A Morte do Papa

Peça em um ato

 

fotoA renúncia do Papa Bento XVI, e as muitas questões que suscitou, trouxe-nos à memória A Morte do Papa, “peça em um ato” escrita por Jorge de Sena no Brasil, em 1964, em Araraquara — tal como a peça O Império do Oriente. A propósito de ambas, comenta o autor: “Por alquimias estranhas, as peças de 1964, no Brasil escritas, foram reacção aos acontecimentos que se precipitaram em 1º de Abril desse ano”. Do mesmo contexto, é ainda a novela O Físico Prodigioso, na qual o protagonista é vítima de longo processo inquisitorial e onde se lê um “rimance […] que era uma espécie de hino da revolta geral dos povos”, cujos versos iniciais são “Morra o bispo e morra o papa,/ maila sua clerezia” e cujos finais dizem “Morra tudo, minha gente,/vivam povo e rebeldia”. Deixamos ao leitor qualquer possível ilação entre os recentes acontecimentos no Vaticano e aqueles à volta do Golpe Militar no Brasil, lá se vão quase 50 anos.

Na língua original, não conseguimos rastrear outra representação da peça A Morte do Papa senão aquela que integrou o programa do Congresso Internacional “Sinais de Jorge de Sena”, transcorrido na UNESP/Araraquara de 30 de agosto a 2 de setembro de 1998, excelentemente encenada pelo grupo amador “Memorial de Atenas”, da cidade de Matão, dirigido por Júlio César Ribeiro da Silva. Em língua inglesa, com tradução do Prof. George Monteiro, subiu ao palco na University of California/ Santa Barbara de 31 de julho a 2 de agosto de 1980, por iniciativa do então estudante Pedro de Sena, filho do dramaturgo. Gentilmente cedida pelo tradutor, aqui transcrevemos essa versão, mais tarde também publicada em Latin American Review, vol. 14 (Jan./June 1986), pages 117-25.

 

PERSONAGENS:

O MÉDICO-OFICIAL
O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO
O SOTAINA
UMA VOZ
OUTRA VOZ
VOZES

 

Numa cena totalmente obscura entra um homem, lendo um imenso jornal. Ao ritmo dos seus passos, vai-se firmando uma claridade difusa que, quando ele pára a meio do pros­cénio, o mostra. É um homem de idade indefinida, como todos os reaccionários conspícuos e acacianos, aprimorada­mente vestido de um modo que lembra 1900. Com forte emoção mergulha a cabeça no jornal que um facho de luz ilumina violentamente. Emite grunhidos de aprovação e cólera imbuída de profundas convicções. Ao fundo, à esquerda, as luzes começam a destacar um pequeno grupo. São três figuras dispostas como uma Pietá. Uma figura feminina velada tem atravessado no colo o cadáver semi-nu de um jovem cuja cabeça retém e sobre o qual se debruça, enquanto, ao lado, uma figura hierática, vestida de um modo que lembra as far­das de SS, usa lunetas e tem na mão um objecto que, ao debruçar-se para o cadáver, se vê ser um estetoscópio que aplica no peito descarnado. Ausculta com atenção profissio­nal, impassível. Endireita-se, empertiga-se e avança, agora bem iluminado, para o proscénio; dirige-se ao público, enquanto o outro homem continua même jeu.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Minhas senhoras e meus senhores. Na qualidade de cirur­gião diplomado pelas principais universidades do Ocidente, e doutor honoris-causa por todas as outras, com excepção de algumas muito recentes fundadas em regiões tropicais para o serviço de populações inferiores pela raça e a cultura; e no cumprimento das minhas funções oficiais de necrólogo-chefe de todos os necrotérios do mesmo Ocidente que acabei de referir, cumpre-me declarar que este homem está morto, indiscutivelmente morto, apresentando o quadro completo de todos os sintomas da morte clínica e não clínica. O facto de uma mulher que passa por ser sua mãe o reter teimosamente no colo em nada altera o mesmo quadro. Está morto, quei­ram V. Excias acreditar. De resto, que um homem esteja morto, quando eu o proclamo, declaro e ratifico com a minha autorizada assinatura, não depende de coisa alguma senão da minha declaração. Se não está, estará. Se está, é claro que está. Se estaria, é um caso que só dependeria de exumação após o sepultamento, o que não pode ser feito sem a minha autorização, a qual só posso dar se a certidão de óbito ofere­cer dúvidas que não pode oferecer quando fui eu próprio quem a passou. Fiquem V. Excias bem cientes de tudo isto, para a hipótese de se encontrarem na mesma situação, (pausa) A causa mortis… é perfeitamente clara. Colapso cardíaco subsequente à aplicação de uma sentença que foi aplicada por ser justa e foi justa por ser aplicada. O corpo apresenta equimoses suspeitas, sem dúvida. Mas é meu dever que fique claro o seguinte: os homens nunca morrem das equimoses ou dos derrames internos que uma sentença provoque, ou que a pesquisa da verdade e da culpa obrigue a empregar. Morrem sempre de colapso cardíaco, uma vez que, em dadas e reco­nhecidas circunstâncias, o coração pára. Foi o que aconteceu com este e acontecerá com todos vocês. Perdão, acontecerá com Vossas Senhorias.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(emergindo do jornal) E exactamente o que diz aqui. Exactissimamente. A morte de um homem culpado de agitar a paz social e a ordem pública é sempre, clinicamente falando e anatomopatologicamente falando, um colapso cardíaco.

 

O MÉDICO-OFICIAL

(que pasmou da interrupção, abre-se num sorriso, aproxima-se do outro, e mergulha com ele a cabeça no jornal) Ah, esse jornal é muito bom, não há melhor jornal, eu mesmo sou o conselheiro de assuntos médico-policiais… (a luz apaga-se sobre a Pietá)

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(emergindo por sua vez — e daqui em diante alternada­mente emergem do jornal) Mas como?! Tenho então o subido prazer, a esplêndida satisfação de falar com…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Eu mesmo! Eu mesmo! Eu mesmo!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

E eu que sempre aguardava uma oportunidade de conhe­cer o senhor! Porque, permita-me que me apresente, eu sou… oh… perdoe a imodéstia… eu sou o director do…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Mas, preclaríssimo doutor, eminentíssimo defensor das mais sagradas causas comuns e não comuns às pátrias dignas desse nome, o senhor é…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(com ares de virgem pudica) Sou o director desta singela folha independente, e guardiã indefectível das liberdades democráticas e outras, e defensora de todas as grandes causas de libertação nacional, e impoluto e resoluto baluarte de todas as tradições e de todos os direitos legitimamente con­signados na Constituição escrita e naquela que, não sendo escrita, está todavia inscrita nos nossos corações de velhos patriotas. Porque, meu ilustre clínico…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Necrólogo, necrólogo-mor.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Porque, meu ilustre clínico…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Necrólogo, necrólogo-mor.

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Mor. Porque…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

(interrompendo) Porque não é patriota quem quer, mas quem pode.

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Porque o patriotismo é um direito, não é um dever.

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Um dever herdado, um dever legado, um dever comprado, um dever adquirido…

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Por séculos e séculos de sangue transmitido…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Derramado…

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Sugado…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Ou recebido em transfusão de origem rigorosamente garantida.

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Como o doutor saberá melhor do que eu, os doutores ca… cariotas…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Ca… quê?

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Perdão, cairotas.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Cai… quê?

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Os doutores cairotas…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Não é possível! Não existe essa especialidade em medicina!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Em medicina?! Cairotas, do Cairo.

 

O MÉDICO-OFICIAL

De onde?

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Do Cairo, a capital do Egipto.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Ah, do Egipto. No Egipto há médicos. Uma vez, num congresso da minha especialidade, até encontrei um, excelente sujeito, muito entendido em colapsos cardíacos. Não sei se ele seria…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Cairota.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Isso, cariota.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Ou isso. Pois lá os doutores da lei, os sábios do Corão, decretaram que, nas transfusões de sangue, não é possível a um crente receber sangue de um ateu, materialista, comunista. Não acha uma medida genial? Que garantia temos nós de que ideologias perniciosas não dependem da constituição do san­gue? Os meus cavalos de corrida são de sangue puro, por isso correm bem. Um sangue impuro é indubitavelmente uma fonte de distúrbios sociais.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Muito provavelmente. O senhor director é um homem de ideias sanguíneas corajosas.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Digo mais ao senhor: é uma vergonha, um sinal da depravação dos tempos, e de como as ideologias perniciosas separam os fundamentos de toda a ordem constituída que defendemos, é uma vergonha, repito, que o Papa não tenha decretado uma coisa semelhante. E muito antes, muito antes. Porque, repare, a Santa Igreja é mais velha seiscentos anos que Maomé. Logo…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Logo…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Logo.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Logo. (ao fundo, à direita, começa a divisar-se um trono papal em que um papa quase desaparece atrás de uma flo­resta de microfones, lâmpadas de televisão, etc. — da floresta emerge uma figura de sotaina negra que avança para o pros­cénio iluminado e se dirige ao público)

 

O SOTAINA

Meus amados irmãos. Reunidos que estamos, nesta sala, enquanto o Santo Padre fala ao mundo levando a palavra divina a todos os recantos da Terra, lembrando a todos os homens que são irmãos e que a justiça é a mesma para todos na Terra e no Céu, convenhamos em que o Santo Padre, na sua infinita bondade, na doçura do seu coração amantíssimo, exagera. Sim, meus queridos irmãos, exagera. Melhor dizendo: não exagera… O Santo Padre não nota que falar numa sala a duas dúzias de peregrinos ou no gabinete a meia dúzia de bispos não é o mesmo que deixar-se cercar por aqueles objectos que não discriminam quem os ouve, quando repe­tem, por toda a parte, coisas que o bom povo, o povo humilde, o povo simples, não pode, na sua pura simplicidade, entender. Falar assim é agitar as almas, e não salvá-las.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(emergindo do jornal) É exactamente o que diz aqui. Exactissimamente. Não podem os pastores assustar os reba­nhos com ideias impróprias de rebanhos. Um Papa que fala a todos naquilo que todos não podem nem devem ter… é…

 

O SOTAINA

(mesmo jogo do médico em idêntica situação) Ah! esse jornal é muito bom, não há melhor jornal, eu mesmo sou conselheiro de assuntos religiosos… (a luz apaga-se sobre a cena do trono e dos microfones)

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Mas como? Tenho o subido prazer, a esplêndida satisfação de falar com…

 

O SOTAINA

(humilde, esfregando as mãos) Eu mesmo… eu mesmo… eu mesmo.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

E eu que sempre aguardava uma oportunidade de conhe­cer Vossa Reverência. Porque, permita que me apresente, eu sou… Oh… perdoe a imodéstia… eu sou o director do…

 

O SOTAINA

Do jornal que tem nas mãos. Que reconheço como defen­sor das mais sagradas causas da moralidade pública e privada, em todos os planos da ordem. E não digo ordem social por­que, a partir do momento em que, da palavra «social» deri­varam o socialismo, ela perdeu todo o conteúdo autêntico. De resto a ordem é só uma, una e indivisível.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Tem Vossa Reverência a máxima, a verdadeira, a única razão. Felizmente que ainda há, dentro das sotainas, quem defenda os bons princípios que, desgraçadamente, já não são defendidos do alto da sédia gestatória.

 

O SOTAINA

Oh, meu caríssimo e venerando irmão!… a sédia gestatória é só uma cadeira, e, para mais, uma cadeira usada só em cer­tas ocasiões solenes, e carregada às costas de uns quantos sujeitos.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Porque os princípios da nossa civilização são anteriores a ela, anteriores a nós, anteriores a tudo! E uma cadeira… Ah! meu Reverendo, que tremendo erro o Papa ser eleito! As eleições são a expressão da nossa representatividade de representativos da ordem representada pelos representantes que somos. Quem as ferir com um sopro ofende os mais sagrados dos nossos princípios. Mas, aqui entre nós, a cadeira papal devia ser hereditária.

 

O SOTAINA

Como?!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Hereditária.

 

O SOTAINA

Mas como?!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

É… na verdade, é uma problema. Mas será um problema? Sim, ante a necessidade de se impedir que a infiltração comunista atinja a própria eleição do Papa, será que esse problema importa? (ouve-se um tiro, o palco é subitamente invadido por um tumulto de repórteres, fotógrafos, ouve-se um clamor confuso, a iluminação é total para uma confusão que envolve as três figuras do proscénio)

 

UMA VOZ

Mataram o Papa!

 

OUTRA VOZ

O quê?

 

VOZES

Mataram o Papa!

 

UMA VOZ

Com três tiros, quando, após discursar urbi et orbi, pas­sava na sédia gestatória. (as luzes apagam-se de repente, para logo se acenderem para o proscénio com as três figuras de antes)

 

O SOTAINA

(ajoelhado e de mãos postas, olhos em alvo, um doce sorriso) Deus escreve direito por linhas tortas…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(lendo) É exactamente o que diz aqui. Exactissimamente (pausa) Mas… de que morreu o Papa?

 

O MÉDICO-OFICIAL

(procurando no jornal) Eu disse, eu disse. De colapso cardíaco.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Colapso? (sorriso malicioso para os outros dois) Foram os comunistas.

 

(AS LUZES APAGAM-SE)

Araraquara, 1964
* JS, Mater Imperialis (Teatro), Lisboa, Ed. 70, 1990 p. 45-56

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THE POPE’S DEATH

JORGE DE SENA

Translated by George Monteiro

 

The resignation of Pope Benedict XVI, and the many questions it raises, brings to memory The Pope’s Death, “one-act play” written by Jorge de Sena in Brazil in 1964, in Araraquara – such as the piece The Empire of the East. Regarding both, the author says: “For strange alchemy, the plays from 1964, written in Brazil, were reacting to the events that precipitated on April 1 this year.” In the same context, there is also the novel The Wondrous Physician, in which the protagonist is a victim of a long inquisitorial process and where it reads a “rimance […] that was a sort of anthem of the revolt of the people,” whose opening lines are “die the bishop and die the pope, / goddamned his clergy”, and ends “die everything, my folk / live the people and rebelliousness.” We reserve to the reader any possible inference from the recent events at the Vatican and those around the military coup in Brazil, almost 50 years ago.

In the original language, we can only track a sole staging of The Death of the Pope: one that was part of the program of the International Congress “Signs of Jorge de Sena,” passed at UNESP / Araraquara from August 30 to September 2, 1998, excellently performed by amateur group “Memorial of Athens” from the city of Matão, directed by Júlio César Ribeiro da Silva. In English, with translation of Prof. George Monteiro, the play took the stage at the University of California / Santa Barbara from July 31 to August 2, 1980, by initiative of the then student Pedro Sena, son of the playwright. Kindly provided by the translator, here we transcribe this version, later also published in Latin American Review, vol. 14 (Jan. / June 1986), pages 117-25.
 

Characters

The Medical Examiner

The Die-hard Reactionary

The Man of the Cloth

A Voice

Another Voice

Voices

 

Onto a totally darkened set enters a man, reading an immense newspaper. To the rhythm of his steps a diffusing clarity increasingly focuses, which, when he stops at the center of the proscenium, spotlights him. He is of indefinite age as are all conspicuous and sententious reactionaries, perfectly dressed in a style harking back to 1900. With great emotion he plunges into the newspaper, which a splash of light illumines harshly. He emits grunts of approval and anger imbued with the profoundest convictions. At the back, and to the left, the lights begin to focus on a small group: three figures deployed as in a Pietà. A veiled female figure has across her lap the semi-nude body of a young man whose head she holds and over which she bends while, to one side, a hieratic figure, dressed in a fashion that recalls an SS uniform, wears pince-nez and has in hand an object that, at his bending toward the cadaver, is seen to be a stethoscope, which he applies to its bony chest, listening with professional, im­passive attention. The figure straightens up, stiffens and advances, now well in the light, toward the proscenium; it directs itself to the audience, while the other man continues même jeu.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Ladies and gentlemen. In my capacity as a surgeon whose degrees have been conferred by the principal universities in the West, and who has been made doctor honoris-causa by all the others, except for some recently founded in the tropics to serve populations that are racially and culturally inferior; and in the fulfillment of my official duties as chief coroner for all the morgues of that same West I have just referred to, it behooves me to declare that this man is dead, unarguably dead, offering a complete picture of all the symptoms of clinical and nonclinical death. The fact that a woman who passes for his mother stubbornly holds him in her lap in no way alters this picture. He is dead; your Excellencies may well believe it. Besides, that a man is dead, when I so proclaim it—declare and ratify over my authorized signature—depends on nothing other than my declaration. If he is not, he will be. If he is, it’s clear that he is. If he was, it is a case that would depend only on exhumation after burial, an action that cannot be taken without my authorization, which authorization I can give only if the death certificate indicates doubts that it cannot indicate when it was I personally who issued it. Your Excellencies must become well aware of all this, since hypothetically you may find yourself in the same situation. (pause) The causa mortis… is perfectly clear. Cardiac failure subsequent to the passing of a sentence which was passed because it was just and which was just because it was passed. That the body shows, suspiciously, some bruises, cannot be denied. But it is my duty to establish clearly the following: men never die from the bruises or from the internal bleeding that may result from a sentencing, or that the search for truth and guilt may necessitate. Men always die of cardiac failure, seeing that in certain and well-known circumstances, the heart stops. That’s what happened with this fellow and that is what will happen to all of you. Forgive me, that is what will happen to your Excellencies.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(emerging from the newspaper) That is exactly what it says here. Exactly right. The death of a man guilty of disturbing the peace and disrupting civic order is always, speaking in clinical, anatomical, and pathological terms, a cardiac failure.

 

THE MEDICAL EXAMINER

(astonished at the interruption, breaks out into a smile, moves closer to the other man, and joins him, head down in the newspaper, saying) Ah, that newspaper is very good; there is no better paper. I myself am its consultant on matters of criminal medicine… (the light on the Pietà goes out)

(emerging in turn —from now on they will alternate in emerging from the newspaper) What’s this! Do I have the sublime pleasure, the splendid satisfaction of speaking with…

 

THE MEDICAL EXAMINER

The very person! The very person! The very person!

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

And I who have always hoped to have the opportunity, Sir, to know you! Because, permit me to introduce myself, I am—oh—forgive my immodesty—I am the editor of…

 

THE MEDICAL EXAMINER

But, my most noble doctor, very most eminent defender of the most sacred causes, common and not so common, to countries worthy of the name, you, Sir, are…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(with the air of a modest virgin) I am the editor of this plain independent page, and the infallible guardian of democratic freedom and other liberties, and the defender of all the great causes of national liberation, and the stainless and resolute bulwark of all the traditions and of all the rights legitimately granted by the written constitution as well as by the one that, although unwrit­ten, is ever inscribed in our old and patriotic hearts. Because, my illustrious clinician…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Necrologist, grand necrologist.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Because, my illustrious clinician…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Necrologist, grand necrologist.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Grand. Because…

 

THE MEDICAL EXAMINER

(interrupting) Because a patriot is not the one who wants to be but the one who can.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Because patriotism is a right, not a duty.

 

THE MEDICAL EXAMINER

A duty that is inherited, a duty that is a legacy, a duty that is purchased, a duty that is acquired…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

By blood, transmitted over centuries and centuries…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Spilled…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Or received through transfusions of strictly certified pedigree…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Since the good doctor must know better than I, the doctors, the ca… cariotists

 

THE MEDICAL EXAMINER

Ca… what?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Forgive me, Cairene.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Cai… what?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

The Cairene doctors…

 

THE MEDICAL EXAMINER

It is not possible! There is no such specialty in medicine!

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

In medicine? Cairene, from Cairo.

 

THE MEDICAL EXAMINER

From where?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

From Cairo, the capital of Egypt.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Ah, from Egypt. In Egypt there are doctors. Once, at a congress devoted to my specialty, I even found one, an excellent fellow, well-versed in cardiac failures. I do not know if he would be…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Cairene.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Yes, a cariotist.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Yes, that. Well there the doctors of law, scholars of the Koran, have decreed that in blood transfusions it is not possible for a believer to receive the blood of an atheist, a materialist, a communist. Do you not find this to be an ingenious measure? What guarantee do we have that pernicious ideologies are not dependent on the makeup of the blood? My racehorses are thoroughbreds, that’s why they run well. Impure blood is incontestably a source of social disturbance.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Most likely. Your editorship is a man of courageous ideas about sanguinity.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

I’ll tell you more, sir. It’s a shame, a sign of the depravity of the times, and of how pernicious ideologies sap the very foundations of the constituted order that we defend; it’s a shame, I repeat, that the Pope has not decreed something along the same lines. And much earlier, much earlier. Because, notice, the Holy Church is older by six hundred years than Mohammed.  So…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

So.

 

THE MEDICAL EXAMINER

So.

(at the back, and to the right, there begins to be discernible a papal throne in which a pope has nearly disappeared behind a forest of microphones, televi­sion lights, etc. — from this forest emerges a figure in a black soutane who moves toward the illuminated proscenium and addresses the audience)

 

THE MAN OF THE CLOTH

My beloved brothers. We are gathered here, in this room, while the Holy Father talks to the world, carrying the divine word to the corners of the Earth, reminding all mankind that we are brothers and that justice is equal for all those on Earth and in Heaven; we agree that the Holy Father, in his infinite goodness, in the sweetness of his most loving heart, exaggerates… Yes, my dear brethren, he exaggerates. Or rather it is not that he exaggerates. It is that the Holy Father does not notice that talking in a room to two dozen pilgrims or in cabinet to a half dozen bishops is not the same thing as allowing himself to be surrounded by those objects that do not discriminate among those who listen to them, when they repeat, to all corners things that the good people, the humble people, the simple people, cannot, in their pure simplicity, under­stand. Such talk only agitates them; it does not save their souls.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(emerging from the newspaper) That’s exactly what it says here. Exactly right. Shepherds must not frighten their flocks by promulgating notions inap­propriate for flocks. A Pope who talks to everyone about those things that they cannot have nor should have… is…

 

THE MAN OF THE CLOTH

(playing the doctor’s very game in the same situation) Ah! That news­paper is very good; there is no better paper; I myself am its consultant on religious matters… (the light goes out on the scene of the throne and micro­phone)

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

You mean? Do I have the sublime pleasure, the splendid satisfaction of speaking with…

 

THE MAN OF THE CLOTH

(humbly, wringing his hands)

The very person… the very person… the very person.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

And I who have always hoped to have the opportunity to know your Reverence. Because, permit me to introduce myself, I am—oh—forgive my immodesty—I am the editor of…

 

THE MAN OF THE CLOTH

Of the newspaper you hold in your hands. Which newspaper I recognize as the defender of the most sacred causes of public and private morality, in all the spheres of order. And I do not say social order because, from the moment in which socialism was derived from the word “social” the notion of social order lost all its authentic meaning. Besides order is only of one kind: it is whole and it is indivisible.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Your Reverence is right. Yours is the fullest, the truest, the only reason­ing. Fortunately, there are still those among men of the cloth who will stand up for the highest principles, those principles that, disastrously, are no longer defended from the height afforded by the Pope’s gestatorian litter.

 

THE MAN OF THE CLOTH

Oh, my dearest and venerated brother!… the gestatorian litter is only a chair, and a chair, moreover, used only on certain solemn occasions, and car­ried on the backs of so many subjects.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Because the principles of our civilization antedate civilization itself, antedate us, antedate everything! And a chair… Ah! my Reverend, what a grievous mistake it is to choose the Pope by election! Elections are an expres­sion of our representativeness of the representative elements of the order represented by those representatives that we are. Those who would even breathe on them offend our most sacred principles. But, just between us, the papal chair should be hereditary.

 

THE MAN OF THE CLOTH

What?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Hereditary.

 

THE MAN OF THE CLOTH

But how?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

It’s true… that is a problem. But is it a problem? Yes, but in the face of the need to stop communist infiltration before it reaches the very election of the Pope, can it be that this problem has that much import? (A shot is heard, the stage is suddenly overrun by a riot of reporters, photographers; a confused clamor is heard; lighting is total for a confusion which involves the three figures at the proscenium)

 

A VOICE

They’ve killed the Pope!

 

ANOTHER VOICE

What?

 

VOICES

They’ve killed the Pope!

 

A VOICE

Shot three times, when, after having spoken urbi et orbi, he was passing by in thegestatorian litter.

(the lights go out suddenly, so that they can go on at the proscenium with the three figures as before)

 

THE MAN OF THE CLOTH

(kneeling, hands folded, eyes limpid, a sweet smile) God writes straight through crooked lines.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(reading) That’s exactly what it says here. Exactly right. (pause) But… what did the Pope die of?

 

THE MEDICAL EXAMINER

(looking for it in the newspaper) I said, I said. Cardiac failure.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Failure? (smiles maliciously at the other two) It was the Communists.

(The lights go out).

A Noite que fôra de Natal

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

“Foi publicado pela Editora Estúdios Cor, como “brinde de natal” distribuído à crítica, aos seus clientes e amigos, em Dezembro de 1961, numa plaquete ilustrada com desenhos que seriam bons, se estivessem de acordo com o conto. […] Publicado o conto, e porque nesse tempo eu ainda não agredira as “viúvas de Aquilino Ribeiro”, teve ele boa recepção da crítica. Nem toda gente, é claro, sabia que Saulo de Tarso é São Paulo; e nem terá saboreado a alusão à morte de Pã, que provém, salvo erro, do De defectu oraculorum, de Plutarco; nem entendeu, que, influenciado eu há muito por um ensaio de Norman Douglas, em “Siren Land”, o imperador Tibério, me era simpático. Mas isso são questões de somenos importância… O que importa é que o conto agradou, principalmente a muitos que não perceberam, ou fingiram não perceber o que ia nele:  por exemplo, o escândalo de ser S. Paulo a aventar a hipótese, na conversa com o pagão, do adopcionismo (pela qual primitivos cristãos consideram Cristo elevado a Messias no momento em que Deus o teria escolhido, ou lhe dera uma consciência de sua missão), contra a qual foi precisamente o paulinismo quem fundou o dogma cristão”. JS. 

 

Se Deus desce em pessoa à humanidade é que abandona a morada que é a sua. Do mesmo passo, abala o universo. Alteremos do universo a mínima parcela, e todo o conjunto desaba.

Celso, cit. por Orígenes, in Contra Celsum

I

Era como se a noite, de negra, fosse apenas o estron-dear das vagas invisíveis no sopé da escarpa e a aragem fria que salina sentia na boca e nas narinas e, cortante, nas orelhas e na inserção dos caracóis da testa. Envolto no manto de lã, nada mais sentia; e os olhos, absortamente fitos na distância alta, além do parapeito, opaca e sem horizonte, não perscrutavam, apenas alongavam por ela dentro imagens que lhe enchiam a memória vaga.

— Marco Semprónio…

Voltou-se e só então ouviu, por sob o estrondo das vagas invisíveis, os passos arquejantes que haviam precedido o chamamento. No clarão indistinto que difuso vinha de entre as colunas do palácio, reconheceu a barba de Quintílio Vero; imagens da memória, refluindo também para os seus membros, deram-lhe a lembrança da barca, dos exercícios de natação pelas grutas, dos remos batendo na água transparente, e de um cadáver de escravo emanando de si, no azul do fundo, uma nuvem vermelha que se dissipava.

— Que é?

Quintílio Vero tentou ler-lhe no rosto a disposição de ouvi-lo. Mas havia, na inquietação que todo o agitava, uma decisão de falar.

— Os pescadores de Áqua Lívia, tu sabes. Marco Sem-prónio, os de Áqua Lívia — (e no tédio de Marco Semprónio desenhou-se a pequena praia com garotos saltando por entre o peixe que saltava também) —, quando dobravam o cabo, esta noite, ouviram…

— Ouviram o quê? — e a voz soou distante, distraída, timbrada da claridade dardejante da areia da pequena praia.

— Ouviram uma voz que gritava, não gritava, não, mas soluçava, uivava, era um rugido triste, dentro da noite, em cima do cabo, ou dentro dele…

Marco Semprónio, como que para precipitar as delongas narrativas, principiou a atravessar o terraço lajeado. Junto da estátua de Eros, que se erguia no sopé dos degraus da colunata, voltou-se, uma das sandálias no primeiro degrau.

Quintílio Vero, com o seu andar balanceante, aproxi-mou-se devagar. Marco Semprónio, olhando por sobre ele o negrume da noite além do parapeito, sorriu, torcendo os lábios.

— Marco Semprónio… eles ouviram uma voz que dizia… — e Quintílio Vero, esquecido das conveniências que se manifestaram num fugidio franzir do sobrolho de Marco Semprónio, sentou-se cabisbaixo no primeiro degrau, junto da sandália de cordões de ouro.

— Ouviram então uma voz. E que dizia a voz? — perguntou Marco Semprónio, fitando a nuca revolta do pescador.

Quintílio Vero torcia as mãos. Marco Semprónio começou a sentir uma leve agonia, como que um enjoo, e teve subitamente um frio que lhe lambia as pernas depiladas. Aconchegou-se no manto, e subiu as escadas.

A voz do outro chamou-o, quando roçava a coluna de mármore e o manto se pegava nos espinhos da roseira que a envolvia.

— Marco Semprónio… Avisa o Imperador… Eles ouviram dizer… era o cabo quem falava… que tinha morrido…

Marco Semprónio parou sem se voltar.

— Marco Semprónio, não me deixes com esta notícia. Nem digas ao Imperador que eu vim trazê-la. Eles ouviram dizer que morreu o Grande Deus Pã.

Marco Semprónio voltou-se, desceu os degraus até à estátua, encostou a cabeça às ancas de íEros e perguntou:

— O Grande Deus Pã?

Quintílio Vero não respondeu.

— Mas os deuses não morrem, Quintílio Vero, os deuses são imortais.

— Eu sei, Marco Semprónio; eu sei, que sou piedoso. Mas foi o que eles ouviram. E a voz uivava tanto, que deve ser verdade.

Marco Semprónio veio até junto do vulto agachado. Sob o manto, sem desagasalhar-se, tirou da bolsa moedas que tilintaram no lajedo.

— Vai, Quintílio Vero, e não repitas a ninguém essa história. E os pescadores de Áqua Lívia que a não repitam também, ou o Imperador os mandará matar por blasfemos.

E Marco Semprónio subiu os degraus e penetrou no palácio.

II

Na grande sala, iluminada por archotes fumarentos, Marco Semprónio passou devagar por entre os coxins dispersos, alçou cuidadosamente as pernas por sobre um escravo estendido e nu, que já devia estar morto, e reclinou-se, alargando o manto, ao lado do imperador. O olhar vagueou-lhe do rosto envelhecido do César para outro escravo também nu que, em frente deles, pendia, pelos pés, de um varão de ferro, com as pontas dos dedos a roçarem de leve o mármore do pavimento. Mais uma vez Marco Semprónio verificou que um corpo de homem, assim suspenso e exangue, tinha uma beleza estranha, que não teria noutras circunstâncias, por belo que fosse. E aquele era-o. As imagens que haviam flutuado na noite, além do parapeito, configuravam-se agora na recordação daquele corpo vivo, vigoroso, jovem, tão submisso e hábil, e que ele próprio cedera ao imperador. Apurando a vista, examinou-o minuciosamente, e deteve os olhos no pequeno golpe no pescoço, de onde, escorrendo em fio pela cabeça acima — sorriu da inversão dos termos que a suspensão impunha —, o sangue pingava escuro para uma bacia de prata entre as mãos pendidas. Um instante apenas, meditou em porque esquecera a bacia, a não vira quando se sentara, mas às mãos, mais nada. Por certo as mãos pareciam vivas, e é que estavam ainda vivas. Sentiu um saboroso arrepio, uma saudade antecipada e agradável daquelas mãos que morriam. Suspirou.

O imperador dormia, respirando tranquilo, ridiculamente descomposto, e no chão estava o punhal sujo de sangue. Marco Semprónio curvou-se, apanhou o punhal, limpou-o na túnica de Tibério, pousou-o novamente no chão, e levantou-se. Olhando de esguelha o imperador, bateu palmas. Dois escravos surgiram com uma pedra e uma corda, que amarraram aos pés do cadáver por cima do qual passara Marco Semprónio.

E, carregando-o, saíram para o terraço. Marco Semprónio aguardou, de pé, sem olhar o imperador, que eles voltassem, e fê-los desaparecer com um gesto.

Tornou a sentar-se, meio recostado. E divertiu-se a examinar o imperador, que, pelos fugidios brilhos que entrevia nos seus olhos semicerrados, agora fingia dormir. Como estava velho, cheio de refegos no pescoço e no corpo! Como parecia um sileno emagrecido e exausto! Como as rugas e as peles pendidas das faces pareciam com o seu peso esticar mais a pele do crânio, que brilhava suada sob o cabelo ralo! Como o nariz parecia uma tromba ou um sexo, e como o sexo parecia um nariz! Fingindo solicitude e carinho, desenvencilhou-se da sua capa, e com ela cobriu o imperador. Tibério abriu os olhos, sorriu-lhe, acomodou-se melhor sob a capa. Os lábios finos e descaídos, que pareciam esvaziados do que haviam sido de carnudos, entreabriram-se.

— Obrigado, Marco Semprónio. Que seria de mim sem os teus cuidados?

Marco Semprónio baixou modestamente os olhos, e disse: — Bem sabes, César, que a vida para mim não vale senão ao teu serviço.

— E não é fácil servir-me, não é fácil — e a voz tornou–se-lhe amarga para acrescentar: — Se até eu estou farto de servir-me! — e depois, com humor, continuou: — Mas também há quase setenta anos que me aturo e tu, Marco Semprónio, há dez apenas.

— É como se tivesse sido ontem.

— E é verdade, porque te estimo. Mas igualmente é verdade, porque, nesta ilha e neste palácio, tu e eu suprimimos o tempo. Graças a nós, o tempo não passa. Ou passa como as ondas sempre iguais e que são sempre outras com o mesmo mar. Não temos, nesta ilha, rios, Marco Semprónio. E os rios é que são o tempo que passa. Quando agora mandaste deitar ao mar o escravo cuja morte algum prazer me deu, tão pouco, eu claramente senti como aqui nem com a morte o tempo passa. Ou não passa precisamente porque é morte. Repara, Marco Semprónio, naquele sangue que pinga. É como se a vida se esgotasse na água que pinga na clepsidra, e a morte se esgotasse, e com ela o tempo, naquele sangue que escorre, gota a gota, de uma clepsidra humana que voltámos. Quando o sangue pulsa em nossas veias, ele é o tempo que passa. Quando escorre assim, é o tempo que fica.

— Mas, César, porque não abres as tuas veias, para que, com o teu sangue, o tempo acabe?

Os olhos de Tibério olharam ironicamente Marco Semprónio.

— Porque, se as abrisse ou mandasse abrir, eu seria igual àquele escravo que me deste. Seria alguém, um ser, um animal, a quem, como imperador, eu dava a morte. E a última coisa que eu desejo, Marco Semprónio, e por isso deixo que o Império se governe, é ser imperador de mim mesmo.

— Nunca deixaste de governar o Império, César.

— Não, na verdade nunca deixei. Mas não consigo governá-lo senão longe dele. Eu cansei-me de traições, de perfídias, de ambições, de lutas, das pompas imperiais, dos sacerdotes, da família, de tudo. No meio disso, eu não podia governar nem ser quem sou. Assim, nesta ilha, que é como se fosse no fim do mundo, eu sou para eles o Imperador, o imperador ideal, o imperador invisível, que os deixa fazer todo o mal que querem e todo o bem que desejam, em meu nome, e cujos decretos sagrados às vezes descem sobre eles como uma voz divina. Os meus decretos são como a chuva de ouro que fecundou Dánae. E a lenda das minhas crueldades e das minhas devassidões, aqui, ampliada pela ignorância e pela fantasia de cada um, que tem os limites da nossa, mas não tem a minha liberdade para executá-las, só me torna, cada vez mais, um deus temeroso e longínquo que vive na imaginação deles. Por minha parte, nunca me senti tão humano.

Novamente fitou, com fascinação entediada agora, a bacia onde o sangue coalhava espesso.

— Dizem os poetas, Marco Semprónio, que morrem jovens os que os deuses amam. Acreditas que eu amei esse escravo? Ele era belo, jovem, inteligente, sabias que ele era inteligente?, e está ali suspenso, esvaindo-se tão submissamente como um cordeiro que não entende porque é sacrificado pelo arúspice. Pois é verdade, eu amava-o muito; e quero crer que ele foi das poucas pessoas, admitindo-se que um escravo o é, que às vezes se esqueceu que eu era o Imperador. Provavelmente, os deuses amavam-no, porque os homens, qual sou, nunca acreditei que possam ser deuses.

— Foste então o instrumento do amor dos deuses, César Augusto.

— Fui, Marco Semprónio, e não em vão.

Marco Semprónio deitou-se para trás, de olhos fechados. Tibério sentou-se, e olhou-o. Sem abrir os olhos, Marco Semprónio perguntou: — Que foi que ele revelou antes de desfalecer?

— Que morria feliz, porque hoje nascera um deus. Não falou muito claramente, era um murmúrio indistinto, foi preciso que eu me ajoelhasse e encostasse o ouvido à boca dele. Já vou ficando surdo para escutar os oráculos.

Tibério levantou-se, acomodou pelos ombros o manto de Marco Semprónio, e aproximou-se do escravo suspenso. De leve, percorreu-lhe com uma das unhas o flanco, que estremeceu num arrepio.

— Marco Semprónio, ajuda-me a despendurá-lo.

O tribuno sentou-se, olhando surpresamente o imperador. Era tão raro aquilo.

—Ajuda-me a despendurá-lo, Marco Semprónio. Eu quero que ele viva.

Mais surpreso ainda, o outro levantou-se, e disse: — Mas, Tibério, se queres que um deus tenha nascido, é preciso que o deixes morrer.

O imperador não lhe respondeu. Então, ambos, erguendo o corpo inteiriçado e também, como por partes, flácido, tiraram do varão o gancho que havia na corda que lhe amarrava os pés, e conseguiram deitá-lo, cambaleantes, no leito próximo. Tibério, rasgando uma tira da túnica, fez-lhe uma ligadura no pescoço. Marco Semprónio seguia os movimentos do imperador: pegar numa ânfora, deitar numa taça um pouco de vinho, vertê-lo na boca entreaberta, debruçar-se para os olhos esbugalhados e vítreos.

— Marco Semprónio…

Este inclinou-se para o escravo, afastou Tibério com um gesto e, curvando-se, auscultou o peito imóvel e rígido. Depois, foi a uma mesa próxima e trouxe um espelho de metal polido, que chegou à boca entreaberta e que examinou.

— César Augusto, ele está morto.

III

Marco Semprónio recordou os imperadores que a todos tinha conhecido de perto: o grande Tibério, que lembrava com saudade; Calígula, que se imaginara poder ser Tibério; Cláudio, que tremia de ser imperador, e este petulante de agora, cuja vida (era evidente, pois que até ele, Marco Semprónio, conspirava) devia estar por um fio. Na sua «vila», contemplando os netos que brincavam à sombra das parreiras, vigiados por um escravo idoso (como sabia histórias, como era músico, que lições de retórica não dava ele às crianças!), Marco Semprónio não se queixava (ah, não) da vida. Queixava-se, sim, das dores que o não largavam, nem naquela secura tranquila das encostas floridas. A esposa morrera (o túmulo, que mandara fazer-lhe, era umas das curiosidades mais admiradas na Via Apia), as filhas haviam casado (eram de uma delas os pequenos), os dois filhos viviam longe, na Bitínia um, na Tarraconense o outro, ambos magistrados, ambos casados e felizes. As suas comunicações científicas sobre a rigidez dos corpos, e a distribuição dos humores sanguíneos, haviam-lhe granjeado o respeito dos sábios do Império, que todos conheciam as possibilidades que tivera de fazer experiências. Igualmente estimada era a sua «Apologia de Tibério», de que Nero mandara fazer uma edição especial para ser distribuída aos funcionários (coitado, convencido de que, por comparação, se justificaria).

Sentado no banco de pedra ao pé do lago, Marco Semprónio olhava o poente que avermelhava as folhas das parreiras, e punha nos cachos, quase maduros, laivos purpuríneos. Olhando o poente, os risos das crianças eram-lhe uma música suave sublinhando o fim da tarde, com os gritos longínquos dos pastores, os balidos das ovelhas, os chocalhos, as conversas dos escravos no pátio da cozinha.

Pela álea areada, um escravo vinha correndo em direcção a ele. Era o ibero que o filho lhe mandara. Marco Sem-prónio sentiu um baque, um mal-estar, uma angústia, uma curiosidade receosa. Nero teria caído? Tê-lo-ia envolvido numa das conspirações que descobria todos os dias? Ou chamava-o, mais uma vez, para aconselhá-lo na perseguição àquela seita absurda que fazia todas as provocações necessárias para ser perseguida e clandestina?

Marco Semprónio olhou o seu jovem secretário, em quem tinha (não é verdade que tinha?) a maior confiança, a ponto de perdoar-lhe inúmeras faltas, caprichos, grosserias. Átis (era o nome que lhe pusera) parou junto dele, e disse:

— Marco Semprónio, está ali um homem à tua procura, que diz ser um velho amigo teu, mas nunca o vi. Pede para falar-te.

Marco Semprónio achou que, como sempre, Átis dramatizava para dar-se importância.

— Os meus amigos velhos já morreram todos — e sorria.

— De onde é que ele me conhece? Ele disse?

— Da Judeia e da Síria. Diz que tu e ele eram amigos, quando foste o pretor de Antioquia.

— Antioquia? — e Marco Semprónio levantou-se, aprumando com esforço a elegância que era ainda a sua. — Átis, como é ele? Um homem alto, moreno, de barba negra, olhos de fogo, que não é capaz de estar quieto?

— É alto e moreno, e tem olhos de fogo. Mas a barba é grisalha, e nunca vi ninguém tão sereno a não ser meu amo Marco Semprónio.

Este, dando uma palmada no ombro de Átis, declarou:

— Só pode ser o Saulo. Manda entrar.

— Para onde? Para aqui?

— Para a biblioteca. E serve-lhe, enquanto me preparo, daquele Salerno especial. Como ele gostava de Salerno!

E, seguindo Átis que corria, Marco Semprónio, apoiado ao seu bastão, caminhou para casa. Momentos depois, lavado e perfumado, com roupas impecáveis de brancura, assomava à porta da biblioteca e, alçando cuidadosamente as pernas, para não tropeçar numa série de livros que, espalhados no chão, eram o sinal da sua vida estudiosa, aproximou-se do vulto que, de costas, examinava um rolo retirado da prateleira dos poetas.

Marco Semprónio parou e disse: — Tens o mesmo faro de sempre — e já o vulto se voltava, súbito, de papiro na mão, e avançavam, de braços estendidos, um para o outro, quando concluiu: — É um manuscrito grego. — E abraçavam–se, com certa efusão convencional, quando explicou: — São poemas atribuídos a Platão, mas creio que são falsos.

Ficaram depois frente a frente, observando-se mutuamente. E o outro, com voz suave e firme, disse:

— Toda a filosofia é falsa, Marco Semprónio.

Sentaram-se ambos, a um gesto de Marco Semprónio,

e o outro pousou na mesa, onde um jarro e taças brilhavam, o rolo de papiro.

—: Há quantos anos! Que fazes tu em Roma? — perguntou Marco Semprónio. —Nunca mais soube de ti… Que tens feito?

— Nada do que devia. Mas estou em Roma para servir a causa da justiça e da liberdade.

— (Nero é um monstro, com efeito. Não imaginei, porém, que fosse preciso vir da Síria conspirar em Roma, Saulo… Aqui, o mal é precisamente haver conspiradores de mais.

¦— Bem sei, mas para nós a situação é muito grave. E foi por isso que te procurei, em risco de comprometer-te e com-prometer-me.

— Porquê?

— Porque eu sou, Marco Semprónio, pela vontade do Senhor, um dos chefes desses cristãos que tu persegues.

Marco Semprónio olhou-o, estupefacto: — Tu, Saulo?

— Eu.

— Como é possível? Mas há cristãos da tua categoria? E, quando alguém da tua categoria se torna cristão, consegue ser cristão de categoria?

— A minha categoria não era, e não é, nenhuma, Marco Semprónio.

— Mas tu rias deles, Saulo, que eu recordo.

— Ria. Acontece, porém, que eu não sabia o que fazia, e crucificava todos os dias o Senhor em mim mesmo.

Marco Semprónio calou-se, e um silêncio se demorou na biblioteca, durante o qual se ouviram, abafados, no crepúsculo que punha sombras pelos cantos, os ruídos domésticos da «vila». Foi Saulo quem o quebrou.

— Marco Semprónio, é preciso que a perseguição acabe.

— Qual perseguição? Sabes bem que os teus amigos tentaram incendiar Roma. Foste tu quem ordenou?

— Não fui. Cheguei por isso mesmo. Foi um erro monstruoso que é preciso corrigir. Há sempre quem suponha, na sua paixão, que destruir Roma, a devassa Roma, a pecadora Roma, é dar testemunho dos desígnios de Deus. Mas só uma Roma devassa e pecadora deve ser destruída pela oração e a humildade: a que corrói os nossos corações. Eu nunca falei de outra. E quando vós, romanos de Roma, os perseguis, apenas suscitais um amor do martírio, que, um dia, será amor da perseguição. O meu mestre disse: «Amai-vos uns aos outros.» É no amor que o Senhor nos conhece e o conhecemos. Venho pedir-te que uses da tua influência, que é grande, para sustar, no começo, esta cadeia de erros. Para que Roma não seja os Neros que a governam, nem os cristãos venham a ser os Neros que hão-de governá-la.

Marco Semprónio ficou pensativo, e depois fitou o rosto moreno, de nariz fino e longo, as barbas grisalhas e, por fim, os olhos com aquela ardência de sempre: — Mas, Saulo, eu não tenho, esta é a verdade, influência alguma. Neste momento, ninguém a tem. E não creio, desculpa que te diga, que alguma vez os cristãos governem Roma.

— Hão-de governar o mundo, Marco Semprónio. E hão–de até fazê-lo maior, além das Hespérides, para maior glória de Deus.

— Estou a lembrar-me das nossas conversas de Antioquia. Do entusiasmo com que discutias, pela noite dentro. Saulo, tu transferiste para a religião o teu entusiasmo apaixonado. Naquele tempo, todas as filosofias te eram verdadeiras, quando eu achava que nenhuma o era. E hoje, quando eu acho que só a filosofia pode ser verdade, ah, uma filosofia que eu nem mesmo sei o que seja, tu achas que nenhuma o pode ser e que os cristãos hão-de governar o mundo… Quem sabe o que os fados nos reservam? Mas Roma é tão dura, Saulo, que nem nós veremos, nem os nossos netos, uma tal coisa.

— Mas, se tens netos, Marco Semprónio, pensa neles.

— Se eu pensar muito neles, Saulo, são eles quem não pensará em mim. Mas que queres tu que eu faça? Que posso fazer por ti, apenas por ti, já que os teus cristãos, segundo entendo, se não contentam com ser teus?

— Nem têm que contentar. É sozinhos que os homens se salvam ou se perdem. Deus não lhes dá mais do que uma alma, e o seu infinito amor, e os preceitos que devem entender com o coração. Sempre insisti nisso em tudo quanto escrevo.

—São teus esses escritos que por aí circulam, anunciando a chegada próxima do reino de Deus? E contando histórias de milagres?

— Nem todos. E só porque o Espírito sopra onde Ele quer é que eu não sei dizer-te, nem quereria, quais serão os meus.

Marco Semprónio sorriu: —Alguma coisa te ficou, bem que eu dizia, de quando eras filósofo. Mas que pensaste que eu poderia fazer? E, repito, que eu, se puder fazer, o que não creio, só farei por ti, em nome da nossa velha amizade.

Tornou a fitar nos olhos luminosos e profundos o interlocutor, e uma perturbação o percorreu.

— Que eu não sei se podes ser o mesmo amigo. Deves ter ouvido, a meu respeito, horrores. Em Antioquia a minha fama precedera-me. Se mudei muito, se ninguém lembra já o que mais de quarenta anos de Império tornou vulgar, não menos devo ser, para ti, uma dessas Romãs corruptas, um desses corações que não há incêndio que purifique.

— Como te enganas, Marco Semprónio! Tu não conheces a infinita caridade do Senhor, o poder que ele tem sobre a ^Natureza. Nenhum homem pode gabar-se de não ser inestimável aos olhos de Deus. E tu próprio, só porque falaste, acabaste de confessar isso mesmo.

Marco Semprónio franziu o sobrolho, e soltou uma leve gargalhada, pousando com firmeza divertida as mãos nos pontiagudos joelhos.

— Saulo, a melhor maneira de que eu possa ser-te útil não é começar por converter-me.

O outro levantou-se, e deu uns passos pela sala, remexeu nas estantes e, cruzando os braços, encostado a uma, olhou Marco Semprónio e disse: — Nem tenciono. De resto, não te esqueças, nós só procuramos aquilo que, no fundo dos nossos corações, já havíamos encontrado.

Marco Semprónio tossiu secamente.

— Saulo, vou dizer-te uma coisa. Tu falaste do poder do teu Deus sobre a Natureza. Quero crer que o teu Deus se parece com a essência divina dos alexandrinos que estimavas tanto. Mas não importa. Além de que os teus cristãos, na maior parte escravos de todos os cantos do Império, não devem, como tu eras, ser entendidos em alexandrinismos. Sabes que, vai para quarenta anos ou mais, eu era, em seu exílio voluntário, o companheiro fiel do imperador Tibério, que os deuses tenham na sua santa glória. Certa noite, e eu nunca contei isto a ninguém, nem mesmo, nessa ocasião, a Tibério, um pescador veio dizer-me que outros pescadores haviam ouvido, dentro da noite, uma voz que anunciava a morte do deus Pã. Ao imperador, um escravo muito amado, que se esvaía em sangue, anunciara, antes de morrer, oh, eram experiências que nós fazíamos, que morria feliz porque nascera um deus. Ambos os factos sucederam na mesma noite, uma noite cerrada em que nada se via. Eu não acredito em portentos. Achas que as duas coisas se relacionam? Quando foi que nasceu esse homem que os cristãos consideram Deus, um deus mortal?

— Dizes que isso foi há quarenta anos. Nessa altura deve .Ele ter começado a pregar a Palavra de seu Pai. Não me parece que tal noite coincida, pois, com o nascimento dele, mais de vinte anos antes, nem com a sua morte na cruz, alguns anos mais tarde.

— Tibério, depois, mandou fazer inquirições secretas por todo o Império. A história da morte de Pã foi recolhida nos pontos mais distantes. A do nascimento de um deus não foi. Ou não o foi, por maior excesso ainda, já que, para toda a gente, se lhes perguntarmos, há sempre um deus que está nascendo. Será que aquele escravo era cristão? Era tão moço, viera para Roma quase criança, tu dizes que o teu Mestre começou a pregar nessa época, não é possível.

Saulo desencostou-se da estante, veio até Marco Semprónio, parou diante dele, que levantou os olhos papudos e vazios.

— Marco Semprónio, tu sempre meditaste nisso ou foi agora, ao falares comigo, que te lembraste?

— Na verdade, não sei.

— Porque é possível.

— Possível?

— Sim. Imagina que foi nessa hora que Ele reconheceu em si a sua missão, e sentiu em si mesmo que era filho de Deus e o próprio Deus. Não foi, portanto, nessa hora que o meu divino Mestre nasceu de novo, pela segunda vez, na plena integridade do seu Ser? E no momento em que Deus, Ele e a Palavra se tornaram um só, uno e indivisível, na sua consciência, não foi que o deus Pã morreu?

