merece. E, para começarmos por alguma parte, comecemos pela honra insigne que — é verdade — eu tive a oportunidade de conferir a mim mesmo: a de ter falado na Guarda, a 10 de Junho de 1977, ao autêntico povo português de Portugal e de toda a parte (na medida em que, como é sabido, uma manifestação puramente nacional e de projecção internacional, não foi prejudicada por uma falta de cobertura notória, que, no dia seguinte, motivou, no almoço de encerramento das festas mais oficiais, o veemente protesto de S. Exa. o Sr. Presidente da República). Como nota de pé de página, e para informação do verdadeiro povo português e dos emigrantes em nome dos quais protesto aqui, seja-me permitido apontar que de uma antologia de poesia de Camões, preparada não por um camonista, mas reeditada de outra já existente, organizada por um distintíssimo poeta contemporâneo, se mandaram imprimir para distribuição pelo Universo inteiro, centenas de milhares de exemplares, ao que consta, e por certo que alguns ganharam bastante com isso, e entre eles, por acidente, o próprio Camões. Todavia convém sublinhar que o folheto de uma reunião tão transcendente como foi a da Guarda em 1977, contendo os discursos de Vergílio Ferreira e o meu, além dos das personalidades, como o Exmo. Presidente da República e outros, que, por dever de ofício ou de responsabilidade na organização da mundial celebração do Emigrante, lá falaram também, esse folheto, impresso em Lisboa, em Setembro de 1977, foi-o numa modestíssima edição de escassos 20 000 exemplares, evidentemente não destinados a mais que uma simbólica e invisível distribuição,fctalfcomo aquela «cobertura» que fez o Sr. Presidente da República protestar, no fim do almoço, na cidade mais alta de Portugal (cujo distrito é o que tem exportado, para as Franças e Germânias, o maior contingente dos únicos emigrantes que, para lá e dentro de todas as hipocrisias, são os que realmente contam para as necessidades reais ou sôfregas do orçamento continental ou metropolitano). Como se vê, agora como no tempo do salazarismo, nem toda a gente possui ou recebe os mesmos direitos (os discursantes da Guarda, pelo menos os literários, foram apenas pagos com a viagem em transporte oficial e as esposas arrumadas na última fila das dezenas e dezenas de convidados) de ser égua de cobertura ou cavalo de cobrição. Isto para falarmos em metáfora de cavalaria, que é tradicionalmente, com o devido respeito, a mais acessível às classes dirigentes e governativas.

Temos de reconhecer que, para aquelas festividades à escala mundial, de 1977, e que agora se decidiu que serão, como Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, repetidas, por certo que a escala menor, todos os anos (embora o escamotear do pobre Camões por dentro das «comunidades», o que está certo, dado que, de entre todos nós, ele foi, por cerca de vinte anos de vida, o mais ilustre emigrante, se pareça muito com a falta de cultura que tem feito propagandear-se certa vergonha de Camões ter existido, quando o pobre triste já sabia e disse, há quatrocentos anos, da sua amarga vergonha de ter nascido entre gente que não merecia o seu canto, e ainda ele não tinha visto nada…), houve o cuidado novo de convidar para discursantes e recitantes, urbi et orbi, escritores ou artistas na sua maioria de reconhecido mérito. Sem dúvida que isto é de registar-se e louvar-se, esperando-se que, no futuro, não se transforme em mais um pretexto para voos internacionais da compinchada para ir tratar dos seus (dela) direitos autorais e outras oportunidades nos países aonde, segundo a fórmula oficial — literalmente muito justa — a selecção dos autores a traduzir se faz só segundo a «qualidade», sem que se explique que essa qualidade não significa necessariamente superioridade estética, mas sim que os indivíduos são, pelas entidades competentes, garantidos como, senão praticantes estritos do Realismo Socialista, pelo menos pessoas que convém usar ou são quem os analfabetos competentes incluem na lista dos compinchas (às vezes só da cerveja ali para os lados da Trindade, em Lisboa). Reatemos, e que nos perdoem os numerosos parênteses elucidativos, requeridos pelas oportunidades de informar o público alguém, como o signatário, que tem sido sempre suspeito de cripto-comunista para as Direitas, enquanto as Esquerdas há quarenta anos que o usam, sempre desconfiadas de que ele é um perigoso «direitista» (quem me chamar ou disser-me fascista será perseguido em justiça, se houver ainda em Portugal um advogado com, para usar-se uma expressão de cunho popular, «eles no sítio» e não atados por um fio a qualquer manjedoura partidária).

Pois o caso é que eu, de Abril a Junho de 1977, estaria e estive de licença sabática da minha Universidade, sendo minha intenção visitar a Europa em Maio e Junho, no que se incluía passagem por Portugal. Subitamente e inesperadamente, fui chamado de Itália a ir receber o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina de 1977, o mais cobiçado prémio internacional que um poeta pode receber, mas que, em Portugal, conta pouco ou nada, por duas importantes razões: primeiro, ter sido eu o distinguido (o que dá dores de fígado a numerosos vates e seus admiradores que há anos me perseguem com a sua inveja), e segundo, porque a geografia literária lusitana, nestas matérias, não vai além dos Alguidares de Baixo, aliás dignos, da Bélgica, ou daqueles prémios sempre suspeitos de sórdida politicagem e outras coisas mais feias ainda, que costumam ser dados por uma dessas chafaricas académicas do Mundo, estando esta, com os seus competentes analfabetos, sita ali para os lados de Estocolmo. Pois sucede que por ocasião da minha viagem, que me fez ficar pela Europa até fins de Junho, eu fui contactado pelo Sr. Major Vítor Alves, organizador supremo das comemorações e, oiais acontecimentos, e tive com ele uma primeira entrevista que se destinava a convidar-me a ser um dos falantes algures no grande Dia. E como aquele ilustre membro do Exército sem dúvida se recorda, a proposta que me foi feita consistia entre ir falar à Venezuela aos portugueses dos pitróis (que também contam nas remessas para a pátria), ou falar na Guarda, como representante dos emigrantes estabelecidos nas Américas. Que se tenham lembrado de mim, eis ao que sou grato. Mas o caso é que eu não ando a dormir, e, com precária saúde, estando na Europa, não ia voar-me para Caracas em 10 de Junho, por muito respeito e estima que eu tenha pelas culturas e pelos explorados e escravizados povos da América Latina, que o têm sido todos muito mais desde que, há mais de um século, a «pérfida Albion» (vulgo, Inglaterra) os ajudou a «libertarem-se» do jugo colonial da Espanha e de Portugal (lição que os povos africanos estão repetindo e aprendendo à própria custa, por mais que seja partidário da independência deles, como eu fui desde sempre, e ainda me lembro dos calafrios e silêncios que tal ideia causava aos revolucionários civis e militares que conspiravam comigo nos anos 50, quando eu insistia por esta declaração de princípios). Claro que, entre andar para trás e para diante e ir perorar a Caracas, ou aproveitar a ocasião de falar na principal das comemorações nacionais, eu escolhi falar na Guarda. Creio não errar se anotar que Vergílio Ferreira foi convidado a discursar não por ser o altíssimo escritor que é, mas por imposição local como glória regional das Beiras, e ele escreveu um esplêndido estudo sobre Camões, que ninguém ouviu, porque não era um texto para tal ocasião em que era necessário literalmente gritar à multidão — o que muita gente achou estranho que eu fizesse, quando me viram aos berros na TV, pela simples razão de que a TV nunca mostrou a gigantesca massa de povo que das mais variadas partes e reais aldeias confluíra para a Guarda e se amontoara avidamente à nossa volta, num dos mais comoventes momentos de espontaneidade popular a que me foi ou será dado assistir, e, sem fabricos partidários com muitas camionetas e muitos automóveis transportando o «povo» do costume (como é difícil não repetir o único modelo existente e de relativa eficiência, como eram as «manifestações espontâneas» da Outra Senhora… tanto mais quanto o povo cada vez mais quer obras que paleio e misteriosas combines nunca explicadas, como as que se sucedem desde antes de Abril de 1974, cala-te boca). E mais uma nota de pé de página, quando eu, o Vergílio, as nossas caras-metades, Conselheiros da Revolução, membros da Casa da Presidência, o Exmo. Presidente da República e Sua Esposa, pousamos no campo de jogos da Guarda, e saímos dos dois helicópteros oficiais, éramos aguardados pelos membros do Governo, outras altas autoridades, e uma imensa quantidade de povo que se estendia desde ali até à Câmara aonde o Sr. Presidente foi recebido pelas autoridades locais. A marcha desde o campo até à Câmara foi a pé, como depois daí para o Hotel Turismo, aonde se albergava já o Governo e se albergavam também os recém-che-gados. E foi quando me deu o destino de saborear o magnificente e realmente democrático espectáculo de ver toda aquela quantidade de simbólicos representantes do eterno e centralizador Terreiro do Paço não conseguirem maior distinção que serem levados de roldão pela massa popular, que lhes puxava pela manga, lhes berrava aos ouvidos o que pensava, etc., etc., e os largou intactos e a respeitosa distância ao começo dos degraus do hotel. Será que terão aprendido alguma coisa? O futuro, tão incerto, o dirá, mas o povo sem dúvida que, com tudo o que o engana e leva à bebida, aprendeu muito nestes últimos quatro anos.

Ora voltemos ao ponto de eu ser convidado a falar na Guarda, no que é, para os portugueses de Portugal, tão ciosos do espaço que lhes resta (e também do dinheiro alheio que deve continuar a chegar de fora), uma dupla e saborosa ironia — muito mais complicada do que alguns imaginam ou sabem — e que muito importa ao principal assunto desta Carta Aberta. Quando em 1959 me exilei no Brasil, e me fizeram lá catedrático de Literatura, as condições da minha vida e dos meus eram as mais precárias: eu era e seria sempre contratado por não ser «Doutor», e podia perder o emprego em resultado de qualquer intriga (o que, na melhor tradição das culturas de língua portuguesa, nunca lá me faltou nos meus seis anos de residência brasileira, e não vem ao caso). Mas precisamente por isso é que ninguém me deixava fazer doutoramento, para que o «portuga» não tivesse segurança (durante anos não foi diversa a situação do meu velho e saudoso amigo Casais Monteiro, meu colega de universidade). A única saída foi uma luta homérica que devo a amigos brasileiros que honram o Brasil, e de alguns dos quais já só tenho a nobre memória para venerar: conseguir-se — o que era legalíssimo mas sumamente raro e difícil compreensivelmente — o reconhecimento, por obras e actividades, do chamado notório saber por parte do Conselho Superior de Educação, e a consequente autorização para que eu me submetesse ao concurso de Livre-Docência, análogo em tudo a um concurso de cátedra, mas título superior ao de Doutor cuja concessão oficial desse mais alto concurso decorria. Naqueles idos negros dos anos 60, todos nós no Brasil (excepto, é claro, aqueles portugueses da Oposição que iam pagos para vigiar as nossas actividades oposicionistas, e tratar de suprimi-las o mais possível em suas repercussões, com a mais completa colaboração da quase inexistente «resistência interna», ou a «externa» de outros focos, que invejavam qualquer influência daqueles que primeiro haviam no Estrangeiro denunciado alto e bom som a opressão salazarista) imaginávamos que nunca mais voltaríamos a Portugal (já que não tínhamos emprego respeitável de mártires da clandestinidade), e que o melhor era sermos cidadãos brasileiros, pagando a hospitalidade que desfrutávamos, apesar do desgosto de muitos que disfarçavam às vezes de anti-salazarismo o que era aquele antiportuguesismo que muito português de Portugal não entende e julga ser uma justíssima reacção contra o colonialismo e o imperialismo, quando é na verdade a máscara com que as classes dirigentes do Brasil escondem, há bem duzentos anos, o seu conúbio íntimo com aqueles dois «ismos» que lhes garantem e perpetuam o Poder. No meu caso, porém, a naturalização não era só decisão de ficar e gratamente: era também uma absoluta imposição legal, já que no Brasil, pelo menos naquele tempo, [se] se podia ser estrangeiro e Doutor, não se podia concorrer a Livre-Docência ou Cátedra sem ser-se cidadão. A este respeito, ainda que os direitos adquiridos sejam quase os do cidadão-nato, há que notar que o Brasil trata, por carimbo, o naturalizado como cidadão de 2.a classe, pois que por esse meio o passaporte informa o Universo de que o sujeito é «brasileiro por naturalização» (o que para o Universo não tem importância alguma, mas para os brasileiros tem, e por isso mesmo o proclamador da Independência, ou seja o Pedro IV de cá, depois de ter sido o Pedro I de lá, foi corrido a pontapé na primeira oportunidade, sendo que uma das suas principais faltas era ser… português-nato, ainda que, pelo grito de Ipiranga que berrou, se houvesse realmente proclamado a si mesmo o «brasileiro n.° 1», visto que os mais tiveram de requerer-lhe a ele a nacionalidade). Isto de eu ser «brasileiro» tem causado inúmeros engulhos e grandes vantagens a Portugal e a portugueses, como adiante se verá. E é que então (exactamente quando com tão grandes manifestações de consideração por mim me era dado escolher entre Caracas e a Guarda) oficialmente, oficiosamente, e através de várias entidades e criaturas, orquestrava-se o bloqueio à apresentação da minha candidatura a um prémio literário internacional, sob o declarado pretexto de que eu era brasileiro e não podia ser proposto (o que era, no caso, uma refinada falsidade, sabido que é não serem tais candidaturas necessariamente apresentadas ou apoiadas pelos governos nacionais, e assim por exemplo, se nos ativermos ao Nobel, a candidatura de Juan Ramon Jiménez, grande poeta da Espanha, foi apoiada por recomendações da América Latina e dos Estados Unidos, e é sabido que os prémios dados a Pasternak e a Soljenitsine não tinham, nem podiam ter, o apoio da União Soviética). Não vou entrar na história inoportuna dos numerosos prémios portugueses que, a todos os pretextos, me têm sido roubados à última hora, ainda quando nem sequer sei que me tinham posto a concorrer a eles — seria uma longa e malcheirosa história que não importa aqui. Mas há um que sumamente importa: foi quando em princípios de 1969, no meu regresso a Portugal, de visita, após oito-nove anos de exílio, me foi atribuído o Prémio Nacional do Diário de Notícias, conforme declaração escrita, e verbal ante testemunhas, do falecido Dr. Augusto de Castro. Eu possuo as cartas dele, em que me é explicado como, à última hora, personalidades houve que sublinharam a impossibilidade de eu receber o prémio, por ser brasileiro. Se um sujeito que é tido como um dos mais respeitáveis escritores portugueses deste século, segundo a crítica e a Imprensa, é discriminado assim, que pode esperar da hipocrisia metropolitana qualquer emigrante anónimo sem conta no Banco (que eu nunca tive nos Estados Unidos, em Portugal ou no Brasil, e muito menos na Suíça, com perdão da referência que não sei ao certo a quem sirva)? Responda ou cale-se, e de preferência cale-se, que todos Vossas Excelências o que têm é falado por de mais e a desoras.

Pois é verdade — lá ia o «brasileiro» falar à Guarda em nome dos emigrantes sobretudo na América do Norte, onde as vicissitudes da América Latina me puseram, ao tempo em que eu não podia voltar a Portugal. Mas é claro que isto era esquecer os meus sentimentos democráticos e era ainda, e sempre, funcionar mentalmente nos esquemas centralistas e autoritários do Estado Novo, com a habitual inocência. Tinham-me os portugueses dos Estados Unidos e os luso-americanos plebiscitado para os representar? Não tinham, ninguém os ouvira (tanto mais que eu não fui parar a Caracas por esperteza minha), ainda que eu não duvide que o tivessem feito, se devidamente consultados. Eu era, como sempre, pura e simplesmente nomeado representante deles por um acto gratuito (em todo o sentido da palavra) da eterna Lisboa ou Lísbia onde nasci, ou do seu simbólico Terreiro do Paço. O que na Guarda aclarei devidamente, com os mesmos democráticos argumentos, e dizendo que só tinha autoridade para falar em meu próprio nome. Acerca da minha nacionalidade brasileira, que assim se tem provado tão vantajosa a alguns, há uma deliciosa nota complementar que os Serviços do Ministério dos Negócios (que palavra infeliz) Estrangeiros por certo não ignorarão. É que, para efeitos de imigração (com i, para quem entra), os Estados Unidos da América não reconhecem nem aceitam nacionalidades segundas, pelo que, oficialmente e legalmente, embora com um passaporte brasileiro, eu continuo português nos Estados Unidos, ainda que não em Portugal sempre que é conveniente. Aqui têm VV. Exas., com muito resumo, o que tem sido para mim ser «emigrante» vai para vinte anos, e em dois países, e que reflexos isso tem tido na minha existência lusitana. Passemos agora aos emigrantes a quem, com tanto trémulo de garganta, mensagens são enviadas. Não sem primeiro eu dizer que, se não tenho remetido para Portugal o dinheiro que não me sobra, nunca em cerca de vinte anos de ausência de lá retirei os parcos dinheiros ganhos com as edições dos meus livros que longamente têm estado na lista negra das entidades compradoras de exemplares (antes e depois de Abril, sem diferença), e nunca foram incluídas nas leituras obrigatórias de nenhum partido político, o que faz uma grande diferença, quanto a aquisições populares e outras.

Pois o caso é que, na verdade, o País tendo desbaratado o que tinha e o que não tinha em fazer e desfazer Abriladas, com uns quantos devotados ingénuos e uma catrefa de aventureiros à comparação dos quais os grandes malandros dos tempos salazaristas, além de serem em muito menor número, fazem figura de criaturas em dieta de Quaresma rigorosa (e eu não quero mencionar ninguém, mas permito-me recordar ao público leitor que este fazer e desfazer de revoluções que, na esmagadora maioria dos casos, ninguém jamais desejou para lá de agitações convenientes ou de vinganças e satisfação de ressentimentos e ambições pessoais, este desfazer e contrafazer, acompanhado sempre de muita gritaria, com muito pequena? diferenças, tem sido há quatro anos realizado praticamente pelas mesmas pessoas ainda que se disfarcem de outras e mudem de cadeiras e até de partidos — e que, apesar do desenfreado despautério, e além da inestimável liberdade que realmente se recuperou e defendeu, há um largo saldo positivo de verdadeiras conquistas sociais, no que não devemos esquecer a generosa amnistia tão prontamente dada, ou fuga, a numerosos «pidosos», antes de poder saber-se a quantos senhores tinham servido, ao tempo em que os Doutores e não Licenciados Salazar e Caetano eram quem oficialmente lhes pagava), pois é o caso que o País precisa imenso de que os emigrantes mandem as economias para a metrópole (terminologia dos tempos colonialistas) ou o Continente (terminologia das Ilhas ditas Adjacentes), mas, ao mesmo tempo, para continuarem a mandar esse dinheiro, fiquem lá onde estão, até porque, se pensassem em voltar trazendo consigo o tremendo capital, muitos deles, do seu trabalho especializado que o País perdeu, iam aumentar ainda mais o terrífico problema do desemprego lá onde muitos não querem trabalhar ou trabalham o menos que podem, outros acumulam empregos e luvas que é um nunca acabar de sangria, e muitos outros não têm trabalho porque os governos andaram a brincar aos socialismos, o que é uma brincadeira muito cara que só se sustenta com força de ditadura que mande apertar o cinto e dê porrada nos recalcitrantes, ou quando um país tem uma sólida economia de alta produção industrial capaz de pagar as benesses do socialismo que todos, ou quase todos, que mais não seja sob o simples nome de justiça social, temos portuguesmente desejado. Enfim, é tarde para choramingas, como quem regerá os destinos dos Estrangeiros Negócios saberá melhor do que ninguém, ao ter de dourar governamentalmente as amargas pílulas impostas pelos prestamistas que se conseguiram arranjar, e que não deram nunca nada de graça, a não ser ao Xá da Pérsia e aos coronéis da América Latina, como a outros conhecidos democratas, qual o governo da Indonésia a quem de Portugal se entregaram as vidas de Timor. O cómico e o ridículo disto tudo já eu o apontei na Guarda, em 1977, alto e bom som, falando ao povo e aos respeitáveis ouvidos governamentais, e não terei sido o primeiro e quem me dera ser o último. Antes da Revolução, que eu já chamei dos Cravos e dos Cravas, era um pavoroso crime do fascismo, denunciado com veemência e estatísticas em todas as oportunidades, a exportação de gado humano para a França e a Alemanha, empobrecendo-se tragicamente as reservas de trabalho do povo português. E era verdade: em vez de estabelecer-se verdadeiramente uma política de fomento, instalava-se uma desenfreada especulação financeira e imobiliária, sem qualquer base na realidade, que não fossem as remessas de numerário feitas por esses trabalhadores (que os emigrantes da América tenham por anos e anos sustentado os Açores nunca passou pela cabeça de ninguém, até à hora do susto de ser agitado, por interesses sumamente escusos, o fantasma de uma independência que acabaria com eles em algo semelhante a Havai ou a Porto Rico). Chegou a Revolução Libertadora que a gente desconfia terem sido muitas que nem todas sabiam umas das outras, entre elas sem dúvida, ainda que ele discretamente não tenha dito nada e provavelmente não o diga nunca, a do próprio Doutor Caetano que se sabia num beco sem saída por todos os lados, e deixava a herança aos que se propunham havia tanto (outros mais recentemente, como é sabido, e para que, segundo a frase histórica, «o poder não caísse na rua») salvar a Pátria e mais pertences. Tem sido, como é sabido, uma grande Salvação que, com perdão da desagradável comparação, mais parece o epílogo farsesco do Salve-se Quem Puder do Caetanismo, que, em 1972, tive oportunidade de examinar em Portugal, em Angola e em Moçambique. Mas, enfim, é o que se pode arranjar, e alegre-se a gente com a liberdade de falar e escrever.

