Terceira Carta de Londres

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Retrato de Artemidoro no caixão de sua múmia, British Museum, Londres

Inglaterra Revisitada é o título do volume em que se reúnem as seis cartas escritas por Jorge de Sena por ocasião de sua primeira visita a Londres, transmitidas pela BBC no Programa de Língua Portuguesa semanalmente, de 17 de Outubro a 28 de Novembro de 1952. As cartas dão a ver o fascínio do viajante pelo país que sonhara conhecer, e são um registro do primeiro encontro de Sena com muitas das obras que mais tarde viriam a ser transformadas em poemas em Metamorfoses. Como exemplo, apresentamos aqui a terceira carta do ciclo, em que, entre digressões bem-humoradas e comparações entre Inglaterra e Portugal, Sena descreve sua primeira visita ao Museu Britânico e seu encontro com o jovem Artemidoro.


É minha intenção falar-vos de alguns museus de Londres. Mas intenções como esta podem, numa carta como esta, ir parar muito longe – quem sabe, pois, em que acabarei por vos falar? Decerto que da Inglaterra, decerto que de uma Inglaterra vista simultaneamente de Londres e de Northampton, onde tenho habitado alternadamente, e de mim próprio, onde, por mais que faça, cada vez mais habito, à medida que o tempo passa e, com ele, muitas ilusões que a gente alimenta a ver se não fica sozinho. Porém, uma “Carta de Londres” não é lugar para expansões pessoais, desde que essas expansões se alarguem, do domínio restrito das impressões de viagem e estadia, para o domínio, tão vasto e desinteressante, que são as preocupações de cada um. De resto, para quem lê os periódicos ingleses, há neste momento em Inglaterra três preocupações gerais: as perturbações no Quénia (provocadas por uma sociedade secreta que dá pelo nome absurdo de Mau-Mau: mas, sejamos compreensivos, que em inglês o Terreiro do Paço chama-se, como toda a gente sabe, “Praça do Cavalo Preto”); a proibição de ser transmitida pela televisão o momento culminante da próxima coroação de mais uma rainha Isabel; e, last but not least, a discussão à volta de se devem ou não ser chicoteados os culpados de assalto à mão armada. Se digo que estas preocupações são tidas por enormes pelos periódicos todos, é porque não falei ainda com ninguém que se preocupasse real e efectivamente com qualquer destas três coisas. O inglês médio, desde o tempo da Companhia das Índias, está ainda habituado a que estas coisas nas colónias digam respeito apenas a grandes interesses privados – e abstém-se, uma vez que nem é mau-mau patriota, nem é colono europeu patrioticamente assassinado, para, com todo o empirismo da City, poder julgar. Quanto à televisão, a cópia de argumentos nos jornais tem sido vastíssima e facilitado a vida de todos os jornalistas com falta de assunto. Chegou mesmo a escrever-se que a televisão permitia que a rainha fosse coroada perante todo o seu povo, e não apenas, como até aqui, perante aquele reduzido número de pares do reino que, de um lugar marcado na Abadia de Westminster, consiga ver alguma coisa por entre as decorações, os grandes dignatários, etc., que tudo isso acabará de encher o espaço que na Abadia resta disponível a uma vista de olhos. Eu acho isto de coroações uma nobilíssima, grandiosa e utilíssima coisa; e sou partidário de que a cena seja totalmente televisada, que ainda é essa uma maneira de a televisão ter algum sentido superiormente sagrado, por um momento que seja. Se todo o Império pode estar presente – ou mais exactamente, se a coroação pode repetir-se em toda a parte exactamente como Deus Nosso Senhor –, televise-se toda a coroação. Mas não há dúvida de que os jornais me contagiaram, pois que estou a preocupar-me com um problema deles, do Parlamento, do Governo, etc., quando eu não pertenço a esta aldeia, e não tenho o direito de tratar como espectáculo o que poderá ser para um povo, a que não pertenço, um grave problema de protocolo hertziano. A última preocupação, essa sim, diz respeito a toda a gente, mesmo a estrangeiros residentes aqui. Não é o mesmo ser-se assaltado por um ladrão que pode ser chicoteado, ou sê-lo por um ladrão que sabe que o não será. Os assaltos, ao que dizem os jornais, aumentaram medonhamente nos últimos tempos. Diga-se de passagem que esta Inglaterra seria, sem chicote, o paraíso dos gatunos portugueses. Habituados às janelas com portadas de pau, às portas da rua em duplicado e com fechaduras muito Yale em quadruplicado, que diriam a estas correntezas de casinhas e de cottages, com janelas de guilhotina sem fechos e sem portadas, e com a front door sempre no trinco ou apenas encostada? O pior é que, em Inglaterra, ninguém tem dinheiro em casa, ou na algibeira traz mais do que umas moedas. E roubar bancos demanda uma organização à americana, disciplinada e liberalmente conduzida. Assim, um roubo de quatro libras, uma miséria, tem aqui honras de primeira página. Realmente, arrombar uma pasta que se calhar estava aberta, assarapantar ou mesmo assassinar uma pessoa que se calhar passava a vida a ler romances policiais ou a ouvir os programas também policiais de rádio, e acabar roubando o que um gatuno português desdenharia – eis o que, de facto, é uma coisa tão ridícula, tão mesquinha, tão falta de imaginação, que só a chicote. O chicote é uma espécie de pena de Talião para consolação da sociedade; não é propriamente a pena de Talião, porque nesse caso, deveria ser ministrada pela própria vítima – o que, por vezes, seria difícil. Para esses casos difíceis é que as leis são sempre previstas. E, assim, discute-se acaloradamente o chicote. Eu, francamente não tenho pela legalidade maior respeito que pelo contrário dela. Acho que a consciência tem obrigação de valer sempre mais que as normas ou o desobedecer a elas. Mas, também francamente, admiro imenso a franqueza destas discussões, e, se não sou pelo chicote, sou com certeza pela sua legalização. Tanto mais que não pertenço ao número dos que roubam, mas ao dos que são roubados.

