De Jorge Vaz de Carvalho

 

Jorge Vaz de Carvalho é Professor e Coordenador Científico da área de Estudos Artísticos da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica de Lisboa. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa, Mestre em Literaturas Comparadas pela Universidade Nova de Lisboa e Doutorado em Estudos de Cultura pela Universidade Católica de Lisboa, com a tese Jorge de Sena – Sinais de Fogo como romance de formação (ed. Assírio & Alvim, 2010)

Além do ensaísmo, dedica-se à poesia (A Lenta Rendição da Luz, Relógio d’Água, 1992), ao conto e à tradução (Ciência Nova de Giambattista Vico, Fundação Calouste Gulbenkian, Prémio de Tradução Científica e Técnica FCT/União Latina 2006; Canções de Inocência e de Experiência de William Blake, Assírio & Alvim, 2009; Vida Nova de Dante Alighieri, Relógio d’Água, 2010). Exerce ainda constante actividade de articulista e de conferencista, em Portugal e no exterior.

Barítono de carreira internacional, na sua dedicação à música foi Diretor da Orquestra Nacional do Porto e do Instituto das Artes.

 

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De João Bénard da Costa

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João Bénard da Costa (1935-2009), intelectual de várias facetas, das quais a paixão pelo cinema talvez seja a preponderante, manteve sólida relação de amizade com Jorge de Sena, como bem revela o testemunho ora transcrito de uma seção “Retratos” do Público Magazine.
Os estudiosos de Jorge de Sena devem-lhe, além do aí mencionado número especial da revista O Tempo e o Modo, o cuidado volume Sobre Cinema, publicado em 1988 sob os auspícios da Cinemateca Portuguesa, quando Bénard da Costa lá exercia o cargo de subdiretor.

 

1. Conheci Jorge de Sena em 1958 quando o jornal Encontro publicou aquele Soneto que começa: “Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo/ mesmo no mal que consentis que eu faça”. Pio XII, Papa, tinha morrido e o soneto era dedicado à memória dele “que quis ouvir, moribundo, o ‘Allegretto’ da Sétima Sinfonia de Beethoven”. Era o primeiro Papa que morria na minha vida consciente e nessa altura — não sabendo o que soube depois — era mesmo o Pastor Angelicus. Comoveu-me que Jorge de Sena, não-católico — ou melhor, como um dia escreveu, um católico que não era nem podia ser católico, apostólico, romano, mas sim e apenas católico porque não era convictamente cristão — juntasse as lagunas dele às nossas e as juntasse nesses versos sublimes.

Essa razão obscura e a clara e luminosa beleza do soneto levaram-me a ler a obra poética anterior de Sena: “Perseguição”, “Coroa da Terra”, “Pedra Filosofal”, “As Evidências”. Li também “Fidelidade” que a Morais publicou em 1958 e que acaba com o “Como de Vós”. Entre 1958 e 1959, descobri o maior poeta português depois de Pessoa. Mais de trinta anos passados, continuo o pensar o mesmo. Embora saiba que esta afirmação continua a ser evidente e não era aceite por Sena que considerava Pessoa e Sá-Carneiro como o seu Sá de Miranda e o seu Bernardim.

“As Evidências” é o livro maior que se publicou em língua portuguesa neste segunda metade do século. Com a eventual excepção de “Metamorfoses”. E o mais belo soneto da nossa história é o soneto XXI de “As Evidências”, escrito a 16 de Abril de 1954. “Perdem-se as letras. Noite, meu amor,/ ó minha vida, eu nunca disse nada./ Por nós, por ti, por mim, falou a dor./ E a dor é evidente — libertada”.

2. Conheci Jorge de Sena em 1959, em casa do António Alçada, numa dessas reuniões clandestinas em que sonhámos fazer a Revolução de 11 de Março. Discutia-se acaloradamente se o primeiro “decreto” a sair era o que acabava com a Pide ou o que acabava com a Censura Jorge de Sena interrompeu com outra prioridade. O primeiro decreto devia era acabar com a Universidade de Coimbra Todos nos rimos muito, mas ele não estava a brincar. Por mim, demorei muitos anos até o perceber.

Também não estava a brincar quando, numa brincadeira de lugares futuros, pediu o de Embaixador em Londres. Para não ter que ficar cá. Muito mais tarde, disse: “Porque o problema não é salvar Portugal, mas salvar-mo-nos de Portugal”. Ele não se salvou.

3. Em Agosto de 1959, aos 39 anos, Jorge de Sena saiu de Portugal e foi viver para o Brasil. Em 1963, escrevi-lhe a convidá-lo a colaborar em “O Tempo e o Modo”.

Foi o começo de uma correspondência regularmente mantida ao longo de sete anos. Para além da espantosa colaboração de Jorge de Sena n'”O Tempo e o Modo”, devo-lhe várias dezenas de cartas (páginas enormes, 40 linhas, escritas a máquina) em que por tudo se interessava, por tudo perguntava. “É que nunca ninguém que me respeite apelou para mim em vão. Às vezes, nem os que não me respeitam”.

4. Em Outubro de 1965, aos 45 anos, Jorge de Sena deixou o Brasil e fixou-se em Madison, Wisconsin, USA.

Em 1968, voltou a Portugal, após uma ausência de cerca de nove anos. Quando ele chegou, estava eu na América e tinha incluído Wisconsin no meu itinerário, de propósito para o visitar.

Foi em Dezembro de 1968, havia neve e um frio bom. Jorge de Sena não estava mas estavam Mécia de Sena e os nove filhos que tinham tido. Pessoalmente, não conhecia ninguém, mas fui recebido como se se tratasse de alguém da família. Naquela casa cabia muita gente e jantares de 10 e 15 pessoas pareciam fazer parte do quotidiano. Foi lá que conheci Adolfo Casais Monteiro. Salvo erro, foi ele quem levou um dia, como presente, o “Dido e Eneias” de Purcell, na gravação EMI dos Mermaid de Geraint Jones, com a Flagstad e a Schwarzkopf. Desde essa noite, o “Remember” é, para mim, um sinal de união indissolúvel com eles. Revivi isso tudo há poucos anos — já depois da morte de Jorge de Sena — quando, pela primeira vez, vi a ópera, em Paris, com Jessye Norman no papel de Dido.

“Diz-me assim devagar coisa nenhuma/ o que à morte se diria, se ela ouvisse,/ ou se diria aos mortos se voltassem.”