Veio, pois, a múltipla Desrevolução (na verdade, segundo a retórica salazarista, a gente tinha já uma revolução que continuava desde 1926, e parar esta era o mais preciso); e, quando a gente esperava que Portugal, em ansiados gritos, conclamasse ao materno ou paterno seio (a gente nisto de mamas pátrias nunca sabe de que lado está) os filhos dispersos e abandonados da mãe-terra ingratíssima, qual nada: logo se começou a dizer que era melhor ficarem todos onde estavam, a mandarem para Portugal o dinheiro que voava, voava, que era uma dor de alma. Além do mais, eu peço infinitos perdões de lembrar acontecimentos tidos por clandestinos e impróprios de serem referidos. Portugal recebeu de repente as vagas sucessivas dos chamados retornados — e só este nome é uma das mais clamorosas faltas de competência, lucidez e até cinismo político das Esquerdas portuguesas. Com efeito, desses milhares e milhares de pessoas de todas as cores políticas e de pele, que a precipitação da chamada «descolonização» e das consequentes lutas civis logo desencadeadas em Angola atirou sem protecção alguma ou previsão alguma para Portugal, muitíssimos, nados e criados em Angola ou Moçambique, e por gerações de lá oriundos, não retornavam a parte nenhuma, mas escapavam-se (nem todos nascem heróis, como a maioria dos políticos profissionais bem sabe por experiência própria) da terra em que sempre haviam vivido, para uma outra que, se podia ser suposta uma lendária vaga mãe-pátria, lhes era totalmente alheia. Os realmente retornados eram só os «patos-bravos» que tinham, na década anterior a 1974, ido fazer a sua grossa maquia no Fim de Festa (e é melhor não inquirir quantos prédios de Luanda ou de Lourenço Marques — desculpem-me não dizer Maputo, que portuguesmente soa mal, e eu respeito e amo Moçambique — não foram ou ainda são pertença de muitos dos nossos heróicos libertadores de Abril e outros amigos deles, dos tempos em que, coitados, encalhados naquelas terras ou guerras bárbaras, que haviam eles honestamente de fazer senão investir o que elas lhes rendiam). As Esquerdas, na sua cegueira de cada qual se dar ares de ser mais à esquerda que o vizinho da esquerda, desejou apenas ver nessa gente, na sua maioria vítimas desorientadas, mas reaccionários pavorosos que era necessário isolar e exportar para não piorar ainda mais o desequilíbrio de forças notoriamente existente na população portuguesa, quer a gente goste, quer não goste. Como tudo era Esquerda, e havia muitas que todas se detestavam com o mesmo ardor com que hoje se detestam mais para a Direita, podiam, sem aquela cegueira, ter tirado um colossal lucro político do desastre. Em lugar de alienarem aquela gente toda que se viu logo rodeada dos cuidados e carinhos das Direitas encapotadas ou às abertas, podiam todos ter jogado em convencê-los que tinham sido os outros quem os havia traído, como a Direita dizia que sucedera. No fim de contas, essas acusações mútuas eram de regra, e nunca impediram a notória boa harmonia de sucessivas coligações ministeriais: mas teriam rendido tremendamente no caso, tanto mais que é sabido que toda a gente foi realmente traída numa ocasião ou noutra por alguém (na mais lídima tradição dos gloriosos fastos das imperiais traições lusitanas que eram o pão nosso de cada dia dos pobre rajás do Oriente, que confiassem num português governante), e a isso não escaparam, como é mal sabido, e sob as flores da mais devotada amizade, o PAIGC, a Frelimo, ou o sacrossanto MPLA, que o sabem muito bem. Não faltaria lama mútua, da qual se capitalizassem alguns dos «retornados» que a gente, creio eu, ainda vê esquecidos em enxergas no aeroporto de Sacavém, para ilustração de nacionais e estrangeiros no que seja a falta de vergonha a que se pode chegar. Para não falarmos puramente de «humanitarismo», sabido que somos, na verdade, uma raça de pêlos no coração, dura como o diabo, e mais impiedosa do que ele, sob a doce máscara da nossa grosseria risonha e satisfeita, capaz de despachar à sacholada o vizinho e amigo, só com pôr um pouco de cuspo nas mãos.

Silêncio, pois, discretíssimo silêncio quanto aos emigrantes e ao seu dinheiro. Este, e eles, darão provas de confiança na medida da confiança que Vossas Excelências inspirem ou com que sejam inspirados, no entalanço entre receber as patacas e contentar as conquistas da Revolução (muitas das quais são na verdade os numerosos tachos aos amigos, ou àqueles cuja amizade se pensa comprar assim). Mas cessem de uma vez, por amor à decência de cantar de sereias, para o que sem dúvida lhes faltam a voz e o físico atraentes que baste, além de lhes faltar a afinação política para cantar acertadamente. Ou então confessem de uma vez que estão a fazer a colecta para o funeral de 1980, quando há que celebrar dignamente as traições de quatro séculos antes. O maior problema que eu vejo é onde guardar-se higienicamente um cadáver de 90 000 km quadrados, cujos restos mortais ninguém deseja que não para bases estratégicas no Atlântico, fim para que os portugueses são inteiramente inúteis. Se essas bases tiverem de ficar, todos sabemos que há cubanos em Miami, ou em Havana, em número suficiente para mantê-las em nível de eficiência para os possíveis ocupantes.

Perdoem-me estas tão extensas e por vezes tão duras observações de um «emigrante» condecorado por ilustre isso mesmo. Mas era mais que tempo de dizerem-se umas cruas verdades que eu tenho independência e limpeza para dizer. Que os deuses vos iluminem, e conservem o Exmo. Presidente da República tão íntegro como o conheci, e tão independente e isento como o sei capaz de ser. E para terminar, Sr. Ministro, deixe-me confessar-lhe que tudo isto escrevi sem ter lido a sua mensagem, por absolutamente desnecessário. Creia que, cumprimentando em V. Exa. o Governo legal da República, se subscreve com o devido respeito, o

Jorge de Sena, escritor português, cidadão brasileiro, imigrante nos Estados Unidos da América, e com residência em Lisboa no nada aristocrático Bairro do Restelo, à Torre de Belém, magnificente símbolo do que não cabe no empequenecimento de um Portugal cujo enterro esperemos evitar.

Santa Barbara, Califórnia, 26 de Março de 1978

O outro discurso seniano do 10.6.1977 e o “Dia de Camões” nos USA. (1a. parte)

bandeiraEnquanto JS discursava na Guarda, outro texto seu — bem mais breve e contido — era lido em San Diego, na Califórnia, nas celebrações do “Dia de Camões”.

A propósito da comemoração da data em território americano, e da participação constante de JS, o texto do Professor George Monteiro nos traz elucidativos elementos.

 

While speaking at the Guard, another text by JS – much shorter and restrained – was read in San Diego, California, in the celebrations of “Dia de Camões”.

In concerning the celebration of the date on American soil, and constant participation of JS, the text of Professor George Monteiro brings enlightening elements.

 

[SAUDAÇÃO PARA O DIA DAS COMUNIDADES]
Sendo-me impossível estar presente, como tanto desejava, às comemorações do Dia das Comunidades Portuguesas, que este ano se realizam em San Diego, outro dos lugares da Califórnia aonde os portugueses têm marcado a sua presença e honrado com ela a pátria de origem e a outra pátria que os acolheu, não quero todavia deixar de estar aí nesse dia, e por isso a todos envio as seguintes palavras de saudação. Este simbólico Dia tem mais de um significado. E uma oportunidade de os portugueses e os luso-americanos se juntarem para recordarem, com saudade e com o orgulho, a sua pátria de origem, gloriosa entre todas, da qual ninguém deve envergonhar-se de ser filho ou ser um descendente. É uma ocasião de mostrar, com aquele espírito de paz e de concórdia, que os portugueses sabem ter quando querem, aos Estados Unidos e à Califórnia, que a cultura portuguesa existe, é recordada por quem se sente ligado a ela, e deseja ser reconhecida com a dignidade e o apoio público a que tem direito. E é, neste momento da vida portuguesa, em que tantas dúvidas e inquietações de vária espécie pesam sobre o futuro de Portugal, e sobre uma liberdade que Portugal voltou a conhecer após décadas de forçados silêncio e escuridão, algo mais e de primacial importância — o sinal firme de que todos os portugueses, para além do que possa ideologicamente dividi-los ou opô-los, colocam a unidade e integridade de uma pátria secular acima de tudo. Há pecados que se pagam caríssimo neste mundo e por gerações, às vezes sem remissão: e entre eles avulta o despedaçar-se de uma pátria una e indivisível. Portugal tem sobrevivido a tudo, numa longa história, porque jamais se dividiu, ainda quando os seus filhos lutaram uns contra os outros. Neste momento, porém, a mensagem que nos cumpre enviar a todos é a de unidade, serenidade, esperança, confiança no futuro de um país a quem, durante mais de cinco séculos, desde que foram descobertos e povoados, os Açores têm dado alguns dos portuguesa mais ilustres, sem contarmos os milhares e milhares de anónimos que, com o seu nome honrado, dignificam Portugal aonde quer que estejam, e tal como tem sucedido pelo mundo adiante, desde que Portugal existe. Veneram os açorianos, que são a esmagadora maioria dos portugueses e luso-americanos da Califórnia, o Espírito Santo, que é como que uma festa «nacional» para eles. Não tenho autoridade eclesiástica para invocar as bênçãos dele e a iluminação que Ele distribui. Mas, como poeta que sou, tenho autoridade poética para lembrar que o Espírito abandona quem renega o Pai ou quem não conhece o Filho como seu Pai e seu Irmão. Assim, que este Dia, em 1977, seja mais uma vez um grande dia de Portugal e para os portugueses.

 

* Texto sem título e sem data, lido na ausência de JS, em San Diego, California, no 10 de junho de 1977. Inédito até sua publicação em Rever Portugal – textos políticos e afins, Lisboa, Guimarães, 2011, p. 323-4

 

COMMEMORATING CAMÕES IN THE UNITED STATES: JORGE DE SENA’S LEGACY
by George Monteiro

Camões sem commemorações, necessários a vários outros respeitos,
é para nós mesmos neste momento, como nós seremos mais tarde ou
mais cedo, uma sombra…
Óscar Lopes, “Camões e Jorge de Sena” (1995)
The famous and highly regarded writer José Régio was asked to take the time to travel to Lisbon to record some of his poetry for dissemination at the International Colloquium on Luso-Brazilian Studies scheduled to take place in Washington, D.C., in October 1950. He refused to do so. He was not disposed to do any such thing, he informed Adolfo Casais Monteiro, his erstwhile colleague in the editing of the journal Presença, who had decided, mistakenly, it turned out, that Régio’s reluctance to participate in the venture was due to his proverbial shyness or timidity. Under renewed pressure, Régio felt obligated to elaborate on his reasons for refusing:

 

Embora obscuramente, (e tanto melhor se um bocadinho de populariedade do meu nome pudesse tornar tal reacção menos obscura!) lutarei contra certas americanices do mundo moderno. Pois Você pensa que esses discos poderão, realmente, contribuir para qualquer real interesse da América pela nossa Literatura? poderão ser real testemunho de tal interesse?! Deus me valha! A única maneira eficaz, autêntica, séria, de os Estados Unidos manifestarem qualquer interesse pela nossa Literatura—seria juntar, nas suas Bibliotecas, livros nossos, (como, alias, creio que em parte estão fazendo); depois promover a expansão, por todos os meios, desses livros: mas uma expansão real, fundada no seu conhecimento, e não em reclames que dispensam o conhecimento da própria coisa reclamada, e, sobretudo, traduzir aqueles dos nossos livros que disso fossem julgados dignos, e espalhar essas traduções…. Isto sim, será obra séria; seria obra séria.

 

Echoing countless numbers of writers before him—in Portugal and, of course, elsewhere—Régio makes his point. Reader neglect, though not just abroad—other countries, other languages—is the durable theme and chronic complaint of poets and writers in all languages. In Régio’s case, over a half-century since he voiced his complaint, his work is virtually unknown in the United States, apart from academic circles, and then only, one suspects, by those professionally involved with the literature of Portuguese-expression. Surely such complaints have lost some of their force in Fernando Pessoa’s case, at least in recent years, which have seen an impressive growth of interest in the United States. And in all fairness, they cannot be made about Camões, especially not beginning with the early nineteenth century. For although it is true that Camões has never been much celebrated in the United States (at least not ceremonially or in pageant-like fashion) it is equally true that Camões and his major work have been more widely appreciated than is commonly thought.
As I have tried to show elsewhere, principally in The Presence of Camões: Influences on the Literature of England, America, and Southern Africa, published in 1996, that while Camões’s work was known to writers working in the English language in the seventeenth and eighteenth centuries, it was in the nineteenth century that his work was most influential. In that century he was read by, among others, Joel Barlow, Edgar Allan Poe, Herman Melville, Henry Wadsworth Longfellow, Thomas Wentworth Higginson, Walt Whitman, Emily Dickinson, and Richard Henry Wilde (a poet and scholar who not only translated some of Camões’s sonnets but also wrote an important book on Camões’s kindred spirit, Torquato Tasso). Remarkably, however, there was no full translation of Os Lusíadas published in the United States until the exact middle of the twentieth century when the Hispanic Society of America brought out the fine version by the poet-critic Leonard Bacon. And while there are dozens of poetic tributes to Camões in English, only Melville, Kermit Roosevelt, and Leonard Bacon, among the Americans, have I identified to date as having written poems about Camões. As for public celebrations of the 3rd centennial, there was certainly not only nothing to compare with what took place in the British Empire, Brazil or elsewhere, but there were simply none whatsoever. Searches of the major newspapers and journals of the day turn up nothing regarding such celebrations. A search of Portuguese-language newspapers should turn up information regarding utterly local commemorations in social clubs or the like if, indeed, such commemorations took place.
In the romance and modern language departments of a small handful of universities, things were somewhat better. (Although it must be said, parenthetically, that there seems to have been precious few doctoral dissertations devoted to Camões in their entirety or in appreciable part defended in American universities. A quick count of the titles contained in the most complete listing to date of doctoral dissertations on Portuguese themes in United States universities turns up, as of mid-1995, only three certainties, and in one of those three, the name of Camões does not appear in the title. ) As a professor of languages teaching at Harvard University in the 1840s, the poet Henry Wadsworth Longfellow had anthologized both Camões’s lyric poetry and, in excerpt, his epic poem. His impressively inclusive (for the time) Poets and Poetry of Europe was first published in 1845 in Philadelphia and achieved several reprintings throughout the rest of the century.

In the late nineteenth and early twentieth century both Yale University and Harvard University had renowned scholars interested in Portuguese poetry—J. D. M. Ford at the latter, and Henry Roseman Lang at the former. And at Columbia University—it was announced in the New York Times in 1901—

 

A series of lectures on Portuguese poetry, which is thought to be the preliminary step toward the foundation of a course in Portuguese at Columbia, will begin at the university on Wednesday. The series will be given by William Tenney Brewster. It will consist of four lectures, which will be given as follows: April 3, “Portuguese Popular Poetry”; April 10, “The Predecessors of Camoens”; April 17, “Camoens”; April 24, “Portuguese Poetry After Camoens.”

 

It is interesting to me that Brewster was a member of the Columbia University Department of English, and that, in 1931, as reported in the New York Times, he donated to the University his “volumes of Portuguese literature,” along with—thoughtfully—“a fund for binding part of the collection.”

When, in the early years of the twentieth century, the Brazilian Joaquim Nabuco, a student of Camões and lifelong promoter of all things Camonean, found himself in the Washington as his country’s Ambassador to the United States, he took upon himself to give lectures on Camões at two major American universities in the East, Cornell and Yale, and at Vassar College. At the time of his death he was preparing a similar lecture for delivery at Harvard University. At Yale, Nabuco departed from his prepared text for a moment to implore Henry Lang, who was in his audience, to undertake a translation of Os Lusíadas. No such translation was ever published and my own look into his espólio, admittedly not exhaustive, did not turn up any evidence that he ever attempted such a translation. What seems most significant to me about Nabuco’s American lectures on Camões is that major American institutions such as Yale, Cornell, Vassar, Harvard were receptive, not only to Nabuco, but to the subject he had chosen—a Portuguese poet of the sixteenth century—on that must even then have been considered a bit off-beat for a Brazilian diplomat. That was a different time, of course; it is hard to imagine anything similar happening today.

Interest in Camões was expressed by another member of the Columbia University faculty when, in 1910, George Edward Woodberry, a professor of comparative literature, devoted a chapter to Camões, “the maker of the only truly modern epic,” in his well-received book, a collection of essays on the theme announced in his title, The Inspiration of Poetry. Of the man who wrote the first modern epic, Woodberry says, “Camoens shows in his verse as he was in life, with a naturalness and vigor, with an unconscious realism, a directness, an intensity and openness that give him to us as a comrade.” The critic’s notion of Camões as a “comrade” would be echoed elsewhere over the years, notably in singular poems by Kermit Roosevelt (President Theodore Roosevelt’s adventurous son) and Roy Campbell, the Lusophilic South African whose fine sonnet entitled “Luís de Camões” was translated into Portuguese by Jorge de Sena in 1952. Woodberry’s book was followed, three years later, by an edition of The Book of the Epic, H. A. Guerber’s survey of the world’s great epics, ranging from the Greeks’ Iliad to the Indians’ Mahabharata. Besides the usual biographical account of Camões’s life, Guerber offers a useful book-by-book summary of Os Lusíadas.
In 1924, commemorating the quadricentennial of the birth date most commonly assigned to Camões, there appeared important essays in two of the major newspapers in New York. In “Camoens, 1524-1924,” an essay that appeared on the first two pages of the New York Evening Post Literary Review in September, Merritt Y. Hughes discusses Camões’s great poetic achievement, partly in the context of his having influenced John Milton’s poem Paradise Lost and Herman Melville’s sea fiction, most notably White-Jacket and Moby-Dick. He also notes that “toward 1850 the Latin countries united to canonize him a literary saint, and even in New York City a statue has been put up in his honor.” (I have not yet located this statue.) It was Camões’s singular achievement, according to Merritt Hughes, to be “the only man of the Renaissance, when every one was writing epics and when Europe was appropriating Asia and the Americas and fighting its wars of religion, who made a successful attempt to write an epic about a contemporary subject. That in itself would be a good claim to fame, but in addition ‘The Lusiads’ foreshadows modern ethical, political and economic ideas, and suggests much that is usually believed to be characteristic of the nineteenth and twentieth centuries in poetry.”

In “Portugal’s Poetical One-Eyed Devil,” an essay in the New York Times in July 1924, Eva Madden, a writer of some popularity at the time, rehearses, in loving detail, the “facts” of the poet’s romantic and, as we know, romanticized biography. In the recent biography of Camões by Aubrey Bell, she tells us, “at last the world is to know all there is authentically to know of the adventures of the most daring and active poet of all literature. No figure of letters can even approach him as Munchausen-like adventurer, for Camoens himself actually went through the thrilling events of the many chapters related of him.” She concludes her genial piece with an assessment of Camões’s English-language translators (though she makes mistakes in two of the names): “The ‘Lusiad’ was first put into English by Robert [actually Richard] Fanshawe in 1665; then by Mickles [Mickle] in 1776. A third version, and the last, was made by Sir Richard Burton—with more accuracy than mellowness of rendition—none of the three having caught with any too great felicity the poetic vigor, the Portuguese voluptuousness of expression, of the amazing original.” Toward the end of his long career at Harvard University, Jeremiah Ford published a facsimile edition of Sir Richard Fanshawe’s 1655 English version of Os Lusíadas, followed, a few years later, by a scholarly, well-annotated textual edition—the first ever in the United States—of Camões’s epic.

