História do Peixe-pato

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"Predestination", M. C. Escher

“Escrito em 1959, nos fins desse ano, e pois já no Brasil, será interessante anotar que o foi com uma intenção inteiramente traída pelo “peixe-pato” ele mesmo, pelo homem que é outra personagem da história, e por aquelas aves sinistras voando sobre a paixão deles. Com efeito, os mais velhos dos meus filhos, então crianças, pediram-me que, escrevendo eu (coisa que eles viam acontecer diariamente, mas de que eram excluídos), escrevesse uma “história” para eles. Comecei a escrevê-la… E saiu uma coisa cheia de coisas terríveis, evidentes ou não, que crianças não podiam ler nem entender, mas que, se ouvissem lhes dariam pesadelos (não muitos diversos de comuns e habituais pesadelos da adolescência sobretudo masculina, como é sabido dos entendidos dos tais assuntos).” JS.

 

E começarom a comer a vianda que o outro trouxera e morrerom com a peçonha que em ella andava.
Orto do Esposo

Era uma vez um homem que vivia numa pequenina cabana à beira-mar, lá para as bandas das Africas, das Índias ou dos Brasis, onde o calor é tanto que o mar parece de vidro azul, e as florestas crescem tanto que se apertam, apertam, e chegam mesmo ao pé da água. Num sítio daqueles, o homem, coitado, quase não tinha onde pôr a cabana. Havia entre as ondas e as árvores só uma tirinha de areia muito estreita, que não dava para nada. Quando vinha o mau tempo, e às vezes vinha, ainda ele não tinha chegado e já o homem ficava sem casa nenhuma. E daquele aperto da casa entre as ondas e as árvores, nunca chegava a saber o que primeiro lhe deitava a casa abaixo, se os salpicos das águas, se uma bofetada dos ramos que cobriam a casa e o vento sacudia. Felizmente para ele, a casa desfazia-se mal a tempestade se prenunciava, porque, de outro modo, ali entalado entre as ondas e os troncos, numa tirinha tão estreita, seria levado pelas ondas mais altas que viriam depois, ou os troncos, batendo uns contra os outros, lhe partiriam a cabeça. Por isso, logo que a cabana — que era uma construção muito fraca, feita de uns paus e de umas folhas e de umas algas — tomava o jeito de cair, o homem saía dela, ia pela tirinha de areia fora e sentava-se mais longe, num grande cabo que entrava pelo mar dentro, a esnerar com paciência que a tempestade aumentasse, fingisse que ia acabar com o mundo e amainasse de todo. O cabo era muito grande, entrava muito pelo mar dentro, e o mar não lhe chegava ao cimo, porque ele era muito alto; e como, além disso, era de pedra, uma pedra muito rija, não havia árvore nem erva que nele metesse raiz. Parece que, sendo o cabo assim, estava mesmo a calhar para o homem lá fazer a casa, e não naquele sítio tão estreitinho entre a floresta e o mar. Mas o homem não gostava dele, achava-o duro, alto de mais, inacessível às águas e impenetrável às raízes. Ou talvez nem pensasse nada disto — o certo é que gostava do outro sítio, aonde, depois de ter esperado no cabo, com paciência, o fim da tempestade, voltava a construir a sua cabana pequenina. E, porque do sítio gostava, era nele que sempre queria estar. Não se pode dizer que ninguém soubesse a razão de ele viver sozinho naquele sítio, porque ninguém sabia que ele ali vivesse. E como viera até ali? De barco? Através da floresta? Naufragara? Caíra do céu, de um avião que passara? Nem ele mesmo sabia, e, se o soubera, esquecera. E de que vivia ele? Às vezes, de um peixe que pescava ou apanhava desprevenido ao rés-da-areia, na transparência límpida das águas que vidro azul pareciam. Outras vezes, de um pássaro ou de um macaco que se perdia e saía da floresta e, vendo-se à solta ante o mar, não atinava com uma passagem entre as palmas, os ramos, as trepadeiras e as folhas grandes e pequenas, que eram como que uma parede verde ante o azul das águas. Escamava-os, ou depenava-os ou esfolava-os, e depois assava-os num espeto de ferro que ele tinha e era a única mobília da sua casa e a única coisa que levava consigo, quando ia para cima do cabo esperar, com paciência, que as tempestades passassem.

