O Comboio das Onze

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Quand un oeuf casse des oeufs, c'est qu'il n'aime pas les omelettes.
(Paul Eluard e Benjamin Péret 152 Proverbes mis au goút du jour)

 

I – A PASSAGEM DE NÍVEL

Aguardava a passagem do comboio, sabendo que a locomotiva ultrapassava a compreensão da expectativa; que das carruagens fracamente iluminadas raros passageiros teriam sombras recortadas no amarelo das janelas, e as malas postas ao alto encerrariam jornais velhos, roupa branca, um fato mal dobrado. Consumir-se-iam alguns guardas da linha, ardendo pacientes com uma bandeira na mão, espalhando em volta fumo esbranquiçado e cabelos soltos na aragem. De olhos fitos na passagem de nível, outras pessoas suspensas não eram quem esperava, nem os guardas, nem os passageiros. Ao breve sinal da partida, o apeadeiro distanciou-se na curva e sumiu-se logo. Os que não eram nem uns nem outros reconsideraram, analisaram-se copiosamente, de acordo com as regras trifásicas mais comuns, e encetaram uma conversação em voz baixa, ouvida apenas a grande distância, por uns agudos sibilando nas últimas palavras proferidas. Sem dúvida se tratava de autoclismos, pois que os sons se perdiam, continuamente renovados. Na estrada próxima, as árvores cobriam-se de folhas, conforme passavam ou não automóveis lentos, saboreando uma frescura de calçada antiga. A humidade ambiente, que persistia absolutamente incógnita, inseria-se na conversação. Pouco a pouco diluíram-se os conversadores, tanto mais que, em verdade, não estavam lá. Foi então que o espectador inicial, muito lentamente, atravessou a linha e se dirigiu à barraca do guarda. A semelhança entre a barraca e uma cabina telefónica ao fim da rua era flagrante. Apenas dentro da barraca havia, de furta-fogo, uma lanterna acesa. O guarda, cujo bigode era grisalho e pendia silencioso, habituado a ser mordido, inquiriu: — Espera pelo comboio das onze? — A pergunta acordou ambos os contendores, porque o eram de facto. Brilhou na noite tranquila uma lâmina de várias folhas, muito típica. O guarda estertorou convencionalmente, à luz da lanterna, que o assassino desviou com delicadeza. Alguém se aproximava pela valeta fora; ouvia-se estalar o saibro, passo a passo. Então, amassando cuidadosamente algumas teias de aranha existentes nos vidros mais partidos, o assassino preparou, com sangue da vítima e algum cotão da mesma, uma pequena pasta, que guardou numa caixa que trazia na algibeira direita do sobretudo. O sinal badalou. Ecoaram adros de aldeia, relógios de sala, uma mola partida em qualquer recordação de infância. O saibro estalava mais próximo. Sentando-se honestamente no cachaço do cadáver, o assassino inquiriu: — Espera o comboio das onze? — A figura em frente da porta, vestida de branco, respondeu que não, e espreitou curiosamente. Os cabelos entalaram-se-lhe num dos vidros, entre o caco e o jornal colado como remendo. O assassino repetiu a pergunta. A figura, com voz extremamente cristalina, ratificou a negativa. Suspiraram ambos. O assassino puxou da pequena caixa, abriu-a, e ofereceu à figura uma pitada do conteúdo. Quando a figura se dispunha a aceitar, ouviu-se o ruído de um comboio, muito próximo, repentino. Era o comboio das onze, que parou. Saiu, pisando a calçada húmida, uma mulher de cesto, com uma criança ao colo. Ao pôr-se em movimento o comboio, tanto o assassino como a figura saltaram de repente para uma carruagem de 3.a classe. A carruagem ia quase vazia, mas, não obstante, sumiu-se com eles na curva obscura. A corneta do guarda ficara atravessada na porta da barraca. O telefone tocou abandonado. O guarda não respondeu, nem podia pensar nisso, ocupado como estava em regressar a cadáver depois de sentir-se banco de jardim, rodeado de aragem e de estalar de saibro. Foi então que morreu, consciente de que mal fora ferido, embora o comboio houvesse passado com o atraso habitual.


