As aventuras onomásticas e brasilienses

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A propósito de um dos assuntos que mais têm circulado na mídia nos últimos dias — a proibição de dar nomes estrangeiros a crianças brasileiras — recordamos aqui a palavra de Jorge de Sena sobre o tema, em crônica muitíssimo bem-humorada que vai das origens histórico-culturais da polêmica ao depoimento pessoal do indivíduo "nascido em Portugal, de pais portugueses / e pai de brasileiros no Brasil" às voltas com a dificuldade em registrar o filho sob nome "estrangeiro".

 

 


Durante a época colonial no Brasil, e não porque a opressão lusitana impedisse a liberdade onomástica, mas sim porque nenhum padre brasileiro admitiria baptizar alguém como nome que não fosse “cristão” (o que, para esses padres, significaria por certo um nome português ou aceito como tal), as pessoas chamavam-se Joaquinas ou Antónios, como em Portugal, sem que isso fosse vergonha para qualquer. Vinda a Independência, certo anti-portuguesismo era inevitável que se desenvolvesse, mesmo que não existisse já. Mas, quando veio a Época Romântica – que no Brasil foi proclamada em Paris, tal como sucedeu a Portugal com Garrett, e catorze anos depois do Grito de Ipiranga soltado pelo Senhor D. Pedro (o qual, como é sabido mas não igualmente em ambas as margens do Atlântico que ambas fazem os seus possíveis para deixarem de falar e escrever português, o qual, repito, foi Imperador Pedro I do Brasil e Rei Pedro IV de Portugal, sem ter acumulado os dois empregos, ao contrário dos tradicionais costumes luso-brasileiros) –, vieram também os Índios logo a seguir. Não, é claro, os propriamente ditos, em carne e osso: esses, sempre que a ocasião se proporcionava (e segundo a habitual bondade da raça lusitana e seus prolongamentos), eram reduzidos a osso, sem mais, para pasto das feras, ou dos vermes subterráqueos, a bem da expansão da civilização, e da propriedade privada dos que a expandiam e queriam a terra (que os índios, cretinos, não lhes davam) ou os desejavam para escravos, com o que eles não estavam de acordo. Mas, ao tempo do Romantismo, os índios eram já coisa longínqua, de que havia séculos se havia desistido de fazer escravos, de teimosos que eram. Os escravos eram todos africanos, importados sem lhes perguntar a opinião. De modo que os índios românticos tinham a enormíssima vantagem de poder ser antepassados mitológicos que não vinham pedir contas da herança, de terem simbolicamente resistido aos opressores da colonização (sem que se pergunte se estes tinham nascido todos em Portugal), e de serem o nobre selvagem de tão elegantes tradições literárias europeias, sem deixarem de ser, ali mesmo, americaníssimos, como a Europa não tivera nunca. Escreveram-se poemas e romances em que os índios são belos, bonzinhos, falam como os clássicos de Quinhentos (património comum da Língua que se não ama) – e muitos desses romances e poemas sucede que são obras-primas. É claro que os nomes dos índios, vindo dessas obras literárias de grande popularidade, entraram numa onomástica que se queria nacionalista no mais burguês sentido da palavra. E as cidades e vilas começaram a mudar de nome, ou, quando fundadas por algum desbravador, a recebê-lo tão guarani quanto possível, já que a esmagadora maioria das pessoas não sabia, nem hoje sabe, uma palavra de tupi-guarani (que, ainda por cima, não é bem a língua dos índios, que as tinham muitas, mas a que os jesuítas haviam inventado no século mais ou menos XVI e XVII como “língua geral” que permitisse a comunicação, sem imposição da língua portuguesa em absoluto e exclusivo, sabidos que eram de linguísticas e outras coisas que não havia naquele tempo, estes jesuítas que queriam os índios livres para os administrarem nas suas, deles jesuítas, aldeias (ad majorem Dei gloriam, que é o lema da Companhia). O que sucedia às cidades sucedeu também com nomes de família de muita gente: ser Silva ou Costa ou Coutinho era uma portuguiçe sem graça, e muito mais engraçado era a gente chamar-se Capivara, Aricolicora, etc., etc.


