Mar de Pedras

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Escrito em Assis, e datado de 15/11/1960, o conto “Mar de Pedras” constitui uma das várias “revisitas” que JS faz à Idade Média, agora em nítida ambiência inglesa. A admiração de Sena pelo protagonista, o Venerável Beda, comprova-se também em algumas anotações do diário de viagem de 1968, onde se lê, a 1 de outubro: “Espero partir amanhã às 13:20 para Newcastle, de onde conto visitar as ruínas de Jarrow onde Beda viveu (e morreu, se bem me lembro)”. E a 2 de outubro: “Pela manhã, subi à catedral [de Durham] onde ‘nasceu o estilo gótico’, que vi vagarosamente, com tempo, e, na galilé, onde entrei primeiro, visitei S. Beda, sobre cuja campa puseram um túmulo com a inscrição: ‘Hac sunt in fossa Baedae venerabilis ossa‘.[…] [Jarrow] o que seria uma área rural da Northumbria para monges meditarem e escreverem, é hoje um mar de gasómetros, instalações industriais, etc. O ônibus parou à porta das ruínas, onde comprei vários folhetos, e admirei a suposta cadeira de Beda (cujas esquírolas, em água quente, davam um banho óptimo para partos difíceis). As ruínas são insignificantes, mas distinguem-se do chão. E comoveu-me estar onde ‘me’ pensei com o velho historiador.”

 

Pois pode pensar-se que exista algo de tal modo que não possa pensar-se que não exista.
Anselmo de Canterbury —
Proslogion
Anoitecia. Chovera muito. O caminho entre as sebes altas, gotejantes, era um lamaçal de barro, em que o céu pálido, nas poças, se estanhava mais. Breves rajadas sacudiam as sebes, fazendo pingar as gotas que escorriam; e sopravam pelos campos fora, na planura deserta que uma e outra árvore cortava negra e esguedelhada, com os ramos e ramículos retendo uma neblina que o vento esfarrapava e que logo se reformava ténue e pardacenta. O vulto, saltitando penosamente, evitando a lama e as poças de água, apressava-se pelo caminho adiante. Apoiado a um bordão, os passos dele eram incertos, tropeçantes, como de quem, na noite que descia, distinguiria mal onde punha os pés; e o bordão tacteava manejado por pouco firmes punhos. Não se via nas redondezas casa alguma, nenhuma choça, nada. Nem rebanhos havia. Nem cavaleiro vinha vindo. E a noite agreste e escura rodeava o vulto que, certo momento, parou.

Não levantou, porém, a cabeça para olhar em volta, para perscrutar o horizonte. Repousaria um pouco talvez, embora seguro do caminho, senão da noite e da solidão que se confundiam cada vez mais e a perder de vista. Parecia escutar.

Ruído que se ouvisse além do vento sibilante e súbito, do rumorejar das sebes sacudidas?

O rosto dele, atento e concentrado, era um rosto de velho, que os cabelos brancos coroavam revoltos, e onde os olhos piscos se firmavam no espaço e um sorriso vago alongava os lábios, refundando as comissuras e as rugas de uma pele rosada e seca. Era um longo hábito de frade o que vestia, quase até às sandálias que, na lama, se distinguiam pouco dos pés magros e ossudos. Parecia esperar.

Mas quem viria ter com ele ali? Salteadores de estrada? E um velho frade seria que os temia?

Apegado ao bordão, imóvel, com o hábito esvoaçado pelo vento áspero, assim esteve um longo tempo, em que a noite quase se cerrou de todo.

Escutava e esperava. Não era raro que vozes lhe falassem. Não era também costume a que se desse, rigoroso consigo próprio nessas matérias incertas. Às vezes acontecia-Ihe que tudo dentro dele parava, e o seu espírito ficava numa flutuação, como o de Deus levado sobre as águas. E, com efeito, as coisas se passavam de igual modo, pois que, na expectativa em que deslizava imóvel no seu íntimo, não havia qualquer sinal, qualquer objecto, qualquer pensamento, e muito apenas a curiosidade um pouco reticente e receosa que, se estava escrevendo, o conservava de pena levantada sobre o pergaminho, ou, se estava rezando na sua cela, lhe dava a sensação de os joelhos não mais estarem pousados no genuflexório. Uma vez, na igreja do convento, imenso pejo o invadira, quando Frei Athelstan, seu velho amigo, ao ver que ele não se levantava para ouvir o Evangelho, lhe tocara no hábito, e o hábito desabara no chão, sem ninguém dentro. E ele, bem lembrado estava, apenas se distraíra momentaneamente, absorto na meditação das cópias dos documentos históricos que recebera na véspera. No entanto, sentira perfeitamente o toque na sua manga, e não concebia que não estivesse ali. O caso dera que falar, e só a estima do abade pelo seu feitio estudioso e pelo seu labor ininterrupto havia abafado um escândalo que teria perturbado, com devoções e peregrinações absurdas, o sossego de uma alma que escrevia sempre, lia sempre, discutia sempre, inquiria sempre.

