A Morte do Papa

George Monteiro

 

fotoA renúncia do Papa Bento XVI, e as muitas questões que suscitou, trouxe-nos à memória A Morte do Papa, “peça em um ato” escrita por Jorge de Sena no Brasil, em 1964, em Araraquara — tal como a peça O Império do Oriente. A propósito de ambas, comenta o autor: “Por alquimias estranhas, as peças de 1964, no Brasil escritas, foram reacção aos acontecimentos que se precipitaram em 1º de Abril desse ano”. Do mesmo contexto, é ainda a novela O Físico Prodigioso, na qual o protagonista é vítima de longo processo inquisitorial e onde se lê um “rimance […] que era uma espécie de hino da revolta geral dos povos”, cujos versos iniciais são “Morra o bispo e morra o papa,/ maila sua clerezia” e cujos finais dizem “Morra tudo, minha gente,/vivam povo e rebeldia”. Deixamos ao leitor qualquer possível ilação entre os recentes acontecimentos no Vaticano e aqueles à volta do Golpe Militar no Brasil, lá se vão quase 50 anos.

Na língua original, não conseguimos rastrear outra representação da peça A Morte do Papa senão aquela que integrou o programa do Congresso Internacional “Sinais de Jorge de Sena”, transcorrido na UNESP/Araraquara de 30 de agosto a 2 de setembro de 1998, excelentemente encenada pelo grupo amador “Memorial de Atenas”, da cidade de Matão, dirigido por Júlio César Ribeiro da Silva. Em língua inglesa, com tradução do Prof. George Monteiro, subiu ao palco na University of California/ Santa Barbara de 31 de julho a 2 de agosto de 1980, por iniciativa do então estudante Pedro de Sena, filho do dramaturgo. Gentilmente cedida pelo tradutor, aqui transcrevemos essa versão, mais tarde também publicada em Latin American Review, vol. 14 (Jan./June 1986), pages 117-25.

 

PERSONAGENS:

O MÉDICO-OFICIAL
O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO
O SOTAINA
UMA VOZ
OUTRA VOZ
VOZES

 

Numa cena totalmente obscura entra um homem, lendo um imenso jornal. Ao ritmo dos seus passos, vai-se firmando uma claridade difusa que, quando ele pára a meio do pros­cénio, o mostra. É um homem de idade indefinida, como todos os reaccionários conspícuos e acacianos, aprimorada­mente vestido de um modo que lembra 1900. Com forte emoção mergulha a cabeça no jornal que um facho de luz ilumina violentamente. Emite grunhidos de aprovação e cólera imbuída de profundas convicções. Ao fundo, à esquerda, as luzes começam a destacar um pequeno grupo. São três figuras dispostas como uma Pietá. Uma figura feminina velada tem atravessado no colo o cadáver semi-nu de um jovem cuja cabeça retém e sobre o qual se debruça, enquanto, ao lado, uma figura hierática, vestida de um modo que lembra as far­das de SS, usa lunetas e tem na mão um objecto que, ao debruçar-se para o cadáver, se vê ser um estetoscópio que aplica no peito descarnado. Ausculta com atenção profissio­nal, impassível. Endireita-se, empertiga-se e avança, agora bem iluminado, para o proscénio; dirige-se ao público, enquanto o outro homem continua même jeu.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Minhas senhoras e meus senhores. Na qualidade de cirur­gião diplomado pelas principais universidades do Ocidente, e doutor honoris-causa por todas as outras, com excepção de algumas muito recentes fundadas em regiões tropicais para o serviço de populações inferiores pela raça e a cultura; e no cumprimento das minhas funções oficiais de necrólogo-chefe de todos os necrotérios do mesmo Ocidente que acabei de referir, cumpre-me declarar que este homem está morto, indiscutivelmente morto, apresentando o quadro completo de todos os sintomas da morte clínica e não clínica. O facto de uma mulher que passa por ser sua mãe o reter teimosamente no colo em nada altera o mesmo quadro. Está morto, quei­ram V. Excias acreditar. De resto, que um homem esteja morto, quando eu o proclamo, declaro e ratifico com a minha autorizada assinatura, não depende de coisa alguma senão da minha declaração. Se não está, estará. Se está, é claro que está. Se estaria, é um caso que só dependeria de exumação após o sepultamento, o que não pode ser feito sem a minha autorização, a qual só posso dar se a certidão de óbito ofere­cer dúvidas que não pode oferecer quando fui eu próprio quem a passou. Fiquem V. Excias bem cientes de tudo isto, para a hipótese de se encontrarem na mesma situação, (pausa) A causa mortis… é perfeitamente clara. Colapso cardíaco subsequente à aplicação de uma sentença que foi aplicada por ser justa e foi justa por ser aplicada. O corpo apresenta equimoses suspeitas, sem dúvida. Mas é meu dever que fique claro o seguinte: os homens nunca morrem das equimoses ou dos derrames internos que uma sentença provoque, ou que a pesquisa da verdade e da culpa obrigue a empregar. Morrem sempre de colapso cardíaco, uma vez que, em dadas e reco­nhecidas circunstâncias, o coração pára. Foi o que aconteceu com este e acontecerá com todos vocês. Perdão, acontecerá com Vossas Senhorias.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(emergindo do jornal) E exactamente o que diz aqui. Exactissimamente. A morte de um homem culpado de agitar a paz social e a ordem pública é sempre, clinicamente falando e anatomopatologicamente falando, um colapso cardíaco.

