Jorge de Sena x Fernando Luso Soares

É frequente encontrar-se a expressão “espírito polêmico” associada à personalidade de Jorge de Sena. No entanto, não se conhece polêmica que ele efetivamente tenha alimentado. O que poderíamos chamar de uma “quase-polêmica” surge nos textos abaixo transcritos, estampados no Jornal do Fundão em 14 de novembro, 12 e 19 de dezembro de 1971, gentilmente enviados por nosso amigo e colaborador João Tiago Pedroso de Lima.

 

Mercouri, Autobiography

Tudo começa com o longo artigo do escritor e advogado Fernando Luso Soares (1924-2004) a deslouvar com veemência o poema “Paráfrase de Melina Mercouri”, pouco antes publicado noutro jornal, e datado de 24/9/1971, cujos 6 versos transcreve na íntegra. Ressalte-se que Sena apenas responde brevemente ao signatário, sobejamente conhecido pela “reflexão sobre o materialismo dialético aplicado à estética”, pela “vinculação ideológica como categoria inerente a toda a renovação e opção
artística” e pela defesa, na esfera jurídica, de réus perseguidos pela PIDE.

 

No dia 19/12/1971, sob o título de “Jorge de Sena ao ataque”, o Diário de Lisboa reproduz o substancial da resposta de Jorge de Sena (de “É uma total mentira…”  até  “…já dissera certeiramente o resto”), precedida da seguinte apresentação: “Transcrevemos, com a devida vénia, parte da carta enviada ao Jornal do Fundão (de 12 do corrente), por Jorge de Sena, em resposta a uma crítica de Fernando Luso Soares publicada naquele jornal e que versava um poema basto rebarbativo feito publicar no Diário de Notícias pelo conhecido poeta, ensaísta e professor.”  Ao final, apenas este comentário, sem qualquer assinatura: “Assobiamos pelo facto de Jorge de Sena ter como seu documento de identidade um passaporte brasileiro”.

 

Hoje integrando a coletânea Quarenta Anos de Servidão, o poema vem acompanhado de uma nota cujo teor não seria do conhecimento do articulista: “Explosão provocada por o governo grego ter retirado a nacionalidade a essa atriz que ele muito estimava e alusão à frase-reacção dela. Em carta de 30/9/71 a Luís Amaro o Autor dizia: Não será um elegante epigrama, mas é muito verdadeiro, qualidade de louvar em epigramas, segundo as melhores poéticas“. Nessa mesma carta dizia pertencer o poema a Dedicácias — livro editado postumamente, que reúne poesia seniana “de escárnio e maldizer”.

 

Não se sabe se logo chegou ao conhecimento de Luso Soares o poema escrito um mês depois de “encerrado o assunto” nas páginas do jornal beirão… Trata-se do sirventês “Nota a uma paráfrase”, datada de 20/1/1972, que, decerto, faz com que seja de Jorge de Sena a última palavra sobre o caso.

 

Esclareça-se: uma coisa é literatura

comprometida ou não, e uma outra coisa

é literocambada, ou seja uma pandilha

ou várias assaltando à naifa e gritos

de a bolsa ou a vida. Inútil é fingirem

que são das letras ou qualquer política:

vieram para elas, baba da afluência, 

por não haver já viela onde as facadas rendam. 

 

UM  POEMA  DE  JORGE  DE  SENA [1]

(para esquecer)

A página literária do «Diário de Notícias» da última quinta-feira (dia 4 p.p.) publicou três «Poemas de Viagem», de Jorge de Sena, entre eles um que se intitula “Paráfrase de Melina Mercouri”, e que diz assim:

 

Nasci português e morrerei português
ainda que mude de nacionalidade vinte vezes.

A líterocambada lusitana
nasceu portuguêsmente pulha
e portuguêsmente pulha há-de morrer
seja qual fôr o ismo a que pertença.

Trata-se evidentemente de um «poema circunstâncial», no sentido que a esta expressão empresta Jorge de Sena em «Isto não é um prefácio» (de Peregrinatio ad loca infecta) integrado — como aliás resulta da aludida página literária — na futura continuação do seu diário poético. Tais poemas assim o afirmou expressamente Jorge de Sena naquele prefácio-não-prefácio, nascem «suscitados por e contra aconte­cimentos notórios, ou no terem tomado alguns escritores como pretexto de existirem». Ora resulta por demais evidente que aquela «paráfrase» foi provocada por qualquer facto, por um evento capaz, em termos impróprios do timbre comum e habitual da poesia do autor de Coroa de Terra, de ter sublevado tão agressivamente aquele seu ânimo olímpico a que nos habituou. Não se encontra, neste poema agora posto em causa, a fria finura cerebral que uma vez lhe detectou Hernâni Cidade. E ocorre perguntar se a verdadeira poesia deve descer à representação ofensiva de um pensamento, seja ele qual for. Porque é na verdade pena vermos o autor desse magnífico exemplo de patética ironia, como é o caso de O Indesejado, poética aventura de D. António, prior do Crato, descer a um tipo de prosaísmo o mais dogmático (até pela sua generalização) e o menos poético (até pela sua agressividade), não menos dogmático aliás do que todos os dogmatismos que sempre, tanto e tão acertadamente Jorge de Sena viera a impugnar. Para um poeta, dramaturgo e ficcionista de uma ironia com tão alta craveira, como é da sua constante experiência, esta “Paráfrase de Melina Mercouri” é na verdade um acidente (ou incidente). Para esquecer, já que até traduz, por excepção em Jorge de Sena, aquela incapacidade de ironia que, na esfera mental superior, carac­terizava o sindroma provinciano de que nos falou Fernando Pessoa. Contra o seu hábito de um alto nível de linguagem, de inquietação filosófica, de reflexão íntima, tudo numa sim­biose tensa para o seu constante «combate pela consciência livre» — esse combate a que António Ramos Rosa tão lucidamente aludiu um dia [2] —ao ler esta «paráfrase» (lamen­tável) não podemos deixar de lhe sentir um terrível con­traste, por exemplo, com aquele seu belíssimo poema, inti­tulado «Crisma»[3], onde o poeta ainda se não deixara arrastar pelo ódio: «…venham árvores e árvores sem que o ódio cante…»

Não creio que o «eu» prepo­tente, irritante pela sobranceria, pelo orgulho e pela causticidade, sejam só a mera aparência que pretendeu Eduardo Lourenço em “Jorge de Sena e o Demoníaco”[4]. O facto de viver à distância geográfica de nós despontou-lhe em grande esses defeitos, cer­tamente de raiz. É ver como no seu ensaio sobre “Sistemas e Correntes Críticas” — escrito em Madison, 1966, e publicado nos nos 38-39 de «O Tempo e o Modo» (de outro tempo e de outro modo)[5] — ele dizia que «se não entende, e muitas vezes com razão, por que são estimados e considerados tão grandes alguns escritores cuja celebridade é intraduzível para fora de uma linha que vai de Melgaço a Vila Real de Santo António, passando pelo Chiado e o Bairro Alto».

Viver lá fora, especialmente sendo catedrático (mesmo em Madison, Wisconsin, U. S. A.) causa às vezes destas enfermagens, desvios de um cosmopoli­tismo autêntico. Lá que a sua Peregrinatio faça parte da ma­nia portuguesa de viajar e de relatar as demandas feitas nos espaços e nos costumes, isso não está mal! O que não está certo é o seu sorrir (que é pior do que rir) daqueles que segundo ele não são suficiente­mente universalizados e viaja­dos.

Não há dúvida que nos remon­ta, ao tempo (triunfante) da contra-reforma, a irresistível tendência dos nossos ancestros se haverem ensimesmados, re­cusando na base as solicitações de fora. O estrangeiro passou a parecer-nos então o Diabo, e a cultura para lá da Península desenhou-se-nos à vista como o caminho do Inferno. E, certa­mente a partir disto mesmo, nós teríamos passado a venerar, com o mais desvelado respeito, aque­les que se fazem às partidas do Mundo e andam por lá a beber do fino-cultural. À admiração provincianoide dos grandes cen­tros lá de fora, e das grandes personalidades estrangeiras (co­rolário de um desdenho risadinho do que nos mexe portas a dentro do ventre lusitano) o por­tuguês até o mais do que médio na consciência de ser — venera o que está longe ou o que lhe vem à distância. É melhor o treina­dor que vem futebolizar da In­glaterra, da Hungria ou do Bra­sil; está melhor apetrechado o técnico que, evidentemente, es­tagiou na Suiça; é muito mais génio, enfim, o escritor que vive em Paris, em Londres, ou em Madison, e que já um dia teve a dita de ver (como Jorge de Sena viu) as lágrimas de uma Edith Sitwell [6] quando um crítico lhe comemorou as décadas com um artigo sobre Graves [7] (efemérides que os escritores que por cá ficam no Chiado e nas redacções do Bairro Alto não podem, òbviamente, partilhar para a sua grandeza). É, como se vê, uma coisa quase teoló­gica: os deuses também não se­riam tão adorados se o poeta os não tivesse colocado no Olimpo!

Mas a que propósito vêm es­tas minhas últimas palavras?… Naturalmente, do seguinte: que, indo nós falar de «ismos» e «partidarismos» — como tema mesmo assim aproveitável em função da “Paráfrase de Melina Mercouri”— e tendo eu a mais sincera admiração pela obra literária de Jorge de Sena, não quero incorrer naquela que con­sidero a pior forma do sectarismo, ou seja, a circun-navegação em torno de um patrono, de um ser intocável, de um tabu. Eis-nos com um espírito brilhante, decerto, mas de uma arrogância perfeitamente intole­rável, aquele singular misto de inteligência (cativante, sem dú­vida) e de sobranceria (irritan­te, sem menor dúvida) que uma noite, quando ele perorava nas Belas Artes me fez ganhar a rua em poucos minutos. Nunca tinha ouvido Jorge de Sena, e por isso lá fui. Porém, fugi ao sentir-me incomodado: tive a im­pressão de que, esperando ir ou­vir simplesmente um pregador de cultura, me tinha saído na rifa o próprio deus da mesma. Falemos, entretanto e antes, da ideia que está no centro deste poema o qual, paradoxalmente, considerando-o para esquecer, me está no entanto a provocar este texto.

No pseudo-irónico, despoèticamente agressivo e, por tudo isso, bem lamentável poema, referem-se dois tipos de «nascimento», o primeiro dos quais é certamen­te um privilégio quase divino, e o segundo um demérito irreme­diável. Explicando melhor, direi: enquanto Jorge de Sena diz que nasceu com o dom de ficar, mes­mo mudando juridicamente de nacionalidade umas vinte vezes, tão português como João das Re­gras ou Luís Vaz de Camões, a por ele deselegantemente dita «lítero-cambada lusitana» nasce portuguêsmente pulha e portuguêsmente pulha há-de morrer seja qual for o «ismo» a que pertença.

Além do mais, neste caso até mesmo pela sua perigosa am­biguidade, a “Paráfrase de Me­lina Mercouri” é um Poema pouco corajoso. Já agora teria sido melhor atirar a um alvo mais concreto, não se enfie a cara­puça nalguma cabeça enganada. Quais os «ismos» que não reme­deiam? Todos?!… Então quais os da cambada irremediável?… Ou Jorge de Sena haverá sen­tido em si o receio de particu­larizar ou concretizar demais? E eu (que nada tenho a ver com o problema, excepto a re­volta que senti ao ler tal «pa­ráfrase», experimentando uma veemente necessidade de apos­trofar este triste desvio, mar­cado pelo ódio, e arrepiado de uma obra com alta dignidade) — eu, repito, só venho a capí­tulo para aproveitar, de cartas na mesa, a oportunidade de uma reflexão que me parece útil.

Normalmente, os escritores não constituem uma cambada. Nem é bonito que um escritor chame isso a outros. Poderá ser que os considere medíocres ou talentosos, e então até é justo que o diga (tanto mais sendo crítico). Cambada, e em forma de poema, isso não!… Porque, nesta emergência, fica patente­mente claro que há um ódiozinho, um despeitozinho, ou um ciumezinho subjacente — e Jor­ge de Sena tem categoria lite­rária de sobra para suportar quaisquer subjacências, mesmo na sua cave moral.

Na hipótese da “Paráfrase de Melina Mercouri” constituir, em última análise, um poema con­tra os «ismos», então — além de mau — ele falha redondamente. Todavia, antes de irmos adiante, e interrogando-me sobre quais os «ismos» em que Jorge de Se­na pensava como não-redentores da lítero-cambada, no momen­to de fazer o seu poema, parece que não acomete nem contra o «ismo» supra-realismo, ao qual ficou umbilicalmente ligado des­de os «Cadernos de Poesia», nem contra todos os outros «is­mos» decorrentes do persona­lismo, nos quais se cascatam as torrentes poéticas que pro­vêm do romantismo, em nega­ção cada vez maior de todas as pressões exercidas por va­lores que não sejam os resul­tantes de um «eu» libérrimo. O título completo da «paráfrase» posta em causa indica, muito presumivelmente, o «ismo» que Jorge de Sena sorrateiramente pretende atingir. Com isso ele serve, afinal, a teoria burguesa da literatura, que considera ten­denciosa toda a atitude literária cujo fundamento e fim de classe se mostra hostil à direcção so­cial dominante. Sem dúvida, aceito que o crítico nunca deve impôr a sua formação ideoló­gica, nem deve ser directamente um tribuno de juízos políticos. É exacto o que diz Jorge de Sena no seu ensaio “Sobre o Realismo de Shakespeare”[8]: «…quan­do determinados críticos (que fazem da sua crítica literária tribuna de juízos políticos) acu­sam alguém de estar «desvin­culado da realidade», o que ape­nas importa é saber se a pes­soa em questão não estará só desvinculada de uma obediência partidária que não é a sua».

Esta passagem, vinda de ser transcrita, faz até lembrar o poema de Herwegh [9], dedicado a Freiligrath [10], que reza assim:

 

Uma espada em vossa mão seja a poesia.
Escolhe um partido, e estarei satisfeito,
ainda que seja outro diferente do meu.

