O Computador Omnipotente

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Kafka in the office


Encerrado o tempo carnavalesco, há que retomar o dia-a-dia… mas, onde não falta o seu quê de absurdo e de "mundo às avessas"… Esta crônica seniana escrita há mais de 40 anos, quando o nosso cotidiano ultra-informatizado engatinhava, permanece inegavelmente atual.

 

 


Não sei se em Portugal já principiou a desenvolver-se a instituição do credit card que domina a vida do americano médio. O dito cartão, que é em geral de matéria plástica, é emitido por uma entidade em favor do feliz mortal cujo nome e número de crédito nele são inscritos em relevo, naquele estranho desenho de letras e de números que, parece, é o único que um computador de inteligência mediana é capaz de ler. Grandes armazéns, companhias de aviação, companhias de gasolina, cadeias de restaurantes, etc. (mas não as lojas de produtos alimentares ou de mercearia, etc., para não perderem os centavos com que jogam nos preços) emitem desses cartões com a maior generosidade. E uma pessoa pode comprar praticamente tudo, e muito acima das suas posses, com essa massa de cartões para os quais precisa de ter uma carteira especial que os abrigue e coleccione. Pode também, viajar de uma ponta à outra da América (desde que não viaje modestamente) sem um centavo no bolso, apenas apresentando o cartão aplicável a cada circunstância. Um empregado, em vez de receber-lhe o dinheiro, faz o cartão passar numa pequenina prensa que inscreve as referências do cartão na factura. Até aqui, a menos que o cartão tenha sido perdido e achado por pessoas de menos escrúpulos, tudo corre às mil maravilhas para o feliz possuidor de tamanha comodidade.