II – A CARRUAGEM DE 3a. CLASSE

— Chamo-me Infesta — disse a figura de branco sentando-se num banco, onde ia um saloio ainda jovem, que ressonava. — E eu, Pancrácio — respondeu o assassino. Mutuamente se examinaram, aproveitando a oportunidade para se delimitarem no vazio de um comboio suburbano, em que seguiam apenas 20 pessoas, duas das quais naquela mesma carruagem: o saloio e uma mulher de meia-idade, ainda virgem, exalando um característico perfume, que se corporizava no sono do saloio, como se verá. Pancrácio, além do sobretudo que trazia, era muito novo, magro, de feições angulosas, lábios grossos, olhos escuros, sobrancelhas arqueadas, nariz grande e cavado junto aos malares, testa alta, cabelo escuro e levemente ondeado, pele morena um pouco amarelada, orelhas muito secas e despegadas, mãos de dedos grossos e compridos, joelhos agudos. Nem tudo isto se via, mas era constituinte do conjunto observado pela figura de branco. Esta, sob os cabelos de cor indecisa, louros ou castanhos ou pretos conforme as circunstâncias, tinha uma compleição de mulher nova, risonha, muito branca, de um branco creme, facilmente distinguível das pregas flutuantes do vestido alcalino que trazia. A boca vermelha e larga, os olhos claros e fugidios, seios separados, rijos, ancas longas da cintura às coxas, que eram vastas segundo outras concavidades possíveis. Sobretudo as mãos, muito lépidas e libertárias, de dedos fusiformes com as unhas roídas, chamaram a atenção de Pancrácio, sentado no banco fronteiro. A outra passageira seguia no banco adiante, mas do outro lado do corredor. O comboio, de vez em quando parava, alterando o bambolear adormecido do saloio e a atitude erecta da mulher de meia-idade. Pancrácio começou a sentir, por influência do sorriso idiota da figura de branco, e ainda pela penumbra e pelo cheiro a poeira azeda, ambos afrodisíacos, um violento desejo. Se era violento interiormente, e crescente, nem por isso esse desejo deixava de ser ondulatório, com variações regulares de amplitude, que interferiam com as vibrações do comboio, segundo as leis habitualmente harmónicas destes fenómenos. Pancrácio ajoelhou, pegou nas mãos de Infesta, e, durante o tempo necessário ao consumo da saliva em excesso, lambeu-lhe, uma por uma, as inserções dos dedos. Infesta afastava os joelhos e escorregava sabiamente pelo banco, sibilando muito devagar. A mulher de meia-idade, que já várias vezes se agitara ciente dos acontecimentos, principiou então um forte arrulho, muito rebolado e entrecortado de uivos cuspinhosos. Pancrácio agora tinha nos seus braços a figura de branco.


III – O SONO DO SALOIO

O saloio, que afinal, não estava no mesmo banco, esse dormia equilibrado mansamente num dilúvio de pinheiros que um luar esfiava por recantos negros, onde se ouviam ruídos de algumas saias e de cinturas dobradas para o chão. A cabeça, de boca entreaberta, descaía sobre um cesto; e as pernas dele, aos olhos da mulher uivante, eram só calças justas, sempre mais justas no deslizar do corpo pelo banco puído. Ele não era magro como Pancrácio, e era rubicundo; e das melenas claras que para a testa desciam poderia concluir-se que, se abrisse os olhos, estes eram azuis. Respirava em arquejos da merenda que ainda se avolumava entre as toalhas de franja que sobravam da cesta. Sentado em frente da mulher de meia-idade, por um leve contacto dos tornozelos dela contra as botas se insinuava e subia pelas pernas dele uma amargura seca, hesitante e tímida, perfume característico, sem audácia, sem viscosidade, que se distinguia das poeiras que penetravam Pancrácio pelas narinas untuosas. Os olhos dela despiam-no, numa ignorância total de como se despe um homem que dorme. Mas não eram tais olhos, que se aguçavam por ingénuos cálculos, o que repercutia no sono do saloio, mas aquela ascensão peculiar, arripiando-lhe sub-reptíciamente os pêlos das pernas, alastrando como uma pele cariciosa por todo o corpo oculto na massa de roupa contraída e sono titilado que ele estava sendo. A mulher pegou então da pequenina mala que tinha pousada no banco, retirou os pés do suave aperto em que detinha o dele, abriu a mala inteiramente preta e de couro falso, e procurou com cuidado uma escova de unhas. Depois, pondo-se de pé e segurando-se com uma das mãos às costas do assento do saloio, poliu-lhe carinhosamente as sobrancelhas, o buço mal rapado e perlado de suor, alguns cabelos que da camisa saíam, e anatomicamente o percorreu com sempre a mesma minúcia, como quem pé ante pé pesquisa um quarto escuro. O saloio, cada vez mais adolescente, bamboleava-se não já do embalo do andamento, mas sonhava que…


IV – O ARROZ E A MOSTARDA

Pancrácio e a figura reclinada nos seus braços conversavam.