Quase se não viam um ao outro. E ficaram ambos silenciosos e imóveis, até que um escravo entrou com uma candeia que pousou na mesa. O jarro brilhou. O escravo, tão suavemente como entrara, saiu.

Marco Semprónio levantou-se e perguntou: — Voltas para Roma esta noite? Ficas para cear comigo?

Saulo respondeu: — Volto.

— Ao menos bebeste desse vinho de Salerno, que mandei servir-te? Tu gostavas muito de Salerno.

— Não bebi.

— Então bebamos juntos uma taça.

Foi à mesa, encheu duas taças, uma das quais estendeu a Saulo. Este pegou-lhe, e ambos, de taças em punho, eram iluminados amareladamente pela candeia.

Saulo disse: —Sabes, Marco Semprónio, que o vinho santificado é o sangue do meu Mestre?

Marco Semprónio pensou: «Tibério bebia o sangue dos escravos», mas respondeu apenas: — Não, não sabia. — E levantou a taça: —Para que os deuses, todos os deuses, nos sejam propícios.

— Para que o Senhor te proteja.

Beberam e pousaram as taças.

— Saulo, eu na verdade não tenho influência alguma. Mas farei o que puder.

Foram caminhando para a porta, tropeçaram nos rolos que estavam no chão.

— Saulo, se fores preso, não deixarei que te torturem, que te crucifiquem. Tu, afinal, és um cidadão romano. Só podem decapitar-te.

— Eu nunca invocaria, para tanto, a minha condição de cidadão romano, que meu Mestre não foi, porque não sou mais do que Ele, na minha pequenez humana. Mas agradeço-te, porque, último dos seus discípulos, não sou digno da cruz em que Ele morreu.

— Não terei influência para mais.

— É muito já. É tudo. Deus te abençoe.

Marco Semprónio não o viu sair.

 

Araraquara, Dezembro de 1961.

In: Antigas e Novas Andanças do Demónio, 4a.ed., Lisboa: Ed. 70, 1984. pp. 135-148.

(As informações aqui fragmentariamente reproduzidas como introdução encontram-se nas “Notas” finais ao livro.)

 

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Porto Grande (S. Vicente de Cabo Verde)

“Duas Medalhas Imperiais com Atlântico”, Antigas e Novas Andanças do Demónio

Escrita em 1940 e com forte marca autobiográfica (recorde-se que o jovem cadete Sena deixara a Armada em março de 1938), esta primeira parte de “Duas Medalhas Imperiais com Atlântico”, hoje em Antigas e Novas Andanças do Demônio, ganhou sua primeira publicação, de modo autônomo, no número 98 de O Mundo Português, de fevereiro de 1942. Misto de conto, crônica e ficção, constitui relato pungente da miserável realidade de Porto Grande nesse tempo “imperial” português.
Ao fim da tarde, a baía vista de cima dos mastros, não reflectia só o céu. O mar costuma reflectir a cor de todo o céu e desprezar as nuvens, mas, naquelas tardes serenas, até os vultos dos navios estavam inteiros dentro de água e dela subia, em diagonal até à superfície, uma outra corrente de âncora.

Era então muito nítido no contra-luz do sol já posto, aquele perfil humano formado por vários montes. E um pequeno barco atravessava a baía, com imperceptíveis arrancos de remadas no seu deslizar vagaroso; parava junto de uma pequena torre escura e solitária, uma luz se acendia e o barco voltava, com o mesmo cerimonial mais cadenciado ainda.

Sabia-se, porém, que a torre não era torre, mas a chaminé de um barco afundado. Contam que um temporal terrível ali encalhou e afundou o barco de cabotagem entre as ilhas. (Talvez nem temporal nenhum. Por que hão-de ser terríveis os temporais que dão naufrágio? E por que não imaginar a tragédia maior de um singelo afundamento nesta serenidade?) O barco de agora está ali do outro lado, muito branco — e, não tarda uma linha, vamos embarcar nele. Também podemos dar uma volta à baía aqui dentro, ensaiar mesmo — e àté a remos, com certo esforço e receio, lá podemos ir — uma incursão no canal, recordar o contorno do Ilhéu dos Pássaros. De resto, a encosta da ilha de Santo Antão, além defronte, é uma rampa tão vasta que sair das ondas e subir por ali acima é capaz de não custar nada; ficávamos, apenas, sujos da sua terra vermelha.

Mas estamos no mastro, por enquanto. Este segundo cesto em que nos encontramos é, como o primeiro, apenas uma plataforma — e, de verdade, não se chama cesto, chama–se vau do joanete. Sério, quem se chama cesto, e de gávea, é o que está mais abaixo. Os outros mastros também têm tudo igual, mas este é o mastro grande. Mastro grande! O céu, visto daqui, é cónico.

Reparem. A ilha toda parece que foi chegando por pedaços, mal soldados e mal limados ainda, que se reuniram à volta de uma baía inicial, abstracta. A única montanha verde ergue-se por detrás da cidade — toda aquela verdura será vegetação poderosa, daqui parece musgo; o único terreno verde, verde de poucas árvores, está nuns areais entre a cidade e os montes de perfil humano, e o nome diz que há lá uma ribeira.

A cidade. Desembarca-se numa ponte-cais. Uma vez, à chegada da canoa, na água andavam manchas vermelhas fervendo. Eram pequeninos peixes que rodeavam os pilares. Serão estes peixes os que espinoteiam dentro do corpo dos afogados?

Muitos garotos esperam — Money! Money! — e as ruas da cidade sucedem-se com casas baixas. Portas, portas remendadas de tábuas. Há casas mais altas com varandas cobertas e vazias de gente. Passa-se um largo ajardinado. Um coreto. Em certos dias, uma espécie de banda toca «mornas», e as pessoas aparecem, vão-se juntando, juntando, e percorrem apressadamente o perímetro exterior do jardim, numa aplicação de fuga metódica. Raparigas escuras, de grandes olhos luminosos e uma humidade branda nos seus modos. Nos arruamentos ensaibrados, segue-se ao compasso da música.

Nas praias de pedras, o mar rola-as, traz umas, leva outras. O barulho, porém, não se ouve aqui. É um silêncio a esta altura, os sons sobem devagar, cansam-se, pairam no ar com as asas abertas.

Será uma águia de asas abertas, quem além está toda de bronze, à beira-mar? Passou um avião; era o primeiro, arranjou-se uma pedra branca e acrescentou-se à escuridão da ilha. As casas tão manchadas! Têm gente dentro, gente esperando a noite, o dia seguinte, a voz surda das ondas largas da calema (quando for tempo da calema, os mastros vão a um lado, hesitam, voltam, vão ao outro lado, hesitam…); as ondas de calema não são sinceras para com o mar, não lhe sobem à flor da pele.

Um dos poucos automóveis da ilha passa na estrada ao longo da baía; irá ao outro lado, que não sei se existe, ou subirá até ao miradouro isolado que domina a entrada — isolado, a ele vêm dar todas as verdades do mundo.

Mas também é verdade — e não vai lá — o peixe-martelo que mergulhara, um dia que andei num escaler à vela, e que estava, lá em baixo, desconfiado, sentindo a sombra do barco sobre ele. Uns pretos que o tinham visto fugiram para terra, fazendo voar na ponta dos remos a canoa pequena. Não devem ser — e quem sabe? — os mesmos pretos que saltam à água para apanhar moedas, quando os navios chegam. A moeda cai, vai descendo cerimoniosamente, e a sombra negra aproxima-se, apanha-a. Outra sombra negra se aproxima. Estremeci de medo, sentindo eu próprio a mordedura incrível, como a imaginei nos dias de banho na praia de pedras. Mas não: é outro preto; ambos sobem, riem, esperam mais moedas.

Os meus olhos descem. O navio parece um charuto, e nós tão fora! Um marinheiro vai andando para a proa; leva as horas consigo, dá-as ao sino, o sino toca.

Afinal não chegámos agora a embarcar no pequeno paquete, não visitámos ainda Santo Antão. E é pena, porque, quando voltássemos à noite, encontraríamos, já dentro da baía, a frota de pequenos barcos da pesca da baleia, com a qual nos teríamos cruzado no mar. Uma peça na proa de cada um, «passarelle» da ponte até à proa e, a meia nau, os arpões enfileirados verticalmente e descansando; aponta-se à baleia, e o comandante vem correndo pela «passarelle» disparar a peça.

Toca o sino outra vez. Escureceu quase de todo — o sino adiantou a escuridão. Olhemos, ainda uma última vez este «Porto Grande». Agora vamos descer. Desçam com cuidado. Eu fico mais um instante. Adeus.

Adeus… No cais, no último dia, crioula e flébil, com a criança ao colo, cujos cabelos louros brilhavam de um navio que viera do Norte, ela dizia-me: —Mas leva, leva… — e estendia-me aqueles olhos azuis num corpinho esfarrapado e escuro. Eu perguntei: —Mas tu dás-me o teu filho? (como podia eu levá-lo, que loucura a dela). E ela respondeu–me: —Leva… se ele fica aqui, morre de fome.

1940.

Amparo de Mãe

Peça em um ato

Maio, mês de Maria, mês das mães. Marias e mães são relativamente escassas nas páginas de Sena. Das poucas mães — recordemos a de "Super Flumina Babylonis" e a de "Homenagem ao Papagaio Verde" — nenhuma é exemplo da mãe ideal, ou idealizada. Nesse elenco maternalmente pouco ortodoxo também figura a D. Felismina de Amparo de Mãe, peça abaixo transcrita na íntegra. Datada de 1948, é a primeira das 6 peças em um ato assinadas por Jorge de Sena e foi originalmente publicada na Unicórnio, de maio de 1951. Considerada pelo autor como "sátira violenta e feroz" e "de ferocidade incrível […] afirmou: "nos tempos que correm é irrepresentável". Contudo, no posfácio de 1971, que acompanha a 1a. edição das pequenas peças reunidas, sublinha: "uma observação ainda, referente à eventual encenação […]: Amparo de Mãe, no seu expressionismo realista, exige rigoroso respeito da direcção pelo texto e suas rubricas".

 

PERSONAGENS

Belinha, a defunta; manequim que não fala.
D. Felismina, sua mãe, idade indecisa.
D. Casimira, vizinha prestável, idade mais indecisa.
D. Rosa, parenta de D. Felismina.
D. Conceição, amiga de D. Felismina.
D. Placídia, visita da casa.
D. Edwiges, outra vizinha, pouco prestável.
Aninhas, irmã de Belinha.

 


A cena representa uma dependência mobilada modestamente, misto de casa de jantar a que foram retirados alguns móveis e de sala de visitas sem móveis. É de tarde, o sol teima em penetrar pelas janelas semicerradas. A defunta está entronizada a meio da quadra; em volta, as senhoras velam, lacrimejam e conversam. Da D para a E ou da E para a D, estão sentadas pela seguinte ordem: D. Edwiges, D. Placídia, D. Conceição, D. Casimira, D. Felismina, D. Rosa. As conversas supõem-se em voz baixa e prosseguindo sempre, embora só se «ouçam» de quando em vez.


D. Placídia
(para D. Edwiges) Ai credo!… Nem me diga!…

D. Edwiges
Que eu até julgava que eles não eram casados.

D. Placídia
Lá isso eram. Posso garantir, que muito a pesar meu fui madrinha do casamento.

D. Edwiges
A pesar seu?

D. Placídia
A pesar meu (suspira e cala-se). (pausa)

D. Edwiges 
Minha senhora…

D. Placídia
(fazendo esforços para nada dizer de importante) Está calor aqui… As janelas, neste tempo, assim fechadas… É preciso deixar uma gretinha… (para D. Conceição) Está bastante calor, não acha?

D. Conceição
Muito, minha senhora. (abana-se com as luvas) Também acho. (para D. Casimira) Que calor, não está?

D. Casimira
Não sinto… É das janelas fechadas…

D. Conceição
Nem é saudável ter as janelas fechadas. Uma gretinha… ao menos…

D. Casimira
Ai eu abri… Mas vou ver. (vai às janelas, arranja-as. As outras seguem-lhe os manejos com o interesse excessivo de quem está quieto por obrigação há eternidades. Volta ao seu lugar) Uma tinha, outra não tinha. (pausa) D. Felismina, ó D. Felismina…

D. Felismina
(rompendo em altissonante choro) Parecia que adivinhava… Ai meu Deus… parecia que adivinhava… Ai… Ai… Ai…

D. Rosa
Às vezes há pressentimentos. Há pressentimentos, Felismina. Quem tem a hora marcada… (pausa) Só depois é que a gente vê que o defunto já sabia.

D. Felismina
(chorando mais) …A Belinha… A minha Belinha… nunca soube… nada… Nunca… Não soube ser solteira… não soube ser casada… ai a minha filha… Eu parecia que adivinhava… O meu sonho… o meu sonho na vida, desde que aquele malvado morreu, (D. Placídia — Malvado? D. Conceição — O marido) ser sogra… eu tinha de ser sogra… eu precisava de ser avó… o meu sonho desfeito… ali… ali …(aponta o caixão) desfeito…

D. Edwiges
Que horror, D. Felismina! Desfeito, não!… Até duram dias sem se desfazer… (levanta-se) Está mesmo tão linda, coitadinha… Com o rostinho tão alegre…

D. Felismina
A fazer pouco da minha desgraça!… A fazer pouco da minha desgraça!…

D. Edwiges
Por quem é…

D. Rosa
(levantando-se) Ó Felismina!… (D. Felismina grita; D. Edwiges escandaliza-se; grande burburinho).

D. Edwiges
(rodeada por D. Placídia e D. Conceição) Meu Deus! Meu Deus! Não estou nem mais um instante! Padre-Nossos por alma também rezo em casa! A mim, uma vizinha dedicada! A mim, que até chamei o padre! Sim, fui eu quem chamou o padre!… Vou-me embora… Vou-me embora… (senta-se)

D. Placídia e D. Conceição
Então… Então… Não era consigo… Não era consigo…

D. Felismina
(simultaneamente, e rodeada por D. Casimira e D. Rosa) Sou muito infeliz… Sou muito infeliz… Tantas não querem ter filhos… coitadinha… coitadinha… (vai serenando) Sou muito infeliz… Tantas não querem ter filhos… E eu queria, e só tive esta e a outra… aquela desgraçada… ai a minha vida ai… ai… ai… ai… (senta-se)

D. Casimira (e D. Rosa)
Sossegue… (sossega…) Aquela amiga não estava a troçar… Que ideia a sua… (a tua…) (pausa constrangida, após a tempestade)

D. Felismina
(prosseguindo, lamurienta:) …A outra… a desgraçada… onde parará?… não quis ser o amparo da sua mãe… Anda para aí a rir-se de mim… Eu vi-a… o outro dia… Está um cangalho, cangalho… Já ninguém lhe pega… E também nunca teve jeito para nada… mesmo que quisesse amparar a minha velhice… já não servia… E eu que de pequeninas, pequeninas, as criei e eduquei, com tanto carinho, tanto desvelo, tanto amor, para amparos da minha velhice… Alguma havia de ser… E não foi nenhuma… Aí está essa: alegre, contente, feliz, sorridente… ai que desgraça a minha… (funga longamente)

D. Placídia
(para D. Edwiges) Vê… Vê que não era consigo, vê?

D. Edwiges
(suspirando) Bem me custava a crer… Mas tudo é possível neste mundo!… (relanceia um olhar inquiridor, que D. Placídia não sustenta)

D. Casimira
(para D. Conceição) Ó minha senhora… e eu que mandei pôr os anúncios… que falei com o homem da agência… Felizmente que me lembrei de pôr «e mais família»… Porque há sempre mais família que aparece, e furiosa por não estar no anúncio…

D. Conceição
E é verdade… Ai se a Aninhas aparece!… Que choque para a D. Felismina… (para D. Placídia) Que choque para a D. Felismina!…

D. Placídia
(com ironia, enquanto D. Edwiges procura ouvir) Muito grande… muito grande… pobre senhora… Imagine-se… assim de repente…

D. Conceição
Claro… Entrar-lhe pela porta dentro!

D. Placídia
Ah, minha senhora, que ela quando vem nem bate à porta!…

D. Conceição
Não bate?! Mas, que eu saiba, nunca ela cá veio!

D. Placídia
Pois não, minha senhora… (indica o caixão) Aí está o resultado.

D. Conceição
O quê? Ela foi uma desgraçada, é uma desgraçada. Não sei se a chegou a conhecer. Mas era boa rapariga. Eu conhe-ci-a. E ainda a conheço, quando a encontro. E é boa rapariga; até me evita, foge para o outro passeio. Que culpa tem da morte da irmã?! Com quem não se dava… (sinais de D. Placídia) a quem não via?!

D. Placídia
Eu falava da morte…

D. Conceição
E de quem estou eu a falar?… (pausa, durante a qual D. Edwiges, que escutou sofregamente, se prepara…)

D. Edwiges
Ai esta morte impressionou-me muito! Mal tinham vindo cá para o prédio, travámos relações. E a Belinha era tão simpática também!… Coitadinha… E casada de fresco… (suspiro fundo; depois, para D. Placídia) que é a senhora quem mo garante… Davam-se muito bem, sabe? Saíam quase todas as noites, quando ele cá estava… E aos domingos também. Quando ele cá estava, é claro. Aqui na rua, até se dizia: «Ou é caixeiro-viajante ou não é casado com ela»… Mais a mais que a D. Felismina era raro sair… (pausa) Vocelência vai muito por casa da gente dele, não é verdade?

D. Placídia
(com decisão) Sou uma velha amiga. Conheço-o desde pequeno. E foi ele quem me pediu para eu ser madrinha do casamento. (para D. Conceição, e deixando D. Edwiges suspensa) Mas, minha senhora, que fatal desenlace!… Enfim, Deus escreve direito por linhas tortas… (com secreta satisfação) E vidas mal começadas são sempre mal acabadas.

D. Conceição
Isso não quer dizer nada. Há muitos anos que conheço a D. Felismina. Sempre de uma infelicidade… Nem calcula. O marido nunca teve cabeça, pelo menos já não a tinha quando os conheci. Ganhava bem, gastava tudo. E olhe que o não gastava em casa. A D. Felismina trabalhava para fora, depois as meninas iam crescendo, era uma preocupação. Bem vê, as pequenas vêem os vestidos das outras, as meias das outras… Que haviam elas de ver, coitadas? Os maus exemplos? O pai, com esta fúfia e com aquela fúfia?

D. Edwiges
(não resistindo mais) E agora que a vida se compunha, pobre D. Felismina… Ai, lastimo-a muito… agora…

D. Placídia
(com ironia) Que a vida se compunha, não… Que a D. Felismina a compusera com tanto esforço…

D. Conceição
E que queria a senhora que ela fizesse? Que se deixasse morrer de fome, com duas filhas bonitas, sem mais nada, o mesmo é dizer à beira da perdição?

D. Placídia
Desculpe, minha senhora, mas isso de perdição não é comigo. Não lhes deu hábitos de trabalho, é o que é.

D. Casimira
Ai quem é que não trabalha? Se soubesse, minha senhora, estou às vezes sozinha em casa, começo a sentir-me aflita, pego em qualquer coisa, não é aquela, pego noutra, não é aquela. E acabo por sair, visitar alguém, ajudar seja no que for.

D. Rosa
(a D. Casimira, por diante de D. Felismina) Mandaram logo o telegrama a avisar? Ele terá recebido? Chegará a tempo?

D. Felismina
(suspirando) Não quero vê-lo… não quero vê-lo… Tudo acabou… Eu bem o ouvia dizer-lhe: «Se não fosse a tua mãe, não tinhas casado comigo»…

D. Rosa
Ó Felismina… não há mal nisso, bem vês… Ele era teu amigo, até se sentia grato…

D. Felismina
(abanando a cabeça) Qual… Qual… Eu é que sei… Um pássaro bisnau…

D. Edwiges
(que entretanto se levantou a observar, compungida, o cadáver, ao voltar a sentar-se, e para D. Placídia) O que é o desgosto de ver-se ao desamparo!… Um pássaro bisnau…

D. Placídia
Um pássaro, quê?

D. Edwiges
(com dignidade) Bisnau.

D. Placídia
Bisnau. (pausa) Bisnau quem?

D. Edwiges
O genro. O seu afilhado.

D. Placídia
Ah sim? Quem lhe mandou a ela deixar sempre a capoeira aberta? Ou entravam os galos de passagem, ou as galinhas fugiam, quando algum cantasse lá fora. O Vasco nunca foi melhor do que os outros, mas também nunca foi pior. Um rapaz como ele, um homem que dá gosto ver…

D. Conceição
Lá isso dá. (viperina) Em rapaz, diz-se por aí que não lhe escapou ninguém… Começou cedo… pelas visitas da casa.

D. Placídia
Tal qual, minha senhora. Eu que o diga.

D. Conceição
(a D. Casimira) Que desavergonhada!…

D. Casimira
Credo!… Quem?!…

D. Conceição
(indicando de esguelha) Esta…

D. Casimira
(debruçando-se para ver) Ah!…

D. Conceição
Não olhe!… Que inconveniência!… Sabe ao que ela vem, sabe?… Aos restos.

D. Casimira
Coitada… precisará… (D. Conceição fica sufocada) Sabe Deus que necessidades as pessoas escondem… Enquanto podem!… Uma senhora conheci eu, uma senhora, que passava mal… mal… Até que um dia… Morava para Belém… Começou a ir ao quartel.

D. Conceição
(sarcástica) Aos restos?…

D. Casimira
É verdade!… Que horror!… Só vale pensar que são tudo homens saudáveis, que foram a uma inspecção.

D. Placídia
(a D. Conceição) Não acha estranho que a irmã não apareça?

D. Conceição
Não, minha senhora, não acho. É recatada. Ou não vem, ou espera que seja noite e as visitas se tenham ido embora. Andar de cabeça alta nem toda a gente sabe ou nem toda a gente pode.

(ouve-se bater à porta da rua, precipitadamente. Todas suspenderam as conversas, escutando. D. Casimira levanta-se, vai à janela, espreita)

D. Casimira
Um automóvel, é um automóvel.

(de novo se ouve bater à porta, mas compassadamente)

D. Edwiges
(que foi ver) E que automóvel!…

D. Placídia
Será ele!?…

D. Conceição
(enquanto D. Casimira, dizendo «É para cá», sai para abrir) Não é possível. (D. Felismina, soluçante, seguiu atentamente a cena)

D. Edwiges
(voltando ao proscénio) Quem será?

D. Placídia
(a D. Conceição) Parece que nunca viram um automóvel na vida…

(D. Casimira aparece entre portas, chamando ansiosamente. D. Rosa e D. Conceição precipitam-se. E corre de boca em boca: —A Aninhas… A Aninhas… D. Edwiges comenta: Falai no mau…)

D. Felismina
(soluçando alto) Deixem-me só, por favor… Só com elas… Ai meu Deus… as minhas duas filhas…

(saem todas, com as hesitações da praxe, à excepção de D. Placídia, que sai dignamente, cerimoniando à porta com D. Conceição. Mal se vê só, D. Felismina levanta-se e corre para a janela. Não tem tempo de a atingir antes de aparecer à porta o vulto de Aninhas. Pressentindo-a, D. Felismina volta-se. Aninhas vem de preto, num luto luxuosamente composto de vestuário negro sim, mas de outras ocasiões. D. Felismina, cabisbaixa, dá dois passos, e Aninhas cai-lhe nos braços, de corrida. Choram abraçadas: daqui em diante todo o final é dolorosamente precipitando nas réplicas e lento nos tempos)

Aninhas
Mas como foi, Mãe? Como foi?

D. Felismina
Não sei, não sei como foi. Tudo tão de repente… Andava caída… Ele até implicava com ela… E eu também… Tinha medo, sabes?…

Aninhas
(aproximando-se) A mãe tinha medo… (ajoelha chorando)

D. Felismina
Tinha… (mesmo por detrás dela) de ficar sem ninguém, sem nada… E tu? onde paravas?…

Aninhas
(levantando-se) Pelos sítios do costume.

D. Felismina
Sim… Foi de repente… Quase sem um ai… O médico disse que do coração, mas ela já tinha morrido.

Aninhas
(limpando as lágrimas) Morrer do coração e de repente… (mostrando o lenço) Veja, lá borrei a pintura.

D. Felismina
Depois compões… Era tão tua amiga a tua irmã, perguntava muito por ti…

Aninhas
Fugia de mim…

D. Felismina
Não, até queria ver-te… Mas… a família do Vasco reparava… não podia ser …E tu também não nos procuravas…

Aninhas
Porque a mãe não deixava.

D. Felismina
Ó filha, eu não deixava!… Sempre te estimei… Era preciso guardar as aparências.

Aninhas
As aparências!… As aparências!… Que é que a mãe alguma vez guardou?

D. Felismina
Tudo, guardei tudo. Guardei os maus tratos do teu pai. Guardei os desgostos que ele me deu. E guardei-vos, a ti e à tua irmã, para meu amparo, que não tinha outro.

Aninhas
Só foi pena o meu bater a asa… não cair como este.

D. Felismina
Não me fales nisso. Tu é que tiveste a culpa, que não fizeste como eu te dizia.

Aninhas
(indicando o caixão) E ela fez?

D. Felismina
(dominando-se) Aninhas… Tem dó de tua mãe, que fica só no mundo… Ele põe-me fora… ou vai-se embora… Que há-de ser de mim?

Aninhas
Foi o que eu perguntei a mim mesma quando à senhora lhe deu para a honestidade.

D. Felismina
A tua irmã era uma rapariga séria.

Aninhas
Séria, ela? E quem a vigiava nos bailes do Ginásio? Não era eu?

D. Felismina
Sim, mas essas coisas não têm importância… Não passam de brincadeiras… Não se perde casamento…

Aninhas
E eu perdi… Não tinha encontrado ainda um alentejano rico.

D. Felismina
E encontraste?

Aninhas
Está lá em baixo. Mas não casa comigo.

D. Felismina
Aninhas, pela tua saúde, por alma da tua irmã, peço-te que tenhas muito juízo. (ouve-se o cláxon do automóvel)

Aninhas
Acha que ele casa comigo, chamando-me assim, sabendo o que eu cá vim fazer?

D. Felismina
Aninhas, não me abandones!…

Aninhas
Eu não a abandono, vou-me embora, (o cláxon repete o apelo, irritadamente, até final do acto) Não ouve?

D. Felismina
Aninhas, ela morreu! Ela morreu!

Aninhas
Que quer!?

D. Felismina
Não me abandones! Sou a tua mãe!

Aninhas
(já à porta e com amargura) Olhe, sogra não deve ser. E eu não sou espanhola, não preciso de «madre». (sai. D. Felismina fica a meio da cena, junto do caixão, louca de raiva e desespero. Inclina-se para o cadáver)

D. Felismina
(sibilante) Mosca-morta! Mosca-morta! Estúpida!! (e, de súbito, esbofeteia Belinha)

(PANO RAPIDÍSSIMO)

Lisboa, 28 de Janeiro de 1948
 

Paixão, morte e redenção do Físico

Recortes da novela O Físico Prodigioso

Decerto não há na obra de Jorge de Sena outra personagem mais claramente “crística” que o seu “muito bem-amado filho” O Físico Prodigioso — criado “como símbolo da liberdade e do amor”, “sustentado pela força do amor que tudo manda, e pelo ímpeto da liberdade que tudo arrrasa”. Se dúvidas houvesse, os capítulos finais da novela as dissipariam. Destes, em alusão ao calendário pascal, recortamos os passos que demarcam a nítida via-crucis do protagonista e a sua simbólica ultrapassagem final.

 

Quando as grades se abriram rangendo, ele, como sempre, não se moveu. E, quando elas se fecharam sem que ninguém lhe falasse, é que levantou a cabeça. Os seus olhos, com o tempo de prisão, viam claramente à luz que vinha das grades. Mas sombras enormes se projectavam dentro, e eram dos frades que ele conhecia bem. Baixou outra vez a cabeça, e não se moveu quando o rato lhe tocou num pé. O rato subiu para o pé e apalpou-lhe o tornozelo. Era mão e não rato. Levantou a cabeça e viu diante de si uma sombra agachada, de cabelos caídos, cujas mãos ambas lhe subiam pelas pernas até aos joelhos. Estendeu os braços para ela, e deixou-se cair, alongado, num arrastar de correntes. Ela alongou-se contra ele, e assim ficaram quietos, abraçados. Os membros do tribunal registaram a imobilidade absoluta deles. De súbito, um estremecimento os percorreu e um estertor ecoou. E a confiança regimental nos cintos oficiais, na verdade infalíveis, não deu ao tribunal a ideia de que eles se haviam possuído. O silêncio e a imobilidade voltaram logo. E, como se não passava nada, as grades foram abertas e os frades entraram. As duas formas num novelo de correntes, continuavam alongadas, abraçadas, imóveis. Dois guardas se abaixaram para separá-las. Foi fácil destacar a que não estava acorrentada. Era um corpo flácido, que arrastaram para o corredor e os frades seguiram num tropel. Era mais do que um corpo flácido: um cadáver. Não era, porém, Dona Urraca. Ou era. Mas os longos cabelos estavam louros, e as feições defuntas eram as dele.

Os frades caíram todos de joelhos, benzendo-se, trémulos, gritando esconjuras, enquanto dos guardas se ouvia ecoar o correr da fuga.[1]

(…)

O tribunal torturou-o então. Começou por manter-lhe rapado o cabelo, e por tê-lo sem a longa barba que lhe crescera. Submeteu-o ao potro, à roda, aos tratos graduados da polé, às tenazes ardentes, ao chicote de ferro. O corpo dele, magro, chagado, com os membros deslocados, era uma ruína que se arrastava aos pés dos juízes, sem fala, babujando grunhidos. Toda a beleza e toda a juventude haviam desaparecido. Foi assim que o confrontaram com todos os outros acusados, um por um, e uma por uma, sem que sequer eles o reconhecessem. [2]

(…)

Ele seria enforcado, primeiro, eviscerado, depois, e tudo queimado logo na fogueira já acesa entretanto. A evisceração era fundamental, para impedir que houvesse possibilidades de ressurreição demoníaca, antes de consumido o corpo maldito. Seria enforcado tal qual estava, com as correntes, para o caso de ficar invisível de repente e as correntes até ajudariam com o seu peso, não sendo necessário que o carrasco se chegasse muito a ele antes de morto. Toda a gente usaria capuzes pela cabeça, menos o réu.

Tiveram de o trazer numa padiola até ao pátio, era já noite, porque o erguer da forca e a instalação da fogueira levaram tempo. Durante este tempo, os cinco se ocuparam freneticamente da remoção dos outros presos para longe do palácio. A luz de archotes, arrastaram o corpo para a plataforma da forca. Como não se aguentava de pé, o carrasco passou-lhe um laço pelos sovacos, que o ajudante puxou até ele ficar suspenso, com as longas correntes pendendo. Então, a cavalo no travessão da forca, o carrasco enfiou-lhe na cabeça o laço propriamente dito, e soltou uma exclamação.

O pequeno grupo de capuzes no sopé da forca agitou-se. Que seria? O carrasco encapuzado desceu e explicou. Não poderia enforcá-lo com a coleira de ferro da corrente do pescoço. Era preciso tirá-la primeiro.

Foi uma aflição, uma perplexidade. Saíram pela cidade à procura do ferreiro de serviço, que desaparecera. Entretanto, segurando o outro laço, o ajudante gritava se ia ficar ali a aguentar com o peso das correntes, que o corpo, por si, não pesava nada. Mandaram que o largasse, ele largou-o de repente, e o corpo, com um estrondo de correntes, desabou no tablado, e era um molho de carne e de anéis de ferro. Enfim, o ferreiro veio; e, no silêncio, apenas se ouvia o martelar tilintante, até que a coleira caiu.

Recomeçaram a operação de levantar o corpo com as correntes pendentes, e o carrasco enfiou-lhe o laço no pescoço. Ao mesmo tempo, e por um bater de palmas do meirinho, o ajudante largou a suspensão, e o carrasco saltou para os ombros do justiçado. O corpo rodopiou num balancear largo das correntes, e ficou rodando devagar. Um suspiro de alívio percorreu os capuzes.

Mas o carrasco, agarrado à corda, debruçava-se para a cabeça pendida que tinha entre os joelhos. Depois, levantou-se e sentou-se, várias vezes. E, por fim, passando para a forquilha da forca, desceu escorrendo em suor que brilhava no seu torso nu, e sentou-se na beira da plataforma, fazendo com as mãos abertas movimentos de confessada impotência.

Os capuzes correram para ele.
– Não está morto, não morre; quando calco para baixo, alguém – e benzeu-se – o levanta para cima.

Não precisaram entreolhar-se para entenderem claramente o que se passava. E Frei Antão tomou uma decisão suprema.[3]

(…)

Tudo estava nos mesmos lugares, à luz dos archotes. O corpo e as correntes no tablado. O carrasco sentado na beira. O ajudante, de pé, ao lado. O grupo dos capuzes entre a forca e a fogueira.

Frei Antão aproximou-se deles, que se ajoelharam, e disse: — Desacorrentem esse homem. Vistam-lhe uma roupa. Montem-no num cavalo. Ponham-no fora da cidade.

Os outros ficaram indecisos. Frei Antão declarou:
— Se assim fizermos, Deus nos fará um milagre. Eu o sei de ciência certa.

O ferreiro cortou (e parecia interminável o seu tilintar de martelo) os anéis dos pulsos e dos tornozelos, e o da cintura. Depois, tirou o cinto de castidade. O corpo estendido aos pés dos cinco frades era todo ele uma chaga e uma bostela de lixo nauseabundo.

Frei Antão mandou que o levassem e lhe pusessem unguento.

Assim foi feito.

Frei Antão voltou-se então para a assistência com a sua voz fininha e estridente:

— Em nome de Deus, declaro que este tribunal condena ao vazamento dos olhos e ao corte da língua e das mãos quem quer que seja, clérigo ou não, que jamais fale do que viu agora e aqui. Nós enforcámos este homem, nós arrancamos-lhe as vísceras, nós queimámo-lo. São todos testemunhas disso. Vistam-no e ponham-no sobre um cavalo.

Enfiaram pela cabeça rapada um saco com buracos, como os que dão aos leprosos, e tentaram em vão que ele se aguentasse na sela do cavalo que haviam trazido. Escorregava e caía.

Frei Antão mudou de ideias.

— Deixem-no aí. Vamos embora. — E quando, seguido pelos outros, ia a cruzar o grande arco da escada, voltou-se e disse: — Deixem as portas abertas.

E, no pátio deserto e escuro, o vulto ficou estendido no chão, ao pé da forca.[4]

(…)

Frei Demétrios murmurou: – Que vamos fazer? Deixá-lo ali, à espera que seja dia e o movimento do palácio comece?

Frei Antão endireitou-se e meditou. Depois disse:

– Reverendos irmãos: Vossas Reverências vão levantá-lo por debaixo dos braços, de modo que ele possa andar, e atentem no mínimo movimento dele, para levarem-no onde queira ir.

Os outros olhavam-no, apavorados, ou percebeu Frei Antão que assim o olhavam de sob os capuzes.

Frei Antão acrescentou: — Eu segui-los-ei, com a minha cruz na mão.

Os outros hesitaram, mas Frei Antão empurrou-os com um gesto imperioso. Foram-se até ao corpo, e levantaram-no de repente, porque ele estava muito mais leve do que tinham pensado. E avançaram pelo túnel até à saída do palácio. Os guardas, sonolentos, ao verem o grupo, agitaram-se assustados nos seus capuzes. Mas reconheceram logo principalmente Frei Antão, pela sua pequenez, e que os mandou afastar erguendo a cruz peitoral.

No grande adro em frente, o grupo parou. E que os transportadores não sentiam que, daquele corpo desfeito cujos pés se arrastavam deslocados pelo chão, viesse a mínima indicação de para onde ele queria ir.

Consultaram-se os três sobre o que fazerem. E decidiram experimentar sucessivamente várias direcções, a ver se ele reagia. E, assim, avançaram aos ziguezagues, apontando de cada vez a uma das quatro saídas da praça. Mas ele não reagiu a nenhuma. Pararam.

Frei Antão mandou que o pousassem no chão. E ficaram os três, atrás dele, à espera que se movesse. A luz que raiava da manhã, uma luz muito branca e rosada, que fazia brilhar numa poalha dourada os negros e altos prédios da praça e punha pelo chão dela uma aragem rasteira, o corpo ali estendido, e mesmo de bruços como estava, era horrível de ver-se. A cabeça rapada tinha livores e pústulas, e a chaga do pescoço era como uma degolaçao incompletada que mal deixara que a segurasse ao corpo. Este, no burel do saco em que estava enfiado, não se via. Mas adivinhava-se pelos braços e pelas pernas de que os ossos apontavam de uma pele esticada, cheia de rasgões purulentos. As mãos, sobretudo, só tendões e ossos protuberantes, eram horríveis, com uns dedos compridíssimos pelas unhas retorcidas e longas, mas quebradas. E tanto as mãos como os pés, separados dos braços e das pernas pelo círculo chagado que os anéis de ferro haviam feito, pareciam semidecepados. [5]

(…)

O sol começou a entrar na praça pelas ruas do lado nascente e, de súbito, emergindo sobre os prédios, iluminou-a de uma luz que era alaranjada e prata. As sombras dos três frades, muito longas, cruzavam-se sobre o corpo. Frei Antão desviou-se e os outros dois imitaram-no. E continuaram à espera. O corpo, em que o sol batia, persistia imóvel. Em certo momento, pareceu aos frades que ele gemia. E esticaram-se à escuta. Mas teria sido ilusão. Depois, pareceu-lhes que se movera ligeiramente, que percorrera um tremor como o da pele de cavalos picados por moscas. Mas a imobilidade era tanta que não deveria ter tremido. Mesmo a respiração dele era imperceptível. Seria que estava morto?

Foi quando as mãos se moveram. Os dedos encolheram-se e esticaram-se, encolheram-se e esticaram-se, e ficaram parados. Depois, com um esforço infinito, um dos joelhos dobrou-se, e o corpo rolou um pouco, ficando meio de lado. Os frades soltaram todos uma exclamação contida, que reboou na praça como uma praça como uma onda que rebenta. Voltaram-se assustados. A praça estava cheia de gente, por trás deles. Era uma massa compacta e silenciosa e imóvel. Frei Antão ergueu a cruz peitoral, e gritou:

— É um pestífero, fujam! – e benzeu-se.

Mas a multidão não se moveu.

— Não ouvem que é um pestífero? Fujam. Saiam daqui. Voltem para as suas casas. É uma ordem. Em nome do Santo Padre, cujo legado sou, voltem para as suas casas, sob pena de excomunhão maior!

A multidão continuou silenciosa e, depois toda junta, avançou um passo, que Frei Antão recuou gritando: – É um pestífero, fujam!

Mas a multidão, e ouvia-se agora o respirar dela como um rio correndo, avançou outro passo, que também Frei Antão recuou, dizendo com a voz trémula e sumida: – Estais excomungados. Que a maldição de Deus caia sobre vós e sobre os vossos filhos!

A multidão deu outro passo para a frente, e começou a caminhar em passos muito lentos. Foi então que Frei Antão lhe voltou as costas, com medo de tropeçar, e viu que o corpo, cuja cabeça pendida entre os ombros ele não via, avançava devagar, e de gatas, para uma das saídas da praça, seguido pelos outros dois frades.

Assim saíram da praça e entraram na rua que descia. O corpo gatinhando e deixando um rastro de sangue, os dois frades atrás, depois Frei Antão que ora os seguia, ora se voltava para a multidão que era um mar como de lava comprimida, espessa e lenta, entre as paredes da rua. Mas das casas da rua saía mais gente, e o cortejo ia descendo por entre alas de povo, que o mar de lava absorvia. A onda espessa e lenta respirava, rumorejava dos passos pelas lajes, mas era silenciosa. A única voz que se ouvia era a de Frei Antão, numa estridência rouca, que de vez em quando, mecanicamente, gritava: – É um pestífero, um pestífero, fujam!

Nos cruzamentos com outras ruas, novas multidões esperavam em silêncio, e juntavam-se ao cortejo. Este, todavia, não era só a massa que escorria por aquela rua. Nos cruzamentos se apercebia que, pelas outras ruas mais ou menos paralelas, desciam rios iguais, também silenciosos e lentos, cujo suave estrondo pairava por sobre as cabeças e por sobre a cidade. Só à frente não havia ninguém. E o corpo ia gatinhando devagar, ora uma das mãos, ora um joelho.

De vez em quando, de uma porta ou de uma massa de gente, uma mulher corria, agachava-se entre o corpo e os dois frades, que logo o seguiam, e, com um pano, limpava os pingos de sangue, que ficavam nas lajes.

Às vezes, a procissão parava, quando o corpo parava. E foi num desses altos que Frei Bermudo vacilou e caiu. Mas o corpo recomeçou a sua marcha. Frei Demétrios seguiu atrás dele. E Frei Antão, nas voltas que dava para trás, pôde ver o caído vulto de Frei Bermudo ser absorvido sob os pés da multidão.

E o cortejo ia caminhando sempre, e chegou às portas da cidade, que o corpo, sempre gatinhando, cruzou. Fora das muralhas, enquanto ele descia a encosta, as multidões espraiaram-se como água represada que encontra leito livre. Mas não era livre inteiramente, porque as beiras do caminho já formigavam de gente que viera por certo dos arrabaldes e das aldeias mais próximas, e que se fundia com o mar que descia das portas da cidade.

O corpo continuava a avançar, tendo-se desviado para um caminho estreito. Então, e um murmúrio sobrevoou os campos negros de povo, endireitou-se e ficou de joelhos. Depois, pousou uma das mãos no chão, e avançou a outra perna que não a desse lado, fimmando o pé. E levantou-se. Oscilava lentamente, e parecia que ia cair inteiro. Mas não. Arrastando os pés, e como se o estar sempre caindo para a frente o ajudasse, foi dando passos sucessivos, até cair de borco à beira de uma grande vala que ali havia.

Então, de novo rastejando, desequilibrou-se e rebolou para o fundo, onde ficou de costas, descomposto, exibindo as chagas que o anel da cintura e o cinto de castidade lhe haviam feito. E o rosto, que o Sol já alto iluminava, era horrível de ver-se e, se possível ainda mais que o resto: os olhos muito encovados arregalavam-se, o nariz estava quebrado, a boca hiante mostrava uma língua inchada e o vazio dos dentes, e toda a testa era, como as faces, protuberâncias roxas e negras.

Assim ficou largo tempo, com a multidão comprimindo-se ao longo da vala, que todos conheciam. Frei Antão e Frei Demétrios, na borda da vala, sentiam atrás de si uma pressão contida, e tinham do outro lado um mar igual de gente.

Então, do corpo estendido e descomposto, começaram a sair gemidos e soluços. Frei Antão ergueu mais a sua cruz peitoral por sobre a vala, e sentiu que lha arrebatavam das mãos com uma violência que lhe rebentou o cordão de ouro, que a sustinha. O choro subia de tom, era uma lamentação sem palavras, uma gritada cantilena que se propagou à turba imensa.

Dois homens, e logo mais outros, saltaram para a cova, e, com as mãos começaram a escavar. Como que os gritos os guiavam, cada vez mais agudos. Até que, de súbito, fez-se um grande silêncio. Uma madeixa de cabelos louros surgira da terra, e depois uma cabeça apodrecida que, no afã de a desenterrarem, quase destacavam do corpo que ia surgindo também.

Os homens afastaram-se. E ele rebolou novamente, e arrastou-se para o cadáver exposto e que devia ter sido de mulher. Quando o tocou, com uma das mãos que para tanto se fazia compridíssima, todos viram que os cabelos da caveira ficavam negros, e o cadáver era uma mulher de espantosa beleza.

Ele caiu de costas a seu lado e, pouco a pouco, à medida que o seu estertor se tornava mais nítido, as chagas iam desaparecendo, o cabelo crescendo louro, as feições recuperando os traços desaparecidos. Era como um deus, quando todos viram que expirara.

E todos ficaram imóveis longo tempo. Então, os homens abaixaram-se e tentaram levantar os dois cadáveres para transportá-los. Não foi possível. Via-se que suavam, que os músculos se retesavam – mas não foi possível. Tentaram então, passando as camisas sob eles, levantar ambos em conjunto. Também não foi possível.

Uma mulher, do outro lado da vala, atirou um punhado de terra. Os homens saltaram para fora. Não tardou que a vala estivesse nivelada, e desaparecidas as alturas de terra que iam ao longo dela.

Tudo estava terminado, pensou Frei Antão. Mas a multidão permanecia imóvel, esperando alguma coisa.

E, com efeito, no lugar que seria aquele em que jaziam, começou a brotar uma pequenina erva que, a olhos vistos, crescia. Teria já uma vara de altura, quando, por sua vez, os botões se abriram, saudados por um grande clamor da multidão. Eram rosas enormes, redondas, rosadas, cujo perfume entontecia. Era um perfume estranho, não bem de rosa: não… um perfume de… Frei Antão atirou-se à planta e tentou arrancá-la. Apenas quebrou um galho, de cuja quebra escorriam dois fios líquidos. Um, de uma resina esbranquiçada; outro, de uma seiva vermelha. Frei Antão ficou olhando, tão desvairado, que nem notou que a sua mão, ainda estendida, enegrecia e mirrava.

E não teve mais tempo de notar, porque, com o crânio despedaçado, a multidão o arrastava, e a Frei Demétrios, pelos pés, num tumulto que voltava à cidade.[6]

1. cap. VII – p. 100-1
2. cap. VIII – p.103
3. cap. VIII – p. 105-7
4. cap. IX – p. 114-5
5. cap. X – p. 121-3
6. cap. XI, na íntegra.

Mar de Pedras

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

Escrito em Assis, e datado de 15/11/1960, o conto “Mar de Pedras” constitui uma das várias “revisitas” que JS faz à Idade Média, agora em nítida ambiência inglesa. A admiração de Sena pelo protagonista, o Venerável Beda, comprova-se também em algumas anotações do diário de viagem de 1968, onde se lê, a 1 de outubro: “Espero partir amanhã às 13:20 para Newcastle, de onde conto visitar as ruínas de Jarrow onde Beda viveu (e morreu, se bem me lembro)”. E a 2 de outubro: “Pela manhã, subi à catedral [de Durham] onde ‘nasceu o estilo gótico’, que vi vagarosamente, com tempo, e, na galilé, onde entrei primeiro, visitei S. Beda, sobre cuja campa puseram um túmulo com a inscrição: ‘Hac sunt in fossa Baedae venerabilis ossa‘.[…] [Jarrow] o que seria uma área rural da Northumbria para monges meditarem e escreverem, é hoje um mar de gasómetros, instalações industriais, etc. O ônibus parou à porta das ruínas, onde comprei vários folhetos, e admirei a suposta cadeira de Beda (cujas esquírolas, em água quente, davam um banho óptimo para partos difíceis). As ruínas são insignificantes, mas distinguem-se do chão. E comoveu-me estar onde ‘me’ pensei com o velho historiador.”

 

Pois pode pensar-se que exista algo de tal modo que não possa pensar-se que não exista.
Anselmo de Canterbury —
Proslogion
Anoitecia. Chovera muito. O caminho entre as sebes altas, gotejantes, era um lamaçal de barro, em que o céu pálido, nas poças, se estanhava mais. Breves rajadas sacudiam as sebes, fazendo pingar as gotas que escorriam; e sopravam pelos campos fora, na planura deserta que uma e outra árvore cortava negra e esguedelhada, com os ramos e ramículos retendo uma neblina que o vento esfarrapava e que logo se reformava ténue e pardacenta. O vulto, saltitando penosamente, evitando a lama e as poças de água, apressava-se pelo caminho adiante. Apoiado a um bordão, os passos dele eram incertos, tropeçantes, como de quem, na noite que descia, distinguiria mal onde punha os pés; e o bordão tacteava manejado por pouco firmes punhos. Não se via nas redondezas casa alguma, nenhuma choça, nada. Nem rebanhos havia. Nem cavaleiro vinha vindo. E a noite agreste e escura rodeava o vulto que, certo momento, parou.

Não levantou, porém, a cabeça para olhar em volta, para perscrutar o horizonte. Repousaria um pouco talvez, embora seguro do caminho, senão da noite e da solidão que se confundiam cada vez mais e a perder de vista. Parecia escutar.

Ruído que se ouvisse além do vento sibilante e súbito, do rumorejar das sebes sacudidas?

O rosto dele, atento e concentrado, era um rosto de velho, que os cabelos brancos coroavam revoltos, e onde os olhos piscos se firmavam no espaço e um sorriso vago alongava os lábios, refundando as comissuras e as rugas de uma pele rosada e seca. Era um longo hábito de frade o que vestia, quase até às sandálias que, na lama, se distinguiam pouco dos pés magros e ossudos. Parecia esperar.

Mas quem viria ter com ele ali? Salteadores de estrada? E um velho frade seria que os temia?

Apegado ao bordão, imóvel, com o hábito esvoaçado pelo vento áspero, assim esteve um longo tempo, em que a noite quase se cerrou de todo.

Escutava e esperava. Não era raro que vozes lhe falassem. Não era também costume a que se desse, rigoroso consigo próprio nessas matérias incertas. Às vezes acontecia-Ihe que tudo dentro dele parava, e o seu espírito ficava numa flutuação, como o de Deus levado sobre as águas. E, com efeito, as coisas se passavam de igual modo, pois que, na expectativa em que deslizava imóvel no seu íntimo, não havia qualquer sinal, qualquer objecto, qualquer pensamento, e muito apenas a curiosidade um pouco reticente e receosa que, se estava escrevendo, o conservava de pena levantada sobre o pergaminho, ou, se estava rezando na sua cela, lhe dava a sensação de os joelhos não mais estarem pousados no genuflexório. Uma vez, na igreja do convento, imenso pejo o invadira, quando Frei Athelstan, seu velho amigo, ao ver que ele não se levantava para ouvir o Evangelho, lhe tocara no hábito, e o hábito desabara no chão, sem ninguém dentro. E ele, bem lembrado estava, apenas se distraíra momentaneamente, absorto na meditação das cópias dos documentos históricos que recebera na véspera. No entanto, sentira perfeitamente o toque na sua manga, e não concebia que não estivesse ali. O caso dera que falar, e só a estima do abade pelo seu feitio estudioso e pelo seu labor ininterrupto havia abafado um escândalo que teria perturbado, com devoções e peregrinações absurdas, o sossego de uma alma que escrevia sempre, lia sempre, discutia sempre, inquiria sempre.

Quando tudo parava dentro dele, era como se ouvisse uma música celeste, sem instrumentos, sem cânticos, mas música. E as vozes, que então escutava, não eram em verdade como vozes. Nada tinham de comum com a leitura mental, caligrafada metodicamente na memória, que ia sendo o seu pensamento, ao escrever os seus tratados, a sua História Eclesiástica; nem também com os relâmpagos súbitos, inarticulados, que se faziam palavras na sua boca, nos momentos em que discutia pontos de doutrina com os alunos. Mas ouvia sem dúvida umas vozes. Só que as palavras lhe pareciam de somenos, e mesmo a música de aliterações pressentidas, para significar a plenitude que o invadia.