O homem não era velho. Alto e vigoroso, muito queimado do sol, e curtido das chuvas e do vento do mar, entretinha-se a subir às árvores ou a nadar no mar, ou ficava sentado na areia, à porta da cabana, com os pés quase na espuma que até ele vinha, a ver como o céu mudava de cor e, com a cor do céu, o mar mudava de azul, ou a ver as ondas cintilar ao longe, espraiarem-se na areia ou rebentarem contra o cabo, e a ouvir os sons que vinham da floresta, guinchos de macacos e cantorias de aves, ou só, rumorejantes, as folhas do arvoredo, em que se enleava a brisa. Alegre não era ele muito, embora às vezes cantasse. Triste também não era. É certo que à noite, não havendo lua a pratear o mar e o cabo e os vultos das árvores da floresta, porque era lua nova, ou pesadas nuvens, espessas e escuras, encobriam uma lua cheia ou crescente ou minguante, se se demorava ele um pouco mais à porta da cabana, como que sentia uma tristeza fina, e os olhos se lhe bordavam de umas poucas lágrimas. Mas não era triste, não! Nem sequer falava sozinho. Quando falava, em geral era-lhe a fala uma espécie de acrescento de força ao trabalho das mãos ou uma conversa inventada com os animais que apanhava para comer, enquanto tentava apanhá-los, ou, depois que os apanhava, enquanto os escamava, depenava, esfolava. Mas o trabalho que fazia era quase nenhum, e um bicho durava-lhe mais de um dia. Não tinha, pois, ocasiões de falar muito, e fora delas quase nunca lhe lembravam falas. Acontecia que, embora fossem raros, pássaros do mar por ali apareciam voejando, e pousavam no alto cabo, onde grasnavam, crocitavam, piavam uns com os outros, ou ficavam, negros, bicudos e de peito branco, imóveis e calados. Com esses que vinham não sabia ele donde, e que partiam como tinham vindo, sem sequer fazerem ninho na rocha dura do cabo, uma rocha lisa e áspera, angulosa mas sem qualquer concavidade oculta onde um dos pássaros deixasse um ovo, com esses, sim, lhe apetecia conversar às vezes. Principalmente quartdo, imóveis e calados, ou debicando as penas sob as asas, o olhavam de esguelha, mal o distinguindo à porta da cabana, rente ao mar, na orla estreita da areia que no cabo acabava, a voz lhe vinha à boca para perguntar, para dizer. Mas eram pássaros marinhos, de vozes guturais, roufenhas, sacudidas, e não falavam, nem com eles tinha trato de os comer, desde uma vez que uma gaivota ou albatroz ou corvo de água, de asas partidas, lhe caíra no mar quase a seus pés, e ele a depenara e assara no espeto. A carne dura e salobra, muito escura e nervosa, não lhe soubera bem. Quando havia temporais e ele subia ao cabo, os pássaros lá estavam como ele, acachapados contra a pedra, esperando com paciência que a tempestade amainasse. A luz dos relâmpagos os via; mas, como nessa altura ele e os pássaros apenas se ocupavam com esperar, com resistir ao vento e à chuva, nenhuma camaradagem se estabelecera entre eles. Vindos não sabia de onde e sumindo-se por sobre as águas como haviam vindo, eram com efeito os únicos seres vivos a cuja presença se habituara, que ali lhe apareciam como se fossem sempre os mesmos. Por certo o não eram. Alguns não voltariam mais, quando partiam; outros que vinham, talvez nunca tivessem lá estado — o que era tanto mais provável quanto, na pedra rija e angulosa, mas sem concavidades, nenhum fizera ninho. Nem de resto eram muitos ao mesmo tempo; e, por certo, pousavam por acaso ali, de passagem para outros cabos ou apenas para repousarem da caça infatigável que, suspensos sobre o mar e de olhar fito, davam, num mergulho veloz, aos peixes que espiavam. Com eles aprendera o homem uma coisa: essa maneira de pairar atento, de mergulhar subitamente, de apanhar nas mãos ou na ponta do espeto um peixe, como eles o traçavam nos bicos compridos e afiados, de pontinha adunca. Não é que ele pairasse no ar e se deixasse cair, evidentemente; mas flutuava e mergulhava, ou, de pé nas águas tranquilas, espiava os peixes que da sua imobilidade se fiavam para nadar junto dele.

