(Des)encontros com Malraux

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JK e Malraux. Brasília, agosto de 1959

André Malraux teve sua passagem pelo Brasil, em 1959, registrada por dois poetas, sob diferentes pontos de vista: para Jorge de Sena, um desencontrado encontro que põe em evidência a "condição humana" do autor francês; para Manuel Bandeira, uma desinteressante experiência, prontamente apagada pelo reencontro com Jorge de Sena, em palestra no Real Gabinete Português de Leitura. Apresentamos aqui, em contraponto, o desencanto de um e o entusiasmo do outro nas duas crônicas: a de Sena sobre Malraux e a de Bandeira sobre Sena.

 

O meu encontro com Malraux

Eu traduzi e prefaciei A Condição Humana que considero um livro extraordinário que não precisa da minha opinião para ser tido como tal. Creio que ninguém continua igual ao que era, depois de o ter lido. Ainda hoje, quando o pensador e o artista que escreveram aquele livro não pensam nem dirigem o Malraux que pareciam ser na mesma direcção, como então foi, de uma meditação estética sobre o sentido das acções humanas, A Condição Humana, com as suas sondagens, os seus alçapões, a sua amargura, e a profunda e perversa alegria trágica das cenas mais horríveis, continua a ser uma obra fundamental, que repôs em termos do tempo que nos precedeu, o célebre monólogo do Hamlet por uma forma tão subtil e tão diversamente personificada que poderíamos identificar cada uma das personagens principais com um aspecto da poliédrica alma do «sweet prince» cuja Dinamarca, como o nosso mundo, estava podre.

É terrível, porém, meditar sobre a podridão, de dentro dela, por ela e com ela. E toda a meditação existencial que não objective em si própria uma consciência histórica da situação em que se reconhece, que não tenha da História uma visão progressiva e humanamente integral, mas apenas uma centralizada e individualista noção dela como de algo que por todos os lados, como um eterno retorno, a fecha num círculo de ferro sem saída — é essa uma meditação existencial que acima da podridão se não ergue, tal como o indivíduo se não erguerá acima daquela mediocridade astuta de que os seus vícios são feitos, quando os não vir como uma escravidão alheia, em que o melhor de si mesmo não se compromete. É este o erro fundamental de A Condição Humana, que aliás torna a obra mais emocionante e mais sugestiva, na medida em que dá do homem uma imagem de pequeno pássaro belíssimo, que transporta irremediavelmente consigo a sua própria gaiola, à semelhança daquela antiga tortura chinesa em que o condenado levava a cabeça metida numa gaiola de bambu. De resto, esse tema do pás-saro engaiolado é explicitamente explorado no romance e, à luz do desenvolvimento que Malraux lhe dá, o financeiro Ferral poderia ser interpretado como a metáfora de um Deus existencial, não plenamente omnipotente, incapaz de possuir o ser dos homens.

Mas que aquela imagem chinesa de outras eras, como outra de cabeças decapitadas e assim engaioladas e expostas, nos apareça em conexão com uma obra que situa precisamente na China a sua meditação política (naquele sentido em que política é a estética da acção inter-humana, como a estética é uma política da comunicabilidade), não será apenas uma associação de ideias de quem leu também, e nas idades próprias, o Júlio Verne das Atribulações de Um Chinês na China ou a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. E antes uma sugestiva forma, de, apelando para o que é, desde a infância, uma «cultura» comum, conseguir fixar a contradição entre o horror exótico em que Malraux desdobrou a sua rememoração apaixonada e o imenso cadinho de civilização cristalizada e de progresso ansioso que a China representa na nossa imaginação. Dessa prodigiosa imagem exemplar que a China hoje representa, A Condição Humana é uma nobre e pessoal imagem pré-histórica. Porque desse horror exótico (e o horror é uma forma de exotismo, como o regressar à Idade da Pedra também é, para os espíritos imbuídos de cultura) e dessa esperança amargurada e perseguida que é a das personagens de A Condição Humana fez Malraux uma aventura do espírito que nega, pois se instala e a instala em plena contradição, uma contradição que nem mesmo no espírito historicamente se resolve. Com efeito, as resoluções finais, naquela obra-prima, são todas uma qualquer forma de ópio (o ópio do poder, o do amor, o da revolução, o ópio propriamente dito do velho Gisors), um ópio de que só o sacrifício ou o martírio, fraternos mas ineficazes, lavam o azedume que ele deixa na boca ao acordar-se. E assim, sobre a frustração primária e integral que é a vida humana — um pouco a «misera sorte, estranha condição» de que Camões, outro aventureiro também esmagado por uma História que o excedia e que ele procurou epicamente sistematizar, falara — surgirá, após a crise dos poderes e dos mitos políticos, para Malraux o museu imaginário. Muito menos o museu imaginário das formas artísticas cuja vida Focillon definiu, que o museu imaginário, do que, para ele, fica das civilizações: um cemitério de detritos, de estátuas degoladas, de cabeças sem corpos, dispersas pelo deserto desde a Gália à China.