Ultimamente, concluíra a grande obra da sua vida, e Deus lhe dera vista quase até concluí-la. Consumira os olhos em muitos anos de estudo, mas erguera um monumento à cristandade britânica, exaurindo tudo, para que, até à actualidade, não houvesse martírio, sínodo, peregrinação, fundação de convento, guerras e invasões, que não figurassem cuidadosamente referidas. Lera milhares de documentos, entrevistara centenas de pessoas, e registara minuciosamente uma época revolta, tumultuosa, transbordante de piedade e de paganismo, que, como as ondas do mar, vinha bater às portas do seu mosteiro de Jarrow, onde entrara em rapazinho quando as paredes da casa ainda se erguiam. Como elas e com elas crescera na regra de S. Bento. Mas Adamnan de lona, Aldhelm de Malmesbury, o arcebispo Teodoro de Tarso, o seu mestre Benedict Biscop, quantos o haviam entusiasmado à redacção de tão magna obra, estavam todos mortos. E Wynfrith andava na Germânia, ocupado em converter os povos e em refazer o império dos Romanos.

Acabado o trabalho, a Deus se encomendava. Mas, no entanto, quando soubera ter concluído a sua História no momento em que os Árabes invadindo a África, que fôra de Agostinho, e as Espanhas de Orósio e de Isidro, haviam sido detidos decisivamente em Poitiers pelo filho do Heristal, ele vira nisso, pela primeira vez na sua vida de serenos sessenta anos, um sinal da vontade de Deus, uma espécie de sanção, de epílogo, sem prejuízo, é claro, de continuar aguardando com a maior ansiedade um resumo do Livro dos Amuletos, do príncipe Khalid de Damasco, um árabe, discípulo daquele Mariano de Alexandria, que Adamnan conhecera na sua viagem à Terra Santa.

Nunca fora longe para fora de Jarrow. Todos viajavam tanto! Havia Escotos por toda a parte, havia gregos em Londres, atraídos pelo arcebispo Teodoro. A sua Terra Santa era o claustro de Jarrow, o lajedo largo sob o qual tão poucos frades dormiam o sono eterno (Fr. Athelstan já lá dormia, quieto para sempre daquele jeito trémulo da mão, que se elevava no ar, como para tocar-lhe o hábito, quando acaso ficava ou passava perto do amigo), a sua cela com a janelinha estreita, os arcos da igreja, assentes nas tão grossas colunas que ele e os outros rapazes se escondiam dos mestres à volta delas. Apenas saía para pregar nas aldeias próximas, para uma jornada a Canterbury (tão raras vezes lá fôra). Pregava muito mal, tinha consciência disso. Constantemente as suas preocupações se imiscuíam nos sermões, e ora falava do que ninguém entendia, ora, aflito com evangelizar os ouvintes (era notório que, à noite, adoravam pedras, apesar de acreditarem, de dia, em toda a casta de milagres), acabava contando histórias muito simples, das muitíssimas que sabia de tantos santos anglos e escotos, como as dos mártires das perseguições.

Mas as perseguições não eram o seu forte, e ficava descontente consigo mesmo se se atardava nelas. Aqueles horrores, aquela ignorância mútua, aquela verdadeira aversão pelas belezas da ciência, pelos encantos da Bíblia de que Celso se rira, ou os de Lucrécio e de Vergílio, que o grande papa Gregório abominara, não se casavam com o seu sonho de uma cristandade virtuosa, inteligente, educada, capaz também de estimar, como ele, os versos de Caedmon, os enigmas de Aldhelm, e mesmo Lucrécio, que Biscop lhe condenara que lesse, tão ateu, tão materialista! Mas alguém descrevera melhor do que esse pagão a dignidade do sábio, ou a leviandade egoísta do que na praia se sente feliz de não ser aquele que, ao longe, no mar, tenta defender das ondas a precária vida?

Agora, não mais lia, já não escrevia. E o seu secretário predilecto, Egbert, cuja voz era em latim como um cristal, e cuja letra não se enganava nunca, fôra mandado para York, e era bem certo que sucederia ao arcebispo. Mas preparava-se uma grande escola em York, os planos iam adiantados, as sementes que lançara não se perderiam.

Duraria muito a paz em que o país vivia? Quem poderia prever? A história podia prever os desígnios de Deus? Sempre esse problema o atormentava. Já uma vez sonhara com Jarrow saqueado e destruído, depois da sua morte. No sonho, ele levantava-se da sepultura, e arengava os invasores que, pelos chifres dos capacetes, eram piratas do Norte. E os invasores, em gargalhadas que o haviam despertado a suar frio, ameaçavam enterrá-lo vivo, pois que, como Lázaro, era vivo que estava então.

Não chegaria à aldeia com dia. O vento aumentava. Uma chuva miudinha começou, que o fez apressar o passo na caminhada que, sem dar por isso, retomara ao pensar nas viagens de Adamnan. Como se deixara atrasar! Quase não havia dia de sermão na aldeia, em que, ao regressar, não se perdesse em cogitações. Fizesse sol ou chuva, fosse Inverno ou Verão, certo era que dava consigo parado a meio dos campos, nem na aldeia, nem no convento, e sem saber se estava perto ou longe. Mas com dia não chegava já. E nunca se atrasara tanto. Não devia ter vindo sozinho, nem ter teimado em que não precisava da companhia de um noviço que lhe desse o braço, e suprisse as falhas da vista e das mãos inseguras. Era teimoso, muito teimoso, devia rezar para que Deus lhe perdoasse a teimosia. Tudo velhice, é claro; a mania de que se é forte como dantes. E ele nunca fôra forte. Não fôra? Que doença tivera? Nenhuma. E, em rapaz, Benedict Biscop — Deus tenha a sua alma em descanso — muitas vezes o castigara pela absorção nos jogos e nas lutas, e a verdade é que fôra dois anos o campeão na corrida.

Tropeçou e caiu. O caminho era um lamaçal em que ficou sentado, dentro de um charco. Às apalpadelas, procurou o bordão. Não o encontrou. O frio, a água, a treva, penetravam-no. Antes que a angústia e a aflição pela aflição que, no convento, a sua demora estaria causando o tomassem por completo, ajoelhou-se na água, e rezou. Nestas ocasiões rezava sempre uma oração que compusera, em latim e em verso, com extremos cuidados de estilo, inspirada em Boécio, cuja Consolação era obra sua predilecta. Mas, apesar de tudo, não pôde deixar de sorrir, interiormente, da desproporção entre o seu caso e o do ministro de Teodorico. Quem iria cortar-lhe a cabeça?

E, no mesmo instante, sobre a sua relampejou uma lâmina.
— Espera! — disse uma voz.
— Por quê? — perguntou outra.
O frade levantou-se. — Meus filhos, qual de vós procura o meu bordão?
— É o nosso pai — disse a primeira voz. E a segunda riu.
— Meu pai — disse a segunda voz — passa para cá os trinta «pence» do boi que vendeste na aldeia.
— O meu boi é o do Evangelista — disse o frade — e nunca o vendi pelo preço de Judas.
— É um frade do convento — disse a voz que lhe chamara «pai» por troça. — É um desses a quem o rei dá tudo, e não fica nada para nós.

O frade fechou os olhos, rezou um padre-nosso e uma avé-maria pela sua alma, porque eles tinham razão, era a verdade, a juventude abandonava o país, porque não havia oportunidades de emprego. O rei dava tudo às casas religiosas, não valia a pena ser-se leal servidor sem ganhar o que um senhor deve dar de prémio para estimular os que o procuram para servi-lo.

— Ides de longada para outros reinos, meus filhos?
— Vamos — disse a primeira voz — que tu comes tudo o que é ncfsso.
— Não — atalhou com firmeza o frade—, nem eu, nem o meu convento. Mas perdeis a vossa alma com essa raiva que está em vós.
— Se servimos o rei e ele nos paga mal, e a nossa alma se enche de raiva, não é a nossa alma que se perde, mas a dele, tal como tu ias perdendo a cabeça — respondeu a primeira voz.
— Meus filhos — disse o frade —, sou velho e quase cego. Qual de vós procura o meu bordão? E lembrai-vos que tocar num homem de Igreja seria a vossa perdição eterna. Só por isso vos peço: não me façais mal. Eu vos perdoo e dou a minha bênção, porque em verdade vós não sois culpados. Nunca vos falaram como a filhos, nunca vos pagaram como a homens, nunca vos trataram como a anjos. E o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, é um filho, porque nasceu da carne, é um homem, porque Deus lhe deu alma, e é um anjo quando o Espírito Santo o ilumina.
— Meu pai — disse a primeira voz — tomai o vosso bordão, que faremos caminho convosco. Aqui o tendes.

O frade começou a andar, no meio deles, falando sempre, sem sequer se ouvir falar. E, a certa altura, quando afirmava que o reino de Deus não era deste mundo, mas era no mundo que os homens viviam, e que os frades eram intermediários entre o reino de Deus e o do mundo, porque chamavam sobre si os pecados do mundo e estavam separados dele pelos seus votos, a chuva era tanta, que um dos jovens disse:

— Não é possível continuar caminho. Procuremos onde nos abrigarmos para passar a noite. Estou molhado até aos ossos, não se vê nada, e não encontraremos casas cá por perto.
— Há, por aqui, aquele templo onde as mulheres das aldeias vão deitar-se na pedra, quando não emprenham — disse o que detivera sobre a cabeça do frade a espada do outro.
— Isso são pecados terríveis — disse o frade —, são coisas do demónio, que não devem ser feitas. Como podemos abrigar-nos lá?
— Com sua licença — disse o da espada—, são coisas que elas fazem, porque não se deitam comigo. As que se deitaram, nunca vieram pecar com a pedra.
— Mas pecaram contigo e tu com elas — disse o frade. — O matrimónio é um sacramento celebrado pelos esposos e que a Igreja testemunha.
— Ora, meu pai, a gente se sacramenta sozinho, que não são coisas que se façam diante dos outros, como os animais fazem.

Haviam saído do caminho e, falando estas blasfémias e imoralidades, ajudavam o frade a acompanhá-los pelo campo encharcado, onde agora, como não onde o frade se distraíra, as pedras eram tão numerosas, ou mais, do que as contavam os tropeções. Uma massa de rochedos se erguia na noite, adiante deles, e era o templo de que o jovem falara. O frade conhecia-o, já várias vezes verberara aqueles actos que lhe pareciam monstruosos. Era umas pedras ao alto, em redondo, cobertas por uma enorme pedra. O vento penetrava nele. mas, sentados num recanto, ficaram abrigados, embora tiritando de frio, com a roupa molhada no corpo.

O frade, então, falou-lhes longamente, minuciosamente, das virtudes, da castidade, da piedade, dos deveres, ao que os rapazes respondiam com sonolentas ou irritadas apóstrofes, seguros da sua falta de vista e da solidão, que os protegiam de ele os reconhecer mais tarde. Não pensavam já em matá-lo; e até parecia que nem já se lembravam de que haviam pensado nisso. Numa pausa da plácida exposição que lhes fez, o frade ouviu-os roncar. Haviam adormecido.

O frade ficou a pensar em como a sua vida poderia ter sido a deles, tal como por um fio estivera a perder a que tinha, no preciso momento em que pensara na degolação de Boécio. Se, em criança, o não tivessem levado ao mosteiro; se, como contavam, ele não fosse uma criança dócil e bonita; se tivesse encontrado em vez de bons mestres, outros que o escorraçassem; se…

Abriu os olhos, e era dia, um dia luminoso, que rompia, a custo, de um véu compacto de neblina rasteira. Mais do que isso não via, quando veio até à entrada. Voltou-se, e os dois rapazes, muito jovens, dormiam estirados, com a boca entreaberta, os rostos serenos e alheios. Agachou-se para os ver melhor, ora junto a um, ora do outro. Um deles, o que tinha espada à cinta, estava deitado na pedra onde as mulheres se deitariam. Abençoou-os o frade e, de repente, com a mão fez o sinal da cruz sobre cada um deles.

Como que o sinal os despertou. Ambos se espreguiçaram e, na distracção que é o despertar da juventude que parece regressar sempre de muito longe a este mundo, se sentaram olhando em volta, até que, fitando o frade, desceram os olhos, contritos e envergonhados.

— Meus filhos disse o frade —, é dia, voltemos ao caminho.
E, pegando do bordão, abriu a marcha.

— Meu pai — disse o da espada — não é por aí que nós viemos. O caminho é daquele lado — e apontou.

— Todos os caminhos vão dar a Jarrow — disse o frade, sorrindo, mas voltou atrás e seguiu-os, apoiado ao bordão.
Quando chegaram à estrada, pararam os três. Os dois rapazes enleados, não sabiam que dizer. O frade, com boas palavras, despediu-os, e ficou na estrada a vê-los afastarem-se, entre apressados e incertos, na direcção em que ele viera vindo. De súbito, chamou-os. Eles voltaram-se, interditos. O frade insistiu nos apelos e eles regressaram até onde ele estava. Então o frade disse-lhes: — Meus filhos, eu só vos dei boas palavras, e ides os dois lançados no mundo. Isto não pode ser. Sou velho já para ir convosco. Vinde vós comigo.

Os dois entreolharam-se. E o da espada, com um sorriso escarninho, porque o tempo já passara entre eles, disse: — Meu pai, convosco para onde? Para o convento? Só se as pedras falassem. Não sabeis, meu pai, o que é a vida. Só se as pedras falassem, para serem como gente, já que as gentes, meu pai, são como pedras.

— Elas falarão — disse o frade, e os olhos dele fugiam para longe.
— Ah sim? Pois vinde cá — gritou o jovem. E, quase arrastando o frade atrás de si, levou-o até junto do velho templo gentio.

Na suave encosta que descia para o outro lado, havia, quase a perder de vista, um mar de pedras. Grandes, pequenas, bicudas, arredondadas, lavadas das chuvas e dos ventos, com rala vegetação entre elas, eram de facto uma multidão de pedras.

— Fala-lhes. Elas nem sabem quem tu és.

E o frade falou. Contou da criação do mundo, das tábuas da lei, das lágrimas dos profetas, da paixão de Cristo, de como desceu ao limbo e ressuscitou de entre os mortos, de como Pedro o renegara e fôra o primeiro papa; desfiou vidas de santos, discutiu as Etimologias de Isidro e as Confissões de Agostinho; citou Lucrécio e Vergílio, comparou-os com o Cântico dos Cânticos, opôs à Eneida o Livro de Job. Descreveu a sua infância e a sua juventude, expôs a sua filosofia da história, recordou amigos, as obras deles, as conversas que com eles tivera. E terminou por recitar a sua oração especial.

A seus pés, sentados, os dois rapazes sorriam perplexos, cépticos, contrariados, irritados por tanta ideia, tanto pensamento, tanta informação, tanta coisa que nada lhes dizia. A voz do velho não era bem timbrada, e era seco e sem graça o modo de falar.

Então o outro puxou-lhe pela ponta do hábito enlameado e húmido, e disse, a meia voz: — Meu pai, perguntai-lhes se vos entenderam, se gostaram.

O padre baixou para ele os olhos, e lembrou-se de como quantas vezes desejara aliviar assim o peso do seu coração e o peso que no coração lhe fazia a ciência de que o mesmo coração era insaciável.

— Minhas filhas, minhas filhas! Haveis-me entendido, haveis gostado?

Um estalido, um gemido, um ronco reboou na encosta.

— Sim, Venerável Beda! — responderam as pedras em coro.

As lágrimas escorriam pelas faces do velho que sentia as mãos molhadas de lágrimas e de beijos.

Baixou os olhos para as duas cabeças juvenis, despenteadas e hirsutas.

— Vamos, meus filhos.

Vieram os três até ao caminho. Aí o frade levantou a mão para abençoá-los.

— O prometido é prometido, meu pai. Vamos convosco — disse o que cingia a espada.
— Não, meus filhos. Ide pelo mundo com a minha bênção. Eu vos desligo da promessa. O que elas entenderam, vós entendereis.

E, arrimando-se ao bordão, seguiu caminho fora, de regresso ao convento.

O alvoroço no convento era enorme. Todos correram ao seu encontro. Ladrões? Salteadores? Ficara na aldeia? Onde ficara?

Beda, de olhos vagos, sorria sem responder. Então, o abade em pessoa, para despertá-lo, tocou-Ihe no braço. O hábito desabou no chão, ante os olhos da comunidade inteira. Onde, naquele momento, estaria Beda?

1960.

=> Para uma excelente leitura do conto, consultar: Beatriz de Mendonça Lima, Uma nova legenda de S. Beda: “Mar de Pedras” de J. de Sena, UFRJ, 1996 (Dissertação de Mestrado)

 

Homenagem ao Papagaio Verde

De Os Grão-Capitães

Na ficção de Jorge de Sena, talvez nenhuma outra página contenha referência tão explicitamente afetuosa ao Brasil como o conto “Homenagem ao Papagaio Verde”, de Os Grão-Capitães. No entanto, como de hábito na obra seniana, os afetos nada têm de simples e frequentemente nos conduzem a esferas insuspeitas. É o que indicia Sabrina Sedlmayer numa síntese feliz: o conto “apresenta-se como uma das mais ternas e ao mesmo tempo irônicas e inquietantes reflexões sobre a relação da ex-metrópole portuguesa com o Brasil e a África. Se à primeira vista esse texto memorialístico nos conta do abusado e opressor mundo dos adultos na vida de uma criança, da amizade entre um enclausurado filho único e um exuberante animal de estimação, no gesto da leitura, outras narrativas rapidamente se cruzam, dinamizam esse enunciado e nos arremessam para bem longe da casa portuguesa, rumo a uma complexa trama que se constrói num cambiante jogo memorialístico capaz de tencionar barbárie e civilização, o mesmo e o outro, alegria e nostalgia, amor e ódio, Brasil e África.”
(ver: http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/dossie05/art_02.php)

 

Era verde e velho. Pelo menos, antigo. E ocupa na minha memória — junto com uma galeria indistinta e confusa de gatos tigrados e «preparados» pelo amola-tesouras-e-navalhas (mais tarde, esse primeiro mistério da minha infância passou a ser celebrado na Escola de Medicina Veterinária, já com os requintes da assepsia), e todos chamados «Mimosos» tão onomasticamente como os papas são Pios — o mais arcaico lugar reservado a uma personalidade animal. Digo personalidade, e bem, porque ele a tinha, e porque foi mesmo, para lá das surpresas contraditórias das «pessoas grandes», tão caprichosas e volúveis, tão im-previsíveis, tão ilógicas, tão hipocritamente cruéis, a revelação de um carácter. Não tinha nome: era o Papagaio, e parecia-me, porque falava, um ser maravilhoso. Depois, e a chegada desse outro eu recordo, meu pai trouxe das Africas um papagaio cinzento. O papagaio por excelência passou a chamar-se o Papagaio Verde, e vivia de gaiola pendurada numa das varandas em que, por um tapume de madeira, estava dividida a varanda das traseiras da minha casa, cabendo uma parte à cozinha e outra à sala de jantar. Uma das reivindicações políticas da minha infância foi a troca de uma situação injusta que confinava o Papagaio Verde à «varanda da cozinha». Na da sala de jantar, a que era mais próxima da rua, vivia o Papagaio Cinzento. Este, menos esplendoroso e menos corpulento, menos vaidoso também das suas cores baças, morreu depois do Verde, ave grande, vistosa, transbordante de presunção e dignidade; e, apesar de ter tido muito mais do que o Verde o dom da palavra (usando-o, todavia, com menos humor involuntário), não o recordo tão distintamente como a imagem do outro, à qual a sua viera sobrepor-se à maneira de um negativo, uma sombra, um apagado duplo, na imprecisão focal da memória a desfocar-se por ele. De resto, o Cinzento era sujeito retraído e friorento, que ficava encolhido a resmonear o reportório variado, sem manifestar por alguém qualquer predilecção afectiva; tinha apenas de simpático o olhar nostálgico, melancólico, e a mansidão muito dócil do resignado e acorrentado escravo. O Verde, pelo contrário, era exuberante, de amizades apaixonadas e de ódios vesgos, sem continuidade nem obstinação. Minto: essas amizades e ódios, não continuados nem firmes, faziam parte do seu carácter expansivo e espectacular. Mas, com o andar do tempo, começaram a refinar numa aversão colectiva, azeda e ruidosa, ou concretizada num bico de respeito, que, traiçoeiramente, na frente de uma adejada revoada verde, se apoderava cerce de um dedo, uma canela, uma madeixa de cabelo. A contrapartida deste crescente pessimismo em relação ao género humano (no qual ele incluía, com um desprezo que raiava o absurdo, o Cinzento) foi uma dedicada e veemente amizade por mim. No mundo hostil dos adultos que me cercavam de solicitude e clausura, o Papagaio Verde, afinal, não me revelou apenas o que era carácter: ensinou-me também o que a amizade é.

Que o Papagaio Verde era brasileiro, como angolano o Cinzento, foi dos primeiros axiomas de biologia, que aprendi. Era sempre repetido, categórica e sacramentalmente, por meu pai ou por minha mãe, quando, em jantares de família, se discutiam as graças relativas dos dois bichos, e havia sempre um tio meu para condenar, em nome dos perigos da psitacose, a posse de seres tão exóticos, portadores prováveis e espontâneos de uma doença estranha, mortalíssima, que eu, criança à espera de vez para a carne assada, imaginava como a instalação crónica, no organismo dos adultos, daquela tendência manifesta para falarem de cor e a despropósito, coisa que os papagaios quase não faziam. Mas o caso é que, verdes e papagaios, só no Brasil; papagaios e cinzentos, só na África, e ainda hoje não sei se isto é verdade ou mentira. Outro axioma era que os papagaios comiam milho, do que eu concluía (e creio que o meu subconsciente ainda guarda essa conclusão) que a ingestão de milho era um sinal dos infalíveis para distinguir as pessoas e os papagaios.

No começo das minhas memórias de infância, o Papagaio Verde era um animal fabuloso que me recebia aos gritos, enquanto dava voltas no poleiro, trocando os pés, e me olhava de alto com um olho superciliar, e de bico entreaberto. Quando comecei a vê-lo, via-o muito pouco, já que ele vivia na «varanda da cozinha», que me era proibida por causa das torneiras, como a cozinha o era por causa do lume. Ficávamos, quando eu conseguia iludir as vigilâncias, ou subornar o cordão sanitário, os dois numa contemplação embebida: eu, de mãos nos bolsos do bibe de quadradinhos azuis e brancos (que era o uniforme do meu presídio), e ele, com a gaiola pendurada alta, entreabrindo as asas para um voo um tanto ameaçador, com a cabeça de banda, e soltando uma espécie de grunhido que culminava num arrepio que o eriçava todo. Que era brasileiro e fora trazido do Brasil, eu sabia. Mas, antes de ser posto naquela varanda, onde parecia, numa casa triste e soturna, uma nódoa insólita, obscenamente garrida, viajara muito. Vivera a bordo de navios, cheirara longamente o mar, não a maresia ribeirinha, mas os ventos do largo, prenhes de fina espuma e de um ardor de andanças. Algo disso ficaria nele, e era um jeito de balancear-se no poleiro sem levantar nenhuma das patas, sem alterná-las como o Cinzento fazia. E também uma bonomia astuciosa, egoísta, irónica, subjacente ao ímpeto altivo do seu pescoço amarelo e da sua poupa azul. Ficara-lhe, além disso, um reportório bravo, truculento, metaforicamente expressivo, que era o principal motivo do confinamento discreto à varanda da cozinha. Ele, pouco a pouco, ia esquecendo aqueles horrores que minha mãe não queria que eu ouvisse, e só os recordava em catadupa, nas suas horas de tédio mais sonhador, em que os dizia entrebico, ou nos momentos de furiosa irritação, em que, parecendo uma águia (achava eu) imponentíssima, vomitava impropérios que escandalizavam a vizinhança e dobravam de riso as criadas, o que o irritava mais. Não foi assim, na escola ou na rua, que eu aprendi os nobres palavrões essenciais à vida, embora me ficasse, para aprender depois, algum sentido deles. Aliás, este sentido eu ia aprendendo adivi-nhadamente nas discussões domésticas à porta fechada, entre minha mãe e meu pai, quando ele, do outro lado da porta, os bradava, e muito explicados em frases elucidativas.

Meu pai era uma personagem mítica que eu quase só via à hora de jantar, durante uns quinze dias, de três em três meses. A sua chegada era prenunciada por um cheiro a encerados e a pó espanejado, que se espalhava pela casa toda, cujas portadas de janela se semicerravam como para conservar, em estado de graça e de jazigo de família, aquele ambiente de silêncio e treva premonitória. Não se sabia nunca ao certo essa chegada. Ele não escrevia senão de raro em raro, e minha mãe, para calcular a demora da viagem, ia de vez em quando, comigo pela mão, aos portais da Companhia de Navegação ver, no quadro onde registavam o movimento dos barcos, em que porto das Africas o navio de meu pai saíra ou entrara. Quando eu já sabia ler, mandava-me lá dentro a mim, e ficava-se meia oculta na esquina da rua, creio que para, aos empregados que a conheciam, não mostrar que não sabia mesmo onde o marido andava. Telefonar, e não tínhamos telefone, não lhe ocorria; apresentar-se de cabeça erguida fosse onde fosse era contra os seus princípios. E, muito provavelmente, nem os empregados se lembrariam de achar estranho que ela, ainda que muitas cartas recebesse naquele tempo sem aviões, fosse ver a rota do navio. Eu, a quem tantos compartimentos da casa eram defesos, ficava durante e após as limpezas, e até ao dia da chegada, encurralado de todo, e sem nada que sujasse ou me sujasse. E odiava aquela expectativa, ao mesmo tempo que esperava curiosamente o que meu pai traria: caixotes de vinho da Madeira, cachos de bananas, frutas várias em cestas, às vezes manipansos dos pretos, que me eram dados para eu brincar. Um dia, era o movimento na escada da casa, que, chefiados pelo criado de meu pai, o criado encasacado de branco e privativo do comandante, vários homens subiam ajoujados, entalando na porta, resfolegantes e trôpegos, os malóes enormes, os caixotes, e as cestas, que ficavam no corredor e atravancavam tudo. Ao cheiro dos encerados e das solarinas, sobrepunha-se então o das frutas exóticas, o da palha dos caixotes, o do bafio dos malões, que tudo, apesar de sempre igual, eu queria abrir, tocar e ver. Nunca me deixaram abrir, tocar ou ver coisa nenhuma; e eu ficava entreportas, olhando o avolumar das palhas de que emergiam frutos e baratas saltavam, às corridas logo pelo corredor fora, perseguidas pelos gritos de minha mãe e das criadas, atarantadamente todas esgrimindo vassouras e dando com elas pancadas desatinadas. Em geral, para gosto meu, as baratas escapavam-se. Depois, era uma expectativa meio nervosa, com muitos “o papá está a chegar” e muitas espreitadelas para a rua, a vermos se ele assomava ao virar a esquina. Até que, com o seu andar balanceado, a estatura corpulenta aparecia atravessando a rua, chapéu de feltro de aba revirada e debruada a seda, bengala com aplicações de prata, charuto havano empinado na boca. Minha mãe, sem dizer da janela um adeuzinho prévio, ia logo abrir do patamar a porta da rua, puxando — e eu queria sempre puxar — a transmissão metálica e primitiva que levantava o trinco. E ficava perfilada, segurando-me a curiosidade indiferente com que eu queria debruçar-me do corrimão, e largando-me só quando meu pai já vinha no último lanço da escada. Então, subitamente intimidado, eu descia dois ou três degraus; meu pai — «Então como vai o nosso homem?» — roçava-me na testa uns lábios frios e o bigode esverdinhado, farto e retorcido nas pontas que ele frisava, e parava ao pé da minha mãe, sem jeito de abraçá-la. Ficavam assim diante um do outro, a olharem-se, e eu erguendo os olhos por entre eles, até que meu pai a agarrava pela cintura, o espaço entre ambos desaparecia, e minha mãe deixava-se pousar a cabeça no ombro dele. Davam-se então um beijo logo fugidio — «Olha o pequeno», dizia minha mãe — e entravam para o corredor, ambos muito comprometidos, sem se olharem nem me olharem a mim. As criadas apareciam à porta da cozinha, num arquejar de peitos excitados e de olhares risonhos, a que meu pai atirava um sobranceiro «olá», e entrávamos para a sala, com o sofá e as poltronas baixas de bolinhas que os «Mimosos» arrancavam uma a uma, eu ficava no meio da casa, ora num pé ora noutro, com uma vontade imensa de fazer «chichi», e meu pai sentava-se na borda do sofá, enquanto minha mãe se sentava na borda de uma das poltronas. Trocavam então algumas informações: quem desta vez aparecera em Luanda ou no Lobito, recomendações acerca das fardas brancas, que tinham de ser todas lavadas e engomadas, enumeração de quem oferecera os caixotes, as frutas, os cachos de bananas. Minha mãe contava, por alíneas, sem explicações nem comentários, os acontecimentos da família, as doenças que eu tivera, queixava-se de como passara desta vez, tão mal do coração. Ele ouvia distraidamente, como uma visita de cerimónia, mas ainda de chapéu na cabeça, e com as mãos na curva da bengala. Às vezes uma das mãos levantava-se para cofiar e retorcer uma das pontas do bigode. Minha mãe, então, levantava-se, como se fosse para despedi-lo, e tirava-lhe da cabeça o chapéu, e das mãos a bengala. A careca dele, pontuda e luzidia, brilhava. Ele levantava–se também, vinham até ao corredor, e observavam ambos as cestas e os malões. Novamente meu pai enumerava os obséquios que recebera, e aproveitava para informar de qualquer pedido que lhe fora feito pela parentela africana de minha mãe, uma passagem gratuita, de um porto para outro, ou de como haviam ido a bordo para comer -lhe o almoço. Demoras nas falas e nos gestos de ambos prolongavam um mal-estar que se transmitia. Meu pai, agarrando minha mãe, começava a arrastá-la para o quarto deles. Minha mãe esquivava-se, ele tirava-lhe das mãos o chapéu e a bengala, que pendurava no bengaleiro, e ia para o quarto pôr-se à vontade. Ela ia à cozinha extremamente embaraçada, e cada vez mais o ficava por ele a chamar lá de dentro, com insistência. Ele a chamar, ela a repetir pela centésima vez naquele dia as instruções para o jantar. Viriam meus tios, como sempre; e os cristais e os talheres, saídos já do guarda-prata e do aparador, apinhavam-se no mármore desses dois móveis, na sala de jantar; era outra das ritualísticas decisões que se tomavam de três em três meses. A voz do meu pai vinha insistente, cada vez mais berrada. Cabisbaixa, minha mãe interrompia as observações, e ia pelo corredor fora em direcção ao quarto. À porta, meu pai em ceroulas de fitas e em fralda esperava, e tinha de puxá-la para dentro. A chave rangia e estalava na fechadura. As criadas trocavam olhares, levavam-me para a varanda, onde o Papagaio Verde, na sua gaiola, subia e descia afanosamente do poleiro, segurando-se com o bico e alçando a perna. Não estava em causa que ele desse o pé a ninguém, a não ser a uma ponta de pau de vassoura, que eu lhe apresentava. Olhando-me de revés, condescendia em pousar de leve um pé trémulo na ponta do pau, enquanto eu repetia: «Papagaio Real, quem passa?» — para ele se dignar dizer: «É o Rei… É o Rei…», como se não soubesse o resto. E, de s&ua
cute;bito, casquinava estrondosamente, sacudia-se, e cantava desaforadamente uma das cantigas em voga. Mal as criadas vinham, rindo, acompanhá-lo, calava-se logo, quieto e sério, fitando-as de bico entreaberto.

Foi por essa altura que a nossa amizade se estabeleceu. As luas-de-mel de meus pais duravam poucos dias, pelo menos com aquela atmosfera de porta e janela fechada em pleno sol e de passos leves das criadas, durante a vigência da qual eu — esquecido, ou mais distantemente tratado, porque minha mãe, quando saía lá de dentro, andava chorosa pelos cantos e não me chamava muito — eu ficava mais livre, entretidas as criadas numa escuta maliciosa ou no «far niente» das tarefas inacabadas. Mas duravam, com efeito, pouco, e logo, quase sem transição, passavam à violência do temporal desfeito, para o que também a porta se fechava, às vezes com safanões à porta e competições pela posse da chave, e lá dentro do quarto havia gritos de ambos, frases sibiladas raivosamente, soluços e ais de minha mãe, até que, num repente, a porta abria-se para as criadas, já a postos, acudirem, com a água de flor de laranja, à minha mãe que, estendida na cama, muito pálida, soltava leves ais de mão no coração. Eu esgueirava-me pelo meio do tumulto, sem que ninguém reparasse em mim, e era em geral minha mãe, abrindo os olhos, quem me enxergava, suspirava mais soluçadamente, e estendia para mim mãos trémulas e dramáticas que solicitavam a minha conivência, a minha aliança, e das quais eu recuava tonto, com repugnância. E era meu pai quem me empurrava para elas, como uma espécie de plenipotenciário, encarregado de negociar a paz de uma guerra cujas causas eu não entendia, mas de que me sentia, sem o saber, o campónio que vê os exércitos inimigos devastarem-lhe a seara, uma pequena horta, um pobre jardim. Aliás, por isso, a situação de plenipotenciário tinha, pela jogada impotência e pela passividade disputada, muito mais de um refém que de um embaixador. Ninguém me perguntava ou me ensinava a perguntar o que eu queria ou o que eu pensava; e ambos, como os aliados, e os pacificadores, as terceiras forças de «cruz vermelha» e neutra-lismo, que às vezes eram invocadas (quando não eram arrastadas nos acontecimentos), afinal me ignoravam. E, tão depressa quanto era empurrado para os braços trémulos, era retirado deles e posto de lado, fora da porta, como a bandeira branca que, depois de brandida e de surtir efeito, fica no chão, entre os cadáveres, as cápsulas, o lixo das guerras modestas e localizadas.

Eu ia para a varanda conversar com o Papagaio Verde, não para lhe contar desditas que claramente não entrevia, mas para comungar numa idêntica solidão acorrentada. Eu saía muito pouco, a rua era-me proibida, primos meus vinham às vezes brincar comigo. As brincadeiras, porém, constantemente interrompidas por minha mãe, a quem era preciso pedir licença para ir buscar ao «quarto escuro» o caixote dos brinquedos (o «quarto escuro» era, também, o misterioso reduto-alcova das criadas, cuja intimidade constituía outro mistério estranho), não tinham graça nem entusiasmo, e degeneravam sempre em brigas sem motivo, em que se opunham o meu anseio de brincar tudo ao mesmo tempo, e a absorção com que meus primos se dedicavam exclusivamente a algum instrumento de brincar, que eles não possuíssem e os seduzisse mais. Quando essas brigas estalavam, minha mãe mandava-os embora, e eu ficava dias e dias remoendo uma autoritária cólera insatisfeita, e esperando (de ideia fixa e numa insistência cuidadosa, para que minha mãe logo a não contrariasse) que eles voltassem. Fui, por extensão, pouco a pouco, sem cálculo nem método, conquistando o Papagaio Verde, e, ao mesmo tempo, o respeito já lendário que ele impusera à sua volta. Sem largar o poleiro, e olhando ironicamente para o meu dedo, ele dava-me o pé; cantava comigo, aceitava da minha mão alguma das coisas, como um talo de couve, que ele apreciava. Fui descobrindo que, na verdade, ele não apreciava muito esses talos que, solícito, eu lhe metia no pé. Mais por delicadeza que por gosto, mais para aproveitar a oportunidade de despedaçar metodicamente um objecto (que a gaiola com poleiro de folha, e a distância a que era posto de quanto fosse roível, não lhe consentiam), é que ele aceitava essas dádivas. Não as comia; com bicadas certeiras e calmas, que intercalava de laterais olhadelas para mim, partia tudo em bocadinhos que tombavam na gaiola ou no chão. Terminada a cerimónia, descia do poleiro, e continuava na borda da gaiola uma segunda fase que era escolher dos caídos pedaços, aqueles que ainda podiam ser, sem muito esforço, reduzidos a tamanho menor. Contemplava, então, de olho grave e atento, a extensão da devastação que fizera. Então, abrindo as asas e esticando o pescoço, sacudia-se de penas eriçadas, catava no alto da poupa azul um piolhinho (para o que erguia, à cabeça baixa, um dedo cuja unha coçava suavemente por entre as penas), sacudia-se de novo, subia para o poleiro, assentava-se nele, assentava nos ombros a cabeça, e fechava os olhos. Era o sinal de que eu me retirasse, de que a minha visita acabara. Com a ponta da vassoura, após esperar que a respiração dele fosse pausada e funda no peito verde, eu tocava-lhe. Ele fazia de conta que não dava por isso, era preciso tocar-lhe vezes seguidas, enfiar-lhe o cabo da vassoura por baixo das asas. Até que tudo isto se repetia como uma cena previamente ensaiada entre nós. Fingindo-se ele distraído e indiferente, retraído e alheio, eu teimava com o cabo da vassoura; e ele, subitamente, disparava um voo circular na ponta da corrente, pousava de esguelha no pau empinado, com as asas semiabertas numa imitação de procurado equilíbrio, e cantava, gargalhando e dando estalinhos com a língua.

As criadas tinham raiva daquele entendimento que ele não lhes concedera nunca, com uma altivez senhorial que tornava difícil lavar lhe a gaiola posta para isso no chão da varanda, ou deitar-lhe água e comida nos recipientes pendurados de cada lado do poleiro. E, raivosas, falta vam-lhe ao respeito, tocando-lhe com a vassoura na cauda, a pretexto de varrerem melhor um recanto, ou despejando, numa pontaria falsamente errada, água por cima dele. Furioso, subia a empoleirar-se no espaldar da gaiola, de onde, sem dar muita confiança de perder a cabeça, lhes fazia arremessos temerosos: mas, às vezes, perdia-a mesmo, e então, veloz, com o pé esticado numa corrente que arrastava a gaiola, agarrava uma ponta de chinelo que, aos gritos, muito trémulo, não largava das patas e do bico. Uma vez, a fúria foi tal que só a jarros de água o largou, ficando semidesmaiado, tremente de exaustão nervosa e de frio, a gemer uma ladainha triste e rouca, em que havia, dispersos, alguns palavrões adequados. Dessa vez, deixou que eu lhe acudisse, o enxugasse com um pano, lhe penteasse as penas tão indignamente ricas, tão enegrecidas do forçado banho. Daí em diante, foi que a nossa leal camaradagem se firmou, sem hesitações nem reservas.

Certa manhã, quando me levantei, havia na cozinha um movimento desusado, gritos, uma atmosfera de pânico. Provavelmente, essa atmosfera despertara-me. Fui ver. O Papagaio Verde estava solto! Passeando para cá e para lá no chão, arrastando uma ponta de corrente, o Papagaio proibia que a porta da varanda se abrisse, e esvoaçava ameaçador contra a greta que nas portadas as criadas tentassem. Eu queria passar para fora, minha mãe que acudira ao tumulto segurava-me, o Papagaio berrava. As criadas repetiam que ele fugira, fugira! Eu achava que, se tivesse fugido, teria voado para as árvores do quintal subjacente. E desmenti. E, lutando esgatanhadamente contra todas, abri as vidraças da varanda. Afugentando para o corredor a minha mãe e as criadas, que pela porta entreaberta da cozinha observavam o terrível incidente de que eu sairia mortalmente ferido («com um olho vazado», clamava minha mãe em ânsias), o Papagaio entrou, dando ao corpo nos requebros de avançar, mal espalmados no chão os dedos, a passos largos, direito a mim, que, contagiado levemente pelo pânico daquelas galinhas, recuara. E veio até aos meus pés, e fez contra um meu sapato, com doçura e ternura, aquele gesto de afiar lateralmente o bico, que fazia às vezes na borda da gaiola. Abaixei-me para lhe pegar. Ele deixou que o agarrasse, instalou-se num meu dedo, e pesava.

Que dia triunfal! Meu pai partira já, dessa vez, no torvelinho dos malões e dos engomados, com o criado de casaco branco, muito tímido entreportas, a dirigir a saída da bagagem. Houvera as despedidas do costume, com meu pai acabando por tirar da algibeira um envelope branco que pousava em cima do «toilette» e era o dinheiro para três meses de ausência. Houvera a contagem do dinheiro, por minha mãe, e o regateio mútuo sobre se chegavam ou não aquelas notas. Depois os beijos e abraços, a ida à janela da sala para dizer-se o adeus final. E eu recomeçara, aos fins de tarde, as idas a casa da Dona Antonieta, para a lição de piano, que a família toda, com meu pai à frente, achava uma indignidade mulheril, e que era a única manifestação de teimosa independência por parte da minha mãe. Para mim, a Dona Antonieta era uma pessoa que eu me espantava de afinal não ter sido decapitada, realengamente, na Revolução Francesa; e o piano era triplo e delicioso pretexto para fazer o contrário do que queria a maioria numerosa dos meus tutores honorários, para penetrar na sala obscura e proibida onde o nosso piano estava aguitarrando-se na solidão húmida, e para ficar sonhadoramente compondo, curvado sobre as teclas amareladas, as sinfonias que me tornariam livre, célebre, distante de tudo e todos.

Com o Papagaio no dedo, avancei pelo corredor fora em direcção à sala, seguido pelo cortejo receoso que náo ousava deter-me, porque o bicho abria para elas um bico desmedido. Abri a porta, entrei, escancarei de par em par as portadas (e, para lutar com os fechos, tive de pousar no chão o Papagaio que logo esvoaçou para a porta, a conter o avanço das tropas perseguidoras), fui fechar a porta, sentei-me no banco do piano que abri, depois de levantar a colcha indiana que o cobria e cujas franjas sempre se enguiçavam na tampa. Concentrando-me, desferi acordes tumultuosos e dissonantes, com trémulos rotundos nas oitavas baixas e glissandos nas esganiçadas. O Papagaio, numa atrapalhação precipitada, subiu para as costas da cadeira mais próxima, e espanejou-se, e acompanhava, dançando e gritando uma melopeia desafinada, a minha música sem nexo. E, de vez em quando, para maior alegria minha, largava escagarrichadamente pelo estofo da cadeira, que assim se degradava, as suas dejecções acinzentadas.

Não houve mais contê-lo. Eu próprio o prendia e soltava da gaiola, e ele esperava com paciência as horas em que iria buscá-lo para o trazer à sala. Minha mãe e as criadas não se atreviam a intervir, e eu ouvira já conspirações que assassinavam o Papagaio, o exilavam para longes casas. Mas, quando eu o soltava, e ele andava por toda a parte atrás de mim, tudo ficava por nossa conta: minha mãe fechava-se no quarto, as criadas fechavam-se na cozinha. Uma das nossas diversões era um pequeno trapézio que eu criara para ele, suspenso da bandeira, sem vidraça, da porta do «quarto escuro». O Papagaio, ensinado por mim, saltava do trapézio balouçante para a vassoura que eu atravessava na frente; e, de cada vez que o pouso se realizava com precisa elegância, a sua alegria não tinha limites. Às vezes, íamos ambos à varanda da sala de jantar visitar o Papagaio Cinzento. Este, da sua gaiola, olhava-nos com chocado pasmo, e ensaiava uma dança tonta de criatura a quem acendessem, de súbito, uma luz forte. O Papagaio Verde, pousado no meu ombro, arreliava-o com gritinhos e mordidelas carinhosas na minha orelha; e o outro, escandalizado e humilhado, vingava-se depenicando ostensivamente, mas sem apetite, os requintes de gastronomia papagaial de que, por mão de minha mãe e das criadas, a gaiola dele estava sempre cheia. Uma tarde, não precisei fazer mais que um leve movimento de ombro. O Verde saltou para cima do Cinzento e, em três tempos, deu-lhe uma sova que o pôs no canto da gaiola que depois pilhou conscienciosamente, virando, para despejá-los, o bebedouro e o comedouro, e varrendo para o chão da varanda, à força de asas, patas e bico, tudo o que se derramara ou estava pousado no fundo da gaiola. O outro, olhando de banda, não se atrevia a um gesto; e o Papagaio Verde voltou para o meu ombro, sem querer tocar, para comê-lo, num grão do milho fino com que o outro se regalava.

Quando eu ia para a escola, acompanhando submissamente, até à última esquina de onde se via minha mãe de atalaia à janela, a criada que era mandada a comboiar-me para impedir que eu me perdesse nas ruas ou entre a garotada do meu bairro, e fugindo dela a correr, mal era voltada a esquina, para escapar-me ao perigo incalculável de os meus colegas perceberem que a criada me trazia (e esta convenção de fugir às respectivas criadas para negar-lhes a guarda era tácita entre muitos dos meninos, e as criadas, à hora da saída, ficavam conversando nas esquinas distantes, a coberto das pedradas com que seriam recebidas, se se aproximassem aquém dos limites convencionais da sua não-existência), o papagaio vinha até à porta do patamar, a despedir-se de mim, e o mesmo fazia quando, à tarde, depois de lanchar, eu saía para a lição daquele pescoço em que não via sinais de guilhotina. Estas despedidas eram uma perfídia minha, nas vezes em que não ia, como me pediam que fosse, deixá-lo preso. Divertia-me saber que se fechavam à espera que ele, caminhando solene pelo corredor e arrastando chiadamente no oleado a corrente, voltasse honestamente à gaiola, onde ficava, sem ser preso, aguardando o meu retorno.

Depois, meu pai regressava novamente. As luas-de-mel eram agora curtas, rápidas, tumultuosas, com minha mãe protestando lá dentro, em gritos que chamavam porco e infame ao meu pai. Às vezes, a frágil paz quebrava-se logo no jantar de família, nesse mesmo dia, com meu pai levantando-se pela mesa fora e atirando a cadeira, ou com minha mãe chorando diante da travessa encalhada na mesa, entre um prato cheio e outro vazio. Palavras viperinas circulavam, meus tios levantavam-se também, com uma autoridade moral de que compensavam a sujeição dos muitos auxílios e jantares que meu pai lhes dava. Eram, aliás, parentes por parte dele, embora pessoas cuja interferência, nos negócios domésticos, ia aumentando com a violência das disputas; muitas vezes, naqueles escassos quinze dias, uma das criadas, de noite, levantava-se para ir chamar meu tio, que não morava longe e vinha sonolento, com umas calças enfiadas por cima do pijama e um sobretudo de gola levantada, conversar pacientemente, ora com minha mãe que, em «robe de chambre» suspirava sentada na sala de jantar, ora com meu pai que, passeando pesadamente no corredor até que os vizinhos de baixo viessem protestar contra o barulho, proclamava que não precisava de nós para nada, tinha a bordo todos os confortos, que nos levasse o diabo.

Eu, na cama, ouvia tudo aquilo, quando não era expressamente convocado a participar, por minha mãe que vinha acordar-me «para fugirmos os dois», ou por meu pai que me sacudia para dizer-me «que minha mãe era doida, que o odiava, que me ensinava a ter-lhe ódio». Com sono, farto de cenas sem novidade alguma, cujas marcações e deixas eu sabia de cor, eu tinha ódio a ambos, por sob o medo imenso que ambos me metiam, a puxarem cada um por um braço meu, cada qual exigindo que eu desmentisse o outro. Uma vez, minha mãe vestiu-me apressadamente e vestiu-se depressa também, com meu pai, no corredor, de faca da cozinha em punho, e as criadas nas sombras da porta do «quarto escuro» espreitando. Fui informado de que íamos sair para nos deitarmos ao rio, nos afogarmos. À porta, entre gargalhadas do meu pai, eu recusei-me terminantemente a sair, declarando que estava muito frio. E meu pai, brandindo a faca — que era para suicidar-se, ou para matar minha mãe, ou para liquidar-me a mim, conforme as oportunidades daquela «commedia dell’arte» — avançou para minha mãe. Eu dei-lhe um pontapé no baixo-ventre, que o fez, num urro, largar a faca que apanhei. E as criadas e minha mãe tiveram de interpor-se entre ele e mim, até que uma das criadas, abrindo a porta da rua, se esgueirou, comigo pela mão, desarmando-me, e levando-me para a avenida, onde o dia clareava, e os grandes carros de bois, cobertos de hortaliça muito arrumadinha, desciam chiando a caminho do mercado. A criada falava docemente comigo, dizendo-me que o que eu fizera não se fazia, era uma grande maldade, uma grande falta de respeito. Eu, abaixando a boca, mordi-lhe a mão. E ficámos passeando para baixo e para cima, ela surpresa e dolorida atrás de mim, porque me estimava muito, e eu, à frente, dando pontapés aos detritos que havia no passeio, entornando caixotes de lixo, que estavam nas portas, e urinando contra as árvores como faziam os cães.

Daí em diante, nas questões nocturnas, quando meu tio vinha, no seu sobretudo escuro, negociar que minha mãe não teimasse em dormir na minha cama, de que eu arrepanhava a roupa, ou que meu pai não brandisse facas, acabavam sempre os três por discutir-me acaloradamente, a dois contra um, conforme os argumentos, como se eu, «que levantara a mão contra meu pai», fosse o criminoso, o culpado daquilo tudo. Eu, às vezes, saltava da cama, vinha encostar-me à ombreira da sala de jantar, e pela frincha via-os sentados à volta da mesa, cada qual argumentando com motivações que eu não sonhara ter tido, com malefícios que me não lembrava de ter praticado, ou combinando planos de educação para conterem os meus instintos. Eu ficava atemorizado e trémulo, ouvindo falar de colégios internos, de proibições de brincadeiras, de suspensão das lições de piano, coisas piores.

No dia seguinte, pela manhã, trôpego de sono e inquietação, eu ia para a escola, onde não era mais feliz. Afastados rispidamente da minha casa que não frequentavam, como eu não frequentava a deles, os meus colegas detestavam a minha incapacidade de comunicar, o meu isolamento estudioso e vago que não procurava aliados nem confidentes. Eu era menos rico do que a maioria deles, e vestia-me com um aprimoramento desmazelado que não mantinha a distância que os primores despertam, nem a camaradagem a que o desmazelo convida. E, bem mais vezes que a outros mais peraltas, me atacavam para sujar-me, ripostando eu com uma raiva que não era das regras do jogo, porque eu procurava ansiosamente agredir, com ímpetos assassinos.

À tarde, eu voltava para casa, fechava-me na sala, com o piano e o Papagaio Verde, até ao momento em que, estando meu pai, ele batia à porta. Tocava as músicas que preferia, ou ficava compondo repetidamente melodias que se pareciam com tudo o que eu ouvira de triste, e o Papagaio não pousava já nas costas da cadeira, mas na borda extrema do teclado, de onde seguia os movimentos das minhas mãos, e descia às vezes para as teclas, ensaiando uns passos que eu fazia sonoros no calcar das teclas descidas. Isto divertia-o, e ele simulava um grande espanto, olhando a um lado e outro, soltando «ohs, ohs», e ficando com um pé no ar, um pé hesitante que fingia temer o som da tecla seguinte. Então, eu retirava-o para a borda, e tocava estudos e escalas. O Papagaio dormitava desatento. De súbito, eu feria dois ou três acordes de algumas músicas suas predilectas. Imediatamente se arrepiava na expectativa, de olho arregalado, e cantava e dançava até ao fim, abrindo as asas. Quando eu concluía numa catadupa de acordes extras, os gritos dele eram de aplauso que exigia bis. Eu repetia uma e duas vezes, até que uma angústia de exprimir-me me embargava os dedos, eu pousava a cabeça nas teclas, e esperava que ele viesse, pé ante pé, catar-me na cabeça o piolhinho.

