De Jorge Vaz de Carvalho

 

Jorge Vaz de Carvalho é Professor e Coordenador Científico da área de Estudos Artísticos da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa, Mestre em Literaturas Comparadas pela Universidade Nova de Lisboa e Doutorado em Estudos de Cultura pela Universidade Católica de Lisboa, com a tese Jorge de Sena – Sinais de Fogo como romance de formação (ed. Assírio & Alvim, 2010)

Além do ensaísmo, dedica-se à poesia (A Lenta Rendição da Luz, Relógio d’Água, 1992), ao conto e à tradução (Ciência Nova de Giambattista Vico, Fundação Calouste Gulbenkian, Prémio de Tradução Científica e Técnica FCT/União Latina 2006; Canções de Inocência e de Experiência de William Blake, Assírio & Alvim, 2009; Vida Nova de Dante Alighieri, Relógio d’Água, 2010). Exerce ainda constante actividade de articulista e de conferencista, em Portugal e no exterior.

Barítono de carreira internacional, na sua dedicação à música foi Diretor da Orquestra Nacional do Porto e do Instituto das Artes.

 

Leia mais:

 

De João Bénard da Costa

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

João Bénard da Costa (1935-2009), intelectual de várias facetas, das quais a paixão pelo cinema talvez seja a preponderante, manteve sólida relação de amizade com Jorge de Sena, como bem revela o testemunho ora transcrito de uma seção “Retratos” do Público Magazine.
Os estudiosos de Jorge de Sena devem-lhe, além do aí mencionado número especial da revista O Tempo e o Modo, o cuidado volume Sobre Cinema, publicado em 1988 sob os auspícios da Cinemateca Portuguesa, quando Bénard da Costa lá exercia o cargo de subdiretor.

 

1. Conheci Jorge de Sena em 1958 quando o jornal Encontro publicou aquele Soneto que começa: “Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo/ mesmo no mal que consentis que eu faça”. Pio XII, Papa, tinha morrido e o soneto era dedicado à memória dele “que quis ouvir, moribundo, o ‘Allegretto’ da Sétima Sinfonia de Beethoven”. Era o primeiro Papa que morria na minha vida consciente e nessa altura — não sabendo o que soube depois — era mesmo o Pastor Angelicus. Comoveu-me que Jorge de Sena, não-católico — ou melhor, como um dia escreveu, um católico que não era nem podia ser católico, apostólico, romano, mas sim e apenas católico porque não era convictamente cristão — juntasse as lagunas dele às nossas e as juntasse nesses versos sublimes.

Essa razão obscura e a clara e luminosa beleza do soneto levaram-me a ler a obra poética anterior de Sena: “Perseguição”, “Coroa da Terra”, “Pedra Filosofal”, “As Evidências”. Li também “Fidelidade” que a Morais publicou em 1958 e que acaba com o “Como de Vós”. Entre 1958 e 1959, descobri o maior poeta português depois de Pessoa. Mais de trinta anos passados, continuo o pensar o mesmo. Embora saiba que esta afirmação continua a ser evidente e não era aceite por Sena que considerava Pessoa e Sá-Carneiro como o seu Sá de Miranda e o seu Bernardim.

“As Evidências” é o livro maior que se publicou em língua portuguesa neste segunda metade do século. Com a eventual excepção de “Metamorfoses”. E o mais belo soneto da nossa história é o soneto XXI de “As Evidências”, escrito a 16 de Abril de 1954. “Perdem-se as letras. Noite, meu amor,/ ó minha vida, eu nunca disse nada./ Por nós, por ti, por mim, falou a dor./ E a dor é evidente — libertada”.

2. Conheci Jorge de Sena em 1959, em casa do António Alçada, numa dessas reuniões clandestinas em que sonhámos fazer a Revolução de 11 de Março. Discutia-se acaloradamente se o primeiro “decreto” a sair era o que acabava com a Pide ou o que acabava com a Censura Jorge de Sena interrompeu com outra prioridade. O primeiro decreto devia era acabar com a Universidade de Coimbra Todos nos rimos muito, mas ele não estava a brincar. Por mim, demorei muitos anos até o perceber.

Também não estava a brincar quando, numa brincadeira de lugares futuros, pediu o de Embaixador em Londres. Para não ter que ficar cá. Muito mais tarde, disse: “Porque o problema não é salvar Portugal, mas salvar-mo-nos de Portugal”. Ele não se salvou.

3. Em Agosto de 1959, aos 39 anos, Jorge de Sena saiu de Portugal e foi viver para o Brasil. Em 1963, escrevi-lhe a convidá-lo a colaborar em “O Tempo e o Modo”.

Foi o começo de uma correspondência regularmente mantida ao longo de sete anos. Para além da espantosa colaboração de Jorge de Sena n'”O Tempo e o Modo”, devo-lhe várias dezenas de cartas (páginas enormes, 40 linhas, escritas a máquina) em que por tudo se interessava, por tudo perguntava. “É que nunca ninguém que me respeite apelou para mim em vão. Às vezes, nem os que não me respeitam”.

4. Em Outubro de 1965, aos 45 anos, Jorge de Sena deixou o Brasil e fixou-se em Madison, Wisconsin, USA.

Em 1968, voltou a Portugal, após uma ausência de cerca de nove anos. Quando ele chegou, estava eu na América e tinha incluído Wisconsin no meu itinerário, de propósito para o visitar.

Foi em Dezembro de 1968, havia neve e um frio bom. Jorge de Sena não estava mas estavam Mécia de Sena e os nove filhos que tinham tido. Pessoalmente, não conhecia ninguém, mas fui recebido como se se tratasse de alguém da família. Naquela casa cabia muita gente e jantares de 10 e 15 pessoas pareciam fazer parte do quotidiano. Foi lá que conheci Adolfo Casais Monteiro. Salvo erro, foi ele quem levou um dia, como presente, o “Dido e Eneias” de Purcell, na gravação EMI dos Mermaid de Geraint Jones, com a Flagstad e a Schwarzkopf. Desde essa noite, o “Remember” é, para mim, um sinal de união indissolúvel com eles. Revivi isso tudo há poucos anos — já depois da morte de Jorge de Sena — quando, pela primeira vez, vi a ópera, em Paris, com Jessye Norman no papel de Dido.

“Diz-me assim devagar coisa nenhuma/ o que à morte se diria, se ela ouvisse,/ ou se diria aos mortos se voltassem.”

5. Voltei no Natal de 68, ainda Jorge de Sena estava em Lisboa. Lembro-me de um almoço na Gôndola com o Vasco Pulido Valente. E lembro-me da sala cheia da Sociedade Nacional de Belas Artes para uma conferência que ele lá foi fazer. Já tinha saído o número especial de “O
Tempo e o Modo” (Abril de 68) em que se dizia na cinta que seria disputado no futuro a peso de ouro. Foi durante a conferência que reparei que Jorge de Sena não se sentia à vontade, com aquela reviravolta de imagem face àquele ambiente delirantemente consagratório que eu concelebrara. Essa conferência, sobre Portugal na América ou Portugal no mundo, já não me lembro bem, parecia ser feita de propósito para contrariar os meus “clichés”.
Grande parte dos ouvintes eram jovens e —1968—contestatários. No final, reagiram com apupos e provocações ao jeito do tempo. A festa pareceu-me estragada e saí dali com uma enorme incomodidade. Jorge de Sena, não. Olhou-me a rir, nada zangado e perguntou-me se eu continuava a achar que as coisas tinham mudado. “Daqui a vinte anos” — disse-me ele — “vão ser iguais aos outros ou piores”. Era tão estúpido que não o tomei muito à letra. Não foi preciso esperar tanto tempo.

6. De longe em longe, voltei a vê-lo nos anos 70, quando cá vinha, antes e depois do 25 de Abril. Depois, a notícia da doença. Depois, mais nada.

Lembro-me de ter ouvido alguém contar que pouco antes de morrer perguntou à Mulher: “Ainda falta muito?”. Treze anos antes, em 1965, escreveu-me no dia da morte de Eliot. E dizia: “Você, que é jovem, não sabe ainda o que isto é de ter-se mais de quarenta anos e começar a ver sumirem-se aqueles que foram as luzes vivas da nossa juventude”. Quando Jorge de Sena morreu, eu tinha mais de quarenta anos. Tinha quase a idade que Jorge Sena tinha quando Eliot morreu. (E Deus) “Não nos aguarda — a mim, a ti, a quem amaste/ não nos aguarda, não. Por cada morte/ a que nos entregamos el’ se vê roubado,/ roído pelos ratos do demónio/ o homem natural que aceita a morte/ a natureza que de morte é feita”.

Para trás, ficaram seis instantâneos em forma de retrato. Mas como fazer de outra maneira? Quando preparei o tal número especial de 1968, pedi um retrato a Jorge de Sena. E ele respondeu-me (da América): “Fui tirá-lo de propósito, porque já estou farto dos velhos retratos de sempre. O pior é que, nesta América, ou se vai a um fotógrafo de arte, que custa uma fortuna, ou a gente fica com cara de director de banco”.

Não sendo fotógrafo de arte (nem por uma fortuna) estes instantâneos foram a forma que encontrei de não ficarmos — nem ele nem eu — com cara de director de banco.

 

De Gastão Cruz

 

Gastão Cruz é algarvio de Faro, nascido em 1941. Além de poeta, com cerca de 20 livros publicados ao longo de 50 anos, dedica-se à crítica literária e à tradução.

Participou de Poesia 61, ao lado de Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta.

O reconhecimento de sua poesia manifesta-se em vários prêmios recebidos, a saber: em 1985, com o livro O Pianista, o “Prêmio de Poesia do PEN Clube”; em 2001, com Crateras, o “Prêmio D. Dinis”, da Fundação da Casa de Mateus; em 2002, com Rua de Portugal, o “Grande Prêmio de Poesia” da Associação Portuguesa de Escritores; em 2009, com Moeda do tempo, o “Prêmio Literário Correntes d’Escritas”.

Como ensaísta, seus livros A Poesia Portuguesa Hoje (1973, ed. rev. e aumentada em 1999) e A Vida da Poesia (2008) são incontornáveis para quem se dedique ao estudo da poesia portuguesa contemporânea. É ainda da maior importância sua atuação à frente da revista de poesia Relâmpago, editada pela Fundação Luís Miguel Nava.

De Maria Alzira Seixo

 

Neste depoimento, Maria Alzira Seixo evoca em traços largos a pluralidade da obra de Jorge de Sena e detém-se mais alongadamente num título pouco lembrado — as Líricas Portuguesas, 3a. série — enfatizando a importância, originalidade e atualidade dessa antologia, que resgata como um marco no panorama da crítica sobre poesia em Portugal, já desde sua primeira edição em 1958.

Do "Tio" Rui

Na semana em que assinalamos a partida de Jorge de Sena de Portugal e sua chegada ao Brasil, 52 anos atrás, consideramos oportuno um depoimento de alguém muito próximo, familiar em todos os sentidos, que em Lisboa sempre ficou à espera de seu(s) regresso(s). Seu cunhado Rui de Freitas Lopes (militar reformado, mas carinhosamente chamado “Tio Rui” pelos mais jovens a quem abre a casa dos Senas no Restelo) com toda simpatia e gentileza atendeu a nossa solicitação.

 

De Changuito

 

Em Lisboa, entre o Príncipe Real e a Praça das Flores, situava-se a única livraria totalmente dedicada à poesia em Portugal, sob o nome de Poesia Incompleta, o que, nas palavras de Vasco Graça Moura, “envolve um princípio de paradoxo: nunca encontrei livraria mais completa para a poesia do que esta Poesia Incompleta… Dispõe de um catálogo impressionante de livros de poesia, não apenas em português, cobrindo praticamente todas as épocas, desde os primórdios da literatura até anteontem (só porque os livros que terão saído ontem ainda não foram distribuídos…). Tem à frente um jovem livreiro que profissionalmente conhece tudo: sabe dos autores, sabe das edições, sabe das antologias, sabe das revistas, aborda as matérias com a necessária precisão e um quam satis de ironia.” (Diário de Notícias, 4.8.2010).

Pois este jovem livreiro é Mário Guerra, que gosta de ser tratado de Changuito, e, segundo Isabel Coutinho, “aprendeu a gostar de poesia com a avó e também com a mãe, a actriz Maria do Céu Guerra. […] Há muitos anos a explorar o bar do Teatro da Barraca, onde organiza a animação cultural, teve também um bar na Bica, em Lisboa, onde também vendia livros. Aos 34 anos, perdeu a paciência e farto de ir a livrarias onde lhe diziam “esse livro está esgotado” ou “esse livro não existe”, resolveu passar de leitor a vendedor de livros.” (Público, 25.11.2008). E como sui-generis vendedor de livros, Changuito é também “o seu sócio principal, patrão, empregado, moço de fretes e fumador com estilo”… (blog Tantas Páginas, 21.1.2012). E assim, ao arrepio do habitual, este one-man-bookstore que gosta de partilhar saberes vai fazendo da sua livraria “um lugar de culto” entre os amantes do texto poético.

Changuito esteve há pouco no Rio de Janeiro e nos deu seu testemunho sobre o poeta que aqui nos interessa mais. Como se verá, palavras bem propícias ao “Dia Nacional da Poesia”, que neste 14 de março o Brasil celebra.

De Antonio Candido

Marcando o início, no Brasil, das atividades acadêmicas de 2011, aqui trazemos uma “aula magna” do mestre-maior Antonio Candido, Professor Emérito da USP e da UNESP, Doutor Honoris Causa da Unicamp, “Prêmio Camões” de 1998.

Graças à sua generosa autorização, reproduzimos em video parte da palestra proferida no dia 01 de setembro de 1998, em Araraquara, na abertura do Congresso Internacional “Sinais de Jorge de Sena” — exatamente os momentos dedicados à evocação do colega e amigo com quem conviveu diariamente em Assis e que depois reencontrou em outros espaços. Inclusive na mesma Araraquara, participando do júri que em 1964 conferiu ao poeta o título de Doutor e Livre-Docente, summa cum laude.

Como se poderá confirmar neste testemunho, era grande o apreço do ensaísta brasileiro pelo escritor português. E, atestando que era absolutamente verdadeira a recíproca, lembremos que os dois se tornaram “compadres” quando o casal Sena convidou o casal Mello e Souza a batizar a filha Maria José; que foi a Antonio Candido que Sena ofertou o manuscrito original de sua novela O Físico Prodigioso; e que Sena, num gesto raro em sua bibliografia, dedicou a Antonio Candido seu livro Uma Canção de Camões — dedicatória concluída com as seguintes palavras: “rara excepção é Você, no que representa das mais puras virtudes humanas e das mais profundas virtudes do Brasil”.

 

 

De Mécia de Sena, em ‘Flashes’

Em 16 de março de 2015, Mécia de Sena completa 95 anos. Quando se cumpria um ano sobre a morte de seu marido, como forma de catarse para a dor sem remédio de perdê-lo, inicia a escrita de um originalíssimo diário, sob o bem escolhido título de Flashes. Nele evoca momentos de sua convivência com Jorge, elegendo-o constantemente como interlocutor privilegiado, como se também de um diálogo se tratasse. Desse work in progress, que deve andar à volta das 600 páginas, selecionamos alguns excertos já editados*, não só para aqui trazer olhar tão particular e próximo sobre o nosso autor, e tudo aquilo que o rodeava, mas também para homenagear, em data tão significativa, a mulher prodigiosa, de inegáveis qualidades na escrita.   

 

Mécia de Sena em Santa Barbara, 1993 (foto de Gilda Santos)
Mécia de Sena em Santa Barbara, 1993 (foto de Gilda Santos)

 

***

Penso que foi na última vez que estive em Lisboa antes de ter mudado para lá, com vista a casar-me. Estava no Areeiro, como de costume. Iria embora no dia seguinte.

Despedimo-nos longamente, no patamar da escada. O Jorge começou a descer o lanço, que terminava noutro patamar, antes do lanço seguinte. Quando me debrucei para o acompanhar com a vista, a minha travessa caiu do cabelo, tlic-tlic-tlic, pela escada abaixo. Pensei, um pouco aflita: «Vai pensar que fiz de propósito» O Jorge estacara, olhou para mim fixamente. Tenho a certeza de que pensava: «Foi de propósito?» Baixou-se, apanhou a travessa, subiu a escada… e despedimo-nos de novo, longamente!

 

***

Uma das qualidades que eu mais apreciava no Jorge era a sua capacidade de admirar: um verso, uma paisagem, um torneado, uma luz, um rosto ou um corpo, uma passagem musical, um doce, uma palavra em qualquer língua… tudo podia ser «belo» ou «tinha» ou «era» de «uma beleza» «extraordinária» ou «rara» ou mesmo só «alguma».

Impossível exemplificar… para a admiração justificada tinhas uma disponibilidade total.

 

***

Muitas vezes, a partir de um verso, de um nome, de uma obra, o Jorge se esquecia do tempo falando e lendo os mais variados poemas que me ia traduzindo, se em língua que eu não dominava. Não tenho memória de que alguma vez incluísse leitura de poemas seus, ou que deles me tivesse feito sessão especial, para lá de mos ler após escritos, ou num especial a-propósito.

Comentava isso ontem com o Jack Schmidt – era sempre da poesia dos outros que falavas, era sempre a poesia dos outros que fazias estimar, com que criavas o gosto de lê-la. E, pelo contrário, sempre te vi relutante em ler o que fosse teu, mesmo a insistente pedido.

Uma vez te perguntei a razão de tantos rodeios e explicações quando acedias à leitura (visto que nada teu jamais soubeste de cor) – era como despir em público, me respondeste.

Era bem tua essa espécie de pudor de tudo quanto é íntimo, daquilo de que se pode escrever mas se não pode falar.

 

***

Naquele dia o Casais Monteiro chegara ao café espumante em fúria. O Carlos Passos, do Porto, conhecido pela sua azeda e rebuscada prosa, atacara-o num jornal. Mas não era o ataque que o enfurecia, dizia o Casais, mas tê-lo feito ir ao dicionário ver uma palavra que lhe chamava e ele não sabia o que significava: «enxovedo».

 

***

 António Pedro… Tinha um minúsculo carro de sport. Contava que um dia quesilara na estrada. O outro automobilista saira do carro com ar de pedir meças. Mas quando ele começara a avultar para fora do carro o outro exclamara: «assim não vale» é, à gargalhada, ambos haviam voltado aos seus respectivos carros e seguido os seus caminhos.

