De Pedro da Silveira

 

Parece não ter tido maior difusão este texto de Pedro da Silveira escrito um mês após o falecimento de Jorge de Sena, agora recuperado, e gentilmente para nós enviado, pelo infatigável descobridor de preciosidades Vasco Medeiros Rosa. Como se sabe, o açoriano Pedro da Silveira (1922- 2003) integrou anos a fio o conselho de redação da revista Seara Nova e produziu larga obra como poeta, crítico literário, tradutor e investigador, colaborando em diversos periódicos. Pode-se dizer, sem medo de errar, que os Açores constituem o cerne de quanto escreveu — o que fica bem demonstrado neste necrológio, no qual são sobejamente enfatizados os elos de Jorge de Sena com o arquipélago.  

 

A costa californiana que faz lembrar a dos Açores

 

 

UM AÇORIANO DE LISBOA: JORGE DE SENA*

Nenhum lugar mais certo para lá morrer e se dar à terra um açoriano da dispersão: Santa Bárbara, na Califórnia. É junto à costa e ao longe perfilham-se não me lembra quantas ilhas. Dumas delas ainda sei, ou julgo saber, que se chama San Clemente; doutra, que é Santa Catalina. Sena cantou num poema[1] a visão duma delas, que tinha defronte de sua casa. Se não me mente a memória, ao cabo de tantos anos, dizia meu pai, que as visitou uma vez, que eram habitadas por índios e chicanos, gente pobre, vivendo da pesca e de cultivar melancias, das melhores do mundo — acrescentava —, só comparáveis às do Corvo.

Pode isto parecer impróprio falando dum poeta, de mais acabado de morrer. Melancia não é fruto com prestígio lírico e a memória dum poeta, na hora da sua morte, não se celebrará assim. Pelo menos, não é de regra. Mas veio à pena e fica — de resto, me parecendo que fica bem, tratando-se, como se trata, dum poeta que sabiamente sabia que tudo (todas as palavras, todas as coisas) pode caber em poesia; ao menos quando a poesia é poderosa bastante para se transmitir até à evocação duma melancia, tão digna afinal, em sua humildade de fruto para pobres, como uma estátua grega ou uma sinfonia do genial Beethoven. Jorge de Sena sabia destas coisas: como homem de cultura aberta e multímoda que era e como poeta de raiz que, primeiro e totalmente, era também.

Açoriano de Lisboa, digo no título. Sim, senhores: açoriano de Lisboa, criado num meio familiar açoriano, no qual corriam sangues provenientes das três ilhas que são o Faial (onde seu pai nasceu), São Miguel e a Terceira. Gente ligada ao mar e, até agora e desde o século XVIII, na pessoa do seu antepassado o poeta Manuel Inácio de Sousa, ao comércio marítimo; gente, como ainda Jorge de Sena foi, de se largar pelo mundo. E eis que se põe o pretexto doutra notação digamos antebiográfica: que os do sangue de Jorge de Sena dos Açores (e da Madeira também) desde há muito se derramam por esse mundo, como ele se derramou. Lá temos, em Cabo Verde, filho da Ilha Brava, o marinheiro e erudito historiador Cristiano José de Sena Barcelos, seu parente e doutro Sena (que Sena se não chama todavia), o poeta (madeirense) Herberto Hélder. E quantos mais, filhos e netos de abalados para o Brasil, a Califórnia e outros longes?

Lamenta-se que Jorge de Sena morresse fora de onde nasceu, e parece querer-se que Lisboa seja, já que não o teve (ou não o quis ter?) vivo, sua morada de morto. Quer dizer (e ele o diria se pudesse agora): pretende-se, contritamente, remediar com os ossos o que ao vivo se não quis proporcionar. Mas é sempre assim, ou, pelo menos, é-o nestas arábico-africanas partes, onde a ingratidão exercida contra os vivos incómodos se usa transmudar em reconhecimento (?) quando já passaram a mortos (e já não incomodam).

Não, senhores! Deixem ficar Jorge de Sena na Santa Bárbara que bem amou, lá no cemitério do Calvário, donde se vê o mar e ilhas defronte. Lá ele ficará bem e, tenho a certeza, gostará de receber de vez em quando as visitas amigas dos luso-californianos que soube entender e estimar e lhe pagavam na mesma moeda — gente simples e boa, que poderá não lhe ler a obra mas soube entender-lhe a ternura disfarçada de aspereza, aquele seu feitio insulano, de homem que sempre diz logo, sem rodeios acomodados, o que os da terra firme tantas vezes só dizem depois ou por dentro. Sim! Lá é que Jorge de Sena está no lugar certo. Exilado em vida, seja-o morto; mas exilado, afinal, entre gente que amou: lusos, como ele, que a pátria repeliu; filhos das ilhas onde ele enraizava.