Precisamente um dia em que flutuava com o espeto em punho, viu passar, um pouco lento e cambaleante entre duas águas, uma forma que, reparando-se melhor, era um peixe. Um peixe grande e estranho, como que tendo patas em vez de barbatanas ou um par de barbatanas como patas, e de corpo luzidio e esbranquiçado, muito redondo, que parecia coberto de penas. Era um peixe que nunca vira, em todos aqueles anos que já vivera ali na tirinha estreita entre o mar e a floresta. O peixe passou para lá, passou para cá, ascendeu, baixou, passou um bocadinho mais para lá, parou, e ficou, com a cabeça de banda, a olhar para ele. Estiveram assim largo tempo, ele admirado de o peixe o fitar e sem ihe ocorrer o mergulho e a lançada com o espeto, e o peixe muito sossegado, a olhá-lo com o olho redondo, azulado, debruado de vermelho. O homem, então, mergulhou devagar. O peixe não se mexeu. O homem veio ao de cima, para respirar, sempre vagarosamente, sem espadanar nada. E depois meteu de novo a cabeça na água, e olhou. O peixe não se tinha mexido, ao que parecia, e continuava a fitá-lo com o mesmo olho arregalado. O homem nadou umas braçadas suaves e tornou a olhar. O peixe acompanhara-o, ascendera mesmo um pouco, e parara a olhá-lo fixamente. O homem ficou intrigado, sem saber que fazer, e nem pensava já em apanhar o peixe. E este parecia não saber que houvesse
quem alguma vez pensasse em apanhá-lo. O homem não estava muito longe de terra, a ondulação era serena e larga. Veio nadando devagar para a praia e, de quando em quando, mergulhava os olhos para ver o peixe que, não havia dúvida, um pouco mais abaixo, entre duas águas, e mais para o lado, o acompanhava, sempre a fitá-lo com o seu olho azul e redondo, debruado de vermelho. Dava mesmo uma ou outra volta desajeitada, com uns movimentos trôpegos das patas-barbatanas, e logo retomava calmamente o seu caminho que era o do homem em direcção à praia. Já muito perto e quando tinha pé, num golpe de rins o homem pousou-se no chão, naquele jeito balanceado e flutuante de quem anda na água como em sonhos. E preparava-se para vir andando comas pequenas ondas espaçadas, quando sentiu uma coisa fofa e macia roçar-se-lhe nas pernas, quase o fazendo cair. Parou, e viu que o peixe, em voltas e contravoltas sucessivas, tropegamente dadas com impulsos de barbatana-pata, se lhe roçava amigavelmente pelas pernas, sem mesmo, de contente que estava, levantar sequer para ele o olho arregalado e azul, de um azul mais pálido que o do mar em dias luminosos. O homem, numa surpresa que era pasmo e quase inquietação, apressou-se ligeiramente, chegou mesmo a espadanar as águas que mal quebravam na tirinha de areia estreita em que a sua casa estava. Perdeu de vista o peixe, por entre a leve espuma e a areia levantada, e só de pé na praia o procurou com os olhos. Não o viu, e, fora da água e perto dele, não podia vê-lo, porque as águas se espelhavam, cintilavam crespas, e nada do que nelas estivesse dali se distinguia. Ficou parado assim por muito tempo, a pensar no peixe, e depois, já mesmo sem pensar no peixe, se deixou ainda ficar como esquecido, olhando o ponto das águas em que estivera de pé e o peixe lhe fizera as festas que sabia. Anoiteceu. Que peixe seria aquele? Em verdade, só por nadar debaixo de água ele parecia um peixe. Se andasse ao cimo de água, ao lume dela, seria pela espécie de penas (eram penas, sem dúvida) que o cobriam, pelas barbatanas que pareciam dois pés, pelos toquinhos de barbatana que pareciam asas, pelo jeito cambaleante e vacilante de mover-se, um pato. Era, portanto, um peixe-pato. Um peixe-pato, meio peixe e meio pato, mas mais pato afinal do que peixe, era um animal que ele nunca tinha visto, que não conhecia, nem sabia que alguma vez tivesse sido conhecido. Mas que existia pelo menos um, que esse um lhe aparecera e até gostara dele, disso não podia ter dúvida. Ou seria um animal perigoso, que assim se aproximava das suas vítimas? Pois que razão haveria para o peixe-pato gostar dele, quando ele, de espeto em punho, iria apanhá-lo como a outro qualquer peixe? Nos dias seguintes, porque nenhum macaco ou pássaro saiu da floresta, voltou ao mar, apanhou alguns peixes, mas, embora se tivesse sempre demorado flutuando quieto e perscrutando com os olhos o interior transparente das águas límpidas, o peixe-pato não apareceu. Depois, porque apareceram pássaros da floresta e uma vez um macaco, não voltou por vários dias a meter-se às águas. Um dia, tornou ao que chamava pesca. Apanhou alguns peixes, esperou pelo peixe-pato, mas este não apareceu. Dias vieram então, em que, andando na água, nem um peixe encontrava; e em que nem pássaros da floresta, nem macacos, nada lhe caiu nas mãos. Fome não tinha, porque na vegetação compacta que fazia à beira-mar uma parede verde, sempre havia frutos que ele comia. Mas apetecia-lhe um peixe, principalmente um, nem grande nem pequeno, de escamas douradas, corpo achatado e ondulante, de que gostava muito e era, de resto, a espécie que mais