 

***

Manuela Porto acedera por amizade para com o Jorge a dizer poemas do Fernando Pessoa na conferência que ele faria no Ateneu Comercial do Porto, em 12 de Dezembro de 1946. Foi um éxito. Estou a ouvi-la: «Onda-que-enrola-da-tor-nas…

 

***

 Houvera uma esparsa correspondência antes. Um dia o Padre Manuel Antunes anunciou que estava em Lisboa. Combinou-se que viria a nossa casa, no Restelo, pelas 11 da manhã. O Jorge estava um pouco nervoso – sabia quem enfrentava e não lhe seria fácil.

O Padre Antunes chegou: débil, tímido, falas mansas e claras, bem articuladas. Houve um tempo de dificuldade. Pela uma hora perguntei-lhe se queria almoçar conosco. Almoçou, debicando o que havia e podia comer dentro de sua rigorosa e frugal dieta. Tomou chá pela tarde. Jantou. Pelas onze da noite perguntou se não poderia retirar-se para outro compartimento para meditar as vésperas…

Saiu tarde, discretamente, sorridente.

Ficamos amigos para sempre – baptizou-nos três filhos; velou-te quando foste operado. Foi nosso hóspede, em Santa Bárbara.

Mandou-me um telegrama: «Surpresa dolorosa sentimento fraterno.»

 

***

Leio num diário teu: «Escrevi, até as 4 da manhã, um conto: ‘Super Flumina…’ que não esperava.» Ficaras «escrevendo pela noite adiante», tal como o terminas.

Que aconteceu depois quando te deitaste? Adormeceste com o livro aberto sobre o peito e eu to fechei, tirei-te os óculos e antes de apagar a luz te ouvi um «obrigado» pouco mais que ciciado? Ou não adormeceste e nos possuímos como se tivéssemos acabado de sofrer todas as dores do mundo?

Ou apenas ajustamos os nossos corpos em ansiosa ternura, numa oferta de repouso mútuo?

 

***

Uma noite em que o Jorge não se deitara comigo, acordei deveriam ser umas três da manhã. Não o vendo ao meu lado, levantei-me e dirigi-me para o escritório. Quando comecei a descer as escadas, vi-o ao fundo no pequeno hall entre as escadas e a porta do guarda-vento. Na semipenumbra, estava parado, imóvel, estático, em frente à clarabóia que existia na parede.

Quando me sentiu, voltou-se para mim um pouco como quem acorda e à minha pergunta respondeu que estava bem, não me preocupasse, «vai-te deitar».

Nunca fui capaz de entender se fora dos meus olhos ou se havia no ar, parado e em surdina, algo de encanto que apenas um leve estremeção de ver-me quebrara ou tão-só interrompera.

Ainda vi que em passo lento se encaminhava, na contraluz, para a secretária.

 

***

O Jorge sabia tudo – mais, tinha sempre um livro para ilustrar o seu conhecimento. Um dia, em Araraquara, os pequenos entraram de roldão mostrando-me uma coisinha que, agitada, fazia um barulhinho como de matraca. Foi uma excitação e decidimos que «desta vez, o papá não vai descobrir o que é» – entrámos pelo escritório sorridentes e ansiosos exibindo eu a «coisinha» que lhe cheguei a cara, antegozando a ignorância. Perguntei: «O que é? Levantou os olhos do papel e displicentemente, sem a menor hesitação, respondeu: «É a ponta do rabo de uma cobra cascavel.» Ficamos varados – era. Desisti de o pôr a prova!

 

***

Uma vez conversava-se amenamente em grupo. Contávamos de dificuldades e também deste álbum que compráramos daquela vez que fôramos não sei onde… Um dos interlocutores (americano, é bem de ver) comentou, numa pausa: «Mas como é que vocês, com tantas dificuldades, podiam fazer isso? ‘Prontamente lhe respondi: «Porque, graças a Deus, somos loucos!» A estrondosa gargalhada do Joaquim ainda hoje me soa nos ouvidos.

 

***

Chegáramos a Roma, e, apesar da preocupação com a saúde convalescente, o Jorge começou a fazer projectos de mostrar-me mil coisas, que fui refreando. Fez, contudo, questão de mostrar-me a Villa Borghese.

Disse-lhe que não queria ir porque já sabia que não deixaria de percorrer tudo comigo e eu ficava aflita. Prometeu-me que não, ficaria sentado na entrada, quietinho, à minha espera. E lá fomos.

Quando entrámos, olhei, no átrio em frente à enorme escadaria de pedra, a ver se haveria onde ele se sentasse. Mas já ele me dava o braço sorrindo, e começava a subir lentamente. Quando passou o último degrau, olhou-me radiante: «Viste, não aconteceu nada!»

Parecias um menino que tivesse feito uma inocente e bem sucedida partida – estavas triunfante.

Mas tê-la-ias feito? Ou apenas não resistiras ao sempre sedento desejo de ver ou rever comigo tudo, a despeito da sinceridade da promessa e das precárias forças que já não chegaram para dar volta aos famosos jardins?

 

***

Ia entrar no escritório e vi que o Jorge escrevia um poema. Já não entrei e fiquei à espera que me chamasse para mo ler, como sempre fazia. Não chamou, e daí a pedaço voltei. O poema estava em cima da secretária. Li: “Aviso a cardíacos…”  Comentei que era terrível, e “tu sabes que profundamente injusto para mim e para todos”  — Olhou-me com uma tristeza infinita, e, com voz magoada, tão magoada!, respondeu-me: “Eu sei… eu sei, mas é o que eu sinto”.

Entardecia. Estávamos em pé, no corredor, em frente à porta para o páteo. Sentíamo-nos ambos angustiados — e nem sequer sabíamos de que tínhamos de ter medo. A terrível notícia só veio onze dias depois.

 

***

Mal sairam as memórias de Frieda Weekley Lawrence, Jorge leu-as absorvidamente. Quando acabou disse-me: «Lê, são lindíssimas, gostaria imenso que alguém escrevesse de mim assim um dia. Não que ela não diga coisas até cruéis, mas o amor com que as diz!» Pensei: «para longe vá o agouro». E de cada vez que pensava em tê-las, não conseguia sequer pegar no volume da estante.

Com o tempo tornou-se-me até muito mais difícil à medida que se me ia formando a identidade da imagem dela comigo, não pelo talento, mas na ternura e compreensão dos gigantes que nos encheram a vida.

 

(* nas coletâneas Jorge de Sena, o homem que sempre foi e Quaderni Portoghesi, 13-14)

 

Leia mais:

De Teresa Martins Marques

Teresa Martins Marques é uma incansável pesquisadora, com inúmeros títulos ensaísticos publicados, onde avultam abordagens sobre José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira (o escritor a quem dedicou sua tese de Doutorado, depois de ter organizado seu imenso espólio).Em 2013, tornou-se romancista de sucesso com o livro A Mulher que Venceu Don Juan e recentemente lançou O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira.

 

 

De Ernesto Rodrigues

Docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, recém-eleito diretor do CLEPUL, Ernesto Rodrigues é também ensaísta, jornalista, ficcionista, poeta, tradutor, além de membro ativo da Academia de Letras de Trás-os-Montes, que ajudou a fundar. Com mais de 80 títulos publicados, com toda justiça, acaba de ser homenageado em Bragança pelos seus 40 anos de vida literária. 

Neste testemunho, recorda seu encontro com a obra e a figura Jorge de Sena. O texto de sua autoria a que alude encontra-se em “95. A morte do Papa“. 

 

De José Carlos de Vasconcelos

O jornalista, advogado, ex-deputado e poeta José Carlos de Vasconcelos é o diretor, desde sua fundação em 1981, do indispensável JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias — periódico único no seu gênero em Portugal, que, a cada quinzena, traz atualizações preciosas a todos quantos se interessam pelo que acontece no universo da produção literária e artística em língua portuguesa. Aceitando nosso convite, aqui discorre sobre Jorge de Sena.    

 

De Jaime Conde (sobre o “Golpe da Sé”)

A bibliografia sobre a história recente de Portugal é parca em informações e comentários sobre a chamada “Conspiração da Sé”, ou “Golpe da Sé”, de março de 1959. Tentativa abortada de derrubar Salazar, congregou cerca de duas centenas de envolvidos, agindo em grupos diversificados. Dentre eles, Jorge de Sena, que pouco falou, ou escreveu, sobre o tema e cujo exílio brasileiro teria nesta frustrada ação a causa mais próxima.

Sem dúvida, constitui-se peça rara o testemunho de um participante ativíssimo — como se verá — na organização e execução de mais um sonho desfeito em apressar o fim do salazarismo em Portugal.

O essencial sobre Jaime Conde ele mesmo o diz no decorrer deste seu tripartido depoimento.

 

 

 

 

De Carlos Reis

Catedrático da Universidade de Coimbra e autor de inúmeros estudos sobre a obra de Eça de Queirós que se tornaram referência obrigatória, Carlos Reis aqui nos traz seu depoimento sobre os textos de Jorge de Sena mais longamente dedicados a O Crime do Padre Amaro e Os Maias

 

 

De Sheila Moura Hue

Como pesquisadora especialista em temas quinhentistas, Sheila Moura Hue  aqui nos traz seu depoimento sobre os estudos de Jorge de Sena dedicados a Camões e outros nomes representativos do Renascimento ibérico, sempre comprometidos em marcar a fecunda interlocução entre intelectuais que constantemente ultrapassavam fronteiras políticas em prol de uma riqueza cultural de base comum peninsular e europeia.  

 

 

De Sérgio de Carvalho Pachá

O filólogo Sérgio de Carvalho Pachá rememora seus encontros com a obra de Jorge de Sena nas suas andanças entre Brasil, Portugal e USA — os mesmos espaços de exílio do escritor. Especialmente interessado nos estudos camonianos de Sena, como que pelas mãos de Camões foi conduzido a outros pontos altos da ficção e da poesia do autor. E o convívio com Mécia de Sena em Santa Barbara veio ratificar a visão que, pela leitura, compôs do signatário de “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”.

 

ERRATA do depoente:

O salmo glosado por Camões em “Babel e Sião” não é o 134, como disse e repeti umas poucas vezes, mas sim o 136. E a livraria onde, pela primeira vez, li o conto “Super flumina Babylonis”, de Jorge de Sena, não foi a inexistente filial da Livraria Portugal, mas sim uma filial da Livraria Bertrand, na Avenida de Roma.

 

De Jeronimo Pizarro e Mario Rodriguez

Jerónimo Pizarro, grande dinamizador dos estudos portugueses na Colômbia e Mário Rodriguez, tradutor de escritores portugueses para o castelhano, falam-nos sobre Jorge de Sena. O primeiro, reconhecido estudioso da obra de Fernando Pessoa, está à frente da Cátedra que leva o nome deste poeta sediada na Universidad de los Andes e foi o principal responsável pela enorme visibilidade que Portugal, como “país invitado de honor“, alcançou em 2013 na FILBO — Feira Literária de Bogotá. Lançada durante o evento, a magnífica antologia De la otra orilla del Atlántico reúne ao longo de suas 300 páginas apreciável panorama de textos portugueses, desde Eça de Queirós até jovens autores contemporâneos. Jorge de Sena aí figura com o conto “O Grande Segredo”, traduzido por Mário Rodriguez, que, em breve, verá editada a seleta de prosa e verso integralmente dedicada a este “nosso” autor, mais uma vez sob sua acurada tradução.

 

 

De Orlando Amorim

Professor da UNESP-Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de São José do Rio Preto (SP), Orlando Amorim doutorou-se com uma tese sobre Sinais de Fogo, depois de concluir o Mestrado com uma dissertação sobre O Físico Prodigioso. Aqui nos fala sobre esse seu convívio — já longo, assíduo e intenso — com Jorge de Sena.

 

 

De Maria Fernanda de Abreu

Reconhecida hispanista, a professora da Universidade Nova de Lisboa Maria Fernanda de Abreu aqui nos traz seu testemunho sobre Jorge de Sena, quer como escritor, quer como ensaísta que muito se debruçou sobre temas e peculiaridades da terra do Quixote, não raro em interlocução ibérica.  

 

 

De Eugénio Lisboa

Em outubro de 2013, Eugénio Lisboa lançou o 3º volume de suas  memórias —  Acta est fabula — , desta vez revisitando pela escrita a sua Lourenço Marques  entre 1955 e 1976 (abaixo, áudio com a apresentação do próprio autor). Das várias personalidades recordadas nesses vinte anos  conta-se Jorge de Sena, que, lembremos, esteve em Angola e Moçambique em 1972. No capítulo a seguir transcrito (gentilmente facultado pelo autor), o foco incide sobre o encontro e a amizade entre essas duas marcantes personalidades da cultura portuguesa.

 

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

 Acta-III-Media-Net

Ainda antes do suicídio de Montherlant, ocorrera, em Lourenço Marques, um acontecimento de vulto: a visita a Moçambique, de Jorge de Sena, acompanhado de sua mulher, Mécia, a convite da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. Chegou no dia 7 de Julho e partiu em 31 ou 1 de Agosto (a 2, já estava em Luanda e em 30, ainda estava em Lourenço Marques).

Na altura em que visitou Moçambique, Jorge de Sena estava já, como Professor, em Santa Barbara (California), para onde se mudara, em 1970, deixando a Universidade do Wisconsin. E tinha, a seu crédito, uma obra importante, abarcando a ficção, a poesia, o teatro, o ensaio e a crítica. Vinha precedido de uma reputação de homem temível, de difícil abordagem… As reputações são o que são: a de Sena parecia-se muito com a de um homem talentoso com uma ponta de génio, mas insaciável e mesmo à beira do intratável.

Esperei para ver. O velho bardo de Stratford, no seu Henrique V, punha-nos de sobreaviso, em matéria de reputações: “A reputação é um instrumento de sopro que é posto a ressoar pelas suspeitas, os ciúmes, as conjecturas.” O Cisne sabia do que falava.

Durante a sua estadia em Moçambique, Sena conferenciou em mais de um local. Se bem me lembro, falou uma noite, na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. Depois de uma visita à Ilha de Moçambique, iria, apresentado por mim, no “Teatro Gil Vicente”, no dia 25 de Julho, dissertar sobre o vocabulário de Os Lusíadas, e, depois, no dia 30 faria uma conferência na Universidade de Lourenço Marques, apresentado por Maria de Lourdes Cortez.

Mas, antes de tudo isto, tive ocasião de conversar com Jorge de Sena e sua mulher, em nossa casa e em casa do Rui Knopfli. Falado, Jorge de Sena nada tinha de um dragão: pelo contrário, não só era um brilhante conversador, como era, também, um verdadeiro charmeur. Era de uma extraordinária subtileza, no modo como dividia a sua atenção por todos os presentes, não esquecendo ninguém, nem as crianças.

Quando, certa feita, telefonou, uma manhã, para nossa casa, a Geninha, que andava na fase de “ser ela a atender ao telefone”, pegou no dito e encontrou, do outro lado da linha, o Jorge de Sena. Este, em vez de lhe pedir logo que lhe passasse o pai, esteve uns bons minutos de conversa com ela, antes de lhe pedir, por fim, o favor de lhe passar “o paizinho”. A Geninha, é claro, achou aquilo o máximo e ficou a adorá-lo: na reunião, em nossa casa, com o casal, não prescindiu de estar presente e era toda ouvidos. Ela era muito sensível ao brilho das conversas e o brilho irresistível – e solidamente fundamentado, não superficial – do escritor fascinou-a por completo (a Geninha tinha nesta altura 13 anos incompletos). Muito mais nova, a Manucha também não arredou pé e também com ela Jorge de Sena partilhou a sua atenção.

A “conversa” de Sena não era uma conversa qualquer e o seu “brilho” não era um foguetear vazio. Sena convocava, com mestria e leveza, todo um imponente aparato erudito com que enriquecia – sem a tornar pesada – a sua conversa. Raramente tenho conhecido um conversador deste gabarito. No livro Entrevistas – 1958/1978, recentemente publicado, poder-se-ão ler as várias entrevistas que deu, durante a sua estadia em Moçambique, muito em especial, a que concedeu ao Rádio Clube de Moçambique, em 19 de Julho. Ela dá uma ideia do que era e de que era feita a “conversa” de Jorge de Sena, embora, à “leitura”, falte a enorme vitalidade da sua impressionante presença física. É que Jorge de Sena tinha uma impressionante presença: era alto, bem-parecido e tinha uma voz admirável e extremamente bem colocada. Era um grande senhor da língua portuguesa e era um grande senhor tout-court. Estas qualidades não “aparecem” todas, necessariamente, nos textos escritos, às vezes de uma agressividade e contundência quase intoleráveis e veiculados, por uma sintaxe impecável, sim, mas cheios de circunvoluções, de subordinações, de apartes, de interpolações, que os tornam muito menos atraentes do que a sua conversa solta e bem apimentada. De qualquer modo, foi um privilégio e um imenso prazer conhecê-lo. Era um homem extremamente generoso com o seu tempo e com a partilha do seu saber. Creio que deixou, em Moçambique, além de admiradores, amigos que o não esquecem (muitos não estarão já a viver ali).

Na apresentação que dele fiz, no Gil Vicente, terminava com estas palavras, que aqui quero deixar transcritas: “Resta-me apenas, como moçambicano – perdoe-se-me a momentânea insolência de usar esta pestiferada palavra –, como moçambicano cuja pátria é também a língua portuguesa, agradecer ao Professor Jorge de Sena, ao escritor Jorge de Sena e, também e muito particularmente, ao Jorge de Sena de todos os dias, o privilégio da sua visita a Moçambique, com tudo quanto ela nos trouxe: ensinamentos – e de que modo! –, convívio de uma vivacidade e de um estímulo, como nunca conheci nenhum, brilho, apetência de viver e conhecer e, sobretudo, a imensa vergonha em que ficamos todos, por vermos como trabalha por todos nós, lá fora, um homem que deixámos fugir. Como diria o delegado do Ministério Público de um seu poema escrito há onze anos, “[ … ], a extensão do crime escapa-nos!”.