Quando tudo parava dentro dele, era como se ouvisse uma música celeste, sem instrumentos, sem cânticos, mas música. E as vozes, que então escutava, não eram em verdade como vozes. Nada tinham de comum com a leitura mental, caligrafada metodicamente na memória, que ia sendo o seu pensamento, ao escrever os seus tratados, a sua História Eclesiástica; nem também com os relâmpagos súbitos, inarticulados, que se faziam palavras na sua boca, nos momentos em que discutia pontos de doutrina com os alunos. Mas ouvia sem dúvida umas vozes. Só que as palavras lhe pareciam de somenos, e mesmo a música de aliterações pressentidas, para significar a plenitude que o invadia.

Ultimamente, concluíra a grande obra da sua vida, e Deus lhe dera vista quase até concluí-la. Consumira os olhos em muitos anos de estudo, mas erguera um monumento à cristandade britânica, exaurindo tudo, para que, até à actualidade, não houvesse martírio, sínodo, peregrinação, fundação de convento, guerras e invasões, que não figurassem cuidadosamente referidas. Lera milhares de documentos, entrevistara centenas de pessoas, e registara minuciosamente uma época revolta, tumultuosa, transbordante de piedade e de paganismo, que, como as ondas do mar, vinha bater às portas do seu mosteiro de Jarrow, onde entrara em rapazinho quando as paredes da casa ainda se erguiam. Como elas e com elas crescera na regra de S. Bento. Mas Adamnan de lona, Aldhelm de Malmesbury, o arcebispo Teodoro de Tarso, o seu mestre Benedict Biscop, quantos o haviam entusiasmado à redacção de tão magna obra, estavam todos mortos. E Wynfrith andava na Germânia, ocupado em converter os povos e em refazer o império dos Romanos.

Acabado o trabalho, a Deus se encomendava. Mas, no entanto, quando soubera ter concluído a sua História no momento em que os Árabes invadindo a África, que fôra de Agostinho, e as Espanhas de Orósio e de Isidro, haviam sido detidos decisivamente em Poitiers pelo filho do Heristal, ele vira nisso, pela primeira vez na sua vida de serenos sessenta anos, um sinal da vontade de Deus, uma espécie de sanção, de epílogo, sem prejuízo, é claro, de continuar aguardando com a maior ansiedade um resumo do Livro dos Amuletos, do príncipe Khalid de Damasco, um árabe, discípulo daquele Mariano de Alexandria, que Adamnan conhecera na sua viagem à Terra Santa.

Nunca fora longe para fora de Jarrow. Todos viajavam tanto! Havia Escotos por toda a parte, havia gregos em Londres, atraídos pelo arcebispo Teodoro. A sua Terra Santa era o claustro de Jarrow, o lajedo largo sob o qual tão poucos frades dormiam o sono eterno (Fr. Athelstan já lá dormia, quieto para sempre daquele jeito trémulo da mão, que se elevava no ar, como para tocar-lhe o hábito, quando acaso ficava ou passava perto do amigo), a sua cela com a janelinha estreita, os arcos da igreja, assentes nas tão grossas colunas que ele e os outros rapazes se escondiam dos mestres à volta delas. Apenas saía para pregar nas aldeias próximas, para uma jornada a Canterbury (tão raras vezes lá fôra). Pregava muito mal, tinha consciência disso. Constantemente as suas preocupações se imiscuíam nos sermões, e ora falava do que ninguém entendia, ora, aflito com evangelizar os ouvintes (era notório que, à noite, adoravam pedras, apesar de acreditarem, de dia, em toda a casta de milagres), acabava contando histórias muito simples, das muitíssimas que sabia de tantos santos anglos e escotos, como as dos mártires das perseguições.