Não chegara ainda à adolescência, quando o Papagaio Verde adoeceu, a princípio muito levemente, de uma pequena boqueira no canto do bico, e que manifestamente o incomodava. Só a minha presença, a minha voz, os meus afagos, o arrancavam da sonolência gemente em que se confinava ao canto do poleiro. Pouco a pouco, a boqueira alastrou em refegos para os lados do bico, avançou em direcção à poupa azul e à fina pálpebra que se mantinha semicerrada. Mal podia abrir o bico, para comer; mal podia firmá-lo, para descer ou subir. Tinha tonturas, vagados que o aterrorizavam e surpreendiam, e acabaram por fazê-lo temer o poleiro de onde quase caía. Foi preciso ter sempre a gaiola no chão. Ele, que às vezes audazmente pulava para a grade da varanda e olhava de alto para o quintal lá em baixo, não se atrevia agora, senão de vez em quando, a aproximar-se, num relance saudoso, da beira da varanda. E, arrastando o pé, voltava para o canto da gaiola. Eu, e minha mãe também, a meu pedido, tratávamos dele, lavando-lhe com um algodão embebido em borato aquela chaga que não era bem chaga, e antes parecia um alastrar de lava pregueada e ressequida. O Papagaio Verde não deixava que minha mãe lhe fizesse o curativo, se eu não estivesse ao lado. Com paciência, falando-lhe carinhosamente, partindo tudo em pedacinhos, eu insistia para que ele comesse. Quase que para me agradar, ele acedia, num esforço infinito, em comer alguma coisa. Dava-lhe de beber, e a água escorria pelos cantos do bico. Foi então que, no meu colo, ele deu em recordar teimosamente, com escândalo de minha mãe que deixou de tratá-lo, o reportório antigo. Murmuradamente dizia de enfiada coisas que eu nunca lhe ouvira, frases, ordens de navegação e manobra, palavrões, palavras em línguas que eu não reconhecia. Como em sonhos, recostado nos meus braços, arrepiando-se às vezes, repetia sem descanso tudo o que decorara na sua longa vida, e o que não decorara, e o que ouvira no convés de navios, em portos de todo o mundo, entre a marinhagem de todas as cores. A sua verdura, agora tão esmaecida e pelada, tão rica, desdobrava-se em ondulações de vagas, em apitos de manobra, em pregões marinhos, em linguajares que tinham no seu som estalado a fúria e o tumulto dos trópicos multicores e a amplidão azul dos mares espumejantes. Era uma ardência mecânica que eu escutava debruçado sobre ele, e se ilustrava, na minha imaginação, de velhas gravuras com índios de penas na cabeça e grandes barcos ancorados em baías de água lisa e límpida em que se espelhavam. Mas era também uma confiança de que, em sacões abruptos, um dos seus pezinhos se apertava no meu dedo, como quem se agarra à vida e transmite a um amigo a derradeira mensagem. Isto durou semanas que me fizeram às vezes faltar às aulas, não ouvir ninguém, não notar ninguém, ocupado em escutar e receber aquela vida que se extinguia. Eu saía a correr da escola que não me dava conta de frequentar, temendo não encontrá-lo ainda vivo. Mas lá estava, agora meio deitado no canto da gaiola, para apertar na pata o meu dedo. O sofrimento dele devia ser horrível: tão grande que, apesar da docilidade com que deixava eu fazer-lhe o curativo inútil, suspendi aquelas lavagens que o torturavam mais. Não era, porém, só a ferida, se era ferida, o que lhe doía. Era-lhe igualmente dolorosa a perda do seu garbo, da sua altivez, da elegância majestosa das suas penas brilhantes. Quantas vezes, arrastando-se, ele tentava erguer-se nas pernas e nos músculos fracos, para, de cabeça ao alto, com o olho já afogado no mal que o roía, espanejar-se ainda, olhar-me com amistosa sobranceria, ensaiar um começo de cantiga. Logo recaía na dormência falante, em que arrepios ligeiros o percorriam para terminarem num aperto de pata no meu dedo. Eu levava-o para o pé do piano, acomodava-o em almofadas na cadeira, tocava-lhe as suas músicas. Ele agitava-se num contentamento longínquo, de quem já não ouvia bem e se despegava do mundo, e recostava na almofada a cabecita, no estertor roufenho que era a sua conversa solitária, onde palavras mal se distinguiam.

Um dia, quando, arquejante da rua e das escadas, cheguei à varanda, o Papagaio Verde estava inerte no canto da gaiola, com o bico pousado no chão. Peguei-lhe, aspergi-o com água, sacudi-o, com a mão auscultei-o longamente. Não morrera ainda. Levei-o para a sala, deitei-o nas almofadas, puxei a cadeira para junto do piano, e, enquanto com os dedos da mão esquerda lhe apertava a pata, toquei só com a direita a música de que ele gostava mais. As lágrimas embaciavam-me as teclas, não me deixavam ver distintamente. Senti que os dedos dele apertavam os meus. Ajoelhei-me junto da cadeira, debruçado sobre ele, e as unhas dele cravaram-se-me no dedo. Mexeu a cabeça, abriu para mim um olho espantado, resmoneou ciciadas algumas sílabas soltas. Depois, ficou imóvel, só com o peito alteando-se numa respiração irregular e funda. Então abriu descaidamente as asas e tentou voltar-se. Ajudei-o, e estendeu o bico para mim. Amparei-o pousado no braço da cadeira, onde as patas não tinham força de agarrar-se. Quis endireitar-se, não pôde, nem mesmo apoiado nas minhas mãos. Voltei a deitá-lo nas almofadas, apertou-me com força o dedo na sua pata, e disse numa voz clara e nítida, dos seus bons tempos de chamar os vendedores que passavam na rua: — Filhos da puta! — Eu afaguei-o suavemente, chorando, e senti que a pata esmorecia no meu dedo. Foi a primeira pessoa que eu vi morrer. Consegui que os vizinhos de baixo mo deixassem enterrar no extremo do quintal. Embrulhei-o num pano, procurei desesperadamente uma caixa que lhe servisse, atravessei pé ante pé a casa dos meus cerimoniosos vizinhos, desci ao quintal com a caixa debaixo do braço, escavei uma cova bem funda, depus a caixa, tapei-a, calcando a terra, e juntei-lhe em cima um montinho de pedras, com flores disfarçadamente surripiadas ao canteiro, entaladas entre elas. E, da varanda, em dias seguidos, eu contemplava aquela sepultura pequenina, adjacente à imensa empena do prédio contíguo, e que a cerimónia havida com os vizinhos não me permitia de cuidar. Vieram chuvas, veio o jardineiro, a sepultura desapareceu. Mas eu sabia, pelas manchas na empena sobranceira, onde ela estava, e adivinhava, sob o canteiro florido, o meu Papagaio Verde.

A minha solidão tornara-se total. Meu pai ia e vinha, sem que sequer a chegada das bagagens me incitasse a reconhecer-lhe a presença mítica. E, na bisonhice que eu cultivava contra tudo e todos, como na sobranceria com que me mostrava ostensivamente agoniado num regime doméstico que, de viagem para viagem, se azedava, havia como que uma herança espiritual de bicadas abruptas. Cheguei mesmo a torturar o Papagaio Cinzento.

Uma tarde, à mesa, estalou a discussão entre meu pai e minha mãe, precisamente num jantar de chegada, a que, como de costume, meus tios assistiam. Eu declarei categoricamente que os detestava a todos, e, atirando com a cadeira por imitação de violência, levantei-me para a varanda, perseguido por um bofetão de meu tio. Lutei contra ele que me agarrava, e contra meu pai que o agarrava a ele, e contra minha mãe que agarrava meu pai, e contra a minha tia que os agarrava a todos; e vendo, num relance enublado, aquele cacho humano a disputar-se a primazia de castigar-me, a voz embargou-se-me em gritos de choro desatado: — Ninguém é meu amigo, ninguém é meu amigo… Só o Papagaio Verde é meu amigo.

A luta suspendeu-se numa gargalhada alvar, que escorria babada pelos guardanapos deles. Eu fiquei de costas, buscando com os olhos, lá em baixo, no quintal, o recanto em que jazia o Papagaio. E ouvi distintamente a sua voz aguda e clara, dominadora e viril, sarcástica e displicente, raivosa e cheia de carácter, a proclamar, num grande voo de asas verdes, o juízo final que murmurara ao morrer. Não eram. Em verdade, não eram sequer isso, cujo sentido eu não sabia então claramente. A vida, desde então, não me esclareceu muito; mas creio firmemente que, se há anjos-da-guarda, o meu tem asas verdes, e sabe, para consolar-me nas horas mais amargas, os mais rudes palavrões dos sete mares.

Assis, 3-6-61 e Araraquara, 25-6-62.

A recepção do conto “Homenagem ao papagaio verde”

A bibliografia voltada particularmente para este conto já se faz larga e merece ser destacada:

===> Bagão, Teresa. “Só quem ama assim as aves/traz o sol todo na mão”: uma leitura do conto “Homenagem ao Papagaio Verde”, de Jorge de Sena. Forma Breve, nº 2, Universidade do Algarve, 2004, p. 173-184 (ver http://revistas.ua.pt/index.php/formabreve/article/view/188/160)

===> Fagundes, Francisco Cota. A transmutação das experiências autobiográficas em Os Grão-Capitães de Jorge deSena. In: Lisboa, Eugénio, org. Estudos sobre Jorge de Sena. Lisboa, IN-CM, 1984, p. 344-367.

===> Figueiredo, Monica. Com humana crueldade se tece um conto – a propósito de “Homenagem ao Papagaio Verde”. In: Santos, Gilda, org. Jorge de Sena: Ressonâncias e Cinquenta Poemas. Rio de Janeiro, 7 Letras, 2006, p. 88-97

===> Ladeira, António. Mitologias e alegorias da masculinidade em ‘Homenagem ao Papagaio Verde’. In: Francisco Cota Fagundes & Jorge Fazenda Lourenço, org. Jorge de Sena: Novas Perspectivas, 30 anos depois. Lisboa: Universidade Católica Ed., 2009, p. 281-294

===> Monteiro, George. “Sena’s Parrot”. In: Francisco Cota Fagundes & Paula Gândara, org. Tudo isto que rodeia Jorge de Sena: an International Colloquium. Lisboa, Salamandra, 2003, p. 241-259

===> Ornelas, José N. “Homenagem ao Papagaio Verde”: inclusion and exclusion. In: Francisco Cota Fagundes & Paula Gândara, org. Tudo isto que rodeia Jorge de Sena: an International Colloquium. Lisboa, Salamandra, 2003, p. 261-270

===> Sedlmayer, Sabrina. Sinais de fogo, aviso de incêndio – ideias estéticas, históricas e literárias em Jorge de Sena e Walter Benjamin. Revista Literatura e Autoritarismo (Dossiê Walter Benjamin e a Literatura Brasileira). Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria/RS. (Ensaio sobre Sinais de Fogo e “Homenagem ao Papagaio Verde”). Disponível em http://w3.ufsm.br/grpesqla/revista/dossie05/art_02.php

E, além do ensaísmo crítico, há que destacar outras experiências criativas:

===> A iniciativa do Teatro Aveirense em dramatizar excertos do conto para um público infantil: http://www.teatroaveirense.com/evento_detalhe.asp?id=127

===> Em sala de aula, as redações de alunos de 8º ano, com base no desenlace do conto: http://nestahora.blogspot.com/2009/11/depois-da-leitura-de-homenagem-ao.html

 

Os Corvos de Minerva

Esboço de conto ou início de capítulo de romance?

postal_recifeO fragmento a seguir, sem data indicada e publicado como inédito em 1983, nos Quaderni Portoghesi, reporta-se à primeira visão, literalmente, que Jorge de Sena teve do Brasil, ainda do avião que o trazia, em agosto de 1959. O comentário de Luciana Stegagno Picchio a este texto inconcluso traz-nos coordenadas preciosas para sua compreensão.

A primeira impressão que teve da cidade foi de um pequeno povoado em que as ruas geometricamente traçadas se perdiam no campo e telhados vermelhos de casas baixas surgiam de entre o arvoredo. O aviãozinho deu uma volta sobre a cidade, antes de pousar. A sensação de comovida euforia, que lhe pusera no olhos que desciam do alto sobre o amarelo avermelhado da paisagem uma humidade de ternura, cedeu um pouco, quando os olhos procuraram a gare do aeroporto e encontraram só uma barraquinha de madeira, para a qual o avião se dirigia. Mas tudo foi esquecido na decisão, que já tomara, de aceitar o convite, e na cortesia atenciosa dos futuros colegas, nas manifestações de cordialidade dos alunos. A euforia era ainda aquela com que levantara voo da Espanha, em direcção à América do Sul, numa hora particularmente difícil, em que, por momentos falhos e de resultados ameaçadores, as linhas decisivas da sua vida e da vida de Espanha se tinham cruzado. Poderia ter amanhecido alta figura política de uma pátria nova, e amanhecera, em certo dia, apenas comparsa de uma história obscura, sinistra e ridícula, cuja importância, para efeitos persecutórios, dependia inteiramente das conveniências políticas do Ditador ou da extensão das informações de que disporia, ou viria a dispor, a polícia. Mantivera sempre, em face do Governo, uma atitude de firme e prudente oposição, e, persistentemente trabalhara, com a mais discreta das reservas, para aproximar os núcleos oposicionistas, cujas divergências o Ditador habilmente explorava, ou para despertar, em membros influentes de outros grupos que politicamente oposicionistas, jogavam na «transformação» do regime, uma consciência de irredutibilidade. Em parte, era o inspirador longínquo do dispositivo que se desenvolvera depois, como um organismo autónomo, cujos meandros e cujas sujeições procurava ignorar, na preocupação de, ao mesmo tempo, salvaguardar a sua isenção extra-partidária e de continuar sendo o elo de ligação entre tendências opostas, sem o entendimento e a aproximação das quais nenhuma intentona seria possível com êxito. Durante vinte anos, a sua posição fora idêntica: não comprometer, por qualquer manifestação imprudente ou qualquer diligência menos discreta, a independência dos seus juizos, muitas vezes expressos com violência, mas apenas subordinados a uma exigência de esclarecimento, de elucidação, de verdade. Na vida cultural como na política, não procedera de maneira diferente; e, por isso, o seu prestígio — conquistado à força de cultura, de inteligência e de integridade, contra todos os conluios de pequenas conivências, e na recusa à complacência com qualquer mediocridade — era um equilíbrio igualmente difícil, apenas garantido por uma actividade enorme de crição e de crítica e pelo respeito que a sua personalidade impunha. Tudo isto se reflectia numa situação curiosamente contraditória. De um agnosticismo em que o ateísmo materialista e um catolicismo esotérico se fundiam, tinha amigos jesuítas, com grande suspeição dos seus amigos de extrema-esquerda. Extremista de esquerda, sem sujeições nem entendimentos partidários, era estimado e admirado por criaturas de direita, que viam nele o vanguardismo cultural que se opunha ao bisonhismo literário dos vanguardistas políticos. Republicano mas indiferente e adverso à questão do regime, os monárquicos encontravam nele uma compreensão que os fascinava. E a sua irredutibilidade em relação à situação vigente, claramente sentida por todos, mas exercida com uma liberdade de movimentos que não caíam abertamente na alçada da polícia, por notoriamente não serem «partidários», não menos permitia à conspiração da mediocridade (integrada na situação política, ou fruindo das vantagens que a compreensão da censura oferecia a todas pro ou contra aquela situação) relegá-lo a um puro prestígio que nenhuma cátedra, nenhuma distinção socialmente efectiva, garantia ou assegurava. Não tivera, de resto, ambições nunca; e, se aceitara as responsabilidades que lhe haviam pedido, fora por elas decorrerem de tudo quanto fizera, e por reconhecer que não podia nem devia eximir-se a representar, na prática, o papel de fiel da balança, que fora sempre o seu. No momento em que tudo desabava por cobardia de uns, por maquiavelismo de outros, por terrível inconsciência das realidades de quase todos (décadas de repressão e de afastamento do mundo só a raros indivíduos não haviam imposto, em comum com os arregimentados da situação vigente, uma mentalidade passiva, céptica, cheia de falsos escrúpulos e de um medo de perder o pão de cada dia, que o Ditador tinha artes consumadas de, sem escândalo, retirar a quem lhe aprouvesse), sentia que uma época da sua vida se encerrava. Daí em diante, a sua posição não poderia mais ser a mesma: ou enveredava, de mistura com muitos, por novas combinações mais sinistras, ao fundo das quais poderia estar a própria sombra do Ditador, e isso repugnava totalmente à sua irredutibilidade; ou mergulhava, com sacrifício de uma independência de intelectual orgulhoso, na clandestina actividade partidária que sempre apoiara sem participar dela, e tais riscos não poderia correr, chefe de família numerosa e sem quaisquer recursos de fortuna, que, nas horas amargas, protegessem da fome a sua tribo. Por isso, aquele convite transatlântico para um Congresso da Hispanidade, ironicamente chegado nas horas esperançosas da vitória certa, se tornara angustiadamente a possibilidade única da libertação que não viera, e da consagração que, nas horas silenciosas de uma noite de expectativa, silêncio a silêncio ele vira que não vinha. Até ao último momento, enquanto atravessava, de mala na mão, o campo, duvidara de que o deixassem partir: quando se voltava para dizer adeus à família e aos amigos que se despediam por quinze dias, voltava-se também para verificar que nenhum vulto, seguindo-o subrepticiamente, não estava prestes a agarrar-lhe um braço, a pôr-lhe no ombro a mão do poder discricionário. No mesmo avião seguiam outros convidados que infantilmente exorcismavam, na alegria esfusiante de uma agitação nervosa, o medo do voo transatlântico (não eram próceres habituados a voar com a segurança de serem grandes do mundo), a atmosfera pesada de uma pátria oprimida (que mesmo os integrados submissamente não deixavam de sentir que ficava lá em baixo, como um halo em torno do mar de luzes da cidade), e até a satisfação curiosa de irem pisar, perplexos e estranhos, a terra do Novo Mundo. Para todos, aquilo era como uma escapada de colegiais em férias de internato. Para ele, mais do que um voo, era um salto no espaço. Noutra escala, muitos outros saltos desses dera na vida: sem outra hesitação que não a saudade, que sempre estupidamente sentia, do que as coisas poderiam ter sido, se menos envenenadas pela mesquinhez, pela ambi
ção, pela deslealdade humanas, já outras vezes se despedira abruptamente de uma vida ou de um emprego, para começar de novo. Era, dessas vezes, porém, mais jovem, menos desiludido, e, sobretudo, menos responsável para fora da sua pessoa. Sabia bem, e com cepticismo triste, quantos punham nele os olhos e os ouvidos, à espera do incentivo para continuarem firmes; e quantos se felicitariam de vê-lo pelas costas, para mais impunemente pactuarem a ocultas de grandes exibições de truculência desassombrada. Mas a verdade é que, não aproveitando a oportunidade, teria sempre a sensação, que era tão sua, de ter traído o destino; e, agora, não só o destino, mas também aqueles mesmos que confiavam nele. A América era uma memória vaga da sua adolescência, e o Prata, que se admirara de não ser prateado mas sombriamente barrento, ainda lhe brilhava assim nos recessos juvenis do espírito, lá onde o primeiro grande sonho da sua vida – respirar livre o ar marinho dos espaços imensos – se desfizera humilhadamente na demissão compulsiva que coroara (tão jovem ainda, e quando essas coisas da violência ditatorial não eram, no entrechoque das paixões políticas, compreendidas ainda em termos de uma nova linguagem de prepotência subreptícia) a sua independência ingénua e honesta. Enquanto, porém, os companheiros da grande viagem transatlântica se acomodavam para dormir inquietamente, apenas confiados na regularidade ronro-nante dos quatro motores do DC-7, a América fora para ele a Terra da Promissão, da liberdade ainda que precária, de uma hispanidade levada ao patrioteirismo repugnante de uma pátria ensimesmada, pela malícia de um fascismo de nação decadente, na contemplação narcísica das passadas glórias; fora, sem dúvida, a imagem daquilo que não se encontra nunca, porque o veneno peninsular é pervasivo e subtil na sua grosseria ostentosa, mas que, não se encontrando, não é todavia em nós mesmos que se não encontra. A chegada, com o tumulto arrebanhado de um numeroso congresso que é sempre um pequeno mundo ilusório, feito dos abraços efusivos de antigos conhecimentos vagos que se tornam amigos de infância (durante uma semana) da vaidade das apresentações sempre encarecedoras e das intervenções em plenário, das mesuras generosas para quem, […]

In: Monte Cativo e outros projetos de ficção. Porto, ASA, 1994, p. 157-163

 

Comentário de Luciana Stegagno Picchio:

O manuscrito finda aqui. Anota Mécia de Sena: “Entre as coisas inéditas (refiro-me a fragmentos de contos) tenho este fragmento que é uma autoanálise magnificente e, quanto a mim, embora o Jorge o tivesse como um conto, estou convencida que era precisamente um caso em que ele resolvia em conto a falta de tempo para escrever os romances que ele escreveu capitularmente em muitos dos contos. Este para mim ( e tem todo fôlego necessário) era o início do 4 volume do Monte Cativo. Tenho, e esse identificado para mim, o início do Iº volume que são umas páginas excelentes com um entresonho que agora toda a gente faz até à saciedade mas quando ninguém o fazia. São umas duas ou três páginas se dactilografadas…”.

Para quem, como eu, conheceu Jorge de Sena em 1959, na Bahia, no Brasil, justo na ocasião do Congresso da Hispanidade que aqui se recorda e que era mais precisamente o IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, organizado pela Universidade da Bahia, o “conto” se ressemantiza como “crônica” cada vez que busco dar um nome e uma colocação histórico-geográfica a uma personagem, a um lugar, a um fato entomologizado sobre a narração. E eis que, na abertura, a “cidade, pequeno povoado” que se distingue como uma carta topográfica ao olho de quem a perscruta e observa do alto com a “comovida euforia” de quem vê pela primeira vez a própria casa futura, o contentor da própria vida social, esta “cidade”, com um aeroporto que é só uma “barraquinha de madeira”, é sem dúvida Assis, para onde em 1959 precisamente Jorge de Sena se transferirá para ensinar Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras local; mas é ao mesmo tempo Salvador da Bahia, onde acontecerá o Congresso. E a análise existencial, mais de dentro do que de fora, do eu-personagem, narrado como um ele, na terceira pessoa, por um narrador outro que somente nele se identifica como narrador onisciente, esta análise corresponde sem dúvida à descrição da personagem Jorge de Sena no momento mais delicado de sua vida, quando, abandonando uma vida diversa, de engenheiro-letrado português, decide ser unicamente um letrado, que vive a própria aventura humana e poética fora da pátria, exilado, cidadão do mundo. O “Ditador” que ele deixa na pátria, o Salazar do Estado Novo português, parece diminuir de estatura visto de longe, de um avião de fuga e de liberdade, de um voo de aventura.

E presente e futuro se entrelaçam naquele avião no qual intelectuais neófitos em aviões exorcizam com alegria rumorosa o temor da viagem enquanto ao lado deles um “colega”, aparentemente tomado pelos mesmos problemas, em vez disso se interroga, mas no fundo sabendo que esta é, em outro sentido, uma viagem sem retorno. “Para todos, aquilo era como uma escapada de colegiais em férias de internato. Para ele, mais do que um voo, era um salto no espaço”.

Um salto, mas também um sonho: como aquele primeiro grande sonho frustrado na vida, ser marinheiro, como marinheiro havia sido o pai, e como ele, em uma identificação que não necessita de muita análise, “respirar livre o ar marinho dos espaços imensos”.

Uma bela página inédita que, se nos faz penetrar mais fundo no laboratório do Jorge de Sena “contista”, nos abre também uma nova fresta sobre suas experiências de homem.

Tradução de Flavia Tebaldi

In: Quaderni Portoghesi, n.° 13-14 (Pisa, 1983), p. 104-106

O Comboio das Onze

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

Quand un oeuf casse des oeufs, c'est qu'il n'aime pas les omelettes.
(Paul Eluard e Benjamin Péret 152 Proverbes mis au goút du jour)

 

I – A PASSAGEM DE NÍVEL

Aguardava a passagem do comboio, sabendo que a locomotiva ultrapassava a compreensão da expectativa; que das carruagens fracamente iluminadas raros passageiros teriam sombras recortadas no amarelo das janelas, e as malas postas ao alto encerrariam jornais velhos, roupa branca, um fato mal dobrado. Consumir-se-iam alguns guardas da linha, ardendo pacientes com uma bandeira na mão, espalhando em volta fumo esbranquiçado e cabelos soltos na aragem. De olhos fitos na passagem de nível, outras pessoas suspensas não eram quem esperava, nem os guardas, nem os passageiros. Ao breve sinal da partida, o apeadeiro distanciou-se na curva e sumiu-se logo. Os que não eram nem uns nem outros reconsideraram, analisaram-se copiosamente, de acordo com as regras trifásicas mais comuns, e encetaram uma conversação em voz baixa, ouvida apenas a grande distância, por uns agudos sibilando nas últimas palavras proferidas. Sem dúvida se tratava de autoclismos, pois que os sons se perdiam, continuamente renovados. Na estrada próxima, as árvores cobriam-se de folhas, conforme passavam ou não automóveis lentos, saboreando uma frescura de calçada antiga. A humidade ambiente, que persistia absolutamente incógnita, inseria-se na conversação. Pouco a pouco diluíram-se os conversadores, tanto mais que, em verdade, não estavam lá. Foi então que o espectador inicial, muito lentamente, atravessou a linha e se dirigiu à barraca do guarda. A semelhança entre a barraca e uma cabina telefónica ao fim da rua era flagrante. Apenas dentro da barraca havia, de furta-fogo, uma lanterna acesa. O guarda, cujo bigode era grisalho e pendia silencioso, habituado a ser mordido, inquiriu: — Espera pelo comboio das onze? — A pergunta acordou ambos os contendores, porque o eram de facto. Brilhou na noite tranquila uma lâmina de várias folhas, muito típica. O guarda estertorou convencionalmente, à luz da lanterna, que o assassino desviou com delicadeza. Alguém se aproximava pela valeta fora; ouvia-se estalar o saibro, passo a passo. Então, amassando cuidadosamente algumas teias de aranha existentes nos vidros mais partidos, o assassino preparou, com sangue da vítima e algum cotão da mesma, uma pequena pasta, que guardou numa caixa que trazia na algibeira direita do sobretudo. O sinal badalou. Ecoaram adros de aldeia, relógios de sala, uma mola partida em qualquer recordação de infância. O saibro estalava mais próximo. Sentando-se honestamente no cachaço do cadáver, o assassino inquiriu: — Espera o comboio das onze? — A figura em frente da porta, vestida de branco, respondeu que não, e espreitou curiosamente. Os cabelos entalaram-se-lhe num dos vidros, entre o caco e o jornal colado como remendo. O assassino repetiu a pergunta. A figura, com voz extremamente cristalina, ratificou a negativa. Suspiraram ambos. O assassino puxou da pequena caixa, abriu-a, e ofereceu à figura uma pitada do conteúdo. Quando a figura se dispunha a aceitar, ouviu-se o ruído de um comboio, muito próximo, repentino. Era o comboio das onze, que parou. Saiu, pisando a calçada húmida, uma mulher de cesto, com uma criança ao colo. Ao pôr-se em movimento o comboio, tanto o assassino como a figura saltaram de repente para uma carruagem de 3.a classe. A carruagem ia quase vazia, mas, não obstante, sumiu-se com eles na curva obscura. A corneta do guarda ficara atravessada na porta da barraca. O telefone tocou abandonado. O guarda não respondeu, nem podia pensar nisso, ocupado como estava em regressar a cadáver depois de sentir-se banco de jardim, rodeado de aragem e de estalar de saibro. Foi então que morreu, consciente de que mal fora ferido, embora o comboio houvesse passado com o atraso habitual.


II – A CARRUAGEM DE 3a. CLASSE

— Chamo-me Infesta — disse a figura de branco sentando-se num banco, onde ia um saloio ainda jovem, que ressonava. — E eu, Pancrácio — respondeu o assassino. Mutuamente se examinaram, aproveitando a oportunidade para se delimitarem no vazio de um comboio suburbano, em que seguiam apenas 20 pessoas, duas das quais naquela mesma carruagem: o saloio e uma mulher de meia-idade, ainda virgem, exalando um característico perfume, que se corporizava no sono do saloio, como se verá. Pancrácio, além do sobretudo que trazia, era muito novo, magro, de feições angulosas, lábios grossos, olhos escuros, sobrancelhas arqueadas, nariz grande e cavado junto aos malares, testa alta, cabelo escuro e levemente ondeado, pele morena um pouco amarelada, orelhas muito secas e despegadas, mãos de dedos grossos e compridos, joelhos agudos. Nem tudo isto se via, mas era constituinte do conjunto observado pela figura de branco. Esta, sob os cabelos de cor indecisa, louros ou castanhos ou pretos conforme as circunstâncias, tinha uma compleição de mulher nova, risonha, muito branca, de um branco creme, facilmente distinguível das pregas flutuantes do vestido alcalino que trazia. A boca vermelha e larga, os olhos claros e fugidios, seios separados, rijos, ancas longas da cintura às coxas, que eram vastas segundo outras concavidades possíveis. Sobretudo as mãos, muito lépidas e libertárias, de dedos fusiformes com as unhas roídas, chamaram a atenção de Pancrácio, sentado no banco fronteiro. A outra passageira seguia no banco adiante, mas do outro lado do corredor. O comboio, de vez em quando parava, alterando o bambolear adormecido do saloio e a atitude erecta da mulher de meia-idade. Pancrácio começou a sentir, por influência do sorriso idiota da figura de branco, e ainda pela penumbra e pelo cheiro a poeira azeda, ambos afrodisíacos, um violento desejo. Se era violento interiormente, e crescente, nem por isso esse desejo deixava de ser ondulatório, com variações regulares de amplitude, que interferiam com as vibrações do comboio, segundo as leis habitualmente harmónicas destes fenómenos. Pancrácio ajoelhou, pegou nas mãos de Infesta, e, durante o tempo necessário ao consumo da saliva em excesso, lambeu-lhe, uma por uma, as inserções dos dedos. Infesta afastava os joelhos e escorregava sabiamente pelo banco, sibilando muito devagar. A mulher de meia-idade, que já várias vezes se agitara ciente dos acontecimentos, principiou então um forte arrulho, muito rebolado e entrecortado de uivos cuspinhosos. Pancrácio agora tinha nos seus braços a figura de branco.


III – O SONO DO SALOIO

O saloio, que afinal, não estava no mesmo banco, esse dormia equilibrado mansamente num dilúvio de pinheiros que um luar esfiava por recantos negros, onde se ouviam ruídos de algumas saias e de cinturas dobradas para o chão. A cabeça, de boca entreaberta, descaía sobre um cesto; e as pernas dele, aos olhos da mulher uivante, eram só calças justas, sempre mais justas no deslizar do corpo pelo banco puído. Ele não era magro como Pancrácio, e era rubicundo; e das melenas claras que para a testa desciam poderia concluir-se que, se abrisse os olhos, estes eram azuis. Respirava em arquejos da merenda que ainda se avolumava entre as toalhas de franja que sobravam da cesta. Sentado em frente da mulher de meia-idade, por um leve contacto dos tornozelos dela contra as botas se insinuava e subia pelas pernas dele uma amargura seca, hesitante e tímida, perfume característico, sem audácia, sem viscosidade, que se distinguia das poeiras que penetravam Pancrácio pelas narinas untuosas. Os olhos dela despiam-no, numa ignorância total de como se despe um homem que dorme. Mas não eram tais olhos, que se aguçavam por ingénuos cálculos, o que repercutia no sono do saloio, mas aquela ascensão peculiar, arripiando-lhe sub-reptíciamente os pêlos das pernas, alastrando como uma pele cariciosa por todo o corpo oculto na massa de roupa contraída e sono titilado que ele estava sendo. A mulher pegou então da pequenina mala que tinha pousada no banco, retirou os pés do suave aperto em que detinha o dele, abriu a mala inteiramente preta e de couro falso, e procurou com cuidado uma escova de unhas. Depois, pondo-se de pé e segurando-se com uma das mãos às costas do assento do saloio, poliu-lhe carinhosamente as sobrancelhas, o buço mal rapado e perlado de suor, alguns cabelos que da camisa saíam, e anatomicamente o percorreu com sempre a mesma minúcia, como quem pé ante pé pesquisa um quarto escuro. O saloio, cada vez mais adolescente, bamboleava-se não já do embalo do andamento, mas sonhava que…


IV – O ARROZ E A MOSTARDA

Pancrácio e a figura reclinada nos seus braços conversavam.

— Se procurares que a chuva não te suje a testa, importa que acrescentes uma pedra ao caldo.

— É evidente, meu amor Infesta — dizia ele —, que sempre e desde sempre te darei da caixa uma pitada.

— Ouvi dizer que nunca encomendaste outros remédios, além dos que se tomam de quatro em quatro horas.

— Às onze, por isso, eu sabia que nos encontraríamos. Quando quiseres, fora das onze, que nos encontremos…

— Mas não são já onze, e vamos no comboio. Nem todas as teias, sabes?, são das que nos servem. Umas há que não se misturam. E outras vezes é o sangue dos guardas que não liga com elas.

Ficaram calados, pensativos, só então ele notando que Infesta estava com as vestes pela cabeça, e que a cabeça sem olhos, nem boca, nem ouvidos, nem sequer cabelos, era uma imensa nuvem de adejantes têxteis. Mas, notando assim, Pancrácio por seu lado não saberia dizer se ela estava nua ou não, se era Infesta ou não, se a possuíra ou não. E perguntou a Infesta. Ela recordava-se.

Foi então que a cesta do saloio caiu do banco.

Pancrácio e a figura esticaram-se para ver. Da cesta um arroz-doce escorria e se espalhava no chão. E a mulher de meia-idade, à luz vacilante da carruagem, tinha o saloio atravessado no colo, com a cabeça caída e os braços caídos, e compunha um grupo curiosíssimo, uma espécie de Pietà, que apenas outros gestos multiplicavam.


V – MAIS ARROZ E MOSTARDA

Infesta nada podia ver, de envolta nos vestidos que, violentamente, Pancrácio lhe arrancou. Nesse instante preciso, num chocalhar de freios e ferragens, o comboio parou. Parou tão de repente, que o saloio caiu, a mulher de meia-idade ficou ainda como se ele estivesse onde estava, Pancrácio franziu a testa e tombou sentado entre os bancos, no corredor, em cima do arroz que vinha da cesta do saloio. Lá fora apregoavam água, jornais da noite. Depois, as luzes da estação, e outras que havia mais longe, dentro do escuro, começaram a deslizar com um ruído surdo. Olhando uns trapos sujos que tinha na mão, Pancrácio verificou que Infesta desaparecera. A outra sua mão estava cheia de arroz. Largou os trapos, levantou-se, cambaleou um pouco ao passar a carruagem por umas agulhas que estrondearam, e, tirando da algibeira a caixa do unguento, dirigiu-se à mulher de meia-idade. Ambos, sorrindo um para o outro, se serviram do arroz que estava na mão e no sobretudo de Pancrácio, com umas pitadas bem medidas da pasta alimentícia e contumaz. Depois, inclinando-se ambos, ajudaram a pôr-se de pé o saloio que, do chão, os fitava interrogativamente. Sentada sempre a mulher, Pancrácio, ao lado do saloio, guiou as mãos dela, que foram despindo assim por completo o jovem. Este, de olhos baixos, seguia os gestos, como se só então reconhecesse aquele corpo que tinha tão desperto. Quando Pancrácio, a seguir, desabotoou o sobretudo, ele mesmo e os outros dois viram então que estava nu. A mulher de meia-idade deitou-se ao comprido no banco, fechou os olhos, e esperou. Pancrácio começou por enfiar-lhe na boca os trapos que largara.


VI – O TELEFONE

Na cabina telefónica onde o guarda ficara morto, o telefone tiniu. O vento sibilava matutinamente já por entre a tepidez do ar, a qual rodeava a frialdade cadaverosa do homem de bigode e mesmo algum cotão que espreitava dos refegos dos bolsos meio revirados. Um gato correu rapidamente ao longo dos carris que começaram a vibrar cada vez mais. Um apito se ouviu ao longe. Pancrácio abriu a porta, entrou e disse: — Ergue-te e caminha!


1948-1960

 

História do Peixe-pato

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

“Escrito em 1959, nos fins desse ano, e pois já no Brasil, será interessante anotar que o foi com uma intenção inteiramente traída pelo “peixe-pato” ele mesmo, pelo homem que é outra personagem da história, e por aquelas aves sinistras voando sobre a paixão deles. Com efeito, os mais velhos dos meus filhos, então crianças, pediram-me que, escrevendo eu (coisa que eles viam acontecer diariamente, mas de que eram excluídos), escrevesse uma “história” para eles. Comecei a escrevê-la… E saiu uma coisa cheia de coisas terríveis, evidentes ou não, que crianças não podiam ler nem entender, mas que, se ouvissem lhes dariam pesadelos (não muitos diversos de comuns e habituais pesadelos da adolescência sobretudo masculina, como é sabido dos entendidos dos tais assuntos).” JS.

 

E começarom a comer a vianda que o outro trouxera e morrerom com a peçonha que em ella andava.
Orto do Esposo

Era uma vez um homem que vivia numa pequenina cabana à beira-mar, lá para as bandas das Africas, das Índias ou dos Brasis, onde o calor é tanto que o mar parece de vidro azul, e as florestas crescem tanto que se apertam, apertam, e chegam mesmo ao pé da água. Num sítio daqueles, o homem, coitado, quase não tinha onde pôr a cabana. Havia entre as ondas e as árvores só uma tirinha de areia muito estreita, que não dava para nada. Quando vinha o mau tempo, e às vezes vinha, ainda ele não tinha chegado e já o homem ficava sem casa nenhuma. E daquele aperto da casa entre as ondas e as árvores, nunca chegava a saber o que primeiro lhe deitava a casa abaixo, se os salpicos das águas, se uma bofetada dos ramos que cobriam a casa e o vento sacudia. Felizmente para ele, a casa desfazia-se mal a tempestade se prenunciava, porque, de outro modo, ali entalado entre as ondas e os troncos, numa tirinha tão estreita, seria levado pelas ondas mais altas que viriam depois, ou os troncos, batendo uns contra os outros, lhe partiriam a cabeça. Por isso, logo que a cabana — que era uma construção muito fraca, feita de uns paus e de umas folhas e de umas algas — tomava o jeito de cair, o homem saía dela, ia pela tirinha de areia fora e sentava-se mais longe, num grande cabo que entrava pelo mar dentro, a esnerar com paciência que a tempestade aumentasse, fingisse que ia acabar com o mundo e amainasse de todo. O cabo era muito grande, entrava muito pelo mar dentro, e o mar não lhe chegava ao cimo, porque ele era muito alto; e como, além disso, era de pedra, uma pedra muito rija, não havia árvore nem erva que nele metesse raiz. Parece que, sendo o cabo assim, estava mesmo a calhar para o homem lá fazer a casa, e não naquele sítio tão estreitinho entre a floresta e o mar. Mas o homem não gostava dele, achava-o duro, alto de mais, inacessível às águas e impenetrável às raízes. Ou talvez nem pensasse nada disto — o certo é que gostava do outro sítio, aonde, depois de ter esperado no cabo, com paciência, o fim da tempestade, voltava a construir a sua cabana pequenina. E, porque do sítio gostava, era nele que sempre queria estar. Não se pode dizer que ninguém soubesse a razão de ele viver sozinho naquele sítio, porque ninguém sabia que ele ali vivesse. E como viera até ali? De barco? Através da floresta? Naufragara? Caíra do céu, de um avião que passara? Nem ele mesmo sabia, e, se o soubera, esquecera. E de que vivia ele? Às vezes, de um peixe que pescava ou apanhava desprevenido ao rés-da-areia, na transparência límpida das águas que vidro azul pareciam. Outras vezes, de um pássaro ou de um macaco que se perdia e saía da floresta e, vendo-se à solta ante o mar, não atinava com uma passagem entre as palmas, os ramos, as trepadeiras e as folhas grandes e pequenas, que eram como que uma parede verde ante o azul das águas. Escamava-os, ou depenava-os ou esfolava-os, e depois assava-os num espeto de ferro que ele tinha e era a única mobília da sua casa e a única coisa que levava consigo, quando ia para cima do cabo esperar, com paciência, que as tempestades passassem.

O homem não era velho. Alto e vigoroso, muito queimado do sol, e curtido das chuvas e do vento do mar, entretinha-se a subir às árvores ou a nadar no mar, ou ficava sentado na areia, à porta da cabana, com os pés quase na espuma que até ele vinha, a ver como o céu mudava de cor e, com a cor do céu, o mar mudava de azul, ou a ver as ondas cintilar ao longe, espraiarem-se na areia ou rebentarem contra o cabo, e a ouvir os sons que vinham da floresta, guinchos de macacos e cantorias de aves, ou só, rumorejantes, as folhas do arvoredo, em que se enleava a brisa. Alegre não era ele muito, embora às vezes cantasse. Triste também não era. É certo que à noite, não havendo lua a pratear o mar e o cabo e os vultos das árvores da floresta, porque era lua nova, ou pesadas nuvens, espessas e escuras, encobriam uma lua cheia ou crescente ou minguante, se se demorava ele um pouco mais à porta da cabana, como que sentia uma tristeza fina, e os olhos se lhe bordavam de umas poucas lágrimas. Mas não era triste, não! Nem sequer falava sozinho. Quando falava, em geral era-lhe a fala uma espécie de acrescento de força ao trabalho das mãos ou uma conversa inventada com os animais que apanhava para comer, enquanto tentava apanhá-los, ou, depois que os apanhava, enquanto os escamava, depenava, esfolava. Mas o trabalho que fazia era quase nenhum, e um bicho durava-lhe mais de um dia. Não tinha, pois, ocasiões de falar muito, e fora delas quase nunca lhe lembravam falas. Acontecia que, embora fossem raros, pássaros do mar por ali apareciam voejando, e pousavam no alto cabo, onde grasnavam, crocitavam, piavam uns com os outros, ou ficavam, negros, bicudos e de peito branco, imóveis e calados. Com esses que vinham não sabia ele donde, e que partiam como tinham vindo, sem sequer fazerem ninho na rocha dura do cabo, uma rocha lisa e áspera, angulosa mas sem qualquer concavidade oculta onde um dos pássaros deixasse um ovo, com esses, sim, lhe apetecia conversar às vezes. Principalmente quartdo, imóveis e calados, ou debicando as penas sob as asas, o olhavam de esguelha, mal o distinguindo à porta da cabana, rente ao mar, na orla estreita da areia que no cabo acabava, a voz lhe vinha à boca para perguntar, para dizer. Mas eram pássaros marinhos, de vozes guturais, roufenhas, sacudidas, e não falavam, nem com eles tinha trato de os comer, desde uma vez que uma gaivota ou albatroz ou corvo de água, de asas partidas, lhe caíra no mar quase a seus pés, e ele a depenara e assara no espeto. A carne dura e salobra, muito escura e nervosa, não lhe soubera bem. Quando havia temporais e ele subia ao cabo, os pássaros lá estavam como ele, acachapados contra a pedra, esperando com paciência que a tempestade amainasse. A luz dos relâmpagos os via; mas, como nessa altura ele e os pássaros apenas se ocupavam com esperar, com resistir ao vento e à chuva, nenhuma camaradagem se estabelecera entre eles. Vindos não sabia de onde e sumindo-se por sobre as águas como haviam vindo, eram com efeito os únicos seres vivos a cuja presença se habituara, que ali lhe apareciam como se fossem sempre os mesmos. Por certo o não eram. Alguns não voltariam mais, quando partiam; outros que vinham, talvez nunca tivessem lá estado — o que era tanto mais provável quanto, na pedra rija e angulosa, mas sem concavidades, nenhum fizera ninho. Nem de resto eram muitos ao mesmo tempo; e, por certo, pousavam por acaso ali, de passagem para outros cabos ou apenas para repousarem da caça infatigável que, suspensos sobre o mar e de olhar fito, davam, num mergulho veloz, aos peixes que espiavam. Com eles aprendera o homem uma coisa: essa maneira de pairar atento, de mergulhar subitamente, de apanhar nas mãos ou na ponta do espeto um peixe, como eles o traçavam nos bicos compridos e afiados, de pontinha adunca. Não é que ele pairasse no ar e se deixasse cair, evidentemente; mas flutuava e mergulhava, ou, de pé nas águas tranquilas, espiava os peixes que da sua imobilidade se fiavam para nadar junto dele.

Precisamente um dia em que flutuava com o espeto em punho, viu passar, um pouco lento e cambaleante entre duas águas, uma forma que, reparando-se melhor, era um peixe. Um peixe grande e estranho, como que tendo patas em vez de barbatanas ou um par de barbatanas como patas, e de corpo luzidio e esbranquiçado, muito redondo, que parecia coberto de penas. Era um peixe que nunca vira, em todos aqueles anos que já vivera ali na tirinha estreita entre o mar e a floresta. O peixe passou para lá, passou para cá, ascendeu, baixou, passou um bocadinho mais para lá, parou, e ficou, com a cabeça de banda, a olhar para ele. Estiveram assim largo tempo, ele admirado de o peixe o fitar e sem ihe ocorrer o mergulho e a lançada com o espeto, e o peixe muito sossegado, a olhá-lo com o olho redondo, azulado, debruado de vermelho. O homem, então, mergulhou devagar. O peixe não se mexeu. O homem veio ao de cima, para respirar, sempre vagarosamente, sem espadanar nada. E depois meteu de novo a cabeça na água, e olhou. O peixe não se tinha mexido, ao que parecia, e continuava a fitá-lo com o mesmo olho arregalado. O homem nadou umas braçadas suaves e tornou a olhar. O peixe acompanhara-o, ascendera mesmo um pouco, e parara a olhá-lo fixamente. O homem ficou intrigado, sem saber que fazer, e nem pensava já em apanhar o peixe. E este parecia não saber que houvesse
quem alguma vez pensasse em apanhá-lo. O homem não estava muito longe de terra, a ondulação era serena e larga. Veio nadando devagar para a praia e, de quando em quando, mergulhava os olhos para ver o peixe que, não havia dúvida, um pouco mais abaixo, entre duas águas, e mais para o lado, o acompanhava, sempre a fitá-lo com o seu olho azul e redondo, debruado de vermelho. Dava mesmo uma ou outra volta desajeitada, com uns movimentos trôpegos das patas-barbatanas, e logo retomava calmamente o seu caminho que era o do homem em direcção à praia. Já muito perto e quando tinha pé, num golpe de rins o homem pousou-se no chão, naquele jeito balanceado e flutuante de quem anda na água como em sonhos. E preparava-se para vir andando comas pequenas ondas espaçadas, quando sentiu uma coisa fofa e macia roçar-se-lhe nas pernas, quase o fazendo cair. Parou, e viu que o peixe, em voltas e contravoltas sucessivas, tropegamente dadas com impulsos de barbatana-pata, se lhe roçava amigavelmente pelas pernas, sem mesmo, de contente que estava, levantar sequer para ele o olho arregalado e azul, de um azul mais pálido que o do mar em dias luminosos. O homem, numa surpresa que era pasmo e quase inquietação, apressou-se ligeiramente, chegou mesmo a espadanar as águas que mal quebravam na tirinha de areia estreita em que a sua casa estava. Perdeu de vista o peixe, por entre a leve espuma e a areia levantada, e só de pé na praia o procurou com os olhos. Não o viu, e, fora da água e perto dele, não podia vê-lo, porque as águas se espelhavam, cintilavam crespas, e nada do que nelas estivesse dali se distinguia. Ficou parado assim por muito tempo, a pensar no peixe, e depois, já mesmo sem pensar no peixe, se deixou ainda ficar como esquecido, olhando o ponto das águas em que estivera de pé e o peixe lhe fizera as festas que sabia. Anoiteceu. Que peixe seria aquele? Em verdade, só por nadar debaixo de água ele parecia um peixe. Se andasse ao cimo de água, ao lume dela, seria pela espécie de penas (eram penas, sem dúvida) que o cobriam, pelas barbatanas que pareciam dois pés, pelos toquinhos de barbatana que pareciam asas, pelo jeito cambaleante e vacilante de mover-se, um pato. Era, portanto, um peixe-pato. Um peixe-pato, meio peixe e meio pato, mas mais pato afinal do que peixe, era um animal que ele nunca tinha visto, que não conhecia, nem sabia que alguma vez tivesse sido conhecido. Mas que existia pelo menos um, que esse um lhe aparecera e até gostara dele, disso não podia ter dúvida. Ou seria um animal perigoso, que assim se aproximava das suas vítimas? Pois que razão haveria para o peixe-pato gostar dele, quando ele, de espeto em punho, iria apanhá-lo como a outro qualquer peixe? Nos dias seguintes, porque nenhum macaco ou pássaro saiu da floresta, voltou ao mar, apanhou alguns peixes, mas, embora se tivesse sempre demorado flutuando quieto e perscrutando com os olhos o interior transparente das águas límpidas, o peixe-pato não apareceu. Depois, porque apareceram pássaros da floresta e uma vez um macaco, não voltou por vários dias a meter-se às águas. Um dia, tornou ao que chamava pesca. Apanhou alguns peixes, esperou pelo peixe-pato, mas este não apareceu. Dias vieram então, em que, andando na água, nem um peixe encontrava; e em que nem pássaros da floresta, nem macacos, nada lhe caiu nas mãos. Fome não tinha, porque na vegetação compacta que fazia à beira-mar uma parede verde, sempre havia frutos que ele comia. Mas apetecia-lhe um peixe, principalmente um, nem grande nem pequeno, de escamas douradas, corpo achatado e ondulante, de que gostava muito e era, de resto, a espécie que mais encontrava. Assim uma espécie de pescada mais bonita que as pescadas e mais achatada que elas. Parecia, porém, que todo o peixe acabara, mesmo o peixe-pato. Esses dias foram muitos. Até que um dia, andava ele flutuando sobre as águas e com os olhos vendo para dentro delas, já esquecido até do peixepato, quando sentiu pela barriga roçar-se-lhe uma coisa fofa e macia. Dobrou-se de repente, perdeu a flutuação e mergulhou agitadamente. Logo que voltou acima e flutuou de novo, olhou e viu o peixe-pato muito quieto, um pouco ao lado dele e mais abaixo, a fitá-lo com o olho arregalado e azul, e tendo, na boca que parecia um bico, um daqueles peixes de que ele gostava mais. O peixe-pato, então, aproximou-se das mãos ve da cara dele, largou o outro peixe que estava meio-morto, e afastou-se naquele nadar cambaleante e trôpego que era o seu; mas parou mais adiante, voltado para ele, e olhando-o com o olho arregalado, debruado de vermelho. O homem estendeu a mão e agarrou no peixe que o peixe-pato visivelmente lhe oferecera. E então o peixe-pato veio e roçou-se-lhe suavemente, fofo e macio, na barriga e nas pernas que pendiam um pouco para dentro de água. Quando ele passou perto da sua mão que não segurava o peixe por segurar o espeto, com as costas da mão e o braço o homem fez uma festa ao peixe-pato que logo deu uma meia-volta desajeitada e veio ele mesmo roçar-se-lhe no braço. Assim estiveram muito tempo, o homem divertido a fazer festas, e o peixe-pato, de contente de as receber, sem sequer levantar para ele o olhar arregalado e azul. Depois, o homem veio vindo em direcção à praia e, quando já estava suficientemente perto, pôs-se de pé dentro de água, e esperou. Logo sentiu que o peixe-pato, macio e fofo, começava a roçar-se-lhe nas pernas, dando voltas vagarosas e desajeitadas, passando-lhe por entre elas, e contornando ora uma perna, ora a outra. O homem deixou-se estar e, de quando em vez, mergulhava a cabeça para observar as evoluções do peixe. Levantou então uma perna, e pensou que o peixe, enquanto ele fosse andando para terra, continuaria a querer fazer-lhe festas, como fizera quando ele quase se assustara. Deu um passo e mais outro, e outro ainda. Mas não sentiu que o peixe se roçasse. Procurou vê-lo, e distinguiu que o peixe vinha vindo a seu lado, a uma distância que não lhe incomodasse os passos. Estava o homem já tão perto de casa, que com um gesto brusco, e depois outro, atirou para lá o peixe que trazia e o espeto que era a sua única mobília. E então, abaixando-se e metendo as mãos na água, fez menção de agarrar o peixe-pato. Este, embora sem precipitação, afastou-se um pouco. O homem avançou para ele e tornou a estender as mãos. Dessa vez, o peixe-pato veio, e deixou-se apanhar. Era muito pesado, muito mais pesado do que o homem esperava, e só a muito custo, apesar de ser forte, conseguiu levantá-lo nos braços, como quem pega numa criança ao colo. O peixe ficou assim, fora de água, ao colo, mas não se debateu; antes ronronava, vibrava ligeiramente, e pousava-lhe a cabeça no braço, de olhos fechados, perfeitamente tranquilo e satisfeito. Porém, de repente, começou a arquejar e, como contra-vontade, a debater-se. O homem compreendeu que ele, embora lhe apetecesse, não podia estar tanto tempo fora de água, e sentou-se na areia, dentro de água, batido pela espuma das pequenas ondas que até à praia vinham, mas com os braços mergulhados, por forma a que o peixe-pato ficasse dentro do elemento em que podia respirar. E, com uma das mãos, enquanto o outro braço fazia um ninho ao peixe, afagou-o longamente, cuidadosamente, carinhosamente. Não soube quanto tempo assim estiveram ambos, até que o peixe, desajeitadamente, mostrou vontade de se libertar. O homem largou-o na água, e o peixe, depois de dar ainda umas voltas rente ao tronco dele, roçando-se fofo e macio, foi-se embora.
Daí em diante, raro era o dia em que ele não ia à pesca e o peixe-pato lhe não aparecia trazendo no bico um dos peixes de que ele mais gostava, para oferecer-lhe, e em que depois o peixe-pato se não deixava apanhar para, sentado o homem à beira de água, ficar no seu colo a receber as festas de que vibrava levemente, ronronando de satisfação. Se alguma vez, durante dias, o peixe não aparecia, o homem sentia-se inquieto e aflito, mergulhava em sua busca, ou ficava, pensativo e perscrutador, à beira de água, de olhos fitos no mar, esperando um sinal que o peixe-pato aliás nunca fizera, pois que só aparecia quando ele, flutuando na expectativa, estava suspenso da superfície das águas sobre a transparência azul. E, quando o peixe-pato voltava, trazendo-Ihe na boca o peixe predilecto, era uma festa para os dois: nadavam lado a lado, roçando-se um pelo outro, ascendendo e mergulhando, e invariavelmente acabavam por o homem se sentar na areia, com o peixe-pato nos braços, a fazer-lhe festas, e o peixe-pato a ronronar, vibrando levemente, ou muito quieto, na água, ao lado dele, a fitá-lo com o olho azulado, muito arregalado e debruado de vermelho.