Na conferência que fez na Universidade, com a sala a deitar por fora (literalmente), Jorge de Sena foi apresentado, com a subtileza e minúcia que caracterizam a sua escrita (e também a sua fala), por Maria de Lourdes Cortez, para cima de quem foi atirado o ónus dessa tarefa (politicamente ingrata?). Mais uma vez, Jorge de Sena fez uma demonstração prática daquela afirmação do ficcionista francês Barbey D’Aurevilly, segundo o qual, “estar acima do que se sabe é coisa rara.” Para uns, segundo o autor de Une Vieille Maítresse, a erudição era “um fardo”, e ficavam abaixo dela; para outros, era, por assim dizer, “um pedestal”, e ficavam em cima dele. Este segundo caso era o de Sena.

Não vou deixar passar o registo de um incidente que decorreu no dia em que fez a conferência por mim apresentada no Gil Vicente, por ser revelador de um outro lado do grande escritor: a sua profunda vulnerabilidade à crítica, sobretudo se vinda de um personagem insignificante (já Valéry observara que qualquer rafeiro nos pode infligir uma ferida mortal). Na véspera da conferência – dia 24 – recebera a notícia da morte, no Brasil, do seu velho amigo Adolfo Casais Monteiro, o que o deve ter deixado um tanto deprimido. No dia da conferência, de manhã, salvo erro, alguém lhe telefonou de Lisboa, informando-o de que um escriba qualquer mordiscara, levianamente, no seu livro de traduções de poesia – Poesia de 26 Séculos – há pouco saído. Sena ficou a ferver o dia todo e, ao fim da tarde, entrou no “Teatro Gil Vicente”, em estado de profundo nervosismo.

Era aquele o primeiro espaço público de que dispunha, para um ajuste de contas. E aproveitou-o! Após a minha apresentação, que agradeceu cavalheirescamente, em vez de “entrar em tema”, como se diz, apropriou-se de uma boa fatia do tempo de que dispunha, para dar escape à sua fúria contra o escrevinhador lisboeta… O público, é claro, ficou perplexo e, pouco afeito àqueles submundos da República das Letras, pouco terá entendido do que se estava a passar. Despejado o saco, Sena lá sossegou e fez uma conferência sobre Camões, como ele sabia fazer. À saída, fintou habilmente os que o queriam cumprimentar e dirigiu-se, ansioso, para o sítio onde se encontrava a sua mulher, inquirindo-a com o olhar. E só quando ela, discretamente lhe deu a bênção (“Andaste bem”), é que ele, descontraído e sossegado, se aprestou a receber as devidas homenagens.

Durante toda a viagem por Moçambique, Sena falou claro e vicentino, embora não se entregasse a provocações de carácter político. Mas disse sempre o que tinha a dizer. Aliás, logo numa entrevista dada ao Notícias, no dia 16 de Julho, teve o cuidado de informar: “Não estou aqui integrado em comemorações nenhumas. Não venho em romaria. Estou em Lourenço Marques a convite da Associação dos Estudantes de Coimbra, o que considero uma atenção especial.”

Depois desta visita, encontrei-me duas vezes com Jorge de Sena: em Londres e em Paris. E, de ambas, pude confirmar a impressão que dele colhera, em Moçambique: a de uma das mais carismáticas e impressivas figuras da nossa cultura e, ao mesmo tempo, a de um homem de grande encanto pessoal e de extrema generosidade.

Fiquei sempre a sentir por ele um grande afecto, o que não quer dizer que tenha sistematicamente concordado com tudo o que fez, disse ou escreveu. Nem tinha que estar: se alguma lição forte ele nos deixou, foi a de um espírito de grande independência. Ser igualmente independente é a melhor maneira de lhe prestar homenagem. (Já de regresso aos Estados Unidos, Jorge de Sena escreveu-me, perguntando-me se quereria ir para Cardiff, como leitor de Português. Seria só um ponto de passagem: a seguir, ele arranjaria maneira de me fazer ir trabalhar com ele, em Santa Barbara. Fiquei lisonjeado, mas não aceitei. Dei-lhe uma desculpa qualquer, mas a verdade é que não estava ainda preparado para deixar Moçambique: demasiadas coisas ali me prendiam.)

 

In: Lisboa, Eugénio. Acta est fabula. Memórias III –  Lourenço Marques Revisited (1955 e 1976). Guimarães, Opera Omnia, 2013 p. 405-410

 

De Patricio Ferrari

O conceituado investigador da obra de Fernando Pessoa, que acaba de editar, em co-autoria com Jerónimo Pizarro, o  livro Eu sou uma antologia, destaca neste depoimento três observações feitas por Jorge de Sena — relativas aos “35 Sonnets“, ao heterônimo Ricardo Reis e ao heterônimo Alberto Caeiro —  considerando-as inovadoras nos estudos pessoanos e ainda muito pertinentes décadas depois de enunciadas. 
 

De Fernando Lemos

Apesar do distanciamento imposto pelas circunstâncias, Jorge de Sena e Fernando Lemos cultivaram sempre a inabalável amizade nascida em fins dos anos 40, quando ambos já davam provas irrefutáveis do talento que os consagraria. Conviviam então com seleto grupo de intelectuais, no qual se contava José-Augusto França, Fernando de Azevedo, Vespeira, António Pedro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Adolfo Casais Monteiro… Mais jovem 7 anos que Sena, Lemos veio para o Brasil em 1953 e aqui desenvolveu intensa produção, muitas vezes premiada, em vários campos das artes: poesia, fotografia, desenho, aquarela, pintura, tapeçaria, artes gráficas, publicidade, programação visual, estamparia têxtil, painéis de azulejos, desenho industrial etc. 

Com a vinda de Sena para o Brasil, colaboraram juntos no jornal Portugal Democrático, editado em São Paulo de 1956 a 1975, que congregava os exilados portugueses unidos pelo anti-salazarismo.

Nos dois testemunhos abaixo, Lemos evoca alguns fragmentos desse longo e sólido diálogo.  

 

 

De Helena Buescu

Professora Catedrática da Universidade de Lisboa e renomada ensaísta, Helena Buescu nos oferece o seu testemunho sobre a escrita de Jorge de Sena, sublinhando o potencial comparatista de sua obra, aspecto demonstrado através das aproximações a Virginia Woolf, com relação à ficção, e ao grego Kaváfis, na poesia.

 

De Helder Macedo

Helder Macedo, cuja trajetória intelectual é sobejamente conhecida e reconhecida internacionalmente, cultivou uma amizade com Jorge de Sena ao longo de muitos anos e numerosos encontros, sobretudo londrinos. Neste seu testemunho, desenha-nos tanto a personalidade “excessiva” do amigo, quanto o criador de uma obra não menos “excessiva”, que o estimula a constantes releituras. Complementando este video e as alusões nele contidas, recomenda-se ler uma seleção das cartas enviadas por Jorge a Helder, gentilmente cedidas pelo destinatário (ver)

 

De Pedro da Silveira

 

Parece não ter tido maior difusão este texto de Pedro da Silveira escrito um mês após o falecimento de Jorge de Sena, agora recuperado, e gentilmente para nós enviado, pelo infatigável descobridor de preciosidades Vasco Medeiros Rosa. Como se sabe, o açoriano Pedro da Silveira (1922- 2003) integrou anos a fio o conselho de redação da revista Seara Nova e produziu larga obra como poeta, crítico literário, tradutor e investigador, colaborando em diversos periódicos. Pode-se dizer, sem medo de errar, que os Açores constituem o cerne de quanto escreveu — o que fica bem demonstrado neste necrológio, no qual são sobejamente enfatizados os elos de Jorge de Sena com o arquipélago.  

 

A costa californiana que faz lembrar a dos Açores

 

 

UM AÇORIANO DE LISBOA: JORGE DE SENA*

Nenhum lugar mais certo para lá morrer e se dar à terra um açoriano da dispersão: Santa Bárbara, na Califórnia. É junto à costa e ao longe perfilham-se não me lembra quantas ilhas. Dumas delas ainda sei, ou julgo saber, que se chama San Clemente; doutra, que é Santa Catalina. Sena cantou num poema[1] a visão duma delas, que tinha defronte de sua casa. Se não me mente a memória, ao cabo de tantos anos, dizia meu pai, que as visitou uma vez, que eram habitadas por índios e chicanos, gente pobre, vivendo da pesca e de cultivar melancias, das melhores do mundo — acrescentava —, só comparáveis às do Corvo.

Pode isto parecer impróprio falando dum poeta, de mais acabado de morrer. Melancia não é fruto com prestígio lírico e a memória dum poeta, na hora da sua morte, não se celebrará assim. Pelo menos, não é de regra. Mas veio à pena e fica — de resto, me parecendo que fica bem, tratando-se, como se trata, dum poeta que sabiamente sabia que tudo (todas as palavras, todas as coisas) pode caber em poesia; ao menos quando a poesia é poderosa bastante para se transmitir até à evocação duma melancia, tão digna afinal, em sua humildade de fruto para pobres, como uma estátua grega ou uma sinfonia do genial Beethoven. Jorge de Sena sabia destas coisas: como homem de cultura aberta e multímoda que era e como poeta de raiz que, primeiro e totalmente, era também.

Açoriano de Lisboa, digo no título. Sim, senhores: açoriano de Lisboa, criado num meio familiar açoriano, no qual corriam sangues provenientes das três ilhas que são o Faial (onde seu pai nasceu), São Miguel e a Terceira. Gente ligada ao mar e, até agora e desde o século XVIII, na pessoa do seu antepassado o poeta Manuel Inácio de Sousa, ao comércio marítimo; gente, como ainda Jorge de Sena foi, de se largar pelo mundo. E eis que se põe o pretexto doutra notação digamos antebiográfica: que os do sangue de Jorge de Sena dos Açores (e da Madeira também) desde há muito se derramam por esse mundo, como ele se derramou. Lá temos, em Cabo Verde, filho da Ilha Brava, o marinheiro e erudito historiador Cristiano José de Sena Barcelos, seu parente e doutro Sena (que Sena se não chama todavia), o poeta (madeirense) Herberto Hélder. E quantos mais, filhos e netos de abalados para o Brasil, a Califórnia e outros longes?

Lamenta-se que Jorge de Sena morresse fora de onde nasceu, e parece querer-se que Lisboa seja, já que não o teve (ou não o quis ter?) vivo, sua morada de morto. Quer dizer (e ele o diria se pudesse agora): pretende-se, contritamente, remediar com os ossos o que ao vivo se não quis proporcionar. Mas é sempre assim, ou, pelo menos, é-o nestas arábico-africanas partes, onde a ingratidão exercida contra os vivos incómodos se usa transmudar em reconhecimento (?) quando já passaram a mortos (e já não incomodam).

Não, senhores! Deixem ficar Jorge de Sena na Santa Bárbara que bem amou, lá no cemitério do Calvário, donde se vê o mar e ilhas defronte. Lá ele ficará bem e, tenho a certeza, gostará de receber de vez em quando as visitas amigas dos luso-californianos que soube entender e estimar e lhe pagavam na mesma moeda — gente simples e boa, que poderá não lhe ler a obra mas soube entender-lhe a ternura disfarçada de aspereza, aquele seu feitio insulano, de homem que sempre diz logo, sem rodeios acomodados, o que os da terra firme tantas vezes só dizem depois ou por dentro. Sim! Lá é que Jorge de Sena está no lugar certo. Exilado em vida, seja-o morto; mas exilado, afinal, entre gente que amou: lusos, como ele, que a pátria repeliu; filhos das ilhas onde ele enraizava.

Até onde sou capaz de descobrir o insulano, nado ou de raiz, pela sua expressão, a obra de Jorge de Sena, o seu estar no mundo (da obra e dele homem), são da espécie que não deixa margem a engano: ilhéu indisfarçável. Lá esta a sua poesia, à primeira abordagem um tanto difícil (como difíceis de abordar são as costas das ilhas atlânticas), mas que depois se nos revela tão rica, tão contrastada; e a sua obra de contista, onde a cada passo a insaciável curiosidade total do mundo pulsa; e a do dramaturgo, que até diz daquele «indesejado» D. António, cá só o «Prior do Crato», lá Rei — el-rei D. António I, com sua corte em Angra e a quem a tradição na minha ilha ainda chama «o rei Sant’António»; e a do ensaísta erudito, tão sagaz, curioso de tudo, sedento de todos os humanos saberes.

Não me sinto capaz, agora, de discorrer criticamente sobre o legado espiritual de Jorge de Sena. Até porque a sua morte, embora esperada para mais cedo do que quando já um homem não pode dar à vida senão continuar vivo, me deixa como embaciado: uma morte que, além do mais, vem quase em cima da doutro grande filho das terras no meio do mar — Vitorino Nemésio[2]. E daí, não me sentindo capaz do discorrer crítico, que é coisa para a frio, aqui vai só como o vejo, lhe tomei o gosto à obra: insulada e jogada no mundo, mensagem que me apetece comparar à de Antero, como à do erudito Teófilo (outro de multímodas curiosidades), como à de Carlos de Mesquita; como às desses brasileiros também oriundos das Ilhas, como Machado de Assis, ou Euclides da Cunha, ou Guimarães Rosa, ou Carlos Drummond de Andrade, ou Cabral de Mello Neto; como, mesmo, à desse como criatura detestável mas como escritor assombroso Jorge Luis Borges. Porque em todos reside, na obra que fizeram, superando diferenças de teor, algo que é a genuína marca de quem nasceu numa ilha e traz nas veias sangue provindo duma ilha.

Jorge de Sena morreu no exílio, dizem os seus necrologistas, os quais agora, muito solenemente, falam da reparação a dar ao grande exilado que, aqui e lá fora, tão altamente honrou a cultura lusíada. E eu pergunto: Não era ele já um exilado antes de, de facto, o ter sido? A sua obra não é toda, desde o primeiro livro, um continuado sinal de exílio? E não é afinal o exílio a condição do intelectual que nasça neste ruim sítio onde Eça (outro exilado de raiz) pescou Acácio e Gouvarinho e o Salcede, esses, sim, exemplares de quem, mesmo sendo-o, nunca será um exilado?

Senhores! Leiam-no, aprendam na sua obra a entender, se capazes ainda são disso, que o mundo não se reduz a Lisboa. Mas deixem-lhe os ossos em paz, lá no cemitério do Calvário, em Santa Bárbara da Califórnia, com o mar e não sei quantas ilhas diante dos olhos que para sempre já não poderão avistá-las. E, quanto a exílios — sempre é melhor estar exilado lá fora, vivo ou morto, do que exilado (emparedado) aqui. Não o ignoro: Jorge de Sena amava isto; mas também sabia — doloridamente sabia! — que isto só é bom para majores, argelinos e filhos de reverendos. Amava, explico, um mito; e quando se ama um mito, é sempre melhor viver e morrer longe dele. Por que não deixe de ser mito.
 
 

NOTAS: 
[*] In O Diabo, Lisboa, 4 de Julho de 1978, pp. 17, 22

[1Provavelmente o autor refere-se a “Duas paisagens da Califórnia”, do livro Exorcismos (Poesia III), com data de Janeiro de 1971:

 

AS ILHAS DE SANTA BARBARA

Tão lúcidas recorte no horizonte

a névoa ergue-as do mar em que flutuam

violáceas quietas pela tarde imóvel

até nas brandas ondas que esta praia pousam

recurva apenas de uma luz sem cor

e do silêncio da distância em ilhas

 

BIG SUR

Do alto da escarpa escarpas se prolongam

em que de praias se entrelaça o mar

 sobrevoado de aves. Os rochedos

somem-se e brotam de sem espuma em volta

que só ressaca é depois deles areia.

 

[2Nascido a 19 de dezembro de 1901, o açoriano Vitorino Nemésio faleceu em 20 de fevereiro de 1978.

 

De George Monteiro (2)

Mais uma vez, George Monteiro nos oferece um poema inédito, de sua autoria. Este, datado de 1988, evoca dados da biografia de Jorge de Sena facilmente reconhecíveis e as praias de Santa Barbara, propícias a meditações. A versão em Português é de Luciana Salles. 

 

Praia na costa escarpada de Santa Barbara

 
 
 
 
 

SEA LEGS

Let the record speak.
Cadet Sena would not

 

climb the mast, swim
the sea, refrain from

 

talking, wash out his
his whites. Bad boy.

 

Indifferent ephebe.
Good scores, good

 

family, but yet not
right for Salazar’s

 

navy. Ouster is the
right move, while

 

other trainees move
from the Sagres

 

to a career in starches
and creases. Ditched,

 

but peering heights,
still leery of notions

 

of cleanliness next
to godliness, still

 

talking up a kid’s
storm, still naively

 

thinking literature
matters, he launches

 

a life and plies a trade.
Accumulating nations,

 

he seeds poems along
his track. In his sixth

 

decade Sena sheds his
whites, stifles chatter,

 

and hunkers down in
Santa Barbara to beach,

 

once and for all, a suite
of land/ sea thoughts.

 

Providence, RI
Oct. 2, 1988

 

ANDAR MARINHEIRO

Deixem falar os registros.
O cadete Sena não iria

 

escalar o mastro, nadar
no mar, abster-se das

 

palavras, lavar seus
uniformes. Menino mau.

 

Efebo indiferente.
Boas notas, boa

 

família, mas não
o bastante para a salazarista

 

marinha. Expulsar
é o correto, enquanto

 

outros formandos
partem da Sagres

 

para uma carreira em rigidez
e rugas. Rejeitado,

 

mas aspirando às alturas,
ainda desconfiado da noção

 

de limpeza perto da
divindade, ainda

 

falando intempestivamente,
ainda ingenuamente

 

acreditando que a literatura
importa, ele se lança

 

a uma vida e a um ofício.
Acumulando nações,

 

semeia poemas ao longo
do caminho. Em sua sexta

 

década, Sena recolhe as
presas, cala os discursos,

 

e se ancora em Santa
Barbara para naufragar,

 

de uma vez por todas, numa suíte
de meditações em terra/mar.

 

Trad. de Luciana Salles

De Jorge Fernandes da Silveira

Professor Titular de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de diversos ensaios sobre a poesia seniana e orientador de trabalhos acadêmicos sobre o autor, Jorge Fernandes da Silveira aqui nos oferece o seu testemunho, recordando momentos de quando foi Professor Visitante na Universidade de Santa Barbara, California — espaço, como sabemos, por onde muito circulou o próprio Jorge de Sena. 

