A Bomba atómica e a cultura

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"Atomic Tovarish": charge de Leslie Gilbert Illingworth, 1949

Que o Carnaval existe mesmo fora do tempo de Carnaval, todos sabemos. E que é possível tratar todos os temas sob um olhar carnavalizante, também o sabemos. Eis uma crônica de Jorge de Sena a comprová-lo.


Fizeram os americanos rebentar algumas bombas atómicas, e cuidaram tão bem de que o estrondo soasse jornalisticamente pelo mundo, que as bombas políticas do Pacífico fizeram nos espíritos “cultos” mais estragos que as suas congéneres bélicas no corpo dos japoneses experimentais. O abalo, nesses espíritos, foi de tal ordem, que alguns, conhecidos pela indestrutibilidade do seu silêncio, desceram à fragilidade do artigo, do artigo de jornal – da meditação destinada a emprestar o tom conveniente de filosofância melancólica, à “suma patológica” que é sempre o aniversário de um periódico.

Os jornais portugueses comemoram o Natal, a Páscoa, o Ano Novo, o aniversário de Camões e o seu próprio, com muitas páginas de anúncios e algumas páginas de locubrações literárias, captadas nas nascentes mais gratas ou ingratas à direcção do jornal. É, então, nos tempos que correm, o momento oportuno para o desabafo público da angústia atómica.

E é curioso verificar que os “amantes insaciáveis” do espírito, e para os quais o espírito, por contradição demoníaca, é esse espírito pairando sobre as águas do nada, com o qual, segundo as revelações que devem respeitar, Deus não quis contentar-se – é curioso verificar que são esses os mais perseguidos pelo pesadelo atómico, os que mais temem pela integridade de uma matéria que, afinal, não veneram, e pela existência de uma vida que, afinal, não entendem.

Falar do absoluto com lágrimas na voz, e puerilmente supor que a confiança do espírito humano se garantiu, alguma vez, na noção da indestrutibilidade do mundo, é desvirtuar a dignidade das mais altas actividades do homem. Nenhuma religião, nenhuma filosofia e nenhuma arte, quer destruindo para criar, quer criando para destruir, nenhuma levou a sua possível incoerência ao ponto de confundir a eternidade com o destino do universo, a imaterialidade com as essências, as ideias gerais com as descobertas da física, e a história humana com a certeza consoladora do “valer a pena”. O espírito humano nunca recuou cobardemente perante as certezas negativas. E mesmo que a filosofia da história viesse afirmar, como já tem afirmado, que o homem é de certo modo impotente para dirigir a história, nem por isso o espírito deixaria de, heroicamente, recusar uma metafísica de refúgio, uma metafísica porto de abrigo, contra as tempestades dos factos. Apresentar a metafísica, querendo enaltecê-la, como uma entidade em si mesma, é amesquinhá-la e ridicularizá-la, porque só genericamente se pode dizer “a metafísica”, à semelhança de quem diz “a baleia”. E, depois disto, fugir para a metafísica como quem foge para os Mares do Sul – perdão, para os do Norte, que aqueles são os da bomba! – e fugir sem indagar, primeiro, se a metafísica está pelos ajustes, se a metafísica tolera quem só a conhece de vista: é, além de uma grande imprudência, um sinal certo de desintegração muito mais atómica do que seria razoável imaginar.

Contemple-se o quadro: o mundo some-se, mas fica pronto a desdobrar-se panoramicamente, porque, por hipótese, se supõe que se salva uma biblioteca. Livros e livros voando pelo espaço, obedecendo às leis da atracção universal. Bastará folheá-los – e o mundo, qual Egipto dos Faraós, revela-se. Mas quem os folheará, quem? Certamente que o aterrado atómico, salvo, por milagre, juntamente com a hipótese. E esse, ao folheá-los, dirá, como o homem subterrâneo de Dostoievski: – “Que o mundo acabe, mas que o meu chá me não falte…”.
 

* in: O Reino da Estupidez-I . Publicado no Mundo Literário 12/10/1946, na seção as Ideias e os Homens