Amparo de Mãe

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Capa da 1a. edição das peças em 1 ato, 1974

Maio, mês de Maria, mês das mães. Marias e mães são relativamente escassas nas páginas de Sena. Das poucas mães — recordemos a de "Super Flumina Babylonis" e a de "Homenagem ao Papagaio Verde" — nenhuma é exemplo da mãe ideal, ou idealizada. Nesse elenco maternalmente pouco ortodoxo também figura a D. Felismina de Amparo de Mãe, peça abaixo transcrita na íntegra. Datada de 1948, é a primeira das 6 peças em um ato assinadas por Jorge de Sena e foi originalmente publicada na Unicórnio, de maio de 1951. Considerada pelo autor como "sátira violenta e feroz" e "de ferocidade incrível […] afirmou: "nos tempos que correm é irrepresentável". Contudo, no posfácio de 1971, que acompanha a 1a. edição das pequenas peças reunidas, sublinha: "uma observação ainda, referente à eventual encenação […]: Amparo de Mãe, no seu expressionismo realista, exige rigoroso respeito da direcção pelo texto e suas rubricas".

 

PERSONAGENS

Belinha, a defunta; manequim que não fala.
D. Felismina, sua mãe, idade indecisa.
D. Casimira, vizinha prestável, idade mais indecisa.
D. Rosa, parenta de D. Felismina.
D. Conceição, amiga de D. Felismina.
D. Placídia, visita da casa.
D. Edwiges, outra vizinha, pouco prestável.
Aninhas, irmã de Belinha.

 


A cena representa uma dependência mobilada modestamente, misto de casa de jantar a que foram retirados alguns móveis e de sala de visitas sem móveis. É de tarde, o sol teima em penetrar pelas janelas semicerradas. A defunta está entronizada a meio da quadra; em volta, as senhoras velam, lacrimejam e conversam. Da D para a E ou da E para a D, estão sentadas pela seguinte ordem: D. Edwiges, D. Placídia, D. Conceição, D. Casimira, D. Felismina, D. Rosa. As conversas supõem-se em voz baixa e prosseguindo sempre, embora só se «ouçam» de quando em vez.


D. Placídia
(para D. Edwiges) Ai credo!… Nem me diga!…

D. Edwiges
Que eu até julgava que eles não eram casados.

D. Placídia
Lá isso eram. Posso garantir, que muito a pesar meu fui madrinha do casamento.

D. Edwiges
A pesar seu?

D. Placídia
A pesar meu (suspira e cala-se). (pausa)

D. Edwiges 
Minha senhora…

D. Placídia
(fazendo esforços para nada dizer de importante) Está calor aqui… As janelas, neste tempo, assim fechadas… É preciso deixar uma gretinha… (para D. Conceição) Está bastante calor, não acha?

D. Conceição
Muito, minha senhora. (abana-se com as luvas) Também acho. (para D. Casimira) Que calor, não está?

D. Casimira
Não sinto… É das janelas fechadas…

D. Conceição
Nem é saudável ter as janelas fechadas. Uma gretinha… ao menos…

D. Casimira
Ai eu abri… Mas vou ver. (vai às janelas, arranja-as. As outras seguem-lhe os manejos com o interesse excessivo de quem está quieto por obrigação há eternidades. Volta ao seu lugar) Uma tinha, outra não tinha. (pausa) D. Felismina, ó D. Felismina…

D. Felismina
(rompendo em altissonante choro) Parecia que adivinhava… Ai meu Deus… parecia que adivinhava… Ai… Ai… Ai…

D. Rosa
Às vezes há pressentimentos. Há pressentimentos, Felismina. Quem tem a hora marcada… (pausa) Só depois é que a gente vê que o defunto já sabia.

D. Felismina
(chorando mais) …A Belinha… A minha Belinha… nunca soube… nada… Nunca… Não soube ser solteira… não soube ser casada… ai a minha filha… Eu parecia que adivinhava… O meu sonho… o meu sonho na vida, desde que aquele malvado morreu, (D. Placídia — Malvado? D. Conceição — O marido) ser sogra… eu tinha de ser sogra… eu precisava de ser avó… o meu sonho desfeito… ali… ali …(aponta o caixão) desfeito…

D. Edwiges
Que horror, D. Felismina! Desfeito, não!… Até duram dias sem se desfazer… (levanta-se) Está mesmo tão linda, coitadinha… Com o rostinho tão alegre…