 

De Otília Lage

Como organizadora do volume dedicado à correspondência trocada entre Mécia e Jorge de Sena relativa ao “período brasileiro” do casal, Maria Otília Pereira Lage foi entrevistada pelo programa radiofônico “À volta dos livros“, transmitido dia 7 de agosto de 2013, que aqui reproduzimos
As fotografias registram o lançamento da obra no Auditório da Biblioteca Pública Municipal do Porto, dia 04 de maio de 2013, em sessão que incluiu a leitura de cartas e poemas, com acompanhamento musical.

 

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Capa do Livro
Capa do Livro
Otília Lage apresenta o volume; sentada, Maria do Carmo Castelo Branco - prefaciadora da obra
Otília Lage apresenta o volume; sentada, Maria do Carmo Castelo Branco – prefaciadora da obra
  Imagem parcial da platéia
Imagem parcial da platéia
amigas de colégio e juventude de Mécia de Sena
Otília Lage entre duas amigas de juventude de Mécia de Sena

 

Leia mais:

De Luís Amaro

Francisco Luís Amaro (1923) é um completo homem de letras, produzindo páginas como poeta, articulista, revisor literário, editor, memorialista, sendo hoje reputado como um dos mais atentos estudiosos da história literária contemporânea portuguesa. Durante largos anos atuou na Portugália Editora e na Revista Colóquio/Letras, colaborando paralelamente em diversas revistas literárias, como a Távola Redonda, a Portucale e a Seara Nova. Foi ainda co-fundador das celebradas folhas de poesia Árvore. Tendo privado de muito perto com alguns dos maiores autores portugueses do nosso tempo, reuniu vasto arquivo literário e epistolar que doou à Biblioteca Nacional de Portugal. Esta selecionou parte de tão precioso acervo para compor uma exposição (de 7 de maio a 29 de junho de 2013) em homenagem aos lúcidos e produtivos 90 anos do autodidata intelectual, que, segundo Vasco Graça Moura, é “a pessoa que mais sabe em Portugal sobre livros e escritores”. Transcrevemos a seguir o seu depoimento sobre Jorge de Sena em texto originalmente editado na «revista de poesia» lisboeta Relâmpago nº 21, de 2007 — revisto e atualizado em agosto de 2013 — e que inclui carta inédita de Sena a Amaro, ambos então jovens e amigos. (LJdS)

 

Data de muito cedo – teria eu apenas dezanove anos – a primeira vez que, em certa manhã de 1942, na antiga e lisboeta Livraria Portugália, da Rua do Carmo 75, me deparei com Jorge de Sena, amenamente à conversa com Manuel da Fonseca, talvez já o fulgurante autor de Aldeia Nova (contos, março daquele ano), edição da casa onde me empregara em setembro de 41. Deu-se o encontro provavelmente antes de maio, pois não tardei a avistar o poeta na Feira do Livro, na Avenida da Liberdade. Recordo a invulgar simpatia do escritor não famoso ainda, o interesse dele pelos clássicos quinhentistas (creio que trazia consigo o volume das Obras de Frei Agostinho da Cruz), aos quais chegou a dedicar no jornal O Globo (“Poesia enterrada viva”, 01-IX-1944) toda uma página antológica.

A extrema acessibilidade de Jorge de Sena, mais velho que eu só três anos e meio, fez com que o nosso relacionamento se firmasse, não direi intimamente, mas, da minha parte, com imprevisto à-vontade. Já de nome o conhecia, da única referência que tinha dele, a Ruy Cinatti ouvida na Livraria, proclamando, entusiástico, “o Jorge” a alguém que não posso precisar – Tomaz Kim, talvez – como a maior revelação crítica da época: revelação essa a lançar pela revista Aventura (no. 1, maio 1942), que ele, Cinatti, inesquecível “criança grande”, mas de notória maturidade cultural, poeta de Nós não somos deste mundo, dirigia com o puro ardor que em tudo punha.

Importa sublinhar, situando ou clarificando estas relações pessoais com o autor de Perseguição e o consequente intercâmbio epistolar que cresceu com o seu exílio, o importante papel que, de início Livraria Editora[1], e depois, simultaneamente, núcleo editorial autónomo na Avenida da Liberdade, 13-3°. Dt.º ambas as Portugálias exerceram no ambiente literário nacional de 30 até ao fim de 70 – para não recuarmos já à década de 20, ou, mais exatamente, à fundação, cerca de 1918, da PORTVGALIA EDITORA [sic], com Heitor Antunes principal sócio (mais tarde radicado no Brasil, onde morreu) e repartida a empresa, logo, pelo Rio de Janeiro: assim consta da edição, única que possuo de 1918 com a chancela “portugálica”, do livro “SOLDADO:QVEVAES Á GVERRA…// Novas:Redondilhas //De Antonio Corrêa d’Oliveira //Impresso em Lxª. MCMXVIII.  Na respectiva loja, de não vasta dimensão, se reuniam, segundo testemunhos epocais, relevantes figuras das letras, das artes, da política, de heterogéneos sectores – como, é agora de supor, o tão queirosiano Conde Sabugosa (um dos “Vencidos da Vida”, gloriosa mentira…), o mais aristocrático autor da casa e ao qual a PORTVGALIA EDITORA consagraria, em 1924, opulento ln Memoriam, desveladamente organizado por José António Correia, também sócio-gerente, até 1937, da Livraria.

Essa frequência intelectual mantinha-se ainda qualificada quando, há sessenta e seis anos (!), ingressei no histórico estabelecimento, apenas quatro meses volvidos sobre a inauguração da Livraria Portugal, no prédio fronteiro e sob a gerência dos mesmos sócios, Pedro Ferreira de Andrade, Raul Luís Dias, acrescidos de Henrique Pinto e com dois capitalistas. Moderna e ampla, a Portugal, em 5 de maio de 1944 fundada, encerrou há meses as suas portas, devido à crise que nos avassala, finda a euforia de Abril. E também já não existem os que lhe deram vida, à Livraria Portugal.

Regressando à casa-mãe: nela convergiam, como antigamente, os mais diversos e adversos grupos convivenciais, cada um para seu lado (em quantas ocasiões António Sérgio se cruzaria com o seu feroz antagonista Alfredo Pimenta! De ambos, por sinal, guardo boa lembrança). Acrescente-se que a Livraria Portugália, no limiar dos anos 40, distribuía, por vezes lançava (Alves Redol, o de maior êxito, e Manuel da Fonseca…) as obras dos novos enquanto prosadores, não se arriscando a editar poetas (que me lembre só o Mário Beirão de Novas Estrelas [1940, Prémio da Academia], o Alfredo Pimenta de Últimos Echos de Um Violino Partido [1941], o João Saraiva de Sol-Posto [1942])… Das novas gerações, designadamente a dos Cadernos de Poesia (Cinatti, Kim, o próprio Sena de Perseguição), da neorrealista (Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940), e da de Eugénio de Andrade (Adolescente, 1942; As Mães e os Frutos, 1948), a casa era simplesmente depositária ou distribuidora, e sê-lo-ia, já Portugália Editora, da estreia de Sebastião da Gama (Serra-Mãi, 1945). Assim prosseguiria, salvo raras exceções, até 1961, quando a Editora propriamente dita, então literariamente orientada por Augusto da Costa Dias (após efémera passagem, nela, de Jorge de Sena), criou a coleção “Poetas de hoje”, com predomínio neorrealista (ouvi, um dia, Joaquim Namorado, que por acaso não chegou a ser incluído na coleção, lamentar, receoso, ao seu camarada ideológico, a inclusão, na mesma, de Saúl Dias, Cabral do Nascimento…). Dos “Poetas de hoje” saíram 39 volumes até 1972 (último, de José Augusto Seabra: Tempo Táctil). O nº. 33 foi, precisamente, de Jorge de Sena (Peregrinatio ad Loca Infecta, 1969). Também da iniciativa de Costa Dias, a série dos “Novos”, que revelou ou reafirmou jovens poetas, dramaturgos, contistas, romancistas – Fiama, Gastão Cruz, Casimiro de Brito, Luiza Neto Jorge, José Augusto Seabra, César Pratas, Herberto Helder (Os Passos em Volta), Almeida Faria (Rumor Branco), Almeida Faria, António Rebordão Navarro, Ivette K. Centeno, Baptista-Bastos…

Anteriormente, e já propriedade exclusiva de Agostinho Fernandes, que nos anos 20 financiara a revista Contemporânea, a Editora convidara Jorge de Sena a organizar a 3ª. série da magna antologia Líricas Portuguesas (1958). Passados tempos, e ascendendo ele, no exílio em São Paulo (Brasil), a professor catedrático, a casa editou-lhe imponentes estudos camonianos (Uma Canção de Camões, 1966…), os contos de Novas Andanças do Demónio (id.), exaustivos prefácios-ensaios, e, a exemplo do que já Gaspar Simões fizera em relação ao amigo no limiar dos anos 40, traduções de célebres autores ingleses e americanos.

De tal operosidade intelectual, verdadeiramente assombrosa, e com o autor vivendo, a partir de finais de 59, no estrangeiro, resultou que a correspondência entre o escritor e o “secretário” da Portugália – editora que, de resto, não poderia absorver-lhe a torrencial produção – fosse crescendo sempre. Do material epistolográfico seniano a mim dirigido e que, nas múltiplas andanças domiciliárias em Lisboa, me foi possível guardar, há um total de 135 documentos (datados de outubro de 1943 a 23 de setembro de 1977) na Biblioteca Nacional-Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, desde dezembro de 1981, quando o saudoso João Palma-Ferreira dirigia aquela instituição.

Mas, para além de motivações editoriais de ordem bibliográfica ou, digamos, prática, Jorge de Sena manteria até morrer, a 4 de junho de 1978, generosa estima pessoal ao camarada obscuro: facto que se comprova não só na correspondência, ou nos sucessivos encontros em Lisboa, também em dedicatórias nos livros que ia publicando, a partir da sua estreia poemática, Perseguição (Ed. Cadernos de Poesia, 1942). É certo que algumas, raras, intermitências houve em tais ofertas senianas, talvez devidas, as lacunas, ao abismo cultural entre nós e que me levava a, com a audácia dos tímidos, não calar a primária dificuldade em seguir-lhe os voos, no verso e na prosa[2]. Lembro-me de, provavelmente no seu primeiro retorno a Lisboa (dezembro de 1968), lhe ter falado nisso e, a propósito da fase inicial da sua obra, jamais renegada aliás, ele me responder, tolerante: “Não me admira que você não compreendesse. Eu queria ser surrealista … “. Noutro encontro, a uma vaga objecção quanto a um seu texto juvenil, volveu-me: “Mas eu já existia nessa altura?!”

Enganoso seria, porém, pressupor “humildade” (!) em quem não escondia a exacerbada consciência de seus altíssimos méritos. Quando muito, haveria nele uma risonha autocrítica, que se depreende destoutra dedicatória, numa separata de Resenhas, da época brasileira: “Ao Luís Amaro, estas sábias ironias sobre o exercício da crítica, doutamente subscritas pelo sempre seu / Jorge de Sena / Araraquara, São Paulo, Brasil / agosto de 1965.

”
Imagine-se a comoção com que recebi, já morto o autor inestimável, o seu derradeiro volume publicado – Régio, Casais, a “presença” e Outros Afins (Porto, Brasília Ed., Out. 1977): “Ao Luís Amaro, infalível e insubstituível, que talvez saiba de algo mais que eu escrevi e esqueci neste livro, com o velho abraço amigo de algumas décadas de / Jorge de Sena / St. Barbara, Março 78.

Não valerá a pena anotar que o elogio incidia no meu inalterável “devotamento” presencista, de que, julgo, dei algumas provas. As restantes palavras são como que uma despedida, um adeus final e corajoso, em letra firme e lúcida, a breves e fatais semanas de nos deixar.

Ele era, antes de tudo, e a coincidir com o ser complexo e exigente, não raro contraditório e explosivo porque incompreendido na sua altitude – um afetivo, leal às antigas amizades, solidário nos momentos sombrios daqueles que estimava. Virtudes que não excluem o implacável espírito crítico, o irritado melindre, a desenganada reserva quanto às relações literárias (mas quantas exceçõesabria também!), a causticidade ora oportuna ora injusta; ou, ainda, a humaníssima falibilidade. Facetas, elas todas, que se refletem nas temíveis Dedicácias(ed. póstuma, 1999) ou se desprendem da enorme massa epistolar seniana vinda já a lume e, decerto, na que está inédita ou em vias de publicação. No monumental conjunto, porém, a sua obra espelha uma das mais ricas, multímodas, fascinantes (e perturbantes) individualidades da história literária portuguesa contemporânea e, porque não?, de sempre.

MASSAMÁ, 2007, 2013.

 

banner_luis_amaro

 

Carta de Jorge de Sena a Luís Amaro

Tancos, 25/10/43[3]

 

Meu caro Amaro

 

Recebi a sua carta em que me pede colaboração para a página[4] que V. está prestes a dar à luz. Engana-se redondamente quando supõe que a província me não interessa. A província interessa-me por ela própria, é o caso, e não como extensão da capital, maior palco para a exibição citadina dos talentos literários. E se até aqui nunca colaborei em nada de provinciano (passe o adjetivo), foi apenas porque nunca as circunstâncias me proporcionaram esse poleiro pa. informação. A província, por culpa de quem escreve, tem falta de vista e, portanto, falta de óculos com que a possa corrigir. E depois… , a maior parte das vezes, as lunetas que de boa mente lhe fornecem não lhe assentam no nariz. E digo boa mente, para não me referir ao mais vulgar aspecto da questão: o fornecerem-lhe lentes de cor, que ela usa sem saber que as usa nem os erros de visão que elas provocam.

É tão fácil dizer cobras e lagartos de quem os outros não conhecem! É fácil, cómodo, seguro: e a justiça é assim, quantas vezes também na capital, sacrificada a altos fins. Desconfio sempre dos altos fins que confundem a justiça necessária com a justiça suficiente.

Os originais que me diz ter são, de facto e em princípio, uma garantia de qualidade. Que o J. P. de Andrade[5] lhe tenha dado teatro e não prosa especulativa é coisa para deitar foguetes em louvor do bom senso e bom gosto que, parecia, ele ia perdendo. Quanto ao meu envio urgente, será uma urgência até ao fim da semana, o mais tardar. Não tenho nada e vou tentar escrever depressa e bem, com a melhor boa vontade. Crítica a livro português recente? Ensaio? Não sei ainda. Mas é de lembrar que ando bem fora das novidades e, felizmente, das pugnas…

 

Creia sempre no

Jorge de Sena

 

 

P. S. Comecei a escrever uma prosa; vai mais depressa do q supunha. Mando-lha amanhã ou depois.

 

NOTAS

[1] Remeto o leitor interessado (como eu próprio, afinal…) por estas minudências para a p. 48, nota 1, do catálogo Presença de João Gaspar Simões, “Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento”, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2003. A nota, no meu “Esboço de Uma Bibliografia Crítica, com presença dentro”, diz respeito a um parágrafo da carta de Fernando Pessoa, em 28-VI-30, para Gaspar Simões: “O que vem a ser o conteúdo de dentro de um manifesto, assinado por três dos rapazes vossos amigos e colaboradores, de que me deram um exemplar na Livraria Portugália?” (subl. meu). É lícito deduzir que também Fernando Pessoa frequentava, ao tempo, o “centro intelectual” da Rua do Carmo. Em cuja Livraria funcionara outrora um Gabinete de Leitura de que Florbela Espanca era utente (cf. também o meu texto introdutório do álbum homenageando Agostinho Fernandes […], Lisboa, 2000, p. 11 e passim).

 

[2] Disse que muitas vezes me não era acessível a poesia de Jorge de Sena, de nobre elocução sempre, de início de timbre surrealizante e, a partir de Pedra Filosofal (1950), menos “difícil” embora, dum classicismo cultista porventura afim do de Nemésio (Nem Toda a Noite a Vida), mas dele tão diverso (felizes os leitores que “decifrarem”, na íntegra, a Mensagem pessoana!). E, todavia, dois casos houve em que o ingénuo lírico (eu) e o grande poeta ultramoderno (Sena) talvez se encontrassem, por interpostas vias: intitulam-se os textos “Dádiva” / “Uma pequenina luz”, e “Nada mais quero … ” / “Súplica final”. Será precisa, aqui, a autoflagelação?

 

[3] Com o timbre, riscado, da Companhia Nacional de Navegação / Lisboa. Rigorosamente, a “primeira carta” foi… um bilhete-postal, emitido de “Tancos, 19/10/43″ por “Jorge de Sena / Cadete do C.O.M. / E.P.E. / Tancos”, e do teor seguinte:

 

Caro Amaro

Cá recebi o jornal, e mto. obrigado. Fiquei, assim, bem ciente do que, em tempos, disse. Então de provas nada?

Creia sempre no amigo

Jorge de Sena

 

À distância de tantos anos, não me é possível lembrar de que jornal se tratava. Quanto às provas, seriam da 2.ª edição, revista por Sena a convite de João Gaspar Simões, o fundador literário da Portugália Editora, de Os Melhores Contos Americanos – 1.ª série, com traduções de Fernando Pessoa (dois contos de O. Henry, extraídos da revista Athena, nº. 2, Lisboa, 1924), de Tomaz Kim e de João de Oliveira, nas “Antologias Universais”. A casa em que eu, desde a primeira hora, trabalhava – a referida Portugália Editora, criada em setembro de 1942 sob a gerência de Raul Luís Dias – distinguia-se, na época, por uma atividade intensa, só comparável à da Editorial Inquérito, dirigida, também em Lisboa, por Eduardo Salgueiro, a cuja memória de grande editor ex-poeta devo igualmente preito.

 

[4] As condições em que, sem família na capital, então vivia, por quartos ou pensões, não me possibilitaram o projeto, no semanário Ecos do Sul, de Vila Real de Santo António. Todavia, já tinha assegurado o apoio não só de Jorge de Sena e de João Pedro de Andrade como de Castelo Branco Chaves, Alberto de Serpa, Tomaz Kim, António de Navarro, Manuel do Nascimento e outros com quem privava. Na minha carta-convite, datada de 23-X-43 e cuja cópia me foi gentilmente facultada por Mécia de Sena (ah, prodígios de organização!), traçava eu considerações sobre a pretensa “aridez” cultural da província, tema desenvolvido na resposta do poeta.