 

O MÉDICO-OFICIAL

(que pasmou da interrupção, abre-se num sorriso, aproxima-se do outro, e mergulha com ele a cabeça no jornal) Ah, esse jornal é muito bom, não há melhor jornal, eu mesmo sou o conselheiro de assuntos médico-policiais… (a luz apaga-se sobre a Pietá)

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(emergindo por sua vez — e daqui em diante alternada­mente emergem do jornal) Mas como?! Tenho então o subido prazer, a esplêndida satisfação de falar com…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Eu mesmo! Eu mesmo! Eu mesmo!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

E eu que sempre aguardava uma oportunidade de conhe­cer o senhor! Porque, permita-me que me apresente, eu sou… oh… perdoe a imodéstia… eu sou o director do…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Mas, preclaríssimo doutor, eminentíssimo defensor das mais sagradas causas comuns e não comuns às pátrias dignas desse nome, o senhor é…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(com ares de virgem pudica) Sou o director desta singela folha independente, e guardiã indefectível das liberdades democráticas e outras, e defensora de todas as grandes causas de libertação nacional, e impoluto e resoluto baluarte de todas as tradições e de todos os direitos legitimamente con­signados na Constituição escrita e naquela que, não sendo escrita, está todavia inscrita nos nossos corações de velhos patriotas. Porque, meu ilustre clínico…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Necrólogo, necrólogo-mor.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Porque, meu ilustre clínico…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Necrólogo, necrólogo-mor.

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Mor. Porque…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

(interrompendo) Porque não é patriota quem quer, mas quem pode.

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Porque o patriotismo é um direito, não é um dever.

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Um dever herdado, um dever legado, um dever comprado, um dever adquirido…

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Por séculos e séculos de sangue transmitido…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Derramado…

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Sugado…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Ou recebido em transfusão de origem rigorosamente garantida.

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Como o doutor saberá melhor do que eu, os doutores ca… cariotas…

 

 

O MÉDICO-OFICIAL

Ca… quê?

 

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Perdão, cairotas.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Cai… quê?

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Os doutores cairotas…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Não é possível! Não existe essa especialidade em medicina!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Em medicina?! Cairotas, do Cairo.

 

O MÉDICO-OFICIAL

De onde?

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Do Cairo, a capital do Egipto.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Ah, do Egipto. No Egipto há médicos. Uma vez, num congresso da minha especialidade, até encontrei um, excelente sujeito, muito entendido em colapsos cardíacos. Não sei se ele seria…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Cairota.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Isso, cariota.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Ou isso. Pois lá os doutores da lei, os sábios do Corão, decretaram que, nas transfusões de sangue, não é possível a um crente receber sangue de um ateu, materialista, comunista. Não acha uma medida genial? Que garantia temos nós de que ideologias perniciosas não dependem da constituição do san­gue? Os meus cavalos de corrida são de sangue puro, por isso correm bem. Um sangue impuro é indubitavelmente uma fonte de distúrbios sociais.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Muito provavelmente. O senhor director é um homem de ideias sanguíneas corajosas.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Digo mais ao senhor: é uma vergonha, um sinal da depravação dos tempos, e de como as ideologias perniciosas separam os fundamentos de toda a ordem constituída que defendemos, é uma vergonha, repito, que o Papa não tenha decretado uma coisa semelhante. E muito antes, muito antes. Porque, repare, a Santa Igreja é mais velha seiscentos anos que Maomé. Logo…

 

O MÉDICO-OFICIAL

Logo…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Logo.