Aquelas facturas todas, para cada companhia convergem de toda a América para um respeitável computador que as mastiga e emite a conta mensal que a companhia remete pelo correio ao cliente, e que este pagará com um cheque remetido pelo correio. Ao receber a conta, o cliente, se é homem cauteloso, compara-a com as cópias de facturas referentes aos diversos créditos que possui. E verifica com arrelia que a conta inclui uma viagem de avião, no valor de cerca de 200 dólares, que, por qualquer engano do respeitável computador ou de quem lhe dá a comida, lhe foi, de misteriosa origem, atribuída. Isto aconteceu-lhe em fins de 1968. Logo o sujeito tratou de pagar a sua conta, menos a viagem que não tinha feito nem comprado, e escreveu, em Dezembro daquele ano, uma carta à companhia apontando o erro. Um mês depois, em princípios de 1969, recebeu uma automática comunicação do computador respeitável avisando-o de que estava em atraso na liquidação da sua conta. Dias depois, uma carta (não do computador), agradecia-lhe o pagamento feito mas (à fé do computador) sublinhava que era seu dever pagar «as contas por inteiro». O nosso homem escreveu segunda carta a explicar o sucedido — e recebeu do computador a sua conta, em que agora não havia apenas uma viagem de 200 dólares, mas duas, porque ninguém tinha avisado o computador de que não devia somar essa quantia todos os meses na conta. Já inquieto quanto à sanidade mental do Universo, o pobre cliente (que já quase o não era, pois se não atrevia a usar mais tão azarado cartão), pagou o que ainda devia, menos aquela mítica viagem que cada mês era mais uma — e telefonou, de um extremo da América ao outro, a explicar o que se passava. As pessoas que o atenderam ao telefone foram gentilíssimas, deram-lhe toda a razão (provavelmente estavam havia quinze dias na companhia, daí a dois meses estariam noutra — e tanto lhes fazia) e mandaram-lhe a conta de Janeiro — com agora três viagens. O pobre homem devia 600 dólares à companhia, e cada vez devia mais 200… Apavorado e irritado, escreveu a insistir no erro, contando a história anterior, juntando cópias das cartas escritas e recebidas, etc. A companhia respondeu-lhe numa amável carta, agradecendo os pagamentos que ele fizera (não fizera), mas avisando-o, desta vez cominatoriamente, de que a menos que a conta fosse saldada, o cartão de crédito seria cancelado. Desesperado, o cliente telefonou outra vez, e novamente lhe foi dada toda a razão. Ora essa! Era vítima de uma situação fantástica…— e recebeu do computador novo aviso, asperamente cominatório, quanto a não pagar as suas dívidas. Em Fevereiro chegou a conta respeitavelmente calculada pelo computador: 400 dólares. A correcção do erro limitava-se ao mês em que alguém realmente o tinha ouvido, e nada mais. Louco de raiva, e já num desalento fatalista, mas com a esperança que a redução lhe dera, o nosso homem escreveu outra vez: e recebeu em resposta um aviso do computador sobre os seus atrasos em pagar contas. Em Maio, enfim, a companhia respondeu-lhe: estavam a verificar com a companhia de aviação o que é que realmente se havia passado com as viagens dele. Um mês depois, nova carta declarava —que alívio— que as contas estavam erradas, já que se esclarecera ele não ter viajado. Mas um novo aviso, logo depois, dava-lhe notícia de que o seu crédito estava limitado aos primitivos 200 dólares que nunca pagara, como devia. O pobre homem, a esse tempo já sob o efeito de sedativos para conter os nervos, escreveu nova carta, com novas cópias, etc., a contar a história toda. A companhia respondeu declarando (pelo telefone) que ele devia aquele dinheiro e não havia mais conversas. Furibundo, escreveu outra vez. A companhia, que não trata com energúmenos nem loucos, não respondeu. O homem esperou, esperou, esperou, e decidiu tratar do caso directamente com a companhia de aviação, cujo voo ele não tinha usado. Esta respondeu que o assunto se esclarecera entre as duas empresas, e que ele, a vítima, estava inocente. Um ano havia passado sobre o início da tragicomédia. O nosso homem respirou… Mas recebeu um aviso de que o seu cartão de crédito era inválido e ele indigno de crédito. No auge do desespero, o desgraçado inundou de cartas o Congresso dos Estados Unidos. E, finalmente, em Maio de 1970, chegou uma doce comunicação da companhia — recebia-o novamente no seio dos seus clientes, pedia-lhe desculpa de tudo aquilo, e restabelecia-lhe o crédito mensal… até ao limite de 200 dólares, mais 66 por conta das despesas com a resolução do erro. Mas, como as companhias, ou os computadores das companhias de crédito, permutam entre si informações sobre os clientes, o herói — restituído à dignidade de um crédito limitado à dívida que não havia feito — não está livre no futuro de ver recusados novos créditos ou cartões de crédito, se o computador mecanicamente disser, secretamente, sem que o herói tenha maneira de saber o que se passa, que ele é um teimoso relapso que, durante meses, sucessivamente, não pagou viagens que não havia feito e ele, computador, fielmente acumulava. Ou constar da sua ficha universal, preparada pelo gigantesco computador que concentrará, para milhões de americanos, as informações a respeito de todos os actos públicos ou privados que chegaram ao alcance de computadores: que ele é um sujeito perigoso, capaz de dar que fazer a computadores por numerosos meses, e até queixar-se aos parlamentares da eficiência perfeita dos computadores e da ineficiência total dos que os alimentam.

Isto não é uma história inventada, não é ficção científica. Muito menos é uma imitação literária de Kafka. É um facto autêntico, revelado pela imprensa e por entidades oficiais que lutam para deter a vaga de mecanização irresponsável. Mas que não se diga, já que se mencionou Kafka, que Oscar Wilde não tinha razão quando afirmou que a Vida imita a Arte. Não há dúvida de que a imita — e a extremos inimagináveis por qualquer perverso inventor de ficções delirantes e de opressivos pesadelos. De modo que, se realmente já existe em Portugal a cómoda instituição — excelentemente inflacionária — dos cartões de crédito, bom será que exista uma fiscalização quanto a impedir-se a computadorização dos seres humanos, ou impondo a humanização dos computadores. Ou, pelo menos, algum sistema de eficiente ligação entre os computadores e as pessoas que deles, mecanicamente, se servem.

Madison, Julho de 1970.
 

* In: O Reino da Estupidez - II. Lisboa: Moraes, 1978.