Possibilidades universais do mundo luso-brasileiro

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A complexidade do diálogo luso-brasileiro ocupou inúmeras páginas assinadas por Jorge de Sena. Dentre elas, destacamos três textos que a organizadora do volume Estudos de Cultura e Literatura Brasileira considera interrelacionados. O único dado como completo é "O entendimento histórico luso-brasileiro: uma proposta", com data de 25.6.1966, publicado semanas depois no Diário de Notícias, o qual teria tido em "Portugal e Brasil: uma proposta", datável de 1964/5, a sua primeira versão, abandonada. Este, por sua vez, teria sido esboçado no texto que abaixo transcrevemos, datável de 1963/4.

Embora sob a mesma temática, há notórias diferenças entre eles. E nossa escolha recaiu sobre o mais antigo, porque, além de bastante sintético, nele se encontra uma referência a tema atualíssimo e monopolizador de acirrados debates: a "reforma ortográfica".

 

O fenómeno mais importante — dizem os sociólogos, os historiadores e os políticos — da segunda metade do presente século é a acessão da África e da Ásia à independência política. Mesmo para os mais liberais espíritos euro-americanos é um fenómeno que os inquieta, lhes altera as mais profundas (e ocultas) convicções, os faz olhar o futuro com inquietação. Mas, ao contrário das aparências, se há unidade cultural e linguística, ou até político-económica que menos riscos corra, em relação ao futuro, nessa subversão das estruturas, e que menos possa identificar-se com tais pavores do capitalismo euro-americano, é precisamente o luso-brasileiro, cujas posições geográficas, étnicas, e culturais, no tão diverso e tumultuário concerto dos povos lhe permitem estar presente em toda a parte, e receber em si, como suas, as mais diversas culturas. Como garantia de uma sobrevivência política e de uma hegemonia cultural, quando esta deixou de ser apanágio das nações europeias, nenhum está melhor colocado. O «melting pot» dos Estados Unidos e as suas projecções imperialistas nada fizeram para absorver através da emigração ou da colonização económica as boas-graças culturais dos outros povos. O império britânico tende cada vez mais, à medida que a metrópole regressa à ilha de que partiu, a ser um conjunto de baluartes dos mitos novecentistas da supremacia política da raça branca e dos seus métodos de domínio capitalista. A França, que com a Inglaterra partilhou esses mitos, projectou muito menos do que ela uma civilização, e muito mais uma cultura literário-política que, longe de interessar-se pelas idiossincrasias estranhas só é assimilável pelas minorias aristocratizantes que se afrancesam. A Espanha e o mundo que dela se pulverizou não tem unidade política que torne a impor um prestígio que resultou, paradoxalmente, da criação autoritária de uma unidade artificial. De modo que nenhum dos impérios ou ex-impérios ocidentais está em condições de opor-se à unidade política que são milhões de brasileiros com alguns portugueses. Mas não só isso. O Brasil, hoje, é, sobre a miscegenação luso-ameríndia, a que se seguiu logo e durante séculos a integração de uma vasta imigração negra forçada, um país italiano, sirio-libanês, japonês, alemão, e nem sequer se podem esquecer os núcleos eslavos e balcânicos, em que, como no núcleo alemão, predomina o elemento judaico. Portugal, contíguo da Espanha, como o Brasil o é das repúblicas sul-americanas de língua espanhola, está disperso pela África Ocidental e Oriental, pela índia, a China e a Indonésia. E a comunidade das nações sub-desenvolvidas aproxima o Brasil de todos os estados novos da Ásia e da África. A presença judaica e árabe na Península Ibérica medieval revive, hoje, nos laços que a poderosa colonização levantina estabelece entre o Brasil e a Síria, o Líbano, Israel. Os reinos germânicos da Península Ibérica reaparecem na atracção dos alemães pelo Brasil. A unidade mediterrânica da latinidade consubstancia-se na emigração italiana. A civilização ocidental que os portugueses levaram ao Japão é simbolicamente paga pelos nipo-brasileiros. Os goeses são na África Oriental e na imensa índia um grupo peculiar e influente. Os macaístas são luso-chineses, como os ingleses em Hong-Kong não souberam fazer que lhes equivalha. E, nos confins da Indonésia, Timor poderá ser a confluência concreta dos interesses desenvolvimentistas que unem essa Indonésia ao Brasil. As relações do Brasil com as repúblicas negras da costa ocidental da África e do Golfo da Guiné não são meramente platónicas. Governam-nas muitos descendentes de escravos brasileiros regressados à pátria. Além dos interesses comuns de independentização económica, há uma natural atracção cultural; e essa comunidade de orientações é a melhor garantia de Angola ser um país integrado num mesmo círculo que, sendo brasileiro, é português também. Se o futuro do mundo pertence à Ásia e à África, pertence também à América do Sul. E nenhum país da Europa está em condições, como Portugal, se deixar de atrelar o seu carro a interesses euro-americanos que lhe são alheios (além de obsoletos), de ser a encruzilhada entre a América do Sul e a Europa, entre estas e o mundo islâmico, o mundo negro e a Ásia. Portugal não poderá ser nada disso —e não será nem isso nem nada—, sem o Brasil. Mas, para tanto, necessita estabelecer as mais cordiais relações com todos os países que, directa ou indirectamente, pertencem a este vasto esquema. E colocar-se, em relação ao Brasil, num plano de presença cultural e intermigratória que, identificando-os, conduza à abolição dos complexos colonialistas que, em Portugal e no Brasil, subsistem até nas pretensões de mútua independência linguística. Se há cada vez mais um português do Brasil, é porque se tem inventado ficticiamente, nos vocabulários e nas gramáticas, um português de Portugal. A sobrevivência de uma cultura e de uma civilização vale mais que uma reforma ortográfica e que os gramáticos escolásticos, de um lado e de outro do Atlântico, postos ao serviço de estruturas feudais.
 

* Estudos de Cultura e Literatura Brasileira, Lilsboa, Ed. 70, 1988, p. 195-197