 

O curioso é que Jorge de Sena tem o partidarismo extremo de ser uma pessoa apartidária. Esse é, aliás, um fenómeno fa­tal para todos os que têm pre­tendido o mesmo «anti-ismo» em geral. A própria teoria da «im­passibilidade», de Flaubert, que provém da teoria kantiana do desinteresse, o romancista fran­cês a contraditou na sua obra. Veja-se, em exemplo, a forma de ironia com que se lhe represen­ta nos textos o mundo burguês. Porque a desvinculação abso­luta é uma pose-falsa que só serve para enganar os beócios. O próprio Sena reconhece, no referido ensaio “Sobre o Realis­mo de Shakespeare”, que «a rea­lidade depende, sem dúvida, da visão filosófica que tenhamos dela». Com efeito, os mais altos expoentes da arte, desde Dante a Camões, de Shakespeare a Brecht, de Miguel Angelo a Pi­casso, não teriam sido possíveis se se excluísse do trabalho ar­tístico a conceitualidade. Na ar­te, é imprescindível não esque­cer isto, as concepções do mun­do (universais, gerais por estru­tura) aparecerão sempre supe­radas pela categoria da parti­cularidade; porém, tal não sig­nifica que esta não constitua, precisamente, uma tomada de posição. Se o conceito e a ideo­logia não são directamente o objecto do trabalho artístico, constituem no entanto o factor direccional de uma vida cons­ciente, em situações concretas de homens concretos. Pois po­deria um poeta, vivendo no res­pectivo tempo, ser apartidário na polémica geocentrismo-hélio- centrismo, perante as então no­vas concepções de Copérnico? Ou de Darwin, sobre a querela criação-evolução? E poderá sê-lo diante da ruptura que representa Marx e a sua filosofia de transformação (isto é, não meramente interpretativa)? Pois coisa curiosa: falando preci­samente da atitude artística que conduz à composição poética dos idílios, demonstrou Schiller que o simples fato de se escolher esta matéria já implica uma to­mada de posição crítica em face do real, e assim o idílio (como forma) contém em si mesmo um partidarismo.

Um «ismo» é sempre, portan­to, uma tomada de posição, que não pode deixar de existir mes­mo na arte. A arte não repre­senta nenhum facto ou relação fora do seu partidarismo, e este manifesta-se na representação de cada detalhe, pois de outro modo não existirá o próprio fac­to artístico. Conceber a realidade (que a arte reproduz) como sen­do um mero fragmento desvin­culado, mais ou menos casual, espontâneo no sentido de gra­tuito, vale o rebaixar a zero o carácter dialéctico do reflexo respectivo, valendo esse zero o nível de uma simiesca imitação. «É inevitável a tomada de po­sição na obra de arte», escreveu Lukács na sua Introdução a uma Estética Marxista: a frase de Lucano, «victrix causa diis placuit, sed victa Catoni»[11] traduz a atmosfera, a posição de mui­tas importantes obras no inte­rior das contradições antagóni­cas das sociedades de classe, mas isto não exclue, até antes confirma, a teoria de que o par­tidarismo das obras de arte é sempre inevitável.

Terei descarrilado, sem pro­pósito, de tema-objecto do poe­ma de Jorge de Sena que me moveu a estas linhas? Concordo com a ideia do ensaísta de “Sis­tema e Correntes Críticas”, de que «só escrevem segundo uma ‘ortodoxia’ estreita, aqueles que são incapazes de pensar e de vi­ver por si mesmos aquilo mes­mo a que aderiram». Mas será que a «cambada literária» se constitui só por um complexo de escritores de determinado «ismo» ortodoxamente sustentado — ou será antes que esta coisa do «seja qual for o ismo a que per­tença» não passa de um disfarce (que portanto estivemos aqui a falar para o vento), e que a cambada é alguém que desa­gradou, ou alguns que desagra­daram, ao tom de Magnífico Rei­tor de letras que o catedrático lá de Madison não gosta que lhe venham conspurcar?

FERNANDO LUSO SOARES

 

  

JORGE  DE  SENA

(catedrático da Universidade da Califórnia e não da de Wisconsin)

responde a uma Crítica de F. Luso Soares [12]

Do poeta, ensaísta e professor Jorge de Sena recebemos a carta que segue:

 

Ex.mo Senhor

Acaba de chegar-me às mãos um recorte do artigo a meu respeito, impresso no jornal de V. Excia em 14 do corrente mês, e assinado pelo Snr. Fernando Luso Soares. Ao abrigo da legislação em vigor, solicito de V. Excia a publicação das seguintes linhas:

Desde 1 de Julho de 1969 que não sou catedrático da Universidade de Wisconsin, em Madison, Wisconsin, mas,  ao contrário do que os seus leitores são erradamente informados, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, Califórnia.

Quanto ao facto de saber-se se o autor do artigo «descarrilou» ou não, conforme ele mesmo se pergunta, a resposta cabe aos leitores que não se alimentem de jogos de porta de falsa esquerda. É uma total mentira que eu não tenha tido sempre uma posição política definida, pela qual durante mais de vinte anos joguei a minha segurança e a dos meus — apenas ela (republicana e socialista) nunca se pautou pela obe­diência aos ditames de quaisquer partidos ou agrupamentos, a que nunca pertenci nem pertenço, mas com os quais nunca recuei de colaborar por vezes em circunstâncias bem graves. Há mais de trinta anos, todavia, que é parte do jogo de des­crédito contra intelectuais independentes o apresentá-los como «a-politicos», como «anti-ismos» (em literatura de favores literários, sim, que o sou), enquanto outros que notòriamente jamais arriscaram coisa alguma passam por sacrificados heróis. Tudo isto e mais, porém, faz parte da. História a ser escrita um dia, e em que me não consta, pelo conhecimento directo que tive dela, que a maior parte desses senhores tenha sido dramaturgo, encenador, actor ou figurante de peças que não chegaram a subir à cena. Se desde 1965 não tenho tido qualquer participação na política portuguesa, é porque a tal me não dá direito o passaporte brasileiro que é meu documento de identidade — mas o português que sempre fui hei-de continuar a sê-lo, quer queiram, quer não queiram. E mais não é neces­sário esclarecer, porque o meu poema em causa — como se viu — já dissera certeiramente o resto.

Passe V. Excia. muito bem, mais as vestais que se abri­garam nas suas páginas, e queira aceitar os melhores cum­primentos do

JORGE DE SENA

N. da R. – Se nos conhecesse melhor, Jorge de Sena dispensaria a invocação da lei. Como habitualmente fazemos, a sua carta sai no mesmo lugar e no mesmo tipo de crítica em causa. Quanto à resposta, Luso Soares, se quiser, que lha dê.

 

EM  FIM  DE  CENA…[13]

Do nosso colaborador Fernando Luso Soares recebemos um cartão cujo conteúdo a seguir se publica: 

Soube do meu lapso, o da transferência (em 69) do Senhor Professor Doutor Engenheiro Catedrático (americano) Jorge de Sena, de Wisconsin para Santa Bárbara, Califórnia. Peço a V. Ex.a que por este meio — ainda que tardio — felicite aquele Mestre pelo facto notável. E já agora, mercê da quadra festiva do momento, mais agradeço que também lhe transmita os meus desejos de boas festas.

Quanto àquilo que eu dizia no meu artigo, o Senhor Professor Doutor Engenheiro Catedrático (americano) Jorge de Sena evidentemente não desceu (do 3.o piso do Olimpo — o dos pavões — que o 1.o é o de Zeus e o 2.° o dos deuses de segunda) a comentar, e eu próprio acho bem. Sua Excelência não desce, e eu (pobre de mim) não subo, que me falta o fôlego. Sena é hidrogràficamente um rio de ciência e de letras. Luso não passa de uma fontícula de termas portuguesas.

 

Referencias

1Jornal do Fundão, 14.nov.1971, p. 1, 3, 13

2. “A poesia de Jorge de Sena ou o combate pela consciência livre”. In: A.R. Rosa, Poesia, Liberdade Livre, Lisboa, Moraes, 1962. p. 97-109

3. Do livro Coroa da Terra

4. Originalmente publicado na revista O Tempo e o Modo (Lisboa, abr. 1968, nº59, p. 324-31), encontra-se reproduzido em E. Lisboa, org. Estudos sobre Jorge de Sena (Lisboa, IN-CM, 1984, p. 49-590 e E.Lourenço, O Canto do Signo: Existência e Literatura (Lisboa, Presença, 1994, p. 172-79).

5. Reproduzido em J. Sena, Dialécticas Teóricas da Literatura. Lisboa, Ed. 70, 1977, p. 109-67

6. Escritora britânica (1887-1964) que Jorge de Sena visitou em Londres, com a qual se correspondeu e sobre cuja obra escreveu.

7. Robert Graves, escritor britânico (1895-1985)

8. Datado de “Araraquara, julho de 1964”, foi originalmente publicado na revista O Tempo e o Modo nº 19 (set. 1964, p. 6-26) e encontra-se reproduzido no livro J. Sena, Maquiavel, Marx e Outros Estudos (Lisboa, Cotovia, 1991, p. 71-100)

9. Georg Friedrich Rudolph Theodor Herwegh, poeta alemão (1817-1875)

10. Ferdinand Freiligrath, poeta alemão fortemente engajado em lutas políticas (1810-1876).

11. A causa vencedora agradou aos deuses, mas a vencida a Catão. (Lucano, em Farsália, I, 128). Alusão à fidelidade de Catão a Pompeu, quando este foi derrotado por César. Emprega-se para expressar apoio a uma causa, embora vencida.

12. Jornal do Fundão, 12.dez.1971, p. 13

13. Jornal do Fundão, 19.dez.1971, p. 1

 

 

Dois interessantes casos americanos e o mais que vem a propósito deles

Trazidos à baila há quase que exatos 40 anos, cabe ao leitor avaliar se estes “dois interessantes casos americanos” relativos à situação dos imigrantes, particularmente os portugueses, permanecem atuais na terra do Tio Sam.  

 

Actualmente, dois curiosos casos têm tido grande repercussão jornalística nos Estados Unidos; e ambos (se bem que não seja tanto a significação deles como certo sensacionalismo o que excitou jornalistas) extremamente importantes para trazer à luz do dia alguns aspectos estranhos da América em relação aos imigrantes que recebe, e que até agora não têm sido debatidos como devem, não só na América mas também nos países que a essas pessoas correspondam.

Durante mais de cem anos (já que as grandes massas migratórias só começaram a chegar ou a ser atraídas depois dos meados do século xix), os dramas dos emigrantes — salvo um ou outro caso politicamente famoso e alguma literatura — longamente e silenciosamente se dissolveram no domínio absoluto do anglo–saxonismo. E o facto é que a imigração, desde que a América se fez América, não se tem feito da Inglaterra, mas de todo o resto do mundo não anglo-saxónico, a que os irlandeses não pertencem e até os escoceses não muito. Estes dois casos, porém, levantam finalmente a questão da constitucionalidade de certas normas e acções sempre humildemente aceites, e que provavelmente são ignoradas ou nunca foram atentadas pelos países de origem ou de naturalização de quem emigra para os Estados Unidos.

O primeiro caso tem que ver com a imigração clandestina, entrada pela fronteira do México. E um problema de atracção compreensível, uma vez que as regiões desse país confinantes com os Estados Unidos são pobres e pouco desenvolvidas. Mas têm raízes na História, se nos lembrarmos que uma área imensa de todo o sul dos Estados Unidos foi conquistada ao México, e possui vastas populações mexicanas (ou «chicanas») que se tornaram americanas por força da conquista. São milhares os mexicanos que, sós ou com as famílias, entram e ficam clandestinamente na Califórnia, Texas, Novo México, etc., aonde os que os precederam por atracção e pela existência de populações análogas, lhes arranjam trabalho e os escondem das autoridades nas vastidões territoriais ou na massa anónima dos seus guetos urbanos. Claro que, quando são denunciados ou descobertos como imigrantes ilegais, as autoridades os expulsam de novo para o México.

Mas, muito recentemente, uma família assim descoberta recebeu — a mulher e os filhos — ordem de regressar ao México, enquanto o chefe da família era metido num avião e remetido à Espanha. Não foi isto uma daquelas confusões de latinidades muito comuns na América. Foi mais estranho. Mas muito burocraticamente natural, visto que os Estados Unidos não reconhecem., para efeito de «residência permanente» (eufemismo oficial para «imigrante legal») qualquer nacionalidade segunda ou do país de onde o imigrante partiu. Toda a gente é, para tal efeito, sempre do país onde nasceu, mesmo que isso possa envolver descaso de um passaporte de outra nação amiga. Assim, por exemplo: um húngaro foi menino para Portugal, viveu anos lá, cresceu, adquiriu a nacionalidade portuguesa, e transferiu-se depois para os Estados Unidos. Se acaso, por qualquer razão, for devolvido à procedência, esta não será Portugal, de cujo cidadão é e onde se fez homem, mas a Hungria, onde apenas nasceu e não põe ou não quer pôr os pés há décadas. Talvez o exemplo não seja bem escolhido, porque, por ser húngaro, quiçá o não devolveriam, por excepção, para o outro lado da «cortina de ferro». Mas aquele pobre chefe de família não era húngaro; e parece que, muito jovem, emigrou da sua Espanha natal para o México, aonde constituiu família. Com ela, mais tarde, esgueirou-se para os Estados Unidos. Apanhado pelas autoridades, estas aplicaram rigorosamente as normas — e ei-lo retornado à Gran Via ou à Puerta dei Sol, que nunca terão sido da sua vida, mas são lugares da capital do país onde nasceu. O caso foi tão incongruente que suscitou clamores (até porque, hoje em dia, os «chicanos» não perdem uma oportunidade de reclamar), visto que a família deverá retirar-se para o México ou para lá já foi retirada, com ele encalhado em Espanha. Imaginem por aí que, um dia, os Estados Unidos se aborrecem de mim. Em lugar de eu ser remetido ao Brasil, como alguns desejariam, pelo passaporte que possuo, enquanto a família tem toda (menos dois membros dela) passaportes portugueses, eu seria devolvido, com ela, à minha procedência lisboeta. O que é, mesmo distante, hipótese de inquietar. Mas os meus dois filhos mais novos, brasileiros natos, seriam provavelmente restituídos ao Brasil, onde não têm família nenhuma… De resto, com crianças, não se sabe nunca o que pode por aqui acontecer nestas matérias. Com efeito, muito recentemente, tribunais americanos recusaram devolver à mãe deles e ao país onde haviam nascido, meninos, creio que checos, que ao pai, foragido às agitações no seu país, trouxera para os Estados Unidos, onde suponho que morreu. Os tribunais decidiram que, entre uma mãe de país pouco simpático e a felicidade de crescer nos Estados Unidos entregue a protectores isentos do vírus materno, não havia escolha — sinal da influência salomónica da Bíblia, ou curiosa dramatização do Círculo de Giz Caucasiano, de Bertold Brecht. Mas voltando ao exemplo que imaginei pessoal — acho que nem a sublime dupla cidadania nos valeria no aperto, a nós e a Lisboa.