5. Voltei no Natal de 68, ainda Jorge de Sena estava em Lisboa. Lembro-me de um almoço na Gôndola com o Vasco Pulido Valente. E lembro-me da sala cheia da Sociedade Nacional de Belas Artes para uma conferência que ele lá foi fazer. Já tinha saído o número especial de “O
Tempo e o Modo” (Abril de 68) em que se dizia na cinta que seria disputado no futuro a peso de ouro. Foi durante a conferência que reparei que Jorge de Sena não se sentia à vontade, com aquela reviravolta de imagem face àquele ambiente delirantemente consagratório que eu concelebrara. Essa conferência, sobre Portugal na América ou Portugal no mundo, já não me lembro bem, parecia ser feita de propósito para contrariar os meus “clichés”.
Grande parte dos ouvintes eram jovens e —1968—contestatários. No final, reagiram com apupos e provocações ao jeito do tempo. A festa pareceu-me estragada e saí dali com uma enorme incomodidade. Jorge de Sena, não. Olhou-me a rir, nada zangado e perguntou-me se eu continuava a achar que as coisas tinham mudado. “Daqui a vinte anos” — disse-me ele — “vão ser iguais aos outros ou piores”. Era tão estúpido que não o tomei muito à letra. Não foi preciso esperar tanto tempo.

6. De longe em longe, voltei a vê-lo nos anos 70, quando cá vinha, antes e depois do 25 de Abril. Depois, a notícia da doença. Depois, mais nada.

Lembro-me de ter ouvido alguém contar que pouco antes de morrer perguntou à Mulher: “Ainda falta muito?”. Treze anos antes, em 1965, escreveu-me no dia da morte de Eliot. E dizia: “Você, que é jovem, não sabe ainda o que isto é de ter-se mais de quarenta anos e começar a ver sumirem-se aqueles que foram as luzes vivas da nossa juventude”. Quando Jorge de Sena morreu, eu tinha mais de quarenta anos. Tinha quase a idade que Jorge Sena tinha quando Eliot morreu. (E Deus) “Não nos aguarda — a mim, a ti, a quem amaste/ não nos aguarda, não. Por cada morte/ a que nos entregamos el’ se vê roubado,/ roído pelos ratos do demónio/ o homem natural que aceita a morte/ a natureza que de morte é feita”.

Para trás, ficaram seis instantâneos em forma de retrato. Mas como fazer de outra maneira? Quando preparei o tal número especial de 1968, pedi um retrato a Jorge de Sena. E ele respondeu-me (da América): “Fui tirá-lo de propósito, porque já estou farto dos velhos retratos de sempre. O pior é que, nesta América, ou se vai a um fotógrafo de arte, que custa uma fortuna, ou a gente fica com cara de director de banco”.

Não sendo fotógrafo de arte (nem por uma fortuna) estes instantâneos foram a forma que encontrei de não ficarmos — nem ele nem eu — com cara de director de banco.

 

De Gastão Cruz

 

Gastão Cruz é algarvio de Faro, nascido em 1941. Além de poeta, com cerca de 20 livros publicados ao longo de 50 anos, dedica-se à crítica literária e à tradução.

Participou de Poesia 61, ao lado de Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge e Maria Teresa Horta.

O reconhecimento de sua poesia manifesta-se em vários prêmios recebidos, a saber: em 1985, com o livro O Pianista, o “Prêmio de Poesia do PEN Clube”; em 2001, com Crateras, o “Prêmio D. Dinis”, da Fundação da Casa de Mateus; em 2002, com Rua de Portugal, o “Grande Prêmio de Poesia” da Associação Portuguesa de Escritores; em 2009, com Moeda do tempo, o “Prêmio Literário Correntes d’Escritas”.

Como ensaísta, seus livros A Poesia Portuguesa Hoje (1973, ed. rev. e aumentada em 1999) e A Vida da Poesia (2008) são incontornáveis para quem se dedique ao estudo da poesia portuguesa contemporânea. É ainda da maior importância sua atuação à frente da revista de poesia Relâmpago, editada pela Fundação Luís Miguel Nava.

De Maria Alzira Seixo

 

Neste depoimento, Maria Alzira Seixo evoca em traços largos a pluralidade da obra de Jorge de Sena e detém-se mais alongadamente num título pouco lembrado — as Líricas Portuguesas, 3a. série — enfatizando a importância, originalidade e atualidade dessa antologia, que resgata como um marco no panorama da crítica sobre poesia em Portugal, já desde sua primeira edição em 1958.

Do "Tio" Rui

Na semana em que assinalamos a partida de Jorge de Sena de Portugal e sua chegada ao Brasil, 52 anos atrás, consideramos oportuno um depoimento de alguém muito próximo, familiar em todos os sentidos, que em Lisboa sempre ficou à espera de seu(s) regresso(s). Seu cunhado Rui de Freitas Lopes (militar reformado, mas carinhosamente chamado “Tio Rui” pelos mais jovens a quem abre a casa dos Senas no Restelo) com toda simpatia e gentileza atendeu a nossa solicitação.

 

De Changuito

 

Em Lisboa, entre o Príncipe Real e a Praça das Flores, situava-se a única livraria totalmente dedicada à poesia em Portugal, sob o nome de Poesia Incompleta, o que, nas palavras de Vasco Graça Moura, “envolve um princípio de paradoxo: nunca encontrei livraria mais completa para a poesia do que esta Poesia Incompleta… Dispõe de um catálogo impressionante de livros de poesia, não apenas em português, cobrindo praticamente todas as épocas, desde os primórdios da literatura até anteontem (só porque os livros que terão saído ontem ainda não foram distribuídos…). Tem à frente um jovem livreiro que profissionalmente conhece tudo: sabe dos autores, sabe das edições, sabe das antologias, sabe das revistas, aborda as matérias com a necessária precisão e um quam satis de ironia.” (Diário de Notícias, 4.8.2010).

Pois este jovem livreiro é Mário Guerra, que gosta de ser tratado de Changuito, e, segundo Isabel Coutinho, “aprendeu a gostar de poesia com a avó e também com a mãe, a actriz Maria do Céu Guerra. […] Há muitos anos a explorar o bar do Teatro da Barraca, onde organiza a animação cultural, teve também um bar na Bica, em Lisboa, onde também vendia livros. Aos 34 anos, perdeu a paciência e farto de ir a livrarias onde lhe diziam “esse livro está esgotado” ou “esse livro não existe”, resolveu passar de leitor a vendedor de livros.” (Público, 25.11.2008). E como sui-generis vendedor de livros, Changuito é também “o seu sócio principal, patrão, empregado, moço de fretes e fumador com estilo”… (blog Tantas Páginas, 21.1.2012). E assim, ao arrepio do habitual, este one-man-bookstore que gosta de partilhar saberes vai fazendo da sua livraria “um lugar de culto” entre os amantes do texto poético.

Changuito esteve há pouco no Rio de Janeiro e nos deu seu testemunho sobre o poeta que aqui nos interessa mais. Como se verá, palavras bem propícias ao “Dia Nacional da Poesia”, que neste 14 de março o Brasil celebra.

De Antonio Candido

Marcando o início, no Brasil, das atividades acadêmicas de 2011, aqui trazemos uma “aula magna” do mestre-maior Antonio Candido, Professor Emérito da USP e da UNESP, Doutor Honoris Causa da Unicamp, “Prêmio Camões” de 1998.