Até onde sou capaz de descobrir o insulano, nado ou de raiz, pela sua expressão, a obra de Jorge de Sena, o seu estar no mundo (da obra e dele homem), são da espécie que não deixa margem a engano: ilhéu indisfarçável. Lá esta a sua poesia, à primeira abordagem um tanto difícil (como difíceis de abordar são as costas das ilhas atlânticas), mas que depois se nos revela tão rica, tão contrastada; e a sua obra de contista, onde a cada passo a insaciável curiosidade total do mundo pulsa; e a do dramaturgo, que até diz daquele «indesejado» D. António, cá só o «Prior do Crato», lá Rei — el-rei D. António I, com sua corte em Angra e a quem a tradição na minha ilha ainda chama «o rei Sant’António»; e a do ensaísta erudito, tão sagaz, curioso de tudo, sedento de todos os humanos saberes.

Não me sinto capaz, agora, de discorrer criticamente sobre o legado espiritual de Jorge de Sena. Até porque a sua morte, embora esperada para mais cedo do que quando já um homem não pode dar à vida senão continuar vivo, me deixa como embaciado: uma morte que, além do mais, vem quase em cima da doutro grande filho das terras no meio do mar — Vitorino Nemésio[2]. E daí, não me sentindo capaz do discorrer crítico, que é coisa para a frio, aqui vai só como o vejo, lhe tomei o gosto à obra: insulada e jogada no mundo, mensagem que me apetece comparar à de Antero, como à do erudito Teófilo (outro de multímodas curiosidades), como à de Carlos de Mesquita; como às desses brasileiros também oriundos das Ilhas, como Machado de Assis, ou Euclides da Cunha, ou Guimarães Rosa, ou Carlos Drummond de Andrade, ou Cabral de Mello Neto; como, mesmo, à desse como criatura detestável mas como escritor assombroso Jorge Luis Borges. Porque em todos reside, na obra que fizeram, superando diferenças de teor, algo que é a genuína marca de quem nasceu numa ilha e traz nas veias sangue provindo duma ilha.

Jorge de Sena morreu no exílio, dizem os seus necrologistas, os quais agora, muito solenemente, falam da reparação a dar ao grande exilado que, aqui e lá fora, tão altamente honrou a cultura lusíada. E eu pergunto: Não era ele já um exilado antes de, de facto, o ter sido? A sua obra não é toda, desde o primeiro livro, um continuado sinal de exílio? E não é afinal o exílio a condição do intelectual que nasça neste ruim sítio onde Eça (outro exilado de raiz) pescou Acácio e Gouvarinho e o Salcede, esses, sim, exemplares de quem, mesmo sendo-o, nunca será um exilado?

Senhores! Leiam-no, aprendam na sua obra a entender, se capazes ainda são disso, que o mundo não se reduz a Lisboa. Mas deixem-lhe os ossos em paz, lá no cemitério do Calvário, em Santa Bárbara da Califórnia, com o mar e não sei quantas ilhas diante dos olhos que para sempre já não poderão avistá-las. E, quanto a exílios — sempre é melhor estar exilado lá fora, vivo ou morto, do que exilado (emparedado) aqui. Não o ignoro: Jorge de Sena amava isto; mas também sabia — doloridamente sabia! — que isto só é bom para majores, argelinos e filhos de reverendos. Amava, explico, um mito; e quando se ama um mito, é sempre melhor viver e morrer longe dele. Por que não deixe de ser mito.
 
 

NOTAS: 
[*] In O Diabo, Lisboa, 4 de Julho de 1978, pp. 17, 22

[1Provavelmente o autor refere-se a “Duas paisagens da Califórnia”, do livro Exorcismos (Poesia III), com data de Janeiro de 1971:

 

AS ILHAS DE SANTA BARBARA

Tão lúcidas recorte no horizonte

a névoa ergue-as do mar em que flutuam

violáceas quietas pela tarde imóvel

até nas brandas ondas que esta praia pousam

recurva apenas de uma luz sem cor

e do silêncio da distância em ilhas

 

BIG SUR

Do alto da escarpa escarpas se prolongam

em que de praias se entrelaça o mar

 sobrevoado de aves. Os rochedos

somem-se e brotam de sem espuma em volta

que só ressaca é depois deles areia.

 

[2Nascido a 19 de dezembro de 1901, o açoriano Vitorino Nemésio faleceu em 20 de fevereiro de 1978.