Paraíso Perdido

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Primeiro conto do jovem Sena, de 17/18 anos, demonstrando tal força e concisão que já traz em si o germe da grande obra que virá…

 

 

Adão sentia-se satisfeito. Não entrava com ele o mais pequeno cansaço. O Paraíso em eterna primavera oferecia-lhe a vida nos seus frutos loiros, na sua floresta virgem, na água límpida que agora lhe corria aos pés. O céu muito azul, sempre sereno, olhava-o com benevolência; e até o Sol o acordava carinhosamente de manhã quando se levantava detrás da montanha do Éden, transformando o Paraíso numa roseira de luz – O Sol tão lindo! Que ele adoraria se não soubesse que Jeová o vigiava a cada instante. Tudo o que pedira lhe fora dado: o pensamento, a fala e Eva.

Ali estava a sua companheira – bem sua, não era uma daquelas coisas duras que tinha dentro dele?

Devia ser meio-dia. Deitados à sombra duma árvore descansavam das brincadeiras da manhã: correr, jogar às escondidas e pôr pedrinhas no regato para o desviar.

Caído o silêncio no jardim divino Adão adormeceu. Vendo-o a dormir, Eva levantou-se pé ante pé – não fosse Jeová ouvi-la –, atravessou o ribeirinho e encaminhou-se para o interior da floresta; as folhas secas estalavam alegremente sob os seus pés.

Chegou junto duma árvore pequena mas tão atraente, tão linda, tão proibida…

Lembrava-se daquele dia em que Jeová, pegando na mão dela e na de Adão, os levara diante da árvore e tendo reunido também os animais, dissera a todos:
– Esta árvore chama-se do Bem e do Mal. Só pode saber o que são o Bem e o Mal quem comer daqueles frutos. Ai de quem o fizer! Persegui-lo-ei p’ra fora do Paraíso! Vós não imaginais o que vai por fora disto! Quem para lá for há-de amargar o doce desta fruta!

Os animais e Adão bem depressa se tinham esquecido da árvore proibida, mas ela que nunca reparara dantes passava horas esquecidas a mirá-la.

A que saberia a fruta? O que seria o Bem e o Mal? E se tirasse um pomo? E se Deus via? Expulsava do Paraíso. Ora! O Paraíso era tão aborrecido, todos os dias o mesmo: brincar com a água, com pedrinhas, com os animais, brincadeiras onde de dia para dia não aparecia novidade.

Naquele momento hesitou ainda. Por fim chegou-se à árvore e estendeu o braço. Tornou a deixá-lo cair – E se Deus vê? Agora não vê – e tirou um fruto.

Contemplou-o longamente – tão redondinho, tão dourado! Cheirou-o! Que perfume! E era do Bem e do Mal!

Um estalido se ouviu na floresta. Eva deixou cair o proibido, abaixou-se, tapou-o com folhas secas e esperou com o ruído do peito a bater mais depressa.
Não veio nada. Talvez um galho. Apanhou o fruto e rapidamente deu-lhe uma dentada, e outra e outra e outra.

Começou então a sentir-se mais leve, mais alta, mais diferente. Um arrepio quente passou-lhe a pele. Gemendo de alegria estranha, apeteceu-lhe rebolar-se no chão.
Pensou no companheiro. Vou-lhe dar um para ver como é bom! Arrancou-o e voltou correndo para junto de Adão.

Sacudiu-o e contou-lhe tudo; mostrava-lhe o fruto e ria-se sem saber o que tinha. Abraçava-o, chegava a boca à dele.
– Ó Eva! O que foste fazer! E agora?

Ela esfregava-se contra ele, enlouquecida de desejo novo.

– Que é que tu tens? Deixa-me!

Uma boca quente e húmida abafou-lhe as palavras. Repeliu-a.

Ela agarrou-se e meteu-lhe o fruto proibido na boca. – Come, Adão! P’ra sentires o que eu sinto…

Ele trincou uma, duas vezes e logo lhe pareceu ter acordado em si mesmo. Um calor fulgurante percorreu-o todo e inconscientemente enlaçou-a. Ofegantes no novo mistério torceram-se e rebolaram nas folhas amarelecidas.