 

O MÉDICO-OFICIAL

Logo. (ao fundo, à direita, começa a divisar-se um trono papal em que um papa quase desaparece atrás de uma flo­resta de microfones, lâmpadas de televisão, etc. — da floresta emerge uma figura de sotaina negra que avança para o pros­cénio iluminado e se dirige ao público)

 

O SOTAINA

Meus amados irmãos. Reunidos que estamos, nesta sala, enquanto o Santo Padre fala ao mundo levando a palavra divina a todos os recantos da Terra, lembrando a todos os homens que são irmãos e que a justiça é a mesma para todos na Terra e no Céu, convenhamos em que o Santo Padre, na sua infinita bondade, na doçura do seu coração amantíssimo, exagera. Sim, meus queridos irmãos, exagera. Melhor dizendo: não exagera… O Santo Padre não nota que falar numa sala a duas dúzias de peregrinos ou no gabinete a meia dúzia de bispos não é o mesmo que deixar-se cercar por aqueles objectos que não discriminam quem os ouve, quando repe­tem, por toda a parte, coisas que o bom povo, o povo humilde, o povo simples, não pode, na sua pura simplicidade, entender. Falar assim é agitar as almas, e não salvá-las.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(emergindo do jornal) É exactamente o que diz aqui. Exactissimamente. Não podem os pastores assustar os reba­nhos com ideias impróprias de rebanhos. Um Papa que fala a todos naquilo que todos não podem nem devem ter… é…

 

O SOTAINA

(mesmo jogo do médico em idêntica situação) Ah! esse jornal é muito bom, não há melhor jornal, eu mesmo sou conselheiro de assuntos religiosos… (a luz apaga-se sobre a cena do trono e dos microfones)

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Mas como? Tenho o subido prazer, a esplêndida satisfação de falar com…

 

O SOTAINA

(humilde, esfregando as mãos) Eu mesmo… eu mesmo… eu mesmo.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

E eu que sempre aguardava uma oportunidade de conhe­cer Vossa Reverência. Porque, permita que me apresente, eu sou… Oh… perdoe a imodéstia… eu sou o director do…

 

O SOTAINA

Do jornal que tem nas mãos. Que reconheço como defen­sor das mais sagradas causas da moralidade pública e privada, em todos os planos da ordem. E não digo ordem social por­que, a partir do momento em que, da palavra «social» deri­varam o socialismo, ela perdeu todo o conteúdo autêntico. De resto a ordem é só uma, una e indivisível.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Tem Vossa Reverência a máxima, a verdadeira, a única razão. Felizmente que ainda há, dentro das sotainas, quem defenda os bons princípios que, desgraçadamente, já não são defendidos do alto da sédia gestatória.

 

O SOTAINA

Oh, meu caríssimo e venerando irmão!… a sédia gestatória é só uma cadeira, e, para mais, uma cadeira usada só em cer­tas ocasiões solenes, e carregada às costas de uns quantos sujeitos.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Porque os princípios da nossa civilização são anteriores a ela, anteriores a nós, anteriores a tudo! E uma cadeira… Ah! meu Reverendo, que tremendo erro o Papa ser eleito! As eleições são a expressão da nossa representatividade de representativos da ordem representada pelos representantes que somos. Quem as ferir com um sopro ofende os mais sagrados dos nossos princípios. Mas, aqui entre nós, a cadeira papal devia ser hereditária.

 

O SOTAINA

Como?!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Hereditária.

 

O SOTAINA

Mas como?!

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

É… na verdade, é uma problema. Mas será um problema? Sim, ante a necessidade de se impedir que a infiltração comunista atinja a própria eleição do Papa, será que esse problema importa? (ouve-se um tiro, o palco é subitamente invadido por um tumulto de repórteres, fotógrafos, ouve-se um clamor confuso, a iluminação é total para uma confusão que envolve as três figuras do proscénio)

 

UMA VOZ

Mataram o Papa!

 

OUTRA VOZ

O quê?

 

VOZES

Mataram o Papa!

