Depois do “Discurso da Guarda”: carta aberta a Ministros

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No 10 de junho de 1977, a multidão diante da Sé da Guarda.

 

Com a acidez agressiva que muitos lhe reconhecem, JS dirige esta carta aberta aos Ministros de Estado responsáveis pela emigração portuguesa e pela representação de Portugal fora de seu território. Em vários passos avalia o “Discurso da Guarda” e as circunstâncias que o cercaram, sem deixar de lado a figura do grande homenageado e tudo que ele representa. Datada de 26 de março de 1978, só a 3 de maio veio à luz, num “destacável’ do Diário Popular de Lisboa. Note-se, particularmente, ao fim, a longa “assinatura”, pejada de ironia.

 

 
Carta Aberta ao Ex.mo Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros, e também aos Ex.mos Secretário e Sub-secretário da Emigração

Começo por pedir desculpa, ao dirigir-me primacialmente a V. Exa. Sr. Ministro, e também aos acima referidos membros do Governo, de náo mencionar nomes, não por qualquer calculada ou involuntária falta de respeito, mas porque os membros dos governos em Portugal têm mudado tanto, ou têm trocado entre si tantas vezes as mesmas cadeiras, ou estas cadeiras têm mudado de nome tantas vezes, que creio humanamente impossível ao povo português, quer o que vive e labuta em Portugal metropolitano (do qual até os chamados Distritos Autónomos já estão longe, pela distância que os separa do secular e sempre permanente eixo São Bento-Terreiro do Paço, que este último, ao menos no tempo das ladroeiras no Oriente e nos Brasis, não tinha São Bento com que reparti-las), quer, com maioria de razão, o que vive no estrangeiro, e para fins de retórica demagógica e de colecta de fundos para o desgoverno de Portugal, é sempre, e cada vez mais, com crescente desvergonha, cinismo e hipocrisia, chamado «português», com uns braços larguíssimos abertos em ansioso e lacrimoso apelo fraterno de cortar as almas incautas, se é que ainda subsistem portugueses desses em que possa pegar esta lambugem repelente, que cumpre denunciar em público de uma vez para sempre, com promessa dc repetição mais violenta de cada vez que qualquer dos Senhores tornar a repetir, seja onde for, afirmações de semelhante quilate. E poderão estar certos de que a mim nem a morte me cala, como acabará por calar e sumir nas sombras dela a maioria dos Senhores, de todas as cores e feitios, com suma caridade patriótica, apagando os vossos nomes e dos vossos comparsas, da lista dos ilustres da Lusitânia, na qual, como tem sucedido desde D. Tareja, a fundadora do Condado Portucalense, e senhora — já então — de notoriamente patrióticos maus costumes, numerosa gente tem feito por ser incluída, por mais que mudassem os reis, os sistemas de governo, etc., para não falarmos de revoluções gloriosas ou não, e de guerras civis de mais segura ou mais duvidosa glória.

Como é sabido de algum modo pelas pessoas de algumas letras em Portugal, e é sem dúvida sabido claramente pelo povo português mesmo sem letras mal gastas e desrespeitadas, desde que a ele e gara.ele falei, em 10 de Junho de 1977, nas comemorações nacionais na Guarda, eu tenho alguma autoridade — ainda que nada de oficial em sector algum — intelectual, moral e política para falar de Portugal e dos seus filhos, e da cultura que é chamada portuguesa, nos seus mais diversos aspectos. E como criatura que nasceu em Lisboa, filho de pais portugueses, aí viveu até aos quarenta anos, e de Portugal se exilou para o Brasil por motivos sabidamente políticos, aonde se tornou por necessidade e simpatia «cidadão brasileiro» (ponto de suma importância para o entendimento público desta carta aberta), e manteve sempre a sua casa de Lisboa, aonde, desde que em 1968 lhe foi possível regressar ao País (para ser imediatamente preso na fronteira e transportado para a Espanha pela PIDE, tendo depois sido autorizado a entrar, devido ao escândalo internacional logo desencadeado, altamente inconveniente para a fachada conciliatória que a ditadura de então desejava no momento assumir), sempre têm estado ele, sua Esposa, e alguns dos seus nove filhos, casa essa que o governo de Salazar tentou tirar-lhe uma vez, e a Revolução de Abril, pela qual o presente signatário sacrificou muito da sua vida e da dos seus ao longo de trinta anos de antifascismo (sem dúvida um respeitável recorde no Portugal de hoje, tão cheio de honrados e poderosos antifascistas que, não há muito, a gente podia ver em farda, palavras, obras e lucros de outra cor), tentou roubar-lhe duas vezes (precisamente ao pretexto daquela ausência minha que S. Exa. o Sr. Presidente da República galardoou com a Ordem do Infante D. Henrique, chamando-me «emigrante ilustre» que tem prestado no estrangeiro alguns serviços meritórios), criatura, o signatário que agora trabalha regularmente, desde 1965 nos Estados Unidos da América, onde, desde 1970, vivendo na Califórnia, está em estreito contacto com vastos sectores da colónia portuguesa e luso-americana, também mais alguma autoridade lhe não falta (com perdão do longo período que nunca afligiu os analfabetos quando falam a língua portuguesa viva, mas sim os semianalfabetos quando a escrevem ou lêem morta) para responder ao Sr. Ministro.