Graças à sua generosa autorização, reproduzimos em video parte da palestra proferida no dia 01 de setembro de 1998, em Araraquara, na abertura do Congresso Internacional “Sinais de Jorge de Sena” — exatamente os momentos dedicados à evocação do colega e amigo com quem conviveu diariamente em Assis e que depois reencontrou em outros espaços. Inclusive na mesma Araraquara, participando do júri que em 1964 conferiu ao poeta o título de Doutor e Livre-Docente, summa cum laude.

Como se poderá confirmar neste testemunho, era grande o apreço do ensaísta brasileiro pelo escritor português. E, atestando que era absolutamente verdadeira a recíproca, lembremos que os dois se tornaram “compadres” quando o casal Sena convidou o casal Mello e Souza a batizar a filha Maria José; que foi a Antonio Candido que Sena ofertou o manuscrito original de sua novela O Físico Prodigioso; e que Sena, num gesto raro em sua bibliografia, dedicou a Antonio Candido seu livro Uma Canção de Camões — dedicatória concluída com as seguintes palavras: “rara excepção é Você, no que representa das mais puras virtudes humanas e das mais profundas virtudes do Brasil”.

 

 

Buscando pistas de Jorge de Sena em São José do Rio Preto

Enquanto professor na cidade de Araraquara, Jorge de Sena colaborou com a jovem FAFI- Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto, nos anos letivos de 1963 e 1964. Alguns dos espaços da cidade que Jorge de Sena palmilhou ainda existem e aqui os rastreamos. 

 

Estação ferroviária de São José do Rio Preto, utilizada por Jorge de Sena para embarque/desembarque quando se deslocava à cidade para ministrar suas aulas na FAFI. 

 

 Hotéis onde muito provavelmente Jorge de Sena se hospedava quando ia a São José do Rio Preto ministrar suas aulas

 

 Instalações da FAFI-Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto a partir de 1960 (hoje ocupadas pela Secretaria Municipal de Educação),
onde Jorge de Sena lecionou.

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 E será que Jorge de Sena conseguiu tempo para alguma compra no Mercado Municipal de São José do Rio Preto?

 

 Jorge de Sena não chegou a conhecer o IBILCE – Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, da UNESP (prédio adquirido em 1970), mas nele a sua obra vem sendo estudada nas disciplinas de Literatura Portuguesa. 

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De Mécia de Sena, em ‘Flashes’

Em 16 de março de 2015, Mécia de Sena completa 95 anos. Quando se cumpria um ano sobre a morte de seu marido, como forma de catarse para a dor sem remédio de perdê-lo, inicia a escrita de um originalíssimo diário, sob o bem escolhido título de Flashes. Nele evoca momentos de sua convivência com Jorge, elegendo-o constantemente como interlocutor privilegiado, como se também de um diálogo se tratasse. Desse work in progress, que deve andar à volta das 600 páginas, selecionamos alguns excertos já editados*, não só para aqui trazer olhar tão particular e próximo sobre o nosso autor, e tudo aquilo que o rodeava, mas também para homenagear, em data tão significativa, a mulher prodigiosa, de inegáveis qualidades na escrita.   

 

Mécia de Sena em Santa Barbara, 1993 (foto de Gilda Santos)
Mécia de Sena em Santa Barbara, 1993 (foto de Gilda Santos)

 

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Penso que foi na última vez que estive em Lisboa antes de ter mudado para lá, com vista a casar-me. Estava no Areeiro, como de costume. Iria embora no dia seguinte.

Despedimo-nos longamente, no patamar da escada. O Jorge começou a descer o lanço, que terminava noutro patamar, antes do lanço seguinte. Quando me debrucei para o acompanhar com a vista, a minha travessa caiu do cabelo, tlic-tlic-tlic, pela escada abaixo. Pensei, um pouco aflita: «Vai pensar que fiz de propósito» O Jorge estacara, olhou para mim fixamente. Tenho a certeza de que pensava: «Foi de propósito?» Baixou-se, apanhou a travessa, subiu a escada… e despedimo-nos de novo, longamente!

 

***

Uma das qualidades que eu mais apreciava no Jorge era a sua capacidade de admirar: um verso, uma paisagem, um torneado, uma luz, um rosto ou um corpo, uma passagem musical, um doce, uma palavra em qualquer língua… tudo podia ser «belo» ou «tinha» ou «era» de «uma beleza» «extraordinária» ou «rara» ou mesmo só «alguma».

Impossível exemplificar… para a admiração justificada tinhas uma disponibilidade total.

 

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Muitas vezes, a partir de um verso, de um nome, de uma obra, o Jorge se esquecia do tempo falando e lendo os mais variados poemas que me ia traduzindo, se em língua que eu não dominava. Não tenho memória de que alguma vez incluísse leitura de poemas seus, ou que deles me tivesse feito sessão especial, para lá de mos ler após escritos, ou num especial a-propósito.

Comentava isso ontem com o Jack Schmidt – era sempre da poesia dos outros que falavas, era sempre a poesia dos outros que fazias estimar, com que criavas o gosto de lê-la. E, pelo contrário, sempre te vi relutante em ler o que fosse teu, mesmo a insistente pedido.

Uma vez te perguntei a razão de tantos rodeios e explicações quando acedias à leitura (visto que nada teu jamais soubeste de cor) – era como despir em público, me respondeste.

Era bem tua essa espécie de pudor de tudo quanto é íntimo, daquilo de que se pode escrever mas se não pode falar.

 

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Naquele dia o Casais Monteiro chegara ao café espumante em fúria. O Carlos Passos, do Porto, conhecido pela sua azeda e rebuscada prosa, atacara-o num jornal. Mas não era o ataque que o enfurecia, dizia o Casais, mas tê-lo feito ir ao dicionário ver uma palavra que lhe chamava e ele não sabia o que significava: «enxovedo».

 

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 António Pedro… Tinha um minúsculo carro de sport. Contava que um dia quesilara na estrada. O outro automobilista saira do carro com ar de pedir meças. Mas quando ele começara a avultar para fora do carro o outro exclamara: «assim não vale» é, à gargalhada, ambos haviam voltado aos seus respectivos carros e seguido os seus caminhos.

 

***

Manuela Porto acedera por amizade para com o Jorge a dizer poemas do Fernando Pessoa na conferência que ele faria no Ateneu Comercial do Porto, em 12 de Dezembro de 1946. Foi um éxito. Estou a ouvi-la: «Onda-que-enrola-da-tor-nas…

 

***

 Houvera uma esparsa correspondência antes. Um dia o Padre Manuel Antunes anunciou que estava em Lisboa. Combinou-se que viria a nossa casa, no Restelo, pelas 11 da manhã. O Jorge estava um pouco nervoso – sabia quem enfrentava e não lhe seria fácil.