Mas as perseguições não eram o seu forte, e ficava descontente consigo mesmo se se atardava nelas. Aqueles horrores, aquela ignorância mútua, aquela verdadeira aversão pelas belezas da ciência, pelos encantos da Bíblia de que Celso se rira, ou os de Lucrécio e de Vergílio, que o grande papa Gregório abominara, não se casavam com o seu sonho de uma cristandade virtuosa, inteligente, educada, capaz também de estimar, como ele, os versos de Caedmon, os enigmas de Aldhelm, e mesmo Lucrécio, que Biscop lhe condenara que lesse, tão ateu, tão materialista! Mas alguém descrevera melhor do que esse pagão a dignidade do sábio, ou a leviandade egoísta do que na praia se sente feliz de não ser aquele que, ao longe, no mar, tenta defender das ondas a precária vida?

Agora, não mais lia, já não escrevia. E o seu secretário predilecto, Egbert, cuja voz era em latim como um cristal, e cuja letra não se enganava nunca, fôra mandado para York, e era bem certo que sucederia ao arcebispo. Mas preparava-se uma grande escola em York, os planos iam adiantados, as sementes que lançara não se perderiam.

Duraria muito a paz em que o país vivia? Quem poderia prever? A história podia prever os desígnios de Deus? Sempre esse problema o atormentava. Já uma vez sonhara com Jarrow saqueado e destruído, depois da sua morte. No sonho, ele levantava-se da sepultura, e arengava os invasores que, pelos chifres dos capacetes, eram piratas do Norte. E os invasores, em gargalhadas que o haviam despertado a suar frio, ameaçavam enterrá-lo vivo, pois que, como Lázaro, era vivo que estava então.

Não chegaria à aldeia com dia. O vento aumentava. Uma chuva miudinha começou, que o fez apressar o passo na caminhada que, sem dar por isso, retomara ao pensar nas viagens de Adamnan. Como se deixara atrasar! Quase não havia dia de sermão na aldeia, em que, ao regressar, não se perdesse em cogitações. Fizesse sol ou chuva, fosse Inverno ou Verão, certo era que dava consigo parado a meio dos campos, nem na aldeia, nem no convento, e sem saber se estava perto ou longe. Mas com dia não chegava já. E nunca se atrasara tanto. Não devia ter vindo sozinho, nem ter teimado em que não precisava da companhia de um noviço que lhe desse o braço, e suprisse as falhas da vista e das mãos inseguras. Era teimoso, muito teimoso, devia rezar para que Deus lhe perdoasse a teimosia. Tudo velhice, é claro; a mania de que se é forte como dantes. E ele nunca fôra forte. Não fôra? Que doença tivera? Nenhuma. E, em rapaz, Benedict Biscop — Deus tenha a sua alma em descanso — muitas vezes o castigara pela absorção nos jogos e nas lutas, e a verdade é que fôra dois anos o campeão na corrida.

Tropeçou e caiu. O caminho era um lamaçal em que ficou sentado, dentro de um charco. Às apalpadelas, procurou o bordão. Não o encontrou. O frio, a água, a treva, penetravam-no. Antes que a angústia e a aflição pela aflição que, no convento, a sua demora estaria causando o tomassem por completo, ajoelhou-se na água, e rezou. Nestas ocasiões rezava sempre uma oração que compusera, em latim e em verso, com extremos cuidados de estilo, inspirada em Boécio, cuja Consolação era obra sua predilecta. Mas, apesar de tudo, não pôde deixar de sorrir, interiormente, da desproporção entre o seu caso e o do ministro de Teodorico. Quem iria cortar-lhe a cabeça?

E, no mesmo instante, sobre a sua relampejou uma lâmina.
— Espera! — disse uma voz.
— Por quê? — perguntou outra.
O frade levantou-se. — Meus filhos, qual de vós procura o meu bordão?
— É o nosso pai — disse a primeira voz. E a segunda riu.
— Meu pai — disse a segunda voz — passa para cá os trinta «pence» do boi que vendeste na aldeia.
— O meu boi é o do Evangelista — disse o frade — e nunca o vendi pelo preço de Judas.
— É um frade do convento — disse a voz que lhe chamara «pai» por troça. — É um desses a quem o rei dá tudo, e não fica nada para nós.

O frade fechou os olhos, rezou um padre-nosso e uma avé-maria pela sua alma, porque eles tinham razão, era a verdade, a juventude abandonava o país, porque não havia oportunidades de emprego. O rei dava tudo às casas religiosas, não valia a pena ser-se leal servidor sem ganhar o que um senhor deve dar de prémio para estimular os que o procuram para servi-lo.