A razão desta resposta é a mensagem de não sei que data (e estas lamentáveis coisas, pelo carácter de repetidas e mastigadas, e o mais que já ficou dito, em verdade não têm data nem a merecem) que o Sr. Ministro lá pelos idos de Fevereiro ou Março distribuiu pelo Universo, e me chega agora no prestimoso boletim informativo publicado e distribuído pelo Consulado-Geral de Portugal de São Francisco (cidade muito próxima de mim, mas a 600 km). E antes de entrarmos na purulenta matéria, perdoe-me o Sr. Ministro uma outra falta: o não tratá-lo continuamente por V. Exa. Eu ingenuamente pensava que uma das conquistas da Revolução de Abril havia sido, não direi a abolição do Vossa Excelência (que deve reservar-se para os mais altos magistrados da Nação como o Presidente da República), mas a diminuição do seu uso. Ingénuo era: nunca se viu em Portugal tamanha multiplicação de Excelências como desde Abril de 1974, tal como nunca tanta gente que não é Doutor em coisa nenhuma senão em mudar de cadeira governativa, ou ser chefe de partido político, é Doutor, sendo muito simples e honestamente só Licenciados por terem ganho os respectivos canudos nas universidades salazaristas que é o que aconteceu com quem ainda não anda pelos setenta anos. Diga-se de passagem, e não fica mal a propósito, que com os títulos se deu o contrário do que sucedeu com aquele oficial A Bem da Nação que o Salazar mandara pôr no fim de todos os escritos emanados de entidades idem. Muito bem abolido foi. O que todavia cada vez mais parece, na politicagem de que não há grupo nenhum que possa procla-mar-se inteiramente limpo e inocente, é que a abolição daquela fórmula foi tomada demasiado ao pé da letra, com o desastroso mas evidente resultado de que, ao deixar de escrever «a bem da Nação», muita gente de responsabilidade, por si mesma jogando com a irresponsabilidade alheia, passou a confundir o bem do País com o seu próprio, e a esquecer que a Nação realmente existe, abaixo e acima das combines e traficâncias, e mais dia menos dia virá pedir as contas dos milhões desaparecidos.

Posto este intróito informativo e moralista, entremos em matéria, esquecendo de momento o adjectivo que ela merece. E, para começarmos por alguma parte, comecemos pela honra insigne que — é verdade — eu tive a oportunidade de conferir a mim mesmo: a de ter falado na Guarda, a 10 de Junho de 1977, ao autêntico povo português de Portugal e de toda a parte (na medida em que, como é sabido, uma manifestação puramente nacional e de projecção internacional, não foi prejudicada por uma falta de cobertura notória, que, no dia seguinte, motivou, no almoço de encerramento das festas mais oficiais, o veemente protesto de S. Exa. o Sr. Presidente da República). Como nota de pé de página, e para informação do verdadeiro povo português e dos emigrantes em nome dos quais protesto aqui, seja-me permitido apontar que de uma antologia de poesia de Camões, preparada não por um camonista, mas reeditada de outra já existente, organizada por um distintíssimo poeta contemporâneo, se mandaram imprimir para distribuição pelo Universo inteiro, centenas de milhares de exemplares, ao que consta, e por certo que alguns ganharam bastante com isso, e entre eles, por acidente, o próprio Camões. Todavia convém sublinhar que o folheto de uma reunião tão transcendente como foi a da Guarda em 1977, contendo os discursos de Vergílio Ferreira e o meu, além dos das personalidades, como o Exmo. Presidente da República e outros, que, por dever de ofício ou de responsabilidade na organização da mundial celebração do Emigrante, lá falaram também, esse folheto, impresso em Lisboa, em Setembro de 1977, foi-o numa modestíssima edição de escassos 20 000 exemplares, evidentemente não destinados a mais que uma simbólica e invisível distribuição,fctalfcomo aquela «cobertura» que fez o Sr. Presidente da República protestar, no fim do almoço, na cidade mais alta de Portugal (cujo distrito é o que tem exportado, para as Franças e Germânias, o maior contingente dos únicos emigrantes que, para lá e dentro de todas as hipocrisias, são os que realmente contam para as necessidades reais ou sôfregas do orçamento continental ou metropolitano). Como se vê, agora como no tempo do salazarismo, nem toda a gente possui ou recebe os mesmos direitos (os discursantes da Guarda, pelo menos os literários, foram apenas pagos com a viagem em transporte oficial e as esposas arrumadas na última fila das dezenas e dezenas de convidados) de ser égua de cobertura ou cavalo de cobrição. Isto para falarmos em metáfora de cavalaria, que é tradicionalmente, com o devido respeito, a mais acessível às classes dirigentes e governativas.