The academic study of Camões in the United States received an appreciable boost when, in 1965, the poet, critic, and all-round man of letters Jorge de Sena left Brazil for the United States. He did not return to Brazil. For the next thirteen years he taught in the United States, first at the University of Wisconsin at Madison and then, for the remaining years of his life, at the University of California, Santa Barbara. Right off, he participated in the VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, held in September 1966—partly in Cambridge, Massachusetts, on the watch of Francis M. Rogers, Harvard University’s Nancy Clark Smith Professor of the Languages and Literature of Portugal, and partly in New York under the auspices of the Hispanic Society of America. And in December of the same year, at meetings of the Modern Language Association held in the city of New York, Sena delivered a paper entitled “Camões revisitado.” In 1969 he published his provocative and controversial study of Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular, a work that applied an arithmetical method of his own devising to solve the problem of which sonnets truly belong in the Camonean canon, followed a year later by the collection of essays entitled A Estrutura de ‘Os Lusíadas’ e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI. It was altogether fitting, then, that Sena was invited to be the featured opening speaker in a two-day symposium on Camões to be held on April 21-22, 1972, at the University of Connecticut, Storrs, Connecticut. The invitation was extended by the organizer and administrator of the symposium, Dr. António Cirurgião, recently appointed to the university’s faculty. Cirurgião’s idea was that it was only fitting, especially given the journal Hispanis’ recent tribute to Galdós, that Camões merited celebration as well. Discovering that there were not plans to do so at any of the American universities best equipped to do so—Harvard, Yale, the University of Wisconsin, among others—he secured the approval of his department head at the University of Connecticut to organize such a commemoration.

At the Univertsity of Connecticut Sena’s his keynote talk was entitled “Camões—New Observations on His Epic and His Thinking.” Directing his analysis to the texture (tessitura) of the poem Os Lusíadas, he promised to get at the poet’s deepest intentions—unrecognied or greatly obscured over centuries of critical commentary. He focused his explication on the occurences and repetition of various terms and ideas shifting in context, for example, natura, amor, santos and milagres, virtude, púdico and partes. He elabored on his analysis for more two hours (over twice the allotted time), and then he followed his talk with a reading of the entry on Camões he had just written for the Encyclopædia Britannica, itself amounting to a second talk. More about the encyclopedia article later.

The other speakers on the first day were Heitor Martins (Indiana University), whose title was “Camões, beyond Vergil: an Investigation of the Epic”; and Charles Boxer (Yale University), whose proposed topic was “Christians and Spices in Os Lusíadas” (but who, because, as he explained, he “could not find sufficient material” for his “suggested paper on ‘Christians and Spices in the Lusíadas,’” spoke, rather, on “Camões and Diogo do Couto: Brothers in Arms and Literature”). On the second day the two speakers were Wilson Martins (New York University), whose title was “Camões and the Super-Camões,” and Louis L. Martz (Yale University), who spoke on “Os Lusíadas in England: Camões and Milton.” It was an international cast, overall, with featured participants hailing from countries such as Brazil, Portugal, and the United Kingdom. Of the contributors to the special issue of Ocidente that grew out of the conference, four of them hailed from Portugal and Brazil—Sena, Wilson and Heitor Martins, and Garcia—although all of them were then teaching at universities in the United States. Of the three contributors from the United Kingdom—Boxer, Pierce, and Walker—one of them, Boxer, was then teaching in the United States. The remaining eight—Martz, Thomas and George Hart, Miller, Piper, Reinhardt, Schmitt, and Sims—were Americans teaching at universities in the United States.

Tied into the theme of the symposium was a production by the university theater group of Henri de Montherlant’s La Reine Mort, given in English as The Queen After Death. Chosen to complement the symposium, this play on the theme of Inês de Castro was open to the conference participants on the evening concluding the first day of the meetings. According to António Cirurgião, Jorge de Sena judged this college production of Montherlant’s play to be “an improvement over the original.” “Sena didn’t like Montherlant,” Cirurgião explains. The production ran for a week.

The lectures given at the symposium, along with a number of other pieces, including a bibliography of Camões in English translation, were published in November of that same year in a special number, running to 223 pages, of volume 35 (new series) of Ocidente, the venerable, but soon to be lamented, “Revista Portuguesa de Cultura.” Included were papers on Richard Francis Burton as Camões’s translator (Frederick C. H. Garcia), the idea of history in Os Lusíadas (Thomas R. Hart), Os Lusíadas and the “Cancioneiro Geral” (Neil Miller), Camões and Inêz de Castro (Frank Pierce), teaching Os Lusíadas in Leonard Bacon’s 1950 translation (Anson C. Piper), August Graf von Platen’s admiration for Camões (George W. Reinhardt), the nineteenth-century American novelist Herman Melville admiration for, and indebtedness to, Camões (Jack Schmitt), Os Lusíadas and John Milton’s Paradise Lost (James H. Sims), the symbolic uses of Bacchus and Venus in Os Lusíadas (Roger M. Walker), and Camões in English—a bibliography (George C. Hart). Missing was Heitor Martins’s paper on Camões and Vergil, a summary of which was given as an abstract.

Jorge de Sena also participated, along with Norwood Andrews, Jr. and Alberto Machado da Rosa, in a one-day quadric-centennial commemoration of the publication of Os Lusíadas held at the University of California, Los Angeles, on May 12th. It is not coincidental, moreover, that shortly after his participation in the symposium in Connecticut and the commemoration in California, Sena chose, in May, to share with the readers of the Diario Popular his thoughts on the Camonean celebrations then going on, internationally and locally, in Portugal. His is a warning against the provincial and chauvinistic misuses of Camões and his work:

Assim, celebrem-se Os Lusíadas e o seu autor. Mas sem esquecer que eles não são propriedade exclusiva de Portugal. Assim como nos Estados Unidos ninguém pensa que Shakespeare não é “americano”, no Brasil ninguém pensa que Camões não seja “brasileiro”, porque é parte gloriosa da lingua portuguesa. Do mesmo modo, tenha-se sempre presente que é o valor universal de Camões e da sua obra o que mais importa celebrar, pôr em relevo e difundir. Mas, repita-se, a obra, de que Os Lusíadas são uma parte sem dúvida extremamente importante, mas não mais importante do que a obra lírica, nem separárvel dela: o homem que escreveu essa epopeia, e que nela constantemente se intromete, está inteiro, tragicamente inteiro, nas meditações dolorosas da obra lírica.

It was also António Cirurgião’s happy idea to suggest to the editor of Hispania, Irving P. Rothberg of the University of Massachusetts at Amherst, that, as the single American journal devoted to scholarship and the teaching of Spanish and Portuguese in America, Hispania devote an issue to Camões on this occasion. One is happy to report that Rothberg agreed. But the idea had its formidable opponent. Having learned of the symposium proposed, along with the possibility that Hispania would commemorate Camões in the same year, Harvard University’s Professor Francis Rogers took it upon himself to issue a warming, in a letter to Rothberg. Here is its opening paragraph:

 

I am writing to express to you my views concerning “commemorations” in general and specifically the commemoration of the fourth centenary of the publication of the Lusiadas. I tend to place commemorations in general in the same hopper as honorary degrees and decorations from foreign governments. In principle, they are very nice, but they are fraught with hidden dangers. This is particularly true with a commemorative volume concerning the Lusiadas. I have a great deal of affection and respect for this poem and its author. Indeed, I have taught both for many years and directed one splendid thesis by a Brazilian Jesuit on the poetry of the poem. Unfortunately, down through the years, the Lusiadas has been used, or misused, as a prime document of political rhetoric. It has been misused in other ways as well. Thus, we have had studies on the fauna, the flora, nautical astronomy, law, and much else in the poem. Unfortunately, we have had very few studies of the poem as a poem, those few having been made by such people as Woodbury [sic], Ezra Pound and C. M. Bowra. I feel that a commemorative volume concerning the Lusiadas to appear in 1972 could well give rise to a plethora of studies concerning the poem which would have nothing to do with the poem as a poem. Some of the articles submitted would be written by individuals whom only the most callous of editorial boards could turn down. Theoretically, I believe a well edited commemorative volume is possible. In practice, in these years, I am doubtful.

 

Fortunately, Rogers’s ominous words did not dissuade Rothberg from his plan to commemorate Camões, and Hispania ultimately published a collection of five essays, contributed by distinguished scholars, in its May 1974 issue, in time to honor the four hundredth anniversary of the poet’s death. The essays are “Camões’ Shipwreck” (Gerald M. Moser, Pennsylvania State University), “Ancient History in Os Lusíadas” (Frank Pierce, University of Sheffield), “The Feminine Presence in Os Lusíadas” (Anson C. Piper, Williams College), “The Epic Similes of Os Lusíadas” (Roger Stephens Jones, Carleton University, Ottawa), and “Joaquim Nabuco e Camões” (C. Malcolm Batchelor, Yale University). (Piper and Pierce, it will be recalled, had also contributed papers to the 1972 special issue of Ocidente devoted to the conference on Camões at the University of Connecticut.) In his capacity as editor of Hispania, Irving P. Rothberg (University of Massachusetts, Amherst), wrote:

 

The year 1972 saw a number of impressive observances of the 400th anniversary of the publication of Luís de Camões’ Os Lusíadas, the greatest epic poem of the Renaissance. It is with pleasure that we now—somewhat after the fact—dedicate the present issue of Hispania not only to this enduring masterpiece but to the 450th anniversary of its poet’s birth who is generally believed to have been born in 1524. The editor’s deep thanks are offered to the authors of the articles that follow who obligingly wrote them at the editor’s request.

 

Aimed at a limited audience of specialists in Iberian literature, the essays on Camões in Hispania in 1974 nevertheless warrant further attention. Moser adduces accounts of shipwrecks in three contemporary letters to support his belief that Camões’s two references to shipwreck in Os Lusíadas are reliably autobiographical. Moser ends his piece: “In 1880, when as in 1972, the Portuguese-speaking countries celebrated Camões as the author of their national epic, Machado de Assis wrote a series of four sonnets for the
occasion.” Moser than quotes the last four lines of Machado’s sonnet—which, in its entirety. reads:

 

Um dia, junto à foz de brando e amigo
Rio de estranhas gentes habitado,
Pelos mares aspérrimos levado,
Salvaste o livro que viveu contigo.
E êsse que foi às ondas arrancado,
Já livre agora do mortal perigo,
Serve de arca imortal, de eterno abrigo,
Não só a ti, mas ao teu berço amado.
Assim, um homem só, naquele dia,
Naquele escasso ponto do universo,
Língua, história, nação, armas, poesia,
Salva das frias mãos do tempo adverso.
E tudo aquilo agora o desafia.
E tão sublime preço cabe em verso.

 

In “Ancient History in ‘Os Lusíadas,’” Frank Pierce, who would a few years later publish an excellent edition of Os Lusíadas, looks anew at Camões’s use of history as “subject-matter rather than style.” The “company of Alexander, Julius Caesar or Hannibal,” he decides “was an inevitable component of any attempt to write public poetry on one’s country and its past,” and Camões was no exception in this. Yet it is the Portuguese poet’s success in making the reader see the events of Vasco da Gama’s voyage “as something that is taking place before our eyes without any special narrator to interpret it for us” that gives the poem the “freshness and immediacy which set Os Lusíadas apart from most examples of the literary epic.”

Anson C. Piper’s subject is “The Feminine Presence in ‘Os Lusíadas.’” “A close study of the poem,” he writes, “furnishes ample evidence of the fact that the feminine presence which pervades Os Lusíadas constitutes one of the major literary and psychological motives of this highly sensuous Renaissance masterpiece.” For “the fact that he wrote under the powerful spell of Renaissance humanism required him to pay his courtier’s debt to the current concept of love as a highly formalized standard for measuring human conduct.” In short, Camões “strove in his poetry to join his humanistic learning to the chivalric ideal of perfect manhood ‘fused with female grace.’”

Camões’s use of epic smiles is Roger Stephens Jones’s subject. Distinguishing between Homeric similes, which support the celebration of “the grandeur of a warrior-hero,” and Virgilian similes, which help to define “the grandeur of a moral hero,” Jones decides that, on balance, Os Lusíadas is a Virgilian epic (.with Homeric elements)

 

[TO BE CONTINUED]

 

*George Monteiro is Adjunct Professor, Professor Emeritus of English and Portuguese and Brazilian Studies at Brown University (Providence, RI), USA

“O dia de Camões nos USA” (2a. parte)

COMMEMORATING CAMÕES IN THE UNITED STATES: JORGE DE SENA’S LEGACY

COMMEMORATING CAMÕES IN THE UNITED STATES: JORGE DE SENA’S LEGACY (2nd part)

In the final essay of the unit on Camões in the May 1974 issue of Hispania, C. Malcolm Batchelor rehearses the matter of the Brazilian Joaquim Nabuco’s profound devotion to the promotion of the Portuguese poet in Brazil and, later, in the United States. As a twenty-three year old Nabuco had published Camões e os Lusíadas (1872). As a thirty-year old he would proclaim, during the 1880 celebrations in Rio de Janeiro to an audience of four to five thousand listeners, “O Brasil e Os Lusíadas são as duas maiores obras de Portugal.” Batchelor’s detailed account makes the point that central to Nabuco’s sense of his own spiritual and intellectual worth was his conception of Camões’s exemplary greatness.

Two other items, by Americans in 1972, merit attention. Contributing to the festivities devoted to Camões that year, one that has been largely ignored, but well worth noting, is Edgar C. Knowlton, Jr.’s prose translation of Almeida Garrett’s canonical poem Camões. Knowlton, a university teacher who was born in New Bedford, Massachusetts (the location of an important Portuguese-American enclave) has spent most of his professional life in Hawaii. Contributing to the obscurity into which Knowlton’s translation has fallen, no doubt, is the fact that it appeared in Macau, in a double issue (numbers 1 and 2 of volume VI) of the Boletim de Instituto Luis de Camões. It is of interest to note that Knowlton’s translation is scheduled for republication in a forthcoming issue of Portuguese Literary and Cultural Studies (University of Massachusetts Dartmouth) devoted to Almeida Garrett.

The second of these 1972 items is a piece in the autumn issue of that year in the well regarded and, at the time, highly popular middlebrow journal Horizon. Contributed by Edmond Taylor, a distinguished historian (he was the author of Richer by Asia [1947], The Fall of the Dynasties [1963], and Awakening from History [1969]), this illustrated essay of eight pages argues the controversial thesis that Camões, the “one-eyed author of The Lusiads wrote—and lived—the national epic of Portugal, but his countrymen missed the moral: that the paths of imperial glory lead to the grave of the spirit.” Beginning his essay with an epigraph—lines from the old man’s dire warning (Canto IV, 95, 97)—Taylor puts the matter forcefully right at the outset:

To the contemporary American taste, Camoëns is probably the least readable among the schoolroom classics of Western literature. He comes surprisingly alive, however, if one rereads him in his native Lisbon, the seat of West’s first overseas empire, which has now become the last, defiant, though somehow dejected, bastion of Western colonialism. The tragic, beautiful city, scarred by so many disasters, where the poet was probably born and where he unquestionably lived out his years after a long, adventurous, unprofitable career as a colonial swashbuckler, is haunted by the delusions and
lucidities of his genius in almost the same way the passions and afflictions of a syphilitic haunt his descendants.

Cleverly using the legendary and virtually mythic story of the poet’s life and writings as told in “a pictorial biography, in gaudily colored comic-book format” — Camões (Colecção de 124 Cromos)—Taylor “corrects” the story, point by point, by incorporating the latest demythologizing scholarship on the subject. The historian has two principal aims: 1. to tell the story of the poet and his work (“Since Homer, few single poems have more effectively crystallized the deepest emotions, aspirations, and delusions of a whole people—even, perhaps, of an epoch”; and 2. to deplore Portugal’s dictatorship’s stubborn and disastrous refusal to give up its possessions in Africa (“Those fictitious ‘provinces’ of an anachronistic colonial empire camouflaged as a modern nation could someday prove to be the final grave, not merely of Portuguese imperialism, but of what up to now has remained a Christian and noble civilization—that of Portugal itself, Camoëns’s own”).

The participation of Jorge de Sena—by then settled permanently, as it turned out, at the University of California, Santa Barbara—at the University of Connecticut’s commemorative symposium in 1972, fit in perfectly with his own professional interest in promoting all matters Camonean over his entire literary and professional careers. During 1972 he took part in several congresses in Europe with major speeches and important papers that were in due course published in the appropriate actas. He published essays in the newspaper Diário Popular, along with the poem “Camões Dirige-se aos seus Contemporâneos” in the November 1972 issue of the journal Ocidente. Indeed, it can be said that Sena’s work on Camões, which included a doctoral dissertation and several other books, as well as numerous essays, reviews, newspaper articles, not to mention the brilliantly realized bio-critical story “Super Flumina Babylonis,” which ends with the sick and improvident Camões setting down the first line of his famous poem “By the Rivers of Babylon,” came, publicly, to a head in the early 1970s. (Interestingly enough, an advertisement for what appears to be the among the earliest, if not the first, film made about Camões also focuses on Camões’s final days. Produced by the internationally known Gaumont Company founded by Léon Gaumont (1864-1946) in Paris, this historical drama was released on December 9, 1911, and distributed in the United States by George Kleine of Chicago, Illinois, under the title “Camoens, the Portuguese Shakespeare.” )

During the period of 1972-73 Jorge de Sena made major contributions to the dissemination of information on Portugal’s great poet. On March 9, 1972, at the Centro Cultural Português, Gulbenkian, in Paris he spoke on “Camões: Quelques vues nouvelles sur son épopée et sa pensée,” which, later that year, appeared in the proceedings of those meetings, Visages de Luís de Camões: Conférences. In April Sena presented, in English, a version of his Paris speech at the University of Connecticut, in Storrs, Connecticut. The Portuguese version of this lecture appeared, as we have already noted, appeared as “Camões: Novas observações acerca da sua epopeia e do seu pensamento,” in November in the well-established and highly influential Lisbon journal Ocidente. This piece, Sena made a point of explaining, he had himself translated “do original ingles.” It offers a taste of a forthcoming book, one that he is putting the finishing touches on. In it, he will take up, as the necessary and complementary study to his previous investigation of the “architecture” of Camões’s epic, an interpretation the poem’s texture. Here is the abstract of Sena’s essay prepared editorially:

The Lusiads became such a symbol of Portuguese imperial glory that many believe it still weighs too heavily on Portuguese life. To foreigners, always suspicious of Portuguese colonial proclivities, celebrating The Lusiads is just a cover for dark intentions. It is difficult to separate the epic from what men have made of it for centuries. Even today eminent critics are unwilling to acknowledge the courage and coherence shown by Camões in his masterpiece. The Author had a manifold purpose when he tried to elucidate the “structure of The Lusiads”. Now he intends to study its texture. No ideas, however great, serve a poet’s true greatness unless they come to us perfectly embodied in the very texture of his works. By studying this texture the Author tries to read the poet’s intentional meaning, revealing complex Camonian inner thought and daring intention, and has selected some definitely important or controversial areas in order to probe it.

On June 8, 1972, Sena published an article (written in May) entitled “Camões em 1972” in the supplement Quinta-Feira à Tarde of the Diário Popular. Sena warned that national celebrations throughout Portugal must not commit the dual error of considering Camões lyrics secondary to his epic or, in pretext, viewing the poet’s work as the historical culmination of the nation’s heroic-military glory. Less than an ingenuous and proud celebration, Os Lusíadas is a tragic and desperate warning, just as relevant to a modern Portugal as it was when first published. In the Actas da I Reunião Internacional de Camonistas (Lisboa, 1973) appeared another of Sena’s conference talks, one that he was unable to deliver in person due to illness—“Aspectos do pensamento de Camões através da estrutura linguística de Os Lusíadas.” He contributed the entry on Camões to the 1.5th edition of the Encyclopædia Britannica, which appeared in 1973. He prepared a substantial Introduction, dated Santa Barbara, October 22, 1972, to a facsimile edition of the 1639 edition of Lusíadas de Luís de Camões Comentadas por Manuel de Faria e Sousa. The next month he composed the preface for a facsimile edition of the edition of 1685 of Rimas Várias de Luís de Camões Comentadas por Manuel de Faria e Sousa. Sena aims his remarks on this occasion at Camões scholarship down the centuries, which had denigrated Faria e Sousa’s work while availing itself of his insights and observations. Faria y Sousa’s work is simply, according to Sena, “o mais rico repositório de comentos sobre a epopeia, a fonte semiclandestina de mais três séculos de erudição camoniana, um dos mais extraordinários monumentos erguidos por alguém, devotadamente, a um poeta e a uma cultura, eis o que regressa aberta e publicaments ao mundo português, que é o seu.”