Passado o Romantismo, esta mania indiófilo-literária passou também. Mas, quando caiu o Império em 1889, e veio a República, o filósofo Augusto Comte, criador do positivismo francês, já se implantara ideologicamente no Brasil, com igrejas da Religião da Humanidade e tudo. Durante o Império, o clero baptizador não queria que o achassem anti-patriota, e aliás passara o seu mau-bocado em brigas com o Imperador (mais com o II do que com o I, digamos, ambos Pedros, pai e filho, e Braganças inteiros). A Religião da Humanidade do ilustre Comte tinha um calendário em que os santos da Igreja Católica estavam substituídos por homens ilustres, merecedores de veneração e de uso onomástico (tal qual como acontecera por séculos com o cristianismo, quando, salvo se o nome do santo era uma coisa impossível a cair de velha e esquecida, as pessoas recebiam o nome do santo do dia em que tinham tido a sorte, muita ou pouca, de nascer). Assim, a Ubirajaras e Iracemas, vieram juntar-se todos os Péricles e Aristóteles ao alcance das listas positivistas de grandeza humana de antiguidade e valor garantidos. E assim passaram a aparecer os Aristóteles da Silva, os Péricles Tucunduva, as Ubirajaras Agripinas (embora estas senhoras, lá em Roma, não fossem gente de decência para nenhuma lista de meninas honestas) [*]. Mas, por esse tempo, começara a magna migração da Europa para o Brasil. E também das Ásias. O que, necessariamente, trouxe uma hoste de nomes de todos os lados, desde o judeu da Alemanha ao árabe da Síria (dos “sírios” se diz maldosamente no Brasil “que nasceram turcos, vivem sírios e morrem libaneses”…), cujos sacerdotes não hesitavam em pôr às crianças, obviamente, sem que o Estado ou Governo Central se importassem. Mas a coisa não ficou por aqui, quanto a fantasias onomásticas. Este povo miúdo, ou a burguesia enriquecida dele, não tinha raízes culturais brasileiras (sobretudo nos Estados do Brasil de grande massa migratória), e em grande parte perdera (para lá dos costumes mais quotidianos e de alguma língua que mantinham da pátria de origem), a menos que em raros casos de pessoas de alto nível cultural, aquela cultura originária que na verdade não possuía – tal como os comendadores do Rio de Janeiro, pelo menos alguns, nunca souberam de Portugal mais que o bacalhau com batatas (a pátria, ao exportá-los, não lhes dera outra bagagem cultural, a mais de um conservantismo de quem foi fazer pé-de-meia e não deixar de admirar o Salazar à distância no tempo e no espaço). Assim sendo, e porque é da antropologia saber-se que a identidade ÚNICA de um indivíduo que se perdeu de um clã ou de uma tribo, sem ser integrado numa nação, está ligada à unicidade do nome, passou-se para um grau mais avançado em onomástica de novos-ricos sem mais fortuna que a existência, ou com uma fortuna sem raízes no fazer-se de um país. Um avô querido chamava-se Peri; a mãe chama-se Agripina (desculpem a repetição). Claro que uma criança do sexo feminino, nesta família, se poderia chamar, como ninguém, PERIPINA. As possibilidades combinatórias iriam por este caminho ao infinito, se lhes acrescentarmos o fascínio dos pobres já feitos, mas “raros”… E foi assim que, uma vez, em São Paulo, uma senhora 100% brasileira estava a contratar uma criada, ou empregada como já então se dizia no Brasil aonde a mudança de nome não significava nenhuma mudança de status social ou segurança no trabalho, e conversa vai conversa vem, acordavam o preço, etc. E foi quando a dita senhora – daquelas super-grã-finas de São Paulo, ricas, fundadoras do Brasil, quatrocentonas em suma – perguntou à “empregada” pelo nome dela. Não era possível, não ouvira bem, tremeu. E pediu à pobre mocinha que repetisse melhor o nome. Ela, num cândido sorriso, repetiu: – Sífilis –. Ante o aristocrático pasmo enojado da grande dama, ela explicou: – Quando meu pai estava para se casar e andava muito doente ele foi no médico e o médico disse para ele o diagnóstico é sífilis mas eu ponho você bom para o casamento e meu pai fez promessa à Senhora Aparecida que se tivesse filha, depois de bom e casado, a filha se chamava Sífilis –. A senhora ficou ainda mais sem fala, mas ainda faltava mais – com um novo sorriso a moça acrescentou: – E meu irmão se chama Diagnóstico…