O outro caso é muito diverso, mas tem que ver igualmente com a imigração. Não é sabido nos diversos países directamente interessados, e a esmagadora maioria da população americana o ignora nos próprios Estados Unidos hoje, que a lei (ou alguma interpretação dela) exige que o imigrante, em chegando à idade militar, ingresse nas Forças Armadas dos Estados Unidos. Se recusar, e a menos que qualquer saída legal seja encontrada e conseguida (objecção de consciência, por exemplo), é obrigado a retirar-se do país onde cresceu e a voltar ao país onde nasceu, perdendo o direito não só à residência permanente como a tornar a pôr os pés nos Estados Unidos.

As razões que levaram, em tempos mais ou menos idos, a uma tal atitude supostamente legal são óbvias. Antes de tudo, forçar a integração nacional do residente estrangeiro enquanto jovem, quando, no último século, grandes massas da população norte-americana eram de imigrantes (que chegaram a ter direito de voto em certas eleições não nacionais, já que os manipuladores políticos precisavam de votos para se elegerem — o que, mais tarde, foi suprimido). E também quando, nesse tempo, os «nacionais» tinham imensas maneiras e o dinheiro para se esquivarem ao serviço militar que os recém-chegados fariam por conta deles, sem saberem ao certo para que gloriosos fins. Mas a constitucionalidade de uma tal medida ser obrigatória e não facultativa (já que nada, na entrada legal, estipula que o emigrante deva vir a ser cidadão dos Estados Unidos, forçosamente) é outra questão que agora se levanta. O pretexto, curiosamente, é português, e não sei se a imprensa portuguesa tomou conhecimento do caso. Um jovem imigrante de nacionalidade portuguesa, que serve neste momento, e segundo as notícias «heroicamente», no Vietname, decidiu pôr judicialmente em causa a legalidade dessa guerra — os aspectos políticos desta controvérsia não nos importam aqui. Mas o que, automaticamente, resultou da acção dele foi levantar-se o problema da constitucionalidade de como ele foi lá parar.

E de supor que os países de origem dos imigrantes da América, embora sempre desejem ou façam liricamente que desejam manterem eles laços afectivos e culturais (para não dizermos financeiros, neste plano do puro altruísmo) com o berço natal, ou sempre ignoraram estas incongruências, ou nunca desafiaram diplomaticamente os Estados Unidos, para não incorrerem — se é que incorreriam — em retaliações possíveis contra as cotas de imigração atribuídas pela América às diversas áreas de emigração para ela. Estas cotas só muito recentemente diminuíram ou elidiram as suas discriminações racistas, em que, é claro, escandinavos e germanos — ai os louros! — tinham especial preferência. Como é sabido, a própria Grã-Bretanha deixara perder em séculos, ou dissolver-se, o sangue nórdico que algumas depredações dos vikings e uma invasão de anglo-saxões lhe injectaram, e o teor da boa cepa romântica precisava de ser melhorado nos Estados Unidos, e de ser compensado dos efeitos deletérios de tanto italiano, português, espanhol, sírio, etc., etc. Quanto a indiferença ou ignorância em relação aos casos referidos, o que se disse dos países de origem dir-se-á dos países «segundos», para os quais, no fundo, não importa o que possa acontecer a um cidadão não nato que decidiu mudar-se para os Estados Unidos por sua conta e risco.

Os problemas, porém, de que esses casos são exemplo incongruente e pouco humano, não deveriam ser indiferentes aos países envolvidos por cidadãos seus, primeiros ou segundos. Trata-se de consciência, coerência, e dignidade de uma nacionalidade que lhes cumpre proteger, seja em que circunstâncias for. E de modo algum, e muito pelo contrário, se trata na verdade de «desafiar» os Estados Unidos, de cujo sistema legal o «desafio» é parte integrante, já que qualquer pessoa tem o direito de pôr em causa, judicialmente, nele, a legalidade de tudo. Trata-se, sim, de fazer o que tantos milhares e milhares de americanos se esforçam por fazer todos os dias: conduzir os Estados Unidos a serem razoavelmente fiéis àqueles ideais abstractos de liberdade e de justiça, que eles mesmos, os Estados que se uniram numa independência, escreveram numa constituição e numa declaração de direitos básicos, naqueles bons tempos em que os ideais esclarecidos dos Rousseaus, dos Voltaires e dos Tom Paines, como dos Jeffersons e dos outros fundadores, não haviam sucumbido a nacionalismos estreitos, ou à supremacia de uns grupos sobre os outros.

Portugal, com mais de um milhão de portugueses e de luso–americanos só na Califórnia, e mais de outros tantos na Costa Leste, deveria estar informado e tomar conhecimento de tais situações, cuja legalidade interna é, ao que parece, duvidosa, mas nunca foi posta em causa, que se saiba, antes, pela humildade das pessoas envolvidas. Tanto mais que, no caso português, muitas dessas pessoas não são já sequer «humildes», mas triunfantes, influentes, ainda que muito agarradas até há pouco à brandura tradicional dos nossos costumes, que manda comer e calar.

Mas os países não são só, reciprocamente, aqueles que tomam chá ou uísque nas embaixadas, não é verdade? São também aqueles que nunca pensaram em certos casos que não subiram às suas alturas, e aqueles que, com a sua laboriosa actividade, se espalham pelo Mundo. E isto de espalhar-se pelo mundo, por certo que foi sempre o mais natural de Portugal, desde que o Senhor D. João I deu o exemplo, partindo-se, a Ceuta, onde, talvez erradamente, não fixou residência. E já antes dele muito português aparece registado nos lugares mais inesperados do Globo que, então, como se sabe, não era nem Globo nem inteiro. O menos comum, ou menos numeroso, foi sempre o ficar de flor ou de batata no Jardim da Europa.

Pense Portugal a sério no outro Portugal, o pelo mundo em pedaços repartido, numa tradição de tantos séculos, e hoje especialmente concentrado em certos países, aonde, se devidamente apoiado, poderá contribuir decisivamente para «lusitanizar» essas terras bárbaras e gentias, com vantagem para elas serem menos convencidas de si mesmas, e para Portugal ser menos distraído. Antes que — valha-nos a Providência — tenhamos algum português de França a imitar La Fontaine (quando já temos no próprio Portugal tanta gente que se não cura do morbo gálico) ou algum português dos Estados Unidos a repetir os sucessos de tanto abominável best-seller (quando já há em Portugal hippies que são luxuosamente filhos das melhores famílias).

Santa Barbara, 10 de Junho de 1972, Dia de Camões

Possibilidades universais do mundo luso-brasileiro

A complexidade do diálogo luso-brasileiro ocupou inúmeras páginas assinadas por Jorge de Sena. Dentre elas, destacamos três textos que a organizadora do volume Estudos de Cultura e Literatura Brasileira considera interrelacionados. O único dado como completo é "O entendimento histórico luso-brasileiro: uma proposta", com data de 25.6.1966, publicado semanas depois no Diário de Notícias, o qual teria tido em "Portugal e Brasil: uma proposta", datável de 1964/5, a sua primeira versão, abandonada. Este, por sua vez, teria sido esboçado no texto que abaixo transcrevemos, datável de 1963/4.

Embora sob a mesma temática, há notórias diferenças entre eles. E nossa escolha recaiu sobre o mais antigo, porque, além de bastante sintético, nele se encontra uma referência a tema atualíssimo e monopolizador de acirrados debates: a "reforma ortográfica".

 

O fenómeno mais importante — dizem os sociólogos, os historiadores e os políticos — da segunda metade do presente século é a acessão da África e da Ásia à independência política. Mesmo para os mais liberais espíritos euro-americanos é um fenómeno que os inquieta, lhes altera as mais profundas (e ocultas) convicções, os faz olhar o futuro com inquietação. Mas, ao contrário das aparências, se há unidade cultural e linguística, ou até político-económica que menos riscos corra, em relação ao futuro, nessa subversão das estruturas, e que menos possa identificar-se com tais pavores do capitalismo euro-americano, é precisamente o luso-brasileiro, cujas posições geográficas, étnicas, e culturais, no tão diverso e tumultuário concerto dos povos lhe permitem estar presente em toda a parte, e receber em si, como suas, as mais diversas culturas. Como garantia de uma sobrevivência política e de uma hegemonia cultural, quando esta deixou de ser apanágio das nações europeias, nenhum está melhor colocado. O «melting pot» dos Estados Unidos e as suas projecções imperialistas nada fizeram para absorver através da emigração ou da colonização económica as boas-graças culturais dos outros povos. O império britânico tende cada vez mais, à medida que a metrópole regressa à ilha de que partiu, a ser um conjunto de baluartes dos mitos novecentistas da supremacia política da raça branca e dos seus métodos de domínio capitalista. A França, que com a Inglaterra partilhou esses mitos, projectou muito menos do que ela uma civilização, e muito mais uma cultura literário-política que, longe de interessar-se pelas idiossincrasias estranhas só é assimilável pelas minorias aristocratizantes que se afrancesam. A Espanha e o mundo que dela se pulverizou não tem unidade política que torne a impor um prestígio que resultou, paradoxalmente, da criação autoritária de uma unidade artificial. De modo que nenhum dos impérios ou ex-impérios ocidentais está em condições de opor-se à unidade política que são milhões de brasileiros com alguns portugueses. Mas não só isso. O Brasil, hoje, é, sobre a miscegenação luso-ameríndia, a que se seguiu logo e durante séculos a integração de uma vasta imigração negra forçada, um país italiano, sirio-libanês, japonês, alemão, e nem sequer se podem esquecer os núcleos eslavos e balcânicos, em que, como no núcleo alemão, predomina o elemento judaico. Portugal, contíguo da Espanha, como o Brasil o é das repúblicas sul-americanas de língua espanhola, está disperso pela África Ocidental e Oriental, pela índia, a China e a Indonésia. E a comunidade das nações sub-desenvolvidas aproxima o Brasil de todos os estados novos da Ásia e da África. A presença judaica e árabe na Península Ibérica medieval revive, hoje, nos laços que a poderosa colonização levantina estabelece entre o Brasil e a Síria, o Líbano, Israel. Os reinos germânicos da Península Ibérica reaparecem na atracção dos alemães pelo Brasil. A unidade mediterrânica da latinidade consubstancia-se na emigração italiana. A civilização ocidental que os portugueses levaram ao Japão é simbolicamente paga pelos nipo-brasileiros. Os goeses são na África Oriental e na imensa índia um grupo peculiar e influente. Os macaístas são luso-chineses, como os ingleses em Hong-Kong não souberam fazer que lhes equivalha. E, nos confins da Indonésia, Timor poderá ser a confluência concreta dos interesses desenvolvimentistas que unem essa Indonésia ao Brasil. As relações do Brasil com as repúblicas negras da costa ocidental da África e do Golfo da Guiné não são meramente platónicas. Governam-nas muitos descendentes de escravos brasileiros regressados à pátria. Além dos interesses comuns de independentização económica, há uma natural atracção cultural; e essa comunidade de orientações é a melhor garantia de Angola ser um país integrado num mesmo círculo que, sendo brasileiro, é português também. Se o futuro do mundo pertence à Ásia e à África, pertence também à América do Sul. E nenhum país da Europa está em condições, como Portugal, se deixar de atrelar o seu carro a interesses euro-americanos que lhe são alheios (além de obsoletos), de ser a encruzilhada entre a América do Sul e a Europa, entre estas e o mundo islâmico, o mundo negro e a Ásia. Portugal não poderá ser nada disso —e não será nem isso nem nada—, sem o Brasil. Mas, para tanto, necessita estabelecer as mais cordiais relações com todos os países que, directa ou indirectamente, pertencem a este vasto esquema. E colocar-se, em relação ao Brasil, num plano de presença cultural e intermigratória que, identificando-os, conduza à abolição dos complexos colonialistas que, em Portugal e no Brasil, subsistem até nas pretensões de mútua independência linguística. Se há cada vez mais um português do Brasil, é porque se tem inventado ficticiamente, nos vocabulários e nas gramáticas, um português de Portugal. A sobrevivência de uma cultura e de uma civilização vale mais que uma reforma ortográfica e que os gramáticos escolásticos, de um lado e de outro do Atlântico, postos ao serviço de estruturas feudais.
 

O Computador Omnipotente


Encerrado o tempo carnavalesco, há que retomar o dia-a-dia… mas, onde não falta o seu quê de absurdo e de "mundo às avessas"… Esta crônica seniana escrita há mais de 40 anos, quando o nosso cotidiano ultra-informatizado engatinhava, permanece inegavelmente atual.

 

 


Não sei se em Portugal já principiou a desenvolver-se a instituição do credit card que domina a vida do americano médio. O dito cartão, que é em geral de matéria plástica, é emitido por uma entidade em favor do feliz mortal cujo nome e número de crédito nele são inscritos em relevo, naquele estranho desenho de letras e de números que, parece, é o único que um computador de inteligência mediana é capaz de ler. Grandes armazéns, companhias de aviação, companhias de gasolina, cadeias de restaurantes, etc. (mas não as lojas de produtos alimentares ou de mercearia, etc., para não perderem os centavos com que jogam nos preços) emitem desses cartões com a maior generosidade. E uma pessoa pode comprar praticamente tudo, e muito acima das suas posses, com essa massa de cartões para os quais precisa de ter uma carteira especial que os abrigue e coleccione. Pode também, viajar de uma ponta à outra da América (desde que não viaje modestamente) sem um centavo no bolso, apenas apresentando o cartão aplicável a cada circunstância. Um empregado, em vez de receber-lhe o dinheiro, faz o cartão passar numa pequenina prensa que inscreve as referências do cartão na factura. Até aqui, a menos que o cartão tenha sido perdido e achado por pessoas de menos escrúpulos, tudo corre às mil maravilhas para o feliz possuidor de tamanha comodidade.