O Padre Antunes chegou: débil, tímido, falas mansas e claras, bem articuladas. Houve um tempo de dificuldade. Pela uma hora perguntei-lhe se queria almoçar conosco. Almoçou, debicando o que havia e podia comer dentro de sua rigorosa e frugal dieta. Tomou chá pela tarde. Jantou. Pelas onze da noite perguntou se não poderia retirar-se para outro compartimento para meditar as vésperas…

Saiu tarde, discretamente, sorridente.

Ficamos amigos para sempre – baptizou-nos três filhos; velou-te quando foste operado. Foi nosso hóspede, em Santa Bárbara.

Mandou-me um telegrama: «Surpresa dolorosa sentimento fraterno.»

 

***

Leio num diário teu: «Escrevi, até as 4 da manhã, um conto: ‘Super Flumina…’ que não esperava.» Ficaras «escrevendo pela noite adiante», tal como o terminas.

Que aconteceu depois quando te deitaste? Adormeceste com o livro aberto sobre o peito e eu to fechei, tirei-te os óculos e antes de apagar a luz te ouvi um «obrigado» pouco mais que ciciado? Ou não adormeceste e nos possuímos como se tivéssemos acabado de sofrer todas as dores do mundo?

Ou apenas ajustamos os nossos corpos em ansiosa ternura, numa oferta de repouso mútuo?

 

***

Uma noite em que o Jorge não se deitara comigo, acordei deveriam ser umas três da manhã. Não o vendo ao meu lado, levantei-me e dirigi-me para o escritório. Quando comecei a descer as escadas, vi-o ao fundo no pequeno hall entre as escadas e a porta do guarda-vento. Na semipenumbra, estava parado, imóvel, estático, em frente à clarabóia que existia na parede.

Quando me sentiu, voltou-se para mim um pouco como quem acorda e à minha pergunta respondeu que estava bem, não me preocupasse, «vai-te deitar».

Nunca fui capaz de entender se fora dos meus olhos ou se havia no ar, parado e em surdina, algo de encanto que apenas um leve estremeção de ver-me quebrara ou tão-só interrompera.

Ainda vi que em passo lento se encaminhava, na contraluz, para a secretária.

 

***

O Jorge sabia tudo – mais, tinha sempre um livro para ilustrar o seu conhecimento. Um dia, em Araraquara, os pequenos entraram de roldão mostrando-me uma coisinha que, agitada, fazia um barulhinho como de matraca. Foi uma excitação e decidimos que «desta vez, o papá não vai descobrir o que é» – entrámos pelo escritório sorridentes e ansiosos exibindo eu a «coisinha» que lhe cheguei a cara, antegozando a ignorância. Perguntei: «O que é? Levantou os olhos do papel e displicentemente, sem a menor hesitação, respondeu: «É a ponta do rabo de uma cobra cascavel.» Ficamos varados – era. Desisti de o pôr a prova!

 

***

Uma vez conversava-se amenamente em grupo. Contávamos de dificuldades e também deste álbum que compráramos daquela vez que fôramos não sei onde… Um dos interlocutores (americano, é bem de ver) comentou, numa pausa: «Mas como é que vocês, com tantas dificuldades, podiam fazer isso? ‘Prontamente lhe respondi: «Porque, graças a Deus, somos loucos!» A estrondosa gargalhada do Joaquim ainda hoje me soa nos ouvidos.

 

***

Chegáramos a Roma, e, apesar da preocupação com a saúde convalescente, o Jorge começou a fazer projectos de mostrar-me mil coisas, que fui refreando. Fez, contudo, questão de mostrar-me a Villa Borghese.

Disse-lhe que não queria ir porque já sabia que não deixaria de percorrer tudo comigo e eu ficava aflita. Prometeu-me que não, ficaria sentado na entrada, quietinho, à minha espera. E lá fomos.

Quando entrámos, olhei, no átrio em frente à enorme escadaria de pedra, a ver se haveria onde ele se sentasse. Mas já ele me dava o braço sorrindo, e começava a subir lentamente. Quando passou o último degrau, olhou-me radiante: «Viste, não aconteceu nada!»

Parecias um menino que tivesse feito uma inocente e bem sucedida partida – estavas triunfante.

Mas tê-la-ias feito? Ou apenas não resistiras ao sempre sedento desejo de ver ou rever comigo tudo, a despeito da sinceridade da promessa e das precárias forças que já não chegaram para dar volta aos famosos jardins?

 

***

Ia entrar no escritório e vi que o Jorge escrevia um poema. Já não entrei e fiquei à espera que me chamasse para mo ler, como sempre fazia. Não chamou, e daí a pedaço voltei. O poema estava em cima da secretária. Li: “Aviso a cardíacos…”  Comentei que era terrível, e “tu sabes que profundamente injusto para mim e para todos”  — Olhou-me com uma tristeza infinita, e, com voz magoada, tão magoada!, respondeu-me: “Eu sei… eu sei, mas é o que eu sinto”.

Entardecia. Estávamos em pé, no corredor, em frente à porta para o páteo. Sentíamo-nos ambos angustiados — e nem sequer sabíamos de que tínhamos de ter medo. A terrível notícia só veio onze dias depois.

 

***

Mal sairam as memórias de Frieda Weekley Lawrence, Jorge leu-as absorvidamente. Quando acabou disse-me: «Lê, são lindíssimas, gostaria imenso que alguém escrevesse de mim assim um dia. Não que ela não diga coisas até cruéis, mas o amor com que as diz!» Pensei: «para longe vá o agouro». E de cada vez que pensava em tê-las, não conseguia sequer pegar no volume da estante.

Com o tempo tornou-se-me até muito mais difícil à medida que se me ia formando a identidade da imagem dela comigo, não pelo talento, mas na ternura e compreensão dos gigantes que nos encheram a vida.

 

(* nas coletâneas Jorge de Sena, o homem que sempre foi e Quaderni Portoghesi, 13-14)

 

Leia mais:

De Teresa Martins Marques

Teresa Martins Marques é uma incansável pesquisadora, com inúmeros títulos ensaísticos publicados, onde avultam abordagens sobre José Rodrigues Miguéis e David Mourão-Ferreira (o escritor a quem dedicou sua tese de Doutorado, depois de ter organizado seu imenso espólio).Em 2013, tornou-se romancista de sucesso com o livro A Mulher que Venceu Don Juan e recentemente lançou O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira.

 

 

De Ernesto Rodrigues

Docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, recém-eleito diretor do CLEPUL, Ernesto Rodrigues é também ensaísta, jornalista, ficcionista, poeta, tradutor, além de membro ativo da Academia de Letras de Trás-os-Montes, que ajudou a fundar. Com mais de 80 títulos publicados, com toda justiça, acaba de ser homenageado em Bragança pelos seus 40 anos de vida literária. 

Neste testemunho, recorda seu encontro com a obra e a figura Jorge de Sena. O texto de sua autoria a que alude encontra-se em “95. A morte do Papa“. 