encontrava. Assim uma espécie de pescada mais bonita que as pescadas e mais achatada que elas. Parecia, porém, que todo o peixe acabara, mesmo o peixe-pato. Esses dias foram muitos. Até que um dia, andava ele flutuando sobre as águas e com os olhos vendo para dentro delas, já esquecido até do peixepato, quando sentiu pela barriga roçar-se-lhe uma coisa fofa e macia. Dobrou-se de repente, perdeu a flutuação e mergulhou agitadamente. Logo que voltou acima e flutuou de novo, olhou e viu o peixe-pato muito quieto, um pouco ao lado dele e mais abaixo, a fitá-lo com o olho arregalado e azul, e tendo, na boca que parecia um bico, um daqueles peixes de que ele gostava mais. O peixe-pato, então, aproximou-se das mãos ve da cara dele, largou o outro peixe que estava meio-morto, e afastou-se naquele nadar cambaleante e trôpego que era o seu; mas parou mais adiante, voltado para ele, e olhando-o com o olho arregalado, debruado de vermelho. O homem estendeu a mão e agarrou no peixe que o peixe-pato visivelmente lhe oferecera. E então o peixe-pato veio e roçou-se-lhe suavemente, fofo e macio, na barriga e nas pernas que pendiam um pouco para dentro de água. Quando ele passou perto da sua mão que não segurava o peixe por segurar o espeto, com as costas da mão e o braço o homem fez uma festa ao peixe-pato que logo deu uma meia-volta desajeitada e veio ele mesmo roçar-se-lhe no braço. Assim estiveram muito tempo, o homem divertido a fazer festas, e o peixe-pato, de contente de as receber, sem sequer levantar para ele o olhar arregalado e azul. Depois, o homem veio vindo em direcção à praia e, quando já estava suficientemente perto, pôs-se de pé dentro de água, e esperou. Logo sentiu que o peixe-pato, macio e fofo, começava a roçar-se-lhe nas pernas, dando voltas vagarosas e desajeitadas, passando-lhe por entre elas, e contornando ora uma perna, ora a outra. O homem deixou-se estar e, de quando em vez, mergulhava a cabeça para observar as evoluções do peixe. Levantou então uma perna, e pensou que o peixe, enquanto ele fosse andando para terra, continuaria a querer fazer-lhe festas, como fizera quando ele quase se assustara. Deu um passo e mais outro, e outro ainda. Mas não sentiu que o peixe se roçasse. Procurou vê-lo, e distinguiu que o peixe vinha vindo a seu lado, a uma distância que não lhe incomodasse os passos. Estava o homem já tão perto de casa, que com um gesto brusco, e depois outro, atirou para lá o peixe que trazia e o espeto que era a sua única mobília. E então, abaixando-se e metendo as mãos na água, fez menção de agarrar o peixe-pato. Este, embora sem precipitação, afastou-se um pouco. O homem avançou para ele e tornou a estender as mãos. Dessa vez, o peixe-pato veio, e deixou-se apanhar. Era muito pesado, muito mais pesado do que o homem esperava, e só a muito custo, apesar de ser forte, conseguiu levantá-lo nos braços, como quem pega numa criança ao colo. O peixe ficou assim, fora de água, ao colo, mas não se debateu; antes ronronava, vibrava ligeiramente, e pousava-lhe a cabeça no braço, de olhos fechados, perfeitamente tranquilo e satisfeito. Porém, de repente, começou a arquejar e, como contra-vontade, a debater-se. O homem compreendeu que ele, embora lhe apetecesse, não podia estar tanto tempo fora de água, e sentou-se na areia, dentro de água, batido pela espuma das pequenas ondas que até à praia vinham, mas com os braços mergulhados, por forma a que o peixe-pato ficasse dentro do elemento em que podia respirar. E, com uma das mãos, enquanto o outro braço fazia um ninho ao peixe, afagou-o longamente, cuidadosamente, carinhosamente. Não soube quanto tempo assim estiveram ambos, até que o peixe, desajeitadamente, mostrou vontade de se libertar. O homem largou-o na água, e o peixe, depois de dar ainda umas voltas rente ao tronco dele, roçando-se fofo e macio, foi-se embora.
Daí em diante, raro era o dia em que ele não ia à pesca e o peixe-pato lhe não aparecia trazendo no bico um dos peixes de que ele mais gostava, para oferecer-lhe, e em que depois o peixe-pato se não deixava apanhar para, sentado o homem à beira de água, ficar no seu colo a receber as festas de que vibrava levemente, ronronando de satisfação. Se alguma vez, durante dias, o peixe não aparecia, o homem sentia-se inquieto e aflito, mergulhava em sua busca, ou ficava, pensativo e perscrutador, à beira de água, de olhos fitos no mar, esperando um sinal que o peixe-pato aliás nunca fizera, pois que só aparecia quando ele, flutuando na expectativa, estava suspenso da superfície das águas sobre a transparência azul. E, quando o peixe-pato voltava, trazendo-Ihe na boca o peixe predilecto, era uma festa para os dois: nadavam lado a lado, roçando-se um pelo outro, ascendendo e mergulhando, e invariavelmente acabavam por o homem se sentar na areia, com o peixe-pato nos braços, a fazer-lhe festas, e o peixe-pato a ronronar, vibrando levemente, ou muito quieto, na água, ao lado dele, a fitá-lo com o olho azulado, muito arregalado e debruado de vermelho.