 

[5] Sublinho que João Pedro de Andrade (1902-1974), dramaturgo, crítico, ensaísta e novelista, havia posto algumas reservas, naturalmente provindas duma formação cultural autodidática (no superior sentido!), ao seu livro de estreia, Perseguição (cf. Seara Nova, nº. 798, de 28-XI-42), e, mais tarde, à Coroa da Terra, também de poemas (cf. Diário de Lisboa, 19-VI-46). Apesar de ambos se estimarem e admirarem, João Pedro de Andrade, com a isenção que lhe era peculiar, tornaria a não se mostrar incondicional de Sena, agora enquanto autor, este, da peça em verso O Indesejado (António, Rei) (cf. Seara Nova, 05-IV-52; reprod. em Reflexões sobre o Teatro Português, Lisboa, ed. Acontecimento, 2004, pp. 100-107). O dramaturgo respondeu-lhe, na mesma revista, n.º 1252-53, de 31-V-1952, seguido de comentário de J. P. de Andrade (apud J. Fazenda Lourenço e F. G. Williams, Uma Bibliografia Cronológica de Jorge de Sena, Lisboa, I.N.-C.M., 1994, p. 102). Anteriormente, ainda na Seara Nova, nº 1248-49, de 29-III-52, Sena manifestara, ao “retomar sozinho” (?) as “crónicas de teatro que durante tanto tempo […] [partilhara] com J. P. de A.”, “o [seu] apreço pelo crítico honesto – e pelo dramaturgo de mérito […]“; reprod. em Jorge de Sena, Do Teatro em Portugal, Lisboa, Ed. 70, 1989, p. 153. Em 1969, num ensaio acerca de “A Crítica Portuguesa no Século XX”, inclui João Pedro de Andrade, muito justamente, nos críticos “mais abertos [nas hostes neorrealistas] a uma compreensão menos proselítica da literatura”, colocando-o, nesse contexto, a par de Joel Serrão e Mário Sacramento (cf. Estudos de Literatura Portuguesa – III, Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 102).

 

 

De Rita Azevedo Gomes

A cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes, realizadora, entre outros, do premiado filme “A vingança de uma mulher”, tem como próximo projeto cinematográfico a sua leitura pessoal da correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen. É sobre isto que aqui nos fala. 

 

De F.S.S

Disponibilizamos abaixo a entrevista radiofônica ao organizador do volume de Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões, no programa “À volta dos livros“, transmitido dia 28 de junho de 2013. Complementando a entrevista, um depoimento mais pessoal sobre o convívio de F.F.S. com Jorge, Mécia e com suas obras literárias. 

 

 

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

 

Eu estou profundamente grato à Mécia por ter confiado em mim, por me ter dado essa oportunidade extraordinária de editar uma fração tão importante do espólio seniano.

O meu interesse pela obra do Jorge começou por alguma identificação temperamental com ele. Foi o primeiro poeta que me marcou no Liceu, tinha eu uns 15 anos e me puseram seus livros nas mãos. Até hoje eu sei de memória alguns poemas e traduções dos XX Séculos… Mais tarde, professor universitário de Cultura Portuguesa, escolhi e propiciei aos meus alunos poemas senianos com o entusiasmo que se adivinha. Admirei o crítico lúcido do regime saído de 1974, algo que era quase um tabu em Portugal, mas que tinha, infelizmente, precedentes históricos recorrentes, não fosse outro grande lúcido, Fialho de Almeida, ter escrito no rescaldo da revolução republicana: “hemos de convir que afinal o começo deste regime novo cheira diabolicamente ao fim do velho”… Frase que bem poderia ser do Jorge – foi rara a visão, rara a coragem, rara a independência de espírito que ele demonstrou face aos poderes novos, velhos e de sempre.

E a Mécia revelou-se uma personalidade ao nível da do marido – se é que o caso Mécia de Sena não é mesmo mais admirável que o do Jorge. Eu aprendi muito com as edições dela, que considero a Grande Senhora da epistolografia portuguesa e que é autora de cartas admiráveis de humanidade – e até de alguma parte da obra epistolar (e não só…?) que passa por ser do Jorge. Juntos marcaram dois dos meus começos: ele, as primícias da minha vida poética – e ainda hoje a minha poesia me sai bastante à la Jorge de Sena –; ela, os honrosos inícios da editorial. E me comove que a Mécia sempre faça questão de mencionar que se lembra de mim desde os meus 8 anos de idade…
Apesar dos condicionantes que se lhes reconhecem e das dificuldades pelas quais passaram, os dois se ergueram à altura de modelos para qualquer tempo, em qualquer latitude, um Casal à dimensão dessa Obra diferente e necessária, agentes de um tempo novo, de uma possível mentalidade pós-burguesa que afinal não vingou – pois que é uma herança renegada nos tempos atuais de conformismo e de hipocrisia, de moralismo e mesquinhez.

A ambos o meu “Muito Obrigado” e o “Sempre ao Vosso Dispor”.

 

F. S. S.

De Sofia de Sousa Silva

Sofia de Sousa Silva é professora de Literatura Portuguesa na UFRJ e aqui nos expõe algumas considerações sobre a correspondência trocada entre os amigos Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen — autora à qual se dedicou em sua tese de Doutorado. De toda a correspondência editada que tem Jorge de Sena como interlocutor, certamente foi este volume, lançado em 2006, o que alcançou mais sucesso de público e vendas, posto que já se encontra em 3a. edição. 

 

De Luci Ruas

Luci Ruas, professora de Literatura Portuguesa na UFRJ, nos traz de viva-voz seus comentários sobre a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Vergílio Ferreira — autor que exaustivamente estudou em sua tese de Doutorado. A este volume, de 1987, que reúne o carteio dos dois escritores dedicou ensaio que já aqui reproduzimos

 

 

Leia mais:

De Stephen Reckert

1359672815_557463_1359673154_noticia_normal

Grande amigo de Jorge de Sena, incumbiu-se o lusitanista Stephen Reckert de lhe escrever o necrológio para The Times. Marcando o 35º ano de falecimento do escritor, cumprido em 4 de junho de 2013, aqui o transcrevemos (a partir dos Estudos sobre Jorge de Sena, org. Eugénio Lisboa,IN-CM, 1984, p. 490-1).

Norte-americano de nascimento, o Prof. Reckert cursou universidades inglesas e nelas prioritariamente desenvolveu sua profícua atuação acadêmica, vindo a ser titular da Cátedra Camões da Univ. de Londres de 1967 a 1982, quando se jubilou. Renomado estudioso de Gil Vicente, alargou a outros séculos e autores seu olhar crítico, ensejando convites como Pesquisador e Professor Visitante em várias universidades européias, inclusive as portuguesas. Falecido em janeiro de 2013, legou-nos importantes livros e ensaios sobre temas medievais, renascentistas e oitocentistas.

 

JORGE DE SENA

 

A morte de Jorge de Sena, aos 58 anos, priva Portugal do seu mais destacado académico e de um dos melhores poetas modernos. Sena era uma figura de dimensões invulgares: e era-o inconfortavelmente para o «establishment» cultural do seu país, que só lentamente foi reconhecendo a sua estatura, mesmo depois da revolução. A Ordem de Henrique o Navegador e a Grã-Cruz de Santiago no leito de morte ajudaram a corrigir a desatenção inicial, mas a candidatura ao Nobel, lançada imediatamente antes de a doença o atingir, teve a sua origem em Londres, no King’s College, que visitara anualmente nos últimos dez anos. Veio pela última vez à Europa em 1977 para receber o prémio de poesia Etna-Taormina.

Mesmo ocupando simultaneamente duas cátedras na Califórnia, nunca se ajustou à imagem convencional do dirigente académico, e o seu maior êxito erudito foi revelar Camões não como um respeitável monumento nacional, mas como um dos poetas europeus mais complexos e subversivos. Ele próprio um formidável touro no armazém de louça sufocante que foi Portugal durante a maior parte da sua vida, escreveu alguma da poesia de amor mais ultrajantemente explícita da sua língua («não, não pornográfica», explica pacientemente ao censor, «simplesmente obscena»); um punhado de novelas e de contos terão também lugar duradouro na literatura de língua portuguesa. Como engenheiro, Sena fez parte, antes do seu exílio para o Brasil, em 1959, da equipa que planeou a grande ponte sobre o Tejo, em Lisboa.

A força serena de sua mulher e seu suporte intelectual, durante 30 anos, Mécia, amparou-o na sua doença final, contra a qual lutou com a mesma raiva lucidamente sardónica que sempre desferira contra outras indignidades: hipocrisia, estreiteza de vistas, injustiça. Para ela e para os seus nove filhos vão o amor e simpatia dos amigos de quatro continentes para quem uma luz se apagou.

 

(in The Times, 13 de Junho de 1978.)

De Horácio Costa

Poeta, crítico e professor da USP, Horácio Costa é autor de diversos artigos e estudos sobre a poesia de Jorge de Sena, mas também de versos a ele dedicados. E é justamente com um poema que se inicia este seu depoimento, em que o poeta, o professor e o crítico se unem para falar de Sena.

 

De José Augusto Cardoso Bernardes

José Augusto Cardoso Bernardes, Professor Catedrático de Literatura Portuguesa na Universidade de Coimbra, e atual diretor da magnífica Biblioteca joanina, aqui nos traz seu depoimento sobre Jorge de Sena, no qual tanto destaca, com olhar crítico, os estudos camonianos que Sena nos legou, como o romance e o filme Sinais de Fogo — estes também evocados com base em sua particular vivência na Figueira da Foz.

 

 

De Luís Maffei

Ainda no rastro da rememoração de mais um aniversário de Jorge de Sena, o poeta e docente de Literatura Portuguesa na Univ. Federal Fluminense (Niterói, RJ), Luís Maffei, nos traz seu depoimento de leitor fiel e entusiasta das páginas de nosso escritor.

 

De George Monteiro

Já aqui, reproduzimos a crônica “Em Providence, com os minotauros“, de Onésimo Teotónio Almeida, em que é mencionada uma fotografia do que teria sido o último encontro entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões. Publicado o texto e a dita foto, recebemos uma mensagem e uma surpresa: um poema inédito, escrito há alguns anos por George Monteiro, inspirado pela mesma imagem. Originalmente em inglês (apesar do título), apresentamos aqui o poema, gentilmente cedido por seu autor, acompanhado de tradução por ele autorizada. 

 

GM

 

As Aparências Não Iludem

To me he will never be entirely the robust figure
that shows forth in the photographs, for on the one
occasion when I was with him over two or three days,
he was slim and dry, bony and wrung-out, talking about

Pessoa as the predictive avatar of the concocted courier
the British salted in the sea off Spain to mislead the Nazis.
This emaciated, old-before-his-time poet, already sick
with the sickness that would in less than a year put him

in his grave, is the one who (to me) wrote all the poems,
all the stories, the criticism, and (my God!) all the letters.
The man in his last year—gaunt, hollow-cheeked, wearing
the tam that had by then become a bit too-big-for-him—is

to me the one who dated his manuscripts and drafts (but of
course there were no drafts). Here was the essential man,
parboiled and, more, still simmering. See him in the photo
with Gaspar Simões, generals talking war and rumors of war.

Windham, CT August 19, 2010

 

Para mim ele jamais será a figura robusta
que demonstra nas fotografias, pois na única
ocasião em que estive com ele por dois ou três dias,
era magro e seco, ossudo e torcido, falando de

Pessoa como o profético avatar do mensageiro inventado com que
os ingleses salgaram o mar da Espanha para enganar os nazistas.
Este poeta emaciado, velho-antes-da-hora, já doente
com aquilo que o levaria em menos de um ano

ao túmulo, é aquele que (para mim) escreveu todos os poemas,
todos os contos, a crítica, e (meu Deus!) todas as cartas.
O homem em seu último ano – esquálido, de rosto encovado,
vestindo a boina já então um tanto grande demais para ele – é

para mim aquele que datou seus manuscritos e rascunhos (mas,
é claro, não havia rascunhos). Aí estava o homem essencial,
escaldado e, mais, ainda fervendo. Vê-lo numa foto
com Gaspar Simões, generais discutindo a guerra, os rumores da guerra.

(Trad. Luciana Salles)

De Onésimo Teotónio Almeida

Na revista LER de outubro/2012, a crônica-testemunho de Onésimo Teotónio Almeida relembra, com seu habitual bom-humor, o que seria o último encontro de Jorge de Sena e João Gaspar Simões, felizmente efusivo, durante o 1º colóquio internacional sobre Fernando Pessoa, em 1977. E, generosamente, o cronista cede-nos a foto que menciona. A completar o clima de confraternização que desta ressuma, sugerimos a leitura do artigo, com menções pessoanas, que JGS dedica a JS, já depois do falecimento deste. (ver em Jorge de Sena “Estrangeirado”)

 

JSenaJGSimoes.jpg

Arriba-me um e-mail com pedido. Alguém de longe quer dados sobre o relacionamento entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões. Dirige-se-me por saber que estiveram ambos em Providence, no que foi o primeiro colóquio internacional sobre Fernando Pessoa, em outubro de 1977, a última aparição pública de Sena. Procura memorabilia, fotos, se existirem, e estórias. Destas tenho q.b., pois fui motorista e guia deles por estas paragens. Gaspar Simões, já na casa dos oitenta, farto de ouvir o respeitável e supererudito Sena que, ensinando obsessivamente, não dava tréguas aos ouvidos de ninguém ao seu redor, segredou-me ao fim de dois dias: «Já não posso mais! Vamos aí a um centro comercial ver umas moças!»

Íamos a caminho de New Bedford para uma entrevista na rádio portuguesa local, a WJHJ-EM, e eu bem que espreitava uma aberta para explicar «Aqui vive a maior comunidade portuguesa», «Ali em Dighton há um monumento que assinala a suposta primazia lusa», e Sena, ininterrupto, seguia explicando a Simões tudo sobre a literatura da Nova Inglaterra. Eu mencionava New Bedford e ele lembrava Melville, eu Boston e ele Henrv James, eu apontava o verde denso das matas e ele, Henry David Thoreau e o Walden. A Mécia, sua mulher-e-seu-tudo repetia-lhe insistente e suplicante «Jorge cala-te! Não te podes cansar assim tanto e sabes isso muito bem!», e o Jorge sem nunca fazer caso.

Já cá estava Gaspar Simões quando Sena chegou. Levei-o connosco quando, com o George Monteiro e outros colegas, fomos esperá-lo ao aeroporto. Ao encontrar-se com Sena, caíram nos braços um do outro (não se falavam há muito, suponho que por via de uma nicada de Simões em crítica no Diário de Notícias, onde pontificava às quintas-feiras).

O abraço de paz redundou em conversa fiada entre ambos; Sena no controlo perene do verbo na proporção de 10-1 desancando na pátria, e ambos nos ausentes, como só os portugueses sabem fazer porque no estrangeiro caem em amplexos e saltam de imediato a descascar no Retângulo, que amam e odeiam com carinho e devoção. Nós, circunstantes, resignadamente calados à espera de eles perceberem ser tempo de irmos à vida, mas tive de ser eu, malcriado já na altura, a interromper o enleio.

Dei notícia ao meu correspondente internético de termos emoldurada na sala de conferências do Departamento uma foto dos dois em abraço e recebi a reação satisfeita num e-mail, no momento em que ia para a mesa de almoço com um amigo de engenharia, de literatura apenas amador. Não surgiu qualquer razão para lhe falar no caso. No final, ao despedir-me, parou-me porque quase se esquecera de algo. Queria entregar-me uma fotografia. Tinha-a lá em casa há décadas e achava que, se alguém poderia ter interesse nela, seria eu: era do conferencista que abriu o simpósio sobre Pessoa na Brown, precisamente João Gaspar Simões. Agarrei no iPhone e abri-o para lhe mostrar a mensagem que, nem de propósito, acabava de receber a pedir memorabilia. E quando, horas depois, emailei ao George a inquirir se guardara correspondência, reagiu imediatamente, estupefacto, porque ainda naquela mesma manhã, ao preparar uma coletânea de textos para um livro, decidira escrever justamente sobre esse evento.

E para fechar: porque o simpósio pessoano ganhou relevo, o Senado de Rhode Island resolveu declarar «Dia de Fernando Pessoa» o da abertura do dito. Quando telefonaram a perguntar se o Sr. Pessoa já tinha chegado de Portugal, pois gostariam que dirigisse umas palavrinhas ao Senado, ficaram desapontados ao saber da morte do poeta 42 anos antes. Mas não houve problema. A americana, decidiram democraticamente alterar o nome no diploma, declarando aquele dia o João Gaspar Simões Day. Contente, o crítico levou o papiro de souvenir.

Chronicae non fingo, concluo eu a parafrasear Newton, que dizia não inventar hipóteses.

Filmografia: a vida e a ficção senianas levadas às telas

Deixando de lado inúmeros “clips” do Youtube, videos (como “JS reads his poems“) e documentários televisivos (como o da série “Grandes Livros” dedicado ao romance Sinais de Fogo) que já integram os arquivos deste site, listamos abaixo os filmes relativos a Jorge de Sena que ganharam os ecrãs de cinemas ou cinematecas. Sem dúvida, um saldo muito positivo na abordagem audiovisual do autor e de sua obra — variados testemunhos expressos na linguagem da sétima arte.

 

SINAIS DE VIDA

Sinopse: Interessado pela obra de Jorge de Sena, Luís Filipe Rocha dedica dois anos (1982-1984) à preparação de Sinais de Vida — Breve Sumário da Vida e da Obra de Jorge de Sena, uma viagem pelos temas da obra do autor, nas áreas da poesia, da ficção e do teatro.

Ficha Técnica:
Realização: Luís Filipe Rocha
Roteiro: Luís Filipe Rocha
Produtor: Henrique Espírito Santo
Fotografia: João Abel Aboim
Edição: Ana Luísa Guimarães e Luís Filipe Rocha
Som: Carlos Alberto Lopes
Ano: 1984
Gênero: Documentário
Duração: 75’

Participações:
Luís Miguel Cintra
Clara Joana
Costa Ferreira
Lucinda Loureiro
José Wallenstein
São José Lapa
Pedro Wilson
Tiago Henriques
Mécia de Sena

 

OS SALTEADORES

Sinopse: Dentro de um carro, numa viajem à noite ao longo da costa portuguesa, nos anos 50, ouve-se uma discussão sobre a identidade de um grupo de homens, capturados e mortos há alguns anos no decorrer da guerra civil espanhola. (Abaixo integralmente reproduzido)

Ficha Técnica:
Realização: Abi Feijó
Roteiro: Abi Feijó, Sérgio Andrade
Produtor: Jorge Neves, Filmógrafo
Fotografia: Martin Koscielniak, Pedro Serrazina
Música: Tentúgal
Animação: Filmógrafo
Técnica de animação: desenho em grafite
Ano: 1993
Gênero: Animação (Curta-metragem)
Duração: 14’

Vozes:
António Paulos
João Paulo Seara Cardoso
Jorge Mota
Raul Constante Pereira

 


SINAIS DE FOGO

Sinopse: Portugal, Julho 1936. A ditadura de Salazar está consolidada e controla totalmente o país.Um grupo de adolescentes passa as suas férias de Verão na Figueira da Foz. Do outro lado da fronteira começou aGuerra Civil da Espanha e, apesar da distância, a sua violência vai repercutir-se na vida destes jovens, lançados num turbilhão de intrigas políticas e paixões desencontradas que marcará tragicamente a sua passagem à idade adulta.