Aquelas facturas todas, para cada companhia convergem de toda a América para um respeitável computador que as mastiga e emite a conta mensal que a companhia remete pelo correio ao cliente, e que este pagará com um cheque remetido pelo correio. Ao receber a conta, o cliente, se é homem cauteloso, compara-a com as cópias de facturas referentes aos diversos créditos que possui. E verifica com arrelia que a conta inclui uma viagem de avião, no valor de cerca de 200 dólares, que, por qualquer engano do respeitável computador ou de quem lhe dá a comida, lhe foi, de misteriosa origem, atribuída. Isto aconteceu-lhe em fins de 1968. Logo o sujeito tratou de pagar a sua conta, menos a viagem que não tinha feito nem comprado, e escreveu, em Dezembro daquele ano, uma carta à companhia apontando o erro. Um mês depois, em princípios de 1969, recebeu uma automática comunicação do computador respeitável avisando-o de que estava em atraso na liquidação da sua conta. Dias depois, uma carta (não do computador), agradecia-lhe o pagamento feito mas (à fé do computador) sublinhava que era seu dever pagar «as contas por inteiro». O nosso homem escreveu segunda carta a explicar o sucedido — e recebeu do computador a sua conta, em que agora não havia apenas uma viagem de 200 dólares, mas duas, porque ninguém tinha avisado o computador de que não devia somar essa quantia todos os meses na conta. Já inquieto quanto à sanidade mental do Universo, o pobre cliente (que já quase o não era, pois se não atrevia a usar mais tão azarado cartão), pagou o que ainda devia, menos aquela mítica viagem que cada mês era mais uma — e telefonou, de um extremo da América ao outro, a explicar o que se passava. As pessoas que o atenderam ao telefone foram gentilíssimas, deram-lhe toda a razão (provavelmente estavam havia quinze dias na companhia, daí a dois meses estariam noutra — e tanto lhes fazia) e mandaram-lhe a conta de Janeiro — com agora três viagens. O pobre homem devia 600 dólares à companhia, e cada vez devia mais 200… Apavorado e irritado, escreveu a insistir no erro, contando a história anterior, juntando cópias das cartas escritas e recebidas, etc. A companhia respondeu-lhe numa amável carta, agradecendo os pagamentos que ele fizera (não fizera), mas avisando-o, desta vez cominatoriamente, de que a menos que a conta fosse saldada, o cartão de crédito seria cancelado. Desesperado, o cliente telefonou outra vez, e novamente lhe foi dada toda a razão. Ora essa! Era vítima de uma situação fantástica…— e recebeu do computador novo aviso, asperamente cominatório, quanto a não pagar as suas dívidas. Em Fevereiro chegou a conta respeitavelmente calculada pelo computador: 400 dólares. A correcção do erro limitava-se ao mês em que alguém realmente o tinha ouvido, e nada mais. Louco de raiva, e já num desalento fatalista, mas com a esperança que a redução lhe dera, o nosso homem escreveu outra vez: e recebeu em resposta um aviso do computador sobre os seus atrasos em pagar contas. Em Maio, enfim, a companhia respondeu-lhe: estavam a verificar com a companhia de aviação o que é que realmente se havia passado com as viagens dele. Um mês depois, nova carta declarava —que alívio— que as contas estavam erradas, já que se esclarecera ele não ter viajado. Mas um novo aviso, logo depois, dava-lhe notícia de que o seu crédito estava limitado aos primitivos 200 dólares que nunca pagara, como devia. O pobre homem, a esse tempo já sob o efeito de sedativos para conter os nervos, escreveu nova carta, com novas cópias, etc., a contar a história toda. A companhia respondeu declarando (pelo telefone) que ele devia aquele dinheiro e não havia mais conversas. Furibundo, escreveu outra vez. A companhia, que não trata com energúmenos nem loucos, não respondeu. O homem esperou, esperou, esperou, e decidiu tratar do caso directamente com a companhia de aviação, cujo voo ele não tinha usado. Esta respondeu que o assunto se esclarecera entre as duas empresas, e que ele, a vítima, estava inocente. Um ano havia passado sobre o início da tragicomédia. O nosso homem respirou… Mas recebeu um aviso de que o seu cartão de crédito era inválido e ele indigno de crédito. No auge do desespero, o desgraçado inundou de cartas o Congresso dos Estados Unidos. E, finalmente, em Maio de 1970, chegou uma doce comunicação da companhia — recebia-o novamente no seio dos seus clientes, pedia-lhe desculpa de tudo aquilo, e restabelecia-lhe o crédito mensal… até ao limite de 200 dólares, mais 66 por conta das despesas com a resolução do erro. Mas, como as companhias, ou os computadores das companhias de crédito, permutam entre si informações sobre os clientes, o herói — restituído à dignidade de um crédito limitado à dívida que não havia feito — não está livre no futuro de ver recusados novos créditos ou cartões de crédito, se o computador mecanicamente disser, secretamente, sem que o herói tenha maneira de saber o que se passa, que ele é um teimoso relapso que, durante meses, sucessivamente, não pagou viagens que não havia feito e ele, computador, fielmente acumulava. Ou constar da sua ficha universal, preparada pelo gigantesco computador que concentrará, para milhões de americanos, as informações a respeito de todos os actos públicos ou privados que chegaram ao alcance de computadores: que ele é um sujeito perigoso, capaz de dar que fazer a computadores por numerosos meses, e até queixar-se aos parlamentares da eficiência perfeita dos computadores e da ineficiência total dos que os alimentam.

Isto não é uma história inventada, não é ficção científica. Muito menos é uma imitação literária de Kafka. É um facto autêntico, revelado pela imprensa e por entidades oficiais que lutam para deter a vaga de mecanização irresponsável. Mas que não se diga, já que se mencionou Kafka, que Oscar Wilde não tinha razão quando afirmou que a Vida imita a Arte. Não há dúvida de que a imita — e a extremos inimagináveis por qualquer perverso inventor de ficções delirantes e de opressivos pesadelos. De modo que, se realmente já existe em Portugal a cómoda instituição — excelentemente inflacionária — dos cartões de crédito, bom será que exista uma fiscalização quanto a impedir-se a computadorização dos seres humanos, ou impondo a humanização dos computadores. Ou, pelo menos, algum sistema de eficiente ligação entre os computadores e as pessoas que deles, mecanicamente, se servem.

Madison, Julho de 1970.
 

(Des)encontros com Malraux

André Malraux teve sua passagem pelo Brasil, em 1959, registrada por dois poetas, sob diferentes pontos de vista: para Jorge de Sena, um desencontrado encontro que põe em evidência a "condição humana" do autor francês; para Manuel Bandeira, uma desinteressante experiência, prontamente apagada pelo reencontro com Jorge de Sena, em palestra no Real Gabinete Português de Leitura. Apresentamos aqui, em contraponto, o desencanto de um e o entusiasmo do outro nas duas crônicas: a de Sena sobre Malraux e a de Bandeira sobre Sena.

 

O meu encontro com Malraux

Eu traduzi e prefaciei A Condição Humana que considero um livro extraordinário que não precisa da minha opinião para ser tido como tal. Creio que ninguém continua igual ao que era, depois de o ter lido. Ainda hoje, quando o pensador e o artista que escreveram aquele livro não pensam nem dirigem o Malraux que pareciam ser na mesma direcção, como então foi, de uma meditação estética sobre o sentido das acções humanas, A Condição Humana, com as suas sondagens, os seus alçapões, a sua amargura, e a profunda e perversa alegria trágica das cenas mais horríveis, continua a ser uma obra fundamental, que repôs em termos do tempo que nos precedeu, o célebre monólogo do Hamlet por uma forma tão subtil e tão diversamente personificada que poderíamos identificar cada uma das personagens principais com um aspecto da poliédrica alma do «sweet prince» cuja Dinamarca, como o nosso mundo, estava podre.

É terrível, porém, meditar sobre a podridão, de dentro dela, por ela e com ela. E toda a meditação existencial que não objective em si própria uma consciência histórica da situação em que se reconhece, que não tenha da História uma visão progressiva e humanamente integral, mas apenas uma centralizada e individualista noção dela como de algo que por todos os lados, como um eterno retorno, a fecha num círculo de ferro sem saída — é essa uma meditação existencial que acima da podridão se não ergue, tal como o indivíduo se não erguerá acima daquela mediocridade astuta de que os seus vícios são feitos, quando os não vir como uma escravidão alheia, em que o melhor de si mesmo não se compromete. É este o erro fundamental de A Condição Humana, que aliás torna a obra mais emocionante e mais sugestiva, na medida em que dá do homem uma imagem de pequeno pássaro belíssimo, que transporta irremediavelmente consigo a sua própria gaiola, à semelhança daquela antiga tortura chinesa em que o condenado levava a cabeça metida numa gaiola de bambu. De resto, esse tema do pás-saro engaiolado é explicitamente explorado no romance e, à luz do desenvolvimento que Malraux lhe dá, o financeiro Ferral poderia ser interpretado como a metáfora de um Deus existencial, não plenamente omnipotente, incapaz de possuir o ser dos homens.

Mas que aquela imagem chinesa de outras eras, como outra de cabeças decapitadas e assim engaioladas e expostas, nos apareça em conexão com uma obra que situa precisamente na China a sua meditação política (naquele sentido em que política é a estética da acção inter-humana, como a estética é uma política da comunicabilidade), não será apenas uma associação de ideias de quem leu também, e nas idades próprias, o Júlio Verne das Atribulações de Um Chinês na China ou a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. E antes uma sugestiva forma, de, apelando para o que é, desde a infância, uma «cultura» comum, conseguir fixar a contradição entre o horror exótico em que Malraux desdobrou a sua rememoração apaixonada e o imenso cadinho de civilização cristalizada e de progresso ansioso que a China representa na nossa imaginação. Dessa prodigiosa imagem exemplar que a China hoje representa, A Condição Humana é uma nobre e pessoal imagem pré-histórica. Porque desse horror exótico (e o horror é uma forma de exotismo, como o regressar à Idade da Pedra também é, para os espíritos imbuídos de cultura) e dessa esperança amargurada e perseguida que é a das personagens de A Condição Humana fez Malraux uma aventura do espírito que nega, pois se instala e a instala em plena contradição, uma contradição que nem mesmo no espírito historicamente se resolve. Com efeito, as resoluções finais, naquela obra-prima, são todas uma qualquer forma de ópio (o ópio do poder, o do amor, o da revolução, o ópio propriamente dito do velho Gisors), um ópio de que só o sacrifício ou o martírio, fraternos mas ineficazes, lavam o azedume que ele deixa na boca ao acordar-se. E assim, sobre a frustração primária e integral que é a vida humana — um pouco a «misera sorte, estranha condição» de que Camões, outro aventureiro também esmagado por uma História que o excedia e que ele procurou epicamente sistematizar, falara — surgirá, após a crise dos poderes e dos mitos políticos, para Malraux o museu imaginário. Muito menos o museu imaginário das formas artísticas cuja vida Focillon definiu, que o museu imaginário, do que, para ele, fica das civilizações: um cemitério de detritos, de estátuas degoladas, de cabeças sem corpos, dispersas pelo deserto desde a Gália à China.

Que os argelinos sofram, que a liberdade se perca, que a «civilização ocidental» seja um imenso embuste, tudo isso pouco importa, afinal. Basta transformar tudo isso em «visão», em metamorfoses dos mesmos deuses sequiosos, sangrentos e vãos que regem o destino humano… Os Apoios, os Budas, os Cristos, as teorias de anjos e demónios mais não são que símbolos de uma inanidade humana que em miséria se debate e debaterá, e à qual só o sentimento da grandeur (uma grandeza perfeitamente irreal como a vida, perfeitamente exótica como o horror da vida…) dará aquele mínimo de sentido para teimar em sobreviver, sem pensar que apenas teima e insiste.

Tudo isto, que hoje vemos em Malraux, nem ele o via na piedade áspera com que escreveu há trinta anos a sua obra-prima. Por isso, me entristeceu tanto — como não deveria entristecer — o nosso encontro no Rio de Janeiro. Que eu, como toda a gente, também encontrei o eminente ministro de Estado de De Gaulle. E, como toda a gente, embora com o gosto maldoso de o fazer depois da precipitação com que a maioria escreveu dele, também falo de Malraux. Mas não do que ele disse ou fez no Brasil. Creio que não disse nem fez nada, pois que só o acompanha ainda, na vida, le feu da retórica, sem o miolo da mesma.

O caso é que me encontrei com ele no Rio de Janeiro. Vi-o, com tristeza, subir para o carro de Chiang-Cai-Cheque. É verdade. Por estranho que pareça o automóvel era esse. Todos os leitores de A Condição Humana recordarão, por certo, uma das cenas mais intensas do livro, que é aquela da passagem do general chinês no automóvel com batedores, e o suicídio do terrorista que se atira com a bomba para sob a viatura afinal vazia. Com a única diferença de eu não ser o terrorista, a situação era idêntica. O aparato policial, a imensa petulância do ministro pairando por sobre a humanidade sofredora, e, ao fim e ao cabo, por uma subtil ironia do destino, o automóvel vazio, afastando-se ao som estridente das sirenes, para parte alguma… Fiquei no passeio, entre a multidão carioca, meditando na Condição Humana — a do livro, a nossa e a de Malraux.

1959

(In: Maquiavel, Marx e Outros Estudos, Lisboa: Cotovia, 1974. p. 157-162)

 

Jorge de Sena

Quinta-feira cheia a última. Malraux foi recebido para um chá na Academia. O que eu esperava aconteceu. Malraux não é homem de chás; é, sim, de voar a Brasília, olhar do alto a futura cidade, aterrissar e fazer logo depois um discurso magnífico. Na Academia cercado de mirones embasbacados de ambos os sexos, apresentado a uma porção de acadêmicos, cujos nomes não lhe diziam nada, é possível que estivesse considerando em seu mais íntimo: “Conheço os acadêmicos do meu país; imagino estes o que não serão!”

Sempre achei sem nenhum interesse ver um astro de tão alta grandeza brilhar nessas correrias protocolares. Bom é a gente avistar-se com algum simpático planeta do nosso próprio sistema. Um Jorge de Sena, por exemplo.