D. Felismina
A fazer pouco da minha desgraça!… A fazer pouco da minha desgraça!…

D. Edwiges
Por quem é…

D. Rosa
(levantando-se) Ó Felismina!… (D. Felismina grita; D. Edwiges escandaliza-se; grande burburinho).

D. Edwiges
(rodeada por D. Placídia e D. Conceição) Meu Deus! Meu Deus! Não estou nem mais um instante! Padre-Nossos por alma também rezo em casa! A mim, uma vizinha dedicada! A mim, que até chamei o padre! Sim, fui eu quem chamou o padre!… Vou-me embora… Vou-me embora… (senta-se)

D. Placídia e D. Conceição
Então… Então… Não era consigo… Não era consigo…

D. Felismina
(simultaneamente, e rodeada por D. Casimira e D. Rosa) Sou muito infeliz… Sou muito infeliz… Tantas não querem ter filhos… coitadinha… coitadinha… (vai serenando) Sou muito infeliz… Tantas não querem ter filhos… E eu queria, e só tive esta e a outra… aquela desgraçada… ai a minha vida ai… ai… ai… ai… (senta-se)

D. Casimira (e D. Rosa)
Sossegue… (sossega…) Aquela amiga não estava a troçar… Que ideia a sua… (a tua…) (pausa constrangida, após a tempestade)

D. Felismina
(prosseguindo, lamurienta:) …A outra… a desgraçada… onde parará?… não quis ser o amparo da sua mãe… Anda para aí a rir-se de mim… Eu vi-a… o outro dia… Está um cangalho, cangalho… Já ninguém lhe pega… E também nunca teve jeito para nada… mesmo que quisesse amparar a minha velhice… já não servia… E eu que de pequeninas, pequeninas, as criei e eduquei, com tanto carinho, tanto desvelo, tanto amor, para amparos da minha velhice… Alguma havia de ser… E não foi nenhuma… Aí está essa: alegre, contente, feliz, sorridente… ai que desgraça a minha… (funga longamente)

D. Placídia
(para D. Edwiges) Vê… Vê que não era consigo, vê?

D. Edwiges
(suspirando) Bem me custava a crer… Mas tudo é possível neste mundo!… (relanceia um olhar inquiridor, que D. Placídia não sustenta)

D. Casimira
(para D. Conceição) Ó minha senhora… e eu que mandei pôr os anúncios… que falei com o homem da agência… Felizmente que me lembrei de pôr «e mais família»… Porque há sempre mais família que aparece, e furiosa por não estar no anúncio…

D. Conceição
E é verdade… Ai se a Aninhas aparece!… Que choque para a D. Felismina… (para D. Placídia) Que choque para a D. Felismina!…

D. Placídia
(com ironia, enquanto D. Edwiges procura ouvir) Muito grande… muito grande… pobre senhora… Imagine-se… assim de repente…

D. Conceição
Claro… Entrar-lhe pela porta dentro!

D. Placídia
Ah, minha senhora, que ela quando vem nem bate à porta!…

D. Conceição
Não bate?! Mas, que eu saiba, nunca ela cá veio!

D. Placídia
Pois não, minha senhora… (indica o caixão) Aí está o resultado.

D. Conceição
O quê? Ela foi uma desgraçada, é uma desgraçada. Não sei se a chegou a conhecer. Mas era boa rapariga. Eu conhe-ci-a. E ainda a conheço, quando a encontro. E é boa rapariga; até me evita, foge para o outro passeio. Que culpa tem da morte da irmã?! Com quem não se dava… (sinais de D. Placídia) a quem não via?!

D. Placídia
Eu falava da morte…

D. Conceição
E de quem estou eu a falar?… (pausa, durante a qual D. Edwiges, que escutou sofregamente, se prepara…)

D. Edwiges
Ai esta morte impressionou-me muito! Mal tinham vindo cá para o prédio, travámos relações. E a Belinha era tão simpática também!… Coitadinha… E casada de fresco… (suspiro fundo; depois, para D. Placídia) que é a senhora quem mo garante… Davam-se muito bem, sabe? Saíam quase todas as noites, quando ele cá estava… E aos domingos também. Quando ele cá estava, é claro. Aqui na rua, até se dizia: «Ou é caixeiro-viajante ou não é casado com ela»… Mais a mais que a D. Felismina era raro sair… (pausa) Vocelência vai muito por casa da gente dele, não é verdade?

D. Placídia
(com decisão) Sou uma velha amiga. Conheço-o desde pequeno. E foi ele quem me pediu para eu ser madrinha do casamento. (para D. Conceição, e deixando D. Edwiges suspensa) Mas, minha senhora, que fatal desenlace!… Enfim, Deus escreve direito por linhas tortas… (com secreta satisfação) E vidas mal começadas são sempre mal acabadas.