Ficha Técnica:
Realização: Luís Filipe Rocha
Argumento: Luís Filipe Rocha e Izaías Almada
Produtor: Tino Navarro
Música: Enrique X. Macías
Ano: 1995
Género: Romance, Drama
Duração: 101’

Elenco:
Diogo Infante (Jorge)
Ruth Gabriel (Mercedes)
Marcantonio Del Carlo (Ramos)
José Airosa (Rodrigues)
Rogério Samora (Almeida)
Henrique Viana (Tio)
Caroline Berg (Tia)
Manuel Pereiro (D. Juan)
Alberto Arizaga (D. Fernando)
Joaquim Leitão (Oficial do Partido)
Álvaro Correia (Matos)
Mário Redondo (Macedo)
Miguel Assis (Rufininho)
Glicínia Quartin (Mãe da Tia)
Cristina Carvalhal (Criada)

 

ERROS MEUS

Sinopse: Camões, na velhice, é um homem doente, sifilítico, praticamente incapaz de se movimentar, de tomar conta de si próprio, de suportar as dores que o achacam (é a mãe que cuida dele). Sofre da nostalgia da sua juventude e da debilidade física em que se encontra. Constantemente atormentado pelos credores, por gente que lhe encomenda trabalhos de que nem sempre gosta, mas que tem de aceitar por subsistência, perseguído pela loquacidade desconcertante da mãe, pela doença, pela recordação das venturas e deboches do passado, suporta e cala. Mas quando se encontra sozinho no silencio da noite, há uma voz sobrenatural que fala de dentro dele e dita imperiosamente. Adaptação do conto “Super flumina babylonis”, de Jorge de Sena.

Ficha Técnica:
Realização: Jorge Cramez
Argumento: Jorge Cramez
Fotografia: Mario Masini
Som: Pedro Melo e Branko Neskov
Edição: Pedro Marques
Ano: 2000
Género: Curta-metragem
Duração: 12’

Elenco:
Luís Miguel Cintra (Camões)
Isabel Ruth (Mãe)

 

O ESCRITOR PRODIGIOSO

Sinopse: Um documentário sobre o escritor português Jorge de Sena. Pela voz da sua mulher, Mécia de Sena, e na sua casa em Santa Bárbara, Califórnia, Estados Unidos da América, vai cruzar-se a sua vida de escritor, pai de família, professor e português exilado, com a obra que deixou, com as memórias do tempo em que viveu, memórias social, política, literária e familiar.
“O Escritor Prodigioso” é a procura de Jorge de Sena, um dos mais importantes poetas portugueses, trinta anos após a sua morte. Com este filme a realizadora busca os motivos pelos quais a voz do poeta nos chega, ainda hoje, forte, amargurada, afirmativa e de uma intensidade lírica única. Coma ajuda da sua mulher, Mécia, e de alguns dos seus amigos e companheiros políticos e literários, somos levados a perceber as razões pelas quais este poeta maior foi mal amado pelo seu país, sendo embora respeitado e temido.

Ficha Técnica:
Realização: Joana Pontes
Produção: Laranja Azul
Ano: 2005
Gênero: Documentário
Duração: 62’

Participações:
Mécia de Sena
Fernando Lemos
Helder Macedo
José Saraamgo
José Augusto França
Eduardo Lourenço
João Bénard da Costa

De António Carlos Cortez

 

* Professor de Literatura Portuguesa, crítico e ensaísta, é colaborador permanente, com crítica de poesia, no Jornal de Letras, nas revistas Colóquio-Letras (Fundação Calouste Gulbenkian), Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava), Agio (Ed. Artefacto), Pessoa – revista da Casa Fernando Pessoa e Letras Convida – revista de artes, literatura e cultura do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador pelo mesmo centro, CLEPUL, e do Instituto de Estudos do Modernismo, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Publicou cinco livros de poesia – Ritos de Passagem, 1999; Um Barco no Rio, 2002; A Sombra no Limite, 2004; À Flor da Pele, 2008 e em 2010, Depois de Dezembro (Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores / RTP – melhor livro de poesia de 2010). Em 2005 publicou Nos Passos da Poesia – estudos sobre a pedagogia do texto lírico. É conselheiro para a leitura do Clube UNESCO, em Portugal. Prepara doutoramento em Estudos Portugueses – poesia contemporânea (sobre a poesia de Gastão Cruz).

De Ana Luisa Amaral

Ana Luisa Amaral, poetisa e professora da Universidade do Porto, reaparece em nosso site — agora com o seu testemunho de especial leitora crítica e criativa de Jorge de Sena. Sendo uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa contemporânea, debruça-se sobre nosso autor e, vincando sua dicção feminina, o recria em seus belos versos.

 

De Carlos Drummond de Andrade

Na exemplar crônica-necrológio “Jorge de Sena, também brasileiro”, o poeta de Claro Enigma recorda Sena e sua passagem pelo Brasil.

Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade encontraram-se algumas vezes no Brasil, solidificando uma amizade que se iniciara epistolograficamente. Como prova de inquestionável admiração, também perceptível nos textos críticos que lhe dedicou, o poeta português chegou mesmo a agir, debalde, em prol de uma indicação do poeta mineiro ao Nobel. Com o comedimento que lhe é peculiar, Drummond deixa claro neste necrológio, além de seu grande apreço pelo confrade, um sentido de perda que largamente ultrapassa a esfera das relações pessoais.

 

 JORGE DE SENA, TAMBÉM BRASILEIRO.

«Morreu um dos raros portugueses universais do nosso tempo» — disse em Lisboa o poeta Eugénio de Andrade, ao comentar o falecimento de Jorge de Sena em hospital de Santa Bárbara, na Califórnia. E disse bem, mas poderia chamar-lhe igualmente «um dos raros brasileiros universais do nosso tempo». Porque Jorge de Sena tinha duas nacionalidades. Nascido em Lisboa, e formado culturalmente na Europa, tornou-se cidadão brasileiro por força da áspera condição que a ditadura salazarista impunha aos intelectuais não submissos, e aqui leccionou em cursos universitários. Como certa vez eu o declarasse brasileiro pelo sentimento, corrigiu-me em carta de 1972:

«Olhe que não sou brasileiro apenas pelo sentimento. Sou cidadão brasileiro desde 1963 (naturalização requerida em 1962, e que só saiu em princípios do março de 1965, por se não saber em Brasília, nas confusões da época, parlamentarismo, etc., quem assinava o decreto… que foi ainda o Goulart quem assinou e que está depositado em Araraquara, aonde a recebi), nacionalidade que mantenho, passaporte que possuo. O que no Brasil nunca foi muito público, por não se acreditar na nacionalização brasileira de portugueses que não sejam o padeiro da esquina. Por isso é que sempre me apresento como escritor português, cidadão brasileiro e professor norte-americano. Mas as minhas lealdades não são triplas e sim duplas, no que não vejo incompatibilidade alguma (para lá do respeito que devo às instituições do país que me emprega e onde vivo). No plano cultural e de amor aos países (amor bastante infeliz, porque a luso-brasilidade é uma raça danada), já que no plano político não a devo tecnicamente a Portugal. Este é que me deve a mim.»

Esta situação curiosa, quer civil quer psicológica, mostra como os regimes políticos de excepção podem influir no destino das pessoas jogando-as à mercê dos ventos num mundo gerido por fórmulas burocráticas e incompatibilidades políticas. Jorge de Sena acabou sendo um exilado profissional, buscando aqui e ah elementos de vida e de estudo. Foi fiel à culturalidade portuguesa, e seus ensaios sobre Camões, Fernando Pessoa, a pintura, a música, a filosofia do país natal, comprovam a permanência de suas raízes, entrelaçadas com um pensamento supranacional que justifica o juízo de Eugénio de Andrade: Jorge foi mesmo um espírito universal, completamente livre de pressões e interesses de grupo literário, magisterial, classista ou nacionalista. Seu feitio áspero, polémico, atingindo a agressividade, o terá ajudado no exercício da independência, traço distintivo de sua vida de intelectual rebelde.

Havia muitos «eus» pensantes e sentintes em Jorge de Sena professor, poeta, contista, crítico literário e de artes plásticas, dramaturgo, historiógrafo, ensaísta… homem pulsante, inquieto, brigão, generoso, buscando conciliar pensamento e sensibilidade numa poesia que, ao beirar inicialmente o surrealismo, alcançou a criação verbal destituída de apoio etimológico e semântico, em proveito da livre sugestividade. Isto sem perder de vista as potencialidades de sarcasmo, sátira e revolta do verso. Há composições suas que parecem escritas em estado de fúria, em protesto contra a mediocridade, a burrice, a hipocrisia, a injustiça, mas ainda nelas observo menos um panfletário em verso do que um ser ferido pelos desregramentos do mundo, um ser que não se adapta e sofre com a falta de autenticidade das fórmulas e dos homens.

(Jornal do Brasil,  Caderno B, quinta-feira, 8 de Junho de 1978 - pág. 5) CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA
(Jornal do Brasil, Caderno B, quinta-feira, 8 de Junho de 1978 – pág. 5) | CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA

Faltou a Jorge de Sena uma pátria constante e receptiva, que agasalhasse o seu destino de intelectual e erudito a serviço exclusivo do espírito. Teve de procurar outra e mais outra, afirmando-se, porém, mas ao mesmo tempo mutilando-se na aventura de errar pelo mundo, servir-se de bibliotecas alheias, ter um pouso de ocasião em vez da morada estável que é hoje impossível para tantos escritores e sábios. Teve assim a sorte de espanhóis, russos, latino-americanos, inclusive brasileiros, e de muitos outros países, a quem a intolerância mudou ou truncou o programa de vida. Não se deixou vencer, mas pagou alto o direito de amar a liberdade da inteligência, preservando a consciência crítica. Imagino, entretanto, que nenhum «cidadão do mundo» se console realmente de, por uma ou outra razão, lhe haver faltado a consonância por assim dizer musical entre sua vida e sua terra de nascimento. Haverá muitas maneiras de superar o desencontro, mas resta sempre a tristeza de nos haverem roubado alguma coisa de inalienável. Mas Jorge de Sena foi, durante anos, exilado mesmo em Portugal. Esta a vida que lhe tocou viver, mas que ele encheu com as ocupações do magistério errante, de análise e da invenção literária e com o sarcasmo, o ácido penetrante de sua poesia, explodindo em revolta contra as mentiras do nosso tempo.

Não soubemos conservá-lo conosco, nem sequer chegamos a conhecê-lo na plenitude de seu espírito. Foi um professor que passou pelo Brasil, de 1959 a 1965. Mas que sonhou em dar ao Brasil, através da língua portuguesa, uma situação de prestígio na literatura mundial. Se não o conseguiu, não foi por omissão. Merece a nossa lembrança, embora tardia.

 

De Francisco Cota Fagundes

 

Francisco Cota Fagundes, Professor do Department of Languages, Literatures & Cultures — Spanish and Portuguese, na University of Massachusetts, Amherst, é, de longa data, um estudioso da obra de Jorge de Sena, tendo contribuído com numerosos e conhecidos títulos para a fortuna crítica do autor. Simultaneamente, tem promovido a expansão dos estudos senianos nos USA, quer através dos cursos, teses e dissertações acadêmicas sob sua orientação, quer através dos colóquios e publicações que organizou. Muito gentilmente, aqui nos traz seu testemunho sobre essa já larga convivência com o nosso autor prodigioso.

 

De Mécia de Sena

Os últimos momentos de Jorge de Sena, segundo sua viúva. O dorido relato de quem testemunhou o fim irremediável daquele a quem devotara a vida.

OS ÚLTIMOS MOMENTOS DE JORGE DE SENA

A noite foi horrível de sofrimento. Pelas seis da manhã telefonei para casa dizendo que era melhor que fossem. A vida fugia-lhe em cada minuto mas crescia a impaciência, a agitação. Agarrava-me constantemente pedindo-me ajuda ou levantava as mãos para mas colocar na minha cara onde às vezes nem forças tinha para chegar – as mãos descaíam-lhe antes de me tocar. A certa altura disse-me com ternura infinita: “Oh my little… little… little flower…

Os pequenos foram chegando. Ia-os reconhecendo. Quando todos estavam à volta da cama, agarrando-me mais uma vez, perguntou: “So many people… Am I dying?” Disse-lhe que era domingo, todos tinham vindo visitá-lo e, perguntando-lhe se os conhecia foi dizendo o nome de todos até que os olhos se lhe fecharam, ou a distância lhos não permitia reconhecer. Pelas nove horas o sofrimento e a agitação dele eram aflitivos apesar de o pulso se não sentir – o coração, esse sim, via-se pulsar, fortemente. Mandei chamar o médico para que lhe desse algo que lhe minorasse o sofrimento. Demorou e veio a besta-médica que nos olhava como se fôssemos todos pestilentos. Examinou-o brevemente e veio a enfermeira com uma injecção que pouco o acalmou – falava e gesticulava permanentemente, buscando as nossas mãos e depois claramente indicando que lhe incomodavam os tubos, pedia-me que o despisse – undress me.

Pelas dez horas mandei de novo chamar o médico – não podia mais vê-lo sofrer e ordenei que se lhe tirassem todos os tubos e remédios inúteis senão para lhe aumentar o sofrimento. Voltou o animal – já não se sentia o pulso nem quase acusava tensão arterial mas ainda se agitava e falava e ainda, vendo entrar o Panikar, lhe falou em espanhol. O Pedro não suportara mais – tinha que fazer no trabalho… A Mariana acocorara-se no chão. Deram-lhe outra injecção.

O Jorge entrou numa espécie de modorra. Gesticulava ainda uma vez por outra mais fracamente, balbuciava mas nada se ouvia até que comecei a ver-lhe voltar aquela sinistra cor esverdeada que já lhe vira duas vezes e um rictus incrível lhe baixou o lábio do lado esquerdo – vi uma mão que se estendia por sobre cabeças com um Cristo pequeno, de madeira. Coloquei-lho ao lado da cabeça. O P. Huerta tirou-lhe do dedo as alianças e pô-las na minha mão que tinha acabado de fechar-lhe os olhos – a minha vida, essa, foi contigo naquela atmosfera de total suspensão pesada e silenciosa.

De José Saramago

Profundamente emocionado morte Jorge partilho sofrimento família e tristeza do país inteiro” — eis as palavras do telegrama que Eduardo Lourenço enviou de Vence a Mécia ao saber do falecimento do amigo Jorge de Sena, aos 59 anos de idade, na Califórnia. O passamento ocupou o noticiário dos periódicos e várias crônicas-necrológios foram assinadas por significativos nomes da cultura em língua portuguesa, dentre os quais Carlos Drummond de Andrade, Vergílio Ferreira, José-Augusto França. Também José Saramago se deteve nessa morte, mas em texto que nega ser um necrológio, publicado no Diário de Lisboa, a 12 de junho de 1978, a seguir transcrito. Nele, evoca principalmente o Sena epistológrafo, o “possesso” no “Discurso da Guarda” e, acima de tudo, o “Português e desprezado”.

 

José Saramago

 

Como se sabe, José Saramago, pela Fundação que leva seu nome, promoveu a 10 de julho de 2008, uma concorrida sessão de homenagem a Jorge de Sena no Teatro Nacional de São Carlos, com o título de “Um regresso”. Dela, participaram como oradores, dentre outros, Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva e o então ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, além do próprio Saramago. Este frisou: “Ele amava com desespero a sua pátria. Sentia como poucos o significado do desencontro entre um cidadão e a sua pátria“. Sem dúvida, a homenagem serviu de forte estímulo à trasladação dos restos mortais do escritor para Portugal, consumada no ano seguinte (ver http://fundjosesaramago.blogspot.com.br/2008/07/o-reencontro-de-jos-saramago-com-jorge.html).

 
Também conheci Jorge de Sena. Não muito bem (se alguém se pode gabar de tal), mas por aquela via que talvez dê para conhecer melhor: as cartas. Contadas, foram pouquíssimas as falas que trocámos. Escritas, são larguíssimas dezenas (ou centenas?) as páginas que de um lado e do outro se escreveram. Eram elas de razão editorial, mas quem alguma vez recebeu carta de Jorge de Sena, sabe que nela sempre esteve, além do motivo imediato que a justificasse, um outro motivo que em todas obsessivamente se exprimia: o autor delas. Diz-se que Jorge de Sena era vaidoso, egocêntrico, parece mesmo que megalómano. Talvez fosse tudo isso e muito mais, talvez concentrasse em si quanto de defeitos a espécie humana tem vindo a coleccionar: seria uma outra singular forma de grandeza. Mas Jorge de Sena usava o admirável impudor de não poupar precisamente as palavras que mais riscos comportassem. E, pelo que julgo saber, nunca Jorge de Sena terá sido tão franco, tão brutalmente afrontador, como nas cartas que escreveu. Se algum dia se publicar a correspondência de Sena, receio bem que metade da catedral literária portuguesa vá pelos ares. E se é de revulsivos desses que estamos a precisar, temos a medicina à mão.

Este artigo não é um necrológio, muito menos um elogio fúnebre. Há evidente indecência no habitual derramar de louvores e lamúrias quando morre alguém que justamente foi para o outro mundo com a boca amarga de repugnância por incensadores póstumos e carpideiras. A morte de Jorge de Sena é uma vergonha para Portugal. Não foi português o cancro que o matou, mas é portuguesa a indiferença que torna as mortes mais dolorosas. Não sei que últimas palavras foram as de Jorge de Sena, se teve tempo e paciência de as ditar para a história, se não preferiu o desprezo do silêncio precisamente para calar palavras de desprezo. Se uma carta pudesse ter escrito, estou que não seria uma carta, mas um rugido. Mas Portugal é um país de surdos, depois de ter sido um país de mudos.