Uma noite, ou antes um anoitecer, estava o homem prestes a dormir, na sua cabana — e nunca mais, desde que o peixe-pato aparecera, ficara ele em noites sem lua a sentir que vinha da treva uma tristeza que o enchia —, sentiu que a cabana lhe desabava em cima. Imediatamente se levantou, e caminhou pela tirinha estreita, entre o mar e a floresta, em direcção ao cabo. E sentou-se, quase deitado, acomodando-se o melhor possível às difusas concavidades da rocha, para esperar com paciência o fim da tempestade. Esta porém, demorou a chegar, com numerosos e alternados prenúncios como rajadas fortes, ora de uma direcção ora de outra, com bátegas de violenta chuva respingando, com suspensões súbitas do ar, durante as quais no silêncio as próprias vagas pareciam hesitar e apenas estrondear numa surdina. No cabo, haviam-se refugiado muito poucos pássaros marinhos que, a certa distância do homem, estavam acachapados na pedra em pequenos grupos, grasnando ou crocitando ou piando, mas como que a medo, num quase chilreio que lhes adoçava as vozes que eram sacudidas, roufenhas, guturais. De quando em quando, sobretudo nos momentos de suspensão do ar, um arrepio percorria os grupos, muito levemente, e só um ou outro dos pássaros, na imobilidade ansiosa em que ficavam, fazia uma frustrada menção de alçar uma asa e debicar sob ela. Quando as rajadas voltavam, um estalo atroava os ares, logo seguido de um ressoar imenso, que era zumbido, estrondo, uivo, tremor de tudo incluindo o cabo. Os pássaros calavam-se, e de uma vez que um relâmpago varou o céu e o mar, sem que nenhum trovão lhe sucedesse, o homem, ao ver os pássaros abaixarem as cabeças, silenciosos, como quem espera um golpe a que não pode fugir, lembrou-se de quanto às vezes desejara conversar com eles e como desde que lhe aparecera o peixe-pato, nunca mais em tal pensara, embora com o peixe-pato não falasse. Foi então que um tinir de relâmpagos cobriu o céu entrecruzando-se em todos os sentidos e um negrume súbito encheu o ar, a floresta, o mar e o cabo, e nos trovões, que reboaram uns por sobre os outros, se distinguiu um silvo que aumentou, se transformou em ronco, em estralejar, num batimento repetido a espaços sobre um som contínuo, e o vendaval e a chuva tombaram verticais. O homem sentiu que um peso informe o esmagava e chicoteava, parecia desmembrá-lo, estripá-lo, dissolvê-lo, e sentia, mais do que via, subirem continuamente contra o cabo imensos panos de água que eram vagas desfeitas, logo abaixadas pelo vento e a chuva desabando. Quanto tempo assim esteve? Agarrado como? Não o saberia dizer, nem pôde nunca pensar, pois que às vezes o vento parecia vir, numa onda de chuva, da própria massa do cabo, e erguer o cabo com ele em cima, ou levantá-lo da pedra a que se ajustava. Dias? Horas? Apenas uns instantes? Não deu sequer por ter acabado a tempestade. Quando abriu os olhos, ou, antes mesmo de os abrir, se mexeu, num vago calor de madrugada clara que lhe penetrava os ossos, todo o seu corpo notava a mudança que houvera.

