Alguma toponímia

Um reconhecimento topográfico…

 

Jorge de Sena empresta seu nome a vários endereços portugueses, espalhados por cidades diversas. Em geral, tem como vizinhos, em ruas transversais ou paralelas, outros escritores: Almada Negreiros e Bocage em Sintra, Vitorino Nemésio em Beja, Gil Vicente em Oeiras, Fernando Pessoa em Odivelas, José Régio em Seixal, Florbela Espanca em Setúbal, etc. Mas talvez o poeta ficasse mais satisfeito com a companhia que lhe deram na toponímia de Amadora, afinal, como se vê no mapa inserido abaixo, este é o lugar em que a rua Jorge de Sena faz esquina com a rua da Liberdade.

 

Listagem Google Maps (endereços localizados na internet com links para os mapas):

  1. Largo Jorge de Sena, Sintra
  2. R. Jorge de Sena, Sintra
  3. R. Jorge de Sena, Lisboa
  4. R. Jorge de Sena, Charneca de Caparica, Setúbal
  5. R. Jorge de Sena, Quinta do Torrão, Guarda
  6. R. Jorge de Sena, Salvador, Beja
  7. R. Jorge de Sena, Estoril, Cascais
  8. R. Jorge de Sena, Montijo, Setúbal
  9. R. Jorge de Sena, Oeiras, Lisboa
  10. R. Jorge de Sena, Odivelas
  11. R. Jorge de Sena, Arrentela, Seixal
  12. R. Jorge de Sena, Pinhal Novo, Palmela
  13. R. Jorge de Sena, São Lourenço, Setúbal
  14. R. Jorge de Sena, Rio Tinto, Gondomar
  15. R. Jorge de Sena, Amadora
  16. R. Poeta Jorge de Sena, Bougado-São Martinho, Trofa

 

Listagem por Códigos Postais:

2005          Santarém (Rua Dr.)
2635          Sintra (rua)
2635          Sintra /Rio de Mouro (rua)
2650          Amadora
2675-392  Odivelas (rua e praceta)
2745-135  Sintra/Queluz (largo)
2765         Cascais/Estoril (rua e praceta)
2780         Oeiras
2820-085  Charneca de Caparica/Almada (rua)
2820-086  Charneca de Caparica/Almada (travessa)
2855         Corroios/Seixal
2870         Setúbal/Montijo
2955-201  Setúbal/Palmela
2925-173  Setubal/Azeitão (brejos dos clericos)
3700         Lisboa/Aveiro-Santa Maria da Feira
4405         Vila Nova de Gaia (praceta)
4435-045 Gondomar-Rio Tinto/Porto
4460         Matosinhos
4510         Gondomar/Porto
4560         Penafiel/Porto
4745-265  Guidoes/Trofa
4745-409  Coronado-Sao Mamede/Trofa
4785-134  Bougado-Sao Martinho/Trofa (rua poeta)
4785-598  Castelo/Trofa (rua poeta)
6300         Guarda
7800         Beja
7900         Ferreira do Alentejo
8200         Monte Choro/Albufeira (Travessa)

 


Exibir mapa ampliado

Andanças… Alguns endereços onde esteve Jorge de Sena*

Sena globe trotter

Lisboa:
Nasceu na Rua José Falcão, nº 55 – 1º (que era então nº 11)
Rua 18 (depois Rua Dinis Dias), nº 18 (desde 11/1/1954)

Porto:
Rua dos Bragas, nº 40 ou 41 (em 1940)
Rua da Boavista, nº 276 – 1º (em 1942)
Rua de Cedofeita, nº 503 (em 1942)
Rua de Cedofeita, nº 478 (em 1942)
Rua Miguel Bombarda, nº 243 (em 1944)

Assis:
Rua 9 de julho, nº 311 (out.1959/ jul. 1961)

Araraquara:
Rua Itália, nº 1437
(jul.1961/ out. 1965)

Rio de Janeiro:
Hotel Nelba – R. Senador Dantas, nº 46
Hotel Nice – R. Riachuelo, nº 201 (em 1965)

São Paulo:
Hotel Pão de Açucar – R. Conselheiro Nébias, 314 (em 1959)

Madison:
314, S.Broom Str. (out. 1965/ mai. 1967)
1938, Rowley Av. (mai. 1967/ ago. 1970)

Santa Barbara:
939, Randolph Road (desde set. 1970)

Londres:
Hotel Chelsea – 9, Cheyne Row (em 1957)
Crescent Hotel – 49, Cartwright Gardens (em 1971-2)

Paris:
Hotel St. Pierre – 4, rue École de Medicine
Hotel Excelsior – 20, rue Cujas (em 1972)

 

[*] Excluem-se as casas de inúmeros amigos onde se hospedou.

Um guia de Lisboa pela mão de Jorge de Sena

Carta a Joaquim-Francisco Coelho, 13/11/1970

Que Jorge de Sena foi grande viajor todos sabemos. Que muito escreveu sobre os lugares que visitou, também. Mas, dando início ao mapeamento de suas muitas andanças pelos vários continentes, optamos por selecionar um texto sobre a cidade em que nasceu — que, como se poderá constatar, bem conhecia e amava.