Revejo Jorge de Sena, exactamente há um ano, acompanho na televisão o seu gesto de provocação desesperada, a imprecação lançada contra os ouvidos rolhados dos espectadores de perto e de longe, e pergunto a mim mesmo quantos Jorges de Sena precisarão ainda de morrer para que enfim esta terra comece a valer pelo que saiba e cultive, e não pelo que de si mesmos cuidam os atletas da mediocridade nacional que foram e desgraçadamente continuam a ser os que em nosso nome falam. Na Guarda, Jorge de Sena tocava a rebate, possesso, quase patético, algumas vezes (que importância tem isso?) roçando o ridículo para melhor insultar o corte que o ouvia. E, feito o seu número, tendo dito muito mais do que se lhe pedira, tendo posto diante de um País inteiro a sua profunda ferida (sua, de ambos), foi-se ao que lhe restava de vida, um brevíssimo ano, para continuar o que sempre fizera: escrever. Se algum dos portugueses de agora encarnou dramaticamento a dignidade de ser escritor, esse foi Jorge de Sena. lsso que Jorge de Sena soube ser melhor do que ninguém, e não falando agora no que a sua obra representa, é provavelmente a grande lição quo aos escritores portugueses conviria aprender. Ou não mereceremos sequer o pão que comemos.

Em geral, quando morre um escritor, um artista, a benevolência colectiva acode a pedir que se esqueça o homem e se fale da obra, vem isso da velha impregnação cristã do perdão dos pecados, e do pequenino orgulho de nos julgarmos cada um de nós senhores desse perdão, só porque continuamos vivos. No caso de Jorge de Sena, prefiro não esquecer o homem que mal conheci. Prefiro reflectir sobre os seus defeitos de carácter, apurar razões que não se dêem por satisfeitas com as banais (mesmo que rigorosas) explicações que a psicanálise dá. E ver se são defeitos. Ver se não se trataria antes de uma hipertrofiada consciência do valor do homem, da inteligência do homem, da acção transformadora do homem. E concluir, enfim, se este patriarcal país, se esta pastosa e desvertebrada classe intelectual (em sentido lato) que do país melhor ou pior se vai servindo, não estará antes precisando de adquirir urgentemente alguns dos defeitos de Jorge de Sena. Se não formos capazes de lhe continuar a obra, ao menos prolonguemos o homem.

Têm agora a palavra os críticos, os historiadores, os que decompõem e recompõem. Por mim, que não chego a tanto, tirarei da obra de Jorge de Sena o que for capaz de receber e manterei os ouvidos bem abertos à sua furiosa voz, à sua cáustica insolência, ao seu infinito gemido de ser Português e desprezado.

(in Diário de Lisboa, Lisboa, 12 de Junho de 1978.)

De Nea de Castro

Tão logo lançamos na web o site “Ler Jorge de Sena”, recebemos, dentre as muitas mensagens, este conciso depoimento, que, por todos os motivos, não podíamos deixar de transcrever…

 

O dia em que ouvi Jorge de Sena

Não lembro quando foi exatamente, nem onde…
Jorge de Sena dava uma palestra e lá estava eu, ainda muito jovem…
O que ficou, isso sim muito nítido, é que foi um grande impacto.
Eu já era leitora dedicada da literatura portuguesa: Eça de Queirós meu romancista predileto; e lia com amor os poetas da pátria de Sena.
Saí dali impactada tanto pelo intelectual, o pensador da literatura, como por ser Jorge de Sena um homem da resistência.
Em Portugal, e aqui também no Brasil, havia governos de exceção…
Não me lembro do assunto exatamente, mas sim da força que emanava dele.
Não era um local muito grande, e havia muita gente… é uma memória embaçada, mas vejo gente em volta dele, ele fala… e há, em tudo, respeito e admiração.
Na minha memória, é como uma reverência de todos nós que estamos ali, vendo-o de perto, ouvindo-o.

 

Jorge de Sena quando estudante de Engenharia visto por um amigo

Amigo de Jorge de Sena desde os tempos da juventude no Porto, João Alves deixou registradas em seu testemunho as impressões que teve do jovem poeta que frequentava as tertúlias literárias nos intervalos dos estudos de engenharia. Reproduzimos a seguir o depoimento, publicado originalmente no “Dossier Jorge de Sena” organizado por Luis Adriano Carlos para o Jornal Letras & Letras em 1988, seguido de nota de Mécia de Sena.

 

Conheci Jorge de Sena por 1940, no Porto, quando ele aí frequentava a Faculdade de Engenharia.

Teve lugar a apresentação na Livraria Tavares Martins, ao fundo da Rua dos Clérigos, esquerda de quem desce, Porto, livraria que tora sempre e era frequentada, em termos de tertúlia, por vários intelectuais, e assim, por épocas: Visconde de Vila-Moura, Gomes Teixeira, Mendes Correia, Antero de Figueiredo, Januário Leite; — Teixeira Rego, José Marinho; — Alberto de Serpa, Jorge de Sena, Abreu e Souza (escritor teatral).

Foi Alberto de Serpa quem nos apresentou.

Alberto, no seu hábito de chão humorismo, frequentemente designava Jorge de Sena às pessoas de convívio por «o meu amigo bonito».

Uma vez por outra endereçava este epíteto, relativo ao Jorge, à empregada da caixa da livraria, no intuito, creio, de jocosamente meter em apuros quer a compostura profissional dela, quer a verdura juvenil dele, mas não conseguia abalar qualquer desses redutos.

Travado esse conhecimento, passei a tratar com o Jorge, tanto na dita livraria, como em encontros eventuais de rua e cafés.

Daqueles, ocorre-me um no jardim da Rotunda da Boavista, por onde ele, residente num quarto da Rua de Cedofeita, ia espalhar os seus pesos de vésperas de actos universitários (exames); dos outros, alguns no extinto Café Palladium, ângulo sul-poente do cruzamento das ruas Santa Catarina e Passos Manuel, Porto.

Entretanto, ele tinha já pronto para imprimir o livro de poemas Perseguição.

Mas, sujeito à escassez pecuniária com que as famílias costumam formar o senso admi-nistrativo dos seus rebentos, faltavam-lhe posses para enfrentar o então maior dos encargos, que era o do papel.

E que ao tempo já decorria a Guerra Mundial e por isso faltava no mercado o papel de impressão, que, quando escassamente obtido, ficava por peso de ouro.

Quando eu soube da contingência, disse-lhe com aquela maravilhosa transparência que distingue, além do mais, os jovens dos seres humanos similares dos crocodilos velhos.

— Ó Jorge, não se preocupe, eu resolvo-lhe essa dificuldade.

Ele teve uma vertigem de grata emoção.

E, para o convencer da probidade da minha oferta, logo o levei à minha casa, a de meus pais, rua do Paraíso, 49, Porto.

Chegados, descemos à cave onde ele me viu abrir uma grande caixa de pinho, tão maravilhado como quem vê abrir o cofre do tesouro dos contos de piratas: dentro estava um bem farto lote de papel de imnressão da melhor qualidade, que, por contingências, eu possuía.

Logo ali o declarei dono desse pequeno tesouro, a troco duma insignificância em dinheiro, que, para salvaguarda do brio dele, logo fixámos.

E, logo no dia seguinte, antes que houvesse algum terramoto ou cataclismo equiparável, eis Jorge a aparecer em minha casa e a levar em táxi as resmas de papel que o acaso tivera longo tempo à espera dele.

Dos percalços da época académica de Jorge no Porto ocorre-me um, que define dois temperamentos e não chega a desonrar qualquer deles.

Pedro Homem de Melo, que nunca fez rebuço da sua conhecida exuberância e que não podia ter deixado de entrar em convívio com o Jorge, desafiou este para uma castiça digressão pelo Minho, ao que o desafiado anuiu sofregamente, exilado, como era, no severo burgo portuense, além de solitário mancebo ávido de quanto pudesse animar o seu melancólico giro diário de discente.

Partiram de comboio e foram, que, esperando, era inverno, são, descendo em várias estações da linha do Minho, para escala da respectiva povoação, onde Homem de Melo quase sempre se separava do companheiro e tempo depois reaparecia a contar a maravilhosa recepção que lhe fora feita por senhoras e castelãs da sua privança, assim como, cerimónia que nunca fez de clamar as suas sensações, a descrever minuciosamente as requintadas iguarias que lhe haviam sido servidas em pala-ciano ágape.

O Jorge, que pelo tom do desafio inicial ficara a entrever um apoio de amigáveis confortos à sua magra bolsa de estudante e que, esperando, era Inverno, ficara sobre o famélico a tiritar na solitude do seu quarto, mordia os lábios raivosamente e fazia íntimos propósitos de sangrenta vingança.
Regressados ao Porto, berrava de punhos cerrados, expressionistamente:

— Eu mato-o! Eu mato-o!

Mas não matou, claro.

Aliás — Homem de Melo não mereceria ser morto por isso.

Mas quadrava-lhe muito bem ser executado em efígie.

Porto, 4 de Setembro de 1983

 

Nota — Esta saborosa rememoração continha, na sua versão original, dois pequenos erros de facto, tão naturais de quem lembra do passado, neste caso mais de quarenta anos depois, que me permiti corrigir, para evitar confusões futuras. Eram eles os seguintes. Referindo-se o Dr. João Alves [Gomes dos Santos] ao ano em que conhecera Jorge de Sena, apontava para 1938, data em que este estava ainda a frequentar a Faculdade de Ciências de Lisboa. A sua ida para o Porto deu-se em fins de Outubro de 1940.

E, referindo-se ao papel salvador, dizia destinar-se ele a Coroa da Terra, livro que só foi publicado em 1946, quando Jorge de Sena estava já regressado a Lisboa, com o curso concluído em Novembro de 1944.

Se alguma dúvida, no entanto, pudesse subsistir, teria uma carta dirigida a José Blanc de Portugal, datada de 8/11/42, cujo passo esclarecedor transcrevo: «Como V. sabe a publicação do meu livro nasceu da oferta do papel a um preço de mais que amigo pelo João Alves (conhece-o?) e de, em face dessa oferta, o [Thomas] Kim e o Ruy [Cinatti], com uma dedicação que nunca esquecerei, me terem prometido o empréstimo «sine die» de 250$00 cada».

Está, pois, fora de causa que se tratava de Perseguição, publicada em fins de Agosto desse ano, e onde há um poema dedicado a João Alves («Ascenção») e até a completar indicação da exacta quantia da amiga e providencial transacção.

Quanto ao episódio da «secretária da caixa», sem dúvida que era aivo de gracejo deles, uma vez que Alberto de Serpa também se refere ao facto numa sua carta da mesma época.

Cumpre-me deixar aqui um agradecimento póstumo a João Alves, que me permitiu em vida a publicação deste texto, bem como a sua Viúva, que confirmou essa autorização.

Santa Barbara, 17-Abril-1988       Mécia de Sena

 

Jorge de Sena quando estudante de Engenharia visto por um colega

O engenheiro João António Ferreira Lamas seria mais tarde um pesquisador fascinado pelo oriente e publicaria um livro sobre A Culinária dos Macaenses, mas durante os primeiros anos da década de 40 era apenas um estudante de engenharia na Universidade do Porto, como Jorge de Sena.  Seu depoimento sobre o antigo colega, que reproduzimos a seguir, foi originalmente publicado no “Dossier Jorge de Sena”, organizado por Luis Adriano Carlos para o Jornal Letras & Letras, em 1988.

 

Convivi com o Jorge de Sena, como colega de estudos, de 1938 a 1943, mais de perto nos últimos 3 anos daquele período, no primeiro dos quais fomos companheiros de quarto no Porto, quando alunos da Faculdade de Engenharia, para onde ele seguiu por lhe terem arrancado a sua verdadeira vocação, como ele próprio escreveu, excluindo-o da admissão à Escola Naval.

Quem com ele conviveu então, pelos seus 20 anos, podia aperceber-se da sua timidez, do receio de riscos, da falta de confiança nas capacidades físicas, de uma certa aparência de pouca virilidade.

Não se pode ter tudo, e o Jorge de Sena não tinha, sem dúvida, grande desembaraço físico.

Grande propensão para actividades políticas, não as tinha também então ele, fossem de que quadrante fossem, o mesmo acontecendo com todos os que foram no mesmo ano lectivo de Lisboa para a Faculdade de Engenharia do Porto.

Quanto à Guerra de Espanha, que entretanto já tinha acabado, a atitude era de condenação dos morticínios fraticidas de parte a parte e de discordância passiva para com o regime que se instaurou em seguida no país vizinho.

Quanto à II Guerra Mundial, a posição era a favor dos Aliados, mas sem extremismos de ideologias.

Relativamente à situação em Portugal, tinha uma posição crítica sem uma oposição frontal e, muito menos, qualquer tipo de actuação concreta. Não havia, por assim dizer, uma preocupação com a coisa política, o que constituía então o caso normal, ou médio, uma vez que se vivia nessa altura com a preocupação da guerra, que todos queriam afastada do nosso País e que, apesar de cá não ter chegado, nos ameaçava e nos atingiu fortemente, embora de forma indirecta.

Em termos de religiosidade ou de fé, o Jorge de Sena, não sendo de todo ateu, ou agnóstico, nem sequer descrente, vivia naquilo a que se poderia chamar uma situação de religiosidade angustiada. Numa ânsia de encontrar Deus como o veado a água viva, para usar uma expressão bíblica. Mas não era o Deus que os outros lhe mostravam, nem um Deus que fosse como ele quisesse fabricá-lo, como muitos há que pretendem. Ele ansiava por uma revelação de Deus directamente a ele, sem a mediação nem a presença de ninguém nem de mais nada. Leiam-se os quatro poemas criados nessa altura e publicados em Perseguição: «Declaração», «Unidade», «Purificação da Unidade» e «Caverna».

Espiritualmente, Jorge de Sena era irrequieto, inconformado, insatisfeito, sentia-se irrealizado, ou pelo menos não completamente realizado, e não compreendido nem capaz de se fazer compreender completamente.

Não era humilde, apesar das grandes dificuldades financeiras, nem soberbo ou arrogante, mas orgulhoso do valor que reconhecia ter. Não se mostrava assim para nós, colegas, como bom camarada que era, embora pouco comunicativo.

Possuía uma cultura geral invulgar para a sua idade e uma cultura literária excepcional e actualizada, tanto de língua portuguesa como francesa ou inglesa.

Era espantosa a sua capacidade de apreensão e de correlacionação das coisas, dos factos, das ideias e dos sentimentos, no espaço e no tempo, e a consequente lucubração e elaboração analítica e crítica.

Demonstrava nitidamente uma autêntica vocação para a criação literária, com todos os atributos que ela pode encerrar em si: inclinação, tendência, chamamento, predestinação, talento, apesar de ter que estar empenhado nas ciências da engenharia, que não deixaram contudo de contribuir, tal como se veio a verificar mais tarde, para a sua valorização integral como estudioso e como escritor, dando-lhe uma visão global mais alargada e uma soma de conhecimentos que pôde e soube utilizar e que, de outra forma, lhe seriam mais difíceis de adquirir.

Nota: O Eng.° João Lamas publicou na Revista da Ordem dos Engenheiros, Ingenium (Fevereiro de 1988), de que saiu Suplemento, o texto «O Sena que eu Conheci — Jorge de Sena, Estudante de Engenharia», transposição de duas conferências proferidas em Lisboa e no Porto, respectivamente em 2/11/87 e em 8/1/88.

Do "Tio" Rui

Na semana em que assinalamos a partida de Jorge de Sena de Portugal e sua chegada ao Brasil, 52 anos atrás, consideramos oportuno um depoimento de alguém muito próximo, familiar em todos os sentidos, que em Lisboa sempre ficou à espera de seu(s) regresso(s). Seu cunhado Rui de Freitas Lopes (militar reformado, mas carinhosamente chamado “Tio Rui” pelos mais jovens a quem abre a casa dos Senas no Restelo) com toda simpatia e gentileza atendeu a nossa solicitação.

 

De Luís Filipe Castro Mendes

 

 

Poeta, ficcionista e diplomata, Luís Filipe Castro Mendes é o atual Embaixador de Portugal na UNESCO, em Paris. Era o Cônsul-Geral de Portugal no Rio de Janeiro quando nesta cidade se realizou o Colóquio Internacional “Jorge de Sena e outros escritores portugueses num Brasil recente”, no Real Gabinete Português de Leitura, em agosto de 1998, com a presença de Mécia de Sena — fato a que alude neste seu depoimento.

Poemas para Jorge de Sena

Celebrando o primeiro aniversário deste site, no dia em que Jorge de Sena completaria 92 anos, apresentamos uma breve seleção de poemas dedicados ao poeta, escritos por amigos, admiradores e herdeiros de sua escrita.  

 

 

A Jorge de Sena, No Chão da Califórnia

É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em ti
o rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

Agosto, 1978


 

Carta(s) a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde


II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

 

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

 

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

 

in: Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004. p. 41-42.

 


Presente-Pretérito: Futuro-Pretérito

Que vida longa e tempo incerto,
O longe perto, o perto longe,
E entre longe e perto, no tempo,
O presente a morrer em cada instante
Até que ressurja no passado
Ou se adie para um futuro esperado
Inseminando o tempo para a geração,
No futuro de um presente que,
A ser nascido logo passa e
Será ou não presença sensível
Do passado: a realidade única
Que alimenta o fluir dos tempos:
O passado que é o fruto das sementes
— instantes que, no passado,
Germinam, crescem e florescem
Para inventar um futuro que mal nasce
Para morrer para o passado.
Oh presente nado-morto
Que não chega para viver ou ser vivido!
«Um barão a menos ou a mais
Que diferença faz? (….)
O que é preciso é assinar papeis.»
N'As Três Irmãs de Tchekov
Ouvi qualquer coisa assim
E lembrei-me demais de mim,
O que suponho terá acontecido
Reflexivamente a todos os si-próprios
Que como eu ouviram e
Barões nem sequer conhecem
Mas têm de assinar papéis…

1988

In: Nova Renascença, Porto, out.1988/ mar.1989, p.373.

