De F.S.S

Disponibilizamos abaixo a entrevista radiofônica ao organizador do volume de Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões, no programa “À volta dos livros“, transmitido dia 28 de junho de 2013. Complementando a entrevista, um depoimento mais pessoal sobre o convívio de F.F.S. com Jorge, Mécia e com suas obras literárias. 

 

 

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Eu estou profundamente grato à Mécia por ter confiado em mim, por me ter dado essa oportunidade extraordinária de editar uma fração tão importante do espólio seniano.

O meu interesse pela obra do Jorge começou por alguma identificação temperamental com ele. Foi o primeiro poeta que me marcou no Liceu, tinha eu uns 15 anos e me puseram seus livros nas mãos. Até hoje eu sei de memória alguns poemas e traduções dos XX Séculos… Mais tarde, professor universitário de Cultura Portuguesa, escolhi e propiciei aos meus alunos poemas senianos com o entusiasmo que se adivinha. Admirei o crítico lúcido do regime saído de 1974, algo que era quase um tabu em Portugal, mas que tinha, infelizmente, precedentes históricos recorrentes, não fosse outro grande lúcido, Fialho de Almeida, ter escrito no rescaldo da revolução republicana: “hemos de convir que afinal o começo deste regime novo cheira diabolicamente ao fim do velho”… Frase que bem poderia ser do Jorge – foi rara a visão, rara a coragem, rara a independência de espírito que ele demonstrou face aos poderes novos, velhos e de sempre.

E a Mécia revelou-se uma personalidade ao nível da do marido – se é que o caso Mécia de Sena não é mesmo mais admirável que o do Jorge. Eu aprendi muito com as edições dela, que considero a Grande Senhora da epistolografia portuguesa e que é autora de cartas admiráveis de humanidade – e até de alguma parte da obra epistolar (e não só…?) que passa por ser do Jorge. Juntos marcaram dois dos meus começos: ele, as primícias da minha vida poética – e ainda hoje a minha poesia me sai bastante à la Jorge de Sena –; ela, os honrosos inícios da editorial. E me comove que a Mécia sempre faça questão de mencionar que se lembra de mim desde os meus 8 anos de idade…
Apesar dos condicionantes que se lhes reconhecem e das dificuldades pelas quais passaram, os dois se ergueram à altura de modelos para qualquer tempo, em qualquer latitude, um Casal à dimensão dessa Obra diferente e necessária, agentes de um tempo novo, de uma possível mentalidade pós-burguesa que afinal não vingou – pois que é uma herança renegada nos tempos atuais de conformismo e de hipocrisia, de moralismo e mesquinhez.

A ambos o meu “Muito Obrigado” e o “Sempre ao Vosso Dispor”.

 

F. S. S.