 

Poema de Sena nas obras da Torre dos Clérigos

Tapumes à volta do trabalho de requalificação da Torre dos Clérigos —  inegável ex-libris da cidade do Porto — recordam o conhecido poema que Jorge de Sena, ao que tudo indica, lhe dedicou. Os responsáveis pela obra garantem que ela estará concluída no dia 12 de dezembro próximo — mesma data em que a obra setecentista de Nasoni foi aberta ao público. Agradecemos as fotos a nossa colaboradora Otília Lage. 

 

Metamorfose

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter…
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.

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De José Carlos de Vasconcelos

O jornalista, advogado, ex-deputado e poeta José Carlos de Vasconcelos é o diretor, desde sua fundação em 1981, do indispensável JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias — periódico único no seu gênero em Portugal, que, a cada quinzena, traz atualizações preciosas a todos quantos se interessam pelo que acontece no universo da produção literária e artística em língua portuguesa. Aceitando nosso convite, aqui discorre sobre Jorge de Sena.    

 

De Jaime Conde (sobre o “Golpe da Sé”)

A bibliografia sobre a história recente de Portugal é parca em informações e comentários sobre a chamada “Conspiração da Sé”, ou “Golpe da Sé”, de março de 1959. Tentativa abortada de derrubar Salazar, congregou cerca de duas centenas de envolvidos, agindo em grupos diversificados. Dentre eles, Jorge de Sena, que pouco falou, ou escreveu, sobre o tema e cujo exílio brasileiro teria nesta frustrada ação a causa mais próxima.

Sem dúvida, constitui-se peça rara o testemunho de um participante ativíssimo — como se verá — na organização e execução de mais um sonho desfeito em apressar o fim do salazarismo em Portugal.

O essencial sobre Jaime Conde ele mesmo o diz no decorrer deste seu tripartido depoimento.

 

 

 

 

De Carlos Reis

Catedrático da Universidade de Coimbra e autor de inúmeros estudos sobre a obra de Eça de Queirós que se tornaram referência obrigatória, Carlos Reis aqui nos traz seu depoimento sobre os textos de Jorge de Sena mais longamente dedicados a O Crime do Padre Amaro e Os Maias

 

 

De Sheila Moura Hue

Como pesquisadora especialista em temas quinhentistas, Sheila Moura Hue  aqui nos traz seu depoimento sobre os estudos de Jorge de Sena dedicados a Camões e outros nomes representativos do Renascimento ibérico, sempre comprometidos em marcar a fecunda interlocução entre intelectuais que constantemente ultrapassavam fronteiras políticas em prol de uma riqueza cultural de base comum peninsular e europeia.  

 

 

De Sérgio de Carvalho Pachá

O filólogo Sérgio de Carvalho Pachá rememora seus encontros com a obra de Jorge de Sena nas suas andanças entre Brasil, Portugal e USA — os mesmos espaços de exílio do escritor. Especialmente interessado nos estudos camonianos de Sena, como que pelas mãos de Camões foi conduzido a outros pontos altos da ficção e da poesia do autor. E o convívio com Mécia de Sena em Santa Barbara veio ratificar a visão que, pela leitura, compôs do signatário de “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”.

 

ERRATA do depoente:

O salmo glosado por Camões em “Babel e Sião” não é o 134, como disse e repeti umas poucas vezes, mas sim o 136. E a livraria onde, pela primeira vez, li o conto “Super flumina Babylonis”, de Jorge de Sena, não foi a inexistente filial da Livraria Portugal, mas sim uma filial da Livraria Bertrand, na Avenida de Roma.

 

De Jeronimo Pizarro e Mario Rodriguez

Jerónimo Pizarro, grande dinamizador dos estudos portugueses na Colômbia e Mário Rodriguez, tradutor de escritores portugueses para o castelhano, falam-nos sobre Jorge de Sena. O primeiro, reconhecido estudioso da obra de Fernando Pessoa, está à frente da Cátedra que leva o nome deste poeta sediada na Universidad de los Andes e foi o principal responsável pela enorme visibilidade que Portugal, como “país invitado de honor“, alcançou em 2013 na FILBO — Feira Literária de Bogotá. Lançada durante o evento, a magnífica antologia De la otra orilla del Atlántico reúne ao longo de suas 300 páginas apreciável panorama de textos portugueses, desde Eça de Queirós até jovens autores contemporâneos. Jorge de Sena aí figura com o conto “O Grande Segredo”, traduzido por Mário Rodriguez, que, em breve, verá editada a seleta de prosa e verso integralmente dedicada a este “nosso” autor, mais uma vez sob sua acurada tradução.

 

 

De Orlando Amorim

Professor da UNESP-Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de São José do Rio Preto (SP), Orlando Amorim doutorou-se com uma tese sobre Sinais de Fogo, depois de concluir o Mestrado com uma dissertação sobre O Físico Prodigioso. Aqui nos fala sobre esse seu convívio — já longo, assíduo e intenso — com Jorge de Sena.

 

 

De Maria Fernanda de Abreu

Reconhecida hispanista, a professora da Universidade Nova de Lisboa Maria Fernanda de Abreu aqui nos traz seu testemunho sobre Jorge de Sena, quer como escritor, quer como ensaísta que muito se debruçou sobre temas e peculiaridades da terra do Quixote, não raro em interlocução ibérica.  

 

 

De Eugénio Lisboa

Em outubro de 2013, Eugénio Lisboa lançou o 3º volume de suas  memórias —  Acta est fabula — , desta vez revisitando pela escrita a sua Lourenço Marques  entre 1955 e 1976 (abaixo, áudio com a apresentação do próprio autor). Das várias personalidades recordadas nesses vinte anos  conta-se Jorge de Sena, que, lembremos, esteve em Angola e Moçambique em 1972. No capítulo a seguir transcrito (gentilmente facultado pelo autor), o foco incide sobre o encontro e a amizade entre essas duas marcantes personalidades da cultura portuguesa.

 

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 Acta-III-Media-Net

Ainda antes do suicídio de Montherlant, ocorrera, em Lourenço Marques, um acontecimento de vulto: a visita a Moçambique, de Jorge de Sena, acompanhado de sua mulher, Mécia, a convite da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. Chegou no dia 7 de Julho e partiu em 31 ou 1 de Agosto (a 2, já estava em Luanda e em 30, ainda estava em Lourenço Marques).

Na altura em que visitou Moçambique, Jorge de Sena estava já, como Professor, em Santa Barbara (California), para onde se mudara, em 1970, deixando a Universidade do Wisconsin. E tinha, a seu crédito, uma obra importante, abarcando a ficção, a poesia, o teatro, o ensaio e a crítica. Vinha precedido de uma reputação de homem temível, de difícil abordagem… As reputações são o que são: a de Sena parecia-se muito com a de um homem talentoso com uma ponta de génio, mas insaciável e mesmo à beira do intratável.

Esperei para ver. O velho bardo de Stratford, no seu Henrique V, punha-nos de sobreaviso, em matéria de reputações: “A reputação é um instrumento de sopro que é posto a ressoar pelas suspeitas, os ciúmes, as conjecturas.” O Cisne sabia do que falava.