E agora reparo que estou a roubar-vos e a roubar-me tempo. Passei da promessa de museus e espectáculos para as preocupações pessoais. Para fugir a estas, embrenhei-me em preocupações do momento britânico. E era tão fácil ter-me agarrado àquela permanência que são os museus. Já Bernard Shaw dizia que era neles e nas bibliotecas que se guardava a civilização, e em nenhuma outra parte. Inclino-me cada vez mais para esta visão satírica. Visitemos, pois, o Museu Britânico.

O Museu Britânico não é coisa que se veja de uma vez. Mas, ainda que a correr o desejásseis ver assim: é impossível. Os museus ingleses andam em maré de economia. E as economias são, naturalmente, feitas à maneira inglesa. Expliquemos. Os horários aqui são uma coisa caótica, dado que não estamos, cada qual, dentro do rigoroso cumprimento que cada um mete no seu próprio horário. Há horas a que uma loja fecha, porque o patrão foi tomar o seu chá. Não admira, pois, que a economia nos museus se faça fechando metade das salas e abrindo a outra metade, alternadamente, para guarnecê-las com os mesmos funcionários. Não sei muito bem, porque não pensei nisso, qual seria outra maneira de resolver o problema, mas deve haver, com certeza, uma maneira muito melhor, portuguesa, de o não resolver.