Saí abafado da Academia e fui espairecer no Real Gabinete Português de Literatura, onde o poeta de Coroa da Terra e das Evidências nos devia falar da moderna poesia portuguesa. Um primor de colóquio, em que Sena discorreu, com encantadora simplicidade precisamente para os que estavam ali, não, como habitualmente se faz em conferências, por cima dos que estão presentes para os que estão lá fora. Sena frisou não ser ensaísta nem crítico, mas apenas poeta, mas um poeta que faz crítica. A crítica de poesia de um poeta da sua estatura costuma ser grandemente esclarecedora. Sena é dos críticos que amam, como ele próprio declarou no seu recente livro Da Poesia Portuguesa, “lançar a confusão nos espíritos”. Quando um grande poeta vive, a sua personalidade poderosa e complexa suscita uma multiplicidade de juízos. Depois que ele morre, vai-se formando um mito, em que desaparecem aos poucos contrastes e contradições, forjando-se uma definitiva admiração feita de lugares-comuns. Sena gosta de perturbar esses marasmos póstumos. E consegue-o com infernal e doce inteligência.

Sena explicou quinta-feira a diferença que vai da poesia moderna portuguesa à que se fazia antes de Fernando Pessoa e depois dos simbolistas. Na época entre Cesário Verde e Pessoa. Este afirmou certa vez, numa quadra que toda a gente interessada em poesia sabe de cor: “o poeta é um fingidor.” Sena comentou: há duas sortes de poetas – os que fingem uma dor que não sentem, fracos fingidores, e os que fingem tão bem que chegam a fingir “a dor que eles próprios sentem” (assim os definiu Pessoa). Sena ilustrou a diferença lendo a “Balada da neve”, de Augusto Gil, e o poema “Natal”, de Pessoa. Falava um poeta autêntico, dos tais que sabem fingir a dor que sentem.

Jornal do Brasil, 30 de agosto de 1959
 

Terceira Carta de Londres

De 07/11/1952

Inglaterra Revisitada é o título do volume em que se reúnem as seis cartas escritas por Jorge de Sena por ocasião de sua primeira visita a Londres, transmitidas pela BBC no Programa de Língua Portuguesa semanalmente, de 17 de Outubro a 28 de Novembro de 1952. As cartas dão a ver o fascínio do viajante pelo país que sonhara conhecer, e são um registro do primeiro encontro de Sena com muitas das obras que mais tarde viriam a ser transformadas em poemas em Metamorfoses. Como exemplo, apresentamos aqui a terceira carta do ciclo, em que, entre digressões bem-humoradas e comparações entre Inglaterra e Portugal, Sena descreve sua primeira visita ao Museu Britânico e seu encontro com o jovem Artemidoro.


É minha intenção falar-vos de alguns museus de Londres. Mas intenções como esta podem, numa carta como esta, ir parar muito longe – quem sabe, pois, em que acabarei por vos falar? Decerto que da Inglaterra, decerto que de uma Inglaterra vista simultaneamente de Londres e de Northampton, onde tenho habitado alternadamente, e de mim próprio, onde, por mais que faça, cada vez mais habito, à medida que o tempo passa e, com ele, muitas ilusões que a gente alimenta a ver se não fica sozinho. Porém, uma “Carta de Londres” não é lugar para expansões pessoais, desde que essas expansões se alarguem, do domínio restrito das impressões de viagem e estadia, para o domínio, tão vasto e desinteressante, que são as preocupações de cada um. De resto, para quem lê os periódicos ingleses, há neste momento em Inglaterra três preocupações gerais: as perturbações no Quénia (provocadas por uma sociedade secreta que dá pelo nome absurdo de Mau-Mau: mas, sejamos compreensivos, que em inglês o Terreiro do Paço chama-se, como toda a gente sabe, “Praça do Cavalo Preto”); a proibição de ser transmitida pela televisão o momento culminante da próxima coroação de mais uma rainha Isabel; e, last but not least, a discussão à volta de se devem ou não ser chicoteados os culpados de assalto à mão armada. Se digo que estas preocupações são tidas por enormes pelos periódicos todos, é porque não falei ainda com ninguém que se preocupasse real e efectivamente com qualquer destas três coisas. O inglês médio, desde o tempo da Companhia das Índias, está ainda habituado a que estas coisas nas colónias digam respeito apenas a grandes interesses privados – e abstém-se, uma vez que nem é mau-mau patriota, nem é colono europeu patrioticamente assassinado, para, com todo o empirismo da City, poder julgar. Quanto à televisão, a cópia de argumentos nos jornais tem sido vastíssima e facilitado a vida de todos os jornalistas com falta de assunto. Chegou mesmo a escrever-se que a televisão permitia que a rainha fosse coroada perante todo o seu povo, e não apenas, como até aqui, perante aquele reduzido número de pares do reino que, de um lugar marcado na Abadia de Westminster, consiga ver alguma coisa por entre as decorações, os grandes dignatários, etc., que tudo isso acabará de encher o espaço que na Abadia resta disponível a uma vista de olhos. Eu acho isto de coroações uma nobilíssima, grandiosa e utilíssima coisa; e sou partidário de que a cena seja totalmente televisada, que ainda é essa uma maneira de a televisão ter algum sentido superiormente sagrado, por um momento que seja. Se todo o Império pode estar presente – ou mais exactamente, se a coroação pode repetir-se em toda a parte exactamente como Deus Nosso Senhor –, televise-se toda a coroação. Mas não há dúvida de que os jornais me contagiaram, pois que estou a preocupar-me com um problema deles, do Parlamento, do Governo, etc., quando eu não pertenço a esta aldeia, e não tenho o direito de tratar como espectáculo o que poderá ser para um povo, a que não pertenço, um grave problema de protocolo hertziano. A última preocupação, essa sim, diz respeito a toda a gente, mesmo a estrangeiros residentes aqui. Não é o mesmo ser-se assaltado por um ladrão que pode ser chicoteado, ou sê-lo por um ladrão que sabe que o não será. Os assaltos, ao que dizem os jornais, aumentaram medonhamente nos últimos tempos. Diga-se de passagem que esta Inglaterra seria, sem chicote, o paraíso dos gatunos portugueses. Habituados às janelas com portadas de pau, às portas da rua em duplicado e com fechaduras muito Yale em quadruplicado, que diriam a estas correntezas de casinhas e de cottages, com janelas de guilhotina sem fechos e sem portadas, e com a front door sempre no trinco ou apenas encostada? O pior é que, em Inglaterra, ninguém tem dinheiro em casa, ou na algibeira traz mais do que umas moedas. E roubar bancos demanda uma organização à americana, disciplinada e liberalmente conduzida. Assim, um roubo de quatro libras, uma miséria, tem aqui honras de primeira página. Realmente, arrombar uma pasta que se calhar estava aberta, assarapantar ou mesmo assassinar uma pessoa que se calhar passava a vida a ler romances policiais ou a ouvir os programas também policiais de rádio, e acabar roubando o que um gatuno português desdenharia – eis o que, de facto, é uma coisa tão ridícula, tão mesquinha, tão falta de imaginação, que só a chicote. O chicote é uma espécie de pena de Talião para consolação da sociedade; não é propriamente a pena de Talião, porque nesse caso, deveria ser ministrada pela própria vítima – o que, por vezes, seria difícil. Para esses casos difíceis é que as leis são sempre previstas. E, assim, discute-se acaloradamente o chicote. Eu, francamente não tenho pela legalidade maior respeito que pelo contrário dela. Acho que a consciência tem obrigação de valer sempre mais que as normas ou o desobedecer a elas. Mas, também francamente, admiro imenso a franqueza destas discussões, e, se não sou pelo chicote, sou com certeza pela sua legalização. Tanto mais que não pertenço ao número dos que roubam, mas ao dos que são roubados.

E agora reparo que estou a roubar-vos e a roubar-me tempo. Passei da promessa de museus e espectáculos para as preocupações pessoais. Para fugir a estas, embrenhei-me em preocupações do momento britânico. E era tão fácil ter-me agarrado àquela permanência que são os museus. Já Bernard Shaw dizia que era neles e nas bibliotecas que se guardava a civilização, e em nenhuma outra parte. Inclino-me cada vez mais para esta visão satírica. Visitemos, pois, o Museu Britânico.

O Museu Britânico não é coisa que se veja de uma vez. Mas, ainda que a correr o desejásseis ver assim: é impossível. Os museus ingleses andam em maré de economia. E as economias são, naturalmente, feitas à maneira inglesa. Expliquemos. Os horários aqui são uma coisa caótica, dado que não estamos, cada qual, dentro do rigoroso cumprimento que cada um mete no seu próprio horário. Há horas a que uma loja fecha, porque o patrão foi tomar o seu chá. Não admira, pois, que a economia nos museus se faça fechando metade das salas e abrindo a outra metade, alternadamente, para guarnecê-las com os mesmos funcionários. Não sei muito bem, porque não pensei nisso, qual seria outra maneira de resolver o problema, mas deve haver, com certeza, uma maneira muito melhor, portuguesa, de o não resolver.

Seria ridículo dizer que não pasmei diante dos frizos emétopes do Parténon, que em inglês se chamam “The Elgin Marbles”. Que não estremeci, docemente, com uma sensação de ansiedade mista de segurança, perante a Deméter de Cnico. Que me não encantou a nobre e já barroquizante majestade da estátua de Mausolo (o do Mausoléu, nome que se tornou comum a qualquer amontoado de pedras funerárias). Tudo isto serão sinceras emoções que toda a gente terá. Mas talvez nem toda a gente tenha a sinceridade de ficar frio, desiludido e indiferente perante a escultura egípcia: aquela escultura monumental, arquitectónica, ali perdida, catalogada, alinhada dentro de uma sala ainda que imensa! Um faraó de pedra, ou se vê no lugar em que há milhares de anos o puseram, ou se admira a qualidade e a beleza do retrato numa fotografia. É difícil concebê-lo num museu, sem um fundo que o isole, lhe garanta alguma parcela da majestade hierática que aquelas estátuas contêm. E, todavia, como em contrapartida é imediata, mais imediata que com toda a escultura grega, a comunicação com os caixões das múmias ou a infinidade de pequenos objectos que foram familiares a esses mortos. Em tudo isso, em tão minúsculos objectos, desde os selos aos enfeites e berloques, palpita uma vida intensa, gozada cauta e sabiamente, com uma satisfação e uma estima pelo próprio acto de viver, que, por exótica e distante, nem por isso menos nos toca e fala. E tanto quanto as estátuas gregas sem olhos são uma presença da forma que se nos impõe e comove como arte, como representação de uma forma aberta em si própria, assim aqueles olhos ingénuos das tampas dos caixões egípcios nos olham, senão com arte consumada, com uma penetrante e imediata vida. E é ingénuo esse olhar, porque, a milhares de anos de nós, tem já milhares de anos de sabedoria, uma sabedoria mais vivida que meditada. Eu, por anos que viva, nunca esquecerei o olhar de Artemidoro, jovem egípcio já do período helenístico, em cuja melancolia e serena expressão se funde todo o mundo antigo que o Mediterrâneo banhou. Um fervor discreto, como o de uma pequena lâmpada. Naquele olhar está tudo o que Roma vai herdar e perder. Tudo o que nós, filhos de Roma e da cristandade que Roma tornou possível, sonhamos de Grécia e de Oriente. A harmonia das civilizações amalgamando-se para morrerem, como fénix, num clarão de suprema dignidade. Esse momento para nós o mais precioso. E que renasce e rebrilha, com tamanha singeleza, ao passarmos diante de uma vitrina de museu! À vista disto, que são os manuscritos de Leonardo da Vinci, escritos de trás para diante e como num espelho? Ou uma carta de Ticiano reclamando que lhe paguem um quadro? Ou um papiro, aproximadamente contemporâneo do jovem Artemidoro, em que um contribuinte se queixa, com nomes e tudo, da forma como é feita escandalosamente a coleta dos impostos? Pouca ou nenhuma coisa – aquela pouca ou nenhuma coisa de que são feitas as nossas arrelias quotidianas, a ponto de quase parecer que disso a própria vida é feita.

Não quisera despedir-me de vós neste tom quase solene. Falei de coroações, de civilizações que morrem, de chicotes, enfim de inúmeras coisas sérias como o Museu Britânico, cuja colunata pseudo-grega tem uma imponente monumentalidade. Quando de lá saía, a passarada chilreava por entre as colunas, acomodando-se no frisos e entablamentos, como em Lisboa o faz nas árvores do Chiado ou da Avenida. Os pássaros aqui, como as pombas de Trafalgar Square, ostentam preferências artísticas. Tive, noutro fim de tarde, de entrar e sair a correr da National Gallery, dado que a chilreada por cima e os resultados no chão aconselhavam movimentos rápidos… Quem diria que em Londres, no meio daquela cidade imensa, havia lugar para pássaros que não fossem de Jardim Zoológico! Mas há. E até com um comércio organizado creio que de alpista ou milho ou qualquer coisa conhecida e que a gente aqui não reconhece. E muitas pessoas satisfazendo a fome dos bichinhos e os seus próprios complexos de bondade. É um passatempo dominical como qualquer outro. Como por exemplo: estar parado em Picaddilly Circus, à noite, contemplando os anúncios luminosos e a lenta multidão que se acotovela, enquanto no meio da rotunda, há inúmeras pessoas empoleiradas (porquê) na bela estátua de Eros que ironicamente sublinha a reputação de Piccadilly. Fiquemos por aqui. Ir mais além seria atentar contra a discrição dos microfones e a reconhecida pacatez da vida inglesa.
 

A Bomba atómica e a cultura

Considerações irônicas em 1946

Que o Carnaval existe mesmo fora do tempo de Carnaval, todos sabemos. E que é possível tratar todos os temas sob um olhar carnavalizante, também o sabemos. Eis uma crônica de Jorge de Sena a comprová-lo.


Fizeram os americanos rebentar algumas bombas atómicas, e cuidaram tão bem de que o estrondo soasse jornalisticamente pelo mundo, que as bombas políticas do Pacífico fizeram nos espíritos “cultos” mais estragos que as suas congéneres bélicas no corpo dos japoneses experimentais. O abalo, nesses espíritos, foi de tal ordem, que alguns, conhecidos pela indestrutibilidade do seu silêncio, desceram à fragilidade do artigo, do artigo de jornal – da meditação destinada a emprestar o tom conveniente de filosofância melancólica, à “suma patológica” que é sempre o aniversário de um periódico.