— Ides de longada para outros reinos, meus filhos?
— Vamos — disse a primeira voz — que tu comes tudo o que é ncfsso.
— Não — atalhou com firmeza o frade—, nem eu, nem o meu convento. Mas perdeis a vossa alma com essa raiva que está em vós.
— Se servimos o rei e ele nos paga mal, e a nossa alma se enche de raiva, não é a nossa alma que se perde, mas a dele, tal como tu ias perdendo a cabeça — respondeu a primeira voz.
— Meus filhos — disse o frade —, sou velho e quase cego. Qual de vós procura o meu bordão? E lembrai-vos que tocar num homem de Igreja seria a vossa perdição eterna. Só por isso vos peço: não me façais mal. Eu vos perdoo e dou a minha bênção, porque em verdade vós não sois culpados. Nunca vos falaram como a filhos, nunca vos pagaram como a homens, nunca vos trataram como a anjos. E o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, é um filho, porque nasceu da carne, é um homem, porque Deus lhe deu alma, e é um anjo quando o Espírito Santo o ilumina.
— Meu pai — disse a primeira voz — tomai o vosso bordão, que faremos caminho convosco. Aqui o tendes.

O frade começou a andar, no meio deles, falando sempre, sem sequer se ouvir falar. E, a certa altura, quando afirmava que o reino de Deus não era deste mundo, mas era no mundo que os homens viviam, e que os frades eram intermediários entre o reino de Deus e o do mundo, porque chamavam sobre si os pecados do mundo e estavam separados dele pelos seus votos, a chuva era tanta, que um dos jovens disse:

— Não é possível continuar caminho. Procuremos onde nos abrigarmos para passar a noite. Estou molhado até aos ossos, não se vê nada, e não encontraremos casas cá por perto.
— Há, por aqui, aquele templo onde as mulheres das aldeias vão deitar-se na pedra, quando não emprenham — disse o que detivera sobre a cabeça do frade a espada do outro.
— Isso são pecados terríveis — disse o frade —, são coisas do demónio, que não devem ser feitas. Como podemos abrigar-nos lá?
— Com sua licença — disse o da espada—, são coisas que elas fazem, porque não se deitam comigo. As que se deitaram, nunca vieram pecar com a pedra.
— Mas pecaram contigo e tu com elas — disse o frade. — O matrimónio é um sacramento celebrado pelos esposos e que a Igreja testemunha.
— Ora, meu pai, a gente se sacramenta sozinho, que não são coisas que se façam diante dos outros, como os animais fazem.

Haviam saído do caminho e, falando estas blasfémias e imoralidades, ajudavam o frade a acompanhá-los pelo campo encharcado, onde agora, como não onde o frade se distraíra, as pedras eram tão numerosas, ou mais, do que as contavam os tropeções. Uma massa de rochedos se erguia na noite, adiante deles, e era o templo de que o jovem falara. O frade conhecia-o, já várias vezes verberara aqueles actos que lhe pareciam monstruosos. Era umas pedras ao alto, em redondo, cobertas por uma enorme pedra. O vento penetrava nele. mas, sentados num recanto, ficaram abrigados, embora tiritando de frio, com a roupa molhada no corpo.

O frade, então, falou-lhes longamente, minuciosamente, das virtudes, da castidade, da piedade, dos deveres, ao que os rapazes respondiam com sonolentas ou irritadas apóstrofes, seguros da sua falta de vista e da solidão, que os protegiam de ele os reconhecer mais tarde. Não pensavam já em matá-lo; e até parecia que nem já se lembravam de que haviam pensado nisso. Numa pausa da plácida exposição que lhes fez, o frade ouviu-os roncar. Haviam adormecido.

O frade ficou a pensar em como a sua vida poderia ter sido a deles, tal como por um fio estivera a perder a que tinha, no preciso momento em que pensara na degolação de Boécio. Se, em criança, o não tivessem levado ao mosteiro; se, como contavam, ele não fosse uma criança dócil e bonita; se tivesse encontrado em vez de bons mestres, outros que o escorraçassem; se…

Abriu os olhos, e era dia, um dia luminoso, que rompia, a custo, de um véu compacto de neblina rasteira. Mais do que isso não via, quando veio até à entrada. Voltou-se, e os dois rapazes, muito jovens, dormiam estirados, com a boca entreaberta, os rostos serenos e alheios. Agachou-se para os ver melhor, ora junto a um, ora do outro. Um deles, o que tinha espada à cinta, estava deitado na pedra onde as mulheres se deitariam. Abençoou-os o frade e, de repente, com a mão fez o sinal da cruz sobre cada um deles.

Como que o sinal os despertou. Ambos se espreguiçaram e, na distracção que é o despertar da juventude que parece regressar sempre de muito longe a este mundo, se sentaram olhando em volta, até que, fitando o frade, desceram os olhos, contritos e envergonhados.