 

UMA VOZ

Com três tiros, quando, após discursar urbi et orbi, pas­sava na sédia gestatória. (as luzes apagam-se de repente, para logo se acenderem para o proscénio com as três figuras de antes)

 

O SOTAINA

(ajoelhado e de mãos postas, olhos em alvo, um doce sorriso) Deus escreve direito por linhas tortas…

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

(lendo) É exactamente o que diz aqui. Exactissimamente (pausa) Mas… de que morreu o Papa?

 

O MÉDICO-OFICIAL

(procurando no jornal) Eu disse, eu disse. De colapso cardíaco.

 

O REACCIONÁRIO CONSPÍCUO

Colapso? (sorriso malicioso para os outros dois) Foram os comunistas.

 

(AS LUZES APAGAM-SE)

Araraquara, 1964
* JS, Mater Imperialis (Teatro), Lisboa, Ed. 70, 1990 p. 45-56

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THE POPE’S DEATH

JORGE DE SENA

Translated by George Monteiro

 

The resignation of Pope Benedict XVI, and the many questions it raises, brings to memory The Pope’s Death, “one-act play” written by Jorge de Sena in Brazil in 1964, in Araraquara – such as the piece The Empire of the East. Regarding both, the author says: “For strange alchemy, the plays from 1964, written in Brazil, were reacting to the events that precipitated on April 1 this year.” In the same context, there is also the novel The Wondrous Physician, in which the protagonist is a victim of a long inquisitorial process and where it reads a “rimance […] that was a sort of anthem of the revolt of the people,” whose opening lines are “die the bishop and die the pope, / goddamned his clergy”, and ends “die everything, my folk / live the people and rebelliousness.” We reserve to the reader any possible inference from the recent events at the Vatican and those around the military coup in Brazil, almost 50 years ago.

In the original language, we can only track a sole staging of The Death of the Pope: one that was part of the program of the International Congress “Signs of Jorge de Sena,” passed at UNESP / Araraquara from August 30 to September 2, 1998, excellently performed by amateur group “Memorial of Athens” from the city of Matão, directed by Júlio César Ribeiro da Silva. In English, with translation of Prof. George Monteiro, the play took the stage at the University of California / Santa Barbara from July 31 to August 2, 1980, by initiative of the then student Pedro Sena, son of the playwright. Kindly provided by the translator, here we transcribe this version, later also published in Latin American Review, vol. 14 (Jan. / June 1986), pages 117-25.
 

Characters

The Medical Examiner

The Die-hard Reactionary

The Man of the Cloth

A Voice

Another Voice

Voices

 

Onto a totally darkened set enters a man, reading an immense newspaper. To the rhythm of his steps a diffusing clarity increasingly focuses, which, when he stops at the center of the proscenium, spotlights him. He is of indefinite age as are all conspicuous and sententious reactionaries, perfectly dressed in a style harking back to 1900. With great emotion he plunges into the newspaper, which a splash of light illumines harshly. He emits grunts of approval and anger imbued with the profoundest convictions. At the back, and to the left, the lights begin to focus on a small group: three figures deployed as in a Pietà. A veiled female figure has across her lap the semi-nude body of a young man whose head she holds and over which she bends while, to one side, a hieratic figure, dressed in a fashion that recalls an SS uniform, wears pince-nez and has in hand an object that, at his bending toward the cadaver, is seen to be a stethoscope, which he applies to its bony chest, listening with professional, im­passive attention. The figure straightens up, stiffens and advances, now well in the light, toward the proscenium; it directs itself to the audience, while the other man continues même jeu.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Ladies and gentlemen. In my capacity as a surgeon whose degrees have been conferred by the principal universities in the West, and who has been made doctor honoris-causa by all the others, except for some recently founded in the tropics to serve populations that are racially and culturally inferior; and in the fulfillment of my official duties as chief coroner for all the morgues of that same West I have just referred to, it behooves me to declare that this man is dead, unarguably dead, offering a complete picture of all the symptoms of clinical and nonclinical death. The fact that a woman who passes for his mother stubbornly holds him in her lap in no way alters this picture. He is dead; your Excellencies may well believe it. Besides, that a man is dead, when I so proclaim it—declare and ratify over my authorized signature—depends on nothing other than my declaration. If he is not, he will be. If he is, it’s clear that he is. If he was, it is a case that would depend only on exhumation after burial, an action that cannot be taken without my authorization, which authorization I can give only if the death certificate indicates doubts that it cannot indicate when it was I personally who issued it. Your Excellencies must become well aware of all this, since hypothetically you may find yourself in the same situation. (pause) The causa mortis… is perfectly clear. Cardiac failure subsequent to the passing of a sentence which was passed because it was just and which was just because it was passed. That the body shows, suspiciously, some bruises, cannot be denied. But it is my duty to establish clearly the following: men never die from the bruises or from the internal bleeding that may result from a sentencing, or that the search for truth and guilt may necessitate. Men always die of cardiac failure, seeing that in certain and well-known circumstances, the heart stops. That’s what happened with this fellow and that is what will happen to all of you. Forgive me, that is what will happen to your Excellencies.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(emerging from the newspaper) That is exactly what it says here. Exactly right. The death of a man guilty of disturbing the peace and disrupting civic order is always, speaking in clinical, anatomical, and pathological terms, a cardiac failure.