Temos de reconhecer que, para aquelas festividades à escala mundial, de 1977, e que agora se decidiu que serão, como Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, repetidas, por certo que a escala menor, todos os anos (embora o escamotear do pobre Camões por dentro das «comunidades», o que está certo, dado que, de entre todos nós, ele foi, por cerca de vinte anos de vida, o mais ilustre emigrante, se pareça muito com a falta de cultura que tem feito propagandear-se certa vergonha de Camões ter existido, quando o pobre triste já sabia e disse, há quatrocentos anos, da sua amarga vergonha de ter nascido entre gente que não merecia o seu canto, e ainda ele não tinha visto nada…), houve o cuidado novo de convidar para discursantes e recitantes, urbi et orbi, escritores ou artistas na sua maioria de reconhecido mérito. Sem dúvida que isto é de registar-se e louvar-se, esperando-se que, no futuro, não se transforme em mais um pretexto para voos internacionais da compinchada para ir tratar dos seus (dela) direitos autorais e outras oportunidades nos países aonde, segundo a fórmula oficial — literalmente muito justa — a selecção dos autores a traduzir se faz só segundo a «qualidade», sem que se explique que essa qualidade não significa necessariamente superioridade estética, mas sim que os indivíduos são, pelas entidades competentes, garantidos como, senão praticantes estritos do Realismo Socialista, pelo menos pessoas que convém usar ou são quem os analfabetos competentes incluem na lista dos compinchas (às vezes só da cerveja ali para os lados da Trindade, em Lisboa). Reatemos, e que nos perdoem os numerosos parênteses elucidativos, requeridos pelas oportunidades de informar o público alguém, como o signatário, que tem sido sempre suspeito de cripto-comunista para as Direitas, enquanto as Esquerdas há quarenta anos que o usam, sempre desconfiadas de que ele é um perigoso «direitista» (quem me chamar ou disser-me fascista será perseguido em justiça, se houver ainda em Portugal um advogado com, para usar-se uma expressão de cunho popular, «eles no sítio» e não atados por um fio a qualquer manjedoura partidária).