Pôs-se de pé. Desde o cabo até ao horizonte, a perder de vista, um areal imenso amarelecia a orla serena e azul de um mar ainda sombrio, e a floresta era uma muralha verde muito ao longe, longe do cabo e do mar, mas uma muralha que, reparando melhor através da distância, crescia afinal em altura com enormes abertas, por entre as quais era ainda areia o que se via. O homem ficou olhando: ora o cabo onde nem um pássaro restava, ora o mar por sobre o qual crespas espumas iam e vinham e que rebentava num espraiar chiante em ondas sucessivas no areal, ora outra vez o areal imenso e liso, e amarelado a perder de vista. Vagarosamente desceu do cabo que do lado da praia era muito baixo agora, e pisou a areia, uma areia fina, húmida, varrida, ao rés da qual como que uma brisa levantava areia ainda mais fina, que, seca, a espaços esbranquiçava o amarelado igual da praia imensa. O sol, num céu sem nuvens e de um azul rosado pela madrugada, prolongava a seus pés uma sombra esguia, cujos contornos vibravam na rasteira brisa. E o homem, andados uns passos hesitantes e absortos, parou, ciente de que, em tamanha mudança nem sabia onde era o sítio da cabana em que vivera tanto e que tantas vezes facilmente reconstruíra. Avançou depois obliquamente até à beira da água que vinha, numa espuma límpida em que só fina areia ia suspensa, lamber-lhe friamente os tornozelos. E, olhando o mar que parecia o mesmo e outro, lembrou-se do peixe-pato. Em verdade, sempre se lembrara dele, durante a tempestade; e depois, de olhos fechados, ainda deitado na rocha; e enquanto olhara todas as mudanças, até este momento em que, à beira de água, foi dele exactamente que se recordou numa tristeza funda, tão funda quanto o que tudo mudara. Apesar do frio que começava a sentir, mais da imensidade desolada do areal que do luminoso sol da madrugada calma e pouco a pouco já alta manhã, avançou pelo mar dentro, e nadou vagarosamente, mergulhando atento, e foi percorrendo num sentido e noutro as águas crespas e sombrias, ora flutuando, ora nadando, em busca do seu peixe. Assim andou até o sol estar já mais que a pino, sem que o peixe-pato lhe aparecesse. Voltou à praia, subiu por ela uns passos, e deitou-se na areia a descansar. Sentia-se infinitamente exausto. Talvez mesmo tenha adormecido, de um sono agitado, povoado de olhos arregalados que o fitavam, debruados de vermelho, apaixonadamente, e de que acordava torcendo-se na areia, ao sentir, no ventre, nas ancas e nas pernas, a memória de um perpassar fofo e macio, e nos braços, contra o peito que arquejava, um ronronar vibrando levemente. Levantou-se, entrou pela água dentro, que serenara já numa mais funda transparência que só ao longe espumas perturbavam, lá onde os ventos baixavam contra o mar, e de novo nadou, nadou, nadou e flutuou e mergulhou, à procura do peixe, à espera dele, numa ansiedade inquieta, desesperada. Às vezes, parecia-lhe ver emergir a forma branca e desajeitada, outras vezes sentia nas pernas ou no ventre que ele se lhe roçava macio e fofo. Mergulhava então, de olhos muito abertos, mas não, não via o peixe. Dias e noites, noites e dias, assim viveu, ora exausto na areia, ora cambaleando para o mar, ora nadando e mergulhando, ora arrastando-se pela praia acima, ora deixando-se cair tão perto da ressaca que a espuma o envolvia mansa no seu sono e, como um bálsamo que sem ânsia nem angústia recebia, ela lhe parecia que era o ronronar do peixe, e a ternura dele tão macia e fofa, contra o ventre, as ancas, as costas, o seu corpo todo. Voltava-se então de olhos fechados, e sorvia, pela pele tisnada, ensalitrada e lisa, ou pelas narinas com o cheiro acre da areia fina e ressalgada, e cabeceando lentamente a um lado e outro, sorvia essa presença que o rodeava ideal mas não mais viera ao seu encontro.”Começou então, por esses dias, a percorrer o areal interminavelmente, de vez em quando metendo-se de novo ao mar demoradamente, numa busca desesperada e melancólica. E afastava-se, dia e noite, do cabo que fora o limite da sua estreita tira de areia e era agora numa vaga forma parda entrando pelo mar dentro, ao fundo de uma extensão de areal onde as marcas dos seus passos e dos sítios onde tombara sonhando iam desaparecendo no alisar contínuo em que a ressaca e o vento combinavam o mesmo ciciar constante e continuado, perpassante.