 

THE MEDICAL EXAMINER

(astonished at the interruption, breaks out into a smile, moves closer to the other man, and joins him, head down in the newspaper, saying) Ah, that newspaper is very good; there is no better paper. I myself am its consultant on matters of criminal medicine… (the light on the Pietà goes out)

(emerging in turn —from now on they will alternate in emerging from the newspaper) What’s this! Do I have the sublime pleasure, the splendid satisfaction of speaking with…

 

THE MEDICAL EXAMINER

The very person! The very person! The very person!

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

And I who have always hoped to have the opportunity, Sir, to know you! Because, permit me to introduce myself, I am—oh—forgive my immodesty—I am the editor of…

 

THE MEDICAL EXAMINER

But, my most noble doctor, very most eminent defender of the most sacred causes, common and not so common, to countries worthy of the name, you, Sir, are…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(with the air of a modest virgin) I am the editor of this plain independent page, and the infallible guardian of democratic freedom and other liberties, and the defender of all the great causes of national liberation, and the stainless and resolute bulwark of all the traditions and of all the rights legitimately granted by the written constitution as well as by the one that, although unwrit­ten, is ever inscribed in our old and patriotic hearts. Because, my illustrious clinician…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Necrologist, grand necrologist.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Because, my illustrious clinician…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Necrologist, grand necrologist.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Grand. Because…

 

THE MEDICAL EXAMINER

(interrupting) Because a patriot is not the one who wants to be but the one who can.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Because patriotism is a right, not a duty.

 

THE MEDICAL EXAMINER

A duty that is inherited, a duty that is a legacy, a duty that is purchased, a duty that is acquired…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

By blood, transmitted over centuries and centuries…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Spilled…

 

THE MEDICAL EXAMINER

Or received through transfusions of strictly certified pedigree…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Since the good doctor must know better than I, the doctors, the ca… cariotists

 

THE MEDICAL EXAMINER

Ca… what?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Forgive me, Cairene.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Cai… what?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

The Cairene doctors…

 

THE MEDICAL EXAMINER

It is not possible! There is no such specialty in medicine!

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

In medicine? Cairene, from Cairo.

 

THE MEDICAL EXAMINER

From where?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

From Cairo, the capital of Egypt.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Ah, from Egypt. In Egypt there are doctors. Once, at a congress devoted to my specialty, I even found one, an excellent fellow, well-versed in cardiac failures. I do not know if he would be…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Cairene.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Yes, a cariotist.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Yes, that. Well there the doctors of law, scholars of the Koran, have decreed that in blood transfusions it is not possible for a believer to receive the blood of an atheist, a materialist, a communist. Do you not find this to be an ingenious measure? What guarantee do we have that pernicious ideologies are not dependent on the makeup of the blood? My racehorses are thoroughbreds, that’s why they run well. Impure blood is incontestably a source of social disturbance.

 

THE MEDICAL EXAMINER

Most likely. Your editorship is a man of courageous ideas about sanguinity.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

I’ll tell you more, sir. It’s a shame, a sign of the depravity of the times, and of how pernicious ideologies sap the very foundations of the constituted order that we defend; it’s a shame, I repeat, that the Pope has not decreed something along the same lines. And much earlier, much earlier. Because, notice, the Holy Church is older by six hundred years than Mohammed.  So…

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

So.