Uma serpente que se aquecia ao Sol viu tudo. A nova correu todo o Paraíso e os animais do céu e da terra assaltaram a árvore.
– Adão e Eva comeram e são felizes! gritavam uns aos outros.

Um elefante derrubou-a e por cima, por baixo, por todos os lados, sugaram-na, rasgaram-na, despedaçaram-na.

Os peixes do rio e do mar suplicavam um pedacinho. O leão atirou-lhes um ramo e a disputa estendeu-se às águas.

Devorada a árvore do Bem e do Mal todos fizeram como Adão e Eva e um ruído imenso levantando-se do Paraíso chegou ao céu.

Jeová, rodeado duma multidão de anjos, espreitou do alto e viu aquela bacanal fantástica enchendo a sua obra. Ficou boquiaberto e voltado a si gritou.
– Vamos castigar aquilo tudo! e voltou-se para os anjos.

Só meia dúzia de velhos anjos lhe restavam e lá muito ao longe viu asas brancas que irresistivelmente atraídas voavam para o Éden.
Era de mais! Passava além do Paraíso!

– Fóra! e o seu brado fez tremer a terra inteira.

E como um furacão, cabelos arrepiados na corrida, auréola tombada sobre uma das orelhas, barba desgrenhada, olhos gritando fogo, túnica a esvoaçar, Jeová desceu ao Paraíso.
– Fóra! Fóra! Fóra já!

A criação entreolhava-se envergonhada. Os anjos pecadores fitavam o chão e sentiam um peso enorme nas asas agora manchadas.

O ente supremo atacou primeiro os seus antigos companheiros:
– Ó anjos miseráveis que eu criei! Ó vis! A vossa culpa é maior! e calou-se por momentos embebido em cólera. Depois estrondeou de novo: Todos p’ro inferno! Ide p’ra diabos! Desapareçam! Infames! e num arranco de superioridade: Algum se atreve a olhar p’ra mim!? Dentre eles uns olhos verdes se levantaram insolentes: – Eu!
– Tu, Lúcifer! berrou Jeová no auge do furor. Pois ficas Satanás! Ficas chefe do grupo! Vai p’ro inferno!

Lúcifer começou lentamente a mergulhar no solo. Os outros anjos ficaram imóveis.
– Que é que esperam?! Já atrás dele! Sumam-se da minha vista!

Os daí por diante ex-anjos desapareceram cabisbaixos pela terra dentro.

Arrumados os imortais Jeová voltou o rosto trémulo de ameaças para os mortais.

Adão que conservava na mão um bocadinho de fruto proibido levou-a maquinalmente à boca.

– Patife! Diante de mim! Fóra! Fóra tudo! Esperem no mundo que escolheram a minha condenação! Saiam!

O primeiro homem atemorizado engasgou-se para todo o sempre.

Os animais começaram lentamente a desfilar diante de Deus em direcção à porta que os anjos fiéis tinham aberto na muralha do Éden.

Então resoluta e medrosa, linda como nunca, o peito arfando, o cabelo desgrenhado docemente pela volúpia, tapando o corpo com um braçado de folhas de parra, Eva procurou o mais terno sorriso que lhe ensinara a árvore do Bem e do Mal e disse gorjeando as palavras, ébria ainda:
– Não sejas muito severo, meu Senhor!

Jeová sentiu dentro dele uma sensação melodiosa, espantou-se de não ter gritado e disse de si para si enquanto a via afastar-se ao lado de Adão no meio da turbamulta:
– Esta Eva!

Foi por isso que anos mais tarde Deus se fez homem e habitou entre nós. Mas o Mundo era mais sabido – tinha comido a árvore do Bem e do Mal – e Deus que a guardara sem lhe tocar e a quem não restara nem uma folhinha seca tinha ficado bondoso para sempre – era de esperar que fosse enganado.

7/9/37
revisto – 15 e 16/4/38

 

* In: Génesis (2a.ed. Lisboa: Edições 70, 1986). Sobre o conto, leia “Génesis: o Jogo dos Textos”, de Cleonice Berardinelli, texto que inaugura nossa seção de estudos “JS lido na UFRJ”