De José-Augusto França

A 4 de junho de 1979, no dia em que se completava um ano sobre a morte de Jorge de Sena, iniciava-se uma série de 4 programas radiofônicos sob o título “Portugal de Camões e das Comunidades”, alusiva ao 10 de junho, já então “Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas”. Muito justamente, essa primeira emissão é dedicada a Jorge de Sena e, entre outras evocações, temos o magnífico testemunho de José-Augusto França, que, generosamente autorizados, a seguir transcrevemos — e ouvimos.

 

 

Jorge de Sena morreu exactamente há um ano. Deixou a todos quantos com ele contactaram uma sensação de saudade irremediável, de revolta também: era um homem de menos de sessenta anos que tinha uma longa, longa obra feita, e uma longa, mais longa ainda, obra projectada. É sempre injusta a morte quando cai sobre artistas, poetas, criadores. No caso de Jorge de Sena, mais do que triste, foi uma traição que ela fez a um homem que tanto contou com a vida, que tanto pela vida se bateu, e que, em Portugal primeiro e depois num exílio, num exílio voluntário mas que foi sentido, profundamente sentido como um desterro, um desterro ligado a uma imensa, a uma feroz, a uma inclemente saudade do Portugal deixado, e para o qual sempre, mas sempre, ele continuou a escrever, ao qual ele sempre, mas sempre, continuou a dirigir-se…

Ontem mesmo, e como por acaso, me chegou às mãos a edição de um livro, uma plaquete, feita em Santa Bárbara, na universidade onde ultimamente ensinava, um poema, “Sobre estas praias”, um poema em cinco episódios, em cinco cantos se quisermos, traduzido em inglês também.[1] E passei uma grande parte do dia a lê-lo e vendo nele como que uma decantação de tudo quanto na poesia anterior Jorge de Sena dissera. Da poesia anterior, eu comecei a ler muito cedo, logo que apareceu a Coroa da Terra; e eu próprio contribuí para a edição da Pedra Filosofal.[2]

Porque Jorge de Sena para mim é também uma memória de tempos há muito passados. Nos anos 40, e durante 30 anos, ele me acompanhou e eu o acompanhei; em Lisboa primeiro e depois nas várias vezes que com ele voltei a encontrar-me no Brasil. Jorge de Sena foi um colaborador de uma revista minha, de anos atrás, chamada Unicórnio [3], um colaborador constante, aquele para quem sempre se podia apelar. E foi, antes de o conhecer, o homem que no Mundo Literário [4], um semanário publicado em 1946-47, me pareceu sempre encarregado de escrever os artigos mais difíceis naquele momento da vida portuguesa. E, agora mesmo, vejo um romance dele, um romance há muito anunciado, chamado Monte Cativo [5], que tem que ver com a sua experiência do Porto, do Porto onde ele estudou, do Porto que foi uma segunda cidade natal para ele. E este romance, que Jorge de Sena queria incluir num ciclo mais completo, e no qual depositava uma grande fé, este romance vai ser, com certeza, para todos nós, mais uma lembrança que, para além da linguagem da poesia, para além do ecrã que a poesia nos oferece, um quotidiano vibrante de que já tivemos anúncio nas páginas dos seus contos.

Eu estou necessariamente misturando a lembrança do Jorge de Sena meu amigo à lembrança e à presença da sua obra. Uma coisa e outra, para quem foi companheiro dele, naturalmente que constituem uma unidade, uma só situação. Mas, para além daquilo em que nos misturemos, e para aquilo que a sua obra seja, objectivamente, outra coisa há, que é a presença de Jorge de Sena na cultura portuguesa. E essa, aqui e acolá, em Portugal, no Brasil, ou ultimamente nos Estados Unidos, é uma das grandes presenças de que o nosso tempo português pôde beneficiar. Mais o nosso tempo português do que o próprio poeta, por razões óbvias. Mas esse benefício que se traduz em muitos livros publicados, em muitos estudos de extrema erudição, e também por uma polémica permanente que, por seu próprio feitio, Jorge de Sena naturalmente animava, são para os historiadores destes dois, três decénios que acabam de passar, e para aqueles que mais tarde sobre este nosso tempo venham a debruçar-se, um indício extremamente importante, sem o qual muito daquilo que foram nossos anseios, daquilo que foram nossas esperanças, daquilo que foram nossos dramas, daquilo que foram, em suma, umas vivências aflitas, ficaria sem explicação. Esta explicação está, livro a livro, na obra de Jorge de Sena, está no seu próprio destino de poeta, está naquilo – que uma vez escrevi e ainda há pouco o disse –, nessa imensa, feroz, inclemente saudade que ele teve de Portugal e que, todos nós, os jovens, sobretudo, que o lêem hoje pela primeira vez, podem ter dele, já numa situação quase que mítica, na qual os grandes poetas, como Camões, como Fernando Pessoa, como Jorge de Sena vivem na memória possível do tempo.
Notas:

1 JAF refere-se à edição bilíngue Over This Shore… Eight Meditations on the Coast of the Pacific, com tradução de Jonathan Griffin e publicada em 1979 pela Mudborn de Santa Barbara (27 p.). A troca de número de poemas é evidente lapsus linguae.

2 Lê-se no “Prefácio à Segunda Edição” (1977) de Poesia I: “Foi [Pedra Filosofal, 1950] editada pela Confluência, então pertencente a António Pedro e a José-Augusto França. […] O França tornara-se meu amigo desde os tempos preliminares do surrealismo, e na roda de António Pedro, e veio a juntar-se aos directores dos Cadernos de Poesia, e a mim, como um dos dirigentes da 2ª. série, em 1951; a ele, tanto ou mais que a António Pedro, devi que aquela edição se fizesse”. O primeiro ensaio da revista Unicórnio intitula-se “Um Caminho para a Poesia (a propósito da ‘Pedra Filosofal’, de Jorge de Sena)” e foi escrito por Adolfo Casais Monteiro, a pedido de JAF.

3 Jorge de Sena colaborou na Unicórnio (maio/1951) com a “peça em um acto” Amparo de Mãe e conduzindo e comentando o “Inquérito sobre André Gide”; na Bicórnio (abril/1952), com o texto “D.H.Lawrence, D.H.Lawrence, D.H.Lawrence… e um poema de D.H.Lawrence” e respondendo ao inquérito “Como vivem os intelectuais portugueses a sua relação com a cultura passada em Portugal”; na Tricórnio (novembro/1952), com “Ulisseia adúltera: peça em um quadro” e com o artigo “Considerações sobre a revolta”; na Tetracórnio (fevereiro/1955), com o ensaio “Tentativa de um panorama coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950” e respondendo ao inquérito “Quais os livros que vale a pena ler? Quais os livros que valeu a pena escrever?”; na Pentacórnio (dezembro/1956 – último número da revista), com o poema “Mensagem de finados”.

4 A revista Mundo Literário foi publicada em Lisboa de 1946 a 1948, tendo Jaime Cortesão como diretor e Luís de Sousa Rebelo como editor de seus 53 números. Entre o nº 3 (maio/1946) e o nº 52 (maio/1947), Jorge de Sena tem 40 entradas, que incluem ensaios, recensões a livros portugueses e estrangeiros, crítica de cinema e de teatro, crônicas e ficção.

5 Como se sabe, do projetado “ciclo romanesco ‘Monte Cativo’”, só veio à luz o romance inacabado Sinais de Fogo. A este propósito, ler a esclarecedora “Introdução” de Mécia de Sena ao romance, a partir de sua 3ª edição, 1985, e ainda a que precede Monte Cativo e outros projectos de ficção (Porto, ASA,1994).