At the same time Sena also arranged with his publisher in Oporto to bring out a limited edition of a composite work entitled Camões Dirige-se aos seus Contemporâneos e Outros Textos. The publication collects three works: Sena’s 1966 story “Super Flumina Babylonis” (taken from the collection Novas Andanças do Demónio), “Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos” (a poem from his 1963 collection Metamorphoses that references the elaborate ceremonial translation of the poet’s putative remains to the Jerónimos monastery in 1880—“Nada tereis, mas nada: nem os ossos, / que um vosso esqueleto há-de ser buscado, / para passar por meu”), and “Camões na Ilha de Moçambique,” an unpublished poem written on 20 July 1972 in Moçambique, where Sena was lecturing on Camões. The Moçambique poem is worth recalling for its frankly stated humanizing and universalizing image of Camões as an earthy creature of nature:

É pobre e já foi rica. Era mais pobre
quando Camões aqui passou primeiro,
cheia de livros a cabeça e lendas
e muita estúrdia de Lisboa reles.
Quando passados nele os Orientes
e o amargor dos vis sempre tão ricos,
aqui ficou, isto crescera, mas
a fortaleza ainda estava em obras,
as casas eram poucas, e o terreno
passeio descampado ao vento e ao sol
desta alavanca mínima, em coral,
do onde saltavam para Goa as naus,
que dela venham cheias de pecados
e de bagagens ricas e pimentas podres.
Como nau nos baixios que aos Sepúlvedas
deram no amor corte primeiro à vida,
aqui ficou sem nada senão versos.
Mas antes dele, como depois dele,
aqui passaram todos: almirantes,
ladrões e vice-reis, poetas e cobardes,
os santos e os heróis, mais a canalha
sem nome e sem memória, que serviu
de lastro, marujagem, e de carne
para os canhões e os peixes, como os outros.
Tudo passou aqui—Almeidas e Gonzagas,
Bocages e Albuquerques, desde o Gama.
Naqueles tempos se fazia o espanto
desta pequena aldeia citadina
de brancos, negros, indianos, e cristãos,
e muçulmanos, brâmanes, e ateus.
Europa e África, o Brasil e as Índias,
cruzou-se tudo aqui neste calor tão branco
como do forte a cal no pátio, e tão cruzado
como a elegância das nervuras simples
da capela pequena do baluarte.
Jazem aqui em lápides perdidas
os nomes todos dessa gente que,
como hoje os negros, se chegava às rochas,
baixava as calças e largava ao mar
a mal-cheirosa escória de estar vivo.
Não é de bronze, louros na cabeça,
nem no escrever parnasos, que te vejo aqui.
Mas num recanto em cócoras marinhas,
soltando às ninfas que lambiam rochas
o quanto a fome e a glória da epopeia
em ti se digeriam. Pendendo para as pedras
teu membro se lembrava a estremcia
de recordar na brisa as croias mais as damas,
e versos de soneto perpassavam
junto de um cheiro a merda lá na sombra,
de onde n’alma fervia quanto nem pensavas.
Depois, alviado, tu subias
aos baluartes e fitando as águas
sonhavas de outra Ilha, a Ilha única,
enquanto a mão se te pousava lusa,
em franca distracção, no que te era a pátria
por ser a ponta da semente dela.
E de zarolho não podias ver
distâncias separadas: tudo te era uma
e nada mais: o Paraíso e as Ilhas,
heróis, mulheres, o amor que mais se inventa,
e uma grandeza que não há em nada.
Pousavas n’água o olhar e te sorrias
—mas não amargamente, só de alívio,
como se te limparas de miséria,
e de desgraça e de injustiça e dor
de ver que eram tão poucos os melhores,
enquanto a caca ia-se na brisa esbelta,
igual ao que se esquece e se lançou de nós.

This is an imagined scene, of course, one presenting, at an earlier time, the Camões who is destined to endure even greater hardships after he has returned home to Lisbon, difficulties that even the publication of his great poem will only temporarily assuage. The poem is part of Sena’s project to demythologize the romanticized, fanciful life of Camões inherited, largely, from the late eighteenth century.

The publication of the collection Camões Dirige-se aos seus Contemporâneos e Outros Textos was delayed for several months, appearing only in 1973. It is also of interest that it was precisely in the autumn of 1972 that Sena wrote the remarkable poetic meditations that he collected under the indicative title “Sobre esta praia,” pointing back to the opening words of Camões’s great poem: “Sobre os rios.” “Note-se ainda, de uma vez para sempre,” as Sena writes in his guise as scholar, in an essay titled “Babel e Sião,” “que o 1o verso é Sobre os rios que vão e não Sôbolos, como aparece na 2a edicão, 1598, à conta das prosódicas emendas que provámos espúrias.” Not to put too fine a point on it—that there is an obvious link between “Sobre esta praia” and Camões—let me just say that in these eight meditations on almost clinical analysis of the nexus of nude bodies and sexuality by the Pacific Ocean, Sena draws not only on Camões’s poem “By the Rivers of Babylon” but from, “modernizing” it as he goes along, the episode of the Island of love in Book IX of Os Lusíadas.

It was at approximately the same time that Sena submitted his entry on Camões to the fifteenth edition of the Encyclopædia Britannica (copyright 1974). When Mécia de Sena collected this piece in Trinta Anos de Camões in 1980, she wrote in explanation:

Esta é, em tradução, a primeira versão destinada à 15.a edição da Enciclopédia Britânica. Nada tem em comum com o que foi publicado senão, evidentemente, o que é factual. O que na Enciclopédia saiu foi uma versão tornada estilisticamente incolor e rearrumada pelos serviços da mesma
Enciclopédia. Aliás, nunca correspondera ao desejo da mesma—queriam a “entrada” dedicada mais exclusivamente à biografia do Poeta, o que, como é sabido, sό usando de muita fantasia se poderia fazer.

Sena’s essay ran to close to 4500 words, but the published entry ran to about 2800 words, in addition to listings of Camões’ major works and selected biographical-critical bibliography running to some seventy lines. Besides flattening Sena’s characteristically rhetorical style and rearranging material, the Britannica’s editors made two major changes in content. They dropped most of Sena’s discussion of the accumulated scholarship on Camões and his work, and they dropped his comparisons of Camões with other writers, notably Shakespeare. Here, for example, is a passage omitted in the Britannica but restored in Trinta Anos de Camões:

O caso de Camões é, como grande e internacional figura, o reverso do de Shakesperare. Muito se sabe da vida de Shakespeare, em comparacão, mas ninguém aceita que ele não tivesse sido um mínimo de génio “romântico” na sua vida privada; quase nada se sabe ao certo sobre Camões e tudo aponta para que tenha sido um homem bem pouco comum (no entanto em acordo com a sua posição na vida social do seu tempo e na sua era de aventuras imperiais), que, ao contrário de Shakespeare, nunca casou ou foi pai de sabidos filhos (apesar da sua ostentacão de casos amorosos, ardente erotismo e até adolescente gabarolice nas suas obras—ou talvez demasiado de tudo isto). Os eruditos têm discutido largamente as ideias de Shakespeare, que ele encerra nas declarações teatrais feitas pelas suas personagens em situações dramáticas; das ideias de Camões, dos seus sentimentos, esperanças e tristezas, estejam como estiverem disfarçadas sob os modos e tonalidades da sua época (e também por causa dos perigosamente repressivos tempos em que vivia), tudo sabemos, já que não muitos grandes poetas, no mundo da literatura, escreveram tanto acerca de si mesmos come ele fez obsessivamente, até no seu poema épico. A crítica sobre as suas obras (especialmente a épica) tem sido imensamente enganada pelo orgulho e preconceito políticos ou religiosos portugueses, que pondo em relevo o carácter nacional do poema épico, reduziram a mais large visão do pensamento de Camões.

Sena, who had proudly read the whole of his original entry for the Britannica at the University of Connecticut in 1972, was understandably disappointed that his essay had been so modified and shortened without his consent—which, of course, he would not have given. The Britannica was interested in Sena’s comparisons of Camões Shakespeare or his detailed attempt to correct centuries of critical misinformation about Camões.

Surely, in the early 1970s, no one’s efforts exceeded those of Sena, scholar or poet, to bring attention to Camões in the quadricentennial year of the publication of Os Lusíadas. As for the real effect of the celebratory events of 1972, that, too, was assessed by Sena, in 1975:

When, in preparation for the celebrations of the 3rd centennial of his death, in 1880, his [Camões’s] Portuguese admirers looked for the remains, everything was most uncertain. And the bones transferred with pomp and circumstance to a lavish tomb placed in the “Jerónimos” monastery, a splendid building erected in Lisbon at the beginning of the 16th century near the beach from where Vasco da Gama (the hero of The Lusiads) left for his glorious voyage to India, and to celebrate the great event—those bones are for sure not his. So there happened with his remains what had happened with his life, with his lyrical poetry left scattered and unpublished when he died, and, we can say, with his poetical personality at the hands of many biographers and critics. Now (and paradoxically the celebrations of the 4th centennial of The Lusiads in 1972 have helped) Camões is rising from the dead like the phoenix.

In 1980, two years after Jorge de Sena’s death, his spirit was still very much present at the “Colóquios Camonianos” commemorating the quadricentennial of the death of Camões, held at the University of California, Santa Barbara on April 25-26, 1980. Nineteen of the more than two dozen papers presented were selected for the Proceedings volume published as Camoniana Californiana under the editorship of Maria de Lourdes Belchior and Enique Martínez-López in 1985. The entire effort, the colloquium and itspublished proceedings, was intended, according to the editors, to run counter to the pessimism expressed by Jorge de Sena’s famous poem (quoted in the book’s preface):

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma lingua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.

A listing of those participants whose papers were included in the published proceedings, along with their institutional affiliation, will give an indication of the scope of this international gathering in California on the shores of the Pacific Ocean. Included were José Martins Garcia (Brown University), Kenneth David Jackson (University of Texas at Austin), Maria de Lourdes Belchior (University of California, Santa Barbara and University of Lisbon), Stephen Reckert (King’s College, University of London), Maria Leonor Machado de Sousa (New University of Lisbon), Bryant Creel (California State University, Los Angeles), Augusto Hacthoun (Wheaton College), Gordon Jensen (Brigham Young University), Frederick G. Williams (University of California, Santa Barbara), Leodegário A. de Azevedo Filho (P.U.C., Rio de Janeiro), Rebecca Catz, Joaquim-Francisco Coelho (Harvard University), Eduardo Mayone Dias (University of California, Los Angeles), Nelly Novaes Coelho (University of São Paulo), Davi Traumann (University of California, Santa Barbara), Vergílio Ferreira, António Cirurgião (University of Connecticut), Gilberto Mendonça Teles (P.U.C., Rio de Janeiro), and Ronald S. Sousa (University of Minnesota). It is interesting to note that there are twelve American universities represented in this list, as opposed to two Brazilian, two Portuguese, and one British. It is a curiosity that Francis Rogers of Harvard did not attend the meetings although he did send a paper. It was not included in the commemorative volume.

Later in the same commemorative year, a three-day multidisciplinary conference on the subject “The Portuguese World in the Time of Camões: Sixteenth-Century Portugal, Brazil, Portuguese Africa, and Portuguese Asia” was held at the University of Florida (September 29-October 1, 1980). Of the twenty-six presentations, eighteen were included in the proceedings volume, Empire in Transition: The Portuguese World in the Time of Camões, edited by Alfred Hower and Richard A. Preto-Rodas and published in 1985. The volume prints a goodly number of papers dealing entirely or substantially with Camões: A. H. de Oliveira Marques (“A View of Portugal in the Time of Camões”), Peter Fothergill-Payne (“A Prince of Our Disorder: ‘Good Kingship’ in Camões, Couto, and Manuel de Melo”), José Sebastião da Silva Dias (“Camões perante o Portugal do Seu Tempo”), Graça Silva Dias (“Cultura e Sociedade na Infância e Adolescência de Camões”), Harold V. Livermore (“On the Title of The Lusiads”), Jack E. Tomlins (“Gil Vicente’s Vision of India and its Ironic Echo in Camões’s ‘Velho do Restelo’”), René Concepción (“The Theme of Amphitryon in Luís de Camões and Hernán Pérez de Oliva”), William Melczer (“The Place of Camões in the European Cultural Conscience”), Norwood Andrews, Jr. (“Camões and Some of His Readers in American Imprints of Lord Strangford’s Translation in the Nineteenth Century”), and Alberto de Lacerda (“Os Lusíadas e Os Maias: um Binómio Português?”). There was also an additional paper by Marie Sovereign (“O Tema do Desconcerto na Lírica de Camões”). The institutions represented by those participants who spoke on the subject of Camões include the New University of Lisbon, University of Calgary, Instituto Nacional de Investigação Científica (Lisbon), University of British Columbia, University of Maryland, Queens College (New York), Syracuse University, Texas Tech University, and Boston University. It will be observed that between the Santa Barbara and Gainesville conferences in 1980 there were some fifteen different United States universities represented, only two of which were represented in 1972 in the Ocidente volume or in the Hispania issue of 1974. Notably, in its Winter 1980 issue, the scholarly journal Luso-Brazilian Review, published in Madison, Wisconsin, collected a half dozen articles under the commemorative heading “Camões and His Centuries.” The contributors were Gerald M. Moser, Joseph A. Klucas, Norwood Andrews, Jr., Clementine C. Rabassa, Kenneth David Jackson, and Alexandrino E. Severino.

To bring the matter closer to date, it can be noted that a major international conference, “Post-Imperial Camões,” was held at the University of Massachusetts Dartmouth on October 11-12, 2002. The proceedings appear in Portuguese Literary & Cultural Studies 9 (2003), pages 1-243. This journal is published by the Center for Portuguese Studies and Culture at the University of Massachusetts Dartmouth. It includes fourteen papers: those presented by Helen Vendler (Harvard University), Miguel Tamen (University of Lisbon), Rita Marnoto (University of Coimbra), Helder Macedo (King’s College, University of London), Fernando Gil (New University in Lisbon), Hélio J. S. Alves (University of Évora), Josiah Blackmore (University of Toronto), Eduardo Lourenço, Anna Klobucka (University of Massachusetts Dartmouth), George Monteiro (Brown University), João R. Figueiredo (University of Lisbon), Lawrence Lipking (Northwestern University), Balachandra Rajan (University of Western Ontario), and Michael Murrin (University of Chicago).

The accumulation of names and wide range of institutional affiliations associated with the various conferences on Camões held in the United States, beginning with the 1972 gathering at the University of Connecticut, seems to indicate—hardly a surprise—that Camões’s literary reputation is now largely in the hands of scholars and translators. In 1965 Sena had written of the Camões who had “deixado/ a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia/ aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,/ como toda a gente, não sabe português.” The efforts of Jorge de Sena, culminating in a series of essays, poems, and books in the 1970s, earned him a central place in the campaign to make Camões and his work better understood and more widely read not only in Portuguese-speaking countries but in the United States and the United Kingdom as well. He concluded his 1975 essay “”Camões: the lyrical poet,” written to accompany the publication of a small handful of translations of Camões’s poems, in this way:

Let us hope that this selection of his poems will start his resurrection as a great lyrical poet for English readers. Much has aged for our time in his epic poem, which still is, nevertheless, an extraordinary achievement whose fascinating secrets (very different from the ‘official’ interpretations) are yet very far from being unraveled. But nothing has aged in his lyrical poems, except superficial modes and turns of style: and there, as in many passages of the spic poem, we have a man, and a complex human being at that, talking to us, in the way only great poets do, about anguishes, hopes and despairs very much akin to our own today.

To the same end, that of making Camões better and more accurately known to the English-speaking world at large, Jorge de Sena, I was told by an editor at G. K. Hall in 1979, had agreed to write the biographical-critical volume on Camões for the Boston publisher’sseries on “World Authors.” If that information is correct, then it was not his destiny to fulfill this commitment. Jorge de Sena, the scholar of his generation best fitted to promote the cause of Camões, died in 1978 at the age of fifty-eight.

 

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WOODBERRY, George Edward, “Camoens,” in The Inspiration of Poetry, New York, Macmillan, 1910, pp. 58-84.

* George Monteiro is Adjunct Professor, Professor Emeritus of English and Portuguese and Brazilian Studies at Brown University (Providence, RI), USA

Da "longa cadeia de ações que culminou no 25 de abril"

Alguns textos de JS no Portugal Democrático, 1962

Em 1974, no prefácio à edição portuguesa d'As Memórias do Capitão, obra notável de Sarmento Pimentel, considera Jorge de Sena: "Não sei se algum dia se escreverá a história (que vários tenderão a escrever diversamente) da actividade dos oposicionistas no Brasil, capítulo de alguma importância na longa cadeia de acções que culminou no 25 de Abril". Ora, dentre tais oposicionistas, que reconheciam em Sarmento Pimentel uma "figura tutelar" no anti-salazarismo que os unia, encontrava-se o próprio Sena, cuja ação incluiu os muitos textos redigidos para o mesmo jornal Portugal Democrático, no qual Sarmento Pimentel também desempenhava papel fundamental. Visando a celebrar mais um aniversário da "Revolução dos Cravos", e tendo em mente as palavras citadas, aqui trazemos uma pequena seleção de matérias, de várias naturezas, redigidas por Sena e publicadas no jornal em 1962. Começamos por um manifesto, redigido por Sena, mas assinado coletivamente, contra as desabonadoras declarações em Portugal do Prof. Zaluar Nunes, da Univ. do Recife. Aliás, este episódio encontra-se mencionado na carta de Sena a José-Augusto França, de 1/3/1962, já aqui reproduzida. Depois, o artigo "O Pânico", publicado em julho, no qual o autor procede a verdadeira demolição do Estado Novo, glosando texto laudatório ao regime estampado na imprensa portugesa. A seguir, dois textos de agosto: no primeiro, dando provas do quanto eram bem informados os anti-salazaristas no Brasil, a breve notícia, comentada, sobre a fuga de Agostinho Neto, de Portugal, rumo à Inglaterra; o outro, uma página de louvor — "Dois Mestres" — aos Profs. Jaime Celestino da Costa e Lindley Cintra, espancados na Universidade de Lisboa pela polícia de Salazar, por se posicionarem a favor dos estudantes.

Enfim, com esta pequena coletânea, pretendemos evidenciar não só a versatilidade da pena política do escritor, mas ainda um sucinto painel do "estado das coisas" no Portugal de há 50 anos.

 

Comunicado do Comité dos Intelectuais

Por notícia das agências internacionais, divulgada nos jornais de 24 de Fevereiro corrente, o sr. professor doutor Zaluar Nunes, da Universidade do Recife, e português naturalizado cidadão brasileiro, teria dado a público em Lisboa declarações algo estranhas, após a sua libertação pelos agentes da PIDE de Salazar, que o havia detido. Segundo essas declarações, o referido professor teria descoberto em Portugal que eram falsos e caluniosos para Salazar e para a sua polícia os termos do protesto lavrado pelo Comité dos Intelectuais e Artistas Portugueses Pró-Liberdade de Expressão, divulgado na imprensa brasileira e no número 36 do jornal Portugal Democrático de Maio de 1960, a propósito da aparição do cadáver do capitão Almeida Santos.

A serem falsos e caluniosos os termos desse protesto, só o poderiam ser em face das «investigações» e do «julgamento» dos «criminosos» a que ulteriormente procedeu o governo de Salazar. Ainda segundo essas declarações, o professor Zaluar Nunes apenas pelo jornal Portugal Democrático teria sabido que assinara esse protesto.