Uma noite, ou antes um anoitecer, estava o homem prestes a dormir, na sua cabana — e nunca mais, desde que o peixe-pato aparecera, ficara ele em noites sem lua a sentir que vinha da treva uma tristeza que o enchia —, sentiu que a cabana lhe desabava em cima. Imediatamente se levantou, e caminhou pela tirinha estreita, entre o mar e a floresta, em direcção ao cabo. E sentou-se, quase deitado, acomodando-se o melhor possível às difusas concavidades da rocha, para esperar com paciência o fim da tempestade. Esta porém, demorou a chegar, com numerosos e alternados prenúncios como rajadas fortes, ora de uma direcção ora de outra, com bátegas de violenta chuva respingando, com suspensões súbitas do ar, durante as quais no silêncio as próprias vagas pareciam hesitar e apenas estrondear numa surdina. No cabo, haviam-se refugiado muito poucos pássaros marinhos que, a certa distância do homem, estavam acachapados na pedra em pequenos grupos, grasnando ou crocitando ou piando, mas como que a medo, num quase chilreio que lhes adoçava as vozes que eram sacudidas, roufenhas, guturais. De quando em quando, sobretudo nos momentos de suspensão do ar, um arrepio percorria os grupos, muito levemente, e só um ou outro dos pássaros, na imobilidade ansiosa em que ficavam, fazia uma frustrada menção de alçar uma asa e debicar sob ela. Quando as rajadas voltavam, um estalo atroava os ares, logo seguido de um ressoar imenso, que era zumbido, estrondo, uivo, tremor de tudo incluindo o cabo. Os pássaros calavam-se, e de uma vez que um relâmpago varou o céu e o mar, sem que nenhum trovão lhe sucedesse, o homem, ao ver os pássaros abaixarem as cabeças, silenciosos, como quem espera um golpe a que não pode fugir, lembrou-se de quanto às vezes desejara conversar com eles e como desde que lhe aparecera o peixe-pato, nunca mais em tal pensara, embora com o peixe-pato não falasse. Foi então que um tinir de relâmpagos cobriu o céu entrecruzando-se em todos os sentidos e um negrume súbito encheu o ar, a floresta, o mar e o cabo, e nos trovões, que reboaram uns por sobre os outros, se distinguiu um silvo que aumentou, se transformou em ronco, em estralejar, num batimento repetido a espaços sobre um som contínuo, e o vendaval e a chuva tombaram verticais. O homem sentiu que um peso informe o esmagava e chicoteava, parecia desmembrá-lo, estripá-lo, dissolvê-lo, e sentia, mais do que via, subirem continuamente contra o cabo imensos panos de água que eram vagas desfeitas, logo abaixadas pelo vento e a chuva desabando. Quanto tempo assim esteve? Agarrado como? Não o saberia dizer, nem pôde nunca pensar, pois que às vezes o vento parecia vir, numa onda de chuva, da própria massa do cabo, e erguer o cabo com ele em cima, ou levantá-lo da pedra a que se ajustava. Dias? Horas? Apenas uns instantes? Não deu sequer por ter acabado a tempestade. Quando abriu os olhos, ou, antes mesmo de os abrir, se mexeu, num vago calor de madrugada clara que lhe penetrava os ossos, todo o seu corpo notava a mudança que houvera.

Pôs-se de pé. Desde o cabo até ao horizonte, a perder de vista, um areal imenso amarelecia a orla serena e azul de um mar ainda sombrio, e a floresta era uma muralha verde muito ao longe, longe do cabo e do mar, mas uma muralha que, reparando melhor através da distância, crescia afinal em altura com enormes abertas, por entre as quais era ainda areia o que se via. O homem ficou olhando: ora o cabo onde nem um pássaro restava, ora o mar por sobre o qual crespas espumas iam e vinham e que rebentava num espraiar chiante em ondas sucessivas no areal, ora outra vez o areal imenso e liso, e amarelado a perder de vista. Vagarosamente desceu do cabo que do lado da praia era muito baixo agora, e pisou a areia, uma areia fina, húmida, varrida, ao rés da qual como que uma brisa levantava areia ainda mais fina, que, seca, a espaços esbranquiçava o amarelado igual da praia imensa. O sol, num céu sem nuvens e de um azul rosado pela madrugada, prolongava a seus pés uma sombra esguia, cujos contornos vibravam na rasteira brisa. E o homem, andados uns passos hesitantes e absortos, parou, ciente de que, em tamanha mudança nem sabia onde era o sítio da cabana em que vivera tanto e que tantas vezes facilmente reconstruíra. Avançou depois obliquamente até à beira da água que vinha, numa espuma límpida em que só fina areia ia suspensa, lamber-lhe friamente os tornozelos. E, olhando o mar que parecia o mesmo e outro, lembrou-se do peixe-pato. Em verdade, sempre se lembrara dele, durante a tempestade; e depois, de olhos fechados, ainda deitado na rocha; e enquanto olhara todas as mudanças, até este momento em que, à beira de água, foi dele exactamente que se recordou numa tristeza funda, tão funda quanto o que tudo mudara. Apesar do frio que começava a sentir, mais da imensidade desolada do areal que do luminoso sol da madrugada calma e pouco a pouco já alta manhã, avançou pelo mar dentro, e nadou vagarosamente, mergulhando atento, e foi percorrendo num sentido e noutro as águas crespas e sombrias, ora flutuando, ora nadando, em busca do seu peixe. Assim andou até o sol estar já mais que a pino, sem que o peixe-pato lhe aparecesse. Voltou à praia, subiu por ela uns passos, e deitou-se na areia a descansar. Sentia-se infinitamente exausto. Talvez mesmo tenha adormecido, de um sono agitado, povoado de olhos arregalados que o fitavam, debruados de vermelho, apaixonadamente, e de que acordava torcendo-se na areia, ao sentir, no ventre, nas ancas e nas pernas, a memória de um perpassar fofo e macio, e nos braços, contra o peito que arquejava, um ronronar vibrando levemente. Levantou-se, entrou pela água dentro, que serenara já numa mais funda transparência que só ao longe espumas perturbavam, lá onde os ventos baixavam contra o mar, e de novo nadou, nadou, nadou e flutuou e mergulhou, à procura do peixe, à espera dele, numa ansiedade inquieta, desesperada. Às vezes, parecia-lhe ver emergir a forma branca e desajeitada, outras vezes sentia nas pernas ou no ventre que ele se lhe roçava macio e fofo. Mergulhava então, de olhos muito abertos, mas não, não via o peixe. Dias e noites, noites e dias, assim viveu, ora exausto na areia, ora cambaleando para o mar, ora nadando e mergulhando, ora arrastando-se pela praia acima, ora deixando-se cair tão perto da ressaca que a espuma o envolvia mansa no seu sono e, como um bálsamo que sem ânsia nem angústia recebia, ela lhe parecia que era o ronronar do peixe, e a ternura dele tão macia e fofa, contra o ventre, as ancas, as costas, o seu corpo todo. Voltava-se então de olhos fechados, e sorvia, pela pele tisnada, ensalitrada e lisa, ou pelas narinas com o cheiro acre da areia fina e ressalgada, e cabeceando lentamente a um lado e outro, sorvia essa presença que o rodeava ideal mas não mais viera ao seu encontro.”Começou então, por esses dias, a percorrer o areal interminavelmente, de vez em quando metendo-se de novo ao mar demoradamente, numa busca desesperada e melancólica. E afastava-se, dia e noite, do cabo que fora o limite da sua estreita tira de areia e era agora numa vaga forma parda entrando pelo mar dentro, ao fundo de uma extensão de areal onde as marcas dos seus passos e dos sítios onde tombara sonhando iam desaparecendo no alisar contínuo em que a ressaca e o vento combinavam o mesmo ciciar constante e continuado, perpassante.

Uma tarde, em que, sentado na areia e distraidamente contemplando o mar, repousava daquele cansaço em que se dividia de procurar nas águas e avançar pelo areal vastíssimo, viu vir, do céu azul em que só nuvens finas e brancas eram poalha dispersa e vaporosa, um ponto negro e outro e outro, e depois mais, que, quando os últimos mal se distinguiam, já os primeiros eram pássaros marinhos, esvoaçando em círculo por cima dele, num silêncio fito de asas que pairavam, apenas cortado por um ou outro pio, um crocitar de bico, um grasnido atento e repousado. Deixou-se cair para trás para os ver melhor. Pareceram-lhe maiores do que eram os que vinham para o cabo, lá onde vivera na cabana construída numa tira estreita, entre a floresta e o mar. Como tudo isso era distante! Via-lhes as patas retraídas, negras, acomodadas nas barrigas brancas, e os pescoços que se curvavam súbitos, quando na volta em que pairavam mais viravam para ele, ao mesmo tempo, o olhar e o bico entreaberto. Depois notou que, estranhamente, não era bem para ele que eles olhavam. De facto, os círculos, que por andares formavam voando acima dele, não era nele que se centravam. Um baque, um estranho baque todo o percorreu e acabou nos pés em formigueiro. Uma tontura enegreceu-lhe o ar. Levantou-se de súbito, ou lhe pareceu de súbito na lentidão de uma fraqueza extrema. E distinguiu, no limite do espraiar da espuma que pausada vinha pela praia acima, e a não muito grande distância de onde estava, uma forma branca enrodilhada, como uma galinha afogada que a maré deixasse. Correu cambaleante, para ela. Um coro de grasnidos roucos, de pios agudos e roufenhos, estrugiu no ar. Mas mal o ouviu, quando já se ajoelhava e nos braços tomava, trémulo e risonho, com lágrimas correndo pela cara abaixo, e um frio suor a perlar-lhe a testa, o peixe-pato. Com os toquinhos de barbatana, que pareciam asas, descaídas, e as barbatanas, que pareciam pés, pendendo moles, o bico entreaberto, e as penas brancas como que encardidas, ricas, o peixe estava de olhos fechados, não esboçou um movimento, não ronronou, nada fez. Quase de um salto o homem atirou-se à água que espadanou e redemoinhou sobre eles, e emergiu e sentou-se como das outras vezes, fazendo festas ao peixe que assim conservava debaixo de água. Embalava-o, apertava-o contra o peito, sacudia-o com fúria, amaciava-lhe as penas ricas, mas o peixe-pato continuava flácido, sem vibração alguma, sem abrir os olhos. O homem agitava-se absorto, às vezes levantando a cabeça para respirar, quando a espuma espraiada, ondulando mais, o soerguia, e logo ele se afundava, roçando a areia sem sentar-se nela. Estiveram assim por largo tempo, sem que o homem ouvisse o crocitar que em largas voltas se repetia sobre a sua cabeça, nem ver que os círculos eram mais baixos sempre, um pouco descaídos sobre a praia atrás. Nisto, um tremor percorreu o peixe-pato. E outro tremor mais lento, como de um ser que num esforço imenso emerge de ancorado em torvas e abissais profundidades. E devagar, como quem levanta um rochedo áspero e duro, igual ao cabo que ao longe nem já se distinguia, o peixe abriu os olhos, ou antes o olho mais voltado para o homem, e fitou-o azuladamente, arregaladamente, debruadamente de vermelho, numa ternura terrífica, demorada, concentrada, grata. O homem soltou um uivo que era um grasnido rouco e um ranger de dentes. O peixe estremeceu, inteiriçou-se, amoleceu ainda, fechou os olhos, e ficou teso de patas, de asas e de bico, e as penas ricas e encardidas, sem brilho e sem macieza, mais sombrias e turvas, ao colo do homem que então ouviu a ressaca suave à sua volta, os pássaros piando, e até um sussurrar de areia pela praia fora. Apenas foi um instante. A cabeça descaiu-lhe para o peito e uma ondulação da espuma levantou-o, teve-o hesitante entre o recuar e o avanço, e os cabelos ao lado da cabeça subiram e desceram dentro de água. Depois, o homem pareceu querer levantar-se, tenteou como que um meneio do corpo, e foi seguindo numa deriva lenta, um pouco estranhamente adversa ao que eram na aparência os movimentos da água. Segurava ainda nos braços o peixe-pato, cujas penas agora se desenriçavam num flutuar tranquilo, readquirindo brilho e macieza até. A pouco e pouco, porém, o peixe-pato despegou-se e foi derivando também, mas num percurso diverso. Contra a verdura enrubescida de um poente puro, as aves eram negras, silenciosas, pairavam paralelas, muito baixas, e algumas, poucas, vieram pousar na praia, seguindo atentamente, num leve balancear dos seus pescoços, as derivas hesitantes que flutuavam pelo mar tão transparente e azul que os vultos se tingiam de laivos irisados. Os vultos afastavam-se, incertos, um do outro, e ora parecia que a corrente os levava para o alto, ora que o ondular largo da ressaca tranquila acabaria por depô-los no areal.

Assim anoiteceu. Quando um vago claror começou a alastrar pelo céu, dando ao mar um tom cinzento, em que havia um crespo perpassar de um frio que nem era aragem, uma pequena massa clara e outra mais longa e mais escura estavam na praia, à beira da água que, rente à palidez nevoenta do areal, era um negrume ondeante, apenas debruado da brancura que só de quando em quando por eles roçava. Do mar, ou do interior da praia, ou mesmo da beira de água, mal deveriam ver-se. Mas logo assim os viram, distantes um do outro, os pássaros que surgiram do fundo do horizonte esbranquiçado que amarelecia já ao rés-do-mar. Um ponto negro e outro e outro, e depois mais, de modo que eram pássaros enormes e silenciosos, esvoaçando em círculo os primeiros, quando os últimos mal se destacavam, ponto a ponto, na distância. Poucos pousaram no areal, e crocitaram ligeiramente, fitando atentamente os vultos, com a cabeça de esguelha. Os outros continuaram voejando silenciosos, em círculos sobrepostos, observando o homem que, de costas, com os braços num vago jeito de abraçar e as pernas afastadas, parecia fitá-los de olhos muito abertos, e o peixe-pato, mais longe, estendido e rebrilhante. Foi então que um desses caiu como uma pedra e picou um dos olhos do homem e subiu outra vez, e logo outro caiu, também como uma pedra, e lhe picou o outro olho e ascendeu. Dois pássaros, dos pousados no areal, abriram asas, adejaram-nas, levantaram vôo. Um deles, que se afastara rasando as águas, voltou direito ao peixe-pato e cravou-lhe o bico na base do pescoço, enquanto o outro se elevava quase vertical e, de repente, descendo em hélice, com o bico aberto, traçou de um golpe o sexo do homem. Quando um grupo de pássaros descia, cruzando-se com esse que subia, os que continuavam a pairar em círculo piaram e abateram-se também; mas todos, o que subia e os que em duas vagas se abatiam, ficaram afinal pairando em massa, uma massa que grasnava e se entrechocava suspensa no ar, a muito pequena distância do homem e do peixe. A manhã clareava, um lóbulo vermelho ergueu-se do mar e logo alastrou pela linha do horizonte a um lado e outro. Num estralejar de asas e grasnidos, os pássaros subiram quase verticais, pairaram agrupados num larguíssimo círculo. Do pescoço do pato, das órbitas do homem e da crespa negridão onde estivera radicado o sexo, e os testículos ainda pendiam meio traçados pelo mesmo golpe, escorria uma serosidade diminuta, vagamente ensanguentada, de que apenas uns filetes diluídos se alongavam, se possível era, na espuma terminal que até aos corpos vinha, e se atrasariam nela quando se afastava. Em sucessivas hélices os pássaros tombaram.

1959.

 

In: Antigas e Novas Andanças do Demónio

(As informações aqui reproduzidas como introdução encontram-se nas “Notas” finais ao livro.)

O Indesejado – um posfácio (Parte III)

CONSIDERAÇÕES SOBRE A NATUREZA DO TEATRO E O LIVRE ARBÍTRIO, À GUISA DE FINAL

 

MUNDO. Y, pues representaciones es aquesta vida toda, merezca alcanzar perdón de las unas y las otras. (CALDERÓN — El gran teatro del mundo) 

 

A noção de que se despe ao morrer a indumentária da breve representação que foi a vida é velha como o mundo, ou, mais exactamente, tão velha como o teatro. A tal ponto é esta imagem da vida, que o findar da peça aparece como imagem da morte — «e aqui fenece a susodita tragicomédia». Durante a vida representou-se um papel na peça. Que papel? Que peça?

Creio que, à luz do que hoje se supõe ser a estrutura do mundo, é fácil de compreender que a peça é um esquema de condicionalismo cénico, o papel a inspiração de momento permitida por essas condições. É isso o livre arbítrio. E por isso a pura paixão pelo teatro, pela eufórica vivência teatral, tenderá sempre, como para um limite, para a «commedia dell’arte», em que tipos determinados podem ver-se metidos em situações e complicações que eles próprios criaram, até que estas os ultrapassam, cabendo então à inspiração pessoal apenas ornamentar fantasiosamente um estado de coisas a que se não pode fugir, até que, na derrocada dos seus próprios valores, esse estado de coisas se diminua perante a ascensão de uma nova peça em novos palcos.

Não se representa, na vida, um papel previamente escrito, palavra por palavra, gesto por gesto, no chamado livro do destino. Não se representa pior ou melhor conforme pior ou melhor se tomou consciência desse papel que não existe. Actuamos livremente no palco exíguo e na peça vaga e vasta que é a nossa condição de homens, tornada responsável pela racionalização que nos humanizou como seres conviventes, à custa de uma desumanização interior, secreta, como seres viventes. Somos menos humanos pela necessidade absoluta de o sermos mais. E nesta necessidade desesperadamente aceite, que nos conduz ao livre jogo das infindas virtualidades de um conjunto fechado, está precisamente a génese do teatro, como duplicação, como encarnação, como ditirambo que se projecta fora de nós.

Do rigorismo ritual, indispensável à criação, transitar-se-á para a libertação formal, indispensável à representação. Asceticamente se aguardam as Elegias de Duíno até ao momento em que as vozes se adensaram para desencadear-se. E escrita, fixada de uma maneira ou de outra, Une Saison en Enfer, nada mais há a dizer senão, como Próspero, que é um cair da noite sobre o tablado de um «Globe» interior da Renascença, confessar que «os encantamentos acabaram» e pedir que o público nos não confine para sempre «na adusta ilha». Isto é sempre de pedir, porque ao público seguinte é impossível, e ao público presente ficou feito o pedido, que é, de resto, a única mensagem a transmitir a esse outro, que virá.

As graças da representação, a imaginação da frase, a subtileza da intenção no dizer, a delicadeza do gesto, tudo o que foi a vida das palavras, tudo o que foi essencial ao encantamento — morre. E poderá duvidar-se do que fica, se afinal se não despe a indumentária, se a própria indumentária somos nós. Não fica, por certo, a liberdade que houve, porquanto da «commedia dell'arte» apenas resta um rígido esquema embora vasto e vago. Duvidar deste esquema, não como esquema, mas como a peça que ele sozinho não poderia ter sido, é da consciência da humanidade. Ou antes, da consciência pela qual nos desumanizamos para humanizarmo-nos mais. Da consciência pela qual sabemos que o teatro a que pertencemos não é só a peça, nem só a companhia, nem só a sala. Pela qual sabemos que a sala não tem, entre o palco e a plateia, senão por separação as luzes que acendermos. Uns acendem-nas; outros, não — conforme não aceitam ou aceitam a universal necessidade. Os primeiros temem o contraponto harmónico de solidões expressionistas que a peça é; e são, por isso e todavia, quem mais condena o silêncio consentido e aceite, com que os segundos se identificam, como eles não, com a estrutura plena que em si próprios vivem. Esses segundos, que, preferindo a treva comunicativa, respeitosamente a não proclamem, são quem melhor a aceita e por quem ela se efectiva e se transforma de condição em liberdade.

O texto de uma peça, se a peça incide sobre um significativo momento do espírito, é a «commedia dell’arte» de tal significação. Nada em si próprio e para o seu próprio tempo significa o que quer que seja. É «commedia». Quando a «commedia» acaba e se fecha um ciclo, nascem simultaneamente a tragédia e a correlativa farsa. Toda a tragédia é risível. Nem todas as personagens trágicas o sabem. Soube-o, como poucos, Molière, cujas peças são, por vezes, na elegância ou na crueza do cómico, pungentemente trágicas. Tal sabedoria não é, de resto, condição necessária à tragédia. Ser-se personagem trágica é ter consciência, ainda que não racionalizada, de contrários que, personalisticamente, são irresolúveis, mas podem ser aceites ou não, propiciando-se a sua resolução colectiva. A tragédia é, precisamente, a tradução escritural simbólica desse estar conscientemente à beira do abismo de aceitar ou não aceitar. Na vida, só por antonomásia é que há tragédias. Aquilo a que habitualmente se chama uma tragédia é, quase sempre, apenas uma situação difícil que se prolonga estranhamente para além do que seria lícito esperar da capacidade de sofrimento do homem; aquilo a que, também na vida, se chama uma personalidade trágica é o que pode dizer-se de alguém cuja aventura humana exemplifica uma dessas situações. As chamadas tragédias colectivas: morticínios em massa, migrações em massa, etc. (para não falarmos dos cataclismos — inundações, tremores de terra, etc, que são acidentes, apenas acidentes) — não são tragédias no sentido exacto do termo, são catástrofes, que podem incluir tragédias particulares ou fazer parte de tragédias mais vastas. Mesmo estes «incluir» e «fazer parte» são já uma descuidada superficialidade da expressão, porquanto a tragédia é uma elaboração simbólica, superstrutural. Saber-se que ela é risível é ter-se, além da ciência própria da condição trágica, uma outra ciência, dada a muito poucos, porque o instinto de conservação a recusa, e que é a da lucidez irónica acerca da natureza dessa mesma condição: — «commedia dell’arte» promovida a situação irreparável, irreversível e insubstituível, quando à economia do universo será absolutamente indiferente que a comédia, embora prossiga, seja comédia ou não. A restrita economia humana é que não é. Mas, seja qual for a atitude que, perante a estrutura do universo se assuma (e este assumir é já o início de uma representação mais cuidada, com encenação própria) — espiritualista ou materialista, determinista ou não —, acontecerá que, em última análise, o universal concreto, ao concretizar-se como Deus, como Eu supremo, como consciência colectiva, como consciência de classe, como individuação, como tudo quanto queiram, não poderá deixar de, muito silenciosamente, rir-se de si próprio. E ri sempre melhor quem ri no fim.

Outubro de 1949

 

Super Flumina Babylonis

Camões recriado num dos melhores contos portugueses do Séc. XX

É que os génios não têm, não precisam de ter biografia. (Latino Coelho — Luís de Camões, Lisboa, 1880)

A ascensão da estreita escada escura, e tão a pino, com os degraus muito altos e cambaios, era, sempre que voltava a casa, uma tortura. À força de equilíbrios, meio encostado à parede, cuja cal já se esvaíra havia muito e até nas suas costas, e apoiando em viés uma das muletas no extremo oposto do degrau de cima, ia subindo cuidadosamente, num resfolegar de raiva pela lentidão. Toda a unção adquirida na conversa com os frades de S. Domingos, a cujas prelecções regularmente assistia, ficando depois a discretear com eles, se perdia naquele regresso a casa, ao fim da tarde, e mal se recompunha no repouso à janela, sentado no banquinho baixo, comido o caldo, e ruminando memórias e tristezas, enquanto a velha mãe prosseguia intermináveis arrumos pontuados de começos de conversa, a que respondia com sorrisos e distraídos monossílabos ou com frases secas em que ripostava mais a si próprio que a ela mesma. Às vezes, ela insistia, repetindo um comentário, por uma resposta sua. Mas mesmo essa insistência não significava comunicação efectiva: ela apenas pretendia tranquilizar a própria consciência e o seu dó do filho envelhecido e doente, que a vida destruíra, com algumas palavras que lhe dirigisse, simulando uma conversa que não o deixasse entregue, perigosamente, aos solitários pensamentos, onde é sabido que o Inimigo especialmente se insinua. E não era dos pensamentos que ele tinha medo, mas dos vazios cada vez maiores que, entre os pensamentos, se faziam. Quando ela lhe falava, e sobretudo quando ela insistia, precisava não se deixar distrair pelas palavras que ouvia: ou logo, no fio interrompido das ideias que continuamente deslizavam como um rio revolto, se abria um vácuo tenebroso, um vórtice sombrio em que flutuavam farrapos de versos e de coisas vistas, e, mais no fundo, como que uma pequenina porta iluminada, ou um vidro posto sobre estranhas águas em que nadavam esquisitos seres, e que parecia um olho fito nele, pestanejando ou palpitando, não sabia bem, talvez que, sim, nem mesmo um olho, mas uma transparência marinha como os reflexos das ondas ao luar. A pequenina porta, que lhe fazia vertigens, nem sempre se mostrava. Na maior parte das vezes não havia mais que o poço em que se debruçava, ansioso de que a portinha se abrisse e tremente até ao arrepio pela frialdade que dela vinha. Fechando os olhos, cerrando-os com bastante força, conseguia então afugentar aquelas visões» ou aquela visão, sempre a mesma, que sonhava acordado. Porque dos sonhos tinha ódio. Pensar, devanear, lembrar, imaginar, mesmo supor como tudo poderia ter sido numa vida triunfante e num outro mundo, não era sonho, mas a certeza de que existia, de que as coisas se arrumavam por sua vontade, que a ordem delas e do Mundo era um desconcerto que ele organizava mentalmente. Quando dormia, não sonhava nunca. Não eram sonhos as coisas que então via, mas a continuação do mesmo poder e da mesma certeza, ou então tentações do demónio, como diziam os padres. Mas as tentações ele conhecia bem.. Não eram tentações da sua alma que Deus não deixaria que se perdesse nunca, a não ser naquele vórtice estranho onde parecia que Ele não penetrava. Como tentações? Que tentação era ter nos braços uma mulher que lhe escapara? Que tentação era matar, dormindo, um inimigo poderoso e inacessível? Que tentação era ver-se feliz num palácio, rico, respeitado, rodeado de servos e de admiradores, com uma mesa farta de bons petiscos e de bons vinhos, e com saúde e vigor para uns jogos de armas ou para uma bela amante pescada na rua, todos os dias uma diferente? Que tentação ver-se na Corte, com bom gibão de veludo e a gola de finas rendas, ouvindo os elogios dos seus pares, e recitando ou lendo o último poema escrito? Não eram tentações estas coisas, não, mas consolações piedosas da sua alma, a satisfação do que lhe fugira, a plenitude do que não tivera, a saciedade do que não bastara, a conquista do que jamais pudera ter sido seu. Pecado é sonhar com o futuro: desejar a mulher que se viu neste instante, querer com fúria o que é dado a outros, invejar furiosamente, como coisa que nos foi roubada, a felicidade alheia que está dançando, sem vergonha e sem respeito pela nossa miséria, diante dos nossos olhos que param a vê-la. Mas imaginar-se feliz no passado, com aquilo que fugidiamente o perpassara, e não fora nunca do tamanho da sua fome, não era tentação, não era um pecado, era, sim, a sua única riqueza, a sua única razão de esperar a morte, seco de amor, exangue de entusiasmos, descrente da pátria, destituído até da alegria de fazer versos. Os seus versos, agora, haviam-no abandonado. Haviam-se desfeito, como açúcar, no rio ininterrupto do pensamento, aonde antigamente flutuavam de súbito, como pedaços de ardente gelo, que um a um se atrelavam para dar um poema. E não tinha deles saudade alguma. Não fora nunca para si próprio que os escrevera. Para os outros, sim. Para que o ouvissem, para que o admirassem, para que o entendessem, para que vissem como tudo, na vida, tinha um sentido exacto que só ele era capaz de achar, uma arquitectura que não teria tido sem ele, uma beleza que não existe senão como a ideia que primeiro é pensada por quem é digno dela.

Empurrou a porta, e entrou. Contra o costume, a mãe não lhe apareceu, nem ele sentiu na casa ruído algum. Fechou a porta, foi até à mesa, e sentou-se na cadeira, encostando as muletas. Sentar-se era um alívio do cansaço, e uma nova tortura também. Mas a ausência da mãe, tão inabitual, tornou menos tortura a tortura de sentar-se ajeitando as partes inchadas e doloridas, acto que, com uma vergonha infinita, era obrigado a fazer diante dela, e que por isso não ajeitava bem, sentindo os olhos da velhinha fitos nele, horrorizados com a monstruosidade dos castigos reservados a quem se entrega aos pecados da carne, sem se manter puro como veio ao mundo. Ela, que, quando o marido voltava de uma viagem, só deixava que ele a beijasse depois de ter a certeza que não havia desembarcado em porto algum, desde muitos meses… Suspirando, sorriu para si mesmo. Na primeira viagem que fizera, ao embarcar-se para a Índia, ainda derrancado das orgias de noites consecutivas, destinadas a prevenir-se para tanto tempo de céu e mar e de conversa de homens, ele… Benzeu-se. Estas memórias eram tentações da carne. E nisso estava a diferença da poesia que escrevera na vida. Umas vezes escrevera na verdade para saber o que pensava. Mas outras vezes escrevera para possuir efectivamente, como, quando era moço, repetia de seguida o acto do amor, não porque desejasse, mas para sentir melhor que possuía, para ter a certeza de que possuía mesmo a marafona de que se esquecera durante a primeira vez. Agora, assim alquebrado e impotente, tudo o que pensava, se o escrevesse, lhe parecia que era só desta poesia que pecava contra o Santo Espírito, e que não era uma dádiva, uma oferta do seu corpo ao corpo em que entrava, mas uma rapina, uma avareza, uma maneira de devorar o próximo. E mesmo de tudo o que escrevera lhe parecia incerto que o tivesse sido abnegadamente, já que sempre ansiara pelo reconhecimento alheio, pelo triunfo, pela glória, pelos prémios, a ponto de contentar-se com o sorriso constrangido dos ignorantes a quem lia os poemas.

Levantou o olhar para a janela. No prédio fronteiro, viu o calafate sentado à mesa, que o observava amigavelmente por cima da escudela fumegante. Acenou-lhe de cabeça, e o outro fez com a mão um gesto largo, que terminou apontando o caldo numa oferta gentil. Correspondeu com um gesto como que de adeus, e desviou a vista. À varanda vieram encostar-se as duas crianças; não precisava de fitar Para saber. Nunca gostara de crianças, nunca pensara em tomar estado para tê-las suas. Talvez por isso mesmo é que tanto ou tudo da sua poesia ficara como aqueles filhos que não quisemos ter, e que depois se despegam de nós adivinhando um desapego de que nos arrependemos, mas que não deixa de ser um desapego mesmo arrependido. O amor para ele fora carne e espírito, tão carne, que nenhum espírito podia estar presente, e tão espírito, que nem toda a carne do mundo, usada dia e noite, chegava para contentá-lo. Até o fastio, que às vezes o afastava longamente de contactos carnais, era uma ardência insatisfeita, que se continha, suspensa e ameaçadora, à espera de esquecer que a carne era sempre igual, e os gestos do amor tão poucos que os sabia já de cor. Mas depois, ao fazê-los, era sempre, como na primeira vez, uma surpresa, uma ignorância curiosa, um receio tímido, uma insegurança doce, um pasmo juvenil, uma alegria nova, um encantamento frenético; era como na primeira iniciação, mas sem a perplexidade e a decepção de o amor não ser mais do que isso, quando a virtude do amor não está em ser mais do que é, mas em ser o prazer de não ser isso mesmo.

Novamente ergueu os olhos para a varanda fronteira. As crianças não estavam lá, e o homem, curvado para a escudela, comia o seu caldo. Aquele mistério da Encarnação, o frade hoje falara muito bem, explicando com eloquência o seu sentido. Mas o sentido da Encarnação não precisava ele que lho explicassem. Quem amara com a carne e com o pensamento como ele, quem escrevera do Amor como ele escrevera, e quem não gostara nunca de crianças, como ele, tinha da Encarnação uma experiência que o frade não tinha. Precisamente porque tudo se encarnara nele sem encarnar-se, e lhe devorara a própria carne, deixando-o aquele farrapo imundo que era agora, quem melhor sabia o que era a Encarnação? Ou, pelo menos, tanto quanto um homem pode sabê-lo? Sentir-se grávido de um poema, sentir-se fecundado por um relâmpago entrevisto, e ser um homem — é o mais que pode saber-se. Não o sabe a mulher que dá à luz, porque é delas dar à luz, às vezes sem ter amado. Não o sabe o homem que quer ter filhos, porque os pode fazer sem amor. Mas o poeta que praticou o amor até à destruição da carne, e escreveu poemas até que o espírito acha pouco a poesia, esse, sim, esse sabe o que Encarnação seja. Apenas, porém, o sabe. Mas não viveu a Encarnação, foi a Encarnação quem o viveu a ele. E é este o grande mistério, não o outro. E é a grande diferença entre um deus que se encarna, e o homem em quem a Encarnação se representa. Uma diferença que é, afinal, uma comédia, ou pode ser vista como uma comédia, porque todo o homem a quem isso aconteça é Anfitrião, um marido enga¬nado pelo Júpiter que há nele.

Ficou vendo diante de si o palco iluminado, e as figuras declamando os versos. A porta rangeu, e os passinhos leves soaram atrás dele. A voz fininha e aguda começou a sua declamação desafinada.

— Esteve hoje cá o Padre Manuel à tua procura, e eu disse-lhe que hoje era dia de ires a São Domingos, e ele disse-me que não se tinha lembrado, e eu perguntei-lhe quando voltava, e ele respondeu que precisava perguntar-te do teu livro, mas não era pressa, voltava noutro dia, ou tu fosses procurá-lo amanhã ou depois. Que é que ele anda a fazer com o teu livro, sempre a perguntar-te coisas? Então um livro desses, que não é de coisas de Deus Nosso Senhor e da nossa santa religião, precisa que tu estejas sempre a explicar o que é isto e o que é aquilo, e a contar a tua vida, nem que ele fosse o teu evangelista? A Virgem Santíssima me perdoe, mas parece-me um grande pecado. E contar a vida às outras pessoas é um grande pecado da vaidade. A vida conta-se ao padre confessor, e faz-se a penitência que ele manda pelas nossas más palavras e obras, e pronto. E, à hora da morte, a gente conta o que ainda lembra ou fez entretanto, e o padre dá a absolvição, se fomos virtuosos e piedosos, e nunca faltámos aos nossos deveres para com Deus e a sua Igreja. Ah, veio também o criado do Senhor Rui Dias, do mando deste senhor, que tão teu amigo é, perguntar pela encomenda que te fez daquelas poesias del-rei David que Deus haja. E eu disse que tu ainda não acabaste e que logo acabas, e que tens trabalhado muito e até tens estudado com o Padre Manuel para que as palavras santas fiquem todas certas e nos seus lugares. E ele disse que o amo estava muito arreliado contigo, que havia mais que muitos meses que tinha feito a encomenda, e que tu não fazias nada, e que já tinha pago adiantado uma parte do trabalho. E eu disse que era verdade, que ele já tinha pago, mas que nestas coisas pagar adiantado alguma coisa é como dar o pano ao alfaiate, porque o alfaiate não pode fazer o gibão sem o pano, e tu não podias escrever sem comer. E disse-lhe que a tua tença estava atrasada e que não a pagavam, e que eu esperava muito da bondade do seu amo e do grande poder que lá tem no Paço que a tença fosse paga em dia, que bem a tinhas merecido de Sua Alteza pelos muitos serviços de teu pai que Deus tenha em descanso, e também pelos teus serviços, que se tinhas sido um rapaz sem juízo, e não tiveste sorte na vida, também eras um homem que escrevia livros, e sabias muitas coisas divinas e humanas, como o Senhor Padre Manuel me disse, e Frei Bartolomeu escreveu na licença que te deu…

— Frei Bartolomeu só disse que eu sabia muito de coisas humanas.

— Pois é. Porque saber de coisas divinas tu podias ter aprendido se tivesses estudado a valer, e tido juízo, que podias hoje até ser bispo e mais do que eles dois. Mas meteste-te com más mulheres e más companhias, e hoje é isso que se vê, e, em vez de seres tu a dar as licenças, és tu quem as vai pedir a eles. Se não fossem teus amigos e tu não lhes moesses a paciência, e não mostrasses como és um homem arrependido da má vida que teve, não ta davam, que isto de frades, Nossa Senhora me perdoe, se alguém me ouve. O teu pai é que se ria deles, e dizia que eram todos uns vadios, que só queriam comer e ter as mulheres dos outros. Abrenúncio, e por isso Deus o castigou com aquela desgraçada morte, que nem teve sepultura cristã. Mas tu podias ir procurar o Senhor Duque ou o Senhor D. Manuel, e lembrar-lhes que a tua tença está atrasada, e eles não há que não consigam, de tão grandes senhores que são, primos del-rei. Eu tive de sair para visitar a nossa comadre Joaquina que está outra vez com a sua dor e não tem ninguém que cuide dela, mas logo lhe disse que não podia demorar-me, porque hoje era dia de ires a São Domingos santificar a alma, que bem precisas, e logo voltavas com fome e querias a tua ceia, e ficavas aborrecido se eu não estivesse em casa quando chegasses, para te dar o caldo, e ela respondeu que não eras nenhuma criança que chorasse pelo peito da mãe, e eu disse-lhe que tu nunca tinhas chorado pelo peito da tua mãe, e é verdade também porque eu te dava logo de mamar mal tu abrias a boca para gritar. Mas que nunca choraste para mamar é a verdade, e só choravas depois, porque o meu leite era fraco e foi preciso trazer uma ama, e o teu pai queria que tu fosses criado com ama, porque não era da nossa condição que tu fosses criado ao peito de uma senhora como eu, esposa de um homem como ele, tudo gente de condição. Mas a condição que nós tínhamos era só o que ele ganhava, e Deus sabe como eu vivi depois que teu pai faltou e tu andavas lá por essas terras de gentios e de infiéis, por tanto tempo e eu sem saber se eras vivo ou morto, e só sabia quando chegavam as armadas e vinha alguém conhecido que me dava notícias tuas, e me dizia que tu tinhas ido para aqui e para ali, ou estavas não sei onde, que para mim todas aquelas Índias são o mesmo, e os nomes das terras são mesmo coisa do demónio, cruzes, de arrenegados para se entenderem. Muitas vezes eu pensava que me escrevias, mas tu nunca escrevias, e muitas pessoas me diziam que tu lá escrevias as cartas dos outros, que escrever bem tu sempre escreveste desde muito pequeno] mas punhas as coisas bonitas no papel para eles, e para mim nada. E eu ficava rezando a Sant’Ana e a Nossa Senhora e às vezes até mudava de santo para que nenhum se cansasse de me ouvir, sempre temendo que morresses nas guerras e nos naufrágios, ou dessas doenças que há lá, e a pensar que às vezes eu podia estar a rezar pela tua boa sorte e as rezas afinal servirem para te descontar os dias de Purgatório pelos teus pecados e leviandades, e o corpo que eu dei à luz estar comido dos peixes ou do gentio, sem sepultura cristã, como teu pobre pai que Deus haja e eu só soube tanto tempo depois. E a comadre Joaquina deu-me este pastel que aqui trago e que é de uma galinha que lhe deu a vizinha, ou uma meia galinha só, de que ela fez este pastel, e me disse que tinha outro e que te mandava este, mas queria que tu lhes escrevesses uma oração em verso a S. Crispim de que é muito devota, e eu disse que tu havias de escrever depois de comeres o pastel.

— Eu como o pastel, mas versos aos santos não faço.

— Deus meu, se alguém te ouve e pensa que tu não acreditas nos santos. A Santa Inquisição que nos livrou da maldade e da malícia dos inimigos da nossa Fé manda que se acredite nos santos, e eu bem sei que tu não acreditas, nunca te encomendas a eles, e é por pecado de orgulho, ao que me disse o Padre Manuel, quando eu lhe falei da minha aflição por tu não acreditares nos santos, e ele me respondeu que tu achas os santos pequenos de mais para ti, e não te contentas senão com Deus Nosso Senhor. Eu até fiquei arrepiada de pensar no perigo que é não ter um santo que nos proteja. Se não fossem o Senhor Duque e o Senhor D. Manuel e o Senhor Rui Dias e outros senhores assim, eu queria ver de que é que tu vivias, que el-rei nem saberia da tua existência. Deus me perdoe, mas não é que Deus não saiba de ti, porque ele sabe de todos nós e é um pai aman¬tíssimo que não tira os olhos de nós. Mas está na sua divina majestade, ocupado em reger o Mundo, e nunca ninguém ganhou causas sem advogado. A mim a Senhora Sant’Ana nunca me desampara, eu nem sei o que seria de mim e de ti sem ela. Que este pastel é um milagre dela. Quando eu saí para visitar a comadre Joaquina, ia dizendo comigo que a Senhora Sant’Ana fizesse que eu não voltasse para casa com as mãos vazias e trouxesse algum petisco para o meu filho, e pedi mesmo um pastel de galinha, que era o mais certo, porque a comadre Joaquina sempre tem pastéis de galinha. E eu não prometi à Senhora Sant’Ana que tu farias o que a comadre pedisse, porque já te conheço, e não há contar contigo para coisa nenhuma que não seja comer o pastel. E por isso não faz mal que não faças os versos a S. Crispim, porque não foi promessa minha. A comadre é que disse que tu, se quisesses, podias fazer, que toda a gente dizia que eras muito bom dizedor, e que fazias logo os versos que te pediam. E eu respondi que isso seria dantes, porque agora tinhas uma encomenda muito boa, de grande rendimento, do Senhor Rui Dias, que nos fazia a honra de ser teu amigo, de pôr em verso os Salmos del-rei David que Deus haja, e que tu não escrevias nada, e até hoje o criado dele cá estivera a reclamar por causa do pagamento adiantado. Tu estás a dormir, tu não ouves o que eu digo? Come o teu caldo enquanto está quente e depois o pastel que é bem gostoso se for igual ao outro que a comadre tinha. Eu já ceei em casa dela, e estou sem apetite só de ver-te nesse estado, um rapaz tão forte e tão bonito como tu eras, que não havia moça que não se voltasse para te ver, nem homem que não se mordesse de inveja. E, quando o sol dava no teu cabelo, eu dizia comigo que o meu filho era como um rei com a coroa na cabeça, ou, Deus me perdoe, como um grande santo de resplendor dourado em dia de procissão. E ficava a ver-te ir pela rua abaixo, tão vaidoso que nem olhavas para trás, com a mão no punho da espada, e os passos tão firmes, Deus meu, que parecia que a terra era toda tua. Por essas e por outras é que as tuas desgraças começaram, com as arruaças e as brigas, e o mau feito, desgraça maior que todas, de acutilares o homem em Dia de Corpus Christi, aquele patife sem vergonha que te desgraçou e fez ir para a Índia e que merecia morrer em pecado, Deus me perdoe se sou eu quem peca. Está tão escuro já que vou acender a candeia. Mas o lume apagou-se e vou descer à vizinha a pedir-lhe lume. Deus Nosso Senhor tenha piedade de mim, velha e cansada, e com um filho homem, e sou eu quem tem de descer a escada para buscar o fogo que não há na minha casa. Abriu o olhar às trevas e ao silêncio. Conhecia tão bem os cantos da quadra, que era como se estivesse vendo a arca e o oratório com o raminho entalado, os quadrinhos de santos pendurados, a prateleira com os pratos em pé, a enxerga ao canto, onde ele dormia, a porta da alcova de sua mãe e a porta da cozinha. Via tudo com a mesma cer¬teza e a mesma minúcia com que vira as naus do Gama nave¬gando no mar, lá em baixo, vistas do Empíreo, com que vira Vénus abraçada a Júpiter e chorando, com que vira o Ada¬mastor sair da nuvem grossa, com que vira o Veloso correndo pelo monte abaixo. Mas ele acutilara o Borges, porquê? Para que a vida lhe mudasse de rumo, para que ela tomasse um rumo de fatalidade, para que as índias lhe fossem impostas pela sua estrela, para que a sua estrela existisse. Erros meus, má fortuna, amor ardente, em minha perdição se conjuraram, os erros e a fortuna sobejaram, que para mim bastava amor somente. Perdição. Amor somente. Como a poesia é falsa e verdadeira. Como ela diz não dizendo, e é não dizendo que diz. Como da nossa alma não sabemos nada antes de escrevê-la, e como não é dela que sabemos depois de ter escrito. A perdição procura-se, como um homem se despe para banhar–se no mar, a modos que Leandro atravessando o Helesponto. E o amor somente bastaria, como o momento em que tudo se esquece, tudo desaparece, tudo se evapora, ao calor que abrasa e que só dura um instante mas um instante em que o tempo se suspende, se petrifica num espaço e numa forma, e todo o verdadeiro espaço foge velozmente, correndo pelos tempos fora até que é ele o tempo que se suspendeu. Apenas como isso, porque é uma imagem do supremo amor, aquele que existe além do tempo e do espaço, além das esferas, além daquele poço terrível. Além ou aquém? E se esse amor não fosse mais do que uma imagem, uma essência última da sua própria vida?

Estranhamente, no silêncio e no fluxo dos pensamentos, o poço abriu-se insólito e translúcido na sua profundeza negra, com as pequeninas formas flutuantes, e uma subia, subia, tomando cor e feições de uma medusa terrífica. Mas a porta rangeu, e uma vaga claridade fez emergirem os objectos, como formas planas, sem sombras na luz fraca. Os passinhos soaram leves.

— A vizinha diz que, no intervalo antes de tu chegares, quando eu já tinha saído, veio cá também aquele doutor que te pediu as poesias para aquele senhor que não tem nome cristão, o Senhor D. Leonis. Hoje veio cá todo o mundo, até parece o Dia de Juízo. E ele que vai de viagem ficou com muita pena de não te ver, e disse-lhe que te deixava muitas lembranças e que queria muito que tu melhorasses de saúde, e ela respondeu que tu estavas mesmo muito acabado, e ele disse que tu não acabavas nunca, porque tu eras um grande poeta, um dos maiores que já tinha havido no mundo, assim uma coisa como nem sei quem ele disse. E ela riu-se muito, e disse-lhe que o Senhor Padre Manuel também dizia o mesmo, e que era tudo bondade deles, porque isso de poesias nunca davam nada a ninguém. Só que a ti deram a tença, mas foi por causa do livro impresso e pelos muitos serviços a el-rei que o teu pai prestou em sua pobre vida, e tu também. E ele respondeu que era sempre assim que as coisas aconteciam, que a glória só vinha muito tarde, e que os prémios, quando eram dados, nunca vinham pelo que a gente merecia mais. Eu acho que isto é descrer da infinita bondade de Deus Nosso Senhor, e não é muito respeitoso para com Sua Alteza que te deu a tença. O que é preciso é que tu vás ao Paço reclamar que não te pagam a tempo e horas, que estou cansada de me arrastar até lá, e sempre me perguntam porque tu não vais, e o outro dia o tesoureiro até me disse que era tudo história, que não ias porque tinhas morrido, e eu, se queria receber, tinha de pedir a el-rei a tença em meu nome. E tu não vais porque tens esse pecado de orgulho, e não queres que te vejam de muletas, a pedir que te paguem o que te devem. Eu é que estou cansada, e vou-me deitar que não posso mais comigo. Tem cuidado com a candeia, não gastes muito azeite, que está pela hora da morte, e bem sabes que tenho medo dos fogos e podes adormecer aí na mesa, não era a primeira vez, e a candeia pegar fogo à tua papelada, e à casa, Deus nos acuda e Santa Bárbara nos proteja. Se voltar cá o criado do Senhor Rui Dias, o que é que lhe digo? Nem me respondes, estás a cair de sono em cima da mesa. Tem cuidado com a candeia… Ficou olhando as chispinhas delicadas que a candeia fazia, como uma auréola à volta de um centro ardente. Se o criado de Rui Dias lhe aparecesse, ou ele mesmo, diria que, noutro tempo, era mancebo, farto e namorado, querido e estimado, e cheio de muitos favores e mercês de amigos e damas, com que o calor poético se aumentava, e que agora não tinha espírito nem contentamento para nada… Seriam 365 versos, tantos quantos os dias do ano, como uma via sacra da vida, 73 quintilhas como…

Levantou-se impelido por uma ânsia que lhe cortava a respiração, uma tontura que multiplicava a pequenina luz da candeia. Apoiado à mesa, arrastou-se até à outra ponta, e daí deixou-se cair até à enxerga. Remexendo nela, tirou de um canto umas folhas de papel, o tinteirinho, com a pena enfiada no anel, que se habituara, desde o primeiro embarque, a guardar assim. De joelhos, com as dores neles e nas partes aumentando muito agudas e em picadas de que cerrava os dentes, veio até à mesa, pousou nela o que trazia, e levantou-se. Ficou um momento, de olhos fechados, arquejando. Já as palavras tumultuavam nele, confundidas com as outras, inú¬teis e mortas, da tradução que tentara. Eram como uma tre¬mura que o percorria todo de arrepios, com hesitações leves, concentrando-se em pequenas zonas da pele. Debruçando-se da mesa a que se apoiava, puxou para o seu lado a cadeira, e caiu sentado nela. Sentia um suor frio escorrer-lhe pela testa, e, ao abrir o tinteiro, viu que as costas das mãos brilhavam perladas. Uma onda de alegria o inundou, em sacões ansiosos. Os olhos ardiam-lhe e era de lágrimas. Tudo falhara, tudo, e a própria poesia o abandonara, receosa dos seus olhos de alma penetrantes que viam o fundo das coisas. O poço com as formas flutuando. Mas era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava, mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono da poesia. Tremendo todo, mas, com a mão muito firme, começou a escrever… Sobre os rios que vão de Babilónia a Sião assentado me achei… Riscou, desesperado. Recomeçou. Sobre os rios que vão por Babilónia me achei onde sentado chorei as lembranças de Sião e quanto nela passei…

E ficou escrevendo pela noite adiante.