Os jornais portugueses comemoram o Natal, a Páscoa, o Ano Novo, o aniversário de Camões e o seu próprio, com muitas páginas de anúncios e algumas páginas de locubrações literárias, captadas nas nascentes mais gratas ou ingratas à direcção do jornal. É, então, nos tempos que correm, o momento oportuno para o desabafo público da angústia atómica.

E é curioso verificar que os “amantes insaciáveis” do espírito, e para os quais o espírito, por contradição demoníaca, é esse espírito pairando sobre as águas do nada, com o qual, segundo as revelações que devem respeitar, Deus não quis contentar-se – é curioso verificar que são esses os mais perseguidos pelo pesadelo atómico, os que mais temem pela integridade de uma matéria que, afinal, não veneram, e pela existência de uma vida que, afinal, não entendem.

Falar do absoluto com lágrimas na voz, e puerilmente supor que a confiança do espírito humano se garantiu, alguma vez, na noção da indestrutibilidade do mundo, é desvirtuar a dignidade das mais altas actividades do homem. Nenhuma religião, nenhuma filosofia e nenhuma arte, quer destruindo para criar, quer criando para destruir, nenhuma levou a sua possível incoerência ao ponto de confundir a eternidade com o destino do universo, a imaterialidade com as essências, as ideias gerais com as descobertas da física, e a história humana com a certeza consoladora do “valer a pena”. O espírito humano nunca recuou cobardemente perante as certezas negativas. E mesmo que a filosofia da história viesse afirmar, como já tem afirmado, que o homem é de certo modo impotente para dirigir a história, nem por isso o espírito deixaria de, heroicamente, recusar uma metafísica de refúgio, uma metafísica porto de abrigo, contra as tempestades dos factos. Apresentar a metafísica, querendo enaltecê-la, como uma entidade em si mesma, é amesquinhá-la e ridicularizá-la, porque só genericamente se pode dizer “a metafísica”, à semelhança de quem diz “a baleia”. E, depois disto, fugir para a metafísica como quem foge para os Mares do Sul – perdão, para os do Norte, que aqueles são os da bomba! – e fugir sem indagar, primeiro, se a metafísica está pelos ajustes, se a metafísica tolera quem só a conhece de vista: é, além de uma grande imprudência, um sinal certo de desintegração muito mais atómica do que seria razoável imaginar.

Contemple-se o quadro: o mundo some-se, mas fica pronto a desdobrar-se panoramicamente, porque, por hipótese, se supõe que se salva uma biblioteca. Livros e livros voando pelo espaço, obedecendo às leis da atracção universal. Bastará folheá-los – e o mundo, qual Egipto dos Faraós, revela-se. Mas quem os folheará, quem? Certamente que o aterrado atómico, salvo, por milagre, juntamente com a hipótese. E esse, ao folheá-los, dirá, como o homem subterrâneo de Dostoievski: – “Que o mundo acabe, mas que o meu chá me não falte…”.
 

Na contramão do grandioso: o centenário esquecido

A efeméride que faltava

Uma bem-humorada e irônica crônica de Jorge de Sena, recordando efeméride esquecida no mesmo ano em que sobejaram celebrações do 4º centenário da publicação de Os Lusíadas. Com cortes feitos pela Censura, o texto foi publicado originalmente no Diário Popular, de Lisboa, a 8 de março de 1973.

 

“Um centenário lamentavelmente esquecido”

                                                      
 

Passou o ano de 1972, sem que tenhamos visto mencionado, aonde quer que fosse, um importantíssimo e extremamente relevante centenário, altamente apropriado para celebrações do mais universal caráter. A menos que o facto haja sido referido, discretamente, em algum periódico científico, ou técnico, ou de divulgação de uma outra destas duas naturezas, cremos que escapou inteiramente à consideração da humanidade actual. E quanto ela lhe deve – ao que se comemoraria – quer no sentido físico, quer no sentido moral! Com efeito, aonde quer que seja difícil que um corpo aceite algo superior à sua medida, aonde quer que a pele humana solicite especiais cuidados, aonde quer que a moralidade determine que se engula o impossível – e a que ponto isso é requerido no nosso tempo! – lá está, em pessoa ou em metáfora nascida da grata memória dos humanos, precisamente aquilo cujo centenário se esqueceu. É certo que não era, ou não seria em número de séculos, um desses centenários tremendos, impressionantes, carregados de anos, como por exemplo o celebrar-se a fundação de Roma por Eneias, ou a de Lisboa por Ulisses, acontecimentos que, por lendários, não são menos de celebrar. Certo igualmente é que não se trataria de celebrar uma pessoa, uma obra, uma conquista militar, cujos efeitos através dos tempos se pretende que continuem a fazer efeito, como sucede àqueles remédios e semelhantes produtos de que o organismo se cansa ou a que se habitua. E, neste último caso, Portugal, celebrando o 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, tem, em relação a outros países do globo terráqueo (incluindo a Lua aonde já humanos puseram os pés), uma desculpa que os mais não possuem de todo em todo. Como, pensando-se em Camões, se penaria no que, todavia, foi e é muito mais popular do que ele? Menos desculpa, e é mesmo quem a não tem, possui a América do Norte, local de nascimento há cem anos (cumpridos em 1972), do notabilíssimo entre cujo centenário passou despercebido. Todavia, cumpre-nos reconhecer que foi ano de eleição (no sentido não de alta escolha, mas no de “eleições”), e a população ouvindo ou não ouvindo os candidatos, estes dirigindo-se à mesma população, e a alta finança e a grande indústria, através dos meios de comunicação de massa, subvencionando um grande silêncio que servisse os melhores interesses da pátria (já lá dizia o famoso dictum que o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos), todos tinham, por igual, ocasião de não se lembrarem de tão importante centenário. De resto, a América prepara-se para celebrar o seu 2º centenário como nação em 1976, e não tardará a ter de iniciar, com a colaboração de outras superpotências, o centenário das Guerras do Vietnam. E, no entanto, em tudo isto, quanto consumo tem sido feito, por metáfora, do modesto e prestimoso entre criado pela inventiva humana, e cujo nome é, para mais, na sua etimologia bastarda, um perfeito símbolo da estupidez linguística neste mundo! Imerecido nome para tão nobre entidade! Mas é o que ela tem, e com ele recebeu a celebridade metafórica e simbólica que é condignamente a sua.

Historiemos. Há mais de um século, existia nos Estados Unidos uma empresa industrial de produtos químicos, dirigida por certo Senhor Robert A. Chesebrough (este apelido, em português corrente, é muito interessante apontar que se diria, com ressalva das ortografias abstrusas que as etimologias impõem aos nomes de família, Queijoburgo). Não há muitos anos (à fé do crítico e linguista Mencken, na 4ª. edição do seu monumental estudo The American Language) ainda existia a companhia que levava o nome do Snr. Queijo (cortemos a Cidade, para simplificar). Não nos foi possível investigar se ainda existe, mas é pormenor secundário em relação à entidade que nos ocupa, cuja celebridade e popularidade se tornou independente da empresa que lhe deve o ser. Pois o caso é que em 1872, a companhia do Senhor Queijo descobriu um produto que não era sólido nem líquído, era aquoso e não era, era oleoso e não era, e que se extraía dos petróleos.

Como naqueles tempos, sobretudo nos países anglo-saxões, quanto fosse Química era necessariamente conexo com as grandezas germânicas – os alemães eram, lendariamente, os técnicos por excelência de quanto havia –, o nome do produto tinha de reflectir a germanidade sem que não havia dignidade química. Mas como, por outro lado, as tradições científicas sempre exigiram que os nomes das coisas tenham alguma coisa de grego, já que, por definição de Civilização Ocidental, a Grécia foi aonde começou tudo, o nome tinha de ter étimo helênico. E foi assim que, há cem anos, cumpridos em 1972 e lamentavelmente esquecidos, nasceu, para conforto, alívio, alegria e paciência da humanidade… Recuemos um pouco. Os empregados do Senhor Queijo, ou ele mesmo, lembraram-se de que água, em alemão, se dizia (e ainda diz) wasser; e procurando activamente num dicionário, encontraram que óleo, em grego, se dizia elaion – do que, num golpe de génio, e de barbarismo linguístico, nasceu aquela coisa suave e emoliente, deslizante e macia, que se chama, e toda a gente sabe – VASELINA.

Recordados de tudo o que a vaselina lhes recorda, gratos de quanto lhe terão devido em momentos ansiosos ou difíceis da vida, todos os leitores concordarão com o nosso comovido exórdio. Como foi que se deixou passar em silêncio tão grandiosa efeméride? Como foi que as Nações Unidas, a Unesco, a Organização Mundial de Saúde, as Academias de Ciências e mesmo as de Letras, ou das duas coisas, as Câmaras de Comércio, as Associações Industriais, as drogarias, as farmácias, etc., etc., não tomaram a iniciativa de tão magna celebração e tão justa? A ela se teriam associado entusiasticamente todos os sexos reconhecidos (à vaselina), todas as almas dulcificadas por ela. Teria sido uma das maiores e mais grandiosas manifestações que a humanidade já organizou. E, estamos certos, teria sido espontânea. Se tal não sucedeu, perdeu-se uma colossal oportunidade de celebrar em uníssono as grandes invenções humanas, simbolizadas na útil e humilde vaselina.

Ter-se esquecido tão emocionante centenário só poderá atribuir-se, tristemente, menos à ingratidão que tanto prejudica centenários (como promove outros), do que a uma lamentável ignorância acerca da data de nascimento de tão serviçal produto. Pois que pomos longe de nós a ideia de que foram a hipocrisia ou a falsa pudicícia o que privou o público em geral de saber a tempo que centenário tinha nas suas mãos, no momento em que nelas tivesse um tubo de vaselina ou de qualquer produto em que ela esconda a timidez mas não a sua utilidade. Ou no momento em que, abaixando a grimpa, aceita o que se está mesmo a ver que não cabe na verdade. O ano de 1972 passou. Mas, antes que esfrie no cemitério dos calendários, recolhamos os nossos espíritos, e dediquemos uma lágrima votiva (de vaselina) à gloriosa e centenária filha de um industrial para quem a Grécia antiga e a Alemanha moderna se uniam fraternalmente nas suas superstições de laborioso americano. E gratamente, mas com o orgulho devido aos progressos das ciências, pensemos com horror em como só há cem anos é que a humanidade dispõe de vaselina para as suas necessidades e urgências.

Santa Bárbara (demitida da Corte Celeste) Ano Novo de 1973

As aventuras onomásticas e brasilienses

Um pai às voltas com o nome do filho

A propósito de um dos assuntos que mais têm circulado na mídia nos últimos dias — a proibição de dar nomes estrangeiros a crianças brasileiras — recordamos aqui a palavra de Jorge de Sena sobre o tema, em crônica muitíssimo bem-humorada que vai das origens histórico-culturais da polêmica ao depoimento pessoal do indivíduo "nascido em Portugal, de pais portugueses / e pai de brasileiros no Brasil" às voltas com a dificuldade em registrar o filho sob nome "estrangeiro".

 

 


Durante a época colonial no Brasil, e não porque a opressão lusitana impedisse a liberdade onomástica, mas sim porque nenhum padre brasileiro admitiria baptizar alguém como nome que não fosse “cristão” (o que, para esses padres, significaria por certo um nome português ou aceito como tal), as pessoas chamavam-se Joaquinas ou Antónios, como em Portugal, sem que isso fosse vergonha para qualquer. Vinda a Independência, certo anti-portuguesismo era inevitável que se desenvolvesse, mesmo que não existisse já. Mas, quando veio a Época Romântica – que no Brasil foi proclamada em Paris, tal como sucedeu a Portugal com Garrett, e catorze anos depois do Grito de Ipiranga soltado pelo Senhor D. Pedro (o qual, como é sabido mas não igualmente em ambas as margens do Atlântico que ambas fazem os seus possíveis para deixarem de falar e escrever português, o qual, repito, foi Imperador Pedro I do Brasil e Rei Pedro IV de Portugal, sem ter acumulado os dois empregos, ao contrário dos tradicionais costumes luso-brasileiros) –, vieram também os Índios logo a seguir. Não, é claro, os propriamente ditos, em carne e osso: esses, sempre que a ocasião se proporcionava (e segundo a habitual bondade da raça lusitana e seus prolongamentos), eram reduzidos a osso, sem mais, para pasto das feras, ou dos vermes subterráqueos, a bem da expansão da civilização, e da propriedade privada dos que a expandiam e queriam a terra (que os índios, cretinos, não lhes davam) ou os desejavam para escravos, com o que eles não estavam de acordo. Mas, ao tempo do Romantismo, os índios eram já coisa longínqua, de que havia séculos se havia desistido de fazer escravos, de teimosos que eram. Os escravos eram todos africanos, importados sem lhes perguntar a opinião. De modo que os índios românticos tinham a enormíssima vantagem de poder ser antepassados mitológicos que não vinham pedir contas da herança, de terem simbolicamente resistido aos opressores da colonização (sem que se pergunte se estes tinham nascido todos em Portugal), e de serem o nobre selvagem de tão elegantes tradições literárias europeias, sem deixarem de ser, ali mesmo, americaníssimos, como a Europa não tivera nunca. Escreveram-se poemas e romances em que os índios são belos, bonzinhos, falam como os clássicos de Quinhentos (património comum da Língua que se não ama) – e muitos desses romances e poemas sucede que são obras-primas. É claro que os nomes dos índios, vindo dessas obras literárias de grande popularidade, entraram numa onomástica que se queria nacionalista no mais burguês sentido da palavra. E as cidades e vilas começaram a mudar de nome, ou, quando fundadas por algum desbravador, a recebê-lo tão guarani quanto possível, já que a esmagadora maioria das pessoas não sabia, nem hoje sabe, uma palavra de tupi-guarani (que, ainda por cima, não é bem a língua dos índios, que as tinham muitas, mas a que os jesuítas haviam inventado no século mais ou menos XVI e XVII como “língua geral” que permitisse a comunicação, sem imposição da língua portuguesa em absoluto e exclusivo, sabidos que eram de linguísticas e outras coisas que não havia naquele tempo, estes jesuítas que queriam os índios livres para os administrarem nas suas, deles jesuítas, aldeias (ad majorem Dei gloriam, que é o lema da Companhia). O que sucedia às cidades sucedeu também com nomes de família de muita gente: ser Silva ou Costa ou Coutinho era uma portuguiçe sem graça, e muito mais engraçado era a gente chamar-se Capivara, Aricolicora, etc., etc.