D. Conceição
Isso não quer dizer nada. Há muitos anos que conheço a D. Felismina. Sempre de uma infelicidade… Nem calcula. O marido nunca teve cabeça, pelo menos já não a tinha quando os conheci. Ganhava bem, gastava tudo. E olhe que o não gastava em casa. A D. Felismina trabalhava para fora, depois as meninas iam crescendo, era uma preocupação. Bem vê, as pequenas vêem os vestidos das outras, as meias das outras… Que haviam elas de ver, coitadas? Os maus exemplos? O pai, com esta fúfia e com aquela fúfia?

D. Edwiges
(não resistindo mais) E agora que a vida se compunha, pobre D. Felismina… Ai, lastimo-a muito… agora…

D. Placídia
(com ironia) Que a vida se compunha, não… Que a D. Felismina a compusera com tanto esforço…

D. Conceição
E que queria a senhora que ela fizesse? Que se deixasse morrer de fome, com duas filhas bonitas, sem mais nada, o mesmo é dizer à beira da perdição?

D. Placídia
Desculpe, minha senhora, mas isso de perdição não é comigo. Não lhes deu hábitos de trabalho, é o que é.

D. Casimira
Ai quem é que não trabalha? Se soubesse, minha senhora, estou às vezes sozinha em casa, começo a sentir-me aflita, pego em qualquer coisa, não é aquela, pego noutra, não é aquela. E acabo por sair, visitar alguém, ajudar seja no que for.

D. Rosa
(a D. Casimira, por diante de D. Felismina) Mandaram logo o telegrama a avisar? Ele terá recebido? Chegará a tempo?

D. Felismina
(suspirando) Não quero vê-lo… não quero vê-lo… Tudo acabou… Eu bem o ouvia dizer-lhe: «Se não fosse a tua mãe, não tinhas casado comigo»…

D. Rosa
Ó Felismina… não há mal nisso, bem vês… Ele era teu amigo, até se sentia grato…

D. Felismina
(abanando a cabeça) Qual… Qual… Eu é que sei… Um pássaro bisnau…

D. Edwiges
(que entretanto se levantou a observar, compungida, o cadáver, ao voltar a sentar-se, e para D. Placídia) O que é o desgosto de ver-se ao desamparo!… Um pássaro bisnau…

D. Placídia
Um pássaro, quê?

D. Edwiges
(com dignidade) Bisnau.

D. Placídia
Bisnau. (pausa) Bisnau quem?

D. Edwiges
O genro. O seu afilhado.

D. Placídia
Ah sim? Quem lhe mandou a ela deixar sempre a capoeira aberta? Ou entravam os galos de passagem, ou as galinhas fugiam, quando algum cantasse lá fora. O Vasco nunca foi melhor do que os outros, mas também nunca foi pior. Um rapaz como ele, um homem que dá gosto ver…

D. Conceição
Lá isso dá. (viperina) Em rapaz, diz-se por aí que não lhe escapou ninguém… Começou cedo… pelas visitas da casa.

D. Placídia
Tal qual, minha senhora. Eu que o diga.

D. Conceição
(a D. Casimira) Que desavergonhada!…

D. Casimira
Credo!… Quem?!…

D. Conceição
(indicando de esguelha) Esta…

D. Casimira
(debruçando-se para ver) Ah!…

D. Conceição
Não olhe!… Que inconveniência!… Sabe ao que ela vem, sabe?… Aos restos.

D. Casimira
Coitada… precisará… (D. Conceição fica sufocada) Sabe Deus que necessidades as pessoas escondem… Enquanto podem!… Uma senhora conheci eu, uma senhora, que passava mal… mal… Até que um dia… Morava para Belém… Começou a ir ao quartel.

D. Conceição
(sarcástica) Aos restos?…

D. Casimira
É verdade!… Que horror!… Só vale pensar que são tudo homens saudáveis, que foram a uma inspecção.

D. Placídia
(a D. Conceição) Não acha estranho que a irmã não apareça?

D. Conceição
Não, minha senhora, não acho. É recatada. Ou não vem, ou espera que seja noite e as visitas se tenham ido embora. Andar de cabeça alta nem toda a gente sabe ou nem toda a gente pode.

(ouve-se bater à porta da rua, precipitadamente. Todas suspenderam as conversas, escutando. D. Casimira levanta-se, vai à janela, espreita)

D. Casimira
Um automóvel, é um automóvel.

(de novo se ouve bater à porta, mas compassadamente)

D. Edwiges
(que foi ver) E que automóvel!…

D. Placídia
Será ele!?…

D. Conceição
(enquanto D. Casimira, dizendo «É para cá», sai para abrir) Não é possível. (D. Felismina, soluçante, seguiu atentamente a cena)

D. Edwiges
(voltando ao proscénio) Quem será?

D. Placídia
(a D. Conceição) Parece que nunca viram um automóvel na vida…

(D. Casimira aparece entre portas, chamando ansiosamente. D. Rosa e D. Conceição precipitam-se. E corre de boca em boca: —A Aninhas… A Aninhas… D. Edwiges comenta: Falai no mau…)