Araraquara, 27 de Março de 1964.

 

Leitura do Conto na voz de Nuno Meireles 

 

 

O Indesejado – um posfácio (Parte II)

Nos assuntos nacionais, porém, ao menos para nós, há um termo, além do qual a cena não suporta o verso. D. Sebastião é talvez o último carácter histórico a quem ainda pudéssemos ouvir recitar endecassílabos; daí para cá duvido. Do tempo de Frei Luís de Sousa pode ser que ainda se ature o verso em assunto ou bem trágico ou bem heróico: dependerá porém muito do modo por que os fizerem, e os declamarem, os tais versos. GARRETT —Nota C à «Memória ao Conservatório Real».

 

A metrificação de O Indesejado é, quase na íntegra, construída com o verso de 10 sílabas, ou, mais exactamente, de cinco pés. Quem conhecer as minhas obras poéticas anteriores ou contemporâneas da composição desta peça sabe que, mesmo no interior de poemas livres, é essa uma medida que me é peculiar. Não vem agora ao caso tratar desse curioso tema das medidas peculiares aos vários poetas ou a uma linguagem nacional. Se nisso faço pessoal reparo, é para, desde já, sossegar o ânimo de quem, nestes tempos de metro telegráfico, possa assustar-se com mais de 2000 versos, que me deram só o trabalho de esperar pacientemente por eles, e de os retocar, adequando-os mais à expressão dramática e às necessidades da dicção teatral, o que, apesar da vocação pátria para receptáculo das inspirações divinas, me não parece coisa muito feia ou desprovida de tradições respeitáveis.

Também o verso de 10 sílabas tem grandes tradições na literatura portuguesa. Com ele se compuseram algumas das mais belas obras da nossa poesia; e uma das obras máximas do nosso teatro — A Castro, de A. Ferreira — é quase toda nesse metro. O decassílabo concilia duas exigências da dicção teatral na nossa língua: uma extensão que não excede as possibilidades respiratórias normais, uma flexibilidade rítmica que permite o seu ajustamento à intenção dramática [1]. O verso de doze sílabas seria demasiado pomposo, mais apropriado no teatro à declamação enfática. Outro verso de menor medida não teria a extensão silábica ao mesmo tempo compatível com a dignidade da tragédia e a naturalidade do discurso teatral. Tanto assim é, que, por exemplo, um Calderon, em La vida es sueno, usa metros mais extensos sempre que a acção se intensifica, metros menores quando a acção se dilui em lirismo dramático. O mesmo havia feito Gil Vicente, por exemplo, no Auto da Feira, ou no Auto da História de Deus.

Mas porque teatro em verso? Porque, se em verso, em verso medido? Porque, em verso branco? A causa principal não me compete esclarecê-la— cabe à outra crítica dizer, se souber e quiser, por que razão me aconteceu assim.

À primeira pergunta poderia, porém, responder-se com outra: porque teatro em prosa? É evidente que, se no teatro a mais importante revelação do texto é confiada à dicção, mesmo a prosa do grande teatro em prosa não é nem pode ser uma prosa vulgar, descuidada, construída em desatenção dos valores fonéticos e emocionais da linguagem. Sirvam de exemplo um Bernard Shaw com a brilhante euritmia expressiva do seu diálogo, um Gabriel Mareei tão denso e cauteloso, a linguagem cadenciada de um Garcia Lorca, a grande retórica fonético-discursiva do José Régio de Jacob e o Anjo.

A prosa narrativa, ou evocativa ou abstractamente introspectiva, que, com valores sintáticos complexos, é apanágio da literatura de ficção, ainda quando, por exigências da acção dramática, penetra no monólogo ou no diálogo teatral, beneficia de uma simplificação. Esta simplificação nada tem que ver com os preconceitos realistas da «naturalidade» do diálogo. A verdadeira naturalidade verbal em teatro é a eficiência expressiva da dicção. Será sempre, sob este aspecto, eficiente aquela linguagem que concorde, rítmica e morfologicamente, com a espécie de teatro que se pretende que exprima. Tão «natural» é a magnificência de um Christopher Marlowe como a secura irónica de Pirandello no Henrique IV. Tão natural o barroquismo lírico de Calderon como a pureza retórica de A Castro, de Ferreira. Tão naturalmente se exprime o Juiz da Beira, de Gil Vicente, quanto Juliano Apóstata, em Imperador e Galileu, de Ibsen.

Se a linguagem teatral é uma linguagem cuja naturalidade reside na adequação estética dos seus valores e das suas intenções, visto que procede por alusões fonéticas, alusões imagísticas, alusões rítmicas, que a prosa comum, impressa, pode confiar ao próprio grafismo das palavras, e é, portanto, uma linguagem especial, destinada a servir não só a encarnação das personagens, mas também a vivência virtual dessas personagens — uma medida regular suporta melhor a elocução, a cadência das frases, a gradação das emoções a transmitir.

É tanto mais importante este aspecto quanto, entre nós, se encontram, frente a frente, para serem absorvidos e transmutados em significação artística, dois estados de coisas miseravelmente incompatíveis: a nossa natureza dialéctica (e, consequentemente, a nossa condição trágica) e a decadência sónica de uma língua rica, que ninguém conhece nem explora nas suas possibilidades sonoras e rítmicas. Se a própria inspiração, ou o que queiram chamar-lhe, e a exigência de dignidade de uma condição excepcional me não houvessem conduzido à tentativa de reabilitação do teatro em verso, a necessidade de dar, quantitativamente formada, aquela dignidade, a quem, pela voz, a há-de transmitir, seria bastante para justificar tal modo de criar.

O verso livre, de medida demasiado confiada à insciência dos poetas, mas, mais ainda, ao capricho rítmico de quem tiver de o dizer, só poderia exercer a mesma função teatral, se sobrecarregado de associações rítmicas e simbólicas. Pela magia dos seus versículos assim construídos, é que se defende cenicamente o teatro de Claudel. Mas não esqueçamos que esse teatro, originado na difusão expressional da escola simbolista e na pompa personalista de Walt Whitman, por dramático que seja, expõe uma concepção providencialista e de optimismo transcendente, que é intrínseca ao pan-catolicismo de Paul Claudel. A total presença da chamada Criação, o perfume vegetal de um mundo desdobrando-se, que esses maravilhosos versículos exalam, não são para este extremo europeu, crucificado entre uma transcendência escolasticamente abstracta ou idolatricamente concreta, e uma imanência, dolorosamente pobre e carecida, de povo sem mitologia e sem pão [2]. Natural será, pois, uma vez consciencializado artisticamente um símbolo trágico, que as personagens se exprimam numa regularidade que as vista de uma majestade provisória, de uma dignidade cuja nostalgia moral é parte da nossa tragédia, como humanos e como nacionais. Adquirida cenicamente a dignidade, e prestes a ser obtida a coroação in extremis: natural é também que a regularidade se dilua — é quase livre o último monólogo de D. António, são em prosa as cenas da coroação. E só no fim Diogo Botelho falará em verso medido, cuja medida final o eco do Coro e da consciência dos espectadores, cujo ouvido se habituou à cadência, terá angustiosamente de completar, participando, o que é da essência da tragédia.

Depois de tudo isto, que o verso seja branco, isto é, não rime, que significado terá? O verso teatral tem tradições de rima. O teatro clássico francês, o teatro romântico francês, o teatro espanhol do Século de Ouro, algum teatro isabelino, Gil Vicente, tudo isso rima sempre ou quase sempre. Shakespeare, exceptuadas as cançonetas intercaladas em muitas peças, raro rima, e o verso branco é, de resto, um dos aspectos honrosos que a tradição poética britânica costuma alardear. A rima, no teatro, pode ser ou não ser um defeito, conforme a missão expressiva confiada ao verso. Refiro-me evidentemente à rima consoante final, que é uma rebusca, um hábito do ouvido, um gosto de caixa de música, muito belos em soneto. Que a rima é coisa mais vasta, e toantes e aliterações são o pão nosso de cada dia de quem escreve versos sonhando ouvi-los. O prestígio de muita linguagem poética, aparentemente seca, reside nessa tendência natural da expresão poética para a associação sugestiva de constantes sónicas. Pode mesmo afirmar-se que a nobreza da linguagem com que um autor ou um povo se exprimem varia proporcionalmente a essa riqueza musical do ritmo. Refiro-me, portanto, apenas à consoante final, que é, de resto, o que o vulgo e os poetastros de fado mais ou menos corrido têm, na culta ou ingénua mente, por rima.

De certo modo, essa rima define, no discurso metrificado, o limite do verso. Conforme a inspiração e os hábitos formais em vigor, os poetas procuraram encerrar uma proposição ou um sujeito lógico em cada verso, o que a rima final acentua; assim procederam, por exemplo, Racine e Molière. Nos casos, aliás muito excepcionais, em que as proposições transbordam de verso para verso, a rima defende os versos contra a diluição auditiva da medida deles, na elocução correntia do discurso lógico. Acontece, porém, que essa defesa do verso não parece compensar uma monotonia sonora em contradição com a continuidade do discurso ao longo de numerosos e idênticos versos; nem a beleza musical, aliás demasiado fácil como o «colorido» em música, parece, por seu lado, compensar a perda de uma secura retórica, que deve ser a linguagem do teatro trágico. Por secura retórica entenda-se a ausência de toda a ornamentação sonora e de toda a imagística puramente ornamental, mais da alegria de produzir que o autor sente, que das circunstâncias psicológicas e cénicas, através das quais sentem e falam as suas personagens.

O verso branco, a que uma ou outra rima consoante, súbita e discreta, empresta algum encanto, permite, simultaneamente, a dignidade do discurso e uma fluência que a acção teatral, se nem sempre a exige, aceita de bom grado para melhor se animar. Que para quem os ouve esses versos o não pareçam, é de somenos importância; fundamental é, porém, que sejam como tal sentidos e ditos por a quem couber a missão de os apresentar. E, aqui neste ponto, surgem para versos dificuldades graves de dicção, nascidas da já referida falta de sensibilidade, que actualmente se verifica, para os valores ritmicamente expressivos da linguagem.

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São fracas, entre nós, as tradições de eloquência autêntica. Frequentemente se confunde com ela uma redundância florida e fácil ou até uma facilidade em falar muito. A eloquência verdadeira pode, pelo contrário, falar pouco e concisamente — é mais da exactidão no sugerir e do ritmar no dizer, que propriamente do alongar-se num delírio verbal, de ebriedade com a própria torrente insignificativa. Se acaso esta última eloquência se prolonga, só o fará, naturalmente e com verdade, quando abandonada à libertação onírica, o que também, e infelizmente, não é da tradição da nossa literatura. Mesmo esta expressão «literatura», com o que implica de sacrifício da liberdade vocal ao artifício lógico da palavra escrita, já de si representa uma triste contrapartida, que se opõe, originariamente, à existência escrita de eloquência pura. Ora o ritmo da dicção, se existe, como existe, no texto escrito que terá de ser dito, está lá exactamente como na escrita musical: requerendo intérprete. Ainda quando mentalmente alguém lê, a perfeita apreensão de um texto postula que o leitor possua uma educada sensibilidade rítmica.

Ninguém pode, em perfeita consciência, pretender que a linguagem atinja uma precisão e lógica expressivas, muitas vezes incompatíveis com a ambígua existência ôntica de sensações, imaginações, pensamentos contraditórios. Nem toda a vida humana e nem toda a consciência humana serão, como tais, jamais redutíveis a um mesmo que complexo esquema lógico. Ainda que o sejam, sê-lo-ão como representação simbólica mais adequada às operações logísticas, do que à descrição circunstanciada da realidade que representam. Deste modo, não é, nem será, do senso comum desprezar o significado do ritmo, que, evidentemente, não sobreviveria à redução lógica do discurso a que serve de suporte. Não sei se os matemáticos da linguagem são, na sua maioria, amadores de música. Não me admiraria que o fossem; admirar-me-ia, sim, que o fossem de toda a música, inclusive a romântica, a impressionista e a de depuração folclórica, tudo formas de criação musical em que não predominam os desenvolvimentos intelectuais de adequação da matéria musical às regras harmónicas preestabelecidas. A riqueza de sentidos, de gradações. de orquestração imagística das sugestões, a plenitude de um mar de ritmo e não de um caprichoso mas rígido canal — tudo isso apenas é transmissível e captável, na linguagem, pela consciência rítmica de uma ordenação e de uma associação de sons, de ideias e palavras, uma e outra adequadas ao estado de alma a exprimir. O homem, na sua vida e na expressão dela, vive muito abaixo (ou muito acima) das ideias que necessita claras para sua segurança jurídica. O tempo e as emoções, antes de serem pensados, possuem já um ritmo. Creio que era Bülow quem dizia, paralelizando a expressão de S. João, que «ao princípio era o ritmo», ou seja a pulsação da vida e do universo, sob todas as formas e aspectos. Poderemos manter-nos um pouco mais longe da hórrida metafísica… — e todos reconheceremos que o ritmo é suporte possibilitante da expressão total, sem o que ela não exprime totalmente, senão a magra sombra produzida pelo critério de realidade que a iluminou.

Após tantos anos de verso livre, bailados, cinema, falar de ritmo é falar da mais banal das palavras. Toda a gente ajuíza do seu gosto por uma obra pelo «ritmo» que lhe encontra, trate-se de uma peça de «jazz» de Duke Ellington, dos «entrechats» de um Babilée, de uma sequência de imagens de Orson Welles. As possibilidades de investigação que o cinema, as células foto-eléctricas, o gramofone, etc, oferecem hoje ao conhecimento do ritmo, no que respeita a sons, imagens, movimentos, excedem, em muito, as especulações de outros tempos em que mais se meditaram essas questões. E, no entanto, entre uma popularidade que encobre todas as improvisações e uma virtualidade científica demasiado oculta, o pobre ritmo continua a ser, ou melhor, é mais desconhecido ou ignorado do que nunca.

Ninguém reparou ainda, por exemplo, que os melhores versos livres — aqueles que mais sugestivamente se nos comunicam— são, naquelas línguas em que versificar «livremente» e abandonar a relação do número de sílabas para a acentuação, precisamente as sequências de palavras que regressam a uma regularidade podálica, quantitativa. Mesmo nas línguas, como a inglesa, que mantém, de certo modo, a medida em pés, o verso livre é uma inconsciente experimentação de outras combinações quantitativas. Não admira que assim seja. À linguagem pertencem características rítmicas. Se o centro de gravidade da linguagem se desloca, com a evolução dialéctica, para outras regiões de expressão da realidade, natural é que, subsistindo o que é intrínseco à natureza da linguagem, sejam procuradas novas combinações, adequadas ao que é mais aprofundado, mais subtilizado, mais discriminadamente sentido. Porque o progresso dialéctico da sensibilidade é nesta discriminação que se revela.

Tudo isto é ritmo; e o ritmo define-se, afinal, pela lei ou leis de variação e de repetição de certos esquemas qualitativos — e (ou) quantitativos — de intensidade, de altura, timbre, alternância, duração relativa destas categorias rítmicas. O que é válido para os sons, as cores, os volumes, as proporções arquitectónicas ou decorativas, exactamente como para a linguagem, adaptadas as categorias àquilo que, para cada tipo de expressão (ou de arte), realmente correspondem, ou seja, partindo-se das gamas correspondentes a cada forma de arte. Sem disto uma consciência válida, falar de ritmo é o mesmo que falar de abóboras.

No teatro, se a linguagem do autor se ajusta ao tipo de teatro que escolheu, à personalidade das figuras, à economia das situações, sem dúvida que parte da tão celebrada «intenção no dizer», que é coroa de glória de muitos actores, será confiada ao próprio ritmo das frases. A inteligência do actor, uma vez integrada na elocução conveniente, ficará liberta para aplicar-se a mais subtis inspirações cénicas. Impõe-se, portanto, para prestígio do teatro e sua autêntica eficiência, que a dicção seja foneticamente cuidada, ritmicamente consciente, de uma dignidade mais entregue à elocução que à severidade do dizer. Escusado será sublinhar que são estas qualidades precisamente as que escasseiam nos nossos palcos, e até nos agora tão populares recitais poéticos. Escusado será sublinhar que tais qualidades podem conseguir-se por uma direcção cénica inteligente, como o comprovam experiências recentes.

A unidade e o ritmo (como sói dizer-se) de um espectáculo dependem, em grande parte, desta segurança linguística. O mesmo é afirmar que, sem ela, nem o grande teatro atingirá aquela significação que as frases e as rubricas do texto em si contêm.

Porém, do ponto de vista rítmico, é da própria essência da movimentação cénica que o verso dramático possua, a par de um ritmo seguro, uma capacidade de desarticulação, cesuras múltiplas, que possibilitem como que um requebro rítmico da linguagem, pelo qual transparecerá mais cruciantemente definida, a situação pendente dele. Um verso que se reparte pelas deixas de duas ou três personagens assemelha-se à exposição sinfónica, em que um tema é continuado e retomado por dois ou três naipes diversos. Neste sentido, as regras clássicas de repartição do verso, de limitação do número das figuras dialogantes, se faziam ganhar ao verso uma estrutura mais evidente ao ouvido, obrigavam-no a perder — e às cenas — uma possibilidade de ondulação rítmica da acção, ecoada sucessivamente por várias figuras. Ao monólogo, convenção magnífica que simultaneamente imita a realidade e a transcende — porque o homem fala só muitas vezes, em voz alta, mas não diz, nesses momentos, todo o discurso que o teatro permite—, cabe, na versificação, a comunhão com o espectador. Um verso que se desdobra em várias personagens é como um bailado a que se assiste. E os versos que uma personagem diz para si próprio são, no teatro, o regresso da comunicação rítmica com a assistência, são a intimidade da personagem, que musicalmente abre o seu espírito, não aos olhos do espectador como no teatro realista, mas aos seus ouvidos e ao seu coração. Alguém, na penumbra de uma sala, revela, ao ouvinte silencioso, as amarguras da sua vida, as tristezas da sua imaginação; e o ouvinte, entre pudibundo e curioso, lhe transmite, no palpitar da sua presença, a liberdade que se expande e o pulsar da outra humanidade. É assim que a tragédia vive. Um coro invisível será o acorde complementar que o pensamento do autor a tal situação justapõe, para acentuar-lhe o significado, a intenção, a ressonância que o ritmo, pulsando livre, absorverá submisso.

A flexibilidade glótico-dramática do verso é assegurada por continuidade sónica das palavras, elisões naturais à linguagem falada, etc, que, com outros artifícios, surgidos naturalmente na composição de versos cuja dicção dramática acompanha, na mente, a sua formação, constituem o singelo aparato sobre o qual assentará a acção verbal. Desses artifícios são particularmente interessantes o partido métrico-expressivo a tirar das pausas, da pontuação intencional, etc. Tudo isto foi da ciência da composição em épocas mais sábias do que a nossa. Ciência bem inútil, se para si própria; mas indispensável ao teatro e à dicção de versos, se por ela também o ritmo, anseio máximo do nosso tempo, melhor se revela e se apoia. Por exemplo: a medida dramática de certo verso exige, para correcção rítmica, uma elisão. A vogal elidida necessariamente na linguagem escrita não o deve ser na linguagem falada, mas sim dada discretamente, como quase muda. Continua o verso correcto, como convém, e a dicção resulta mais elegante. E a elegância da dicção, que não é ênfase deslocada, é indispensável não só ao «ritmo» mas às condições cénicas do teatro, visto que é preciso, para ser-se entendido, recitar claramente, por muito realista e algaraviada que seja a linguagem do texto. O cuidado na dicção é índice da cultura de um povo, e nada melhor do que o teatro, expressão e ara sacrificial do pensamento colectivo, poderá servir e servir-se do que, «em nós, é mais nós que nós próprios».

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Terá ficado claro não serem as preocupações de dicção (quer de elocução dos actores, quer de estilo e estrutura dos textos) preciosismos de ordem literária, mas imperativos do valor espectacular do teatro. Certas memórias ocultas do aspecto grosseiro, imediato, vaidoso, da «commedia dell'arte», ainda vivas na presunção dos actores, como a euforia de meios da encenação moderna o estão na independência dos encenadores, fazem com que muita gente suponha a existência de oposição entre teatro literário e teatro espectacular, ou seja — que uma peça é tanto mais apresentável quanto mais literariamente descuidada. Admite-se mesmo, embora não como teatro (acção dramática), a existência de teatro para ser lido, isto é, para ser «representado» apenas na imaginação do leitor. Grandes escritores o admitiram e com essa consciência o escreveram. Acontece, porém, que essas peças, se nem nos desejos dos autores chegaram à realização cénica, é porque excedem — ou excediam — as possibilidades contemporâneas de tal realização. Peças como The Dynasts, de Thomas Hardy, ou Imperador e Galileu, de Ibsen, estariam nestas condições, e são de extraordinária categoria teatral e intelectual. E, no entanto, a rapidez actual de montagem e os meios de trucagem que a técnica de iluminação, de tapetes rolantes, de sobreposição de cinema permitem, uma e outros tornam quase ilimitada, dentro das convenções cénicas, a liberdade de realização actual. Le Souliar de Satin, de Claudel, tem sido representado com êxito, e a maquinaria já era uma coroa de glória do teatro espanhol do «Século de Ouro». Mas não se trata propriamente de meios mecânicos.

Se aquilo a que habitualmente se chama acção dramática fosse condição de representabilidade, com êxito, de uma peça, os dramas de Tchekov, certas peças de Maeterlinck, Strange Interlude, de O'Neill, teriam sido insuportáveis, dada a preponderância do diálogo, e até do silêncio, sobre a movimentação cénica. Seria insuportável o teatro de Racine. E todo esse teatro teve, no seu tempo, e tem uma força representativa que sobrepuja a movimentação e a pseudoviolência de muito teatro recente, ligado à ainda não ultrapassada nossa época.

Também a penetração psicológica do diálogo, se não analítica, mas sugestiva das situações psíquicas das personagens, não é nem nunca foi óbice ao valor espectacular de uma peça. Ao contrário do que julga o assíduo leitor, a subtileza de um diálogo, desde que seja uma subtileza inteiramente ligada ao que se pensa em cena, é bem mais facilmente apreendida pelo espectador atento que pelo leitor inteligente. É que não basta ser-se leitor inteligente para, mesmo à leitura, compreender uma peça de teatro; é preciso ser-se igualmente — ou até ser só — espectador atento. A compreensão obtida não será, da parte do espectador atento que é o apreciador de teatro, tão lúcida como, em meditações sucessivas, poderá vir a ser a do leitor inteligente; mas, sem dúvida, é mais adequada ao próprio critério de sugestão, e não de intelecção, sobre que se apoiam o diálogo e a acção teatral. Ninguém pode, sem tê-la visto representar, proclamar a sua plena compreensão de uma peça; e disto têm plena consciência os autores, os realizadores, os actores e os verdadeiros críticos dramáticos, quando discutem hipóteses diferentes de encenação de uma obra.

Há, evidentemente, obras híbridas, vazadas em moldes aparentemente teatrais, e que não devem ser confundidas, quer com as peças que excedem o quadro cénico, quer com, por exemplo, romances, em que é aproveitada, como artifício narrativo, a forma escriturai do teatro. Essas obras não são teatro, porque não são espectáculo, por muito espectaculares em palavras, penas, plumas e gente, que os autores as sonhem.

O teatro é, fundamentalmente, um espectáculo. A intensidade crucial dos momentos trágicos, a explosão irresistível de certos momentos fársicos, a sedução funambulesca de bem conduzidas cenas de alta comédia, tudo isso é um sacrifício da abstracção intelectual à natureza espectacular do teatro. Por isso é natural que a espíritos extremamente argutos, mas abstractivos, passe desapercebido ou desagrade francamente o que permite precisamente a exposição cénica daquelas ideias que perseguem. Por isso não admira que espíritos menos argutos, apenas desejosos de assistir a uma representação, se deixem prender por peças absolutamente vazias, óbvias, mas excelentemente carpinteiradas.

O espectáculo tem as suas leis próprias, seja teatro declamado, teatro lírico ou teatro dançado. Leis a que os próprios executantes musicais se sujeitam como executantes e como criaturas que pisam um tablado. As ideias são compreendidas; os espectáculos impõem-se. É mesmo essa imposição, essa força sugestiva, a qualidade primordial que o público exige a um espectáculo, porque é, afinal, da natureza intrínseca da relação público-visão, que o espectáculo estabelece.

A literatice, e não a literatura, é inimiga do teatro. E todavia, notemos que, ultrapassada inteiramente uma sensibilidade colectiva determinada, nos parece insuportável literatice o que foi uma agudíssima vivência dramática. Sirva de exemplo todo o teatro simbolista, de escola. Às vezes, sucede que a aversão manifestada por certas formas significa, pelo contrário, um desfasamento entre aquilo de que realmente se gosta e aquilo de que se desejaria gostar. Exige-se dos outros que nos façam o favor de não suscitar em nós aquelas apetências que sentimos não se coadunarem com a atitude que, em face da voluntária compreensão do momento que passa, entendemos dever eticamente assumir.

Ao teatro cabe, infelizmente, como espectáculo que é, suscitar tudo isso. A própria poesia é menos lírica e mais dramática, na medida em que tal suscita também. O que não quer, evidentemente, dizer que lirismo e espectáculo sejam incompatíveis. Apenas um lirismo que se não desdobre, que se não despersonalize, que se não submeta às situações cénicas que imaginou ou ilumina — apenas esse é incompatível com o espectáculo. Todo o outro é condição essencial à própria existência superior deste: pois que, no teatro máximo que é a tragédia, a significação se refugia precisamente na pungência lírica do discurso das personagens, quando, no momento supremo, expõem a si próprias a sua condição trágica. Como as surpresas e os reconhecimentos, o lirismo é condição do espectáculo. Ora o lirismo, a grande poesia, só é exprimível com a categoria intelectual e linguística compatível com a sua própria altura. Em vez de declamatória, a expressão será discreta; em vez de expositiva, sugestiva; em vez de analítica, densa. Enfim, tudo aquilo que no teatro é a expressão convencional da vida viva, como na poesia lírica é a própria vida da poesia.

 

 

Notas:

1. Diz Garrett, de quem me servi para epígrafe, em outra nota à mesma «memória» — «Gil Vicente usou de todos os metros possíveis em português mas raríssima vez do endecassílabo. E todavia este é quase o único a que a prosódia da língua dá harmonia e força bastante para soar bem sem rima. Que se há-de fazer? Variar-lhe o ritmo, quebrar-lhe a monotonia da cadência como fez Alfieri, a quem todavia o toscano faltou com as desinências fortes que não tem, e que no português abundam tanto».

2. «Sem mitologia» quer aqui significar — sem imaginação. Toda a história da mais alta expressão nacional — a poesia — demonstra a quase ausência de imaginação transfiguradora. A grande poesia, entre nós, terá sido sempre atingida por vias de abstracção intelectual, como é tão visível em Camões e Pessoa. Mesmo um António Nobre não imagina: evoca e convoca pessoas e lugares. Mesmo um Pascoaes pode definir-se, sob este aspecto, por um verso seu, magnífico: «o que há de aparição no seio da aparência» — quer dizer: o que exsurge do que os seres e as coisas parecem.

 

O Indesejado – um posfácio (Parte I)

Desejado por Jorge de Sena como prefácio à peça, o posfácio a O Indesejado, de que apresentamos aqui a primeira parte, é uma espécie de estudo explicativo do autor sobre a obra.

Esta peça, como se vê pela data, estava pronta em fins de 1945. Tentei, sem resultado, editá-la; não tentei, e disso não tenho pois razão de queixa, fazê-la representar, por me parecer que uma peça, a menos que seja encomendada por uma empresa, deve ser publicada, para que se apresente quem se abalance a pô-la em cena, sem que seja o autor a mendigar o que de direito lhe cabe: a encarnação do drama, a comunidade com o público.


Estou infinitamente grato à PORTVCALE por esta oportunidade de letra impressa, que, pelo menos à leitura, a aproxima do público, do público português a que, pela natureza profunda da inspiração dramática, primacialmente ela se destina. Também à leitura, que várias vezes e em várias casas amáveis fiz, não é ela inteiramente desconhecida de alguns dos melhores espíritos contemporâneos; em nota final, se encontrará descrição dessas leituras, com a indicação dos nomes de pessoas que a elas assistiram. Se essas pessoas são responsáveis, pela categoria cultural ou pela actividade intelectual que exercem, não me parece abuso da minha parte responsabilizá-las aqui pela presença curiosa com que, então, quiseram honrar-me.

Quanto à minha pretensão de fazer seguir o texto por um post-fácio, devo explicar que só os azares de uma bem-aventurada publicação precipitadamente iniciada impediram que este post fosse um prefácio, que julgo necessário, não para a compreensão da peça — sector reservado a ela própria e ao público, que, se disso se não desempenharem a contento mútuo e meu, não serão prosas explicativas que adiantarão alguma coisa — mas para compreensão das intenções artísticas que ela concretiza e da situação que pretendo que ela ocupe em dois panoramas portugueses: o panorama dramático e o dramático panorama. Não sei se me entendem.

 

I

Esta peça é uma tragédia. Uma tragédia histórica. Uma tragédia em verso. Tudo isto é medonho, rebarbativo e audacioso, bem sei. Não vejo, todavia, inconveniente algum em apelidá-la de tragédia. Poderia, por falta de modéstia, que não tenho, ou até por autêntica modéstia, que infelizmente também não tenho, limitar-me a chamar-lhe peça, visto a tragédia ser qualquer coisa tida como de outros tempos mais conspicuamente «clássicos» do que os nossos. A verdade é que, em todas as épocas, houve quem escrevesse peças boas ou más, e lhes chamasse tragédias. E o facto de haver tragédias boas ou más e boas ou más peças impropriamente classificadas de tragédia não será talvez razão suficiente para, em qualquer dos tipos, não haver, por minha audácia, minha ingenuidade ou minha lucidez (como queiram), mais uma.


Não é, evidentemente, por ser histórica, que chamo tragédia a esta peça. Há muitas tragédias que não são históricas, e muitas peças históricas que não são tragédias. Também não será a forma versificada mais ou menos regular que lhe confere o título. Muitas peças em verso são excelentes comédias, e a natureza da tragédia não exige obrigatoriamente que o discurso seja versificado. Exige, sim, que a peça tenha categoria poética, isto é: visão unificante, densidade de pensamento, equilíbrio rítmico das partes em relação ao todo e da expressão em relação à intenção. Sendo a tragédia a representação simbólica de uma crise dialéctica, não pode dispensar-se — além de, como teatro, possuir acção exterior ou interior — de possuir também aqueles atributos da máxima categoria de criação, sem a qual se não exibe, condigna e excepcionalmente, a crise inspiradora.

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De muito longa data me apaixonou a figura infeliz, estranha e maltratada, do Prior do Crato. Quando principiei a escrever esta peça, não estava ainda em moda a reabilitação dessa figura, embora houvesse meritórias obras, que com muito proveito consultei, para inventar a complexa personalidade de um rei que terá encarnado, senão o destino contraditório da sua pátria, pelo menos pode imaginar-se que a lucidez desse mesmo destino. Foi exactamente por aí que comecei. As primeiras linhas compostas foram todo o último acto, desde o início do grande monólogo final. Sobre isso se ergueu o resto pela seguinte ordem: 1.° acto, início do 4.° acto, 2.° acto, 3.° acto. Entre o 1.° e o 2.° acto actuais, cheguei a desenvolver o que seria o 2.° acto (a peça teria então cinco), que fica inédito. Esse acto, passado na nau almirante castelhana, depois da derrota naval dos Açores, se, por um lado documentava várias circunstâncias da acção, por outro apartava a atenção do tema principal, que é a decomposição gradual da personalidade do protagonista, por nele se consciencializarem os contrários da condição humana, em geral, e da condição política nacional, em particular.


Gostaria de, a propósito, falar em tragédias sobrepostas. Porque assim é. Nunca as tragédias chegam sós; e, conforme o plano do conhecimento em que nos colocamos, assim nos surge uma, que é como que a particularização concreta de outra situação trágica mais vasta. O Prior do Crato, que, erguido sobre o que dele dispersamente se conhece, eu quis ver em carne e osso, sofre as consequências do seu nascimento, da legitimidade duvidosa da sua pretensão, do apoio escasso das classes dominantes, da quase apatia das classes dominadas. Sofre, ainda, a sua natureza donjuanesca e, por cima de tudo, o anti-sebastianismo que a sua pessoa representa. Por cima de tudo, não — que, mais acima, sofre, como homem e como português, uma crise de independência e de liberdade do espírito. Figura trágica e crítica, aceitar-se-á que, na sua consciência, se consubstanciem os problemas humanos, representados pela crise de 1580. A tragédia de uma consciência nacional lutando contra a abstracção (e sujeição) crescente do seu próprio destino é a sua mesma tragédia. E, todavia, O Indesejado é uma peça histórica, no sentido menos corrente, de rigor histórico das personagens e das situações (não, é claro, todas as situações dramáticas). De acto para acto se concentram, porém, aquelas tragédias sobrepostas, e, mesmo formalmente, se operará a transfiguração dialéctica da História espectacular em História significativa. [1]


Por este dualismo do rigor histórico e da evocação interpretativa, e não só por ser uma peça de um escritor de hoje escrevendo para o seu tempo, é que a mentalidade das personagens e a linguagem que usam, procurei que fossem um discreto compromisso das épocas a aproximar. Melhor: o meu espírito é que tal procurou. Não que me repugne o anacronismo que tanto pano para graciosas mangas permitiu a um Shaw, um Claudel, um Giraudoux. Apenas senti que a dignidade trágica, que aliás, nas obras visadas, estes autores não procuraram (mas sim uma dignidade só intelectual), será prejudicada, na plena repercussão teatral, por uma «cocasserie» demasiado presa a insignificâncias do nosso tempo para servir a própria resolução dialéctica que a tragédia busca. Intemporal como a tragédia parece, é, já por si só, a expressão poética mais amarrada às condições da época em que surge. De sempre, surgiu até para enfrentar as perplexidades críticas por tais condições suscitadas. E, ao escrever O Indesejado, desejei ardentemente penetrar a experiência que, de nós, como portugueses e cidadãos à margem ou nas margens do mundo, nos é dado ter.


Tudo isto, é claro, pode não estar na peça, estar e ninguém ver, ninguém ver por culpa minha ou da leitura que fizer. Sob esse ponto, deve um autor reservar-se. E devem os leitores aguardar ou exigir a representação, o corpo e a voz dos actores, para certificarem-se do que, acaso, a leitura lhes deu ou não deu. Por má que seja uma peça, é no palco e como teatro que se apresenta a juízo. Antes disso, se for boa, o que ficará na memória do leitor, além da inteligência do sentido: um pequeno palco, uma série de gestos e movimentos, um saudoso amor da imaginação pelo tablado autêntico que a peça merece.


É verdade: ainda não falei do Coro. Lá para trás, oportunamente, não cheguei a dizer que nunca supus que a peça seria uma tragédia, rotulada e garantida, só porque a acção era sublinhada pelas intervenções oratórias de um Coro. Não me perguntem, contudo, se o coro é a consciência de D. António, se a divindade, se a consciência colectiva, etc, etc. Será tudo isso ou nada — sobrenatural é que ele não é. Ao longo da peça, em boa verdade, só os espectadores o ouvem; D. António ouvi-lo-á na medida em que morre vivendo, e o que ele já não ouve bastará como justificação do que, afinal, não está lá para sublinhar a acção, nem sequer como um recurso, mas como autêntica exigência desta efabulação dramática.


É que o teatro, a realidade teatral, como imagem humana universal que pretende ser, justapõe à vida a convenção. A convenção possibilita e completa não só a expressão da vida como a própria vida. Neste sentido, a vida humana é teatro. Apenas não representamos um papel que a fatalidade nos haja ab initio imposto e distribuído, mas aquele que, regidos pelas circunstâncias, nós próprios escolhemos e assumimos. Este subtil e doloroso equilíbrio entre o desejo de não representar e a consciência do sacrifício exigido por uma representação necessária, que é possivelmente a essência do chamado pecado original, está na base mais íntima da razão de ser do teatro, e é a garantia da sua imortalidade.


Não há nisto qualquer mistério transcendente. O que se oculta misteriosamente nos meandros da lucidez ingénua ou do saber culto — a profunda consciência de uma representação necessária em cuja humilde aceitação reside a liberdade — só por profundidade será misterioso. Ou porque, nem todos sendo capazes de enfrentar a verdade, e ninguém sendo capaz de a enfrentar, em cada momento, na sua nudez final — os graus de verdade se desenvolvem como tragédias sobrepostas, até um último sem sentido algum, perante o qual o homem ou recua e persiste, ou avança e se aniquila.


Perdoem-me que a seguir recorde que é da boca daquele por cujas mãos se «coroou», daquele que lhe foi, ao longo da vida, aquela estima irracional, que é suporte da personalidade, e que ele próprio por si mesmo não tivera: é dessa boca que D. António já não chega a ouvir o decreto final da sua dissolução, ao mesmo tempo fixação irremediável na vida que viveu. Tudo isto, porém, é teatro, é poesia, e é, consequentemente, a vida. Se apenas for o pensamento que tive ou tenho agora — enfim, sempre será alguma coisa.

Nota:

1. Diversos temas, ressurgentes ao longo dos actos, conduzem estas várias tragédias: o tema do anel, o tema da invenção do sebastianismo (Duarte de Castro), etc.
 

Os Amantes

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

TheKiss_AugusteRodinSobre este conto, dirá Antonio Candido: “em Assis, Jorge de Sena escreveu muito […]. De alguns de seus escritos fui o primeiro leitor, depois de dona Mécia, é claro. […] E lembro a profunda impressão que tive com o admirável conto “Os amantes”, composto segundo uma técnica de reciprocidade de perspectivas, graças à qual o mesmo ato é praticado e visto em termos de duas subjetividades que se equivalem, funcionando ambas como focos da narrativa” *

 

 

A natureza de todas as outras criaturas é definida e restringida pelas leis que Nós fixámos; tu, pelo contrário, isento de tais restrições, podes, por teu livre arbítrio, cuja custódia Nós te atribuímos, traçar por ti mesmo as linhas da tua própria natureza (…) Fizemos de ti uma criatura nem do céu, nem da terra, nem mortal, nem imortal, para que possas, como livre e altivo escultor do teu próprio ser, modelar-te na forma que preferires.

Pico della Mirandola – De Hominis Dignitate

 

I
Num ímpeto brusco, que o despegou do corpo dela, rolou e parou deitado ao lado, com a mão esquerda estendida por cima dos cabelos soltos dela, que roçava, e a mão direita pousada entre os dois seios, sentindo, menos que o coração batendo, a tremura ténue que a ficara percorrendo. De olhos fechados, ela trouxe as mãos sobre a dele, segurando-a, sem força, contra o peito. Então, a mão, sob as outras, deslizou um pouco e, entre o polegar e os dedos estendidos, tomou a curva da inserção do seio, que, com um jeito oscilante do pulso, ia contornando cariciosamente. As mãos dela apertaram a sua, e ela, descaindo a cabeça, fitou-o.

Olhou-o docemente, num olhar húmido e quebrado em que as feições dele evoluíam incertas, ao sabor das sombras e do encantamento que ainda perdurava nela, e tomando aspectos diversos, ora confundidos, ora sucessivos, em que havia traços dos retratos dele em criança e em adolescente, quando o não conhecera, e recordações de ângulos em que surpreendera a cabeça dele e lhe haviam ficado pela sobressaliência, que destacara então, de um pormenor qualquer, uma comissura dos lábios, um recanto de pálpebra, uma nódoa da barba, um delicado contorno da orelha.

Sempre a espantava como gostara dele, como se lhe dera, como ele a despertara para um amor em que não havia lugar para mais nada, nem ideias, nem sentimentos, e que se renovava a cada vez que, numa posse exasperantemente consumada em ternura e lucidez que não deixavam desvão dela sem o roçar palpitante de uma ardência que as suas pernas não se cansavam de apertar, toda a contenção apaixonada, de que era tão ciosa, se diluía numa imensa ondulação em que rangia os dentes, e os seus braços,. num desespero que era vontade de arrancá-lo para que ele voltasse com uma brutalidade que lhe justificasse o abandono, o empurravam para um longe que se fazia mais perto e para uma expectativa que contagiava todas as suas vísceras que, tensas, se contraíam derradeiramente. Muitas vezes se interrogava, e a interrogação nestas ocasiões fazia-se risonha e repousada, se, quando o vira pela primeira vez, quando cedera a conversar com ele em mais intimidade, quando aceitara juntar ao dele o seu destino, ela soubera sempre que seria assim, que assim seriam os momentos de cujos intervalos a sua vida quotidiana era dormência paciente, ansiedade de todas as horas, silêncio em que o seu corpo se fechava; ou se, pelo contrário, tudo lhe fora transmitido, imposto, insinuado, sugerido, gravado por uma presença que punha, em tocá-la e em repeli-la, em ignorá-la e em possuí-la, um capricho implacável e inescrupuloso, um alheamento descuidado e, no entanto, exigentemente cioso, um desapego que a entontecia, a inquietava, a fechava à sua própria consciência.

Sorriu ligeiramente, para aquele rosto em que pairava, junta com uma suavidade de pele, que a fascinava, uma ironia subtil e gratuita.

O rosto, que se deixara contemplar, ensombrou-se repentinamente, para abrir-se, logo depois, num sorriso, em que a mão se retirou do seio para, dando uma volta no ar, como que ter feito que o corpo rolasse sobre si mesmo, para ficar então deitado de costas. E os olhos fecharam-se-Ihe.

Ela esperou, e ergueu-se sobre um cotovelo, como lhe era irresistível quando a nudez dele se alongava assim sobre a cama, branquejando, num halo que as suas narinas aspiravam, enquanto os olhos iam percorrendo o corpo todo, que mantinha ainda, apesar dos anos, uma imprecisão adolescente e uma fragilidade enganadora, cuja força ela gostava de ir reconhecendo sob a penugem suave que só no peito e no baixo-ventre era um brilho negro, e na inocência do sexo, ainda entumescido mas tombado.

A mão esquerda dela, como que a ocultas da sua própria vontade que a reteria se não estivesse a distrair-se quase voluntariamente com a decisão de retê-la, veio vindo até junto do braço esquerdo dele, que os dedos subiram, em pontas, por altura da axila. Aí, sem pousar-se, a mão parou, expectante, porque a consciência de estar ali temeu, entre divertida e receosa, um alongado e sacudido gesto, que a fizesse cair. Mas o braço continuou imóvel. A mão, então, depois de, na ponta dos dedos, ter esfiado os pêlos que despontavam entalados entre o braço e o tronco, saltou para este e, com o indicador, afagou o mamilo escuro e áspero. O peito respirava pausadamente, envolto numa ténue humidade fria que a palma da mão já conhecia e era quase uma secura assetinada.

Não saberia dizer se aquela frialdade contraditória lhe repugnava ou não, uma vez que sempre ela fizera parte da sua surpresa, ainda que a conhecesse e a esperasse. Era talvez, até, um dos aspectos peculiares que a destacavam de tudo o que jamais imaginasse e se consubstanciava nele. Mas, ao mesmo tempo, era um dos outros aspectos que, como a ironia e a distância calculadas, formavam uma rede inextricável e finíssima, ante a qual o seu espírito sentia uma espécie de paralisia e de mudez, um medo de perder-se e de aniquilar-se.

A mão, espalmando-se no peito, esfregou os pêlos ao arrepio deles, que não eram crespos, mas, salvo num ou noutro redemoinho, dirigidos no sentido do ventre, a cujo umbigo pareciam apontar. Senti-los assim correr na sua palma revirados, e poder repô-los depois com repetida carícia, era uma forma de exorcismo, uma maneira de afugentar a apreensão que a pele dele, atraindo-a, lhe causava. Foi descendo depois com a mão, prolongando pelo tronco abaixo as carícias com que repunha os pêlos. Numa aspiração entrecortada e dupla, como um indistinto soluço, ele suspirou.

Então, a mão ficou retida no umbigo. E os olhos perscrutaram o rosto dele, que continuava imóvel, pálpebras cerradas, sobrancelhas soerguidas, boca ligeiramente entreaberta. Só o nariz parecia palpitar. A mão levantou-se e pairou hesitante: pousaria quieta, afagaria um pouco, regressaria, avançaria, ou retirar-se-ia?

Embora conhecesse por experiência as reacções que a tudo, diversas, ele poderia ter, não sabia, na solidão que começava a invadi-la, qual das reacções preferia, para estilhaçar-Ihe o vidro que se interporia nela, entre o ardor sequioso, latejando no pescoço e no ventre, e a coragem de provocar um gesto decisivo que poderia ofendê-la, ou humilhá-la, ou magoá-la mesmo, ou dominá-la apenas.

A mão pousou, porque ela sentiu que não desejava nada; e, porque, repentinamente, uma imensa tranquilidade grata era o que latejava afinal em compassado ardor, a mão foi avançando e penetrou os dedos na massa crespa em que os enleou. O cotovelo afrouxou, dormente, no que o corpo se apoiava. E a cabeça, descaindo para a frente, pousou suavemente, acomodando-se, no peito dele.

Entre ambos ficou o braço dele, que ela sentiu esgueirar-se e envolvê-la depois, sem a tocar, de que ficou esperando, contraída e desagradada, que ele fizesse o que fez, percorrer-lhe com as pontas dos dedos a espinha até às ancas, onde a mão se espalmou, aberta, para apertar-lhe logo com força a carne. Então a mão dela avançou mais, roçou com as costas ao longo do sexo, que deu um lento salto, mergulhou nas virilhas, e demorou-se sentindo, nas costas, os movimentos interiores, ora lentos, ora súbitos, dos testículos.

Repentinamente, a mão que, apertada a carne das ancas, ficara pousada e como lá esquecida, levantou-se e, agarrando-a no pescoço, por detrás, fê-la levantar-se e cair deitada, enquanto o tronco e o outro braço vinham sobre ela, e os dentes a mordiam no lábio inferior com uma violência que tentou repelir. Mas logo a sua própria língua lhe embateu nos dentes, que descerrou para que ela viesse encostar-se à outra que, abrindo-lhe os lábios, a buscava.
II

Num Ímpeto brusco, que o despegou do corpo dela, rolou e parou deitado ao lado, com a mão esquerda estendida por cima dos cabelos soltos dela, que roçava, e a mão direita pousada entre os dois seios, sentindo, menos que o coração batendo, a tremura ténue que a ficara percorrendo. De olhos fechados, ela trouxe as mãos sobre a dele, segurando-a sem força contra o peito. Então a mão, sob as outras, deslizou um pouco e, entre o polegar e os dedos estendidos, tomou a curva da inserção do seio que, com um jeito oscilante do pulso, ia contornando cariciosamente. As mãos dela apertaram a sua, e ela, descaindo a cabeça, fitou-o.

Quando ela o fitava assim com aquele olhar húmido e quebrado, que ao mesmo tempo lhe perscrutava as feições e abstraía delas em transfigurações imaginosas da ternura, o que ele como que via no flutuar difuso em que o próprio olhar vagava atento para além dele, apetecia-lhe torcer nos dedos duros os seios entre os quais a mão pousava. Sentir a tremura ténue que a ficava percorrendo não era uma carícia, nem uma metamorfose do desejo em estima, nem mesmo, em atenção de pele contra a pele, o prolongar em táctil sensação as vibrações da posse. Era, antes, reter na carne o que tendia a repercutir, em concêntricas ondas, na imaginação e na memória. Para ele, nunca recordar ou imaginar acrescentava nada ao, seu amor, pois que este não existia fora de uma sensualidade que se dispunha abruptamente a aceder às solicitações tímidas em que ela punha uma paixão humilde, ou a violar essa mesma humildade para possuir não um corpo que lhe pertencia a todos os instantes como se sempre estivesse a penetrá-lo, mas os recantos em que o espírito dela se comprazia em, solitariamente, adorar uma sua imagem compósita e perene, na qual, ainda que ignorando-a, se não reconhecia. Fora de tal sensualidade, as pequenas coisas da vida assumiam para ele uma importância enorme, eram uma insistência teimosa e metódica, a propósito de tudo, com que o amor se defendia de tornar-se um hábito, ou de transformar-se em algo mais que aquela segurança inquieta e cínica, a que um jeito hábil e oscilante do pulso dava o preciso sentido de domínio precário, de incerteza, de renovada investigação e, sem que o confessasse, adolescente apelo.

Sempre se espantara de como gostara dela, como ela se lhe dera, como ele a despertara para um amor em que não havia lugar para mais nada, nem ideias nem sentimentos, e que se renovava a cada vez que, numa posse que era sua vaidade fosse exasperantemente consumada em solicitude e em lucidez, de que o seu prazer se acrescia, e na arte das quais não havia desvão dela que não sentisse arder e que não acusasse, no corpo que abraçava, todo o toque, a contenção apaixonada e dolorosa, ao fundo da qual ela lhe parecia sempre um pequeno animal acossado e aflito, se abria num ranger de dentes e num empurrá-lo, que, erguendo o tronco sobre os pulsos, primeiro, e agarrando os dela, logo após, ele transformava numa calculada imobilidade, de que então caía sobre ela na contracção em que coincidiam ambos, graças à tensa expectativa com que, contendo-se, precipitava a mesma coincidência. Muitas vezes se interrogava, e a interrogação, nestas ocasiões, fazia-se carinhosa e displicente, se, quando a vira pela primeira vez, quando tentara conversar com ela em mais intimidade (intimidade, que palavra absurda!), quando aceitara juntar ao dela o seu destino, ela tinha em si mesma, virtuais, aqueles momentos de cujos intervalos a vida quotidiana de ambos era uma vigilância azeda, uma serenidade extravagante, um silêncio em que o corpo dele simulava desinteresse; ou se, pelo contrário, tudo ele transmitira, impusera, insinuara, sugerira, gravara, com uma presença que punha, em tocá-la e repeli-la, em ignorá-la e possuí-la, um capricho implacável e inescrupuloso, um alheamento descuidado e no entanto exigentemente cioso, um desapego com que a entontecia, a inquietava, a fecharia à própria consciência.