 

THE MEDICAL EXAMINER

So.

(at the back, and to the right, there begins to be discernible a papal throne in which a pope has nearly disappeared behind a forest of microphones, televi­sion lights, etc. — from this forest emerges a figure in a black soutane who moves toward the illuminated proscenium and addresses the audience)

 

THE MAN OF THE CLOTH

My beloved brothers. We are gathered here, in this room, while the Holy Father talks to the world, carrying the divine word to the corners of the Earth, reminding all mankind that we are brothers and that justice is equal for all those on Earth and in Heaven; we agree that the Holy Father, in his infinite goodness, in the sweetness of his most loving heart, exaggerates… Yes, my dear brethren, he exaggerates. Or rather it is not that he exaggerates. It is that the Holy Father does not notice that talking in a room to two dozen pilgrims or in cabinet to a half dozen bishops is not the same thing as allowing himself to be surrounded by those objects that do not discriminate among those who listen to them, when they repeat, to all corners things that the good people, the humble people, the simple people, cannot, in their pure simplicity, under­stand. Such talk only agitates them; it does not save their souls.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(emerging from the newspaper) That’s exactly what it says here. Exactly right. Shepherds must not frighten their flocks by promulgating notions inap­propriate for flocks. A Pope who talks to everyone about those things that they cannot have nor should have… is…

 

THE MAN OF THE CLOTH

(playing the doctor’s very game in the same situation) Ah! That news­paper is very good; there is no better paper; I myself am its consultant on religious matters… (the light goes out on the scene of the throne and micro­phone)

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

You mean? Do I have the sublime pleasure, the splendid satisfaction of speaking with…

 

THE MAN OF THE CLOTH

(humbly, wringing his hands)

The very person… the very person… the very person.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

And I who have always hoped to have the opportunity to know your Reverence. Because, permit me to introduce myself, I am—oh—forgive my immodesty—I am the editor of…

 

THE MAN OF THE CLOTH

Of the newspaper you hold in your hands. Which newspaper I recognize as the defender of the most sacred causes of public and private morality, in all the spheres of order. And I do not say social order because, from the moment in which socialism was derived from the word “social” the notion of social order lost all its authentic meaning. Besides order is only of one kind: it is whole and it is indivisible.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Your Reverence is right. Yours is the fullest, the truest, the only reason­ing. Fortunately, there are still those among men of the cloth who will stand up for the highest principles, those principles that, disastrously, are no longer defended from the height afforded by the Pope’s gestatorian litter.

 

THE MAN OF THE CLOTH

Oh, my dearest and venerated brother!… the gestatorian litter is only a chair, and a chair, moreover, used only on certain solemn occasions, and car­ried on the backs of so many subjects.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Because the principles of our civilization antedate civilization itself, antedate us, antedate everything! And a chair… Ah! my Reverend, what a grievous mistake it is to choose the Pope by election! Elections are an expres­sion of our representativeness of the representative elements of the order represented by those representatives that we are. Those who would even breathe on them offend our most sacred principles. But, just between us, the papal chair should be hereditary.

 

THE MAN OF THE CLOTH

What?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Hereditary.

 

THE MAN OF THE CLOTH

But how?

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

It’s true… that is a problem. But is it a problem? Yes, but in the face of the need to stop communist infiltration before it reaches the very election of the Pope, can it be that this problem has that much import? (A shot is heard, the stage is suddenly overrun by a riot of reporters, photographers; a confused clamor is heard; lighting is total for a confusion which involves the three figures at the proscenium)

 

A VOICE

They’ve killed the Pope!

 

ANOTHER VOICE

What?

 

VOICES

They’ve killed the Pope!

 

A VOICE

Shot three times, when, after having spoken urbi et orbi, he was passing by in thegestatorian litter.

(the lights go out suddenly, so that they can go on at the proscenium with the three figures as before)

 

THE MAN OF THE CLOTH

(kneeling, hands folded, eyes limpid, a sweet smile) God writes straight through crooked lines.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

(reading) That’s exactly what it says here. Exactly right. (pause) But… what did the Pope die of?

 

THE MEDICAL EXAMINER

(looking for it in the newspaper) I said, I said. Cardiac failure.

 

THE DIE-HARD REACTIONARY

Failure? (smiles maliciously at the other two) It was the Communists.

(The lights go out).