Passado o Romantismo, esta mania indiófilo-literária passou também. Mas, quando caiu o Império em 1889, e veio a República, o filósofo Augusto Comte, criador do positivismo francês, já se implantara ideologicamente no Brasil, com igrejas da Religião da Humanidade e tudo. Durante o Império, o clero baptizador não queria que o achassem anti-patriota, e aliás passara o seu mau-bocado em brigas com o Imperador (mais com o II do que com o I, digamos, ambos Pedros, pai e filho, e Braganças inteiros). A Religião da Humanidade do ilustre Comte tinha um calendário em que os santos da Igreja Católica estavam substituídos por homens ilustres, merecedores de veneração e de uso onomástico (tal qual como acontecera por séculos com o cristianismo, quando, salvo se o nome do santo era uma coisa impossível a cair de velha e esquecida, as pessoas recebiam o nome do santo do dia em que tinham tido a sorte, muita ou pouca, de nascer). Assim, a Ubirajaras e Iracemas, vieram juntar-se todos os Péricles e Aristóteles ao alcance das listas positivistas de grandeza humana de antiguidade e valor garantidos. E assim passaram a aparecer os Aristóteles da Silva, os Péricles Tucunduva, as Ubirajaras Agripinas (embora estas senhoras, lá em Roma, não fossem gente de decência para nenhuma lista de meninas honestas) [*]. Mas, por esse tempo, começara a magna migração da Europa para o Brasil. E também das Ásias. O que, necessariamente, trouxe uma hoste de nomes de todos os lados, desde o judeu da Alemanha ao árabe da Síria (dos “sírios” se diz maldosamente no Brasil “que nasceram turcos, vivem sírios e morrem libaneses”…), cujos sacerdotes não hesitavam em pôr às crianças, obviamente, sem que o Estado ou Governo Central se importassem. Mas a coisa não ficou por aqui, quanto a fantasias onomásticas. Este povo miúdo, ou a burguesia enriquecida dele, não tinha raízes culturais brasileiras (sobretudo nos Estados do Brasil de grande massa migratória), e em grande parte perdera (para lá dos costumes mais quotidianos e de alguma língua que mantinham da pátria de origem), a menos que em raros casos de pessoas de alto nível cultural, aquela cultura originária que na verdade não possuía – tal como os comendadores do Rio de Janeiro, pelo menos alguns, nunca souberam de Portugal mais que o bacalhau com batatas (a pátria, ao exportá-los, não lhes dera outra bagagem cultural, a mais de um conservantismo de quem foi fazer pé-de-meia e não deixar de admirar o Salazar à distância no tempo e no espaço). Assim sendo, e porque é da antropologia saber-se que a identidade ÚNICA de um indivíduo que se perdeu de um clã ou de uma tribo, sem ser integrado numa nação, está ligada à unicidade do nome, passou-se para um grau mais avançado em onomástica de novos-ricos sem mais fortuna que a existência, ou com uma fortuna sem raízes no fazer-se de um país. Um avô querido chamava-se Peri; a mãe chama-se Agripina (desculpem a repetição). Claro que uma criança do sexo feminino, nesta família, se poderia chamar, como ninguém, PERIPINA. As possibilidades combinatórias iriam por este caminho ao infinito, se lhes acrescentarmos o fascínio dos pobres já feitos, mas “raros”… E foi assim que, uma vez, em São Paulo, uma senhora 100% brasileira estava a contratar uma criada, ou empregada como já então se dizia no Brasil aonde a mudança de nome não significava nenhuma mudança de status social ou segurança no trabalho, e conversa vai conversa vem, acordavam o preço, etc. E foi quando a dita senhora – daquelas super-grã-finas de São Paulo, ricas, fundadoras do Brasil, quatrocentonas em suma – perguntou à “empregada” pelo nome dela. Não era possível, não ouvira bem, tremeu. E pediu à pobre mocinha que repetisse melhor o nome. Ela, num cândido sorriso, repetiu: – Sífilis –. Ante o aristocrático pasmo enojado da grande dama, ela explicou: – Quando meu pai estava para se casar e andava muito doente ele foi no médico e o médico disse para ele o diagnóstico é sífilis mas eu ponho você bom para o casamento e meu pai fez promessa à Senhora Aparecida que se tivesse filha, depois de bom e casado, a filha se chamava Sífilis –. A senhora ficou ainda mais sem fala, mas ainda faltava mais – com um novo sorriso a moça acrescentou: – E meu irmão se chama Diagnóstico…


Esta história é autêntica, não uma piada inventada. E é claro que fenómenos como este levaram o Ministério da Justiça a publicar um livrinho com a lista dos nomes aceitáveis pelo Registro Civil (o qual, é claro, aqui ou ali, como no Brasil se diz, facilitava). Não sei se o livro – com o qual voltaremos a encontrar-nos no perfeito epílogo desta digressão filológico-cultural – é anterior ou posterior àquele grande senhor de Minas Gerais que não há muitas décadas se divertia a “numerar” os filhos e filhas que ia fazendo na esposa paciente e tão pouco estéril como ele, ao que adiante se verá. E assim é que as infelizes crianças iam sendo Primeiro, Segunda, Terceiro, etc., até que o dito senhor decidiu que já eram suficientemente numerosas: e o gajo que veio foi baptizado de Último. Mas, como se sabe, e para mais naqueles tempos deficientes de anticonceptivos, o Homem põe-se, e Deus dispõe-se, para tratarmos o velho ditado com o adequado acerto. O caso é que, como dizia um amigo meu, de cada enxadada saía minhoca… e, apesar das mais rigorosas contas, avolumou-se, e nasceu o que era um rapaz. Ah sim? O pai vingou-se, e chamou-lhe Epílogo. Mas Deus Nosso Senhor vingou-se de ele não ir exercer as suas actividades algures, e deu-lhe uma filha. Ah… À altura do desafio, chamou à desgraçadinha Errata, e aí sim, ponto final. De facto, depois da Errata, que nome tinha ele para mais um produto genital?


Consideremos agora o importante epílogo deste estudo. Deu-se que também eu, prolífico tanto (ainda que não católico, como aquele Senhor mineiro) e que já não tinha poucos filhos, tive mais um par deles, anos passados, no Brasil, e que são, portanto, brasileiros-natos como o não era D. Pedro, o gritador de Ipiranga, e cujos ossos Portugal exportou há anos, com gosto de absolutistas para o Brasil que pedira os restos do sujeito que cometera o extravagante acto de, sendo português de nascimento, proclamar a Independência ele (já setenta anos antes outro português, o eminente poeta Gonzaga, se sonhara presidente de uma República inteira… – os portugueses são assim, ao contrário da má-fama de teimosamente metropolitanos que se lhes criou e só os que vivem a mamar na teta da magra vaca europeia e ibérica, ou pelo menos muitos deles, na verdade merecem). Quando fui, acompanhado por testemunhas de brasílica idoneidade nacional, registar a primeira não houve problema algum: Maria José, com aquilo de a pequena não ser Josefa, como a concordância gramatical exigiria, por certo agradou ao oficial do Registo Civil. Mas no ano seguinte o caso foi seriíssimo. Indo eu mais as idóneas testemunhas ao sacrossanto lugar da separação da Igreja e do Estado, o funcionário – com o seu sotaque de “italianinho”, o que não é piada à Itália que amo mesmo no desenvolvimento de São Paulo que os filhos dela fizeram como ninguém, mas é indício de um anti-portuguesismo mais ou menos comum – perguntou-me: – E como o menino vai se chamar? –. E eu, despreocupado ainda, declarei: – Nuno Afonso –. O homem franziu o sobrolho, fitou-me com visão de verruma demolidora (para mais eu era professor da universidade, um desses terríveis vermelhos e viciosos que estavam ali na cidade para perverter a juventude indefesa… a qual, sem ajuda da universidade, e só a da natureza, ia fazer porcarias – ou o contrário, conforme as opiniões – na sombra densamente arborizada e nocturna da minha avenida, pelo que, certa manhã, um dos meus filhos pequenos, brincando na rua, veio triunfante para casa com um achado que fizera, e discretamente descreverei como uma túnica de Afrodite, servida), e disse secamente: – Não posso pôr a ninguém nomes que não existem no Brasil –. Era com Nuno que ele embirrava (talvez pensando que era brincadeira minha por nono que ele notoriamente era na lista dos meus filhos, e ignorando tão velho e respeitável nome da língua). Insisti que o nome existia, as minhas testemunhas apoiaram-me com a sua reconhecida brasilidade nata, etc. – mas o homem continuou inabalável. Eu então tive uma ideia luminosa: vi um livrinho salvador, como tem acontecido a vários santos que, parece, até os engoliram, pelo menos na visão que tiveram, e exclamei: – Vá o senhor buscar a lista de nomes, e vamos a ver se há ou não há esse nome no Brasil –. Ele tentou resistir, mas submeteu-se e trouxe o livro que folheou com desesperadora lentidão. Mas eu, por cima da mesa dele, ia vendo, e ele não podia evidentemente, ante o nome impresso, continuar a recusar-lhe a existência. Então, furioso mas dominando-se, perguntou sem mais comentários: – Afonso, não? Com um F ou com dois FF?… – ao que eu respondi que com um só como mandava a ortografia oficial. Assinámos o registo, recebemos o breve certificado do acto, viemo-nos embora, e não pensei mais no caso, a não ser se vinha o talho de conversa para digressão socio-linguística. Passado tempo, foi quando tive de tratar das papeladas para nos transferirmos, a tribo toda, do Brasil para os Estados Unidos, o que requeria certidão completa, ou de teor, do nascimento de toda a gente. Pedi as daqueles meus dois filhos na conservatória aonde os registara e recebi-as… E passando nelas os olhos, que vejo eu? Na do Nuno Afonso, o homem tivera a última palavra para a eternidade de tais documentos. Depois de nós termos assinado e saído, ele apusera uma apostilha: “Em tempo se declara que a criança recebeu o nome de Nuno, por insistência do pai, embora este nome não exista no Brasil”.


Isto é, um Nuno, de velha cepa portuguesa, não podia existir; uma Peripina, por certo que sim. Não se pense que todo o Brasil é assim, mas é triste observar como liberais ou gente de esquerda – talvez por serem, muitos deles, membros das burguesias irreparáveis – colaboram neste anti-portuguesismo que não é criação de Brasil nenhum, mas o despir do Brasil, por dentro e por fora, do que lhe resta de vísceras originárias, para o estufar dos imperialismos que o comem às carradas que arrasam montanhas. Porque um país adulto, desenvolvido, e capaz de enfrentar os complexos de culpa, que possui, por pouco ou nada ter feito por milhões de brasileiros todos tão pitorescos para favela (ao longe) e mulata (ao perto), um país de alta cultura e velha tradição nacional de séculos de “América Portuguesa”, bem pode voltar a chamar aos seus filhos Martim, Diogo, Duarte, Tomé, etc. (e não apenas António, que é afinal tão português como italiano), segundo os nomes dignos e respeitáveis daqueles primeiros portugueses que puseram pés no Brasil (e não menciono Pedro, porque o malandro do Cabral não nos deixou certeza de não haver lá chegado por acaso, ainda que o nome dele, o do Príncipe dos Apóstolos, deva, em terra tão católica como o Brasil, sobrepor-se ao som português e cabralesco que possua), para o criarem como ele veio a ser, no fundo da sua natureza enriquecida de todas as raças, e mais empobrecida por uma delas do que nunca os quintos do Rei de Portugal, pobretana e sem autoridade, jamais fizeram. E tudo o mais são desculpas que o pobre povo de milhões, no Brasil, nem pede, porque não sabe ler; e, quando souber, já não vai a tempo de que ainda haja a terra que é a sua. Como me dizia o Snr. Vivaldo, meu carpinteiro em São Paulo, a cair de tuberculose mas imortal de verve de sertão bahiano, numa hora em que viu desvanecer-se uma vaga luz que ele nem bem sabia o que era: – Vê, está vendo? É como eu sempre disse que pobre não tem vez… –. Já deve ter morrido, por certo, mais a fabulosa riqueza linguística e de “estórias” que era a sua, quando começava a contar por horas… Ele que, um dia, filosofando sobre as diferenças que havia entre a Bahia (que ele não via há aníssimos) e o São Paulo a que viera trabalhar, inocentemente me patenteou que, geografica e nacionalmente, ainda vivia, onomasticamente, no século XVII da visão popular do seu país: – O senhor sabe? Aqui em São Paulo é assim. Mas lá no Brasil é outra coisa –. Para ele, o Brasil ainda não ia da Amazónia ao Rio Grande do Sul, de Mato Grosso à costa aonde por tanto tempo tanto caranguejaram os habitantes, como disse um vetusto e admirável cronista do Brasil que os portugueses nunca leram. Para mais, esses cronistas venerandos eram quase todos uma catrefa de funcionários, de padralhada, etc. Eram, sim. Mas tinham uma dignidade que, para onomásticas patrióticas, faz bem comparar com as cobardias, as desvergonhas, e a vacuidade moral do nosso tempo de aquém e de além-mar.
 

Santa Bárbara, algures no tempo da amargura difícil de amar mais de um país com amor infeliz, à beira de um Oceano que não banha Brasis ou Portugais.
 

 

[*] Para elucidação dos mais veementes anti-colonialistas, no que se refere a passado, presente e futuro, quer em Portugal, quer no Brasil, quer noutros lugares aonde a língua portuguesa vá manquejando como a deixam que vá, cumpre informar que Agripina não é só o nome da mãe de Nero, uma desavergonhada. É também o nome de uma colonialista, visto que esta mesma mãe do Nero (que, segundo parece, foi um excelente sujeito, igualmente vilipendiado pelos interesses da aristocracia e da alta burguesia romanas, e dos primeiros cristãos, escravos daquelas) fundou Colónia. Sim senhor, Colónia, a cidade alemã, imagine-se. E que as inocentes Agripinas me perdoem (e aos pais que lhes deram um nome que afinal não é feio).