Durante a sua estadia em Moçambique, Sena conferenciou em mais de um local. Se bem me lembro, falou uma noite, na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra. Depois de uma visita à Ilha de Moçambique, iria, apresentado por mim, no “Teatro Gil Vicente”, no dia 25 de Julho, dissertar sobre o vocabulário de Os Lusíadas, e, depois, no dia 30 faria uma conferência na Universidade de Lourenço Marques, apresentado por Maria de Lourdes Cortez.

Mas, antes de tudo isto, tive ocasião de conversar com Jorge de Sena e sua mulher, em nossa casa e em casa do Rui Knopfli. Falado, Jorge de Sena nada tinha de um dragão: pelo contrário, não só era um brilhante conversador, como era, também, um verdadeiro charmeur. Era de uma extraordinária subtileza, no modo como dividia a sua atenção por todos os presentes, não esquecendo ninguém, nem as crianças.

Quando, certa feita, telefonou, uma manhã, para nossa casa, a Geninha, que andava na fase de “ser ela a atender ao telefone”, pegou no dito e encontrou, do outro lado da linha, o Jorge de Sena. Este, em vez de lhe pedir logo que lhe passasse o pai, esteve uns bons minutos de conversa com ela, antes de lhe pedir, por fim, o favor de lhe passar “o paizinho”. A Geninha, é claro, achou aquilo o máximo e ficou a adorá-lo: na reunião, em nossa casa, com o casal, não prescindiu de estar presente e era toda ouvidos. Ela era muito sensível ao brilho das conversas e o brilho irresistível – e solidamente fundamentado, não superficial – do escritor fascinou-a por completo (a Geninha tinha nesta altura 13 anos incompletos). Muito mais nova, a Manucha também não arredou pé e também com ela Jorge de Sena partilhou a sua atenção.

A “conversa” de Sena não era uma conversa qualquer e o seu “brilho” não era um foguetear vazio. Sena convocava, com mestria e leveza, todo um imponente aparato erudito com que enriquecia – sem a tornar pesada – a sua conversa. Raramente tenho conhecido um conversador deste gabarito. No livro Entrevistas – 1958/1978, recentemente publicado, poder-se-ão ler as várias entrevistas que deu, durante a sua estadia em Moçambique, muito em especial, a que concedeu ao Rádio Clube de Moçambique, em 19 de Julho. Ela dá uma ideia do que era e de que era feita a “conversa” de Jorge de Sena, embora, à “leitura”, falte a enorme vitalidade da sua impressionante presença física. É que Jorge de Sena tinha uma impressionante presença: era alto, bem-parecido e tinha uma voz admirável e extremamente bem colocada. Era um grande senhor da língua portuguesa e era um grande senhor tout-court. Estas qualidades não “aparecem” todas, necessariamente, nos textos escritos, às vezes de uma agressividade e contundência quase intoleráveis e veiculados, por uma sintaxe impecável, sim, mas cheios de circunvoluções, de subordinações, de apartes, de interpolações, que os tornam muito menos atraentes do que a sua conversa solta e bem apimentada. De qualquer modo, foi um privilégio e um imenso prazer conhecê-lo. Era um homem extremamente generoso com o seu tempo e com a partilha do seu saber. Creio que deixou, em Moçambique, além de admiradores, amigos que o não esquecem (muitos não estarão já a viver ali).

Na apresentação que dele fiz, no Gil Vicente, terminava com estas palavras, que aqui quero deixar transcritas: “Resta-me apenas, como moçambicano – perdoe-se-me a momentânea insolência de usar esta pestiferada palavra –, como moçambicano cuja pátria é também a língua portuguesa, agradecer ao Professor Jorge de Sena, ao escritor Jorge de Sena e, também e muito particularmente, ao Jorge de Sena de todos os dias, o privilégio da sua visita a Moçambique, com tudo quanto ela nos trouxe: ensinamentos – e de que modo! –, convívio de uma vivacidade e de um estímulo, como nunca conheci nenhum, brilho, apetência de viver e conhecer e, sobretudo, a imensa vergonha em que ficamos todos, por vermos como trabalha por todos nós, lá fora, um homem que deixámos fugir. Como diria o delegado do Ministério Público de um seu poema escrito há onze anos, “[ … ], a extensão do crime escapa-nos!”.

Na conferência que fez na Universidade, com a sala a deitar por fora (literalmente), Jorge de Sena foi apresentado, com a subtileza e minúcia que caracterizam a sua escrita (e também a sua fala), por Maria de Lourdes Cortez, para cima de quem foi atirado o ónus dessa tarefa (politicamente ingrata?). Mais uma vez, Jorge de Sena fez uma demonstração prática daquela afirmação do ficcionista francês Barbey D’Aurevilly, segundo o qual, “estar acima do que se sabe é coisa rara.” Para uns, segundo o autor de Une Vieille Maítresse, a erudição era “um fardo”, e ficavam abaixo dela; para outros, era, por assim dizer, “um pedestal”, e ficavam em cima dele. Este segundo caso era o de Sena.

Não vou deixar passar o registo de um incidente que decorreu no dia em que fez a conferência por mim apresentada no Gil Vicente, por ser revelador de um outro lado do grande escritor: a sua profunda vulnerabilidade à crítica, sobretudo se vinda de um personagem insignificante (já Valéry observara que qualquer rafeiro nos pode infligir uma ferida mortal). Na véspera da conferência – dia 24 – recebera a notícia da morte, no Brasil, do seu velho amigo Adolfo Casais Monteiro, o que o deve ter deixado um tanto deprimido. No dia da conferência, de manhã, salvo erro, alguém lhe telefonou de Lisboa, informando-o de que um escriba qualquer mordiscara, levianamente, no seu livro de traduções de poesia – Poesia de 26 Séculos – há pouco saído. Sena ficou a ferver o dia todo e, ao fim da tarde, entrou no “Teatro Gil Vicente”, em estado de profundo nervosismo.

Era aquele o primeiro espaço público de que dispunha, para um ajuste de contas. E aproveitou-o! Após a minha apresentação, que agradeceu cavalheirescamente, em vez de “entrar em tema”, como se diz, apropriou-se de uma boa fatia do tempo de que dispunha, para dar escape à sua fúria contra o escrevinhador lisboeta… O público, é claro, ficou perplexo e, pouco afeito àqueles submundos da República das Letras, pouco terá entendido do que se estava a passar. Despejado o saco, Sena lá sossegou e fez uma conferência sobre Camões, como ele sabia fazer. À saída, fintou habilmente os que o queriam cumprimentar e dirigiu-se, ansioso, para o sítio onde se encontrava a sua mulher, inquirindo-a com o olhar. E só quando ela, discretamente lhe deu a bênção (“Andaste bem”), é que ele, descontraído e sossegado, se aprestou a receber as devidas homenagens.

