Os Corvos de Minerva

postal_recifeO fragmento a seguir, sem data indicada e publicado como inédito em 1983, nos Quaderni Portoghesi, reporta-se à primeira visão, literalmente, que Jorge de Sena teve do Brasil, ainda do avião que o trazia, em agosto de 1959. O comentário de Luciana Stegagno Picchio a este texto inconcluso traz-nos coordenadas preciosas para sua compreensão.

A primeira impressão que teve da cidade foi de um pequeno povoado em que as ruas geometricamente traçadas se perdiam no campo e telhados vermelhos de casas baixas surgiam de entre o arvoredo. O aviãozinho deu uma volta sobre a cidade, antes de pousar. A sensação de comovida euforia, que lhe pusera no olhos que desciam do alto sobre o amarelo avermelhado da paisagem uma humidade de ternura, cedeu um pouco, quando os olhos procuraram a gare do aeroporto e encontraram só uma barraquinha de madeira, para a qual o avião se dirigia. Mas tudo foi esquecido na decisão, que já tomara, de aceitar o convite, e na cortesia atenciosa dos futuros colegas, nas manifestações de cordialidade dos alunos. A euforia era ainda aquela com que levantara voo da Espanha, em direcção à América do Sul, numa hora particularmente difícil, em que, por momentos falhos e de resultados ameaçadores, as linhas decisivas da sua vida e da vida de Espanha se tinham cruzado. Poderia ter amanhecido alta figura política de uma pátria nova, e amanhecera, em certo dia, apenas comparsa de uma história obscura, sinistra e ridícula, cuja importância, para efeitos persecutórios, dependia inteiramente das conveniências políticas do Ditador ou da extensão das informações de que disporia, ou viria a dispor, a polícia. Mantivera sempre, em face do Governo, uma atitude de firme e prudente oposição, e, persistentemente trabalhara, com a mais discreta das reservas, para aproximar os núcleos oposicionistas, cujas divergências o Ditador habilmente explorava, ou para despertar, em membros influentes de outros grupos que politicamente oposicionistas, jogavam na «transformação» do regime, uma consciência de irredutibilidade. Em parte, era o inspirador longínquo do dispositivo que se desenvolvera depois, como um organismo autónomo, cujos meandros e cujas sujeições procurava ignorar, na preocupação de, ao mesmo tempo, salvaguardar a sua isenção extra-partidária e de continuar sendo o elo de ligação entre tendências opostas, sem o entendimento e a aproximação das quais nenhuma intentona seria possível com êxito. Durante vinte anos, a sua posição fora idêntica: não comprometer, por qualquer manifestação imprudente ou qualquer diligência menos discreta, a independência dos seus juizos, muitas vezes expressos com violência, mas apenas subordinados a uma exigência de esclarecimento, de elucidação, de verdade. Na vida cultural como na política, não procedera de maneira diferente; e, por isso, o seu prestígio — conquistado à força de cultura, de inteligência e de integridade, contra todos os conluios de pequenas conivências, e na recusa à complacência com qualquer mediocridade — era um equilíbrio igualmente difícil, apenas garantido por uma actividade enorme de crição e de crítica e pelo respeito que a sua personalidade impunha. Tudo isto se reflectia numa situação curiosamente contraditória. De um agnosticismo em que o ateísmo materialista e um catolicismo esotérico se fundiam, tinha amigos jesuítas, com grande suspeição dos seus amigos de extrema-esquerda. Extremista de esquerda, sem sujeições nem entendimentos partidários, era estimado e admirado por criaturas de direita, que viam nele o vanguardismo cultural que se opunha ao bisonhismo literário dos vanguardistas políticos. Republicano mas indiferente e adverso à questão do regime, os monárquicos encontravam nele uma compreensão que os fascinava. E a sua irredutibilidade em relação à situação vigente, claramente sentida por todos, mas exercida com uma liberdade de movimentos que não caíam abertamente na alçada da polícia, por notoriamente não serem «partidários», não menos permitia à conspiração da mediocridade (integrada na situação política, ou fruindo das vantagens que a compreensão da censura oferecia a todas pro ou contra aquela situação) relegá-lo a um puro prestígio que nenhuma cátedra, nenhuma distinção socialmente efectiva, garantia ou assegurava. Não tivera, de resto, ambições nunca; e, se aceitara as responsabilidades que lhe haviam pedido, fora por elas decorrerem de tudo quanto fizera, e por reconhecer que não podia nem devia eximir-se a representar, na prática, o papel de fiel da balança, que fora sempre o seu. No momento em que tudo desabava por cobardia de uns, por maquiavelismo de outros, por terrível inconsciência das realidades de quase todos (décadas de repressão