Na contramão do grandioso: o centenário esquecido

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Uma bem-humorada e irônica crônica de Jorge de Sena, recordando efeméride esquecida no mesmo ano em que sobejaram celebrações do 4º centenário da publicação de Os Lusíadas. Com cortes feitos pela Censura, o texto foi publicado originalmente no Diário Popular, de Lisboa, a 8 de março de 1973.

 

“Um centenário lamentavelmente esquecido”

                                                      
 

Passou o ano de 1972, sem que tenhamos visto mencionado, aonde quer que fosse, um importantíssimo e extremamente relevante centenário, altamente apropriado para celebrações do mais universal caráter. A menos que o facto haja sido referido, discretamente, em algum periódico científico, ou técnico, ou de divulgação de uma outra destas duas naturezas, cremos que escapou inteiramente à consideração da humanidade actual. E quanto ela lhe deve – ao que se comemoraria – quer no sentido físico, quer no sentido moral! Com efeito, aonde quer que seja difícil que um corpo aceite algo superior à sua medida, aonde quer que a pele humana solicite especiais cuidados, aonde quer que a moralidade determine que se engula o impossível – e a que ponto isso é requerido no nosso tempo! – lá está, em pessoa ou em metáfora nascida da grata memória dos humanos, precisamente aquilo cujo centenário se esqueceu. É certo que não era, ou não seria em número de séculos, um desses centenários tremendos, impressionantes, carregados de anos, como por exemplo o celebrar-se a fundação de Roma por Eneias, ou a de Lisboa por Ulisses, acontecimentos que, por lendários, não são menos de celebrar. Certo igualmente é que não se trataria de celebrar uma pessoa, uma obra, uma conquista militar, cujos efeitos através dos tempos se pretende que continuem a fazer efeito, como sucede àqueles remédios e semelhantes produtos de que o organismo se cansa ou a que se habitua. E, neste último caso, Portugal, celebrando o 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, tem, em relação a outros países do globo terráqueo (incluindo a Lua aonde já humanos puseram os pés), uma desculpa que os mais não possuem de todo em todo. Como, pensando-se em Camões, se penaria no que, todavia, foi e é muito mais popular do que ele? Menos desculpa, e é mesmo quem a não tem, possui a América do Norte, local de nascimento há cem anos (cumpridos em 1972), do notabilíssimo entre cujo centenário passou despercebido. Todavia, cumpre-nos reconhecer que foi ano de eleição (no sentido não de alta escolha, mas no de “eleições”), e a população ouvindo ou não ouvindo os candidatos, estes dirigindo-se à mesma população, e a alta finança e a grande indústria, através dos meios de comunicação de massa, subvencionando um grande silêncio que servisse os melhores interesses da pátria (já lá dizia o famoso dictum que o que é bom para a General Motors é bom para os Estados Unidos), todos tinham, por igual, ocasião de não se lembrarem de tão importante centenário. De resto, a América prepara-se para celebrar o seu 2º centenário como nação em 1976, e não tardará a ter de iniciar, com a colaboração de outras superpotências, o centenário das Guerras do Vietnam. E, no entanto, em tudo isto, quanto consumo tem sido feito, por metáfora, do modesto e prestimoso entre criado pela inventiva humana, e cujo nome é, para mais, na sua etimologia bastarda, um perfeito símbolo da estupidez linguística neste mundo! Imerecido nome para tão nobre entidade! Mas é o que ela tem, e com ele recebeu a celebridade metafórica e simbólica que é condignamente a sua.

Historiemos. Há mais de um século, existia nos Estados Unidos uma empresa industrial de produtos químicos, dirigida por certo Senhor Robert A. Chesebrough (este apelido, em português corrente, é muito interessante apontar que se diria, com ressalva das ortografias abstrusas que as etimologias impõem aos nomes de família, Queijoburgo). Não há muitos anos (à fé do crítico e linguista Mencken, na 4ª. edição do seu monumental estudo The American Language) ainda existia a companhia que levava o nome do Snr. Queijo (cortemos a Cidade, para simplificar). Não nos foi possível investigar se ainda existe, mas é pormenor secundário em relação à entidade que nos ocupa, cuja celebridade e popularidade se tornou independente da empresa que lhe deve o ser. Pois o caso é que em 1872, a companhia do Senhor Queijo descobriu um produto que não era sólido nem líquído, era aquoso e não era, era oleoso e não era, e que se extraía dos petróleos.