 

 

Para o Jorge, à sua maneira

Sobre essa praia tantos amigos teus
fazendo amor de forma intensa e longa
– e nesta, onde tu foste e que deixaste,
outros terás, que já amor não fazem.
Não só porque tu faltas, porque neles
acaso a tua voz, a tua voz irada,
chamou de dentro e os chamou do nada
ao palco evanescente onde o amor fingiram:
mas também porque quem sempre te negou,
por se negar, não sabe dizer sou
além do fingimento do seu amor fingido.

Maio 84
 

 

A Jorge de Sena

É porta aberta com, ao fundo, a casa
a dar para essa luz de transparência
onde animais, com os seus nomes, pastam
a incorruptível chama da tristeza.
E as urzes ardem. E o comércio aclama
a indústria do espírito. Mas, mais que tudo, a empresa
de ir navegando, quando a maré levanta
esse magma de nomes aurindo inteligência.
É porta aberta com, dentro das muralhas,
o exílio subindo a residência.

Paris, Fevereiro de 88

In: Letras & Letras, 1/6/1988.

 

 

Anti-Epitáfio para Jorge de Sena


meço os passos neste quarto
dum hotel com o nome pretensioso dum rei português
lá fora Lisboa é vento e chuva
e a tua ausência
                                 este inverno
tão estranho para mim que chegava sempre em agosto
— eu com o tanto calor de Roma nos olhos tu com as praias
tecnocráticas made In Califórnia — e a tua casa
do Restelo os teus amigos de desvairadas línguas
em camas improvisadas as corridas nocturnas para o telefone
vozes do outro lado do mundo indecifráveis
e os teus filhos: Paulo Zezinha: os tantos filhos teus
todos os anos diferentes e Mécia longe por quem choravas
— esposa mãe amante — Mécia mulher telúrica
por cada amigo sonhada quase mãe impossível

mas vou pensar-te morto? não posso:
procuro um alibi na distância entre Roma
e Santa Barbara: procuro-te
por estas ruas de Lisboa onde uma chuva subtil
me faz voltar a tantos verões que nos julgavam estrangeiros
nessa tua cidade — com surpresa não ouço
a tua voz (tu que sabias tudo) guiando-me
entre palácios igrejas monumentos: a tua impaciente voz
de quem tinha feito arder dia a dia a vida com paixão

não creio que a morte exista: apenas uma fractura
entre o estar aqui e noutro lado: como
poderia perceber então teu pensamento
o prazer da luta num coração permanecido menino
a tua agressividade de tímido sem remédio?

queimo um a um todos os ritos para defender-te
ando pelo teu país como um cego — falo
de ti nas entrevistas faço subtis distinções
sobre a tua poesia entre os que te amaram
e os que diários te matavam com o veneno
terrível do silêncio — conferências sobre ti?
sinistras ironias dum amor (filial quase) — conferências sobre ti?
discursos em memória? que burrice
estás vivo Jorge vivo: ora então salta
aqui para esta plateia de vaidade humana
ri-nos nas trombas conta-nos as histórias mais obscenas
mija no chão e ri-te ri-te ri-te
de toda esta canalha que pensa que estás morto

Lisboa, 8/12/1978
(trad. de Fernando Assis Pacheco, Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge)

In: Sema, Lisboa, nº 2, 1979, p.96.

 

A Jorge de Sena

Da terra que se torna nevoeiro
em que a poesia nasce e sobrevive,
dessa escura distância de estrangeiro
que fez de ti escravo de seres livre,

sei que nunca direi quanto queria.
E não da consciência que a ti era
saber que em cada verso há outra vida –
– tão só deste fascínio que me espera

junto ao olhar vazio de que a grandeza
desesperadamente é feita ou faz-se:
pois aprendi contigo que a beleza
do nada dessa angústia é que nos nasce.

Poesia é voz do exílio e só dura
entre a névoa que a terra faz escura.


In: Jorge de Sena em Rotas Entrecruzadas, Lisboa: Cosmos, 1999. p. 9

De Ana Hatherly

 

 

A polifacetada artista Ana Hatherly, apesar de ainda debilitada depois de delicado problema de saúde, muito gentilmente nos oferece este vivo depoimento, gravado em Lisboa em fins de maio de 2011, no qual evoca seu amigo Jorge de Sena e alude a fotos assinalando um encontro londrino — fotos que Mécia guardou e aqui também disponibilizamos, na seção iconografia.

 

 

 

De Maria Gabriela Llansol

Dedicatória de Maria Gabriela Llansol a Jorge de Sena em exemplar de Depois de os Pregos na Erva:

 

Jorge de Sena:

Se a sua escrita não existisse, o que teria sido a minha?

Com a “cumplicidade” de

                         Maria Gabriela Llansol

                              Lovaina, Dez. 73

De José-Augusto França

A 4 de junho de 1979, no dia em que se completava um ano sobre a morte de Jorge de Sena, iniciava-se uma série de 4 programas radiofônicos sob o título “Portugal de Camões e das Comunidades”, alusiva ao 10 de junho, já então “Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas”. Muito justamente, essa primeira emissão é dedicada a Jorge de Sena e, entre outras evocações, temos o magnífico testemunho de José-Augusto França, que, generosamente autorizados, a seguir transcrevemos — e ouvimos.

 

 

Jorge de Sena morreu exactamente há um ano. Deixou a todos quantos com ele contactaram uma sensação de saudade irremediável, de revolta também: era um homem de menos de sessenta anos que tinha uma longa, longa obra feita, e uma longa, mais longa ainda, obra projectada. É sempre injusta a morte quando cai sobre artistas, poetas, criadores. No caso de Jorge de Sena, mais do que triste, foi uma traição que ela fez a um homem que tanto contou com a vida, que tanto pela vida se bateu, e que, em Portugal primeiro e depois num exílio, num exílio voluntário mas que foi sentido, profundamente sentido como um desterro, um desterro ligado a uma imensa, a uma feroz, a uma inclemente saudade do Portugal deixado, e para o qual sempre, mas sempre, ele continuou a escrever, ao qual ele sempre, mas sempre, continuou a dirigir-se…

Ontem mesmo, e como por acaso, me chegou às mãos a edição de um livro, uma plaquete, feita em Santa Bárbara, na universidade onde ultimamente ensinava, um poema, “Sobre estas praias”, um poema em cinco episódios, em cinco cantos se quisermos, traduzido em inglês também.[1] E passei uma grande parte do dia a lê-lo e vendo nele como que uma decantação de tudo quanto na poesia anterior Jorge de Sena dissera. Da poesia anterior, eu comecei a ler muito cedo, logo que apareceu a Coroa da Terra; e eu próprio contribuí para a edição da Pedra Filosofal.[2]

Porque Jorge de Sena para mim é também uma memória de tempos há muito passados. Nos anos 40, e durante 30 anos, ele me acompanhou e eu o acompanhei; em Lisboa primeiro e depois nas várias vezes que com ele voltei a encontrar-me no Brasil. Jorge de Sena foi um colaborador de uma revista minha, de anos atrás, chamada Unicórnio [3], um colaborador constante, aquele para quem sempre se podia apelar. E foi, antes de o conhecer, o homem que no Mundo Literário [4], um semanário publicado em 1946-47, me pareceu sempre encarregado de escrever os artigos mais difíceis naquele momento da vida portuguesa. E, agora mesmo, vejo um romance dele, um romance há muito anunciado, chamado Monte Cativo [5], que tem que ver com a sua experiência do Porto, do Porto onde ele estudou, do Porto que foi uma segunda cidade natal para ele. E este romance, que Jorge de Sena queria incluir num ciclo mais completo, e no qual depositava uma grande fé, este romance vai ser, com certeza, para todos nós, mais uma lembrança que, para além da linguagem da poesia, para além do ecrã que a poesia nos oferece, um quotidiano vibrante de que já tivemos anúncio nas páginas dos seus contos.

Eu estou necessariamente misturando a lembrança do Jorge de Sena meu amigo à lembrança e à presença da sua obra. Uma coisa e outra, para quem foi companheiro dele, naturalmente que constituem uma unidade, uma só situação. Mas, para além daquilo em que nos misturemos, e para aquilo que a sua obra seja, objectivamente, outra coisa há, que é a presença de Jorge de Sena na cultura portuguesa. E essa, aqui e acolá, em Portugal, no Brasil, ou ultimamente nos Estados Unidos, é uma das grandes presenças de que o nosso tempo português pôde beneficiar. Mais o nosso tempo português do que o próprio poeta, por razões óbvias. Mas esse benefício que se traduz em muitos livros publicados, em muitos estudos de extrema erudição, e também por uma polémica permanente que, por seu próprio feitio, Jorge de Sena naturalmente animava, são para os historiadores destes dois, três decénios que acabam de passar, e para aqueles que mais tarde sobre este nosso tempo venham a debruçar-se, um indício extremamente importante, sem o qual muito daquilo que foram nossos anseios, daquilo que foram nossas esperanças, daquilo que foram nossos dramas, daquilo que foram, em suma, umas vivências aflitas, ficaria sem explicação. Esta explicação está, livro a livro, na obra de Jorge de Sena, está no seu próprio destino de poeta, está naquilo – que uma vez escrevi e ainda há pouco o disse –, nessa imensa, feroz, inclemente saudade que ele teve de Portugal e que, todos nós, os jovens, sobretudo, que o lêem hoje pela primeira vez, podem ter dele, já numa situação quase que mítica, na qual os grandes poetas, como Camões, como Fernando Pessoa, como Jorge de Sena vivem na memória possível do tempo.
Notas:

1 JAF refere-se à edição bilíngue Over This Shore… Eight Meditations on the Coast of the Pacific, com tradução de Jonathan Griffin e publicada em 1979 pela Mudborn de Santa Barbara (27 p.). A troca de número de poemas é evidente lapsus linguae.

2 Lê-se no “Prefácio à Segunda Edição” (1977) de Poesia I: “Foi [Pedra Filosofal, 1950] editada pela Confluência, então pertencente a António Pedro e a José-Augusto França. […] O França tornara-se meu amigo desde os tempos preliminares do surrealismo, e na roda de António Pedro, e veio a juntar-se aos directores dos Cadernos de Poesia, e a mim, como um dos dirigentes da 2ª. série, em 1951; a ele, tanto ou mais que a António Pedro, devi que aquela edição se fizesse”. O primeiro ensaio da revista Unicórnio intitula-se “Um Caminho para a Poesia (a propósito da ‘Pedra Filosofal’, de Jorge de Sena)” e foi escrito por Adolfo Casais Monteiro, a pedido de JAF.

3 Jorge de Sena colaborou na Unicórnio (maio/1951) com a “peça em um acto” Amparo de Mãe e conduzindo e comentando o “Inquérito sobre André Gide”; na Bicórnio (abril/1952), com o texto “D.H.Lawrence, D.H.Lawrence, D.H.Lawrence… e um poema de D.H.Lawrence” e respondendo ao inquérito “Como vivem os intelectuais portugueses a sua relação com a cultura passada em Portugal”; na Tricórnio (novembro/1952), com “Ulisseia adúltera: peça em um quadro” e com o artigo “Considerações sobre a revolta”; na Tetracórnio (fevereiro/1955), com o ensaio “Tentativa de um panorama coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950” e respondendo ao inquérito “Quais os livros que vale a pena ler? Quais os livros que valeu a pena escrever?”; na Pentacórnio (dezembro/1956 – último número da revista), com o poema “Mensagem de finados”.

4 A revista Mundo Literário foi publicada em Lisboa de 1946 a 1948, tendo Jaime Cortesão como diretor e Luís de Sousa Rebelo como editor de seus 53 números. Entre o nº 3 (maio/1946) e o nº 52 (maio/1947), Jorge de Sena tem 40 entradas, que incluem ensaios, recensões a livros portugueses e estrangeiros, crítica de cinema e de teatro, crônicas e ficção.

5 Como se sabe, do projetado “ciclo romanesco ‘Monte Cativo’”, só veio à luz o romance inacabado Sinais de Fogo. A este propósito, ler a esclarecedora “Introdução” de Mécia de Sena ao romance, a partir de sua 3ª edição, 1985, e ainda a que precede Monte Cativo e outros projectos de ficção (Porto, ASA,1994).

De Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia_e_Sena

Carta(s)
a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

 

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

 

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

 

in: Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004. p. 41-42.

 

A vida de Camões

Da vida de Camões pouco sabemos
E fantasias de historiadores pouco interessam
Bem mais reais e exactos me parecem
Poemas contos e as convocações
De Super Flumina Babylonis
Onde o inscreveu se inscreveu nos inscreveu Jorge de Sena

De Camões direi que nos é pátria:
Este preciso sabor de exílio
Que há muito nos conhece e há muito conhecemos

 

in: Jorge de Sena: Ressonâncias & Cinquenta Poemas. (org. Gilda Santos) Rio de Janeiro: 7Letras, 2006. p.248.

De Vasco Graça Moura

Em 2005, num encontro com jovens, Vasco Graça Moura foi surpreendido pela leitura de “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, com que o quiseram homenagear. Ao agradecer, valeu-se do ensejo para ampliar o conhecimento dos presentes sobre o autor do poema. Sacou da memória elementos da vida e obra do escritor e improvisou uma apresentação em traços largos desse Jorge de Sena que lhe inspira uma admiração sempre reiterada. Abaixo, transcrevem-se as palavras finais da breve “aula” (segundo http://www.(…)vascogracamoura03.pdf):
Um homem com uma obra vastíssima no domínio da investigação, ensaio, romance, teatro, tradução… Não há praticamente nenhuma área da criação literária que ele não tenha percorrido.

Tinha uma capacidade inovadora extraordinária. No livro em que sai esta obra [o poema “Carta a meus filhos…”], Jorge de Sena faz uma coisa inovadora: ligar um livro inteiro (Metamorfoses) a obras de arte visuais. Depois veio a ligar um outro livro inteiro a obras de arte musicais. Isto é extraordinariamente moderno na vida e cultura do séc. XX e tem a ver com o chamado ekfrasis – um “palavrão” grego que designa a descrição verbal de uma obra de arte visual, precisamente isto que ele faz com o quadro “dos fuzilamentos”. E tem coisas semelhantes, como quando se reporta a um busto de Camões, uma gazela da Ibéria encontrada numas escavações, etc. Esta visão do Jorge de Sena foi extremamente inovadora. Havia um poema do Jaime Cortesão, dos anos 15 ou 16, sobre Botticelli e um poema de Eugénio de Andrade sobre uma pintura de Augusto Gomes, dos anos 40, mas não havia praticamente mais nada. Depois de Jorge de Sena, muitos outros seguiram esses passos.

Ele é muito importante porque também representa a consciência de Portugal vista por um exilado. A partir de 59 viveu fora de Portugal (embora tenha vindo cá em 77 e em 69, quando eu o conheci pessoalmente). Sendo ele um homem de esquerda e avesso àquele Portugal e ao salazarismo, teve sempre um olhar muito amargo sobre a nossa realidade, porém, extremamente lúcido. Um pouco como aquilo que encontramos em outros pensadores que viveram ou vivem no estrangeiro, já desde o séc. XVIII, os chamados “estrangeirados”. Ou aquilo que vemos em Eduardo Lourenço, figura incontornável que tem vivido basicamente em França.

Gostava de salientar que o Jorge de Sena se bateu sempre pelo livro e pela cultura portuguesa, não em termos de paroquialismo fechado mas com abertura ao mundo e em contacto vivificante com outras culturas. Penso que é exemplar ter sido aqui lido um dos grandes poemas políticos da Literatura Portuguesa. Este é um dos maiores gritos em favor da dignidade humana que a Literatura Portuguesa produziu.

Na sua própria produção poética Vasco Graça Moura evoca Sena em vários momentos. O mais marcante encontra-se no poema “Jorge de Sena na Ilha de Moçambique”, do livro Os Rostos Comunicantes, 1984. (Já pelo título do poema, é impossível não pensar num imediato diálogo com os versos senianos de “Camões na Ilha de Moçambique”)

 

jorge de sena na ilha de moçambique

debruçado a esta janela quinhentista sobre a água lilás
do pôr do sol, jorge de sena repousava os olhos, ainda ofuscado
pela brancura da pedra e de tanta memória gastando-se
até onde pobremente o camões se arrastara

e um d.joão de castro está sepulto. fora uma tarde desmedida
de amargos deslumbramentos, de intimidades fragmentárias, de
coisas a ressoar (“e nunca pude saber dele”
diz-se, na década oitava, de um manuscrito roubado).

jorge de sena andou por aqui enxugando o suor com um enorme lenço
e rugidos na alma, e nem viu as acácias, o seu fogo insolente, as mulheres de máscara branca,
crispado entre os amigos nesta escala da passagem
de nada para parte nenhuma, por ruelas e pátios de má fortuna abandonados.

viu sim os rebocos desfeitos pela traça do tempo, tanta textura de flores esboroadas,
tanto mapa perdido de aventurososo destinos,
e viveu tudo isso como se o próprio orgulho, a prumo, com o seu nobre olhar
de exilado, fosse uma altiva insensatez.

sentia essa embargada transparência, um tão ágil amor desesperado,
e tinha de ter raiva: nem há neutralidades anódinas, é-se apanhado
por estas evidências a crescerem em nós como o coral insuportável
ramificando-se desta luz, desta água, desta força honrada do lugar.

a tarde foi caindo até ao cinzento escuro
e era parda a vela subitamente içada (ou rósea ainda?)
de algum barco pequeno cuja sombra partia. como é possível o trabalho
de peregrinar sem vir aqui? possível que isto vá morrer?

“o coração da vida está na lucidez das cicatrizes
que nos povoam” disse-lhe circe na praia transformando-o
no vulto que descia a correr as escadas da prelazia até
à misericórdia, ao palácio do governador, à rua dos arcos,

desprezando a quem implorava. ou não desceria
porque lá esteve antes, mas que interessa?
se andava por aqui crivado de dívidas e de versos
e lhe haviam tirado o seu parnasso e foi furto notável

e muito mais do que isso é comover-nos
este adobe de lembranças a destempo, esta severa condição
de um jogo limpo em que o real
só é dizível porque algumas palavras o destroem

e algumas palavras lhe resistem. anonimamente
jorge de sena voltou a pagar os duzentos cruzados da dívida:
camões parte amanhã mas continua aqui.
nem é desterro nosso que assim seja.

Vasco Graça Moura, Os rostos comunicantes, Lisboa, D. Quixote, 1984 p. 22-25