e de afastamento do mundo só a raros indivíduos não haviam imposto, em comum com os arregimentados da situação vigente, uma mentalidade passiva, céptica, cheia de falsos escrúpulos e de um medo de perder o pão de cada dia, que o Ditador tinha artes consumadas de, sem escândalo, retirar a quem lhe aprouvesse), sentia que uma época da sua vida se encerrava. Daí em diante, a sua posição não poderia mais ser a mesma: ou enveredava, de mistura com muitos, por novas combinações mais sinistras, ao fundo das quais poderia estar a própria sombra do Ditador, e isso repugnava totalmente à sua irredutibilidade; ou mergulhava, com sacrifício de uma independência de intelectual orgulhoso, na clandestina actividade partidária que sempre apoiara sem participar dela, e tais riscos não poderia correr, chefe de família numerosa e sem quaisquer recursos de fortuna, que, nas horas amargas, protegessem da fome a sua tribo. Por isso, aquele convite transatlântico para um Congresso da Hispanidade, ironicamente chegado nas horas esperançosas da vitória certa, se tornara angustiadamente a possibilidade única da libertação que não viera, e da consagração que, nas horas silenciosas de uma noite de expectativa, silêncio a silêncio ele vira que não vinha. Até ao último momento, enquanto atravessava, de mala na mão, o campo, duvidara de que o deixassem partir: quando se voltava para dizer adeus à família e aos amigos que se despediam por quinze dias, voltava-se também para verificar que nenhum vulto, seguindo-o subrepticiamente, não estava prestes a agarrar-lhe um braço, a pôr-lhe no ombro a mão do poder discricionário. No mesmo avião seguiam outros convidados que infantilmente exorcismavam, na alegria esfusiante de uma agitação nervosa, o medo do voo transatlântico (não eram próceres habituados a voar com a segurança de serem grandes do mundo), a atmosfera pesada de uma pátria oprimida (que mesmo os integrados submissamente não deixavam de sentir que ficava lá em baixo, como um halo em torno do mar de luzes da cidade), e até a satisfação curiosa de irem pisar, perplexos e estranhos, a terra do Novo Mundo. Para todos, aquilo era como uma escapada de colegiais em férias de internato. Para ele, mais do que um voo, era um salto no espaço. Noutra escala, muitos outros saltos desses dera na vida: sem outra hesitação que não a saudade, que sempre estupidamente sentia, do que as coisas poderiam ter sido, se menos envenenadas pela mesquinhez, pela ambi
ção, pela deslealdade humanas, já outras vezes se despedira abruptamente de uma vida ou de um emprego, para começar de novo. Era, dessas vezes, porém, mais jovem, menos desiludido, e, sobretudo, menos responsável para fora da sua pessoa. Sabia bem, e com cepticismo triste, quantos punham nele os olhos e os ouvidos, à espera do incentivo para continuarem firmes; e quantos se felicitariam de vê-lo pelas costas, para mais impunemente pactuarem a ocultas de grandes exibições de truculência desassombrada. Mas a verdade é que, não aproveitando a oportunidade, teria sempre a sensação, que era tão sua, de ter traído o destino; e, agora, não só o destino, mas também aqueles mesmos que confiavam nele. A América era uma memória vaga da sua adolescência, e o Prata, que se admirara de não ser prateado mas sombriamente barrento, ainda lhe brilhava assim nos recessos juvenis do espírito, lá onde o primeiro grande sonho da sua vida – respirar livre o ar marinho dos espaços imensos – se desfizera humilhadamente na demissão compulsiva que coroara (tão jovem ainda, e quando essas coisas da violência ditatorial não eram, no entrechoque das paixões políticas, compreendidas ainda em termos de uma nova linguagem de prepotência subreptícia) a sua independência ingénua e honesta. Enquanto, porém, os companheiros da grande viagem transatlântica se acomodavam para dormir inquietamente, apenas confiados na regularidade ronro-nante dos quatro motores do DC-7, a América fora para ele a Terra da Promissão, da liberdade ainda que precária, de uma hispanidade levada ao patrioteirismo repugnante de uma pátria ensimesmada, pela malícia de um fascismo de nação decadente, na contemplação narcísica das passadas glórias; fora, sem dúvida, a imagem daquilo que não se encontra nunca, porque o veneno peninsular é pervasivo e subtil na sua grosseria ostentosa, mas que, não se encontrando, não é todavia em nós mesmos que se não encontra. A chegada, com o tumulto arrebanhado de um numeroso congresso que é sempre um pequeno mundo ilusório, feito dos abraços efusivos de antigos conhecimentos vagos que se tornam amigos de infância (durante uma semana) da vaidade das apresentações sempre encarecedoras e das intervenções em plenário, das mesuras generosas para quem, […]