— Meus filhos disse o frade —, é dia, voltemos ao caminho.
E, pegando do bordão, abriu a marcha.

— Meu pai — disse o da espada — não é por aí que nós viemos. O caminho é daquele lado — e apontou.

— Todos os caminhos vão dar a Jarrow — disse o frade, sorrindo, mas voltou atrás e seguiu-os, apoiado ao bordão.
Quando chegaram à estrada, pararam os três. Os dois rapazes enleados, não sabiam que dizer. O frade, com boas palavras, despediu-os, e ficou na estrada a vê-los afastarem-se, entre apressados e incertos, na direcção em que ele viera vindo. De súbito, chamou-os. Eles voltaram-se, interditos. O frade insistiu nos apelos e eles regressaram até onde ele estava. Então o frade disse-lhes: — Meus filhos, eu só vos dei boas palavras, e ides os dois lançados no mundo. Isto não pode ser. Sou velho já para ir convosco. Vinde vós comigo.

Os dois entreolharam-se. E o da espada, com um sorriso escarninho, porque o tempo já passara entre eles, disse: — Meu pai, convosco para onde? Para o convento? Só se as pedras falassem. Não sabeis, meu pai, o que é a vida. Só se as pedras falassem, para serem como gente, já que as gentes, meu pai, são como pedras.

— Elas falarão — disse o frade, e os olhos dele fugiam para longe.
— Ah sim? Pois vinde cá — gritou o jovem. E, quase arrastando o frade atrás de si, levou-o até junto do velho templo gentio.

Na suave encosta que descia para o outro lado, havia, quase a perder de vista, um mar de pedras. Grandes, pequenas, bicudas, arredondadas, lavadas das chuvas e dos ventos, com rala vegetação entre elas, eram de facto uma multidão de pedras.

— Fala-lhes. Elas nem sabem quem tu és.

E o frade falou. Contou da criação do mundo, das tábuas da lei, das lágrimas dos profetas, da paixão de Cristo, de como desceu ao limbo e ressuscitou de entre os mortos, de como Pedro o renegara e fôra o primeiro papa; desfiou vidas de santos, discutiu as Etimologias de Isidro e as Confissões de Agostinho; citou Lucrécio e Vergílio, comparou-os com o Cântico dos Cânticos, opôs à Eneida o Livro de Job. Descreveu a sua infância e a sua juventude, expôs a sua filosofia da história, recordou amigos, as obras deles, as conversas que com eles tivera. E terminou por recitar a sua oração especial.

A seus pés, sentados, os dois rapazes sorriam perplexos, cépticos, contrariados, irritados por tanta ideia, tanto pensamento, tanta informação, tanta coisa que nada lhes dizia. A voz do velho não era bem timbrada, e era seco e sem graça o modo de falar.

Então o outro puxou-lhe pela ponta do hábito enlameado e húmido, e disse, a meia voz: — Meu pai, perguntai-lhes se vos entenderam, se gostaram.

O padre baixou para ele os olhos, e lembrou-se de como quantas vezes desejara aliviar assim o peso do seu coração e o peso que no coração lhe fazia a ciência de que o mesmo coração era insaciável.

— Minhas filhas, minhas filhas! Haveis-me entendido, haveis gostado?

Um estalido, um gemido, um ronco reboou na encosta.

— Sim, Venerável Beda! — responderam as pedras em coro.

As lágrimas escorriam pelas faces do velho que sentia as mãos molhadas de lágrimas e de beijos.

Baixou os olhos para as duas cabeças juvenis, despenteadas e hirsutas.

— Vamos, meus filhos.

Vieram os três até ao caminho. Aí o frade levantou a mão para abençoá-los.

— O prometido é prometido, meu pai. Vamos convosco — disse o que cingia a espada.
— Não, meus filhos. Ide pelo mundo com a minha bênção. Eu vos desligo da promessa. O que elas entenderam, vós entendereis.

E, arrimando-se ao bordão, seguiu caminho fora, de regresso ao convento.

O alvoroço no convento era enorme. Todos correram ao seu encontro. Ladrões? Salteadores? Ficara na aldeia? Onde ficara?

Beda, de olhos vagos, sorria sem responder. Então, o abade em pessoa, para despertá-lo, tocou-Ihe no braço. O hábito desabou no chão, ante os olhos da comunidade inteira. Onde, naquele momento, estaria Beda?

1960.

=> Para uma excelente leitura do conto, consultar: Beatriz de Mendonça Lima, Uma nova legenda de S. Beda: “Mar de Pedras” de J. de Sena, UFRJ, 1996 (Dissertação de Mestrado)