É preciso esclarecer que todos os integrantes do Comité, dispersos pelo Brasil, para declarações que se revestissem de carácter urgente e não envolvessem afirmações de princípios ideológicos, haviam delegado ao Presidente do mesmo Comité os seus poderes. Nessas condições, o professor Zaluar Nunes assinou aquela declaração como muitas outras, e nunca de público as desmentiu ou em carta dirigida ao Comité. Passados vinte meses sobre aquele protesto, para ser libertado pela PIDE, o mesmo professor declara em Lisboa que foi vítima de um abuso de confiança. O Comité quer crer que esse abuso de confiança só pode ter sido aquele de que o mesmo professor foi vítima por parte da PIDE que, do mesmo passo, pretende assim comprometê-lo, comprometendo também a dignidade do Comité dos Intelectuais. Não sendo esse o abuso de confiança, só resta a hipótese de equívoco do professor Zaluar Nunes, quando aderiu ao Comité sem compreender a responsabilidade que isso implicava.

a) João Sarmento Pimentel, Adolfo Casais Monteiro, Carlos Cruz, Fernando Correia da Silva, Fernando Lemos, Francisco Sarmento Pimentel, Henrique Pereira Santo, Jorge de Sena, Paulo de Castro, Santos Baleizão, Vítor Ramos
 

O Pânico

Nas horas de aflição, os pasquins são muito mais significativos que a imprensa controlada. Esta continua a exibir o optimismo oficial de um regime condenado pela vida nacional e pela opinião pública; e muitas vezes, tal é o hábito da subserviência cobarde que só se dá conta de uma revolução, depois de a revolução triunfar. Por isso, quando a ditadura salazarista treme nos seus alicerces e a abandonam muitos daqueles que a sustentaram, o estado real dos espíritos não é na grande imprensa que pode ser observado mas nos pasquins, onde extravasa a angústia dos plumitivos, dos denunciantes, dos coniventes de baixa extracção com todos os crimes, e que, apavorados, sentem aproximar-se a hora em que serão abandonados às «feras», por aqueles mesmos que, durante anos, eles serviram. Que, neste momento, em Portugal a oposição engrossa por forma assustadora (não só para esses reles serventuários do regime, mas também para os interesses da democracia autêntica), eis do que não pode haver dúvidas. E os tubarões do regime preparam-se para se converterem e converterem o regime à «democracia», oferecendo à execração pública, como bodes expiatórios, os jornalistas, os polícias, os funcionários de vária espécie que foram apenas os executores e encobridores dos crimes pelos quais eles, os tubarões, são moralmente os responsáveis. Quando isto começa a acontecer, aproxima-se, indubitavelmente, a hora final. E os pasquins deixam de reflectir os interesses dos torpes tubarões, e passam a reflectir o angustiado pânico dos não menos torpes serventuários assalariados.

É isto que significa um espantoso recorte que nos chegou às mãos, de um pasquim sinistro, publicado em Lisboa, sob o título de AGORA… O mísero devia chamar-se «E AGORA?», para bem significar o estado de ânimo dos seus redactores. Não achamos que o recorte seja espantoso, pelo facto de o nosso nome ser nele referido mais que uma vez, nem pela honra insigne de o articulista, encobrindo-se no anonimato, reclamar que sejamos processados por alta traição… O que importa é o que passamos a transcrever e a comentar.

O artigo chama-se: «Quer ou não o Estado Novo defender-se e defender-nos?» — o que dá, tão bem ou melhor que o texto dele, o tom geral de pânico.

E começa assim: A imparcial e objectiva observação do panorama político, social e económico português é de molde a preocupar mesmo o cidadão médio. […] Todos sentem que isto vai mal pelos indícios infelizmente revelados: evasões de capitais para o estrangeiro, sem que fossem ainda punidos os responsáveis; afastamento da politica activa de homens que se fizeram à custa do regime e que, sem este, nunca teriam saído da mediocridade em que epara que nasceram, descontentamentos polémicos a propósito de pequeninos nadas, sem importância de maior; solidariedades com grevistas, oferecidas a jovens manejados pelas esquerdas, pelos maiores comilões que são certos permanentes convivas (com o rótulo de administradores, de consultores ou de delegados do Governo) na plutocracia; e uma demagogia infrene, incrível, des-bobinada por homens que, ainda há anos, senão há meses, turiferavam Salazar e o seu regime, mas que agora, suspirosos por que o inimigo amanhã os poupe, falam nos vários areópagos as árias estafadas da liberdade política e parlamentar, ainda que conscientemente, com isso, ajudem, fortaleçam e animem as odiosas acusações lançadas ao Governo pela Oposição. A crise política nacional agiganta-se diariamente em progressão geométrica. Há hoje um inocente a quem, dos mais longínquos ventos, se atribuem todas as culpas: o Sr. Presidente do Conselho.

Comentemos, se acaso é necessário. Então não ia tudo numa maré de rosas? Não éramos nós quem inventava as dificuldades de um tão eficiente regime? Então os capitais portugueses, tão patriotas, tão salazaristas, acabam por fugir? Então sempre era verdade que os homens do Estado Novo não passavam de medíocres promovidos à custa duma ditadura? Então, com tanta censura e polícia, o descontentamento produzido por trinta e cinco anos de pequeninos nadas (a asfixia intelectual, económica, política e moral, pequenino nada… o assassinato impune, pequenino nada… ah o pavor!), já estoura ao sol? Então os magnatas do regime, afinal sempre eram de verdade os comilões que nós denunciávamos? Então não há, afinal, em Portugal, a liberdade política? Então sempre há uma Oposição acusando o regime? Então o Sr. Presidente o Conselho, coitado, não é o culpado de tudo? Então as culpas, afinal, são de toda uma cáfila que agora abandona o pobre «inocente», e os seus turiferários menos comilões, às iras da multidão desesperada? Mas que podem temer estes sujeitos de uma multidão que não existia, que era inventada pela malignidade da Oposição? Que comédia triste, que farsa trágica…

O resto do artigo, por certo devido à pena de um escritor falhado, alonga-se em raivas e venenos mais ou menos literários. Não vale a pena (nem nossa, nem do seu autor) transcrevê-lo mais. Basta dizer que esse resto patenteia a desagregação da vigilância, a conivência calculista com a Oposição, a fachada férrea estalando por todas as juntas… Pois como, de outro modo, foi possível a publicação deste grito de pânico?

O artigo foi publicado a 7 de Abril. Entretanto, e nos termos do seu autor, a crise tem-se agigantado diariamente em progressão geométrica. Qual será neste momento o estado de espírito desse simulacro humano que terminava o seu arroto gritando: O Governo é publicamente acusado e desfeiteado. Quer ele defender-se e defender-nos?

Daqui lhe sossegamos as angústias… Ninguém vai matá-lo… Apenas será aposentado com o cargo de «escarrador público» e colocado no Rossio, onde, sob pena de multa, possam e devam cuspir-lhe, suprema degradação, os comilões de Salazar convertidos à democracia… Os democratas verdadeiros e o povo português, esses, vão precisar de economizar o cuspo para mais altos fins, como, por exemplo, cuspir na democracia que esses comilões se preparam para encenar.

 

Agostinho Neto

O presidente do Movimento de Libertação de Angola, o escritor Agostinho Neto fugiu de Portugal, e vai a caminho de Inglaterra. Salazar, que o conservava preso, ultimamente pusera-o em residência vigiada. Esta pretensa benevolência do ditador por certo se destinava a dois fins: mostrar à opinião pública mundial que inimigos políticos de alta importância são tratados com consideração, e observar quem, na liberdade relativa do líder angolano, se aproximava dele. No fim de contas, em residência vigiada é como toda a gente vive em Portugal, sem que as potências aliadas de Salazar se preocupem muito com isso. E, se a Agostinho Neto era dado, ostensivamente, o mesmo tratamento, isso apenas se devia ao facto de Angola se ter tornado (como o próprio Portuga ainda não) uma questão mundial. A fuga do chefe angolano não estava, por certo, nos planos do ditador. Livre na Inglaterra se a Inglaterra o acolher — ele constituirá um sério problema para Salazar, a menos que a velha raposa de Santa Comba não esteja pensando em servir-se desse problema para melhor negociar com os Estados Unidos, afastando-se mais da Inglaterra. De qualquer modo, Portugal Democrático congratula-se com a liberdade plena que Agostinho Neto terá conquistado, após tantas perseguições. O governo de Lisboa apresenta internacionalmente, como óbice a independência de Angola, a falta de líderes que possam governar. Presos é que eles nunca governarão. E soltos, podendo falar ao mundo, serão sempre um passo decisivo para a queda da oligarquia sinistra que governa Portugal.

 

Dois Mestres

Nos acontecimentos estudantis de Lisboa, noticiou a imprensa que dois professores da Universidade de Lisboa haviam sido barbaramente espancados pela polícia salazarista. Que estes professores se encontrassem ao lado dos alunos, eis o que redime as universidades portuguesas de trinta anos de cobardia e de miséria moral, em que as excepções mais dignas foram sempre impiedosamente afastadas do ensino, não só pelos terrores que Salazar tem de quanto seja dignidade, mas pelas intrigas e invejas dos seus colegas medíocres que sempre pactuaram com o ditador para esses efeitos ainda quando se diziam ou eram «oposicionistas». Acontece que os dois professores espancados não são apenas dois professores capazes de dignidade e de coragem. O prof. Jaime Celestino da Costa, da Faculdade de Medicina de Lisboa, é um dos mais ilustres mestres dessa casa, e um dos mais reputados cirurgiões portugueses. O professor Lindley Cintra, da Faculdade de Letras de Lisboa, é um filólogo e um medievalista de reputação internacional, cujos estudos sobre a Crónica Geral de Espanha lhe garantem uma autoridade reconhecida por quem é a máxima autoridade na matéria, o glorioso ancião Menendez Pidal. De modo que, por ignorância, os jornais perderam a oportunidade de denunciar como a mais alta cultura é espancada em Portugal, e que respeito ela merece aos carrascos de Salazar. Homens dignos e eminentes, nem um nem outro destes dois professores pode ser acusado de estar comprando a popularidade entre os estudantes que os conhecem e respeitam. E nenhum deles é um político, mas, para honra da universidade portuguesa, personalidades para quem a cultura não é separável da coragem e da responsabilidade cívica, e mestres com quem Portugal conta, quando soar a hora de os medíocres tombarem com o maior de todos eles: Salazar.
 

Os Dois Cadáveres

Editorial do Portugal Democrático, abril de 1960

Coube a Jorge de Sena o editorial do jornal Portugal Democrático de abril de 1960, evocando o cadáver do Capitão Almeida Santos, um dos líderes da abortada “Conspiração da Sé” (da qual participara o próprio Sena), encontrado na praia do Guincho – caso que também forneceu mote a José Cardoso Pires para o seu Balada da Praia dos Cães.

 
 
Noticiaram os jornais a 2 de abril, em telegrama da AFP, que “as investigações para identificação de um cadáver descoberto anteontem na praia do Guincho, perto de Lisboa, permitem suspeitar de que se trata do capitão Almeida Santos, um dos evadidos da prisão militar de Elvas, em Dezembro último, onde estava encarcerado por actividades políticas contra o regime”. Tão sinistro, hipócrita e cobarde é o espírito da ditadura salazarista, que até o teor deste telegrama o retrata. É possível que o cadáver seja… Suspeita-se de que seja… Porquê? O cadáver está mutilado, irreconhecível, podre, como o próprio cadáver da Pátria que simboliza? Foi estrangulado, baleado, afogado, atropelado, atirado de uma janela alta, como todos os que “se” estrangularam, balearam, afogaram, atropelaram, atiraram – depois de caídos nas garras da PIDE? Fica-se na dúvida, a dúvida alimentada pela incerteza. Não há responsáveis de coisa alguma, ninguém é responsável de nada… Nada se passou – a não ser a satisfação dada ao registro civil de um óbito, um modesto óbito incerto que permite enterrar o sujeito em silêncio mais definitivo que uma desaparição inexplicável.
Isto é Salazar inteiro, isto é Portugal ensangüentado e trágico, que nem sequer nos cobre de vergonha com a sua atrocidade, porque permite (suspeitar…) todas as complacências, todas as cumplicidades, todas as mesuras da diplomacia covarde e interesseira. NEM SEQUER podemos ter vergonha disto, aos olhos do mundo, porque o mundo a não tem, antes de nós, de pactuar com os crimes de Salazar.
Que cadáver submisso! Que cadáver silencioso! Quantos meses levou a percorrer a escassa largura de Portugal, desde Elvas até àquele Atlântico que é o mesmo que banha as costas do Brasil! Numa praia deserta, aparece o cadáver hipotético de um homem que foi um dos chefes militares do 12 de março. Cadáver que poderia ser o de qualquer outro da enorme quantidade de civis e militares de todas as opiniões políticas que tentaram o “12 de Março” com uma extensão e uma profundidade que o Estado Novo teme esclarecer! Fazer aparecer o seu cadáver é mostrar a sorte que poderia ser a de cada um, mas é também roubar à vítima e aos outros o galardão do martírio, do sacrifício, do escândalo nacional e mundial, a que não resistiria um governo de assassinos mais vis que a vileza, porque nem mesmo tem a ombridade de estadear a sua profissão verdadeira.
Onde está o “glorioso Exército português”? Porque o capitão Almeida Santos era um dos seus membros mais brilhantes. Onde está a consciência dos pais de família. Porque o capitão Almeida Santos era um pai de família. Onde está o povo português? Porque o capitão Almeida Santos era um português. Onde está Portugal?
Tu, Salazar, nunca fizeste serviço militar. Nunca foste – que tenhas tido a dignidade de o confessar – pai de família. Nunca foste português, porque os portugueses sempre se vangloriaram de tudo, até dos crimes. Mas serás um cadáver, hás-de ser um cadáver, terás de ser um cadáver. Não um cadáver hipotético – como o da Pátria ensangüentada – abandonado, tão ocasionalmente, numa praia deserta. Mas um cadáver – consola-te – que não terá tempo de apodrecer, como o da Pátria em trinta anos de governo teu. Um cadáver que a terra portuguesa se recusará a comer. Um cadáver que os mares de Portugal – e todos são – se recusarão a engolir.
“PORTUGAL DEMOCRÁTICO” concita a consciência do mundo a que compare e escolha – entre o cadáver hipotético do Cap. Almeida Santos, um homem de bem que tentou honestamente salvar a sua Pátria, e o cadáver inadiável do tirano, um homem de mal que tenta cavilosamente destruí-la consigo. “PORTUGAL DEMOCRÁTICO” pergunta de uma vez para sempre ao glorioso Exército português: a qual dos cadáveres ele acha que deve honras militares.

A Comunidade de Estados Portugueses

No Portugal Democrático, em agosto de 1960, uma proposta para discussão

Publicada no jornal Portugal Democrático de agosto de 1960 (mas escrita há mais tempo, conforme se lê na nota que a precede), ou seja, bem antes da eclosão "oficial" da guerra em África, esta proposta objetiva e pragmática de uma "Comunidade de Estados Portugueses" que Jorge de Sena submete à discussão dos oposicionistas a Salazar, teria merecido críticas da ala filiada ao PCP, por ser considerada “neocolonial” (e talvez por este motivo Sena não tenha levado avante o "comentário filosófico-político" anunciado no fim). Contudo, ela se coaduna perfeitamente com o ideário de uma “Comunidade Luso-Afro-Brasileira” defendida pelo assumido comunista Joaquim Barradas de Carvalho, que virá para o Brasil em 1964, como professor contratado da USP, atuando igualmente no Portugal Democrático. E será que Jorge de Sena e Barradas de Carvalho — ambos defensores de uma comunidade a unir países com a Língua Portuguesa em comum — teriam sido lembrados nos alvores da CPLP?

 

O artigo que a seguir inserimos, de autoria do nosso companheiro de Redacção, Dr. Jorge de Sena, encontrava-se em poder do PORTUGAL DEMOCRÁTICO desde os primeiros dias de Maio, antes, portanto, de se terem precipitado os últimos acontecimentos em África, mas, por lamentáveis extravios e equívocos, não foi logo publicado.

Pelo atraso na divulgação de um assunto de tão grande relevância como este, P.D. cumpre o dever de pedir todas as desculpas a Jorge de Sena e aos seus leitores.

 

Há muito é minha convicção que se impõe, por parte dos democratas portugueses, uma clara formulação de propostas concretas acerca do futuro político, económico, social, etc., de Portugal e dos territórios que da nossa pátria dependem. Se é essencial e primacial declarar exigências básicas do convívio – restauração das liberdades e garantias –; e se é muito delicado discutir soluções de problemas, pelo que essa discussão pode acarretar de divisionismo das oposições democráticas e anti-salazaristas – a verdade é que os democratas não podem, pelo silêncio, pactuar com cegueiras ou vaidades históricas que culminarão num desastre incalculável (cujas responsabilidades lhes não cabem e podem ser chamados a liquidar), nem exercem a sua consciência democrática, ao eximirem-se, em nome de uma unidade tática, à formulação estratégica de propostas concretas, cuja discussão, alteração e adaptação, ao sabor das oportunidades, dos interêsses e das opiniões políticas, é a própria natureza da democracia.

A oposição democrática tem-se confinado e deixado confinar neste dilema, acarretando assim, além da pesada cruz das liberdades que não tem e do contacto com a realidade nacional que lhe é subtraído, a mais pesada que é a acusação constante de que a nada se propõe senão a tirar o que está.

Sem dúvida que, para aquêles liberais da velha escola, cuja posição política está ultrapassada, é isso apenas que importa. No dia em que o Exército reforme definitivamente o velho e jubilado (no Govêrno) professor de Coimbra e afaste a camarilha de tubarões que dele se serve servindo-o, e garanta eleições livres e as liberdades públicas, como por encanto a vida portuguesa reverdecerá, viçosa e progressiva, sem qualquer necessidade de formular-se seja o que for! Bastaria dissolver a organização corporativa para o nosso comércio externo deficitário e agonizante, a nossa indústria tôda monopolista e irracional, a nossa agricultura arcaizante, o nosso nível de vida, conhecerem um surto prodigioso, como o boneco de molas, que salta da caixinha de surpresas, uma vez levantada a tampa que o oprime. Infelizmente, não é, nem será assim. Da mesma forma se supõe – ou há quem suponha – que, eliminada a opressão nas suas formas mais ostensivas – censura, polícia política, tribunais plenários, leis de segurança, etc., isto é, todo o aparato repressivo de um Estado totalitário – também como por encanto os portugueses de todas as côres e feitios cairão, chorando de alegria, nos braços uns dos outros, e dando vivas à pátria comum. Infelizmente, já não pode ser assim, precisamente pelo reverso real daquelas cegueiras e vaidades historicistas referidas.

No que se refere aos territórios portugueses, sem dúvida que a unidade deles, a ideia de que Timor, lá nos confins da Insulíndia, é tão Portugal como o Ribatejo, seria uma coisa bonita, comovente, titiladora do patriotismo de entre Minho e Guadiana, uma maravilhosa realidade para sonharmos acordados, se correspondesse aos problemas que o mundo hoje defronta, se tivesse fôrça suficiente para se contrapor a êles, e se não fosse, como é, um hediondo disfarce de uma mentalidade colonialista que quer associar um povo inteiro ao seu mêdo das responsabilidades e ao seu desejo de “aguentar-se” no poder… até à hora de fugir para Inglaterra ou algures, e de clamar, à sombra das “burras” bem cheias, pelo espírito dos Gamas e dos Albuquerques, e de chorar a infâmia dos democratas ao terem de perder o que essa mentalidade nada fizera para ganhar. E é isto exactamente o que se prepara.

É uma loucura supor que Portugal possa, pela fôrça de um paternalismo colonialista que deixou de praticar, pela fôrça de armas que países mais poderosos reconheceram não ser tempo de usar, pela fôrça de um prestígio político que só uma democracia legitimamente possui, manter unido e submisso o imenso mundo português, disperso pela Terra, para que meia dúzia de tradicionalistas insensatos continuem a falar nos “nossos” territórios com a lágrima ao canto dos olhos, e meia dúzia de especuladores e exactorers do património nacional continuem a praticar uma política (?) desastrosa em relação a êsses territórios que tratam como “seus”. Mas há mais: Portugal não pode, materialmente, arcar com a emprêsa de uma “guerra da Argélia” repetida em Angola, nem com a ocupação indefinida da Índia Portuguesa, ou da Guiné, ou seja do que for. A fôrça das armas nunca resolveu coisa alguma; e é triste imaginar-se que o Exército Português considere como sua suprema missão patriótica a manutenção desvairada de um statu quo, em que o aventureirismo mais sórdido e a opressão mais desumana fazem as vêzes de heroísmo e de exercício magnânimo dos direitos e deveres da soberania. O Exército deveria ter por sua missão mais alta garantir, quanto antes, dentro de uma estrutura totalmente democrática, a formação urgentíssima da Comunidade dos Estados Portugueses.

 

Para isso, sucessivamente:
1o. – Estabelecida a Liberdade, uma Junta Governativa, com plenos poderes de estado de emergência, proclama a Comunidade dos Estados Portugueses, e reconhece ou organiza Comissões Revolucionárias ao nível da Freguesia, da Câmara Municipal, do distrito e dos Conselhos de Govêrno em cada Estado da Comunidade, garantindo a todos os portugueses, sem distinção de raça, religião, credo político ou nível social, as liberdades fundamentais.

2o. – Eleições livres para as Juntas de Freguesia, em todos os Estados, e supressão das respectivas Comissões Revolucionárias.