Durante toda a viagem por Moçambique, Sena falou claro e vicentino, embora não se entregasse a provocações de carácter político. Mas disse sempre o que tinha a dizer. Aliás, logo numa entrevista dada ao Notícias, no dia 16 de Julho, teve o cuidado de informar: “Não estou aqui integrado em comemorações nenhumas. Não venho em romaria. Estou em Lourenço Marques a convite da Associação dos Estudantes de Coimbra, o que considero uma atenção especial.”

Depois desta visita, encontrei-me duas vezes com Jorge de Sena: em Londres e em Paris. E, de ambas, pude confirmar a impressão que dele colhera, em Moçambique: a de uma das mais carismáticas e impressivas figuras da nossa cultura e, ao mesmo tempo, a de um homem de grande encanto pessoal e de extrema generosidade.

Fiquei sempre a sentir por ele um grande afecto, o que não quer dizer que tenha sistematicamente concordado com tudo o que fez, disse ou escreveu. Nem tinha que estar: se alguma lição forte ele nos deixou, foi a de um espírito de grande independência. Ser igualmente independente é a melhor maneira de lhe prestar homenagem. (Já de regresso aos Estados Unidos, Jorge de Sena escreveu-me, perguntando-me se quereria ir para Cardiff, como leitor de Português. Seria só um ponto de passagem: a seguir, ele arranjaria maneira de me fazer ir trabalhar com ele, em Santa Barbara. Fiquei lisonjeado, mas não aceitei. Dei-lhe uma desculpa qualquer, mas a verdade é que não estava ainda preparado para deixar Moçambique: demasiadas coisas ali me prendiam.)

 

In: Lisboa, Eugénio. Acta est fabula. Memórias III –  Lourenço Marques Revisited (1955 e 1976). Guimarães, Opera Omnia, 2013 p. 405-410

 

De Patricio Ferrari

O conceituado investigador da obra de Fernando Pessoa, que acaba de editar, em co-autoria com Jerónimo Pizarro, o  livro Eu sou uma antologia, destaca neste depoimento três observações feitas por Jorge de Sena — relativas aos “35 Sonnets“, ao heterônimo Ricardo Reis e ao heterônimo Alberto Caeiro —  considerando-as inovadoras nos estudos pessoanos e ainda muito pertinentes décadas depois de enunciadas. 
 

Fernando Lemos e o túmulo de Jorge de Sena

Fernando Lemos faz questão de visitar o túmulo de seu amigo-de-toda-vida logo na primeira viagem a Lisboa após transladação dos restos mortais de Sena, de Santa Barbara para o Cemitério dos Prazeres. Na visita, dia 30 de novembro de 2009, é acompanhado pelo amigo Pedro Aguilar, que registra fotograficamente esse encontro, de clara emoção, e, muito gentilmente, nos disponibilizou as imagens.  

 

6a

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2b

4b

7a

10a

De Fernando Lemos

Apesar do distanciamento imposto pelas circunstâncias, Jorge de Sena e Fernando Lemos cultivaram sempre a inabalável amizade nascida em fins dos anos 40, quando ambos já davam provas irrefutáveis do talento que os consagraria. Conviviam então com seleto grupo de intelectuais, no qual se contava José-Augusto França, Fernando de Azevedo, Vespeira, António Pedro, Sophia de Mello Breyner Andresen, Adolfo Casais Monteiro… Mais jovem 7 anos que Sena, Lemos veio para o Brasil em 1953 e aqui desenvolveu intensa produção, muitas vezes premiada, em vários campos das artes: poesia, fotografia, desenho, aquarela, pintura, tapeçaria, artes gráficas, publicidade, programação visual, estamparia têxtil, painéis de azulejos, desenho industrial etc. 

Com a vinda de Sena para o Brasil, colaboraram juntos no jornal Portugal Democrático, editado em São Paulo de 1956 a 1975, que congregava os exilados portugueses unidos pelo anti-salazarismo.

Nos dois testemunhos abaixo, Lemos evoca alguns fragmentos desse longo e sólido diálogo.  

 

 

De Helena Buescu

Professora Catedrática da Universidade de Lisboa e renomada ensaísta, Helena Buescu nos oferece o seu testemunho sobre a escrita de Jorge de Sena, sublinhando o potencial comparatista de sua obra, aspecto demonstrado através das aproximações a Virginia Woolf, com relação à ficção, e ao grego Kaváfis, na poesia.

 

De Helder Macedo

Helder Macedo, cuja trajetória intelectual é sobejamente conhecida e reconhecida internacionalmente, cultivou uma amizade com Jorge de Sena ao longo de muitos anos e numerosos encontros, sobretudo londrinos. Neste seu testemunho, desenha-nos tanto a personalidade “excessiva” do amigo, quanto o criador de uma obra não menos “excessiva”, que o estimula a constantes releituras. Complementando este video e as alusões nele contidas, recomenda-se ler uma seleção das cartas enviadas por Jorge a Helder, gentilmente cedidas pelo destinatário (ver)

 

De Pedro da Silveira

 

Parece não ter tido maior difusão este texto de Pedro da Silveira escrito um mês após o falecimento de Jorge de Sena, agora recuperado, e gentilmente para nós enviado, pelo infatigável descobridor de preciosidades Vasco Medeiros Rosa. Como se sabe, o açoriano Pedro da Silveira (1922- 2003) integrou anos a fio o conselho de redação da revista Seara Nova e produziu larga obra como poeta, crítico literário, tradutor e investigador, colaborando em diversos periódicos. Pode-se dizer, sem medo de errar, que os Açores constituem o cerne de quanto escreveu — o que fica bem demonstrado neste necrológio, no qual são sobejamente enfatizados os elos de Jorge de Sena com o arquipélago.  

 

A costa californiana que faz lembrar a dos Açores

 

 

UM AÇORIANO DE LISBOA: JORGE DE SENA*

Nenhum lugar mais certo para lá morrer e se dar à terra um açoriano da dispersão: Santa Bárbara, na Califórnia. É junto à costa e ao longe perfilham-se não me lembra quantas ilhas. Dumas delas ainda sei, ou julgo saber, que se chama San Clemente; doutra, que é Santa Catalina. Sena cantou num poema[1] a visão duma delas, que tinha defronte de sua casa. Se não me mente a memória, ao cabo de tantos anos, dizia meu pai, que as visitou uma vez, que eram habitadas por índios e chicanos, gente pobre, vivendo da pesca e de cultivar melancias, das melhores do mundo — acrescentava —, só comparáveis às do Corvo.

Pode isto parecer impróprio falando dum poeta, de mais acabado de morrer. Melancia não é fruto com prestígio lírico e a memória dum poeta, na hora da sua morte, não se celebrará assim. Pelo menos, não é de regra. Mas veio à pena e fica — de resto, me parecendo que fica bem, tratando-se, como se trata, dum poeta que sabiamente sabia que tudo (todas as palavras, todas as coisas) pode caber em poesia; ao menos quando a poesia é poderosa bastante para se transmitir até à evocação duma melancia, tão digna afinal, em sua humildade de fruto para pobres, como uma estátua grega ou uma sinfonia do genial Beethoven. Jorge de Sena sabia destas coisas: como homem de cultura aberta e multímoda que era e como poeta de raiz que, primeiro e totalmente, era também.