Como naqueles tempos, sobretudo nos países anglo-saxões, quanto fosse Química era necessariamente conexo com as grandezas germânicas – os alemães eram, lendariamente, os técnicos por excelência de quanto havia –, o nome do produto tinha de reflectir a germanidade sem que não havia dignidade química. Mas como, por outro lado, as tradições científicas sempre exigiram que os nomes das coisas tenham alguma coisa de grego, já que, por definição de Civilização Ocidental, a Grécia foi aonde começou tudo, o nome tinha de ter étimo helênico. E foi assim que, há cem anos, cumpridos em 1972 e lamentavelmente esquecidos, nasceu, para conforto, alívio, alegria e paciência da humanidade… Recuemos um pouco. Os empregados do Senhor Queijo, ou ele mesmo, lembraram-se de que água, em alemão, se dizia (e ainda diz) wasser; e procurando activamente num dicionário, encontraram que óleo, em grego, se dizia elaion – do que, num golpe de génio, e de barbarismo linguístico, nasceu aquela coisa suave e emoliente, deslizante e macia, que se chama, e toda a gente sabe – VASELINA.

Recordados de tudo o que a vaselina lhes recorda, gratos de quanto lhe terão devido em momentos ansiosos ou difíceis da vida, todos os leitores concordarão com o nosso comovido exórdio. Como foi que se deixou passar em silêncio tão grandiosa efeméride? Como foi que as Nações Unidas, a Unesco, a Organização Mundial de Saúde, as Academias de Ciências e mesmo as de Letras, ou das duas coisas, as Câmaras de Comércio, as Associações Industriais, as drogarias, as farmácias, etc., etc., não tomaram a iniciativa de tão magna celebração e tão justa? A ela se teriam associado entusiasticamente todos os sexos reconhecidos (à vaselina), todas as almas dulcificadas por ela. Teria sido uma das maiores e mais grandiosas manifestações que a humanidade já organizou. E, estamos certos, teria sido espontânea. Se tal não sucedeu, perdeu-se uma colossal oportunidade de celebrar em uníssono as grandes invenções humanas, simbolizadas na útil e humilde vaselina.

Ter-se esquecido tão emocionante centenário só poderá atribuir-se, tristemente, menos à ingratidão que tanto prejudica centenários (como promove outros), do que a uma lamentável ignorância acerca da data de nascimento de tão serviçal produto. Pois que pomos longe de nós a ideia de que foram a hipocrisia ou a falsa pudicícia o que privou o público em geral de saber a tempo que centenário tinha nas suas mãos, no momento em que nelas tivesse um tubo de vaselina ou de qualquer produto em que ela esconda a timidez mas não a sua utilidade. Ou no momento em que, abaixando a grimpa, aceita o que se está mesmo a ver que não cabe na verdade. O ano de 1972 passou. Mas, antes que esfrie no cemitério dos calendários, recolhamos os nossos espíritos, e dediquemos uma lágrima votiva (de vaselina) à gloriosa e centenária filha de um industrial para quem a Grécia antiga e a Alemanha moderna se uniam fraternalmente nas suas superstições de laborioso americano. E gratamente, mas com o orgulho devido aos progressos das ciências, pensemos com horror em como só há cem anos é que a humanidade dispõe de vaselina para as suas necessidades e urgências.

Santa Bárbara (demitida da Corte Celeste) Ano Novo de 1973

* (do livro O Reino da Estupidez II. Lisboa: Moraes, 1978, p. 157-161. Edição esgotada e sem reedição até o momento.)