Que os argelinos sofram, que a liberdade se perca, que a «civilização ocidental» seja um imenso embuste, tudo isso pouco importa, afinal. Basta transformar tudo isso em «visão», em metamorfoses dos mesmos deuses sequiosos, sangrentos e vãos que regem o destino humano… Os Apoios, os Budas, os Cristos, as teorias de anjos e demónios mais não são que símbolos de uma inanidade humana que em miséria se debate e debaterá, e à qual só o sentimento da grandeur (uma grandeza perfeitamente irreal como a vida, perfeitamente exótica como o horror da vida…) dará aquele mínimo de sentido para teimar em sobreviver, sem pensar que apenas teima e insiste.

Tudo isto, que hoje vemos em Malraux, nem ele o via na piedade áspera com que escreveu há trinta anos a sua obra-prima. Por isso, me entristeceu tanto — como não deveria entristecer — o nosso encontro no Rio de Janeiro. Que eu, como toda a gente, também encontrei o eminente ministro de Estado de De Gaulle. E, como toda a gente, embora com o gosto maldoso de o fazer depois da precipitação com que a maioria escreveu dele, também falo de Malraux. Mas não do que ele disse ou fez no Brasil. Creio que não disse nem fez nada, pois que só o acompanha ainda, na vida, le feu da retórica, sem o miolo da mesma.

O caso é que me encontrei com ele no Rio de Janeiro. Vi-o, com tristeza, subir para o carro de Chiang-Cai-Cheque. É verdade. Por estranho que pareça o automóvel era esse. Todos os leitores de A Condição Humana recordarão, por certo, uma das cenas mais intensas do livro, que é aquela da passagem do general chinês no automóvel com batedores, e o suicídio do terrorista que se atira com a bomba para sob a viatura afinal vazia. Com a única diferença de eu não ser o terrorista, a situação era idêntica. O aparato policial, a imensa petulância do ministro pairando por sobre a humanidade sofredora, e, ao fim e ao cabo, por uma subtil ironia do destino, o automóvel vazio, afastando-se ao som estridente das sirenes, para parte alguma… Fiquei no passeio, entre a multidão carioca, meditando na Condição Humana — a do livro, a nossa e a de Malraux.

1959

(In: Maquiavel, Marx e Outros Estudos, Lisboa: Cotovia, 1974. p. 157-162)

 

Jorge de Sena

Quinta-feira cheia a última. Malraux foi recebido para um chá na Academia. O que eu esperava aconteceu. Malraux não é homem de chás; é, sim, de voar a Brasília, olhar do alto a futura cidade, aterrissar e fazer logo depois um discurso magnífico. Na Academia cercado de mirones embasbacados de ambos os sexos, apresentado a uma porção de acadêmicos, cujos nomes não lhe diziam nada, é possível que estivesse considerando em seu mais íntimo: “Conheço os acadêmicos do meu país; imagino estes o que não serão!”

Sempre achei sem nenhum interesse ver um astro de tão alta grandeza brilhar nessas correrias protocolares. Bom é a gente avistar-se com algum simpático planeta do nosso próprio sistema. Um Jorge de Sena, por exemplo.

Saí abafado da Academia e fui espairecer no Real Gabinete Português de Literatura, onde o poeta de Coroa da Terra e das Evidências nos devia falar da moderna poesia portuguesa. Um primor de colóquio, em que Sena discorreu, com encantadora simplicidade precisamente para os que estavam ali, não, como habitualmente se faz em conferências, por cima dos que estão presentes para os que estão lá fora. Sena frisou não ser ensaísta nem crítico, mas apenas poeta, mas um poeta que faz crítica. A crítica de poesia de um poeta da sua estatura costuma ser grandemente esclarecedora. Sena é dos críticos que amam, como ele próprio declarou no seu recente livro Da Poesia Portuguesa, “lançar a confusão nos espíritos”. Quando um grande poeta vive, a sua personalidade poderosa e complexa suscita uma multiplicidade de juízos. Depois que ele morre, vai-se formando um mito, em que desaparecem aos poucos contrastes e contradições, forjando-se uma definitiva admiração feita de lugares-comuns. Sena gosta de perturbar esses marasmos póstumos. E consegue-o com infernal e doce inteligência.

Sena explicou quinta-feira a diferença que vai da poesia moderna portuguesa à que se fazia antes de Fernando Pessoa e depois dos simbolistas. Na época entre Cesário Verde e Pessoa. Este afirmou certa vez, numa quadra que toda a gente interessada em poesia sabe de cor: “o poeta é um fingidor.” Sena comentou: há duas sortes de poetas – os que fingem uma dor que não sentem, fracos fingidores, e os que fingem tão bem que chegam a fingir “a dor que eles próprios sentem” (assim os definiu Pessoa). Sena ilustrou a diferença lendo a “Balada da neve”, de Augusto Gil, e o poema “Natal”, de Pessoa. Falava um poeta autêntico, dos tais que sabem fingir a dor que sentem.

Jornal do Brasil, 30 de agosto de 1959