— Se procurares que a chuva não te suje a testa, importa que acrescentes uma pedra ao caldo.

— É evidente, meu amor Infesta — dizia ele —, que sempre e desde sempre te darei da caixa uma pitada.

— Ouvi dizer que nunca encomendaste outros remédios, além dos que se tomam de quatro em quatro horas.

— Às onze, por isso, eu sabia que nos encontraríamos. Quando quiseres, fora das onze, que nos encontremos…

— Mas não são já onze, e vamos no comboio. Nem todas as teias, sabes?, são das que nos servem. Umas há que não se misturam. E outras vezes é o sangue dos guardas que não liga com elas.

Ficaram calados, pensativos, só então ele notando que Infesta estava com as vestes pela cabeça, e que a cabeça sem olhos, nem boca, nem ouvidos, nem sequer cabelos, era uma imensa nuvem de adejantes têxteis. Mas, notando assim, Pancrácio por seu lado não saberia dizer se ela estava nua ou não, se era Infesta ou não, se a possuíra ou não. E perguntou a Infesta. Ela recordava-se.

Foi então que a cesta do saloio caiu do banco.

Pancrácio e a figura esticaram-se para ver. Da cesta um arroz-doce escorria e se espalhava no chão. E a mulher de meia-idade, à luz vacilante da carruagem, tinha o saloio atravessado no colo, com a cabeça caída e os braços caídos, e compunha um grupo curiosíssimo, uma espécie de Pietà, que apenas outros gestos multiplicavam.


V – MAIS ARROZ E MOSTARDA

Infesta nada podia ver, de envolta nos vestidos que, violentamente, Pancrácio lhe arrancou. Nesse instante preciso, num chocalhar de freios e ferragens, o comboio parou. Parou tão de repente, que o saloio caiu, a mulher de meia-idade ficou ainda como se ele estivesse onde estava, Pancrácio franziu a testa e tombou sentado entre os bancos, no corredor, em cima do arroz que vinha da cesta do saloio. Lá fora apregoavam água, jornais da noite. Depois, as luzes da estação, e outras que havia mais longe, dentro do escuro, começaram a deslizar com um ruído surdo. Olhando uns trapos sujos que tinha na mão, Pancrácio verificou que Infesta desaparecera. A outra sua mão estava cheia de arroz. Largou os trapos, levantou-se, cambaleou um pouco ao passar a carruagem por umas agulhas que estrondearam, e, tirando da algibeira a caixa do unguento, dirigiu-se à mulher de meia-idade. Ambos, sorrindo um para o outro, se serviram do arroz que estava na mão e no sobretudo de Pancrácio, com umas pitadas bem medidas da pasta alimentícia e contumaz. Depois, inclinando-se ambos, ajudaram a pôr-se de pé o saloio que, do chão, os fitava interrogativamente. Sentada sempre a mulher, Pancrácio, ao lado do saloio, guiou as mãos dela, que foram despindo assim por completo o jovem. Este, de olhos baixos, seguia os gestos, como se só então reconhecesse aquele corpo que tinha tão desperto. Quando Pancrácio, a seguir, desabotoou o sobretudo, ele mesmo e os outros dois viram então que estava nu. A mulher de meia-idade deitou-se ao comprido no banco, fechou os olhos, e esperou. Pancrácio começou por enfiar-lhe na boca os trapos que largara.


VI – O TELEFONE

Na cabina telefónica onde o guarda ficara morto, o telefone tiniu. O vento sibilava matutinamente já por entre a tepidez do ar, a qual rodeava a frialdade cadaverosa do homem de bigode e mesmo algum cotão que espreitava dos refegos dos bolsos meio revirados. Um gato correu rapidamente ao longo dos carris que começaram a vibrar cada vez mais. Um apito se ouviu ao longe. Pancrácio abriu a porta, entrou e disse: — Ergue-te e caminha!


1948-1960