 

 

 

“Este sucinto e muito admirável guia cultural e sentimental de Lisboa escreveu-o Jorge de Sena em Santa Bárbara, Califórnia, em 13 de Novembro de 1970. Faz parte de uma carta “pedagógica” sobre a cidade, enviada pelo grande camonista ao seu amigo e dilecto ex-aluno Joaquim-Francisco Coelho, àquela altura recém chegado a Lisboa (…). O guia, tal como a restante correspondência entre os dois amigos, conservou-se até hoje totalmente inédito, e aqui vai divulgado com a permissão de Joaquim-Francisco Coelho, no espírito das comemorações a Jorge de Sena, lisboeta de nascimento, nos vinte anos da sua morte.” [*]

 

Vejo que tem passeado Lisboa como eu a passeei desde que tive licença para passear sózinho: pela noite dentro, perdendo-me por quelhas e becos, andando-a a pé ouvindo os meus próprios passos ecoar no silêncio da noite. Não sei se o Almeida Faria terá mais que um conhecimento “popular” de Alfama, e lhe terá chamado a atenção para as muralhas que, perdidas dentro do casario, viram o cerco de 1383 para a rua da Judiaria, para os velhos palácios decadentes, tudo o que está desde o castelo (que deve visitar) até à Casa dos Bicos que foi dos Albuquerques. Alfama deve ver-se de dia, primeiro do Miradouro de Santa Luzia, que a tem aos pés, e depois descendo por ela dentro (S. Miguel de Alfama), e de noite, não tanto pelas falsas casas de fado para turistas. Estando naquele Miradouro, terá a seu lado o Limoeiro, prisão hoje, mas cujas fundações, para o lado do rio visíveis, são as do palácio real onde João I matou o Andeiro (ainda um arco está num cunhal, quando V. sobe a rua). Deve por aí ver a Sé, e os seus claustros e túmulos (uma capela especial é a dos Pachecos, e o túmulo mais belo é o do pai do Diogo Lopes Pacheco, um dos grandes homens ibéricos, depois de ter ajudado a matar a Dona Inês). E a igreja de Santo António, construída sobre o lugar onde nasceu esse ilustre Bulhões da família de Godefroy de Bouillon da Primeira Cruzada – a cripta é o lugar. Mais para cima e para o lado da Graça, passa V. pela Lisboa velha dos palácios senhoriais, e na Graça tem a igrejinha de S. Gens contemporânea da tomada de Lisboa aos mouros, e a Graça com o túmulo de Afonso de Albuquerque. Passará por S. Vicente de Fora, igreja do fim do século XVI (do maneirismo neo-clássico, e por isso parece haver séculos entre ela e os Jerónimos), panteão dos Braganças, como antes lhe disse. Vindo da Graça para o Rossio o Teatro Nacional está construído ou a ser reconstruído onde estava: sobre os cárceres da Inquisição, já que era ali o palácio dela. Em S. Domingos que ardeu há poucos anos, e que havia sido reconstruída pelo pai do Alexandre Herculano, Fr. Luis de Granada está sepultado na entrada do corredor da sacristia. Ao lado, tem V. o palácio dos Almadas, de onde saiu a revolução de 1640, e, acima, o Hospital de São José, construído sobre as ruínas do Colégio de Santo Antão, o primeiro que os jesuítas tiveram no mundo – a capela do hospital é a sacristia da antiga igreja e um dos mais perfeitos modelos do neo-clássico do fim do século XVI. Por aí ao pé, tem V. a igreja de Sant’Ana, onde ainda estará sepultado o Camões debaixo do chão – já que os ossos dos Jerónimos são hipotéticos (o túmulo dele e do Gama, cujos ossos não são hipotéticos, são do falso manuelino século XIX, o português “gothic revival” vitoriano, como a Estação do Rossio, onde se diz que o arquitecto deixou a assinatura nas portas em ferradura…). A ala direita do Terreiro do Paço, quando V. se volta para o rio, está construída sobre as ruínas do Palácio Real de D. Manuel, e, na rua da Alfândega para o outro lado tem V. uma fachada manuelina esplêndida, a Conceição Velha, tudo o que resta da igreja destruida pelo terramoto famoso (é a porta lateral da igreja desaparecida). Indo ao Museu das Janelas Verdes, aonde cumprimentará o Bosch da Tentação, e algumas pinturas de primeira, não muitas, estará V. no palácio que o Pombal comprou ao Matias Aires, paulista da Vaidade dos Homens. Aos Jerónimos e à Torre de Belém por certo já V. foi. Quanto a sepulturas ou túmulos de escritores, a mais dos que estão nos Jerónimos, toda a gente, desde o século XVIII, com raras excepções, está em dois cemitérios: o dos Prazeres, ou o do Alto de S. João – é onde o Pessoa e o Eça estão, em jazigos de família sem relevo algum. Não sei de repente dizer-lhe aonde cada um deles está, mas é em um desses cemitérios. Não deixe de ver a Igreja da Estrela, uma jóia do rococó comedido, aonde jaz a D. Maria I, e, descendo da Ajuda para Belém a igreja da Memória, construída aonde foi atentado contra D. José. Em Belém, as casas para a esquerda-lado-abaixo, e esquerda-lado/à frente, são, estas, do século XVII, as outras estão onde era o lugar da execução (ou do palácio) dos Távoras (lembrado por uma coluna atrás das casas). É interessante ver o Carmo, a igreja do Nun’Álvares, onde há peças arqueológicas de muito interesse, e o Bairro Alto, cheio de palácios do século XVII XVIII (e que foi o glorioso centro da prostituição lisboeta para os pobres e a classe média). Diz-me V. que já foi a Alcobaça, Tomar, Santarém, Óbidos, Nazaré – esqueceu-se de escrever Batalha, ou não foi lá? Shame, shame on you. Acrescente depois: Leiria, Évora, Coimbra, Porto, Viseu, o vale do Douro (por onde pode passar na Ilustre Casa de Ramires), e o Algarve (Sagres deve ser visto, pela imponência natural e lendária). Se fosse mais ao Norte: Barcelos, Guimarães, Braga, Viana – o outro Portugal.

 

[*] Texto inédito distribuído durante o colóquio “Jorge de Sena, vinte anos depois”, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em outubro de 1998, e depois reproduzido nas atas (Ed. Cosmos/CML, 2001, p. 173-4)