Angola e Moçambique

Das crônicas de viagem, 1972

Das quatro “Crônicas de viagem” publicadas no Diário Popular, entre 4 e 20 de agosto de 1972, transcrevemos a última — não só por resumir as “andanças africanas” de Sena numa data tão camoniana; como ainda pelas achegas que nos dá aos poemas que aí escreveu, como ainda pela sua veemente conclusão, em nítido diálogo com a conhecidíssima frase pessoana “minha pátria é a língua portuguesa”.

 
Estive por Angola há trinta e quatro anos, nos meus tempos de rapaz e marinheiro. Em Moçambique não estivera nunca. A minha visita a este oriente das Áfricas durou cerca de um mês; e em três dias foi que revi Luanda, ou antes procurei pela cidade baixa o que lembrava dela, além de revisitar os monumentos – as igrejas e os fortes – que continuam ainda no mesmo sítio onde estavam, apenas mais pintados de fresco do que os lembrava ou mais restaurados da ruína em que se desfaziam. Entre Angola e Moçambique passei, na viagem de ida, horas e horas encalhado no aeroporto de Joanesburgo (por falta do “visto” que me haviam dito não ser necessário para sair-se dele, estando em trânsito), cidade que visitei, à volta, em dia e meio. Não se conhecem nem se julgam assim países, ainda quando a gente tenha anteriormente lido muito sobre eles, e neles depois converse com pessoas que longamente os tenham vivido e meditado.

É certo que as Áfricas já eram e continuaram a ser uma presença viva na minha família, quando eu nasci – desde que, há cerca de um século, minha avó materna, Isabel dos Anjos Alves Rodrigues Teles Grilo, a “Senhora Grande” para os indígenas do Sul de Angola, a esta aportou para lá viver décadas de orgulhosa “Professora Régia”, que o rei D. Carlos nomeara e a República reconduziu em pitorescas circunstâncias.

Desde a Madeira a Moçambique se espalha, como na metrópole, a sua numerosa descendência que ela, mais tarde aposentada em Lisboa onde morreu tão de pé como sempre vivera, continuou a chefiar com mão de ferro, contas correntes a partidas dobradas, e altissonantes cartas pastorais e encíclicas a que a dúzia de filhos, as dezenas de netos, e o inefável belo homem de barbas que o meu avô foi, todos se curvavam num calafriado terror que era também respeito perante um ardente coração. Alguém que pisasse o risco em dois continentes, ou fizesse o que ela considerasse menos digno – e lá seguia, por cópia, para todos, a carta de excomunhão, que isolava o pária, castigadoramente do convívio da tribo matrilinear. E quem não cumprisse o édito, levava outra. Não poderei esquecer nunca essa mulher espantosa que foi, na sua esclarecida velhice, a primeira pessoa a compreender e animar a minha poesia modernista. Guardo, no meu primeiro livro de poemas, há trinta anos publicado, o exemplar que foi o dela.

Eu mesmo, na verdade, vim a nascer destas Áfricas – sem elas, minha mãe, voltando dos metropolitanos estudos para Angola, menina e moça e ruiva, não teria conhecido a paixão romântica e brutal do capitão de navios, jovem e de bigodes retorcidos, que foi o meu pai. E por estas navegações que duraram a minha infância e adolescência (e evoquei num conto, “Homenagem ao Papagaio Verde”, publicado em “O Tempo e o Modo”), a África continuou presente na minha formação, par a par com as memórias e as idas e vindas de uma família inteira, extremamente tribal até nas suas rivalidades e intrigas. De modo que as Áfricas me não são, somado tudo, menos estranhas do que a muita gente, e certamente do que aos “reinóis” (como o Brasil dizia) que lá vão sacudir, altos funcionários, comerciantes de aventura, ou as duas coisas, a árvore das patacas.
Posto isto, que dizer em resumo do que vi e ouvi agora? Antes de mais, os arrepios que a África do Sul me deu, e se distinguem do quanto possa, em Angola e Moçambique, angustiar a gente. Com paternalismo ou sem ele, aquele “apartheid” grotesco não é comigo: e não serão a hospitalidade de sul-africanos gentis e cultos, ou o esplendor moderno de Joanesburgo, o que me fará esquecê-lo. Como foi possível que um povo com o passado cosmopolita da Flandres e da Holanda inventasse aquilo, tomando dos ingleses o pior deles, e o justifique com a Bíblia, que não há dúvida poder servir para tudo, eis o que ultrapassa não só o sentimento humano mas mesmo o senso comum aos homens e aos animais. Tudo o que pode desejar-se – e deve impedir-se, por todos os meios – é que uma imagem, mesmo pálida, de tal monstruosidade, tente repetir-se em Angola ou em Moçambique, em quaisquer circunstâncias. Ou que as lições, senão da humanidade, ao menos do comércio internacional (que na África do Sul, faz que os japoneses sejam legalmente “brancos”, como os chineses ainda não…), desfaçam aquela mitologia trágica, antes que seja tarde para toda gente.

Depois, cumpre dizer e acentuar que Angola e Moçambique são radicalmente diferentes. Não só se formaram em colonizações diversas e com diverso passado histórico, como o actual resultado foi duas sociedades de complexidade inteiramente divergente. Em Angola há brancos, mulatos e pretos, educados ou deseducados na tradição católica, ou inseridos nas tradições gentílicas do seu passado negro. Em Moçambique, uma variedade de raças e de religiões, uma mistura de Ocidente e de Oriente, em que os mulatos não chegam a constituir grupo social, formaram uma vasta complicação em que as áreas negras, ètnicamente regionais, se variam das camadas culturais que a História pousou sobre elas.

Paradoxalmente, poderia afirmar-se que Moçambique, cujo papel histórico ocidental se define logo no princípio do século XVI, na ilha do mesmo nome mas cuja colonização efectiva não tem muito mais de um século, será, nas suas contradições, talvez mais estável do que Angola que, entrada para a História quase um século depois (independentemente das descobertas do século XV), teve mais cedo e mais amplamente colónias de fixação, e conheceu, recentemente, uma expansão económico-demográfica de atracção europeia, muito maior que a de Moçambique. É talvez isto o que dá a Lourenço Marques (onde velhos monumentos são realmente inexistentes, dado que a cidade não é muito antiga) um ar de grande capital aristocrática e cosmopolita e a Luanda, hoje muito maior, a atmosfera curiosíssima de uma gigantesca cidade aventureira, aonde a maioria da gente parece ter chegado ontem para enriquecer depressa, na tradição dos Brasis além defronte, do outro lado do Atlântico. E isto, à face dos fortes e das igrejas do século XVII (quão belas a da Sra. da Nazaré e a dos jesuítas – e nesta última vi uma negra velha, sentada no chão, em animada conversa particular com o Cristo crucificado), e nas barbas consideradas respeitáveis do Paulo Dias de Novais, do André Vidal de Negreiros e do Salvador Correia de Sá e Benevides, que por ali andaram à ordem dos interesses brasílicos (deles mesmos ou da Coroa portuguesa), e já me inspiraram poemas publicados ou inéditos.

Não quero que me entendam mal. O direito à promoção social e à riqueza, considero-o inalienável e merece-me o maior respeito. E, sejamos francos, nunca grande parte dos portugueses, em séculos de História, nobres ou plebeus, saiu da sua mesquinharia lusitana para ser herói ou santo, que alguns foram, mas para encher a burra, se possível honestamente. E os outros povos que atirem a primeira pedra, porque nunca foram melhores. O que eu quero dizer é que se sente em Luanda um frenesi de crescimento – sùbitamente suspenso pelo problema das transferências que é, aliás, mais agudo ainda em Moçambique –, o qual se existe também na costa oriental, não é análogo por não ser lá um fenómeno de massas populares e da pequena burguesia metropolitana, acorridas à cavação do Eldorado. Mas há muitas maneiras de os grandes países se fazerem, como se diz que as há de matar pulgas. Tudo está em não confundir os seres humanos, cujos direitos devem ser resguardados ou promovidos em perfeita igualdade, com aqueles desagradáveis animais. Quanto digo é, porém, um misto de informação e impressionismo; e não pretende ser um daqueles juízos ponderosamente definitivos que aliás, na situação actual, tão extremamente fluida, prudente será que ninguém faça.
Em Moçambique, estive em Lourenço Marques e arredores, na Beira, em Nampula, e na ilha de Moçambique, essa miraculosa fusão de civilizações. Conheci ou revi, ou interroguei, pessoas de todos os grupos e categorias sociais – e até tive a honra de conversar, na Cabaceira Pequena, em frente à ilha, com um negro centenário, mendigo de óculos na ponta do nariz, que vive das memórias de haver conhecido o Mouzinho e o príncipe D. Luís Filipe. Foi, para mim, comoventíssimo encontrar amigos de juventude, que não via há décadas, e que vieram abraçar-me carregados dos seus anos de África. Falei em público quatro vezes em Lourenço Marques, duas na Universidade que considero, se lhe não faltarem o apoio e a autonomia necessários à sua tão especial função num país muito mais complexo do que a metrópole e as suas tradições administrativas são capazes de imaginar, uma esplêndida e promissora aventura africana.

Fiz, além disso, uma conferência na Beira; e fui várias vezes e em vários lugares entrevistado para programas de rádio (a televisão não existe ainda em Moçambique, pelo que me vi poupado às maldições encomendadas por uns cafés lisboetas). A minha última conferência – na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, entidade que tomara a iniciativa de convidar-me e a minha Mulher para darmos meia volta ao mundo (vão 160 graus de longitude, de Santa Bárbara, na Califórnia, a Lourenço Marques) – e a despedida, na manhã seguinte, no aeroporto, ficarão ambas como instantes inesquecíveis da minha vida. Não me envergonho de dizer que, em lágrimas de emoção (só os cavalos empedernidos da má vida e as vacas sagradas da politicagem literária se envergonham de as chorar, até porque as não têm senão de crocodilo), foi que eu afirmei que partia com Moçambique no coração.

 

Em Angola passei alguns dias de incógnito repouso e calmo turismo solitário por Luanda e um pouco dos arredores, e só no último dia encontrei um agradável convívio e tive oportunidade de, como em Moçambique, trocar as queixas que a portugalhada (ou sejam os filhos de uma cultura madrasta) sempre troca, quando se encontra nas voltas do mundo. As ruas, os velhos monumentos, o museu dito de Angola (notáveis algumas peças antigas ou gentílicas, e excelente a colecção de pintura moderna) preencheram em maior exclusividade o nosso tempo que sempre acabava nos cafés da Arcada, a observar os manejos da juventude ociosa. Claro que apresentei os meus cumprimentos a Paulo Dias de Novais, André Vidal de Negreiros, etc., ou àquele Álvaro de Carvalho Matozo, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, que, no ano de 1787, fundou, numa colina discretamente dominando a beleza de baías e de ilhas ao sul de Luanda, uma capela que a gente desconfia que lhe servia de capa para traficâncias impróprias, senão da Ordem que tinha nisso antecedentes gloriosamente henriquinos qual Zurara descreve com humanística piedade, pelo menos indignas daqueles tempos esclarecidos. Tudo isto próceres felizmente falecidos há séculos. Cumprimentara, antes, na ilha de Moçambique, os meus amigos Camões e Gonzaga, infelizmente defuntos; e, em Lourenço Marques e na Beira, convivi com escritores e críticos que chegam, pela cultura, a informação e a qualidade literárias para meter no saco os carapaus de corrida lisboeta (ou de outras partes mais africanas), esses noveis salvadores da pátria e da cultura católica e anticatólica em doce conúbio, que não tardaremos a ver, aquietados e felizes, nas administrações de bancos e companhias, pela mesma razão que faz o sr. Nixon e o sr. Chu-En-Lai abraçarem-se alegremente em cima das sepulturas, ou nem isso, de tantos milhões.

Conhecer pessoalmente em Moçambique José Craveirinha, Rui Knopfli, Eugénio Lisboa, Rui Nougar, Glória de Santana, Sebastião Alba, o pintor António Quadros, que é também o poeta João Grabato Dias, uma das mais notáveis revelações dos últimos anos, e tantos outros que não nomeio por menos estima e consideração, é coisa que não acontece todos os dias, na língua portuguesa. Mas estou em crer que, com umas semanas de Angola me teria acontecido algo de semelhante – da mesma forma que trinta e cinco anos não apagaram da minha memória afectiva as ilhas de Cabo Verde, de cuja autónoma literatura fui dos primeiros a falar em Portugal, há trinta anos.

 

Não quero encerrar estas breves notas sem acrescentar-lhes mais duas. A minha estada em Moçambique foi, de certa altura em diante, marcada por um desgosto profundo, daqueles que ficam connosco para sempre: a súbita notícia (ainda que esperada a qualquer momento) do falecimento em São Paulo, Brasil, de um dos meus maiores e mais velhos amigos (de exactamente trinta e três anos), essa grande figura de homem e de poeta português que foi Adolfo Casais Monteiro. Tomei já a iniciativa de fazer ressuscitar, eventualmente, os “Cadernos de Poesia”, para homenagear a memória honrada de uma das glórias da cultura portuguesa neste século.

A outra nota é esta: não sei o que o futuro reserva a Portugal e aos territórios africanos, nestas horas cruciais em que a história do mundo é feita na mais sinistra e cínica das irresponsabilidades, à custa da pele de populações inteiras, ou da alma desesperada dos melhores humanos. Mas quero supor que esse futuro não deixará morrer longe das pátrias em que nasceram e cuja cultura ampliaram e honraram, ou cuja história fizeram quando outros a desfaziam, muitos mais dos seus filhos ilustres ou anónimos. A diáspora lusitana já deixa na sombra a do povo judaico, de que tanto sangue nos corre nas veias de vagamundos. Daquele número me excluo: primeiro, porque não sou ilustre nem anónimo; e, segundo, porque, como o grande poeta latino, prefiro pensar que “non possidebis ossa mea” que o mesmo é dizer: não roereis os meus ossos, depois de tanto me haverdes esfolado para várias obras literárias e não literárias. A minha pátria são a literatura portuguesa e as culturas de língua portuguesa, seja onde e como forem. Quanto ao mais, eu não me quero dessa aldeia entalada entre o Terreiro do Paço e o Bairro Alto, enquanto ela persistir em ignorar-se à escala universal e não aprender a rever-se na grandeza do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, etc., como dos milhões de portugueses e descendentes de portugueses de todas as cores que povoam (e repovoam) o largo mundo. E este, eu entendo que ele pertence efectivamente a quem o faz, e não a quem vive nele como um parasita.