Pois o caso é que eu, de Abril a Junho de 1977, estaria e estive de licença sabática da minha Universidade, sendo minha intenção visitar a Europa em Maio e Junho, no que se incluía passagem por Portugal. Subitamente e inesperadamente, fui chamado de Itália a ir receber o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina de 1977, o mais cobiçado prémio internacional que um poeta pode receber, mas que, em Portugal, conta pouco ou nada, por duas importantes razões: primeiro, ter sido eu o distinguido (o que dá dores de fígado a numerosos vates e seus admiradores que há anos me perseguem com a sua inveja), e segundo, porque a geografia literária lusitana, nestas matérias, não vai além dos Alguidares de Baixo, aliás dignos, da Bélgica, ou daqueles prémios sempre suspeitos de sórdida politicagem e outras coisas mais feias ainda, que costumam ser dados por uma dessas chafaricas académicas do Mundo, estando esta, com os seus competentes analfabetos, sita ali para os lados de Estocolmo. Pois sucede que por ocasião da minha viagem, que me fez ficar pela Europa até fins de Junho, eu fui contactado pelo Sr. Major Vítor Alves, organizador supremo das comemorações e, oiais acontecimentos, e tive com ele uma primeira entrevista que se destinava a convidar-me a ser um dos falantes algures no grande Dia. E como aquele ilustre membro do Exército sem dúvida se recorda, a proposta que me foi feita consistia entre ir falar à Venezuela aos portugueses dos pitróis (que também contam nas remessas para a pátria), ou falar na Guarda, como representante dos emigrantes estabelecidos nas Américas. Que se tenham lembrado de mim, eis ao que sou grato. Mas o caso é que eu não ando a dormir, e, com precária saúde, estando na Europa, não ia voar-me para Caracas em 10 de Junho, por muito respeito e estima que eu tenha pelas culturas e pelos explorados e escravizados povos da América Latina, que o têm sido todos muito mais desde que, há mais de um século, a «pérfida Albion» (vulgo, Inglaterra) os ajudou a «libertarem-se» do jugo colonial da Espanha e de Portugal (lição que os povos africanos estão repetindo e aprendendo à própria custa, por mais que seja partidário da independência deles, como eu fui desde sempre, e ainda me lembro dos calafrios e silêncios que tal ideia causava aos revolucionários civis e militares que conspiravam comigo nos anos 50, quando eu insistia por esta declaração de princípios). Claro que, entre andar para trás e para diante e ir perorar a Caracas, ou aproveitar a ocasião de falar na principal das comemorações nacionais, eu escolhi falar na Guarda. Creio não errar se anotar que Vergílio Ferreira foi convidado a discursar não por ser o altíssimo escritor que é, mas por imposição local como glória regional das Beiras, e ele escreveu um esplêndido estudo sobre Camões, que ninguém ouviu, porque não era um texto para tal ocasião em que era necessário literalmente gritar à multidão — o que muita gente achou estranho que eu fizesse, quando me viram aos berros na TV, pela simples razão de que a TV nunca mostrou a gigantesca massa de povo que das mais variadas partes e reais aldeias confluíra para a Guarda e se amontoara avidamente à nossa volta, num dos mais comoventes momentos de espontaneidade popular a que me foi ou será dado assistir, e, sem fabricos partidários com muitas camionetas e muitos automóveis transportando o «povo» do costume (como é difícil não repetir o único modelo existente e de relativa eficiência, como eram as «manifestações espontâneas» da Outra Senhora… tanto mais quanto o povo cada vez mais quer obras que paleio e misteriosas combines nunca explicadas, como as que se sucedem desde antes de Abril de 1974, cala-te boca). E mais uma nota de pé de página, quando eu, o Vergílio, as nossas caras-metades, Conselheiros da Revolução, membros da Casa da Presidência, o Exmo. Presidente da República e Sua Esposa, pousamos no campo de jogos da Guarda, e saímos dos dois helicópteros oficiais, éramos aguardados pelos membros do Governo, outras altas autoridades, e uma imensa quantidade de povo que se estendia desde ali até à Câmara aonde o Sr. Presidente foi recebido pelas autoridades locais. A marcha desde o campo até à Câmara foi a pé, como depois daí para o Hotel Turismo, aonde se albergava já o Governo e se albergavam também os recém-che-gados. E foi quando me deu o destino de saborear o magnificente e realmente democrático espectáculo de ver toda aquela quantidade de simbólicos representantes do eterno e centralizador Terreiro do Paço não conseguirem maior distinção que serem levados de roldão pela massa popular, que lhes puxava pela manga, lhes berrava aos ouvidos o que pensava, etc., etc., e os largou intactos e a respeitosa distância ao começo dos degraus do hotel. Será que terão aprendido alguma coisa? O futuro, tão incerto, o dirá, mas o povo sem dúvida que, com tudo o que o engana e leva à bebida, aprendeu muito nestes últimos quatro anos.