Uma tarde, em que, sentado na areia e distraidamente contemplando o mar, repousava daquele cansaço em que se dividia de procurar nas águas e avançar pelo areal vastíssimo, viu vir, do céu azul em que só nuvens finas e brancas eram poalha dispersa e vaporosa, um ponto negro e outro e outro, e depois mais, que, quando os últimos mal se distinguiam, já os primeiros eram pássaros marinhos, esvoaçando em círculo por cima dele, num silêncio fito de asas que pairavam, apenas cortado por um ou outro pio, um crocitar de bico, um grasnido atento e repousado. Deixou-se cair para trás para os ver melhor. Pareceram-lhe maiores do que eram os que vinham para o cabo, lá onde vivera na cabana construída numa tira estreita, entre a floresta e o mar. Como tudo isso era distante! Via-lhes as patas retraídas, negras, acomodadas nas barrigas brancas, e os pescoços que se curvavam súbitos, quando na volta em que pairavam mais viravam para ele, ao mesmo tempo, o olhar e o bico entreaberto. Depois notou que, estranhamente, não era bem para ele que eles olhavam. De facto, os círculos, que por andares formavam voando acima dele, não era nele que se centravam. Um baque, um estranho baque todo o percorreu e acabou nos pés em formigueiro. Uma tontura enegreceu-lhe o ar. Levantou-se de súbito, ou lhe pareceu de súbito na lentidão de uma fraqueza extrema. E distinguiu, no limite do espraiar da espuma que pausada vinha pela praia acima, e a não muito grande distância de onde estava, uma forma branca enrodilhada, como uma galinha afogada que a maré deixasse. Correu cambaleante, para ela. Um coro de grasnidos roucos, de pios agudos e roufenhos, estrugiu no ar. Mas mal o ouviu, quando já se ajoelhava e nos braços tomava, trémulo e risonho, com lágrimas correndo pela cara abaixo, e um frio suor a perlar-lhe a testa, o peixe-pato. Com os toquinhos de barbatana, que pareciam asas, descaídas, e as barbatanas, que pareciam pés, pendendo moles, o bico entreaberto, e as penas brancas como que encardidas, ricas, o peixe estava de olhos fechados, não esboçou um movimento, não ronronou, nada fez. Quase de um salto o homem atirou-se à água que espadanou e redemoinhou sobre eles, e emergiu e sentou-se como das outras vezes, fazendo festas ao peixe que assim conservava debaixo de água. Embalava-o, apertava-o contra o peito, sacudia-o com fúria, amaciava-lhe as penas ricas, mas o peixe-pato continuava flácido, sem vibração alguma, sem abrir os olhos. O homem agitava-se absorto, às vezes levantando a cabeça para respirar, quando a espuma espraiada, ondulando mais, o soerguia, e logo ele se afundava, roçando a areia sem sentar-se nela. Estiveram assim por largo tempo, sem que o homem ouvisse o crocitar que em largas voltas se repetia sobre a sua cabeça, nem ver que os círculos eram mais baixos sempre, um pouco descaídos sobre a praia atrás. Nisto, um tremor percorreu o peixe-pato. E outro tremor mais lento, como de um ser que num esforço imenso emerge de ancorado em torvas e abissais profundidades. E devagar, como quem levanta um rochedo áspero e duro, igual ao cabo que ao longe nem já se distinguia, o peixe abriu os olhos, ou antes o olho mais voltado para o homem, e fitou-o azuladamente, arregaladamente, debruadamente de vermelho, numa ternura terrífica, demorada, concentrada, grata. O homem soltou um uivo que era um grasnido rouco e um ranger de dentes. O peixe estremeceu, inteiriçou-se, amoleceu ainda, fechou os olhos, e ficou teso de patas, de asas e de bico, e as penas ricas e encardidas, sem brilho e sem macieza, mais sombrias e turvas, ao colo do homem que então ouviu a ressaca suave à sua volta, os pássaros piando, e até um sussurrar de areia pela praia fora. Apenas foi um instante. A cabeça descaiu-lhe para o peito e uma ondulação da espuma levantou-o, teve-o hesitante entre o recuar e o avanço, e os cabelos ao lado da cabeça subiram e desceram dentro de água. Depois, o homem pareceu querer levantar-se, tenteou como que um meneio do corpo, e foi seguindo numa deriva lenta, um pouco estranhamente adversa ao que eram na aparência os movimentos da água. Segurava ainda nos braços o peixe-pato, cujas penas agora se desenriçavam num flutuar tranquilo, readquirindo brilho e macieza até. A pouco e pouco, porém, o peixe-pato despegou-se e foi derivando também, mas num percurso diverso. Contra a verdura enrubescida de um poente puro, as aves eram negras, silenciosas, pairavam paralelas, muito baixas, e algumas, poucas, vieram pousar na praia, seguindo atentamente, num leve balancear dos seus pescoços, as derivas hesitantes que flutuavam pelo mar tão transparente e azul que os vultos se tingiam de laivos irisados. Os vultos afastavam-se, incertos, um do outro, e ora parecia que a corrente os levava para o alto, ora que o ondular largo da ressaca tranquila acabaria por depô-los no areal.