3o. – Eleições Municipais em todos os Estados, e supressão das respectivas C.R.

4o. – Eleições das Assembléias Legislativas em todos os Estados, que continuarão provisòriamente, até fixada a total estrutura da Comunidade, a ser governados pela Junta Governativa Metropolitana.

5o. – Convocação de uma Assembléia Constituinte, formada pela reunião conjunta de tôdas as Assembléias Legislativas dos Estados.

6o. – Eleição do Presidente da República da Comunidade.

7o. – Eleições das Câmaras Altas.

8o. – Dissolução da Junta Governativa e nomeação dos Governos Estaduais.

9o. Eleição do Conselho da Comunidade.

Estes nove pontos sucessivos de reestruturação progressiva e democrática da organização política da Comunidade corresponderiam às seguintes bases constitucionais:
1o. – as eleições municipais elegeriam o Presidente da Câmara, o delegado do Município à Câmara Alta e os vereadores.

2o. – A Câmara Alta será, em cada país da Comunidade, constituída em partes iguais pelos delegados dos Municípios e por senadores designados por sufrágio universal, além dos senadores vitalícios que serão os que tenham sido eleitos por três períodos legislativos consecutivos.

3o. – Cada país terá, portanto, uma arquitectura administrativa e legislativa assim graduada: Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais, Assembléia Legislativa, Câmara Alta.

4o. – Das Assembléias Legislativas, com a confirmação das Câmaras Altas, emanarão os Conselhos de Governo ou de Ministros cujos chefes serão escolhidos pelo Presidente da Comunidade dos Estados Portugueses.

5o. – O Presidente da Comunidade é eleito por sufrágio universal e directo em todos os países da Comunidade. Este Presidente é também o Presidente nato do Conselho da Comunidade.

6o. – O Conselho da Comunidade é o supremo órgão da Administração pública, e é integrado pelos Governadores de cada Estado, pelos Presidentes das Assembléias Legislativas da Comunidade (ou seus delegados aprovados pelas respectivas assembléias), por delegados eleitos pelas minorias de cada Assembléia Legislativa, pelos ex-presidentes da República (que serão membros natos do Conselho) e por membros de direito adquirido (que serão todos os que tenham sido membros do Conselho, ainda que intermitentemente, por prazo superior a vinte anos), e além do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça da Comunidade, que ao Conselho preside nos impedimentos do Presidente da República ou durante interregnos presidenciais.

7o. – Os Governadores de cada Estado são nomeados pelo Presidente da República, sob proposta do Chefe do Govêrno Nacional, aprovada préviamente pelas Assembléias Legislativa e Câmara Alta do Estado respectivo e sancionada pelo Conselho da Comunidade.

8o. – O Presidente do Govêrno Nacional, ou seja do Território Metropolitano, preside a um Conselho de Ministros que incluirá, além dos Ministérios Metropolitanos, o Ministério da Defesa da Comunidade, o Ministério da Coordenação Econômica Inter-Estadual, o Ministério da Educação da Comunidade, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Comunidade, um ministro representante de cada Estado da Comunidade, um mimstro dos Territórios Administrados, e o Presidente do Banco de Portugal (único banco emissor da Comunidade).

9o. – Os ministros representantes de cada Estado no Govêrno Nacional serão eleitos em sessão conjunta da Câmara Alta e Assembléia Legislativa do Estado respectivo, e a vigência deles é a do período legislativo, e independente da queda, portanto, do Govêrno Nacional.

10o. – O Presidente do Conselho Nacional não poderá negociar acordos internacionais sem a presença dos Governadores da Comunidade (ou de seus delegados), que podem sempre que queiram ou as circunstâncias o exijam, participar das reuniões e deliberações do Conselho Nacional de Ministros.

11o. – Os Municípios serão agrupados em distritos (por seu comum acôrdo) em cada Estado, e os distritos governados por um govêrno civil designado pelo Chefe do Govêrno e apenas sancionado por votação dos Conselhos Municipais do Distrito, cada qual designará por sua vez, como assessor junto dêle, um representante.

12o. – O Presidente da República, além de presidir normalmente ao Conselho da Comunidade, presidirá, pelo menos uma vez por ano, a uma reunião, que convocará, de Governos da Comunidade, que se apresentarão na sua totalidade, para informação e coordenação da rotina administrativa. Em qualquer situação de emergência (e convocado por um dos países em reunião conjunta da Câmara Alta e da Assembléia Legislativa, ou por votação do Conselho da Comunidade), o Presidente da República poderá presidir ao Conselho de Govêrno dêsse país da Comunidade. Presidi-lo-á, sempre que, em viagem de soberania, visitar um país da Comunidade.

13o. – Em cada país, com o consenso das respectivas Assembléias, poderá haver territórios sob a administração do Govêrno Nacional, para o que êste possui um ministério especial, ao orçamento do qual enviarão contribuição financeira os respectivos países. Esta contribuição é fixada pelo Conselho da Comunidade, que tem direitos de fiscalização nesse território.

14o. – Igualmente êsse Conselho designa a contribuição de cada Estado para a defesa comum e outras despesas dos Ministérios Inter-Estaduais. Neste sentido é que o Ministro Nacional da Coordenação Económica terá de ser aprovado pelo Conselho da Comunidade, e cairá sempre que esta lhe retire a sua confiança. O mesmo sucede com todos os outros Ministros Inter-Estaduais e com o Presidente do Conselho Nacional

15o. – O Conselho da Comunidade, em decisões por maioria, terá direito de adiamento (até nova legislatura do País interessado) sôbre decisões parlamentares de qualquer país da Comunidade.

16o. – As decisões parlamentares de cada país têm força de lei interna, se não houver adiamento por parte do Conselho da Comunidade. Da mesma forma, as decisões parlamentares do Território Metropolitano só para êle são leis.

17o. – Os Estados da Comunidade serão:
a) – Portugal (com os arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde, que gozarão de autonomia administrativa e de assembléias legislativas provinciais, cujas decisões terão de ser referendadas pelo Governador de cada arquipélago – designado pelo Govêrno Nacional –, mas de cujo veto haverá recurso das assembléias, primeiro para o Govêrno Nacional e depois para o Conselho das Comunidades, ao qual pertencerá também um delegado eleito por cada uma das assembléias dos arquipélagos).
b) – Guiné.
c) – Angola (com o arquipélago de S. Tomé e Príncipe, que gozará, dentro dêsse Estado, de estatuto análogo ao dos arquipélagos do Portugal Metropolitano).
d) – Moçambique
e) – Índia Portuguesa
f) – Macau
g) – Timor

18o. – Todos os Estados da Comunidade têm, após constituídos dentro da Comunidade, o direito de secessão e de regerem então inteiramente os seus próprios destinos, inclusive o de se unirem a outros Estados. Só a Mãe Pátria nunca o poderá fazer, salvo ao Brasil. Em caso algum se entenderá por secessão o voto de união com o Brasil em regime de Comunidade, por parte de qualquer Estado, pois que ao Presidente da República, ao Conselho da Comunidade, ao Govêrno Nacional, à iniciativa de cada Estado, compete como dever essencial promovê-lo e efectivá-lo, no sentido de apressar-se a realização da Comunidade Luso-Brasileira.

19o. – O direito de secessão dos diversos países é assegurado pelas Assembléias Legislativas que podem votá-lo, mas, antes de referendado ou adiado pelo Conselho da Comunidade, terá de ser plebiscitado por sufrágio universal da população interessada, em maioria absoluta. E só se efectivará depois de o Conselho da Comunidade verificar que ficam devidamente garantidos os direitos e reclamações da minoria que votou contra.

20o. – A nacionalidade portuguesa é comum a todos os Estados, e os naturais de qualquer país da Comunidade podem transitar de um país para outro, e, apenas com as restrições de ordem económica ou financeira que tiverem sido votadas pelas respectivas Assembléias Legislativas (e referendadas pelo Conselho da Comunidade), exercer neles a sua actividade. Mas, desde que residentes no território de qualquer dos países há mais de cinco anos, têm direito de voto, são elegíveis e podem exercer qualquer lugar de Govêrno.

21o. – A organização da justiça, em cada país, é independente do legislativo e do executivo, e integrada pela 1a. e pela 2a. instâncias e por um Tribunal de Apêlo. O Supremo Tribunal de Justiça, sediado na Mãe-Pátria, é a última instância para a qual qualquer entidade individual ou colectiva, pública ou privada, poderá sempre apelar. Como zelador da constitucionalidade de qualquer decisão judicial ou legislativa de qualquer dos países, pode chamar a si uma questão para se pronunciar sôbre a sua constitucionalidade, ou é obrigado a pronunciar-se, nos casos públicos, desde que, em cada país, um têrço do eleitorado (e não dos municípios ou das assembléias) o solicite. Os seus acórdãos têm fôrça de lei, e serão imediatamente promulgados pelo Presidente da República.

22o. – É o Presidente da República quem, ouvido o Conselho das Comunidades, sob proposta de qualquer dos Governos (votado em reunião conjunta das duas Câmaras), declara a Paz ou a Guerra, e assina os acordos internacionais que as mesmas Câmaras terão de ratificar. O ataque exterior de qualquer potência estrangeira à Comunidade, a qualquer dos Estados dela, implica, imediatamente, por parte dos outros Estados, a guerra com a potência atacante.

23o. – A verificação, pelo Conselho das Comunidades, de que, em qualquer dos países, corre risco a legalidade democrática ou estão em perigo os direitos fundamentais consignados na Constituição, implica a intervenção imediata da Comunidade nos negócios internos dêsse país. O mesmo se dará se a verificação for solicitada por um têrço do eleitorado do próprio país. No entanto, essa intervenção imediata terá de ser sancionada, ponto por ponto, quanto aos casos de opressão surgidos, pelos Parlamentares de tôda a Comunidade, menos o do país em causa, o qual se considera dissolvido por não mais defender os interêsses do povo que representa.

24o. – Desde o Restabelecimento das Liberdades Fundamentais até à promulgação de uma lei eleitoral (que, depois de organizados e soberanos, os diversos Estados aceitarão ou modificarão através da estrutura constitucional da Comunidade) são eleitores: todos os cidadãos do sexo masculino ou feminino, maiores de idade ou emancipados, no gôzo dos seus direitos cívicos, sem cadastro criminal, não aguardando julgamento em processo-crime, nem interditados judicialmente.

25o. – Nas circunstâncias do artigo anterior, não são elegíveis, nem eleitores, nem podem exercer cargos públicos:
a) – os cidadãos privados pelos tribunais dos seus direitos cívicos, por crimes contra a humanidade, contra a democracia, contra a pátria, contra a honestidade eleitoral;
b) – os cidadãos com cadastro criminal;
c) – os que aguardam julgamento em processo-crime;
d) – os interditados judicialmente:
e) – todos os que, até dez anos antes da queda da Ditadura Salazarista, tenham exercido postos administrativos-políticos no Govêrno, nas chamadas Assembléias Nacional e Câmara Corporativa, nas chefias de Governos Civis, Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, ou tenham sido delegados do Govêrno junto de emprêsas, bancos ou companhias;
f) – tenham pertencido, sendo maiores de idade ou emancipados, à Legião Portuguesa ou à Mocidade Portuguesa;
g) – tenham exercido cargos de nomeação governamental nos chamados organismos corporativos: corporações, federações, grémios e sindicatos;

26o. – É reconhecido o livre direito de agremiação dos cidadãos, em todos os tipos de partido, grémio, sindicato, etc., tendo por sua vez essas agremiações o direito de se federarem como entenderem. No período de transição até à legalidade constitucional, e paralelamente com as eleições para as Juntas de Freguesia, proceder-se-á a eleições livres em tôdas as estruturas corporativas, como estádio transformador delas em organismos democráticos de orientação económica e de representação profissional.

27o. – A concorrência às eleições será sempre feita, em qualquer escalão, a título individual, sem que, para inscrição da candidatura, se exija mais que as condições de elegibilidade.

Êstes princípios, que proponho à consideração e discussão do povo português, parecem garantir a criação de uma sólida estrutura constitucional, em que a fiscalização mútua de todos os órgãos e do eleitorado assegura o exercício das liberdades, e no interior da qual tôdas as opiniões, raças e credos são senhores da sua dignidade e representabilidade cívica; e que, criando uma comunidade livre, a organizam por forma a que a máxima liberdade, a qualquer escalão, impõe a máxima responsabilidade.

No momento em que, por todo o mundo, novos rumos políticos varrem as velhas estruturas e Portugal não está defendido – política, económica e financeiramente – para resistir-lhes senão por meios obsoletos que a consciência democrática condena, a urgência em que todos os responsáveis e os que se querem responsáveis exige a meditação concreta sôbre o futuro. Êste plano pretende ser – para todos os povos portugueses – um ponto de partida para uma situação que, aliada a Comunidade Portuguesa ao Brasil, permitirá que, à beira do desastre, Portugal se erga ao plano de grande potência universal que lhe incumbe na História, não pelo que foi ou julga que é, mas pelo que é de facto e pode vir a ser.

 

Nota: Em ulterior estudo se fará o comentário filosófico-político das normas expressas nesta comunicação.
 

Some-te rato!

Portugal Democrático, novembro de 1959

portugal_democratico_2Em novembro de 1959 estreia-se Jorge de Sena como colaborador do jornal Portugal Democrático, editado em São Paulo desde 1956 por um ativo grupo de oposicionistas portugueses. O texto abaixo (prudentemente anônimo), além de mencionar as comemorações do “5 de outubro”, justifica e adensa de significado os desenhos satíricos de Fernando Lemos – ratos a figurarem o arqui-inimigo Salazar –, que vinham pontuando as páginas do jornal e deliciando os leitores
 

Tratam-te os que te lambem e legitimam, por Sr. Presidente do Conselho. Chamam-te os que ainda acreditam nas Universidades que degradaste, por Professor Doutor. No tempo em que eras fascista sem vergonha passavas por ser o Chefe, e os leonardos, teus chacais, escutavam a tua Palavra. Depois, quando inventaste a “democracia orgânica”, gostavas que te apelidassem de Chefe… do Governo. Mas, no isolamento e no silêncio e na treva, que é o sítio vago onde estaria a alma que te fugiu aterrada com o cheiro de arganaz podre a que o teu cérebro e o teu coração fedem, tu sabes que não és nada disso. Presidente de quê? De um Conselho de lacaios? Chefe de quê e de quem? Dos assassinos e ladrões impunes que proteges, para que eles te protejam o couro ressequido que nunca terá conhecido para que dignidade e que alegrias serve a carne humana? Professor de quê? Doutor em quê? Professor de desmoralização, de ceticismo, de corrupção, de crueldade, de hipocrisia, de blasfêmia, de infâmia? Doutor em quê? Em técnicas de Censura e de Polícia, que são toda a tua política, toda a tua filosofia, toda a tua religião?
Some-te, rato! Mergulha de uma vez no esgoto de oito séculos de erros que te criaram e engordaram, como excremento que és, venenoso, estéril, impotente. Rato, apenas, rato.
As comemorações brilhantíssimas do 5 de Outubro em São Paulo, o que elas significam de unidade na luta democrática, o que elas projetam no futuro como esperança de dissolução sulfúrica da tua presença pestilenta, nada disso chegará aos teus ouvidos surdos, às tuas unhas negras da pele dos mártires que esfolaste, à tua cauda imunda, com que fustigas um dos mais gloriosos e heróicos povos da terra. Não lerás, também porque és analfabeto e nunca leste nada, o telegrama em que os democratas reunidos para comemorar a Revolução que hoje simboliza a unidade de todos os portugueses, sem distinção de raça, religião ou credo político, na luta contra a tua baba peçonhenta, com que tens envenenado tanto patriota ingênuo que no Brasil honra o trabalho português, pedem a tua demissão.
E fazes bem, fazes bem. Tu não podes demitir-te, porque nunca foste nomeado. Tu és o símbolo da ilegalidade, da arbitrariedade, da injustiça, da opressão. Não te demitas, some-te! Some-te, rasteiro como nasceste, como subiste, como governaste, como imitaste nos teus discursos, laboriosamente vomitados, uma língua admirável que, rato que és, nunca soubeste falar. Some-te tal como viveste, com a mesma covardia com que mandaste assassinar, roubar, violentar. Some-te rato, com a tua bota de elástico, a tua pena de pato, a tua ceroula de fita, as tuas letras gordas, a tua finança de chácara, a tua economia de campônio, a tua política de traidores à Pátria. Some-te assim, rasteiro e mesquinho, como vieste! Some-te, rato! E que o ódio de um Povo, e o desprezo de todos os amantes da liberdade e da justiça, saibam esquecer o momento de nojo e de vergonha e castração que tu longamente foste, em mais de trinta anos de horror e reles mesquinhez. Que nem a tua pele piolhosa fique apodrecendo na memória das gentes, mais que como imagem da peste política e moral! Some-te rato!

Jorge de Sena: Na comemoração paulistana do cinquentenário da implantação da República Portuguesa

Texto do Portugal Democrático

Impossibilitado, por inadiáveis afazeres, de comparecer* ao banquete em que os democratas portugueses de São Paulo comemoram o cinquentenário da República Portuguesa, não posso deixar de estar presente em espírito a uma cerimônia do mais alto e transcendente significado – a mais importante celebração do aniversário da data histórica de 5 de Outubro de 1910, porque, em São Paulo, se comemora neste banquete, em liberdade, meio século de vida portuguesa, desde esse dia em que o povo da nossa pátria num entusiasmo de renovação autêntica, derrubou o antigo regime e proclamou a República.


Que vida portuguesa se comemora? Os dezesseis anos escassos que a República viveu? Os trinta e quatro anos de privação das liberdades essenciais que se lhes seguiram? Nem uns, nem outros. Sem dúvida que a nossa comovida homenagem vai para aqueles que, dedicadamente, abnegadamente, apaixonadamente, tudo fizeram para criar uma República que fosse, em verdade, um governo do povo, pelo povo e para o povo. Sem dúvida que o nosso mais rendido preito vai para quantos, ao longo destes anos, indefectivelmente pugnaram por uma pátria para todos os portugueses, em que lhes não fosse perguntado o que pensavam e apenas se lhes exigisse que pensassem, bem alto e livremente, a bem de Portugal. Mas não é tudo isso o que comemoramos: nem as lutas nem as dissensões, nem os triunfos fugazes, nem as derrotas duradouras. Não: nada disso é mais que uma lição terrível, que se aprende ou deve aprender, mas não se comemora. Nós comemoramos o sonho de 1910, que cinquenta anos não consumiram, não desgastaram, não destruíram, e antes acendraram mais. O sonho de uma República que virá, pela coragem dos homens e o imperativo dos tempos, e que distribua por todos nós, equitativamente, imparcialmente, a dignidade de sermos portugueses. Uma República que dê a todos o que nem todos têm: a consciência responsável de que uma Pátria não se faz só de glórias passadas nem de futuros hipotéticos, nem de um presente amarrado ao dia a dia de enriquecer ou de ganhar duramente o pão cotidiano: a consciência de que uma Pátria se faz não apenas com o amor dos seus filhos, mas com a liberdade deles, não com a liberdade de alguns, ou da maioria, mas com a liberdade de todos. Uma República que saiba, de uma vez por todas, que a liberdade não é só de palavras, ou de reunião, ou de associação, porque não há liberdades possíveis e verdadeiramente exercidas, onde não houver libertação do homem, onde um homem só que seja não estiver liberto da sujeição, do temor , da insegurança.

Eis, companheiros e amigos o que eu penso que comemoramos: cinquenta anos que são oito séculos de uma história gloriosa e dolorosa também, cinquenta anos de República indefectivelmente proclamada na nossa inteligência e nos nos nossos corações.

Viva a República!
Viva Portugal!
 

Jorge de Sena reads his poems (Entrevista a Frederick G. Williams).

Gravação em vídeo, em Santa Barbara, 04/05/1978

 

Graças à providencial iniciativa do Prof. Frederick Williams dispomos hoje deste precioso documento audiovisual sobre Jorge de Sena: breve apresentação biográfica, seguida de uma entrevista e da leitura de poemas, em português (pelo autor) e traduzidos em inglês (por F.W.). A sessão, integralmente concebida e conduzida por esse colega, ex-aluno e amigo de Sena, foi gravada em videotape na Universidade da Califórnia (Santa Barbara) a 4 de maio de 1978, um mês exato antes do falecimento do escritor. A transcrição da entrevista, reproduzida neste site (Entrevista a Frederick G Williams, 04/05/78), foi originalmente publicada pelo JL (“Jornal de Letras, Artes e Ideias” – nº 149, 14/20 de maio de 1985, p. 18), com tradução do inglês por Mécia de Sena.
Agradecemos imensamente a Frederick Williams a autorização para aqui reproduzirmos o programa na íntegra.