Ora voltemos ao ponto de eu ser convidado a falar na Guarda, no que é, para os portugueses de Portugal, tão ciosos do espaço que lhes resta (e também do dinheiro alheio que deve continuar a chegar de fora), uma dupla e saborosa ironia — muito mais complicada do que alguns imaginam ou sabem — e que muito importa ao principal assunto desta Carta Aberta. Quando em 1959 me exilei no Brasil, e me fizeram lá catedrático de Literatura, as condições da minha vida e dos meus eram as mais precárias: eu era e seria sempre contratado por não ser «Doutor», e podia perder o emprego em resultado de qualquer intriga (o que, na melhor tradição das culturas de língua portuguesa, nunca lá me faltou nos meus seis anos de residência brasileira, e não vem ao caso). Mas precisamente por isso é que ninguém me deixava fazer doutoramento, para que o «portuga» não tivesse segurança (durante anos não foi diversa a situação do meu velho e saudoso amigo Casais Monteiro, meu colega de universidade). A única saída foi uma luta homérica que devo a amigos brasileiros que honram o Brasil, e de alguns dos quais já só tenho a nobre memória para venerar: conseguir-se — o que era legalíssimo mas sumamente raro e difícil compreensivelmente — o reconhecimento, por obras e actividades, do chamado notório saber por parte do Conselho Superior de Educação, e a consequente autorização para que eu me submetesse ao concurso de Livre-Docência, análogo em tudo a um concurso de cátedra, mas título superior ao de Doutor cuja concessão oficial desse mais alto concurso decorria. Naqueles idos negros dos anos 60, todos nós no Brasil (excepto, é claro, aqueles portugueses da Oposição que iam pagos para vigiar as nossas actividades oposicionistas, e tratar de suprimi-las o mais possível em suas repercussões, com a mais completa colaboração da quase inexistente «resistência interna», ou a «externa» de outros focos, que invejavam qualquer influência daqueles que primeiro haviam no Estrangeiro denunciado alto e bom som a opressão salazarista) imaginávamos que nunca mais voltaríamos a Portugal (já que não tínhamos emprego respeitável de mártires da clandestinidade), e que o melhor era sermos cidadãos brasileiros, pagando a hospitalidade que desfrutávamos, apesar do desgosto de muitos que disfarçavam às vezes de anti-salazarismo o que era aquele antiportuguesismo que muito português de Portugal não entende e julga ser uma justíssima reacção contra o colonialismo e o imperialismo, quando é na verdade a máscara com que as classes dirigentes do Brasil escondem, há bem duzentos anos, o seu conúbio íntimo com aqueles dois «ismos» que lhes garantem e perpetuam o Poder. No meu caso, porém, a naturalização não era só decisão de ficar e gratamente: era também uma absoluta imposição legal, já que no Brasil, pelo menos naquele tempo, [se] se podia ser estrangeiro e Doutor, não se podia concorrer a Livre-Docência ou Cátedra sem ser-se cidadão. A este respeito, ainda que os direitos adquiridos sejam quase os do cidadão-nato, há que notar que o Brasil trata, por carimbo, o naturalizado como cidadão de 2.a classe, pois que por esse meio o passaporte informa o Universo de que o sujeito é «brasileiro por naturalização» (o que para o Universo não tem importância alguma, mas para os brasileiros tem, e por isso mesmo o proclamador da Independência, ou seja o Pedro IV de cá, depois de ter sido o Pedro I de lá, foi corrido a pontapé na primeira oportunidade, sendo que uma das suas principais faltas era ser… português-nato, ainda que, pelo grito de Ipiranga que berrou, se houvesse realmente proclamado a si mesmo o «brasileiro n.° 1», visto que os mais tiveram de requerer-lhe a ele a nacionalidade). Isto de eu ser «brasileiro» tem causado inúmeros engulhos e grandes vantagens a Portugal e a portugueses, como adiante se verá. E é que então (exactamente quando com tão grandes manifestações de consideração por mim me era dado escolher entre Caracas e a Guarda) oficialmente, oficiosamente, e através de várias entidades e criaturas, orquestrava-se o bloqueio à apresentação da minha candidatura a um prémio literário internacional, sob o declarado pretexto de que eu era brasileiro e não podia ser proposto (o que era, no caso, uma refinada falsidade, sabido que é não serem tais candidaturas necessariamente apresentadas ou apoiadas pelos governos nacionais, e assim por exemplo, se nos ativermos ao Nobel, a candidatura de Juan Ramon Jiménez, grande poeta da Espanha, foi apoiada por recomendações da América Latina e dos Estados Unidos, e é sabido que os prémios dados a Pasternak e a Soljenitsine não tinham, nem podiam ter, o apoio da União Soviética). Não vou entrar na história inoportuna dos numerosos prémios portugueses que, a todos os pretextos, me têm sido roubados à última hora, ainda quando nem sequer sei que me tinham posto a concorrer a eles — seria uma longa e malcheirosa história que não importa aqui. Mas há um que sumamente importa: foi quando em princípios de 1969, no meu regresso a Portugal, de visita, após oito-nove anos de exílio, me foi atribuído o Prémio Nacional do Diário de Notícias, conforme declaração escrita, e verbal ante testemunhas, do falecido Dr. Augusto de Castro. Eu possuo as cartas dele, em que me é explicado como, à última hora, personalidades houve que sublinharam a impossibilidade de eu receber o prémio, por ser brasileiro. Se um sujeito que é tido como um dos mais respeitáveis escritores portugueses deste século, segundo a crítica e a Imprensa, é discriminado assim, que pode esperar da hipocrisia metropolitana qualquer emigrante anónimo sem conta no Banco (que eu nunca tive nos Estados Unidos, em Portugal ou no Brasil, e muito menos na Suíça, com perdão da referência que não sei ao certo a quem sirva)? Responda ou cale-se, e de preferência cale-se, que todos Vossas Excelências o que têm é falado por de mais e a desoras.