Seria ridículo dizer que não pasmei diante dos frizos emétopes do Parténon, que em inglês se chamam “The Elgin Marbles”. Que não estremeci, docemente, com uma sensação de ansiedade mista de segurança, perante a Deméter de Cnico. Que me não encantou a nobre e já barroquizante majestade da estátua de Mausolo (o do Mausoléu, nome que se tornou comum a qualquer amontoado de pedras funerárias). Tudo isto serão sinceras emoções que toda a gente terá. Mas talvez nem toda a gente tenha a sinceridade de ficar frio, desiludido e indiferente perante a escultura egípcia: aquela escultura monumental, arquitectónica, ali perdida, catalogada, alinhada dentro de uma sala ainda que imensa! Um faraó de pedra, ou se vê no lugar em que há milhares de anos o puseram, ou se admira a qualidade e a beleza do retrato numa fotografia. É difícil concebê-lo num museu, sem um fundo que o isole, lhe garanta alguma parcela da majestade hierática que aquelas estátuas contêm. E, todavia, como em contrapartida é imediata, mais imediata que com toda a escultura grega, a comunicação com os caixões das múmias ou a infinidade de pequenos objectos que foram familiares a esses mortos. Em tudo isso, em tão minúsculos objectos, desde os selos aos enfeites e berloques, palpita uma vida intensa, gozada cauta e sabiamente, com uma satisfação e uma estima pelo próprio acto de viver, que, por exótica e distante, nem por isso menos nos toca e fala. E tanto quanto as estátuas gregas sem olhos são uma presença da forma que se nos impõe e comove como arte, como representação de uma forma aberta em si própria, assim aqueles olhos ingénuos das tampas dos caixões egípcios nos olham, senão com arte consumada, com uma penetrante e imediata vida. E é ingénuo esse olhar, porque, a milhares de anos de nós, tem já milhares de anos de sabedoria, uma sabedoria mais vivida que meditada. Eu, por anos que viva, nunca esquecerei o olhar de Artemidoro, jovem egípcio já do período helenístico, em cuja melancolia e serena expressão se funde todo o mundo antigo que o Mediterrâneo banhou. Um fervor discreto, como o de uma pequena lâmpada. Naquele olhar está tudo o que Roma vai herdar e perder. Tudo o que nós, filhos de Roma e da cristandade que Roma tornou possível, sonhamos de Grécia e de Oriente. A harmonia das civilizações amalgamando-se para morrerem, como fénix, num clarão de suprema dignidade. Esse momento para nós o mais precioso. E que renasce e rebrilha, com tamanha singeleza, ao passarmos diante de uma vitrina de museu! À vista disto, que são os manuscritos de Leonardo da Vinci, escritos de trás para diante e como num espelho? Ou uma carta de Ticiano reclamando que lhe paguem um quadro? Ou um papiro, aproximadamente contemporâneo do jovem Artemidoro, em que um contribuinte se queixa, com nomes e tudo, da forma como é feita escandalosamente a coleta dos impostos? Pouca ou nenhuma coisa – aquela pouca ou nenhuma coisa de que são feitas as nossas arrelias quotidianas, a ponto de quase parecer que disso a própria vida é feita.

Não quisera despedir-me de vós neste tom quase solene. Falei de coroações, de civilizações que morrem, de chicotes, enfim de inúmeras coisas sérias como o Museu Britânico, cuja colunata pseudo-grega tem uma imponente monumentalidade. Quando de lá saía, a passarada chilreava por entre as colunas, acomodando-se no frisos e entablamentos, como em Lisboa o faz nas árvores do Chiado ou da Avenida. Os pássaros aqui, como as pombas de Trafalgar Square, ostentam preferências artísticas. Tive, noutro fim de tarde, de entrar e sair a correr da National Gallery, dado que a chilreada por cima e os resultados no chão aconselhavam movimentos rápidos… Quem diria que em Londres, no meio daquela cidade imensa, havia lugar para pássaros que não fossem de Jardim Zoológico! Mas há. E até com um comércio organizado creio que de alpista ou milho ou qualquer coisa conhecida e que a gente aqui não reconhece. E muitas pessoas satisfazendo a fome dos bichinhos e os seus próprios complexos de bondade. É um passatempo dominical como qualquer outro. Como por exemplo: estar parado em Picaddilly Circus, à noite, contemplando os anúncios luminosos e a lenta multidão que se acotovela, enquanto no meio da rotunda, há inúmeras pessoas empoleiradas (porquê) na bela estátua de Eros que ironicamente sublinha a reputação de Piccadilly. Fiquemos por aqui. Ir mais além seria atentar contra a discrição dos microfones e a reconhecida pacatez da vida inglesa.
 

* in: Inglaterra Revisitada (Lisboa: Edições 70,1986)