 

Thanks to the providential iniciative of Prof. Frederick Williams, today we have this precious audiovisual document on Jorge de Sena: a brief biographical presentation, followed by an interview and poetry reading in Portuguese (by the author) and translated to English (by F. W.). The session was fully designed and conducted by this colleague, former student and friend of Sena’s, and recorded on videotape at the University of California (Santa Barbara) on May 4, 1978, exactly one month before the death of the writer. The transcript of the interview, reproduced on this website (Entrevista a Frederick G Williams, 04/05/78), was originally published by JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias – nº 149, 14/20 May 1985, p. 18 ), with translation from English to Portuguese by Mécia Sena.
We greatly appreciate Frederick Williams’s permission to reproduce here the program in its entirety.

 

 

 

 

 

Entrevista a Frederick G. Williams, 04/05/1978

Transcrição em Português

entrev._JLA presente entrevista foi organizada e realizada por Frederick G. Williams, e gravada em videotape na Universidade da Califórnia (Santa Barbara) em 4 de maio de 1978. Sua transcrição integral, aqui reproduzida, foi originalmente publicada pelo JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias – nº 149, 14/20 de maio de 1985, p. 18), com tradução do inglês por Mécia de Sena (datada de 2/5/1984).
Frederick G. Williams – Dr. Sena, o que o fez deixar Portugal para ir ao Brasil, em 1959, e depois, em 1965, deixar o Brasil e vir para os Estados Unidos?

Jorge de Sena – Em 1959 eu tinha já vivido anos e anos de ditadura portuguesa que não mais podia suportar e tinha-me envolvido em muita actividade política da oposição. Além disso buscava uma transformação da minha vida, uma vez que eu não podia continuar a ser o administrador e técnico que era e o escritor e conferencista, etc., que também era. Por isso, quando em 1959 fui convidado para um congresso (um congresso internacional), no Brasil, convidado pelo governo brasileiro e pela Universidade da Bahia, decidi ir. Uma vez lá, fui convidado (e já tivera alguns contactos para aceitar uma posição de catedrático – como eles dizem – em diferentes lugares) acabei por escolher São Paulo. Lá fiquei e tive bons momentos, muito bons, no Brasil. Fiz-me cidadão brasileiro, por sinal.

P. – Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: Por que diz que deixou Portugal em 1959 por causa de certas actividades? Foi por causa de poesia que tinha escrito?

R. – Não, claro que não. Não teve nada que ver com literatura.Tem que ver com actividades políticas impróprias que não eram do gosto do dr. Salazar. Depois, no Brasil, onde vivi de 59 a 65, houve a revolução militar de 1964 e, se bem que eu não tenha sido perseguido directamente ou coisa parecida, senti que tinha escapado uma vez, mas que não era do meu gosto viver numa segunda coisa semelhante. O caso é que dos Estados Unidos me tinham vindo convites perguntando se eu queria vir para ensinar aqui, o que finalmente aceitei. Esta é, pois, a razão pela qual me mudei do Brasil para o Wisconsin. Mais tarde, como acontece na vida universitária americana, mudei do Wisconsin, onde estive seis anos, para a Califórnia, onde estou.

P. – Foi cidadão português até 1963, tornou-se brasileiro, hoje a sua casa é aqui, nos Estados Unidos. Encontrou aqui o que não teve ou lhe foi negado em Portugal ou no Brasil? Tenciona tornar-se cidadão americano?

R. – Bem… não sei… pode ser. É possível realmente porque uma das razões pelas quais conservei a minha cidadania brasileira, foi não só porque amo o Brasil, mas porque nascido português, os brasileiros não gostam muito disso, e, uma vez que nasci português, os portugueses também não gostam disso. Por isso, e só para irritar os dois, conservo a cidadania. Esta é a principal razão pela qual eu não virei a ser cidadão americano, uma vez que alguns dos meus filhos o são já.

P. – Foi alguma vez impedido de escrever o que queria escrever em algum destes países, ou impedido de publicar o que queria publicar?

R. – Bem… nunca no Brasil durante o tempo que lá vivi, sobretudo entre 59 e 64. Mas mesmo depois, de certo modo, não fui impedido de escrever. Em Portugal foi diferente porque tínhamos aprendido a escrever por entrelinhas. Era uma arte especial que todos os escritores tinham desenvolvido por si próprios e que fez com que muitas coisas não tivessem sido escritas desde então. E foi o que se viu quando a revolução chegou a Portugal em 74. Toda a gente aguardava belas obras primas guardadas na gaveta. E, pode parecer vaidade mas há quem diga que a única pessoa que tinha algo na gaveta era eu, com uma tremenda colecção de contos que tinham sido escritos no Brasil, pensando que jamais os publicaria uma vez que Salazar nunca mais morria. Finalmente morreu, como sabe, porque uma cadeira patriótica colapsou por baixo dele.

P. – Muito bem, uma vez que outras pessoas se sentiram impedidas de escrever por causa da censura etc., mas aqueles que têm grande talento como o Senhor foram capazes de escrever entrelinhas, como diz, foi então a censura uma espécie de ajuda para os escritores?

R. – Não, não acho. A sorte que tivemos foi que por muito tempo desde o começo do golpe de estado que pôs Salazar praticamente no poder, a censura esteve nas mãos de oficiais militares, muitos deles de cavalaria, o que foi grande vantagem porque eles tinham dois pés e os cavalos têm quatro. Ora este facto ajudou-nos imenso durante muitos anos uma vez que eles não podiam entender a maioria das coisas que tínhamos aprendido a escrever para benefício deles. Claro, isto não evitou que eles cortassem coisas. Eu tive muitas e muitas vezes artigos inteiramente cortados ou, em dois dos meus contos, tive de cortar dois pedaços agora restaurados nas novas edições desses livros.

P. – O Senhor é na verdade um homem da Renascença, interessado em tudo, especialmente em coisas de criatividade e erudição. Foi reconhecido e bem sucedido em diversos géneros de escrita. Mas, por que escreve poesia? O que o leva a escrever poesia?

R. – Ora bem, deixe-me dizer-lhe, poesia foi o que em primeiro lugar comecei por escrever. E por alguns anos apenas escrevi poesia. E o meu primeiro poema foi publicado em 1938 – há quarenta anos exactos. E sempre achei que poesia é a minha principal criação, mesmo quando estou fazendo coisas inteiramente diferentes de poesia. Penso que o sentimento poético está sempre por detrás de tudo o que escrevo. Por isso considero-me realmente um poeta, mesmo quando escrevo estudos eruditos.

P. – Sente-se motivado por algo de fora ou algo vindo de dentro?

R. – Penso que posso sentir-me motivado… é uma espécie de dialéctica sempre entre dentro e fora. E nunca sei como é que as coisas me vêm. Olhe, quando eu era ainda jovem, pelo fim dos anos trinta e começos dos anos quarenta, treinei-me sozinho em algumas técnicas surrealistas. Mas comecei a assustar-me porque descobri que não era graça nenhuma – era até muito perigoso e que deveria afastar-me ainda que mantivesse o contacto com alguns dos poderes de liberdade que as técnicas surrealistas nos podem dar. Mas ao fazê-lo e tendo começado desta maneira, isto me ensinou uma muito curiosa lição que ainda recordo: quando sinto que estou para escrever um poema recuso-me a saber ou pensar sobre o que o poema vai ser, porque quero que o poema seja inteiramente livre de se desenvolver… de dentro e por si próprio sem que eu me intrometa. Acontece que muitas vezes estou esperando uma coisa que não sei o que é e que finalmente vem. Mas é muito curioso que quer com poesia quer com outra qualquer espécie de trabalho em que deixo o meu subconsciente construir ou quando estudo alguma coisa e tenho de tomar notas e elas se organizam por elas mesmas na minha cabeça, sempre quando escrevo escrevo, e raras vezes tenho paciência para copiar seja o que for de novo ou fazer mais do que uma correcção aqui ou ali. É assim que eu escrevo. Penso que escrevemos para o futuro, evidentemente, mas escrevemos para o nosso tempo. E o que escrevemos tem de ser o momento que escrevemos.

P. – Deixe-me fazer-lhe uma última pergunta. O Senhor escreveu sobre os mais variados temas, alguns de política, alguns acerca do amor, alguns sobre cultura e música. Qual destas coisas diria que melhor caracteriza a sua poesia?

R. – Bem, penso que todas elas. Até mesmo a veia satírica que vai de par com a maneira irónica com muitos poemas deste tipo. Quanto a cultura ou seja o que for, sempre fui contra a ideia de que um poeta para ser importante deve ser estúpido ou analfabeto. Eu considero que se eles não são estúpidos ou analfabetos (o que muitos deles são) temos de aceitar que como parte do ser, do viver, da experiência e contacto com os seres humanos, o que é essencial para mim, tudo quanto é humano me interessa. Eu diria – mesmo que isto choque algumas pessoas -, a natureza interessa-me se os seres humanos ou marcas humanas estão nela. De outro modo, não estou interessado nada na natureza.
Notas:

Na realidade J. de S. começou a registar (o que não quer dizer fazer ou escrever, evidentemente) escrita em prosa quase simultaneamente à poesia, já que a primeira poesia tem a data de 11/6/36 e a primeira prosa é de Agosto desse mesmo ano. Quanto à primeira publicação de poesia, este foi um persistente engano de J. de S., visto que a primeira vez que se publicou foi em Movimento, em 1939, com “Nevoeiro” (v. nota deste poema em Quarenta Anos de Servidão). – Mécia de Sena.

Jorge de Sena: Entrevista (22/12/1968)

No Diário de Lisboa

Para o investigador social do mundo contemporâneo, as entrevistas, incluindo as jornalísticas, são importantes fontes de informação, de modo algum negligenciáveis.
Tal se passa, por exemplo, com os estudos sobre a vida e obra de Jorge de Sena, a quem e sobre quem, inúmeras entrevistas realizadas permitem iluminar, de modo mais íntimo e directo, facetas menos conhecidas de seu pensamento e individualidade sempre aberta ao diálogo.


A longa entrevista feita a Jorge de Sena, em 1968, na Sorbonne, por Abílio Diniz Silva, ao tempo, leitor de Português nessa universidade de Paris, aqui transcrita, ilustra múltiplas e facetadas dimensões de Sena escritor, intelectual crítico, investigador e professor universitário no Brasil e EUA. A sua leitura permite, desocultar práticas e representações da sua actividade docente, num período de marcantes utopias da juventude, conhecer melhor traços de sua personalidade e dimensão humana, intuir aspectos da sua relação com a pátria natal, de que foi emigrante e exilado e, ainda, percepcionar facetas dos contextos de recepção de sua obra prismática e acção literária e ensaística, à época, em Portugal [1].
Publicada no Diário de Lisboa em 22/12/1968 (p.1 e 21), com os títulos “O Ensino é das formas mais completas de realização pessoal na opinião de Jorge de Sena que esta tarde chega a Lisboa” e “Jorge de Sena fala ao “Diário de Lisboa”, esta entrevista não passou despercebida à Policia Política do governo salazarista, PIDE-DGS, em cujos arquivos se encontra cópia [2]. Aliás, este regresso a Portugal de Jorge de Sena, após quase 10 anos de exílio, não deixou de ser marcado por incidentes de controlo político-policial, na fronteira, onde o foram receber amigos de velha data, como a escritora e poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen e seu marido, o jornalista e escritor Sousa Tavares. Disso mesmo dá conta extensa matéria publicada no dia seguinte, no mesmo jornal, sobre Jorge de Sena que transcreve importantes declarações do escritor e que oportunamente aqui se divulgará.

 

“O ENSINO É DAS FORMAS MAIS COMPLETAS DE REALIZAÇÃO PESSOAL NA OPINIÃO DE JORGE DE SENA QUE ESTA TARDE CHEGA A LISBOA”

(JORGE DE SENA FALA AO “DIÁRIO DE LISBOA”)

 

Jorge de Sena dispensa apresentação. O público português que acompanha a vida literária e cultural conhece-o sobejamente como poeta de rara dimensão e como ensaísta sagaz, erudito e dotado de invulgar senso estético. As suas exegeses da obra lírica de Camões e da de António Gedeão são verdadeiro exemplo da tentativa de fundação de uma crítica literária com carácter científico. Engenheiro de profissão, professor de História da Literatura Portuguesa em Universidades do Brasil e dos Estados Unidos, Jorge de Sena publicou, ultimamente, duas séries de contos e novelas reunidos sob o título de “Andanças do Demónio”, obra que pelas surpreendentes e bem conseguidas inovações no domínio da perspectiva e da escrita, pela riqueza das vivências e das reflexões, se coloca no plano da melhor literatura de língua portuguesa, se é que não a transcende. Com estes seus dois volumes de ficção, Jorge de Sena poderia, a nosso ver, ser apresentado sem exagero como candidato ao “Prémio Nobel” da Literatura.
Polémico, iconoclasta irredutível, infatigável trabalhador, Jorge de Sena tem posto muito da sua vida ao serviço não só da arte de comunicar pela palavra e de pela palavra compreender, o que são afinal a literatura e a ensaística, mas também ao serviço da verdade, da justiça nas relações entre os homens.

“Tivemos a sorte de entrevistar Jorge de Sena, em Paris, quando o grande poeta e ensaísta (que hoje chega a Lisboa), depois de larga viagem pela Europa, veio dirigir, no Instituto de Estudos Portugueses e Brasileiros da Sorbonne, dois seminários – um sobre o modernismo literário português, outro sobre a literatura brasileira contemporânea. E, é claro, não resistimos à tentação de lhe fazer umas perguntas. Estabeleceu-se o diálogo, tão interessante como proveitoso pelo que nos é dado ouvir de Jorge de Sena:

 

ENTREVISTA DE ABÍLIO DINIZ SILVA
(Leitor de Português na Sorbonne)

[A.D.S.]- Soubemos que queria ir a Portugal. Perguntamos-lhe: É certa essa sua afirmação? E quais as razões por que pensa ir a Portugal?
[J.S.] – Razões para ir a Portugal, há várias, inclusivamente as de voltar lá após tantos anos de ausência – responde o escritor – E a razão principal é uma série de pesquisas que quero fazer em Portugal, e, ao mesmo tempo, ter oportunidade de ver os meus amigos e de estar outra vez no meu País. Aliás, é uma viagem que eu já tenho planeado há muitíssimo tempo, que já foi anunciada há muitos meses numa entrevista.

 

E a conversa prossegue, com interesse crescente:

A.S. – Há um assunto, Jorge de Sena, que é, para muitos, um pouco desconhecido: – Quais foram as razões da sua partida para o Brasil, em 1959, portanto há quase dez anos?
J.S. – A saída operou-se de maneira extremamente simples: Eu fui convidado pelo Governo brasileiro e pela Universidade da Baía a tomar parte no Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros que ia decorrer na Baía. Embarquei para o Brasil, no Brasil fui convidado a ensinar em Universidades e fiquei.
A.S. – No fundo, foi a sua preocupação docente, de poder ensinar, que o levou a ficar?
J.S. – Sim: foi de optar definitivamente para a resolução de um problema da minha vida! Eu era engenheiro, e trabalhava como tal: era um escritor também, era director literário de editoras, era diversas coisas para poder sustentar a família e a mim mesmo. Isso criava um problema que junto com muitos outros que existiam naqueles anos, anos muito confusos e agitados como é sabido, me tornava a vida insustentável. Eu era quase um escritor de domingo, sem tempo para coisa nenhuma, e as oportunidades que, nessa altura, eu recebi no Brasil permitiram-me desenvolver uma série de obras que tinha em mãos, mas sem condições para concluir, visto que nunca tive nem procurei as boas graças das instituições que editam obras que os editores não publicam. Eu nunca tive prémios, nem bolsas, nem viagens que não fossem pagas por mim mesmo. Aliás, a primeira viagem grande que eu tenho na minha vida é esta que eu estou a fazer agora, e é a minha universidade quem paga.
A.S. – Isso, de certa maneira, é um bom sinal.
J.S. – Eu acho que sim, porque creio que as pessoas se dividem em duas classes: umas as que nasceram para viajar à custa dos outros, e não fazerem nada; e as outras são aquelas que viajam quando podem ou quando conseguem uma oportunidade, porque precisam do tempo para trabalhar.
A.S. – Após a sua partida para o Brasil, motivada pelo referido colóquio, a razão que o reteve lá foi a possibilidade de ensinar?
J.S. – Exacto! E, também, ter com a docência o tempo livre para me entregar ao trabalho de escrever a minha obra e poder fazer pesquisas.
[A.S.] – Mas em relação ao ensino, como encara a actividade de ensinar?
Jorge de Sena responde:
– Como uma das formas mais completas de realização pessoal! Para mim, é um prazer tão grande dar uma aula ou conversar com um aluno sobre um ponto que acho importante, ou esclarecer o aluno sobre um ponto que eu não considero importante, mas que ele acha que é importante. Esta actividade é tanto ou mais relevante como qualquer outra obra que a gente faça. E, sobretudo, uma maneira de transmitir muito de nós mesmos aos outros; é a maneira de formar outros que serão professores depois de nós, e, de certo modo influir na formação da cultura ulterior. Podem perguntar-me por que é que isso me aconteceu com o Brasil, com os estados Unidos da América do Norte e não aconteceu em Portugal? Contudo, a resposta não me compete a mim. O Brasil fez-me professor universitário, os Estados Unidos elevaram-me ao mais alto grau universitário, Portugal nunca se preocupou com isso. Creio que agora já seria fora de horas.
 

A imagem do Brasil

A.S. – A perda, é claro, foi para Portugal. Mas, Jorge de Sena, o que foi para si a experiência brasileira, como homem e como português?
J.S. – A experiência de viver no Brasil é inestimável, e penso que a maioria dos portugueses de cultura a deveriam fazer. Um dos grandes erros de Portugal é ter do Brasil uma imagem falsa, porque ou é dada por brasileiros que estão só de visita, ou então é uma imagem mitológica, cheia de lacunas e de ignorâncias da complexidade e da enormidade do Brasil. Por outro lado, a minha experiência no Brasil não serve, de certo modo, de paradigma para o que seja a experiência de um português viver no Brasil, embora tenha os seus aspectos paralelos.
 

O escritor prossegue:

– Veja: o pequeno português que emigra para o Brasil é, às vezes, um homem que nunca viu uma cidade grande, que não conhece o seu próprio País; é um homem que não tem qualquer noção do que Portugal seja; tem a noção da aldeia donde partiu. Numa noite de trovões, embarcou no Porto ou em Lisboa para o Brasil, e o primeiro mundo que ele viu, não foi o do seu País, foi o do Brasil. Esse homem chega ao Brasil em condições de querer trabalhar, de querer elevar-se socialmente, e portanto tem a tendência dupla de, por um lado, adaptar-se, e por outro, ser extremamente renitente a uma adaptação ou a uma compreensão do mundo em que vive, que ele não procura compreender, nem tem categoria para compreender. E esse mundo paga-lhe, de certo modo, na mesma moeda: também não o compreende e, em grande parte, não o aceita, o que é uma verdade muito dura, mas que é a pura verdade, para lá de todas as circunstâncias oficiais. Os brasileiros, de uma maneira geral, imaginam que os portugueses se riem deles, e os portugueses nunca se riram dos brasileiros como s brasileiros se riem dos portugueses.
A.S. – Esse paradoxo é, aliás, facilmente verificável por qualquer português que vai ao Brasil. Mas já que viemos para este campo, nós verificamos que, no fundo, o português no Brasil não empresta o seu nome às suas indústrias que se formam, continuando a ser o dono da “padaria”.
J.S. – Não, não é certo, pois há velhos nomes portugueses na gente d indústria, e há muitos portugueses que têm posições preponderantes no Brasil!
Jorge de Sena prossegue:
– Eu penso que uma pessoa não pode ou não deve viver num país estrangeiro longamente, se aí se radica, sem fazer um esforço para se integrar nele como tal. Isso é como uma pessoa manter mentalmente uma dupla nacionalidade; quer dizer, uma pessoa ser fiel à sua própria cultura, à sua própria maneira de ver, já que uma pessoa não se transforma facilmente. Mas, por outro lado, procurar ser também daquele lugar onde está. E isso foi o que grande parte das outras colónias souberam fazer no Brasil, e que os portugueses, até certo ponto, não souberam fazer, por responsabilidade que cabe às administrações portuguesas, de longa data, de décadas e décadas, talvez de um século, que nunca fizeram nada para estabelecer os portugueses no Brasil em condições de eles poderem ser um pouco mais do que a imagem que os brasileiros têm deles.
A.S.– No fundo isso vem a rebater o mito de que o português é um ser facilmente adaptável ao meio estrangeiro.
J.S. – Eu acho que isso é um dos mitos mais ridículos da nossa história e da nossa cultura! O português é quase radicalmente inadaptável a tudo. A arte do português consiste em viver nos diferentes países, mas, no fundo, continuando a ser português, a julgar as coisas em função de uma certa visão do mundo. E isto é tão verdade para as pessoas de alta cultura como para as pessoas sem ela. Aquilo que se considera ser a grande adaptabilidade do português resultou, no passado, de uma expansão imperial em que o português pôde marcar a sua presença. Se essa presença pôde ser marcada, e ainda hoje subsiste em diversos lugares, acho que é uma prova da incapacidade do português para se adaptar.