Pois é verdade — lá ia o «brasileiro» falar à Guarda em nome dos emigrantes sobretudo na América do Norte, onde as vicissitudes da América Latina me puseram, ao tempo em que eu não podia voltar a Portugal. Mas é claro que isto era esquecer os meus sentimentos democráticos e era ainda, e sempre, funcionar mentalmente nos esquemas centralistas e autoritários do Estado Novo, com a habitual inocência. Tinham-me os portugueses dos Estados Unidos e os luso-americanos plebiscitado para os representar? Não tinham, ninguém os ouvira (tanto mais que eu não fui parar a Caracas por esperteza minha), ainda que eu não duvide que o tivessem feito, se devidamente consultados. Eu era, como sempre, pura e simplesmente nomeado representante deles por um acto gratuito (em todo o sentido da palavra) da eterna Lisboa ou Lísbia onde nasci, ou do seu simbólico Terreiro do Paço. O que na Guarda aclarei devidamente, com os mesmos democráticos argumentos, e dizendo que só tinha autoridade para falar em meu próprio nome. Acerca da minha nacionalidade brasileira, que assim se tem provado tão vantajosa a alguns, há uma deliciosa nota complementar que os Serviços do Ministério dos Negócios (que palavra infeliz) Estrangeiros por certo não ignorarão. É que, para efeitos de imigração (com i, para quem entra), os Estados Unidos da América não reconhecem nem aceitam nacionalidades segundas, pelo que, oficialmente e legalmente, embora com um passaporte brasileiro, eu continuo português nos Estados Unidos, ainda que não em Portugal sempre que é conveniente. Aqui têm VV. Exas., com muito resumo, o que tem sido para mim ser «emigrante» vai para vinte anos, e em dois países, e que reflexos isso tem tido na minha existência lusitana. Passemos agora aos emigrantes a quem, com tanto trémulo de garganta, mensagens são enviadas. Não sem primeiro eu dizer que, se não tenho remetido para Portugal o dinheiro que não me sobra, nunca em cerca de vinte anos de ausência de lá retirei os parcos dinheiros ganhos com as edições dos meus livros que longamente têm estado na lista negra das entidades compradoras de exemplares (antes e depois de Abril, sem diferença), e nunca foram incluídas nas leituras obrigatórias de nenhum partido político, o que faz uma grande diferença, quanto a aquisições populares e outras.