D. Felismina
(soluçando alto) Deixem-me só, por favor… Só com elas… Ai meu Deus… as minhas duas filhas…

(saem todas, com as hesitações da praxe, à excepção de D. Placídia, que sai dignamente, cerimoniando à porta com D. Conceição. Mal se vê só, D. Felismina levanta-se e corre para a janela. Não tem tempo de a atingir antes de aparecer à porta o vulto de Aninhas. Pressentindo-a, D. Felismina volta-se. Aninhas vem de preto, num luto luxuosamente composto de vestuário negro sim, mas de outras ocasiões. D. Felismina, cabisbaixa, dá dois passos, e Aninhas cai-lhe nos braços, de corrida. Choram abraçadas: daqui em diante todo o final é dolorosamente precipitando nas réplicas e lento nos tempos)

Aninhas
Mas como foi, Mãe? Como foi?

D. Felismina
Não sei, não sei como foi. Tudo tão de repente… Andava caída… Ele até implicava com ela… E eu também… Tinha medo, sabes?…

Aninhas
(aproximando-se) A mãe tinha medo… (ajoelha chorando)

D. Felismina
Tinha… (mesmo por detrás dela) de ficar sem ninguém, sem nada… E tu? onde paravas?…

Aninhas
(levantando-se) Pelos sítios do costume.

D. Felismina
Sim… Foi de repente… Quase sem um ai… O médico disse que do coração, mas ela já tinha morrido.

Aninhas
(limpando as lágrimas) Morrer do coração e de repente… (mostrando o lenço) Veja, lá borrei a pintura.

D. Felismina
Depois compões… Era tão tua amiga a tua irmã, perguntava muito por ti…

Aninhas
Fugia de mim…

D. Felismina
Não, até queria ver-te… Mas… a família do Vasco reparava… não podia ser …E tu também não nos procuravas…

Aninhas
Porque a mãe não deixava.

D. Felismina
Ó filha, eu não deixava!… Sempre te estimei… Era preciso guardar as aparências.

Aninhas
As aparências!… As aparências!… Que é que a mãe alguma vez guardou?

D. Felismina
Tudo, guardei tudo. Guardei os maus tratos do teu pai. Guardei os desgostos que ele me deu. E guardei-vos, a ti e à tua irmã, para meu amparo, que não tinha outro.

Aninhas
Só foi pena o meu bater a asa… não cair como este.

D. Felismina
Não me fales nisso. Tu é que tiveste a culpa, que não fizeste como eu te dizia.

Aninhas
(indicando o caixão) E ela fez?

D. Felismina
(dominando-se) Aninhas… Tem dó de tua mãe, que fica só no mundo… Ele põe-me fora… ou vai-se embora… Que há-de ser de mim?

Aninhas
Foi o que eu perguntei a mim mesma quando à senhora lhe deu para a honestidade.

D. Felismina
A tua irmã era uma rapariga séria.

Aninhas
Séria, ela? E quem a vigiava nos bailes do Ginásio? Não era eu?

D. Felismina
Sim, mas essas coisas não têm importância… Não passam de brincadeiras… Não se perde casamento…

Aninhas
E eu perdi… Não tinha encontrado ainda um alentejano rico.

D. Felismina
E encontraste?

Aninhas
Está lá em baixo. Mas não casa comigo.

D. Felismina
Aninhas, pela tua saúde, por alma da tua irmã, peço-te que tenhas muito juízo. (ouve-se o cláxon do automóvel)

Aninhas
Acha que ele casa comigo, chamando-me assim, sabendo o que eu cá vim fazer?

D. Felismina
Aninhas, não me abandones!…

Aninhas
Eu não a abandono, vou-me embora, (o cláxon repete o apelo, irritadamente, até final do acto) Não ouve?

D. Felismina
Aninhas, ela morreu! Ela morreu!

Aninhas
Que quer!?

D. Felismina
Não me abandones! Sou a tua mãe!

Aninhas
(já à porta e com amargura) Olhe, sogra não deve ser. E eu não sou espanhola, não preciso de «madre». (sai. D. Felismina fica a meio da cena, junto do caixão, louca de raiva e desespero. Inclina-se para o cadáver)

D. Felismina
(sibilante) Mosca-morta! Mosca-morta! Estúpida!! (e, de súbito, esbofeteia Belinha)

(PANO RAPIDÍSSIMO)

Lisboa, 28 de Janeiro de 1948
 

* Mater Imperialis: Amparo de Mãe e mais 5 Peças em 1 Acto seguido de um Apêndice, Lisboa, Ed. 70, 1990. p. 17-33