 

A experiência brasileira

[A.S.] – Como sentiu a sua experiência universitária brasileira – inquirimos de Jorge de Sena.
[J.S.] – Foi – responde o escritor – uma experiência muito rica. Fui convidado por diversas Universidades do Estado de S. Paulo – e guardo disso as melhores recordações. O contacto humano com os estudantes, o entusiasmo da juventude na ideia de criar um novo Brasil, é das coisas mais emocionantes e mais comoventes em que tive a honra de participar.
A.S. – No campo da investigação, creio que foi no Brasil que fez a Canção de Camões!
J.S. – Não: os estudos camonianos já os fazia há muito tempo. A Canção de Camões foi um livro que eu ampliei, completei e realizei no Brasil, e que, aliás, não podia ter realizado sem as bolsas de estudo que recebi para isso.
A.S. – Concluindo: que experiência e que laços contraiu no Brasil?
J.S. – A experiência, acho que foi eu ter ficado brasileiro!… E tê-lo ficado do coração. De cultura, eu já era muito ligado ao Brasil e o Brasil não foi uma inteira descoberta para mim. Durante anos e anos, eu estudei e liguei-me à sua literatura e à sua cultura. De modo que não foi para mim uma novidade.
“Mas não deixou de ser uma surpresa em numerosos aspectos, porque é sempre diferente o conhecer um país e viver nele. O Brasil é um país tão complicado que acho que todos nós teremos a desculpa de o não entendermos quando os próprios Brasileiros também o não entendem às vezes. Por outro lado, a sua própria grandeza faz com que, às vezes, ele seja melhor entendido por estrangeiros que o amem do que pelos próprios Brasileiros, na medida em que estes estão demasiado integrados, por vezes, dentro de um determinado sistema social, dentro de uma determinada classe, e tomam as fronteiras do seu grupo pelas fronteiras do Brasil.”
A.S. – No fundo, isso põe o problema dos “Brasis”!
J.S. – Que são muitos … Sociologicamente, no sentido horizontal e no sentido vertical.
A.S. – Uma pequena curiosidade: como sente em si a nacionalidade brasileira?
J.S. – Eu devo dizer o seguinte: para mim, as nacionalidades não têm o mínimo significado nem o mínimo valor. Nós pertencemos àquilo a que culturalmente pertencemos. Pertencemos a um país em que nascemos irremediavelmente se vivemos nele e nos formámos nele, até aos 10 anos, o que foi o meu caso, e isso não tem conserto. Herdámos as virtudes e os defeitos de nossos avós, e não há nada a fazer. Quando uma pessoa se transfere para um outro país e se integra sinceramente nele adquire, evidentemente, determinadas vivências que fazem parte de sua personalidade. “Nesse sentido e com certas reservas, agora sinto certos aspectos de mim serem de americano, porque não é impunemente que vivo há três anos na América, no meio de Americanos. E sobretudo porque há isto: eu sou um homem visceralmente de exílio, que se sente mal em toda a parte, mas que chegou à conclusão que se sente mal no Mundo, embora ache que não há outro. E daí eu ter concluído que devemos ser sempre de todos os lugares que nos acolhem”.
A.S. – E isso põe a questão…
J.S. – Sem que isso ponha a questão, desculpe, da nossa nacionalidade profunda que é aquela da cultura a que nós pertencemos. Tudo o mais, acho que são questões de passaporte…
A.S. – No fundo estar num passaporte de capa azul ou capa verde…
J.S. – É-me perfeitamente indiferente, mas tem determinadas consequências de ordem moral: obriga pelo menos moralmente a uma lealdade para com os países a quem a gente pertence!
A.S. – Existe no fundo para si essa ideia de exílio?
J.S. – Veja que é uma ideia muito contraditória, porque eu sou uma espécie de exilado profissional. Eu acho que já o era em Portugal, antes de lá sair, visto que tantos acharam que eu era uma pessoa horrorosa, altamente incómoda, desagradável, etc., etc. – e apesar dos muitos amigos, eu tinha criado à minha volta um grande isolamento. Mas devo dizer que nunca senti este isolamento, inteiramente porque o meu isolamento foi sempre o isolar-me dos medíocres, procurar não ter contacto com essa classe humana que é necessariamente numerosa…Aliás foram sempre eles as pessoas que menos gostaram de mim.
A.S. – É por isso que o número dos seus inimigos é tão grande.
J.S. – Não acho! Acho que não tenho a mínima razão de queixa, e que tenho mais amigos do que inimigos, ao contrário do que pode parecer. Acho, mesmo, que os meus inimigos são pessoas que me querem muito bem…Eles é que não sabem.
 

A ida para os Estados Unidos da América do Norte

[A.S. ] – Porque foi para a América do Norte? – perguntámos a Jorge de Sena
Eis a resposta:
[J.S.] – Porque me convidaram, e porque em 1965, achei que a vida no Brasil era insuportável, e sobre certos aspectos queria sair do Brasil, nessa altura, porque me era muito difícil assistir a determinadas coisas a que assisti. Quando, nessa oportunidade, recebi convites para ensinar em Universidades norte-americanas, aceitei um deles, e fui para os Estados Unidos apenas por achar que, momentaneamente, a vida no Brasil não era possível para mim, e eu precisava de paz de espírito para poder trabalhar. É certo que recebi uma lição curiosa e, ao mesmo tempo, notável, que foi a ter mudado para um país em plena crise, o que me ensinou muitas coisas no aspecto social, político, humano – porque a América é um país extremamente complexo, que não se conforma com os estereótipos com que habitualmente é vista.
A.S. – Qual foi a sua reacção ao quotidiano norte-americano?
J.S. – Sabe: é curioso que, no fundo, a América também não me era inteiramente desconhecida, porque paralelamente com a literatura inglesa, eu me tinha interessado pela literatura e pelas coisas norte-americanas. Simultaneamente, nunca tinha estado lá nem nunca tinha pensado em ir para lá. Mas hoje que vivo lá, sinto-me relativamente bem, como me poderia sentir em qualquer outra parte onde tivesse condições de trabalho semelhantes.
A.S. – Essas condições serão fabulosas no aspecto material, ou será um mito?
J.S. – Não são! Os professores universitários não são as pessoas mais bem pagas.É um problema semelhante ao que sucede no resto do Mundo.
 

Problema da juventude

Outra pergunta cuja resposta se reveste do maior interesse.

[A.S.] – Qual foi para si o resultado dos contactos com a juventude universitária americana?
Ouvimos a resposta de Jorge de Sena
[J.S.] – Foi uma surpresa muito agradável. Os estudantes, de uma maneira geral, são extremamente honestos, conscienciosos e trabalhadores – e interessados naquilo a que se dedicam. Sob o ponto de vista humano, estão numa transformação sócio-moral extraordinária, na medida em que tudo isto está a ser posto em causa – é certo que por vezes com um anarquismo que acho extremamente primário – mas com aspectos positivos para o futuro. Basta pensar que daqui a alguns anos mais de metade da América terá menos de vinte e cinco anos.
A.S. – Como entende a contestação dessa juventude em relação aos Estados Unidos e à posição que eles assumem no Mundo?
J.S. – Acho que é um problema difícil de se entender fora da América. A América é um daqueles países que não nasceu de um mito nacional: formou-se de ym mito institucional. E esse mito institucional é constituído pelos escritores dos Founding Fathers. É a Constituição dos Estados Unidos da América do Norte; é a “Declaração dos Direitos do Homem” que apareceram antes da Revolução Francesa, e foram uma das fontes próximas da mesma Revolução, e que, embora fossem feitas para a criação de uma República aristocrática de grandes senhores, no fundo tinham em si o germe do que seja uma noção de liberdade, de justiça social, de democracia integral.
“Sob este aspecto, a revolta da juventude norte-americana é apenas o desenvolvimento amplíssimo de um fenómeno que sempre foi permanente nos Estados Unidos, que derivou do mito institucional e que se traduz na existência de um padrão moral e ideal do que a América deve ser, e em nome do qual sempre se criticaram certas atitudes dos governos ou determinados hábitos de vida americana. O que hoje acontece, é uma rebelião gigantesca, que não se verifica só na juventude, mas em todas as camadas sociais, contra o facto de a América não ter realizado as suas promessas institucionais no momento em que atinge o máximo da sua prosperidade económica. Assim a crise moral pré-existe à crise social”.

Entretanto eram horas de sair da Sorbonne. Jorge de Sena ainda nos confiou alguns dos seus projectos literários, e concluiu por nos dizer:
[J.S.] – Sabe: a tarefa de desmistificação da cultura portuguesa é tão imensa, que eu acabei por adquirir uma grande humildade, e a certeza de que o que fiz e farei é muito pouco diante do muito que há por fazer!
• Chegada a Lisboa de Jorge de Sena
O escritor Jorge de Sena, figura proeminente no panorama intelectual no mundo de língua portuguesa, com larga projecção, [regressa ] após uma ausência de dez anos, durante a qual muito prestigiou o País, como professor universitário no Brasil e na América do Norte e pelas suas actividades a elevado nível intelectual. Vindo de Madrid, chega, às 19 e 30, à estação de Santa Apolónia, após larga digressão pelos principais centros intelectuais europeus.
 

Notas:

1. Ver texto de caixa do jornal, inserto no corpo do texto da entrevista.
2. IANTT – Arquivos PIDE-DGS, Processo Jorge de Sena, cota 15-C1 (2)

Entrevista em Moçambique, julho de 1972 [fragmento]

Em áudio: Trecho da Entrevista.

Em 1972, durante sua viagem ao continente africano, Jorge de Sena concedeu uma entrevista à Rádio Moçambique, no dia 19 de julho, a ser transmitida no programa "A noite e o ouvinte", produzido por Manuel Tomaz e Leite de Vasconcelos (o entrevistador). Censurada logo depois de sua gravação, esta entrevista nunca foi transmitida. Tratam-se, na verdade, de 86 minutos de intensa reflexão crítica, histórica e literária de tudo aquilo que rodeou a vida e a obra de Jorge de Sena. Nas claras e longas respostas, encontra-se vasta gama da conhecida erudição de Sena, articulada com um notável empenho pedagógico e um refinado senso de humor, que revelam o grande tecido de considerações estéticas, políticas e históricas, dentre outras, de que se fez o pensamento seniano. Após 38 anos, coube à Antena 2 a primeira transmissão radiofônica desta verdadeira "relíquia" (no dia 2 de novembro de 2010, quando Sena completaria 91 anos). E mais detalhes sobre as circunstâncias que a cercam podem ser ouvidas em http://www.rtp.pt/antena2/?t=Jorge-de-Sena-1919-%96-1978.rtp&article=1570&visual=2&layout=5&tm=5, no vivo testemunho do próprio jornalista Manuel Tomaz, a quem se deve sua preservação.
 

 


Imagem: Jorge de Sena e a Ilha de Moçambique. Fotografia de Rui Knopfli.

 

MT – Suponho que não vale a pena fazer qualquer espécie de apresentação ao público. Jorge de Sena é suficientemente conhecido e vai perdoar-nos o facto de não antecedermos de qualquer título o nome de Jorge de Sena. Vamos começar por perguntar ao poeta Jorge de Sena como chegou à poesia, se houve algum itinerário que o conduzisse a ela, nomeadamente um itinerário de leitura e de análise de outros poetas.

JS – […] O que me aconteceu foi o seguinte: eu escrevi sempre, sem ter consciência disso, desde quando era criança, e por volta de, suponho eu, quando tinha 16 anos, comecei a escrever conscientemente do que escrevia. […] Eu conhecia bastante, nesse tempo, os clássicos, […] conhecia vários poetas estrangeiros das línguas que podia ler e estimava, e procurei ler mais, mas só depois é que eu comecei a conhecer os poetas modernos portugueses. Eu vivia tão fora do que fosse vida literária em Portugal que nem sabia que eles existiam. E aconteceu uma coisa muito curiosa: eu mostrava alguns dos meus primeiros poemas a colegas meus, primeiro de liceu, e depois de faculdade. E havia um par de amigos meus que tinham uma paciência, coitados, de ouvir aquilo tudo que eu mostrava. E uma das coisas que mais influência teve, por curioso que pareça, na maneira como eu me tornei independente na forma de escrever, foi a estreiteza de um dos meus colegas, que tinha a convicção de ser um dos homens mais inteligentes do mundo (sempre teve, coitado), e era um homem muito inteligente, realmente, mas que não entendia e que não conhecia nada de poesia moderna, e quis constantemente insistir em que aquilo tudo que eu escrevia não era poesia, nada daquilo era poesia, nada daquilo eram versos, nada daquilo tinha regularidade nenhuma, era uma coisa perfeitamente inclassificável. E foi, talvez por uma espécie de oposição ou reacção contra aquela atitude dele tão rígida, e de outras assim, que eu fiquei um poeta moderno sem me dar conta. Quando depois eu comecei a ler mais poesia moderna, muito admirado verifiquei que eu era um poeta moderno e não sabia.

MT – Ora, a poesia portuguesa, desde que Jorge de Sena começou a escrever, passou por vários caminhos, sofreu várias influências, e falou-se de várias correntes, ou existiram de facto várias correntes na poesia portuguesa. Jorge de Sena alguma vez sentiu-se incluído em algumas dessas correntes?

JS –[…] Eu senti-me sempre incluído em diversas correntes. As correntes é que nunca me consideraram incluído nelas. […] Estando eu a par do que se passava e sendo eu muito curioso de conhecer literatura, eu ia sabendo do que se passava nas outras literaturas e não estava, portanto, a descobrir a pólvora. […] Por exemplo, eu creio que fui neo-realista, eu creio que fui surrealista etc. ao mesmo tempo, ou antes, das pessoas que apareceram depois com os “ismos”. Quer dizer: eu fui neo-realista quando conheci os neo-realistas, juntamente com eles. […] Quando apareceram os Cadernos de Poesia (que primeiro foram organizados, como se sabe, por José Blanc de Portugal, Rui Cinatti e Tomás Kim…) […] comecei a colaborar com eles – atitude, digamos, de vários dos neo-realistas, que o neo-realismo estava ainda a aparecer nessa altura, as obras ainda estavam por vir… O que havia eram as polêmicas, em grande parte como já costumava acontecer com os movimentos literários… E acontece que muitos desses neo-realistas eram nossos amigos pessoais (e continuaram a ser, como ainda são hoje), outros não eram, e, de uma maneira geral, catalogaram Cadernos de Poesia como sendo uma coisa que era o contrário deles. Mas os Cadernos de Poesia não eram o contrário deles, nem desde a primeira hora, até porque… as pessoas habitualmente ignoram, ou não sabem, ou nunca viram uma coleção dos Cadernos de Poesia, que é hoje uma coisa muito rara. […] Toda a gente, de todas as cores (menos para um certo lado), todas colaboraram nos Cadernos de Poesia, e todas foram convidadas a colaborar nos Cadernos de Poesia e colaboraram neles, o que prova evidentemente que os Cadernos de Poesia não eram contra eles, senão tinham-nos excluído. Mas fazia parte, evidentemente, do mito (e há sempre os mitos polémicos em todas as coisas), de que as pessoas eram contra aquilo […] E houve sempre outra coisa que nunca se entendeu, e que eu desejaria explicar: em Portugal é muito difícil, e sempre foi – e isso vem dos próprios defeitos da maneira de como a literatura é ensinada tradicionalmente – que as pessoas não sejam todas arrumadas numa prateleira, com uma ficha de catálogo, com um rótulo de um “ismo”, de um isto ou daquilo ou daquilo outro, e, quando as pessoas não acertam numa coisa destas, estamos todos perdidos, porque os historiadores literários estão habituados a arrumar tudo segundo o catálogo e quando encontram uma pessoa em quem não podem pôr um rótulo simples, deixam-nos ficar no fundo da página, não é? E é o que costuma acontecer. E aconteceu connosco, com todos nós. Uma das coisas mais curiosas, por exemplo, é falar-se assim do “grupo” dos Cadernos de Poesia como se os Cadernos de Poesia tivessem sido um grupo. Os Cadernos de Poesia não foram um grupo; foram uma série de pessoas que fundaram uma revista com a intenção de que a qualidade poética, dentro de certos limites de exigência de consciência do mundo, fosse preservada, numa altura em que, de um lado, nós tínhamos a presença, os homens da presença, a gritar pelo documento humano etc. etc. (e nunca diziam à gente como é que as pessoas escreviam fosse o que fosse) ou, do outro lado, tínhamos outros sujeitos a exigir que as pessoas se comprometessem aqui, ali e acolá. E todos a escreverem da mesma maneira, como os presencistas escreviam, e os presencistas e eles todos a escreverem como se escrevia antes de existir o Fernando Pessoa, não é? E esse é um dos raros segredos que a Crítica Literária não costuma sublinhar e é assim. E a atitude que nós assumimos coletivamente não foi a de um movimento. Foi, digamos, a de reagir, não contra as idéias, mas contra o facto de, no meio daquilo tudo, as pessoas se esquecerem de que a poesia se faz com palavras, a poesia se faz com expressão poética, a poesia se cria como um objecto estético, e não são necessariamente as idéias, ou as boas intenções, ou o documento humano, que faz seja o que for um objecto estético: é a própria arte com que as coisas são feitas.

MT – […] Ainda há pouco tempo eu ouvi alguém, aliás na rádio, a referir-se ao que deve ser a poesia, frisando até, ou enunciando até certas normas, significando uma função social da poesia e a necessidade daquilo que os ingleses poderiam chamar um commitment ou os franceses um engagement. Qual é a posição do Jorge de Sena em relação a estes aspectos?

JS – Bem, eu acho que eu fui sempre, nesse sentido, um poeta engagé, ou se quiser um poeta commited. A única coisa que eu nunca fui, não sou e creio que agora já é tarde para ser é estar commited ou engagé a qualquer programa que me seja imposto por alguém. Eu sempre estive commited ou engagé às idéias que me impus, ou que eu aceitei eu mesmo. Quer dizer que eu nunca aceitei quaisquer programas partidários de qualquer espécie. Eu nunca pertenci a nenhum partido político, não pertenço e creio que nunca pertencerei… Da mesma forma que nunca pertenci a secções de futebol, a clubes de classe, a outras coisas; que sempre fui a pessoa menos associativa do mundo, porque acho que associação, nesse sentido, é o oposto da coisa que mais estimo, que é a convivência humana. Eu acho que conviver é muito mais importante do que a gente associar-se para comer bacalhau, ou a gente associar-se para celebrar o aniversário do Infante D. Henrique, ou a gente associar-se para salvar o universo, inclusivamente, porque há numerosas formas de salvar o universo, o que faz que todas juntas não cheguem para isso.

MT – Poeta português, e não apenas por linguagem, Jorge de Sena não vive em Portugal. E como, portanto, pode assumir, longe, a realidade [literária] portuguesa?

JS – […] Quando nós estamos de longe, temos pelo menos uma possibilidade, que é escapar àquele problema que sempre existe de, no meio da floresta, não se ver floresta por causa das árvores. E também aos erros de perspectiva, que fazem a gente julgar que uma árvore pequenina que está ao pé de nós é muito grande, e que uma árvore muito grande que está longe de nós é muito pequenina. E é exactamente isso: quando a gente está de longe vê-se melhor, corrigem-se melhor as coisas. Além do mais, eu penso que […] ninguém tem a obrigação de ser o registro civil de tudo que se publica num país. A gente tem sempre tempo de esperar algum tempo, de saber quem é que se afunda e desaparece, quem é que fica. E aqueles que ficam a gente vai ler depois. Não há necessidade de ler todas as semanas tudo o que se publica. Até porque eu acho […] que todas as literaturas normalmente são feitas de obras notáveis e de obras relativamente medíocres. E se a gente passar a vir todas as semanas a ler 80% de porcarias e 20% de obras boas, a gente acaba por medir as coisas boas pelo nível da porcaria, não é?

 

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