Pois o caso é que, na verdade, o País tendo desbaratado o que tinha e o que não tinha em fazer e desfazer Abriladas, com uns quantos devotados ingénuos e uma catrefa de aventureiros à comparação dos quais os grandes malandros dos tempos salazaristas, além de serem em muito menor número, fazem figura de criaturas em dieta de Quaresma rigorosa (e eu não quero mencionar ninguém, mas permito-me recordar ao público leitor que este fazer e desfazer de revoluções que, na esmagadora maioria dos casos, ninguém jamais desejou para lá de agitações convenientes ou de vinganças e satisfação de ressentimentos e ambições pessoais, este desfazer e contrafazer, acompanhado sempre de muita gritaria, com muito pequena? diferenças, tem sido há quatro anos realizado praticamente pelas mesmas pessoas ainda que se disfarcem de outras e mudem de cadeiras e até de partidos — e que, apesar do desenfreado despautério, e além da inestimável liberdade que realmente se recuperou e defendeu, há um largo saldo positivo de verdadeiras conquistas sociais, no que não devemos esquecer a generosa amnistia tão prontamente dada, ou fuga, a numerosos «pidosos», antes de poder saber-se a quantos senhores tinham servido, ao tempo em que os Doutores e não Licenciados Salazar e Caetano eram quem oficialmente lhes pagava), pois é o caso que o País precisa imenso de que os emigrantes mandem as economias para a metrópole (terminologia dos tempos colonialistas) ou o Continente (terminologia das Ilhas ditas Adjacentes), mas, ao mesmo tempo, para continuarem a mandar esse dinheiro, fiquem lá onde estão, até porque, se pensassem em voltar trazendo consigo o tremendo capital, muitos deles, do seu trabalho especializado que o País perdeu, iam aumentar ainda mais o terrífico problema do desemprego lá onde muitos não querem trabalhar ou trabalham o menos que podem, outros acumulam empregos e luvas que é um nunca acabar de sangria, e muitos outros não têm trabalho porque os governos andaram a brincar aos socialismos, o que é uma brincadeira muito cara que só se sustenta com força de ditadura que mande apertar o cinto e dê porrada nos recalcitrantes, ou quando um país tem uma sólida economia de alta produção industrial capaz de pagar as benesses do socialismo que todos, ou quase todos, que mais não seja sob o simples nome de justiça social, temos portuguesmente desejado. Enfim, é tarde para choramingas, como quem regerá os destinos dos Estrangeiros Negócios saberá melhor do que ninguém, ao ter de dourar governamentalmente as amargas pílulas impostas pelos prestamistas que se conseguiram arranjar, e que não deram nunca nada de graça, a não ser ao Xá da Pérsia e aos coronéis da América Latina, como a outros conhecidos democratas, qual o governo da Indonésia a quem de Portugal se entregaram as vidas de Timor. O cómico e o ridículo disto tudo já eu o apontei na Guarda, em 1977, alto e bom som, falando ao povo e aos respeitáveis ouvidos governamentais, e não terei sido o primeiro e quem me dera ser o último. Antes da Revolução, que eu já chamei dos Cravos e dos Cravas, era um pavoroso crime do fascismo, denunciado com veemência e estatísticas em todas as oportunidades, a exportação de gado humano para a França e a Alemanha, empobrecendo-se tragicamente as reservas de trabalho do povo português. E era verdade: em vez de estabelecer-se verdadeiramente uma política de fomento, instalava-se uma desenfreada especulação financeira e imobiliária, sem qualquer base na realidade, que não fossem as remessas de numerário feitas por esses trabalhadores (que os emigrantes da América tenham por anos e anos sustentado os Açores nunca passou pela cabeça de ninguém, até à hora do susto de ser agitado, por interesses sumamente escusos, o fantasma de uma independência que acabaria com eles em algo semelhante a Havai ou a Porto Rico). Chegou a Revolução Libertadora que a gente desconfia terem sido muitas que nem todas sabiam umas das outras, entre elas sem dúvida, ainda que ele discretamente não tenha dito nada e provavelmente não o diga nunca, a do próprio Doutor Caetano que se sabia num beco sem saída por todos os lados, e deixava a herança aos que se propunham havia tanto (outros mais recentemente, como é sabido, e para que, segundo a frase histórica, «o poder não caísse na rua») salvar a Pátria e mais pertences. Tem sido, como é sabido, uma grande Salvação que, com perdão da desagradável comparação, mais parece o epílogo farsesco do Salve-se Quem Puder do Caetanismo, que, em 1972, tive oportunidade de examinar em Portugal, em Angola e em Moçambique. Mas, enfim, é o que se pode arranjar, e alegre-se a gente com a liberdade de falar e escrever.