Esta história é autêntica, não uma piada inventada. E é claro que fenómenos como este levaram o Ministério da Justiça a publicar um livrinho com a lista dos nomes aceitáveis pelo Registro Civil (o qual, é claro, aqui ou ali, como no Brasil se diz, facilitava). Não sei se o livro – com o qual voltaremos a encontrar-nos no perfeito epílogo desta digressão filológico-cultural – é anterior ou posterior àquele grande senhor de Minas Gerais que não há muitas décadas se divertia a “numerar” os filhos e filhas que ia fazendo na esposa paciente e tão pouco estéril como ele, ao que adiante se verá. E assim é que as infelizes crianças iam sendo Primeiro, Segunda, Terceiro, etc., até que o dito senhor decidiu que já eram suficientemente numerosas: e o gajo que veio foi baptizado de Último. Mas, como se sabe, e para mais naqueles tempos deficientes de anticonceptivos, o Homem põe-se, e Deus dispõe-se, para tratarmos o velho ditado com o adequado acerto. O caso é que, como dizia um amigo meu, de cada enxadada saía minhoca… e, apesar das mais rigorosas contas, avolumou-se, e nasceu o que era um rapaz. Ah sim? O pai vingou-se, e chamou-lhe Epílogo. Mas Deus Nosso Senhor vingou-se de ele não ir exercer as suas actividades algures, e deu-lhe uma filha. Ah… À altura do desafio, chamou à desgraçadinha Errata, e aí sim, ponto final. De facto, depois da Errata, que nome tinha ele para mais um produto genital?


Consideremos agora o importante epílogo deste estudo. Deu-se que também eu, prolífico tanto (ainda que não católico, como aquele Senhor mineiro) e que já não tinha poucos filhos, tive mais um par deles, anos passados, no Brasil, e que são, portanto, brasileiros-natos como o não era D. Pedro, o gritador de Ipiranga, e cujos ossos Portugal exportou há anos, com gosto de absolutistas para o Brasil que pedira os restos do sujeito que cometera o extravagante acto de, sendo português de nascimento, proclamar a Independência ele (já setenta anos antes outro português, o eminente poeta Gonzaga, se sonhara presidente de uma República inteira… – os portugueses são assim, ao contrário da má-fama de teimosamente metropolitanos que se lhes criou e só os que vivem a mamar na teta da magra vaca europeia e ibérica, ou pelo menos muitos deles, na verdade merecem). Quando fui, acompanhado por testemunhas de brasílica idoneidade nacional, registar a primeira não houve problema algum: Maria José, com aquilo de a pequena não ser Josefa, como a concordância gramatical exigiria, por certo agradou ao oficial do Registo Civil. Mas no ano seguinte o caso foi seriíssimo. Indo eu mais as idóneas testemunhas ao sacrossanto lugar da separação da Igreja e do Estado, o funcionário – com o seu sotaque de “italianinho”, o que não é piada à Itália que amo mesmo no desenvolvimento de São Paulo que os filhos dela fizeram como ninguém, mas é indício de um anti-portuguesismo mais ou menos comum – perguntou-me: – E como o menino vai se chamar? –. E eu, despreocupado ainda, declarei: – Nuno Afonso –. O homem franziu o sobrolho, fitou-me com visão de verruma demolidora (para mais eu era professor da universidade, um desses terríveis vermelhos e viciosos que estavam ali na cidade para perverter a juventude indefesa… a qual, sem ajuda da universidade, e só a da natureza, ia fazer porcarias – ou o contrário, conforme as opiniões – na sombra densamente arborizada e nocturna da minha avenida, pelo que, certa manhã, um dos meus filhos pequenos, brincando na rua, veio triunfante para casa com um achado que fizera, e discretamente descreverei como uma túnica de Afrodite, servida), e disse secamente: – Não posso pôr a ninguém nomes que não existem no Brasil –. Era com Nuno que ele embirrava (talvez pensando que era brincadeira minha por nono que ele notoriamente era na lista dos meus filhos, e ignorando tão velho e respeitável nome da língua). Insisti que o nome existia, as minhas testemunhas apoiaram-me com a sua reconhecida brasilidade nata, etc. – mas o homem continuou inabalável. Eu então tive uma ideia luminosa: vi um livrinho salvador, como tem acontecido a vários santos que, parece, até os engoliram, pelo menos na visão que tiveram, e exclamei: – Vá o senhor buscar a lista de nomes, e vamos a ver se há ou não há esse nome no Brasil –. Ele tentou resistir, mas submeteu-se e trouxe o livro que folheou com desesperadora lentidão. Mas eu, por cima da mesa dele, ia vendo, e ele não podia evidentemente, ante o nome impresso, continuar a recusar-lhe a existência. Então, furioso mas dominando-se, perguntou sem mais comentários: – Afonso, não? Com um F ou com dois FF?… – ao que eu respondi que com um só como mandava a ortografia oficial. Assinámos o registo, recebemos o breve certificado do acto, viemo-nos embora, e não pensei mais no caso, a não ser se vinha o talho de conversa para digressão socio-linguística. Passado tempo, foi quando tive de tratar das papeladas para nos transferirmos, a tribo toda, do Brasil para os Estados Unidos, o que requeria certidão completa, ou de teor, do nascimento de toda a gente. Pedi as daqueles meus dois filhos na conservatória aonde os registara e recebi-as… E passando nelas os olhos, que vejo eu? Na do Nuno Afonso, o homem tivera a última palavra para a eternidade de tais documentos. Depois de nós termos assinado e saído, ele apusera uma apostilha: “Em tempo se declara que a criança recebeu o nome de Nuno, por insistência do pai, embora este nome não exista no Brasil”.