A perplexidade, um pouco angustiada mas também confiada, com que vacilava nestas conjecturas, fê-lo afivelar no rosto um ar de ironia, vago e indeciso. Ela sorria-lhe, sem dúvida menos pela carícia no cimo dos cabelos soltos, que pela curiosidade ante o falso mistério das suas feições suspensas. Esta contemplação sorridente acabava sempre por irritá-lo, porque lhe parecia que ela se sugestionava de imaginações a seu respeito, para justificar-se de amá-lo como amava, numa atracção que ele próprio explorara e não podia ter outra causa. Para ele, era quase inconcebível que o amor fosse aquela preferência exclusiva que nela cultivara, e de que a virgindade que ela lhe oferecera diminuía o alcance. Como podia amá-lo tanto, e dar-se tanto, achando-o único, se único mesmo é que ele fora? Com alguma ostensividade, ensombrou repentinamente o rosto, retirou as mãos, deitou-se de costas. Este deitar-se de costas era um prazer contraditório, já que também, pelas mesmas razões, detestava a contemplação embeveci da que, nela, ao seu corpo se transferia, enquanto não deixava de haver certo exibicionismo, que reconhecia adolescente, naquele expor-se e a uma virilidade que não se cansava de confirmar e de descobrir. Fechou os olhos. Quando assim os fechava, estendido ao comprido, com os braços ao longo do corpo, sabia que mão dela não tardaria em vir extraí-lo da sonolência expectante em que, por instantes, deixava de, no fundo, interrogar-se sobre o que se passaria nela, a que ponto continuava a dominá-la e a possuí-la, mesmo quando lhe era evidente a desistência dela em retrair-se.

Quase sentia a indecisão da mão que avançava como uma aranha, pé ante outros pés, para o seu braço. Os dedos tocaram-no, subiram e hesitaram. Subiam eles, e foi-lhe preciso conter conscientemente o sacão do braço que os sacudiria, fazendo-os cair voltados, como um insecto infeliz, sobre a cama. Teria de abrir os olhos, executar gestos de ternura, restabelecer artificiosamente uma confiança que, natural, não seria crível. A mão, então, apertou entre os dedos os pêlos do sovaco, que ele sentiu repuxados e entrecruzados, e saltou para o tronco. A isto, que era uma manifestação da travessura infantil que nela, em raros instantes, se revelava intacta, e era também uma carícia de íntima confiança que o lisonjeava, nada oporia que a contivesse. Além de que lhe dava um prazer inconfessado que a mão dela, como agora estava acontecendo, tocasse no mamilo. As mãos por pouco se não levantaram, direitas novamente aos seios dela, para macerarem, sem aquela delicadeza coceguenta, as pontas grossas e carnudas. A mão espalmou-se-lhe no peito.

Não saberia dizer como aquela tepidez da palma, em que os seus pêlos se ajustavam às linhas da pele, era uma forma de comunicação. A húmida friagem que entre as duas peles sentia interpor-se, exercia um papel de amaciante do carácter, era uma espécie de pomada que, isolando uma da outra as duas carnes recobertas, permitia que a sua respiração, o bater do coração, e um fluxo que o percorria todo num fluir ondulante, se conjugassem num silêncio benevolente e receptivo, que se abria afável e desprevenido para receber a vida dela.

A mão esfregou então, ao arrepio deles, os seus pêlos do peito. E voltava a alisá-los, numa sedosidade em que, sentindo-a na palma da mão dela, se diluía a compreensão tácita que ele concentrava na mesma palma aberta e repousada. A mão foi descendo, prolongando pelo tronco abaixo as carícias com que repunha os pêlos. À medida que a compreensão se diluía, o desejo começava a encaminhar-se de todo ele para o sexo, num palpitar que era como um cortejo de luzinhas deslizantes ao longo dos seus tecidos, das veias, da consciência, e que substituía por um movimento dirigido aquele fluir ondulante e disperso, de que a compreensão se suspendera. A perda de contacto, que o entendimento da carne iria consagrar, constrangeu-lhe a respiração, fê-lo suspirar. Um breve instante, a procissão de luzes hesitou num redemoinho lento.

A mão ficou retida no umbigo. E a respiração dele tornou-se de uma suavidade indistinta, contida, que em nada influísse nas decisões transmitidas àquela mão, que, repentinamente, lhe apeteceu agarrar e calcar contra o sexo. O gesto apenas se efectivou num tremer das narinas. A mão levantou-se e pairou. Que iria fazer? Pousaria quieta? Afagaria um pouco? Regressaria? Avançaria? Retirar-se-ia?

O que ele faria ou não dependia afinal tão-pouco do que a mão fizesse! Ou, antes, não dependia apenas disso, e não havia, portanto, uma correspondência exacta que para ele era imprevisível, entre o gesto e a reacção dela. Se a mão pousasse quieta, poderia pegar nela e levá-la ao sexo; mas também poderia levá-la, precipitando o gesto dela, se a mão avançasse. Se a mão pousada o afagasse no ventre, poderia acontecer que, como quando regressasse ao peito, ele se voltasse e quisesse retribuir, com uma raiva maldosa que apertaria o ventre dela ou a cintura em dedos que a magoassem, a solidão acompanhada que o afago retido ou recuado mais sublinharia. Se a mão se retirasse, desistindo, era bem possível que – e também o era, se a mão pousasse quieta – ele, calculadamente, voltasse as costas, simulando uma indiferença que acabaria por tornar-se real, forçando-o então a voltar-se a seguir para ela e a acusá-la, num gesto brusco, da indiferença que só ele estabelecera. Na espontaneidade marginal que o amor mal permitia, ele não sabia qual das reacções preferia, qual a mais directa ou mais certeira para elidir os meandros de uma decisão que, solitária, se transformava, pouco a pouco, num esquecimento dos corpos, ou numa lembrança dos corpos em que as sensações latiam tranquilas, confundidas, inlocalizadas.

A mão, afinal, pousou. E ele, sentindo, na tepidez tranquila da palma que assentava, que a mão ia avançar, foi invadido, num tumulto suave, por uma piedade enorme, uma doçura terna, uma camaradagem leal e condescendente por aquela fragilidade infantil e tímida, cujos dedos acabavam de penetrar, enleados, na suada e crespa cabeleira do seu sexo. Quando a cabeça dela, como esperava, se deixou pousar, acomodando-se, no peito dele, imperceptivelmente as coxas se afastaram para que a mão se aninhasse, sem que tivesse de forçar o pudor que, ao longo do braço dela, era a própria delicadeza do gesto.

Retirou, esgueirando-o, o braço que entre os corpos ficaria mais preso, e imobilizado, se o não retirasse antes de ela ficar à espera do afago que a outra mão viria fazer-lhe no rosto. A liberdade do braço, que era também a liberdade de, tocando-a, forçá-la a despertar de um encanto inocente que, continuado, o entristecia, manifestou-se em percorrer-lhe a espinha, em apertar-lhe a nádega. E a mão dela pôde, no domínio que a distraiu, avançar mais, roçar as costas ao longo do sexo, cuja contracção ele supôs ter decidido, e demorar-se de maneira a que ele sentisse, contra ela, os movimentos interiores, ora lentos, ora súbitos, dos testículos.

Repentinamente, com a mão que ficara pousada e como que esquecida, após ter apertado a carne das ancas dela, agarrou-a no pescoço por detrás, o que era um modo de carinho para com o animal acossado e assustadiço que havia dentro dela. Fê-la, assim, levantar-se do peito dele e cair deitada, numa espécie de surpresa em que o susto se tornava confiança na carne reconhecida e reconhecendo-se. E o tronco e o outro braço foram sobre ela, dando-lhe em peso e em sufocação a imobilidade com que tentaria repeli-lo, quando lhe mordesse, como estava mordendo, na fúria com que a língua rebuscando a língua dela se antecipava a penetração em que, fazendo-a possuí-lo até ao âmago, a inundava de uma demora torturada e feroz que era a raiva de um amor que só existia nela, por ela e para ela, cuja posse o projectava ante si próprio, em cada recanto em que, penetrando-a ou mordendo-a ou apertando-a nos braços, encontrava uma marca de si mesmo.
III

Ali deitados ambos, separados já, quem são? Será que o sabem? Será que voltarão a ser o que antes eram? De nada vale que perguntemos; de nada adianta que, nos gestos de um e de outro, tentemos ler o que eles por si mesmos tentam ler.

Seria um erro, porém, supô-los imortais, fora do tempo e do espaço, vivendo apenas de tortura e de gozo, ou tortura-gozo, em que seriam natureza humana. Outro erro, porém, e não menor, seria supô-los mortais, isto é, confinados a si mesmos, entregues a si mesmos.

Não são então a natureza humana, livre e responsável, que, mesmo morrendo, ou porque morre, da morte se liberta? Nem são esse limite, esse confinamento, em que ficará preso e aniquilado o ser admirável que não mais se repete?

Não, não são. A vida de ambos, ambos a conhecem. Como a pobreza os constrangeu, como quereriam ter filhos, querem tê-los, e vão dolorosamente sofrer por esta hora que passou agora. Como estes instantes são raros, mesmo na comunhão em que os repitam muito. As apreensões, as preocupações, o trabalho, o mundo em que vivem, tudo isso pesa. Mas pesam também essas famílias que os geraram e os criaram; pesam os amigos e os inimigos que lhes revelarão tanta malícia da vida; e pesa sobretudo esta obrigação diurna de viver, em que os braços ficam na curva inútil de um corpo que, mais tarde, não encontrará neles a sua forma em que os modelou.

Podemos deles e para eles inventar tudo. A alegria. A dor. A amargura. Uma casa. Móveis. O emprego. Os passos repetidos. A inquietação ante um colarinho que se esfia. O gosto dos alimentos que comem. As doenças súbitas. As palavras cortantes. Os sorrisos. Os olhos que se fecham para não compreender. Os olhos que se fecham para compreenderem melhor. E a cidade, e o bairro. E o país. E a época. E a janela que se abre para a madrugada. Ou a que fica aberta ao ar nocturno. As pancadas na porta. As escadas. Os domingos sonolentos. O mar em que se banham. Os transportes em que outros os apertam.

E tudo o que inventássemos era a mesma, a minuciosa, a concreta, a exacta, a rigorosa vida deles, tal como é de facto, no dia a dia, noite a noite, hora a hora, em que eles 8. vivem ou são por ela vividos.

Mas inventar para quê? Se vão separar-se para sempre, se alguém se interporá entre eles, se o amor morrerá de súbito, tão arbitrariamente como é, agora, a própria essência _ tão frágil, tão incerta – da vida de ambos; tudo isso será que nos importa? Será que nos diz respeito?

Sem dúvida que importa e que nos diz respeito. E até bem mais do que reconhecemos na nossa curiosidade, no nosso prazer de aferirmos por alheias as nossas vidas, na nossa amargura de referirmos a nós mesmos as vidas dos outros. A sorte deles não pode, por forma alguma, ser-nos indiferente. É fundamental que saibamos avaliá-la, saibamos distingui-la, possamos resumi-la num caso, num problema, numa situação, para intervirmos, ao menos uma vez, a tempo e no lugar mais próprio. Apertaríamos a mão dele, com simpatia. Beijaríamos – será que beijaríamos? – a mão dela com ternura e carinho. Faríamos tudo que estivesse ao nosso alcance para salvá-los (ou para perdê-los).

Estarão então em perigo? Perigo de quê? De crueldade? De luxúria? De egoísmo? De frieza? De amor em excesso?

Possivelmente, sim, estão em perigo. Mas é difícil, muito difícil, dizermos em que perigo. Perigo de serem criaturas vivas que se tornam personagens. Perigo de serem personagens que se transformem em criaturas vivas. Estes dois perigos juntos para ambos, ou um dos perigos para cada um deles. São perigos imensos.

Mas, se não soubermos como são personagens ou criaturas vivas, o perigo que eles correm é maior. Se errarmos de socorro, que será das suas vidas?

Não, o melhor é olharmos, em silêncio, contendo a respiração, como eles dormem. Porque, entretanto, estão dormindo ambos, enlaçados. E nem sequer sabemos se é dia, ou se é noite. Dormem serenamente, saciados, felizes. Felizes? Não foi que um deles contraiu o rosto? Apenas num reflexo? Ou sonho inquietante? Dormem. Estão dormindo. Mas dormirão por muito tempo ainda? E se estivermos aqui, tão perto deles, quando eles acordarem? Que pensarão de nós?
Assis, 12 de Setembro de 1960.

 

* Gobbi, M.V.Z. et alii, org. Intelectuais portugueses e a cultura brasileira: depoimentos e estudos. São Paulo/Bauru: UNESP/EDUSC, 2002. p. 30

Paraíso Perdido

Primeiro conto de Génesis

Primeiro conto do jovem Sena, de 17/18 anos, demonstrando tal força e concisão que já traz em si o germe da grande obra que virá…

 

 

Adão sentia-se satisfeito. Não entrava com ele o mais pequeno cansaço. O Paraíso em eterna primavera oferecia-lhe a vida nos seus frutos loiros, na sua floresta virgem, na água límpida que agora lhe corria aos pés. O céu muito azul, sempre sereno, olhava-o com benevolência; e até o Sol o acordava carinhosamente de manhã quando se levantava detrás da montanha do Éden, transformando o Paraíso numa roseira de luz – O Sol tão lindo! Que ele adoraria se não soubesse que Jeová o vigiava a cada instante. Tudo o que pedira lhe fora dado: o pensamento, a fala e Eva.

Ali estava a sua companheira – bem sua, não era uma daquelas coisas duras que tinha dentro dele?

Devia ser meio-dia. Deitados à sombra duma árvore descansavam das brincadeiras da manhã: correr, jogar às escondidas e pôr pedrinhas no regato para o desviar.

Caído o silêncio no jardim divino Adão adormeceu. Vendo-o a dormir, Eva levantou-se pé ante pé – não fosse Jeová ouvi-la –, atravessou o ribeirinho e encaminhou-se para o interior da floresta; as folhas secas estalavam alegremente sob os seus pés.

Chegou junto duma árvore pequena mas tão atraente, tão linda, tão proibida…

Lembrava-se daquele dia em que Jeová, pegando na mão dela e na de Adão, os levara diante da árvore e tendo reunido também os animais, dissera a todos:
– Esta árvore chama-se do Bem e do Mal. Só pode saber o que são o Bem e o Mal quem comer daqueles frutos. Ai de quem o fizer! Persegui-lo-ei p’ra fora do Paraíso! Vós não imaginais o que vai por fora disto! Quem para lá for há-de amargar o doce desta fruta!

Os animais e Adão bem depressa se tinham esquecido da árvore proibida, mas ela que nunca reparara dantes passava horas esquecidas a mirá-la.

A que saberia a fruta? O que seria o Bem e o Mal? E se tirasse um pomo? E se Deus via? Expulsava do Paraíso. Ora! O Paraíso era tão aborrecido, todos os dias o mesmo: brincar com a água, com pedrinhas, com os animais, brincadeiras onde de dia para dia não aparecia novidade.

Naquele momento hesitou ainda. Por fim chegou-se à árvore e estendeu o braço. Tornou a deixá-lo cair – E se Deus vê? Agora não vê – e tirou um fruto.

Contemplou-o longamente – tão redondinho, tão dourado! Cheirou-o! Que perfume! E era do Bem e do Mal!

Um estalido se ouviu na floresta. Eva deixou cair o proibido, abaixou-se, tapou-o com folhas secas e esperou com o ruído do peito a bater mais depressa.
Não veio nada. Talvez um galho. Apanhou o fruto e rapidamente deu-lhe uma dentada, e outra e outra e outra.

Começou então a sentir-se mais leve, mais alta, mais diferente. Um arrepio quente passou-lhe a pele. Gemendo de alegria estranha, apeteceu-lhe rebolar-se no chão.
Pensou no companheiro. Vou-lhe dar um para ver como é bom! Arrancou-o e voltou correndo para junto de Adão.

Sacudiu-o e contou-lhe tudo; mostrava-lhe o fruto e ria-se sem saber o que tinha. Abraçava-o, chegava a boca à dele.
– Ó Eva! O que foste fazer! E agora?

Ela esfregava-se contra ele, enlouquecida de desejo novo.

– Que é que tu tens? Deixa-me!

Uma boca quente e húmida abafou-lhe as palavras. Repeliu-a.

Ela agarrou-se e meteu-lhe o fruto proibido na boca. – Come, Adão! P’ra sentires o que eu sinto…

Ele trincou uma, duas vezes e logo lhe pareceu ter acordado em si mesmo. Um calor fulgurante percorreu-o todo e inconscientemente enlaçou-a. Ofegantes no novo mistério torceram-se e rebolaram nas folhas amarelecidas.

Uma serpente que se aquecia ao Sol viu tudo. A nova correu todo o Paraíso e os animais do céu e da terra assaltaram a árvore.
– Adão e Eva comeram e são felizes! gritavam uns aos outros.

Um elefante derrubou-a e por cima, por baixo, por todos os lados, sugaram-na, rasgaram-na, despedaçaram-na.

Os peixes do rio e do mar suplicavam um pedacinho. O leão atirou-lhes um ramo e a disputa estendeu-se às águas.

Devorada a árvore do Bem e do Mal todos fizeram como Adão e Eva e um ruído imenso levantando-se do Paraíso chegou ao céu.

Jeová, rodeado duma multidão de anjos, espreitou do alto e viu aquela bacanal fantástica enchendo a sua obra. Ficou boquiaberto e voltado a si gritou.
– Vamos castigar aquilo tudo! e voltou-se para os anjos.

Só meia dúzia de velhos anjos lhe restavam e lá muito ao longe viu asas brancas que irresistivelmente atraídas voavam para o Éden.
Era de mais! Passava além do Paraíso!

– Fóra! e o seu brado fez tremer a terra inteira.

E como um furacão, cabelos arrepiados na corrida, auréola tombada sobre uma das orelhas, barba desgrenhada, olhos gritando fogo, túnica a esvoaçar, Jeová desceu ao Paraíso.
– Fóra! Fóra! Fóra já!

A criação entreolhava-se envergonhada. Os anjos pecadores fitavam o chão e sentiam um peso enorme nas asas agora manchadas.

O ente supremo atacou primeiro os seus antigos companheiros:
– Ó anjos miseráveis que eu criei! Ó vis! A vossa culpa é maior! e calou-se por momentos embebido em cólera. Depois estrondeou de novo: Todos p’ro inferno! Ide p’ra diabos! Desapareçam! Infames! e num arranco de superioridade: Algum se atreve a olhar p’ra mim!? Dentre eles uns olhos verdes se levantaram insolentes: – Eu!
– Tu, Lúcifer! berrou Jeová no auge do furor. Pois ficas Satanás! Ficas chefe do grupo! Vai p’ro inferno!

Lúcifer começou lentamente a mergulhar no solo. Os outros anjos ficaram imóveis.
– Que é que esperam?! Já atrás dele! Sumam-se da minha vista!

Os daí por diante ex-anjos desapareceram cabisbaixos pela terra dentro.

Arrumados os imortais Jeová voltou o rosto trémulo de ameaças para os mortais.

Adão que conservava na mão um bocadinho de fruto proibido levou-a maquinalmente à boca.

– Patife! Diante de mim! Fóra! Fóra tudo! Esperem no mundo que escolheram a minha condenação! Saiam!

O primeiro homem atemorizado engasgou-se para todo o sempre.

Os animais começaram lentamente a desfilar diante de Deus em direcção à porta que os anjos fiéis tinham aberto na muralha do Éden.

Então resoluta e medrosa, linda como nunca, o peito arfando, o cabelo desgrenhado docemente pela volúpia, tapando o corpo com um braçado de folhas de parra, Eva procurou o mais terno sorriso que lhe ensinara a árvore do Bem e do Mal e disse gorjeando as palavras, ébria ainda:
– Não sejas muito severo, meu Senhor!

Jeová sentiu dentro dele uma sensação melodiosa, espantou-se de não ter gritado e disse de si para si enquanto a via afastar-se ao lado de Adão no meio da turbamulta:
– Esta Eva!

Foi por isso que anos mais tarde Deus se fez homem e habitou entre nós. Mas o Mundo era mais sabido – tinha comido a árvore do Bem e do Mal – e Deus que a guardara sem lhe tocar e a quem não restara nem uma folhinha seca tinha ficado bondoso para sempre – era de esperar que fosse enganado.

7/9/37
revisto – 15 e 16/4/38

 

* In: Génesis (2a.ed. Lisboa: Edições 70, 1986). Sobre o conto, leia “Génesis: o Jogo dos Textos”, de Cleonice Berardinelli, texto que inaugura nossa seção de estudos “JS lido na UFRJ”

Bajazeto e a Revolução

Um fragmento teatral

A 11 de março de 1959, Jorge de Sena assistiu em Lisboa à peça Bajazet, de Racine, representada no Liceu Francês Charles Lepierre, e sobre ela escreveu uma crítica publicada em abril na Gazeta Musical e de Todas as Artes (reproduzida em Do Teatro em Portugal, Lisboa, Ed. 70, 1989). Mas, segundo depoimento de Mécia de Sena, ir ao teatro nessa noite significava ver e ser visto, e ter um álibi em relação ao "Golpe da Sé", cuja eclosão estava marcada para essa madrugada. Do fragmento — simples aide-mémoire telegráfico — encontrado no espólio, o título e palavras como "Sé", "Quartel do Carmo" etc. fazem-nos suspeitar de uma projetada peça (ou talvez um conto, como sugere Eugénia Vasques) em que as vivências do autor mais uma vez seriam testemunhadas.

 


 

Quoique le sujet de cette tragédie ne soit encore dans aucune histoire imprimée, il est pourtant très véritable. (…) Quelques lecteurs pourront s’étonner qu’on ait osé mettre sur la scène une histoire si récente (…). On peut dire que le respect que l’on a pour les héros augmente à mesure qu’ils s’éloigent de nous.

Racine – prefácios de Bajazet

 


                                                    

                                                    BAJAZET

 

Racine – viagem para o apartamento


conversa no apartamento  enquanto a conversa se desenrola
                                           ele recorda:
                                           reuniões, etc. compromisso, etc.

                                           narração paralela (dado como a
                                                                        correspondência
                                                                        horária dos cál-
                                                                        culos que eles
                                                                        estão fazendo)
                                          Jantar do A.
                                          Sé
                                          Ataq. de Alcântara
                                                                       – caso de Belém
                                          Quartel do Carmo

                                          manhã no serviço, viagem de
                                          automóvel para casa


O cartaz dizia:
                       Grande Circo Imperial Luso
                                    Leões, Navegações, Naufrágios e Con-
                                    quistas. Mártires e Heróis, todos os dias.
                                    A descoberta do caminho marítimo para
                                    a Índia, com o Infante D. Henrique e
                                    Camões nas caravelas, ao domingo. São
                                    Francisco Xavier, às quintas. Aljubar-
                                    rota, à sexta, em matinée infantil. Palha-
                                    ços, equilibristas, domadores, trapezistas.
                                    Voos à Gago Coutinho. O grande
                                    sketch, ao sábado, por toda a compa-
                                    nhia: Oito Séculos e meio de História
                                    Universal, com grande figuração de
                                    negros, mouros, e indianos autênticos.
                                    Nu artístico por indígenas do Brasil (em
                                    sessão reservada aos homens e a mulhe-
                                    res casadas acompanhadas pelos mari-
                                    dos). Orquestra sinfónica, coros e baila-
                                    rinas(os) do Estado Português, sob a
                                    regência de vários maestros de categoria
                                    internacional. Hinos patrióticos e fun-
                                    ções folclóricas. Uma Pátria em Armas
                                    exposta aos olhos do Futuro.

Conto Brevíssimo

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

 A tale must be brief.
   (Vários autores) 

Este é um conto breve. É mesmo brevíssimo. De resto, se não fosse breve, muitíssimo breve, correria o risco de não ser um conto. A obrigação principal dos contos, mais que dos homens, é conhecerem os seus limites.

Propondo-me escrever um conto breve, tão breve como este, é-me impossível dizer qualquer coisa de mim. A brevidade não permite essas expansões, quase sempre vaidade, em que sacrificamos uma narrativa a nós próprios. Ora, se há coisa que não goste de sacrificar, ainda que a mim próprio, é uma narrativa. Claro que narrar não é, como todos sabem, o suficiente para escrever um conto. Mas também não é, como todos reconhecerão, uma coisa absolutamente necessária: mais, se o conto é breve, brevíssimo, o lugar para a narrativa estreita-se de tal modo, que ela quase não cabe; e, se a forçássemos, ela, como a intromissão das nossas pessoas o faria, ampliava os limites – aqueles limites que é preciso conhecer – para além do razoável num conto breve.

Porque, reconheçamo-lo, a brevidade é tudo. A brevidade permite contenção, prudência, reticência, pudor. O pudor é essencialmente uma virtude breve.

Sem dúvida, porém, que as virtudes, mesmo breves, não são comportadas pela brevidade de um conto brevíssimo. Além de que é ponto assente e demonstrado que as virtudes são inteiramente alheias, como virtudes, à estética literária. E um conto breve é, acima de tudo, uma obra de arte, de arte literária, onde tudo se reduz ao efeito artístico.

Contudo, na brevidade de um conto é extremamente difícil, senão impossível, preparar um efeito. Se não queremos, e eu não quero, apenas contar uma anedota, os limites razoáveis não dão azo a tais preparativos. Estes, à semelhança da perda das virtudes, requerem preparação, embora a perda propriamente dita possa ser praticamente instantânea, quer seja sentida no momento em que se perde (a virtude), quer seja uma descoberta mais tardia, quando alguém descobre que lhe fazia falta alguma coisa («coisa» é um modo de dizer) que afinal perdera. Num conto breve é tão duvidoso caberem as virtudes, quanto é duvidoso que se percam.

Lembro-me que, uma vez, em Londres, eu procurava com os olhos, parado numa esquina, a estação de correio, que era por ali perto. Eu tinha-me informado, e era por ali perto. Então uma senhora de idade, com óculos de aro de aço e uma couve repolhuda esticando uma saca de malha, parou ao meu lado, voltou-se para mim, afastou os cabelos grisalhos e sujos que apareciam caídos do chapéu de feltro preto, sem forma mas pontudo, e perguntou-me onde era a estação de correio. Imediatamente o meu olhar, depois de ter fitado o casacão cinzento e os sapatos rasos com fivela grande, que eram o resto da imagem dela, percorreu os prédios – todos georgianos com janelas brancas nas paredes de outro branco – e viu a estação de correio. Apontei-lha, e a senhora agradeceu com efusão, e atravessou a rua. Quando ela atravessava, dei passos pelo passeio, e vi, numa montra que era uma janela, um chinês de porcelana, coberto de pó. E, repentinamente, voltei atrás, porque não tinha – verifiquei – nenhuma carta para deitar no correio (havia um marco de correio ao pé de mim) e não queria comprar selos (tinha selos no bolso).

Não posso esquecer a brevidade deste episódio, não por ser episódio, que o não é, nem sequer por eu saber ou não saber a razão de não poder esquecê-lo. Já pensei que isto se relaciona com o retrato de uma velha, que vi no jornal, não sei se no dia seguinte, assassinada numa estação de correio. Mas, se bem me lembro, a estação de correio era noutro bairro. É provável, todavia, que a razão (de eu saber ou não) resida apenas na brevidade, uma brevidade insignificante, insignificada, sem conteúdo algum, como o pudor, tão breve essencialmente.

Mas, reflectindo melhor, talvez que a brevidade não desculpe a ausência de atenção com que jamais aproveitei um acidente. A não ser que seja a hesitação natural (e já reflectida) em ver, neste acidente, um incidente. É uma diferença da maior importância para o conhecimento dos limites. E os limites, que é tão imperioso conhecer, eles só, e mais nada, nos autorizam as definições. Sem definições, a brevidade não existe, não se realiza, da mesma maneira que, com elas, não tem essência própria nem estrutura virtual. E um conto breve, brevíssimo, que seja a própria desistência de narrar (e narrar implica, reparemos, interpretar ou, pelo menos, escolher), e em que passemos incógnitos (embora não fora do tempo e do espaço), não sendo mais nada, será por certo a brevidade impreparada, a brevidade captada, a brevidade em si, tanto mais que, no caso presente, eu nunca mais tornei a ver aquela velha, mesmo que (a não ser que ela fosse a do retrato) outras vezes me tenha cruzado com ela na rua. Não muitas, nessa hipótese, porque parti pouco depois (exactamente pouco, não garanto que tenha sido) para a Bélgica. A brevidade, porém, isenta-nos de quaisquer perigos. Ora os perigos são, quase sempre, muito breves. Pelo que poderemos concordar em que este conto é brevíssimo.

      
Assis, 6/5/61       

 

* in: Antigas e Novas Andanças do Demónio (4a.ed. Lisboa: Edições 70, 1984), teve sua primeira publicação no "Suplemento Literário" do jornal O Estado de São Paulo, a 15 de julho de 1961.                                                                                                   

O Grande Segredo

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

Alli me mostrarias
aquello que mi alma pretendia (…)

(Juan de la Cruz – Cantico Espiritual)

 

Fechou a porta da cela atrás de si, e ficou parada, encostada à porta, sentindo a madeira dura na nuca, através do véu. A luz da lamparina no oratório, bruxuleava lenta, às vezes crepitante, e espalhava uma claridade a que ela reconhecia, mais que via, a mesa junto da janela com os livros pousados, e o genuflexório, e o catre de tábuas, e as lajes carcomidas. Sabia perfeitamente o que a esperava. Sentira nitidamente, ao levantar-se da ceia, e depois, na igreja, durante as orações, que mais uma vez ia sofrer a visita… Como o corpo se recusava a despegar-se da porta, para ficar desamparado na cela, assim também, mentalmente, as palavras se recusavam a nomear o horror que a esperava. Tremia: a pele, como a memória, retraía-se num palpitar ansioso, de que as mãos já se levantavam num gesto de repulsa. Era superior às suas forças tudo aquilo; não suportava mais. Apetecia-lhe gritar por socorro, rebolar no chão, fugir pelos corredores e pelo campo fora. Tudo seria preferível. Mil vezes ser assaltada por mendigos e leprosos, mil vezes ser violada brutalmente por soldados e bandidos, mil vezes ser vendida como escrava. Mil vezes a repetição de tudo isso que, na sua pregressa vida, conhecera. Mil vezes viver a desgraça que essa vida fôra, antes de, como um refúgio enfim conseguido à custa de tanta miséria, se abrirem na sua frente, e se fecharem sobre ela, as portas do mosteiro. Quando, enfim, entrara nele, também como agora se encostara à porta, não a despedir-se do mundo, mas a sentir que tudo ficara lá fora, e ela renasceria, teria finalmente a ressurreição da sua vida que o peso de uma pedra imensa, que era o seu destino, não permitia que surgisse e caminhasse. Mas, ali dentro, e dentro da ressurreição, esperava-a o horror inonimável de ser eleita, de ser visitada, de ser mais do que é possível.

Abanou a um lado e outro a cabeça. Não. Não. Por piedade, não. As dores medonhas que sofrera ao ser possuída com violência por um monstro de dimensões incríveis, nada eram a comparar com o que nestes momentos, sucedia no seu espírito. E, no entanto, a semelhança era muita, era tanta, era demais.

Quando o clarão começou a surgir entre a janela e o oratório, cerrou os olhos, escorregou ao longo da porta, agarrou no rosário e percorreu as contas que lhe fugiram. Não era uma tentação que repelia assim; mas era, como bem sabia, um esforço para que o céu se contentasse com as relações espirituais de uma oração. Todavia, tudo no seu corpo aflito lhe afirmava que seria inútil. O clarão aumentou, como sempre, e, como sempre, mesmo de olhos fechados ela via o perfume da imensidade luminosa que suprimia as paredes da cela e a envolvia numa ternura tépida que lhe doía na medula dos ossos. Também a música, suavíssima, lhe doía assim; e, no entanto, essa música, que, sem ouvir, sentia, não se misturava à claridade, era antes um acompanhamento, um fundo sobre que a luz se tornava mais aberta e mais imensa. Não tardariam as vozes que lhe apertariam todos os recantos do corpo, como tenazes ardentes, ou como lábios, ventosas, línguas.

Num esforço doloroso, abriu os olhos. A claridade enchia a cela toda, e o catre, o oratório, os livros, o genuflexório, a mesa, as portadas da janela, a própria lamparina, tudo flutuava numa ondulação cadenciada, num torvelinho sem peso, e navegava como de velas pandas, e esteiras rebrilhantes sussurravam de todas as coisas como ao longo do casco de um navio.

Agora eram o hábito e o véu, o cilício que trazia à cinta, e o rosário, que, devagarinho, levantavam voo e entravam na sarabanda macia. A brutalidade sufocante e dilacerante penetrava-a já, enquanto o desfalecimento lhe triturava as vísceras e os ossos, Tudo nela se abria e despedaçava, eram milhares de agulhas que a picavam, facas que a rasgavam, colunas que a enchiam, cataratas que a afogavam, chamas que ardiam sobre águas luminosas, cantantes, e pousavam como fogos-fátuos pelo corpo dela.

Crispando-se numa última recusa, mas ao mesmo tempo cedendo para que aquilo acabasse, inundou-se de uma ardência cristalina, que se esvaía no seu âmago, lá onde a Presença, enchendo-a, martelava os limites dissolvidos da carne. A luz atingiu um brilho insuportável, a música atroava tudo, sentiu-se viscosamente banhada de clamores e apelos que lhe mordiam… E, na treva e no silêncio súbitos, sentiu, nas costas, na nuca e nas pernas, a dureza violenta e fria das lajes em que, do ar, caíra.

Abriu os olhos na escuridão. O corpo dorido e descomposto, o frio e a lamparina que ardia bruxuleante, recordaram-lhe que entrara na cela, mas, com veemência, horror, revoltada humildade, não recordou mais nada. Deixou-se ficar estendida, saboreando uma incomodidade que era exaurido repouso. E começou a ouvir o murmúrio das rezas, a voz da madre abadessa, sussurros que se destacavam e reconhecia.

Leves pancadas soaram na porta, o fecho estalou, e a madre e mais duas entraram recortadas no clarão difuso que vinha do corredor, onde as rezas continuavam. Viu-lhes os hábitos junto do rosto, e as pregas subiam a sumir-se no escuro. Tinham vindo, como sempre, escutar, enciumentas dos favores que acumulavam, apiedadas do sofrimento que lhe cabia em sorte, atraídas e atemorizadas, rezando para a ajudarem e também para participarem daquele clarão sonoro que extravasava pelas frinchas da porta. Quando assim se curvavam para ela, e a levantavam, e carinhosamente a deitavam no catre, e ficavam de joelhos, enchendo a cela e o corredor, rezando com ela, não imaginariam a vergonha imensa que a torturava, ora diversa, ora igual à que sentira quando o emir, no meio da tenda, mandara que a despissem e os soldados, uns após outros, a possuíssem em público. Ela recusara fazer parte, como primeira esposa, do harém, e ele, que a estimava e preferia, e a comprara aos piratas e a trouxera com requintes de delicadeza, mandara que os eunucos a estendessem no divã e a segurassem.

Deitada no catre, de olhos fechados, apagou da memória todas as recordações. Sentia-se descer lentamente, num poço sombrio e húmido, sem fundo. Nem a presença delas, nem as vozes delas, nada podiam contra a solidão e o silêncio. Era este o momento que, afinal, mais temia. Era nestes momentos que, bem sabia, ela consentia na visita próxima, cedia antecipadamente ao apelo e à luz, quando viessem. No dia seguinte, pela madrugada, após um sono pétreo, tudo teria passado. As outras irmãs cruzariam por ela, saudando-a com deferência, trocando ou tentando trocar um olhar comovido, um sorriso amável. A abadessa chamá-la-ia para conversar de coisas correntes, de notícias dos exércitos e dos parentes, dos combates em Jerusalém, e do Santo Sepulcro. E subitamente, na cela, no claustro, no jardim, na adega, quando estivesse só, amanhã mesmo, daqui a um mês, de dia ou de noite, tudo se repetia e recomeçava. É certo que, por mais que fizesse, ocasiões havia em que se afastavam dela as outras, a deixavam só, como se a propiciarem a repetição de acontecimentos que eram honra do convento. E grandes senhores ou pobres mendigos vinham para tentar vê-Ia, através das grades do coro, ou pediam para que ela os tocasse. A abadessa arrastá-la-ia, de olhos fechados, pegar-lhe-ia na mão, que enfiaria pelas grades, e ela sentiria que lhe choravam nela e lha babavam de beijos. A própria abadessa, trazendo-a em silêncio de volta ao claustro, lhe limparia a mão.

Recolheu sobre o seio a mão que pendia para fora do catre, e agora lhe beijavam. Suspirou. Dentro dos olhos fechados, viu o crucifixo que havia na igreja da sua terra natal, lá longe, há tanto tempo, nos confins da Europa. Foi uma surpresa esquisita que a percorreu trémula da cabeça aos pés. Nunca mais o revira, nem o recordara sem o rever, nem sequer no espírito lhe passara a lembrança, não reconhecida de lembrar-se dele. A imagem sorria para ela, e então ela, menina olhando em volta para verificar se estava só, erguera a mão para o cendal que o cingia, e tentara levantá-lo para espreitar. Porque ele não podia deixar de ser como os outros homens. Mas o cendal, que parecia de tão fina e leve seda, era esculpido na madeira, e ela baixara tristemente a mão, sentindo que a curiosidade lhe fora castigada.

Abriu os olhos, e viu que estava só. Uma paz, uma tranquilidade, uma saciedade que não estava nela, mas no ar que a rodeava, deslaçavam-lhe as derradeiras crispações do corpo contuso. Ainda, mas muito distantes, sentia dores dispersas, ou localizadas onde a violência fora maior. Mas o bem-estar era enorme e contraiu-lhe os lábios num sorriso. O grande segredo, agora sabia o grande segredo. E adormeceu. O clarão recomeçou a encher a cela, mas não aumentou mais, nem ressoava. Antes ficou em torno dela, como um dossel, uma atenta e vigilante ternura, que, debruçada sobre ela, a contemplasse, tão dorida e apagada, a respirar tranquila.

 

Araraquara, 2 de Setembro de 1961
 

Razão de o Pai Natal ter barbas brancas

De Antigas e Novas Andanças do Demónio

Para os filósofos, como meditação demonológica acerca do VIII poema de “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro.
Para as crianças grandes, como apólogo humorístico.
Para os meninos pequenos, como verdadeiro conto de Natal.


I

Como toda a gente sabe, e os meninos melhor que ninguém, o Natal é uma coisa muito velha. O que nem toda a gente sabe é que, no princípio, ele não era pai; nem era velho, e não tinha, portanto, barbas brancas. Assim, quando o menino Jesus nasceu, já todos os meninos punham o sapato na chaminé.

A única diferença era que a chaminé não tinha, como hoje, fogão de gás ou fogareiro. Depois, com o menino Jesus, veio outra diferença: também ele punha o sapatinho, que, por acaso, era uma sandália.

Isso durou pouco? Não, porque o menino Jesus só cresce e se faz homem quando os outros meninos crescem e julgam que se fazem homens. O que, e lá isso é verdade, não acontece a toda a gente, como os meninos terão muito tempo para ver. Mas isso é já outra história, que os meninos aprenderão, sem que ninguém lha conte.

A que vou contar começa quando o menino Jesus ia fazer sete anos, idade que é muito importante, visto que são sete as maravilhas do mundo. O menino Jesus, como os outros meninos, tinha vontade de crescer e não acreditava no Natal. Ele bem sabia quem punha os brinquedos na sandália (era a Mãe), e, por não haver então lojas de brinquedos, e, mesmo que houvesse, não terem os pais do menino Jesus dinheiro para os comprar (os brinquedos já eram muito caros), ele bem vira S. José estar a fazer uma carrocinha, às escondidas. Por isso, naquela tardinha, sempre muito comprida, que há antes da noite de Natal, noite que, por sua vez, é a mais comprida do ano, o que lhe valeu ser ela a Noite de Natal; por isso, como ia dizendo, o menino Jesus, que estava à espera de lhe darem a carroça, fingia que se não importava, fingia, até, não esperar coisa alguma. A tarde estava muito bonita, segundo me disseram, e é natural que estivesse: o Natal ia ser pai e, o que é muito mais, ganhar as suas barbas brancas. O céu fazia-se verde e amarelo e cor-de-rosa, que são cores que as pessoas grandes não gostam de ver no céu, e que todos os meninos sabem que lá se vêem muito bem. O menino Jesus, é claro, via-as melhor que ninguém. E, então, para disfarçar, começou a contar as nuvenzinhas soltas, que estavam todas paradas, muito quietas de propósito para ele contar – mal imaginavam o que lhes ia acontecer. O menino Jesus sentara-se numa pedra (pedra que ainda lá está na terra dele, embora ninguém saiba qual é), à beira do caminho, e, com uma varinha (que não era de condão, pois só as fadas precisam desses objectos), fazia riscos na poeira. A poeira, coitada, era mais lama que qualquer outra coisa, porque chovera de manhã, e o sol não tivera tempo de a secar. Ora, o menino Jesus, umas vezes olhava para o céu, outras olhava para o chão, e qualquer pessoa com dois dedos de testa logo perceberia que ele estava a desenhar as nuvens. Mas parece que estas coisas são muito difíceis de perceber, como os meninos sabem pelas perguntas parvas que muitas pessoas crescidas costumam fazer.

– Que estás tu para aí a riscar, pequeno?
O menino Jesus voltou-se (quando nos fazem perguntas destas, a gente está sempre de costas), e viu um homem muito bem vestido que até parecia mentira. O menino não se deixou enganar, porque a pergunta estragara o fato do homem, e era como se estivesse todo rasgado e com a fralda de fora.

– Estou a fazer riscos.
– Isso vejo eu. Que riscos?
– Só riscos.

O homem mostrou uma cara muito má, e o menino Jesus foi pondo os pés a jeito, para o caso de ser preciso levantar-se de repente e fugir a correr.

– Estás a armar em esperto, mas a mim não enganas.

O menino Jesus, estava farto de enganar imensa gente, riu-se, mas só por dentro, por causa da má cara do homem.

– É mau fazer riscos? – perguntou.
– Se é! Ora experimenta lá.

O menino Jesus ficou desconfiado, e traçou um risco, um muito pequenino. E qual não foi o seu espanto ao ver a varinha ficar presa ao chão! Ver não viu, mas quis tirá-la e não pôde.

Claro que, dessa feita, quem se riu foi o homem. Ora é sabido que o diabo não se pode rir muito alto, porque lhe sai enxofre pelos intervalos do riso. E assim aconteceu. O menino Jesus sentiu o cheiro, viu o fumozinho sair da boca do homem, era quase noite (anoitecera quase de repente), não passava ninguém na estrada, ele estava um bocado longe de casa, e, apesar de ser quem era, teve medo, um medo enorme, um medo ainda maior que o diabo.

Estão a ver o menino Jesus nestes assados. Que faria qualquer menino? Evidentemente, não mostrava medo, que é a melhor maneira de assarapantar o demónio. Foi o que ele fez. Fingiu que não queria a vara para nada (e queria porque era uma bela vara, muito direita), e disse:
– Bem, são horas de voltar para casa.
– Ah, sim? E porquê? – (o diabo a ver se ele caía).
– Tenho lá o Natal à minha espera.

O diabo sentiu vontade de rir; mas, aflito com o fiasco do fumo pelos intervalos do riso, mordeu os lábios e perguntou:
– O Natal? Mas que Natal é esse?
– Se calhar não sabe o que é! – exclamou o menino Jesus, e tentou levantar-se. Aí é que foram elas! Estava pregado à pedra, como a vara à lama! Um caso sério! Se ao menos passasse alguém! Mas qual! Nem vivalma, que o diabo não conta, não é gente. E como nessa altura ainda não havia santos por quem chamar, a Nossa Senhora estava em casa, e o menino Jesus, apesar de saber que era menino Jesus, não sabia que era filho de Deus, não havia salvação possível. Não havia!… Nisto, porque era um menino igual aos outros meninos, teve uma idéia muito luminosa. Era perigoso, mas o único remédio.

– Dá-me a sua mão? Ajuda-me a levantar daqui?

Mesmo o que o diabo queria! E com os olhos a luzir de gozo, o diabo estendeu-lhe a mão. O pior foi esquecer-se – e o diabo nestas alturas é muitíssimo esquecido – de firmar-se bem nos pés. O menino, mal lhe deu a mão, pôde levantar-se… e zás: meteu uma perna entre as do diabo e deu-lhe um encontrão. O diabo desamparado (é como ele está sempre, não se esqueçam), esbracejou e estatelou-se na lama, que, naquele sítio, estava muito bem amassada pelas rodas dos carros, mesmo destinada a traseiros do diabo. E quando se ergueu, furioso, todo sujo, o menino Jesus já ia longe, e até parecia que levava asas nos pés. Ao entrar em casa, ofegante, o menino Jesus voltou-se para trás e ainda viu, na noite escura, um clarão de raiva.

II

O menino Jesus não disse nada a ninguém. Sentia-se tão contente por ter feito o diabo estatelar-se em plena estrada! Mas uma coisa o preocupava: o diabo ficara sabendo que ele estava à espera do Natal, porque lhe tinha dito que o Natal estava à sua espera – ora o diabo percebe tudo ao contrário, e ficara portanto a saber a verdade. Era inevitável que apareceria, pela calada da noite, e vestido de outra maneira, para não ser conhecido. Viria com toda a certeza. E agora? Agora…

III

Alta noite, o menino Jesus, que se fora deitar a dormir com um olho aberto e outro fechado, ouviu os pais levantarem-se, e irem, pé ante pé, para a lareira, onde ele, é claro, antes de deitar-se, pusera a sandália do pé direito. Como se sabe esta sandália é sempre melhor que a outra, e deve preferir-se em tudo: chaminés, pontapés, etc., a menos que se seja canhoto dos pés, o que é muito raro.

O menino Jesus estava de costas voltadas à lareira, porque fazia frio, e porque, também, se estivesse de frente, logo se veria que não dormia e espreitava. É evidente que a casa era muito pequena e pobre, e os quartos eram um só, dividido em dois, por cortinas muito velhas, que Nossa Senhora se cansava a remendar e o menino Jesus a esburacar. Ora, o menino Jesus, mal os pais se recolheram, sentou-se na cama, que, pela mesma razão de a casa ser pequena, era um colchão no chão, com pouca roupa, tão pouca, que o menino raras vezes se despia, muito menos no Inverno. Era, sem dúvida, um mau costume, mas também o Inverno é um mau costume, que, além de ser preciso para a terra descansar, se repete invariavelmente todos os anos: e o menino Jesus apesar de ter só sete, já muito bem sabia que, quando tinha frio, era mesmo frio o que tinha. Sentou-se, pois, na cama. O lume, na chaminé, apagava-se pouco a pouco; viam-se as faúlhas correndo pela madeira, umas atrás das outras, enquanto as pontas dos troncos iam ficando brancas. O diabo não tardava aí. Um estalido. O menino Jesus olhou para a porta. Não era nada. Depois sentiu passos na terra batida. Olhou: era um rato. O rato andou de um lado para o outro (e se o rato fosse o diabo disfarçado?), até se convencer que tais pobretões nem na noite de Natal deixavam cair migalhas. Passou muito tempo – ao menino Jesus parecia imenso quando – … vinha alguém pela chaminé abaixo. Oh se vinha! Com o lume assim a apagar-se, não se via nada; mas, para quem entrasse pela chaminé, ainda era luz que chegasse. E chegava: apareceram umas sandálias, umas pernas, uma fímbria de túnica vermelha (é o diabo, pensou o menino Jesus), mais túnica vermelha, ainda mais túnica vermelha, até que uma figura ficou de pé, ao lado do fogo, e deu uns passos para dentro de casa. Trazia um saco às costas. Era o diabo! O menino Jesus ficou… calculem como ele ficou, porque, no fundo, muito lá no fundo, não esperava que o diabo voltasse. E ali estava ele, com saco e tudo. Viu o diabo abaixar-se e pegar na carrocinha, que estava mesmo em cima da sandália. É preciso dizer-se que a carroça não era muito grande, mas também não era muito pequena, e mais caberia a sandália na carroça, do que a carroça na sandália. Não, lá isso não! Nunca tinha um brinquedo senão os que inventava e fazia, e aquele, tão bonito, o diabo vinha buscá-lo! E mesmo que não fosse bonito, não lho dava. Brinquedos a diabos! Toda a gente sabe que o diabo não brinca e, por isso, faz asneiras! Não, lá isso não! E saltou da cama, correu para a chaminé… e tirou a carrocinha da mão do diabo, que, já a abrir o saco, nem dera por ele.

– Boa noite! – disse o diabo, com voz maviosa.
– Boa noite… Por que é que não entrou pela porta? Era só bater, que eu abria – perguntou o menino Jesus, pondo a carroça debaixo do braço.
– Para não acordar ninguém…
– Eu estava acordado.

E o diabo, muito ingenuamente, como se não fosse ele: – Ai que linda carroça! Quem lha deu?
– Tem alguma coisa com isso?! Que é que o senhor quer?
– Eu só queria brincar com a carroça. Deixa-me brincar um bocadinho?
– Não tem vergonha de ser tão grande e querer brincar ainda? – (era o que a mãe lhe dizia, quando ele andava pela casa a fazer das suas).
– Eu? Vergonha? – e o diabo ia rir-se, mas tornou a lembrar-se do fiasco do enxofre pelos intervalos do riso. – Então não me deixas brincar?

O menino Jesus dava voltas à cabeça, e não achava maneira de livrar-se dele. Só se fosse…

– Sempre quer? Mas só um bocadinho.
– Como? Como? – (O diabo todo satisfeito).
– Eu faço de carroceiro e o senhor faz de cavalo.
– Vamos a isso! Vamos a isso! – e o diabo logo de gatas, para ele o atrelar à carroça.

A carroça estava muito bem feita; não lhe faltava nada, até arreios tinha. Foi nessa altura que o menino Jesus, ao reparar nas barbas brancas que o diabo trazia (barbas, aliás, de uma brancura imaculada), viu bem o que lhe convinha fazer. Muita gente julga que o diabo pode esconder tudo o que é e tem, menos os pés de cabra; manifestamente isso não é verdade, como se depreende desta história, em que ele aparece de sandálias, com a perna à vela. Se as pernas eram dele ou emprestadas, o menino Jesus tinha muito mais em que pensar. E pensou e disse:
– Não te posso pôr a cabeçada (como o diabo fazia de cavalo, tratava-o por tu – não era por ser o diabo), as tuas barbas são tão compridas! E tão bonitas, que se estragam!

E o inimigo, muito convencido, a cofiá-las:
– São bonitas, não são? Bem me custaram a arranjar.

O menino Jesus então ficou logo a saber o que queria. E tornou a dizer: – Não te posso pôr a cabeçada; e, se não ponho, como hás-de puxar a carroça?

O diabo, que não tem paciência nenhuma (e por isso é tão fácil de reparar, quando começa a estorcer-se), o que queria era acabar com aquela paródia, tanto mais que lhe parecia o menino Jesus já ter dado por ele (e só parecia, porque o diabo nunca tem a certeza). E, por isso, propôs: – Mas eu levanto as barbas, e tu passas a cabeçada…

Assim se fez, e o menino Jesus, quando ele as levantou, viu a barba de chibo, pêra retorcida, que o diabo nunca pode tirar, como se está a ver. As barbas brancas, tão imaculadas, é claro que eram postiças.