Assim anoiteceu. Quando um vago claror começou a alastrar pelo céu, dando ao mar um tom cinzento, em que havia um crespo perpassar de um frio que nem era aragem, uma pequena massa clara e outra mais longa e mais escura estavam na praia, à beira da água que, rente à palidez nevoenta do areal, era um negrume ondeante, apenas debruado da brancura que só de quando em quando por eles roçava. Do mar, ou do interior da praia, ou mesmo da beira de água, mal deveriam ver-se. Mas logo assim os viram, distantes um do outro, os pássaros que surgiram do fundo do horizonte esbranquiçado que amarelecia já ao rés-do-mar. Um ponto negro e outro e outro, e depois mais, de modo que eram pássaros enormes e silenciosos, esvoaçando em círculo os primeiros, quando os últimos mal se destacavam, ponto a ponto, na distância. Poucos pousaram no areal, e crocitaram ligeiramente, fitando atentamente os vultos, com a cabeça de esguelha. Os outros continuaram voejando silenciosos, em círculos sobrepostos, observando o homem que, de costas, com os braços num vago jeito de abraçar e as pernas afastadas, parecia fitá-los de olhos muito abertos, e o peixe-pato, mais longe, estendido e rebrilhante. Foi então que um desses caiu como uma pedra e picou um dos olhos do homem e subiu outra vez, e logo outro caiu, também como uma pedra, e lhe picou o outro olho e ascendeu. Dois pássaros, dos pousados no areal, abriram asas, adejaram-nas, levantaram vôo. Um deles, que se afastara rasando as águas, voltou direito ao peixe-pato e cravou-lhe o bico na base do pescoço, enquanto o outro se elevava quase vertical e, de repente, descendo em hélice, com o bico aberto, traçou de um golpe o sexo do homem. Quando um grupo de pássaros descia, cruzando-se com esse que subia, os que continuavam a pairar em círculo piaram e abateram-se também; mas todos, o que subia e os que em duas vagas se abatiam, ficaram afinal pairando em massa, uma massa que grasnava e se entrechocava suspensa no ar, a muito pequena distância do homem e do peixe. A manhã clareava, um lóbulo vermelho ergueu-se do mar e logo alastrou pela linha do horizonte a um lado e outro. Num estralejar de asas e grasnidos, os pássaros subiram quase verticais, pairaram agrupados num larguíssimo círculo. Do pescoço do pato, das órbitas do homem e da crespa negridão onde estivera radicado o sexo, e os testículos ainda pendiam meio traçados pelo mesmo golpe, escorria uma serosidade diminuta, vagamente ensanguentada, de que apenas uns filetes diluídos se alongavam, se possível era, na espuma terminal que até aos corpos vinha, e se atrasariam nela quando se afastava. Em sucessivas hélices os pássaros tombaram.

1959.

 

In: Antigas e Novas Andanças do Demónio

(As informações aqui reproduzidas como introdução encontram-se nas “Notas” finais ao livro.)