Isto é, um Nuno, de velha cepa portuguesa, não podia existir; uma Peripina, por certo que sim. Não se pense que todo o Brasil é assim, mas é triste observar como liberais ou gente de esquerda – talvez por serem, muitos deles, membros das burguesias irreparáveis – colaboram neste anti-portuguesismo que não é criação de Brasil nenhum, mas o despir do Brasil, por dentro e por fora, do que lhe resta de vísceras originárias, para o estufar dos imperialismos que o comem às carradas que arrasam montanhas. Porque um país adulto, desenvolvido, e capaz de enfrentar os complexos de culpa, que possui, por pouco ou nada ter feito por milhões de brasileiros todos tão pitorescos para favela (ao longe) e mulata (ao perto), um país de alta cultura e velha tradição nacional de séculos de “América Portuguesa”, bem pode voltar a chamar aos seus filhos Martim, Diogo, Duarte, Tomé, etc. (e não apenas António, que é afinal tão português como italiano), segundo os nomes dignos e respeitáveis daqueles primeiros portugueses que puseram pés no Brasil (e não menciono Pedro, porque o malandro do Cabral não nos deixou certeza de não haver lá chegado por acaso, ainda que o nome dele, o do Príncipe dos Apóstolos, deva, em terra tão católica como o Brasil, sobrepor-se ao som português e cabralesco que possua), para o criarem como ele veio a ser, no fundo da sua natureza enriquecida de todas as raças, e mais empobrecida por uma delas do que nunca os quintos do Rei de Portugal, pobretana e sem autoridade, jamais fizeram. E tudo o mais são desculpas que o pobre povo de milhões, no Brasil, nem pede, porque não sabe ler; e, quando souber, já não vai a tempo de que ainda haja a terra que é a sua. Como me dizia o Snr. Vivaldo, meu carpinteiro em São Paulo, a cair de tuberculose mas imortal de verve de sertão bahiano, numa hora em que viu desvanecer-se uma vaga luz que ele nem bem sabia o que era: – Vê, está vendo? É como eu sempre disse que pobre não tem vez… –. Já deve ter morrido, por certo, mais a fabulosa riqueza linguística e de “estórias” que era a sua, quando começava a contar por horas… Ele que, um dia, filosofando sobre as diferenças que havia entre a Bahia (que ele não via há aníssimos) e o São Paulo a que viera trabalhar, inocentemente me patenteou que, geografica e nacionalmente, ainda vivia, onomasticamente, no século XVII da visão popular do seu país: – O senhor sabe? Aqui em São Paulo é assim. Mas lá no Brasil é outra coisa –. Para ele, o Brasil ainda não ia da Amazónia ao Rio Grande do Sul, de Mato Grosso à costa aonde por tanto tempo tanto caranguejaram os habitantes, como disse um vetusto e admirável cronista do Brasil que os portugueses nunca leram. Para mais, esses cronistas venerandos eram quase todos uma catrefa de funcionários, de padralhada, etc. Eram, sim. Mas tinham uma dignidade que, para onomásticas patrióticas, faz bem comparar com as cobardias, as desvergonhas, e a vacuidade moral do nosso tempo de aquém e de além-mar.
 

Santa Bárbara, algures no tempo da amargura difícil de amar mais de um país com amor infeliz, à beira de um Oceano que não banha Brasis ou Portugais.
 

 

[*] Para elucidação dos mais veementes anti-colonialistas, no que se refere a passado, presente e futuro, quer em Portugal, quer no Brasil, quer noutros lugares aonde a língua portuguesa vá manquejando como a deixam que vá, cumpre informar que Agripina não é só o nome da mãe de Nero, uma desavergonhada. É também o nome de uma colonialista, visto que esta mesma mãe do Nero (que, segundo parece, foi um excelente sujeito, igualmente vilipendiado pelos interesses da aristocracia e da alta burguesia romanas, e dos primeiros cristãos, escravos daquelas) fundou Colónia. Sim senhor, Colónia, a cidade alemã, imagine-se. E que as inocentes Agripinas me perdoem (e aos pais que lhes deram um nome que afinal não é feio).

* In: O Reino da Estupidez-II. Lisboa: Moraes, 1978, p. 105-115. Edição esgotada e sem reedição até o momento.