Mal o atrelou bem atrelado, o menino Jesus, convencido de que o diabo desapareceria e deixaria a carroça, disse uma palavra secreta que sabia (todos os meninos sabem palavras dessas, só não sabem qual serve). O diabo ficou na mesma. O menino Jesus então disse outra. O diabo, nada. Ia o menino Jesus então disse outra. O diabo, nada. Ia o menino Jesus a dizer a terceira, pergunta o diabo, já aborrecido, como era de calcular:
– Que raio de brincadeira é esta que nunca mais começa?

O menino Jesus puxou-lhe pelas barbas e gritou a terceira palavra, a mais forte de todas… O diabo deu um estoiro, como os automóveis quando querem arrancar, e saiu pela porta fora, com tanta força, tanta, tanta, tanta, que a atravessaram ele e a carroça, de uma vez – e a porta ficou inteirinha no mesmo sítio.

O menino Jesus, com as barbas postiças na mão, abriu cautelosamente a porta. Não se via um palmo adiante do nariz, mas não se viam também, nem o diabo nem a carroça… Nisto, as barbas soltaram-se da mão do menino, e começaram a subir ao céu, e a crescer, a crescer, a crescer, e, quando chegaram lá acima, já chovia a cântaros. Está-se mesmo a ver que as barbas eram as nuvens que o menino Jesus contara.

O menino voltou para dentro e fechou a porta bem fechada; em casa não se via nada, porque o lume se apagara de todo. O menino Jesus, muito devagarinho, meteu-se na cama. Estava ele a pensar na carroça, ouviu S. José dizer: – Não ouviste um estoiro? E a voz de Nossa Senhora a responder: – Ouvi. Dorme descansado. São coisas do diabo.

Sua mãe sabia! O menino Jesus ainda ficou, se é possível, com maior admiração por sua mãe.

IV

Como a noite de Natal é muitíssimo comprida, a história não acaba aqui; tanto mais que ainda não se ficou a saber a razão de o pai Natal ser pai e ter enormes barbas brancas.

O menino, se, quando se deitara a primeira vez, ficara com um olho aberto outro fechado, agora, sem a sua carroça, não conseguia fechar nenhum deles. E estava nessa aflição… começou a ouvir barulho dentro da chaminé. Um barulho de nada, pela chaminé abaixo. Era de mais: aquele descarado já levara a carroça, e ainda voltava!

O menino Jesus levantou-se, foi para o pé da chaminé, e pegou num ferro muito grande que lá havia para arrumar as achas. Vinha pela chaminé abaixo uma claridade esquisita. E vinham umas sandálias… e umas pernas… e uma fímbria vermelha… (é ele, pensou o menino Jesus) e mais túnica vermelha… e ainda mais túnica vermelha… até que uma figura ficou, ali mesmo, ao lado das cinzas. O menino Jesus levantou o ferro… e o homem (parecia um homem) disse: – Assim tu me recebes? Assim te ensinaram a receber o Natal?

Foi então que o menino reparou que ele não tinha barbas, nem brancas, nem pretas, ou só assim uma coisa muito rala que nem barba parecia. Não era, portanto, o diabo. Em todo o caso, não largou o ferro.

– Mas tu és verdade? E sempre vens? – (não o tratava por tu por ser ele o Natal, mas pela alegria de ele não ser o diabo).
– Eu, em pessoa. E venho, como vês.
– Essa é boa! E trazes-me alguma coisa?
– Nunca trago nada… Eu troco os brinquedos por outros. E esses é que eu trago comigo.
– Então, este ano, fico sem nada, porque tinha aqui uma carroça e o diabo levou-ma.
– O diabo?!
– Sim. Veio vestido como tu, só trazia barbas brancas, e levou-me a carroça.
– E deixaste?
– Que remédio tive! Ele estava atrelado, e não se ia embora…
– E agora, como há-de ser? Eu trazia uma carroça para trocar.
– Tu não dás brinquedos aos meninos que não têm brinquedos?
– Não posso dar.
– Por quê?
– Porque só troco.
– Por quê?
– Porque não posso dar.

O menino Jesus não perguntou mais; logo viu quais eram as respostas, e que o Natal não tinha outras, pelo menos para dar. Ali estava um, que não dava nada a ninguém. Mas ficar sem carroça não ficava.

– Tu tens a minha carroça.
– Tenho? Aonde?
– Anda por aí, atrás do diabo.
– Lá isso é verdade.
– Então, dá-me a que trazes.
– E a outra?
– A outra, quando encontrares o diabo, dizes que é tua, e pronto.
– E se não o encontro?
– Ora tens tanto tempo! Eu é que não tenho outra carroça!
– Bem… Parece que me convenceste.

E o Natal – pois era ele – pousou no chão o saco que trazia às costas (como se vê, o patife do diabo até um saco arranjara) e tirou de dentro uma carroça exatamente igual à outra. Mas igual, igual, nem a cabeçada faltava. E deu-lha. O menino ficou – imagina-se – contentíssimo. Tão contente, que se lembrou logo de uma coisa.

– E se o diabo, agora, anda a fingir de ti pelo mundo fora?
– É fácil. Custa um bocado mas é fácil.
– O que é que é fácil? Como te vais arranjar?

O menino Jesus bem via o Natal atrapalhado, sem saber como se havia de arranjar. Teve pena dele, que lhe dera a carroça, e, em troca, deu-lhe uma idéia, que é muito mais de dar do que uma carroça.

– Deixas crescer as barbas brancas. Das duas uma: ou o diabo anda com a barba dele, e toda a gente o conhece; ou põe outras barbas postiças, e basta puxar por elas para se ver se são de verdade.
– Bela ideia, sim senhor, que bela ideia! – Mas depois de pensar um bocado, o Natal acrescentou:
– Não chega. Tenho de ser o Pai Natal.
– Porquê?
– Porque o diabo não pode ser pai.
– Não?
– Não. Os filhos do diabo são sempre filhos de outras pessoas.
– Então passas a ser o Pai Natal e a ter barbas brancas.

Palavras não eram ditas, e o Natal logo Pai e com umas barbas quase a chegarem aos pés, tão brancas, tão brancas, que a claridade agora era das barbas.

Depois deste milagre (foi um milagre, evidentemente), o menino Jesus sentiu-se com imenso sono, o sono da noite toda e mais algum. O Pai Natal percebeu, sorriu, ajudou-o a deitar-se… E o menino Jesus nem chegou a ver como ele saiu, porque, apesar da curiosidade, adormeceu logo. Com a carroça debaixo do braço, é claro, não voltasse o diabo… (e é a razão de os meninos dormirem agarrados ao brinquedo de que gostam mais).

V

No dia seguinte, dia de Natal, era feriado, tal qual como hoje. Andava muita gente a passear nos campos, e o menino Jesus andava na estrada, a brincar com a carroça. Claro que olhava, com desconfiança, para todas as carroças que passavam, a ver se alguma delas era igual à sua. Mas nenhuma era. Foi brincando, brincando, e já se esquecia desta história toda, quando viu um homem, lá ao longe, num sítio onde andava menos gente, sentado numa pedra e a fazer riscos no chão, com uma varinha. O menino Jesus teve pena dele, quis avisá-lo e aproximou-se.

Ora, o menino Jesus falava uma língua esquisita – o aramaico – que muitos dos judeus não entendiam, e ainda hoje, segundo parece, não entendem. Mas ele não tinha culpa; era a que lhe ensinaram em pequeno, mal começara a estender os braços… Os meninos ainda se lembram de querer agarrar nas coisas que estão longe? É isso.

Aconteceu, então, que o homem não só não percebeu o que o menino lhe dizia, como se zangou e o enxotou, ameaçando-o com a vara. É claro que o menino Jesus deitou a fugir. Quando já estava suficientemente longe quis ver… E o que viu?

Ao lado do homem, parara uma carroça exactamente igual à sua, puxada por um tipo que já metera conversa com o outro sentado. E parecia que a conversa era engraçada, porque ambos se riam muito. Só da boca do que fazia de cavalo saía um fumozinho branco, que o menino Jesus muito bem conhecia.
… … … … … … … … … … … … … … … … … …… … … … … … … … … … … … … … … … … …

Por tudo isto é que o Natal é pai e tem barbas brancas, para se distinguir do outro, que traz brinquedos do inferno, brinquedos que, como os meninos também sabem, são feitos neste mundo, tal qual como os outros brinquedos.

Ora como se vê por esta história, e ao contrário do que até eu próprio julgava quando comecei a escrevê-la, houve, não uma só, mas inúmeras razões, para o Natal ser pai e ter barbas brancas. Para acabar, não me perguntem de quem ele é pai. Não façam perguntas tolas, como as pessoas crescidas. Muito em segredo, sempre digo que não sei ao certo, o que sei não posso dizer… e, de resto, talvez os meninos venham a saber mais do que eu.

1944.

 

Caim

Segundo conto de Génesis

Segundo conto do jovem Sena, de 17/18 anos, demonstrando tal força e concisão que já traz em si o germe da grande obra que virá…

 

Já as cigarras cantavam a morte da luz do dia quando Caim voltou para casa. Uma extensa calma alojava-se no prado cuja planura era cortada, aqui e ali, por um ou outro cabeço. O Sol poente animava, na sua despedida, o colorido de todas as cousas.

Caim caminhava devagar. O sossego circunjacente penetrava-lhe no coração levando-o a pensar na vida e na família. Em paz viviam uns dos outros: a mãe cuidava da choupana e das peles com que se cobriam, ele Caim lavrava a terra, o irmão Abel pastoreava os rebanhos que Deus ensinara a amansar. Quando o pensamento lhe passou pelo irmão à sombra do dia findo somou-se no seu rosto a sombra da sua tristeza. Divisou ao longe um fumozinho que lentamente e muito calmo subia para o céu; e esse fumo do lar desanuviou um pouco a sua apreensão.

Numa volta do caminho, que os seus pés tinham traçado dia a dia, apareceu a casa paterna. Duas figuras solenes no entardecer estavam sentadas à entrada. Caim aproximou-se e beijou-as – primeiro o pai, depois a mãe.

Muitas, muitas vezes se tinham alternado o Sol e a Lua depois que Adão e Eva tinham saído do Paraíso. A princípio a vida custara, depois nascera Caim e por causa dele habituaram-se a trabalhar; mais tarde apareceu Abel, e Jeová que se conservara afastado foi tomando interesse pelas crianças e delas passou à vida dos pais. Ensinara-lhes a domar o gado, a lavrar e a fazer o fogo. Agora, os filhos crescidos, declinavam felizes e fios brancos começavam a nascer e a multiplicar-se entre os cabelos escuros.

Adão e Caim falaram das colheitas. Não iam mal; os trigais muito louros adoravam já o Senhor com as espigas felizes pendidas para o chão.

Ao longe começaram a ouvir-se exclamações de mistura com balidos; Abel recolhia com o rebanho.

Depois de fechados os animais no redil veio juntar-se aos pais e ao irmão.

Tal como já fizera com as searas, Adão perguntou pelos carneiros.

– Andavam magros, não medravam, não pareciam os mesmos de tempo atrás.

O pai recomendou mudança de pasto e Eva lembrou que se matassem os piores para ela fazer fatos novos – os que traziam já estavam velhos e gastos.

Abel declarou à mãe que faria isso no dia seguinte mas que agora tinha fome.

Quando acabaram de comer foram deitar-se enquanto cá fora corria uma aragem fresca a quem as estrelas no alto faziam companhia.

………………………………………………………………………..

Sobre as peles Caim não dormia; pensava. Em tudo o Senhor preferia o irmão. A última vez que tinham feito oferendas à Jeová, este agradara-se mais do anho gordo de Abel que das suas frutas e verduras. Agora tinha porém ocasião de se vingar. Os animais estavam tão magros quanto as suas culturas estavam gordas e Deus, desta vez, gostaria mais do que ele lhe levasse.
Voltou-se para Abel que jazia junto dele.
– Abel!
O irmão mexeu-se: – Que é?
– Ainda não dormes?
– Não.
– Ouve!
– Que é que queres?
– Se fôssemos amanhã levar dos nossos produtos ao Senhor Deus?
Abel pensou – quer vexar-me porque sabe que nada tenho de bom, por outro lado se não vou é ele que ganha com certeza – e respondeu: Vamos! e esperou mais algum dito do irmão mas Caim calara-se e adormecia agora no descanso da sua vitória.

………………………………………………………………….
No dia seguinte eles a saírem de casa e o Sol a sair da terra.

Caim colhera da seara as melhores espigas e das árvores os melhores frutos; Abel procurara o animal mais gordo mas mesmo assim de pele tão caída…

Andaram muito sem dizer palavra até chegarem ao sítio onde o Senhor lhes vinha falar.

A planície era aí interrompida por uma torrente que gemia em baixo entre as pedras. Nas margens escarpadas pedregulhos debruçavam-se curiosos sobre a água. O ar cinzento e retraído era embaciado pela ausência de ervas alegres; só plantas daninhas, daquelas que a sorte fez secar mesmo em vida, apareciam nos interstícios das pedras. A terra era árida, a aridez estava em Deus, o sítio divino era árido. O dia ali estava enevoado. Grossos cúmulos encobriam o Sol que através deles imprimia a tudo uma luz algodoada e sem energia. Um vento fresco depois de acariciar os campos e cair aos baldões pela encosta ia arranhar a torrente. Sobranceiro à ravina e à planície erguia-se um penhasco abrupto, selvaticamente ornamentado pelas sarças.

Treparam-no com dificuldade e pararam ofegantes quase no cimo. Ajoelharam-se e fitando o céu invocaram: Jeová! Jeová!

As duas ribanceiras repetiram vale abaixo: Jeová… Jeová…

Começou a invadir o ar estranha sonoridade. Uma nuvem resplandecente destacou-se dentre as irmãs. Trovejou lá no alto. O ar assobiou, contornou-se em torno do penhasco. Uma pequena pedra desprendeu-se e rebolou até à água. Outro trovão estoirou mais baixo. O carneiro balou aflito. Abel e Caim, de cabeça baixa, não olhavam o Senhor que se aproximava recostado na nuvem.

Quando Jeová pôs os pés no alto do penedo as nuvens desapareceram descobrindo o Sol, o vento caiu, o ar tornou-se perfumado, uma música tocou nas almas e uma auréola veio respeitosa iluminar os cabelos brancos de Jeová. Amaciando a voz habituada a dirigir os movimentos astrais o Senhor perguntou:

– Que me quereis?

Eles levantaram as faces e Caim falou por ambos.
– Senhor! Trazemos hoje para vós do melhor que possuímos. Perdoai-nos o incomodar-vos por tão pouco…

– Muito me apraz isso, Caim. Tanto mais que ainda há pouco me visitaram com idêntico fim… E o que têm então para me dar?

Ele bem via as cousas mas queria que eles falassem.

– Trago-vos trigo da minha seara e fruta das minhas árvores. O trigo plantei-o para vós, os frutos para vós os colho…

E Caim era sincero quando dizia isto.

O Senhor agradeceu e voltou-se para Abel. – E tu?

– Eu, meu Senhor, trago-vos o meu carneiro mais gordo; sinto que está muito magro para vós.

Jeová sentia muita amizade por aquele que fôra o traço da sua reconciliação com os homens: Não… É um belo animal! e sentando-se puxou o carneiro para si. Enquanto falava ia-o afagando e o bicho mais se sentia no céu que na terra.

– Vejo, Abel, que és deveras meu amigo… e começou a ele a discernir sobre os rebanhos.

Decepcionado Caim deixou cair o que trouxera. As frutas maduras feriram-se nas pedras. Jeová olhou, parou de falar e, conservando uma das mãos na cabeça do cordeiro que lhe afocinhava os dedos, perguntou: – Que tens?

Tudo o que em Caim fervia no peito e zunia nas orelhas convergiu para a boca mas de tudo isso só saiu:
– Senhor! Nem contemplais o que vos trago! Hoje, como sempre, é a meu irmão que preferis! E o que vos trago é melhor que o dele… As mãos descaíram pesadas de amargura – Nem uma palavra, nem um louvor, nada… Vós sois Deus, vós sois o Senhor… Mas não tendes razão… Desprezais-me sem motivo…

Duas lágrimas apareceram, hesitaram e baixaram depois ao longo das faces deixando dois sulcos de tristeza.

Abel olhava o irmão e talvez estivesse contente vendo-o definir a sua superioridade.

Jeová, mal o desabafo de Caim fraquejou, atirou-lhe com seu amor-próprio ferido e a sua superioridade:

– Invejoso imundo! Não posso preferir quem eu quiser? Tenho de lho pedir? Eu sou quem sou! Tu nem és o que és! O teu coração pesa-te porque está cheio de falsidade e veneno! Os teus olhos choram porque ardem no fogo da tua maldade! Vergas o corpo para o chão porque mãos de demónios estão já apoderando dele! A tua inveja levou-te ao desrespeito do teu Senhor e da amizade de teu irmão…

Abel intercedeu: – Não vos zangueis com Caim, meu Senhor! Comigo é que ele se feriu e eu não me zanguei! Deixai-o…

– Perdoo-te o interromperes o Senhor teu Deus. E a ti perdoo-te por teu irmao; afunda-te, se quiseres, em ti mesmo e na tua maldade… Quanto ao que me trouxeste não aceito coisas de quem não me quer e não me acata! O carneiro vais levá-lo, Abel, porque te faz falta…

E lançando um último olhar àquele que esmagara desapareceu sem ruído.

Caim enovelado no seu desgosto murmurava distraído:

– Deus não é justo! não é justo…

O irmão chamou-o: – Vamos embora…

Levantou a cabeça: – Anh!?!

– Vamos! O Senhor já partiu…

Caim pôs-se de pé, pisou as suas espigas espalhadas pelo chão e repetiu maquinalmente: – Vamos…

Começaram a andar.

– Deus perdoou-te, afinal… – disse Abel – Não penses mais nisso. Deus ainda é bom…

– Perdoou-me por ti! E não é bom! gritou Caim e as mãos vigorosamente impelidas bateram na cara do irmão.

Abel recuou desequilibrado no corpo e espantado na alma. Caim inclinou-se para lhe bater de novo mas Abel então segurou-o pelo peito e caíram os dois.

Rebolaram sobre as pedras ferindo-se, mordendo-se, arranhando-se e batendo-se furiosamente.

Num dado momento Abel ficou de cima, dominou Caim e apertou-lhe o pescoço. Caim retesou-se para lhe escapar mas bem depressa a cabeça descaiu para o lado.

Abel levantou-se ofegante e ficou um momento parado, húmido de suor, empastado de sangue próprio e do irmão, braços pendidos, joelhos curvados, a pele que o cobria toda rasgada, a orelha esquerda rasgada também. Estava na beira do abismo. Seguindo-o com a vista passou a mão pela testa e deixou-a cair de novo. O corpo doía-lhe todo. Lembrou-se que podia sentar-se a descansar e que podia voltar para casa; mas tudo levou tempo a coordenar, a aparecer e a suceder-se.

Absorto no próprio cansaço não viu Caim voltar a si, mexer-se, levantar-se cautelosamente. Não o sentiu aproximar-se de braços estendidos.

Caim concentrou a última vontade, firmou-se e empurrou o irmão.
Abel levantou os braços e com o tórax avançado, o corpo arqueado, a cabeça descaída para trás, os cabelos eriçados, tombou para diante. Da garganta saiu-lhe um grito estridente, despedida angustiosa da alma que sente ir ser obrigada a abandonar o corpo.

O fratricida ficou, com os braços meio estendidos, petrificado no espanto de si próprio. Aos seus olhos desvairados parecia que Abel rolava no mesmo sítio e era a penedia que deslizava vertiginosamente para ele. Uma pedra pontiaguda aproximou-se. O crânio de Abel chocou com ela e fustigou-a de sangue; o corpo hesitou um momento e depois continuou o caminho para a torrente onde caiu. As águas fizeram-no voltear e esbracejar, lamberam-lhe o sangue e levaram-no consigo.

Caim quando a cabeça do irmão se estilhaçou deu um grito violento que o arranhou e encheu de pavor. Caiu de joelhos e agachado, mãos enclavinhadas no chão, olhou o irmão que a água transportava por entre as pedras. Um recorte alcantilado que encobria a torrente escondeu-lhe Abel. Ficou com a vista pregada nesse ponto; depois do íntimo estendeu-se por todo ele uma mágoa imensa e abateu-se sobre as pedras, amarfanhado a chorar. Não saberia dizer o tempo que assim esteve. Em seguida, a pouco e pouco, acabaram-se as lágrimas e adormeceu. O carneiro que durante a luta se afastara, aproximou-se lentamente, parou a decidir-se e deitou-se ao pé.

…………………………………………………………………………
– Caim!… Caim!… Uma voz chamava-o simultaneamente perto e longe, não sabia se dentro, se fora dele.

Deitou-se de costas e abriu os olhos. Era Jeová. Levantou-se e encarou-o. O Senhor olhava-o fixamente. Então Caim perguntou enquanto uma desconfiança atemorizada o apresava:

– Que me quereis, Senhor?

– Caim! pausou Jeová. Onde está o teu irmão?

Inúmeras ideias e sentimentos se atropelaram em Caim mas duas superaram: ódio à hipocrisia que respondia à sua hipocrisia e desejo de a atacar:

– Tenho alguma coisa com ele? Alguém me encarregou de o guardar?

O semblante divino escureceu e com ele tornou-se agreste a tarde que nascia.

Caim! gritou o Senhor. Que fizeste ao teu irmão? O seu sangue escorre dos teus dedos! O seu sangue perseguir-te-á! Assassino! Serás sempre maldito e todas as gerações te chamarão de maldito! O céu e o inferno não te abrirão as suas portas E a terra inteira te será hostil porquanto com o sangue que derramaste cairá sobre a tua cabeça a minha maldição!

Ele ouviu indiferente, a cabeça descaída sobre o peito onde os braços cruzados sustinham o apressado coração; ouvia assim porque tudo lhe era indiferente, porque tudo o que o Senhor lhe dizia já as suas lágrimas lhe tinham gritado.

– Eu sei que tu mataste o teu irmão! Eu já sabia que o ias matar! acrescentou num assomo de vaidade divina.

Uma revolta enorme endireitou Caim.

– Se sabia porque deixou? Porque não se entrepôs? Não era tão amigo dele? Porque me deixou matá-lo?

Deus defendeu-se: – Quis ver até onde ia a tua sede de maldade! Até onde se estende todo esse amontoado infame que teus pais aprenderam e te transmitiram no sangue! Quis julgar o vosso bem e o vosso mal! Porque…

– Sacrificaste-nos a mim e a ele à tua curiosidade horrorosa! Eu nunca teria matado o meu irmão se não me tivesses provocado… Para julgar o bem e o mal! O bem e o mal!! Que sabes tu deles?! Nem sequer lambeste a árvore!! Qualquer animal sabe mais do que tu!! E o pouco que sabes aprendeste connosco! É por isso que nos espias e nos provocas! Mesmo sem saber tu foste mau! Não tens alma à força de a espalhares em todas as coisas! És ridículo! Nem sequer sabes o que fazes! Eu rio-me! Vês?! – gargalhadas acres arderam-lhe nos lábios – eu rio-me de ti!… Se somos maus a culpa é tua! Para que envenenaste um fruto proibido?… Tu nada sabes de nós! Por isso nos espias! És a suma sabedoria! Então para que nos espreitas? Devias ter vergonha de ti mesmo! Eu nem a tenho de ti! Para quê? Olha, o mal é também isto! – Arrancou a pele que o cobria e atirou-lha – Mas é também o bem! E por mais que espies a este bem ou mal nunca chegarás! O amor é só p’ra nós! P’ra ti é só o amor-piedade, o amor-protecção… És mau! Odeio-te! Odeio-te!! Hás-de vingar-te de mim, que eu sei!… Não o faças em meus pais… Peço-te… que não saibam nada… De resto para nos substituir terão em breve outro filho… Não sentirão a nossa ausência… Repara que se lhes disseres alguma coisa feres também a memória do teu preferido! É só o que te peço… Porque te odeio! Escusas de me fulminar com o teu olhar que não tenho medo! Não tenho medo de ti!! Perdi tudo… nada me podes tirar! Só me resta a vida… e essa… para que a quererias tu?!! Irei por esse mundo fora gritar o meu crime que é a tua baixeza até cair exausto seja onde for, aqui ou além, agora ou daqui a tempo… E morrerei então… Mas morrerei contente! Saciado! Porque todos os que passarem pelos meus ossos dirão – Este é Caim, a vítima de Deus…

Calou-se cansado enquanto as lágrimas lhe vinham molhar o sorriso amargo que se obstinava nos lábios…

Deus ouviu tudo, sofreu tudo em silêncio, absorto em beber e meditar as palavras de Caim. Quando ele terminou, disse suspirando:

– Não quero ver se tens razão… Não me quero julgar… Se vós por vezes não compreendeis a alma que vos dei, eu também por vezes sou vítima da incompreensão da minha… Mas quero castigar-te. Não cairás em qualquer canto. Viverás. Porque sentirás o remorso do que fazes e do que dizes! Remorso tão subtil que te atormentará mesmo quando tiveres razão… Não gritarás nada porque ele te há-de abafar os gritos. Verás que acima de tudo me hás-de respeitar e hás-de chamar por mim. A revolta, que lançarás no teu peito, dele não sairá e ainda que passe aos filhos dos teus filhos, aos netos dos teus netos, do peito deles não sairá também… Vou dar-te um mundo novo para viveres. Nele terás filhos e serás feliz. – uma ponte, obra de anjos, apareceu sobre o abismo – Vai! Atravessa o teu cúmplice. Perdoar-me-ás como eu te perdoo…

Caim respondeu então:

– Hipócrita! Não me compras com as tuas escorregadias palavras de perdão… Vou-me embora, sim! Pode ser que tenha filhos! Pode ser que seja feliz! Que te perdoe, que chame por ti! Mas não há-de ser onde tu quiseres! Vou-me embora, mas não pela tua ponte! Não quero nada do que te pertence, não aceito nada do que me ofereces! Vou para onde a minha vontade me levar! Ofereces-me um mundo novo! Tudo quanto quiser conquistarei! Vou com a minha vontade! Ela é mais forte do que tu!

E virando as costas encaminhou-se para jusante. Lembrou-se do irmão que as águas transportavam no mesmo sentido. Voltou para trás. Ao passar diante do Senhor, silencioso e quieto, arredou com o pé a pele que o cobrira e, passando adiante, começou a sumir-se na noite que se aproximava.

O cordeirinho de Abel assistira a tudo sem compreender. E agora via-se entre Deus imóvel e Caim que se afastava.

Escolheu um momento e por fim, balando e às corridinhas, seguiu Caim.

Deus ficou olhando a noite e a sua ponte que nela branquejava. Pensativo, fê-la desaparecer com um gesto. Risos subiram-lhe aos ouvidos. Olhou. Das frestas das pedras caras escarninhas de diabos mofavam dele. Mal disposto, lançou-lhes um olhar que os fez esconderem-se; depois chamou uma nuvem, sentou-se nela e voltou para o céu.
 

acab. de comp. 28/4/38
acab. de rever 4/5/38

 

* In: Génesis (2a.ed. Lisboa: Edições 70, 1986).

O testemunho da guerra

Mini-antologia em torno do tema

Em mais uma forma de testemunhar o tempo que lhe foi dado viver, Jorge de Sena registrou em muitas páginas as não poucas guerras travadas no século XX, que, de vários modos, o afetaram, como teriam afetado aquele grande pintor “que tinha uma coração muito grande, cheio de fúria e de amor”. Alguns excertos exemplificadores:

 

Paredon1
Durante a Guerra Civil Espanhola, crianças “brincam” de fuzilar, reduplicando a terrível realidade cotidiana do “al paredón!”. Foto de Agustí Centelles, de 1937.

 

Em torno da Guerra Civil Espanhola

A falta de médicos e de remédios é que fazia sentir-se, mas era um efeito da guerra. De resto, a falar verdade, leprosos carne, não estavam lá muitos. Da carne? O padre ergueu os olhos, e as mãos quase postas, ao céu que empalidecia; e abanou a cabeça melancólico. — La lepra del alma es la peor. No es el comunismo la lepra del alma?
(“A Grã-Canária”, Os Grão-Capitães, 1976)

 

Sabe você que um amigo meu, durante a guerra de Espanha, era oficial miliciano em Chaves? E sabe você que os espanhóis do Franco, quando as nossas autoridades entregavam na fronteira algum foragido que se escapara para o lado de cá, mandavam depois uns cartões de convite para irem assistir ao fuziliamento?
(“Os Salteadores”, Os Grão-Capitães, 1976)
A Espanha estava realmente dividida. Os rebeldes consquistavam pouco a pouco os “altos” do Guadarrama, apertavam o cerco a Madrid. Mas parecia que a capital resistira. Dentro de dois ou três dias a situação ficaria mais definida ainda. O governo, por seu lado, apertava o cerco a Toledo. O desespero falsamente entusiasmado com que o Rádio Clube Português incitava os defensores do Alcázar, mostrava que a situação, aí, não era favorável aos rebeldes. O ministério presidido por Giral armara o povo, sem perder o apoio dos liberais, e controlava a situação do território que se revoltara ou onde as tentativas de revolta tinham sido sufocadas.
(Sinais de Fogo, 1979)
Em torno da 2ª Guerra Mundial

A certa altura tive de impor, autoritariamente, a disciplina. E mesmo me vi obrigado a mandar castrar, em execução pública, para exemplo, um homem (…). Eu nunca preguei a liberdade, mas a ordem; nunca preguei igualdade, mas hierarquia; nunca preguei a fraternidade, mas o livre arbítrio da raça que se purificou para tê-lo.
(“Defesa e justificação de um ex-criminoso de guerra”, Antigas e novas andanças do demônio, 1978)

 

Em torno da Guerra Colonial na África

— Tás a ver? A gente não sai daqui.
— Mas se agente aqui fica, estamos perdidos!
— Ora! Tanto faz a gente perder-se aqui como lá. Matam-nos de qualquer maneira. Toda esta pretalhada é contra nós.

(“Capangala não responde”, Os Grão-Capitães, 1976)

 

Poemas de Jorge de Sena sobre guerras:

2a. Guerra: “ Cinco Natais de Guerra, seguidos de um fragmento em louvor de J.S. Bach” (poemas de Pedra Filosofal, 1950).

Guerra do Vietnam: “ Cadastrado” e “ A vida e a morte como investimento segundo áreas geográficas” (poemas de Seqüências, 1980).

Todas as guerras: “ Carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” (poema de Metamorfoses, 1963).

 

A propósito do tema, e das relações entre História e Literatura em Jorge de Sena, ver:
ROMÃO, Márcio. Jorge de Sena: um escritor em tempo de guerras. In: Metamorfoses 8. Rio de Janeiro/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/ Ed. Caminho, 2008 p. 159-169
ROMÃO, Márcio. Das memórias à ficção: o quase de Jorge de Sena. In: Metamorfoses 9. Rio de Janeiro/Lisboa, Cátedra Jorge de Sena/ Ed. Caminho, 2008 p. 29-36

 

Capangala não responde

De Os Grão-Capitães. Em vídeo: Cenas de guerra no ultramar português. Voz de Salazar (“Sem hesitações…”).

 

Escrito no Brasil, em Assis, e datado de 25 de junho de 1961, este conto de Os Grão Capitães é um dos primeiros textos ficcionais da Literatura Portuguesa a tomar como cenário a guerra em África. Decerto, Sena valeu-se das informações sobre ela que abundantemente chegavam ao jornal paulista Portugal Democrático, no qual atuava desde 1959.

A excisa virilidade de Urano caiu no mar inquieto, aonde, da terra firme, Cronos a lançara. E por muito tempo vagou desencontrada. (apud Teogonia de Hesíodo)

“África, 1961”

– Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Um momento, trrrr… Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Já ouvi. Espere. Capangala?
– Patrulha 20 chama Capangala.
– Capangala não responde. Zzzzzzzz. Tique.

Pousou o telefone na caixa, levantou-se (estava de cócoras ao lado da caixa). De mãos nos bolsos, ficou a olhar o telefone de campanha, adiante das biqueiras das botas. O 37, esparramado nas ervas baixas e empoeiradas, roncava num sibilo como o do telefone. Voltou-se. O 401, sentado no chão, com os braços cruzados nos joelhos, levantava para ele um rosto parado e mudo, onde os olhos pareciam muito negros na lividez quadrada de rosto de menino imberbe. Ao lado do 401, estavam pousadas as pistolas-metralhadoras, os cunhetes de munição, os sacos de granadas, as mochilas. Percorreu com os olhos o campo que, para além da aberta em que estavam, era um mar de capim ralo que lhe chegava ao peito. Uma, duas árvores negras sem folhas. Os cocurutos dispersos como sentinelas, e amarelados, dos formigueiros.

– Patrulha 20 chama Capangala.
– Zzzzzz…
– Patrulha 20 chama 18. Patrulha 20 chama 18. Patrulha 20 chama 18.
– Zzzzzz… – novamente se levantou, mas não se voltou para o 401. A voz deste é que veio despertá-lo.
– Também não respondem? Já não respondem. Foram mortos. A esta hora, nesta hora, estão a capá-los, a…
– Cala-te! – berrou sem se voltar.
– Vamos morrer aqui. Se a gente se separa, matam-nos. Se nos agarram juntos, matam-nos. Essa negralhada toda a esfaquear-nos. Mas eu antes queria que ninguém me visse morrer.

Voltou-se: — Porquê?

O 401 desviou para o chão os olhos negros, pousou nos braços a cabeça: — Tenho vergonha.

– Vergonha?
– Sim… Não é de que ma vejam, mas de que tu ou aquele ainda estejam vivos e vejam eles caparem-me.
– Não te rales; só te fazem isso depois de morto.
– É a mesma coisa.
– A mesma coisa… — e levantou os olhos para a planura onde o ar tremia sobre as ervas. — Para que precisas tu dela, se estás morto?

Quando fixou o 401, os olhos negros estavam fitos nele, muito arregalados, numa ânsia.

Repetiu: — Para quê? Se estás morto…

O 401 estirou as pernas, deixou cair o tronco, ficou deitado, com os olhos vagueando nas nuvens baixas e brancas, e pôs as mãos cruzadas sob a nuca. Depois, voltou a cabeça, cuspiu para o lado, e o cuspo ficou escorrendo do canto dos lábios. Com os olhos envesgados, fitou o cuspo que escorria. A voz veio molhada por entre os dentes: — Capangala… Que raio de nome!… Meteram-nos numa boa alhada.

O outro não respondeu, e sentou-se no chão ao lado dele, do lado do cuspo, e estirou-se apoiado no cotovelo. A mão brincou com a poeira fina, fazendo riscos, ora com um dedo, ora com outro. — Vamos ficar aqui?

– Não me perguntes a mim, pergunta a esses filhos da puta dos teus amigos que nos mandaram para cá.
– Ninguém me mandou.
– Porque era dos trouxas, dos que vieram para salvar esta merda. És dos que sabem tudo e mais alguma coisa, dos que mandam… Eras “legionário”, não?
– Não era. Eu alistei-me.
– Ah foi? Pois cá a mim convocaram-me. E é porque naquela terra maldita não há onde um homem se esconda. Ou não me pilhavam aqui.
– Eles pagavam um prémio… Eu alistei-me.
– E que fizeste com o prémio? Foste às putas da alta cinco vezes ao dia até embarcares?

O outro riu silenciosamente, e respondeu: — Mais ou menos… — e, pigarreando, corrigiu: — Não. Eu precisava de me escapar de lá.

O 401 tornou a cuspir, e os dedos dele vieram rodear a saliva em que o pó se colava. Sem levantar os olhos, perguntou: — Qué que tinha sido?

– Oh, muita coisa.
– Mas o quê? Mataste, roubaste, fodeste alguma gaja? E não era melhor ficares na cadeia vivo do que morto aqui?

De súbito, ambos estavam de joelhos, segurando as armas, fitando as ervas pardacentas, quase sem cor, que pareciam mexer suspeitamente no ar que tremia.

– Não foi nada – disse o 401, mas a pele mais lívida era-lhe percorrida por tremuras como a de um cavalo ao sol. – Conta. Qué que tinha sido? – e não desfitava a planície, com os olhos saltando rápidos de um ponto para outro.
– Nunca matei ninguém. Fodi muita gaja que nunca se queixou.
– E eram todas virgens. Desvirgaste muitas?
– Algumas.
– Como é?

O outro olhou-o de esguelha, num relance: – Como é?

– Sim… Foram todas à primeira? Rebentaste logo com aquilo?

O outro, sem desviar os olhos da planície, tirou do cano da arma a mão esquerda que se crispara, espalmou-a recurva na massa do sexo, que apalpou. – Ahn? Que é que tu julgas que isto é?

O 401 calou-se, suspirou. Depois, rindo, sentou-se nos calcanhares, com a metralhadora no regaço, e perguntou:
– Mas então qué que tu fizeste? Roubaste? Eras ladrão fugido?

O outro sentou-se também nos calcanhares, baixou os olhos, abriu a boca, tornou a fechá-la, depois curvou-se para a poeira amarelada, e foi para ela que falou: – Nunca roubei nada. Mas eu queria viver bem. Não trabalhar. Trabalhar, para quê? Eu não tinha ninguém. Lancei mão de tudo. Fui informante.

– Informante? Eras “bufo”?
– Bufo, não. Eu andava com este e com aquele, falava com este e com aquele, e depois pagavam-me as informações.
– E foi por isso que te alistaste?
– Quando eu tinha estado na tropa, não precisava de pensar no que havia de fazer no dia seguinte. A gente, com arte, safa-se, e a cama e mesa não prestam, mas não faltam. E eu não aguentava mais. Todos desconfiavam de mim.

O 401 sentou-se de lado, voltado para ele: – Deixa lá, não penses nisso. Agora, já não adianta. Eu tinha um bom emprego numa oficina. Quando algum vinha à surrelfa conversar comigo, assim como tu havias de fazer, eu não dizia nada. Também não tinha nada que dizer. Essas coisas não eram para mim. Havia polícias, havia bufos, e o meu emprego também. Eu nem sabia que a África existia, nunca lia jornais. Ia casar-me – e repetiu, erguendo o olhar vago: – Ia casar-me.

Os olhos pousaram na cabeça do outro, ainda cabisbaixa. O outro sentiu o olhar, levantou os seus, sorriu. O 401 sorriu também, e disse: – Deixa lá, ao menos gozaste a vida.

O outro continuou a sorrir, jogou no ar um grãozinho maior da terra ressequida: – Não gozei… Era sempre outra coisa o que eu queria.

– Mas às vezes foi bem bom, não foi?
– Foi.
– Vês? Foi bem bom. Gozaste a vida. E não gostas de lembrar-te dos bons bocados que tiveste? Agora, tás a lembra-te, não estás? E só dos bons bocados, não é?

O outro ficou calado. E, de repente, deitou-se de bruços, sacudido por soluços fundos, dando socos no chão, batendo no chão com as biqueiras das botas.

O 401 acocorou-se, pousou-lhe as mãos nas costas, segurou-lhe depois a cabeça por um punhado de cabelos louros: – Não chores… Tás a lembrar-te? Tás a lembrar-te de que uma vez nem dormiste, toda a noite em cima dela? Tás a lembrar-te de que uma vez foi na praia, ao domingo, entre as pedras, e que se ouviam os putos a jogar à bola? Tás a lembrar-te de uma sardinha assada? Tás a lembrar-te de que ela te mordia? Tás a lembrar-te de que uma vez foi numa escada escura? Tás a lembrar-te de que passavas por diante da janela e ela mexia as cortinas para tu subires? Tás a lembrar-te de que ias à janela do comboio, e os montes iam andando à volta? Tás a lembrar-te delas todas? E do que comeste? E do cheiro que vinha dos restaurantes? E duma gravata às riscas que havia na montra? E de fazeres músculo diante do espelho? Tás a lembrar-te de tudo?

O outro voltou-se, com os olhos cheios de lágrimas, e a boca suja da poeira amarela: — Como é que tu sabes? Quem foi que te contou?

O 401 ficou a olhá-lo, abanou a cabeça: – Ninguém… São tudo coisas que eu pensei.

O outro sentou-se, esfregou os olhos com as costas da mão: – É que a gente pensamos todos o mesmo?

O 401, ainda de cócoras, disse: – Se calhar, é.

Ficaram ambos quietos. E o outro perguntou muito baixo: – Mas tu perdoas-me o mal que eu fiz?

O 401 não disse nada.

Ambos fitaram o 37 que continuava deitado de costas, sibilando pela boca entreaberta.

– Ó 54… — começou o 401. – Será que ele é com’a gente?
– Há-de ser. Não vês como ele dorme?
– Eu durmo assim? Com a boca aberta? Já viste?

Entreolharam-se, riram.

O sol rompeu por entre as nuvens, dardejou, o 37 sentou-se espavorido, esfregando os olhos, e logo procurou com as mãos a arma que estava do outro lado da clareira.

Os outros entreolharam-se e tornaram a rir.

O 37 fitou-os com os olhos piscos.

O 401 falou-lhe: – Estamos isolados. Ninguém responde. Acabou-se.

O 37 levantou-se num ímpeto e imediatamente se agachou: – Ninguém responde?

– Não, se queres, experimenta.
– Há quanto tempo não respondem?
– Sei lá – e voltou-se para o 54: – Há quanto tempo?

O 54 encolheu os ombros.

– Então vamos recuar, voltar à base – disse o 37.
– Qual base? – perguntou o 54, e deu uma cotovelada no 401.
– Capangala. Voltamos a Capangala. Não vamos ficar aqui.
– Vai tu sozinho – disse o 401.

O 37 olhou demoradamente para um e para outro. Depois, repetiu: – Sozinho?

– Sim – respondeu o 54. – A gente não sai daqui. Ó 401, a gente sai daqui?
– Não – disse o 401.
– Tás a ver? A gente não sai daqui.
– Mas, se a gente aqui fica, estamos perdidos!
– Ora! Tanto faz a gente perder-se aqui como lá. Matam-nos de qualquer maneira. Toda esta pretalhada é contra nós.
– Não é verdade! São fiéis – disse o 37. – Só esses bandidos que vieram do Congo é que querem matar-nos. São pagos para isso.

O 54 deu uma cotovelada no 401. Este olhou-o de relance. Riram ambos; e o 54 disse: — Ah são? Também os teus amigos me pagaram muitas vezes.

– Os meus amigos? Que é isso dos meus amigos? Quem são os meus amigos que te pagaram? Pagaram para quê?
– Ora… Para saberem quem estava farto de os aturar. E sempre te digo uma coisa. É muita gente. Ó 401, não é muita gente?

O 401 baixou os olhos. O 54 tornou a dar-lhe uma cotovelada: – Anda, diz-lhe que são muitos. Não tenhas medo. Agora, já se pode dizer.

O 401, sem levantar os olhos, repetiu: – São muitos… – e acrescentou: – Mas eu não sei se são muitos… Tu é que sabes. Mas se fossem muitos, os outros não atiravam com a gente para aqui. Se fossem muitos, era diferente. Se calhar, não são muitos.

O 54, então, disse de olhos pregados no 37: – São muitos, garanto que são muitos, o que todos ou quase todos têm é medo de gajos como esse.

– Como quem? – perguntou o 37.
– Como tu – respondeu o 54.
– Como eu? O que vocês são é uns merdas, uns maricas, uns comunistas.

O 54 deu outra cotovelada no 401: – Tás a ouvir o que ele diz?

– Estou – disse o 401.
– E a gente vai deixar esse gajo chamar-nos aquilo tudo? Eu conheço esse gajo de ginjeira. É dos que passam a vida a bater no peito, a dar vivas ao Salazar, a pensar que a gente somos todos uns merdas. Ó 401, nós somos merdas?
– Não – respondeu o 401.
– Vês? – disse o 54 ao 37. – Nós não somos merdas. Olha, e maricas também não, que isso de dar vivas ao Salazar é que é uma maneira de levar no cu como outra qualquer.

O 37 atirou-se a ele, rebolaram ambos engalfinhados, derrubaram o 401 que se enovelou no grupo. A poeira levantava-se em torvelinhos lentos que ficavam pairando sobre eles. Por fim, o 54 tinha o 37 a torcer-se debaixo dele que o montava e lhe socava a cara, enquanto o 401 lhe segurava os braços. A resistência do 37 afrouxava, as pernas já não se agitavam. O 54 ia perguntando: – Tens a tua conta? Queres mais? Tens a tua conta? – até o outro, com os lábios ensanguentados e o nariz a escorrer sangue, ficou quase inerte sobre ele.

O 54 desmontou, ficou acocorado ao lado. Largando os braços do 37, o 401 acocorou-se do outro lado. O 37 gemia. Por cima do corpo estirado, o 54 perguntou: – Ó 401, a gente somos maricas?

– Não.
– E ele? É?
– Tanto me faz que seja como que não seja.
– Isso mesmo. E comunistas, a gente é?
– Lá na oficina, uma vez, quiseram pedir aumento de salário, o patrão chamou a polícia, e os gajos vieram e chamaram comunistas a toda a gente. Mesmo aos que não tinham pedido nada, como eu. Achas que a gente é?

O 37 não respondeu. A custo, ergueu-se num cotovelo, depois sentou-se curvado para a frente, e disse: – Não podemos ficar aqui, à espera que nos matem. Temos de vender cara a vida, para que se não diga que não morremos com honra.

– Com quê? – perguntou o 54.

O 37 murmurou: – Com honra.

– Qual honra? A tua? A minha? Aqui a do 401? A dos teus patrões? Quem é que se rala com isso? E quem vai saber como é que tu morreste? Queres que venha o teu nome no jornal? É para ganhares uma medalha? Dão-ta de qualquer maneira. E, depois de morto, podes pendurá-la no lugar dos colhões que os pretos te cortarem. Até pode ser que te dêem duas, uma por cada um, se é que tens os dois.

E o 401 disse: – Vamos tentar outra vez o telefone?

Os três olharam para a caixa, e o 37 gatinhou para ela, sentou-se ao pé, limpou com a mão os lábios e o nariz ensanguentados, pegou no aparelho, tentou demoradamente comunicações sucessivas. Os outros dois, olhando-o, continuaram de cócoras. O 37 pousou o aparelho, ficou com os olhos nele, depois ergueu-os para ambos: – Ninguém responde:

– Claro que ninguém responde – disse o 401. – Ou estão mortos todos ou cavaram para longe.
– Foram buscar reforços para atravessarem até aqui.
– Espera por essa – disse o 54, e penteou com a mão o cabelo louro. – Quem julgas que tu és?
– O meu pai foi ministro.
– O teu pai foi ministro e tu és soldado como a gente? – gargalhou o 54. – Pois o meu pai era o papa.
– Eu não estudei, e não quis livrar-me da tropa.
– Ah não? Então aguenta.
– E podia ter-me livrado de vir para aqui, porque bastava que o meu emprego dissesse que precisava de mim para o esforço de guerra, e o meu pai falasse no Estado-Maior.
– Falar onde? Esforço de quê? – perguntou o 54. – Olha lá o esforço que fazes. Já não precisas de fazer esforço nenhum. Ó 401, não é que até para cagar não vai precisar de esforço? Quando os pretos aparecerem, borra-se logo pelas pernas abaixo.

O 37 passou a mão pela boca, não reagiu, e apenas disse secamente: – Mesmo que isso me acontecesse, é uma reacção automática, não prova nada contra a minha decisão de lutar pela pátria.

– Olha lá – perguntou o 401, lançando ao 54 um olhar rápido, – tu és de Angola? Já cá tinhas vivido?
– Não sou de cá, nem vivi aqui mais do que vocês – e, após um silêncio, acrescentou: – Nunca tinha saído de Portugal senão para ir à Espanha, a França…
– Ah, o teu pai pagava-te as viagens, não era? – perguntou o 401. – E na Espanha qué que tu fazias? Fodias as espanholas? E na França?

O 37 franziu o sobrolho.
– Não lhe fales nessas coisas que ele não gosta – disse o 54. – Não gostas, pois não? Era só às escondidas do padre-confessor, hein?

O 37 empertigou-se: – Não te admito…

– Não admites o quê? Não admites o quê? Olha, sabes o que mais? Mete a tua pátria no cu. Sabes o que é a pátria que a gente tem? Que tu e os outros nos deixaram? Sabes aonde está a nossa pátria? A pátria está onde está isto – e agarrou com a mão no sexo.

O 401 riu-se, e logo o riso se lhe suspendeu, vendo o 37 levantar-se lentamente, com os queixos cerrados, as mãos estendidas, e de pronto debruçar-se cambaleante à saraivada de tiros.

O 54 continuava de cócoras, mas a pistola-metralhadora ainda estava erguida nas mãos dele.

O 401 caiu sentado, com as mãos na boca, olhando ora para ele, ora para o 37 que estava deitado de bruços. As mãos do 37, estendidas, pareciam aranhas prontas a saltar-lhe para as botas, e o 401 encolheu as pernas. Depois, olhou para o 54 que pousara a pistola-metralhadora.

O 54 abriu para ele um sorriso torcido e ajoelhou-se. Baixando os olhos, disse: – Então ninguém havia de pagar-mas? Eu nunca acreditei nessas coisas… mas ele julgava que eram só dele?

O 401 tirou as mãos da boca e murmurou: – Está morto?
– Não sei. Volta-o.
– Eu?
– Sim. Volta-o.

O 401 gatinhou em redor do 37, parou-lhe ao lado, ergueu para o 54 uns olhos suplicantes.

– Volta-o – sibilou o 54, entre os dentes cerrados.

O 401 voltou-o. No lugar em que estivera o corpo, a poeira estava empapada de sangue. Na camisa e nas calças, havia chamuscos vermelhos e orlados de poeira amarela. O 37 tinha os olhos muito abertos, eram claros, e o rosto moreno torcia-se num esgar de que o nariz comprido se afilava mais.

– E se se descobre que ele foi morto com balas nossas? – perguntou o 401, sem despregar os olhos da boca aberta do 37.
– Ora, quando nos matarem a nós, hão-de servir-se depois das nossas armas. E, de resto, ninguém vai ver como é que ele morreu.
– Tu mataste-o.
– Ele ia matar a mim.
– Sabes lá!
– Nem preciso.
– És um assassino.
– E tu? Ainda ontem, eu contei, mataste três pretos, aqueles que iam a correr, e tu mataste-os como se fossem bonecos de pimpampum.

O 401 fitou-o: – Não é a mesma coisa.

– Não é a mesma coisa, porque…

Silvos perpassaram sobre as cabeças de ambos.

O 401 levantou-se e agachou-se logo, tropeçou no cadáver, e caiu com as mãos ao pé de uma pistola-metralhadora que agarrou: – Aí estão eles!

O 54, ajoelhado, com outra pistola-metralhadora nas mãos, disse: – Ainda demoram… Mas não vão querer que a gente gaste as munições. E hão-de querer a gente vivos…

O 401 tremia e, a custo, saiu de cima do cadáver: – Querem a gente vivos – repetiu.
– Bem sabes porquê.
– Não. Não.
– Sim, bem sabes porquê. Senão, não tinha graça.
– Não, não – e tremia.
– Foge – disse muito baixo o 54.
– Ahn?
– Foge…

O 401, com o suor a escorrer-lhe pela testa e pela cara, levantou-se nas pernas bambas.

– Corre…

O 401 vacilou e atirou-se para o meio das ervas, correndo aos arrancos. O 54 levantou-se, foi à borda da clareira, visou com a pistola-metralhadora, e disparou uma rajada longa que fez o 401 levantar os braços, parar, sumir-se.

– Vês que não é a mesma coisa? – disse o 54.

 

Assis, 25 de Junho de 1961.