In: Monte Cativo e outros projetos de ficção. Porto, ASA, 1994, p. 157-163

 

Comentário de Luciana Stegagno Picchio:

O manuscrito finda aqui. Anota Mécia de Sena: “Entre as coisas inéditas (refiro-me a fragmentos de contos) tenho este fragmento que é uma autoanálise magnificente e, quanto a mim, embora o Jorge o tivesse como um conto, estou convencida que era precisamente um caso em que ele resolvia em conto a falta de tempo para escrever os romances que ele escreveu capitularmente em muitos dos contos. Este para mim ( e tem todo fôlego necessário) era o início do 4 volume do Monte Cativo. Tenho, e esse identificado para mim, o início do Iº volume que são umas páginas excelentes com um entresonho que agora toda a gente faz até à saciedade mas quando ninguém o fazia. São umas duas ou três páginas se dactilografadas…”.

Para quem, como eu, conheceu Jorge de Sena em 1959, na Bahia, no Brasil, justo na ocasião do Congresso da Hispanidade que aqui se recorda e que era mais precisamente o IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, organizado pela Universidade da Bahia, o “conto” se ressemantiza como “crônica” cada vez que busco dar um nome e uma colocação histórico-geográfica a uma personagem, a um lugar, a um fato entomologizado sobre a narração. E eis que, na abertura, a “cidade, pequeno povoado” que se distingue como uma carta topográfica ao olho de quem a perscruta e observa do alto com a “comovida euforia” de quem vê pela primeira vez a própria casa futura, o contentor da própria vida social, esta “cidade”, com um aeroporto que é só uma “barraquinha de madeira”, é sem dúvida Assis, para onde em 1959 precisamente Jorge de Sena se transferirá para ensinar Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras local; mas é ao mesmo tempo Salvador da Bahia, onde acontecerá o Congresso. E a análise existencial, mais de dentro do que de fora, do eu-personagem, narrado como um ele, na terceira pessoa, por um narrador outro que somente nele se identifica como narrador onisciente, esta análise corresponde sem dúvida à descrição da personagem Jorge de Sena no momento mais delicado de sua vida, quando, abandonando uma vida diversa, de engenheiro-letrado português, decide ser unicamente um letrado, que vive a própria aventura humana e poética fora da pátria, exilado, cidadão do mundo. O “Ditador” que ele deixa na pátria, o Salazar do Estado Novo português, parece diminuir de estatura visto de longe, de um avião de fuga e de liberdade, de um voo de aventura.

E presente e futuro se entrelaçam naquele avião no qual intelectuais neófitos em aviões exorcizam com alegria rumorosa o temor da viagem enquanto ao lado deles um “colega”, aparentemente tomado pelos mesmos problemas, em vez disso se interroga, mas no fundo sabendo que esta é, em outro sentido, uma viagem sem retorno. “Para todos, aquilo era como uma escapada de colegiais em férias de internato. Para ele, mais do que um voo, era um salto no espaço”.

Um salto, mas também um sonho: como aquele primeiro grande sonho frustrado na vida, ser marinheiro, como marinheiro havia sido o pai, e como ele, em uma identificação que não necessita de muita análise, “respirar livre o ar marinho dos espaços imensos”.

Uma bela página inédita que, se nos faz penetrar mais fundo no laboratório do Jorge de Sena “contista”, nos abre também uma nova fresta sobre suas experiências de homem.

Tradução de Flavia Tebaldi

In: Quaderni Portoghesi, n.° 13-14 (Pisa, 1983), p. 104-106

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