Veio, pois, a múltipla Desrevolução (na verdade, segundo a retórica salazarista, a gente tinha já uma revolução que continuava desde 1926, e parar esta era o mais preciso); e, quando a gente esperava que Portugal, em ansiados gritos, conclamasse ao materno ou paterno seio (a gente nisto de mamas pátrias nunca sabe de que lado está) os filhos dispersos e abandonados da mãe-terra ingratíssima, qual nada: logo se começou a dizer que era melhor ficarem todos onde estavam, a mandarem para Portugal o dinheiro que voava, voava, que era uma dor de alma. Além do mais, eu peço infinitos perdões de lembrar acontecimentos tidos por clandestinos e impróprios de serem referidos. Portugal recebeu de repente as vagas sucessivas dos chamados retornados — e só este nome é uma das mais clamorosas faltas de competência, lucidez e até cinismo político das Esquerdas portuguesas. Com efeito, desses milhares e milhares de pessoas de todas as cores políticas e de pele, que a precipitação da chamada «descolonização» e das consequentes lutas civis logo desencadeadas em Angola atirou sem protecção alguma ou previsão alguma para Portugal, muitíssimos, nados e criados em Angola ou Moçambique, e por gerações de lá oriundos, não retornavam a parte nenhuma, mas escapavam-se (nem todos nascem heróis, como a maioria dos políticos profissionais bem sabe por experiência própria) da terra em que sempre haviam vivido, para uma outra que, se podia ser suposta uma lendária vaga mãe-pátria, lhes era totalmente alheia. Os realmente retornados eram só os «patos-bravos» que tinham, na década anterior a 1974, ido fazer a sua grossa maquia no Fim de Festa (e é melhor não inquirir quantos prédios de Luanda ou de Lourenço Marques — desculpem-me não dizer Maputo, que portuguesmente soa mal, e eu respeito e amo Moçambique — não foram ou ainda são pertença de muitos dos nossos heróicos libertadores de Abril e outros amigos deles, dos tempos em que, coitados, encalhados naquelas terras ou guerras bárbaras, que haviam eles honestamente de fazer senão investir o que elas lhes rendiam). As Esquerdas, na sua cegueira de cada qual se dar ares de ser mais à esquerda que o vizinho da esquerda, desejou apenas ver nessa gente, na sua maioria vítimas desorientadas, mas reaccionários pavorosos que era necessário isolar e exportar para não piorar ainda mais o desequilíbrio de forças notoriamente existente na população portuguesa, quer a gente goste, quer não goste. Como tudo era Esquerda, e havia muitas que todas se detestavam com o mesmo ardor com que hoje se detestam mais para a Direita, podiam, sem aquela cegueira, ter tirado um colossal lucro político do desastre. Em lugar de alienarem aquela gente toda que se viu logo rodeada dos cuidados e carinhos das Direitas encapotadas ou às abertas, podiam todos ter jogado em convencê-los que tinham sido os outros quem os havia traído, como a Direita dizia que sucedera. No fim de contas, essas acusações mútuas eram de regra, e nunca impediram a notória boa harmonia de sucessivas coligações ministeriais: mas teriam rendido tremendamente no caso, tanto mais que é sabido que toda a gente foi realmente traída numa ocasião ou noutra por alguém (na mais lídima tradição dos gloriosos fastos das imperiais traições lusitanas que eram o pão nosso de cada dia dos pobre rajás do Oriente, que confiassem num português governante), e a isso não escaparam, como é mal sabido, e sob as flores da mais devotada amizade, o PAIGC, a Frelimo, ou o sacrossanto MPLA, que o sabem muito bem. Não faltaria lama mútua, da qual se capitalizassem alguns dos «retornados» que a gente, creio eu, ainda vê esquecidos em enxergas no aeroporto de Sacavém, para ilustração de nacionais e estrangeiros no que seja a falta de vergonha a que se pode chegar. Para não falarmos puramente de «humanitarismo», sabido que somos, na verdade, uma raça de pêlos no coração, dura como o diabo, e mais impiedosa do que ele, sob a doce máscara da nossa grosseria risonha e satisfeita, capaz de despachar à sacholada o vizinho e amigo, só com pôr um pouco de cuspo nas mãos.

Silêncio, pois, discretíssimo silêncio quanto aos emigrantes e ao seu dinheiro. Este, e eles, darão provas de confiança na medida da confiança que Vossas Excelências inspirem ou com que sejam inspirados, no entalanço entre receber as patacas e contentar as conquistas da Revolução (muitas das quais são na verdade os numerosos tachos aos amigos, ou àqueles cuja amizade se pensa comprar assim). Mas cessem de uma vez, por amor à decência de cantar de sereias, para o que sem dúvida lhes faltam a voz e o físico atraentes que baste, além de lhes faltar a afinação política para cantar acertadamente. Ou então confessem de uma vez que estão a fazer a colecta para o funeral de 1980, quando há que celebrar dignamente as traições de quatro séculos antes. O maior problema que eu vejo é onde guardar-se higienicamente um cadáver de 90 000 km quadrados, cujos restos mortais ninguém deseja que não para bases estratégicas no Atlântico, fim para que os portugueses são inteiramente inúteis. Se essas bases tiverem de ficar, todos sabemos que há cubanos em Miami, ou em Havana, em número suficiente para mantê-las em nível de eficiência para os possíveis ocupantes.

Perdoem-me estas tão extensas e por vezes tão duras observações de um «emigrante» condecorado por ilustre isso mesmo. Mas era mais que tempo de dizerem-se umas cruas verdades que eu tenho independência e limpeza para dizer. Que os deuses vos iluminem, e conservem o Exmo. Presidente da República tão íntegro como o conheci, e tão independente e isento como o sei capaz de ser. E para terminar, Sr. Ministro, deixe-me confessar-lhe que tudo isto escrevi sem ter lido a sua mensagem, por absolutamente desnecessário. Creia que, cumprimentando em V. Exa. o Governo legal da República, se subscreve com o devido respeito, o

Jorge de Sena, escritor português, cidadão brasileiro, imigrante nos Estados Unidos da América, e com residência em Lisboa no nada aristocrático Bairro do Restelo, à Torre de Belém, magnificente símbolo do que não cabe no empequenecimento de um Portugal cujo enterro esperemos evitar.

Santa Barbara, Califórnia, 26 de Março de 1978

* Rever Portugal - textos políticos e afins, Lisboa, Guimarães, 2011, p. 340-356