Açoriano de Lisboa, digo no título. Sim, senhores: açoriano de Lisboa, criado num meio familiar açoriano, no qual corriam sangues provenientes das três ilhas que são o Faial (onde seu pai nasceu), São Miguel e a Terceira. Gente ligada ao mar e, até agora e desde o século XVIII, na pessoa do seu antepassado o poeta Manuel Inácio de Sousa, ao comércio marítimo; gente, como ainda Jorge de Sena foi, de se largar pelo mundo. E eis que se põe o pretexto doutra notação digamos antebiográfica: que os do sangue de Jorge de Sena dos Açores (e da Madeira também) desde há muito se derramam por esse mundo, como ele se derramou. Lá temos, em Cabo Verde, filho da Ilha Brava, o marinheiro e erudito historiador Cristiano José de Sena Barcelos, seu parente e doutro Sena (que Sena se não chama todavia), o poeta (madeirense) Herberto Hélder. E quantos mais, filhos e netos de abalados para o Brasil, a Califórnia e outros longes?

Lamenta-se que Jorge de Sena morresse fora de onde nasceu, e parece querer-se que Lisboa seja, já que não o teve (ou não o quis ter?) vivo, sua morada de morto. Quer dizer (e ele o diria se pudesse agora): pretende-se, contritamente, remediar com os ossos o que ao vivo se não quis proporcionar. Mas é sempre assim, ou, pelo menos, é-o nestas arábico-africanas partes, onde a ingratidão exercida contra os vivos incómodos se usa transmudar em reconhecimento (?) quando já passaram a mortos (e já não incomodam).

Não, senhores! Deixem ficar Jorge de Sena na Santa Bárbara que bem amou, lá no cemitério do Calvário, donde se vê o mar e ilhas defronte. Lá ele ficará bem e, tenho a certeza, gostará de receber de vez em quando as visitas amigas dos luso-californianos que soube entender e estimar e lhe pagavam na mesma moeda — gente simples e boa, que poderá não lhe ler a obra mas soube entender-lhe a ternura disfarçada de aspereza, aquele seu feitio insulano, de homem que sempre diz logo, sem rodeios acomodados, o que os da terra firme tantas vezes só dizem depois ou por dentro. Sim! Lá é que Jorge de Sena está no lugar certo. Exilado em vida, seja-o morto; mas exilado, afinal, entre gente que amou: lusos, como ele, que a pátria repeliu; filhos das ilhas onde ele enraizava.

Até onde sou capaz de descobrir o insulano, nado ou de raiz, pela sua expressão, a obra de Jorge de Sena, o seu estar no mundo (da obra e dele homem), são da espécie que não deixa margem a engano: ilhéu indisfarçável. Lá esta a sua poesia, à primeira abordagem um tanto difícil (como difíceis de abordar são as costas das ilhas atlânticas), mas que depois se nos revela tão rica, tão contrastada; e a sua obra de contista, onde a cada passo a insaciável curiosidade total do mundo pulsa; e a do dramaturgo, que até diz daquele «indesejado» D. António, cá só o «Prior do Crato», lá Rei — el-rei D. António I, com sua corte em Angra e a quem a tradição na minha ilha ainda chama «o rei Sant’António»; e a do ensaísta erudito, tão sagaz, curioso de tudo, sedento de todos os humanos saberes.

Não me sinto capaz, agora, de discorrer criticamente sobre o legado espiritual de Jorge de Sena. Até porque a sua morte, embora esperada para mais cedo do que quando já um homem não pode dar à vida senão continuar vivo, me deixa como embaciado: uma morte que, além do mais, vem quase em cima da doutro grande filho das terras no meio do mar — Vitorino Nemésio[2]. E daí, não me sentindo capaz do discorrer crítico, que é coisa para a frio, aqui vai só como o vejo, lhe tomei o gosto à obra: insulada e jogada no mundo, mensagem que me apetece comparar à de Antero, como à do erudito Teófilo (outro de multímodas curiosidades), como à de Carlos de Mesquita; como às desses brasileiros também oriundos das Ilhas, como Machado de Assis, ou Euclides da Cunha, ou Guimarães Rosa, ou Carlos Drummond de Andrade, ou Cabral de Mello Neto; como, mesmo, à desse como criatura detestável mas como escritor assombroso Jorge Luis Borges. Porque em todos reside, na obra que fizeram, superando diferenças de teor, algo que é a genuína marca de quem nasceu numa ilha e traz nas veias sangue provindo duma ilha.

Jorge de Sena morreu no exílio, dizem os seus necrologistas, os quais agora, muito solenemente, falam da reparação a dar ao grande exilado que, aqui e lá fora, tão altamente honrou a cultura lusíada. E eu pergunto: Não era ele já um exilado antes de, de facto, o ter sido? A sua obra não é toda, desde o primeiro livro, um continuado sinal de exílio? E não é afinal o exílio a condição do intelectual que nasça neste ruim sítio onde Eça (outro exilado de raiz) pescou Acácio e Gouvarinho e o Salcede, esses, sim, exemplares de quem, mesmo sendo-o, nunca será um exilado?

Senhores! Leiam-no, aprendam na sua obra a entender, se capazes ainda são disso, que o mundo não se reduz a Lisboa. Mas deixem-lhe os ossos em paz, lá no cemitério do Calvário, em Santa Bárbara da Califórnia, com o mar e não sei quantas ilhas diante dos olhos que para sempre já não poderão avistá-las. E, quanto a exílios — sempre é melhor estar exilado lá fora, vivo ou morto, do que exilado (emparedado) aqui. Não o ignoro: Jorge de Sena amava isto; mas também sabia — doloridamente sabia! — que isto só é bom para majores, argelinos e filhos de reverendos. Amava, explico, um mito; e quando se ama um mito, é sempre melhor viver e morrer longe dele. Por que não deixe de ser mito.
 
 

NOTAS: 
[*] In O Diabo, Lisboa, 4 de Julho de 1978, pp. 17, 22

[1Provavelmente o autor refere-se a “Duas paisagens da Califórnia”, do livro Exorcismos (Poesia III), com data de Janeiro de 1971:

 

AS ILHAS DE SANTA BARBARA

Tão lúcidas recorte no horizonte

a névoa ergue-as do mar em que flutuam

violáceas quietas pela tarde imóvel

até nas brandas ondas que esta praia pousam

recurva apenas de uma luz sem cor

e do silêncio da distância em ilhas

 

BIG SUR

Do alto da escarpa escarpas se prolongam

em que de praias se entrelaça o mar

 sobrevoado de aves. Os rochedos

somem-se e brotam de sem espuma em volta

que só ressaca é depois deles areia.

 

[2Nascido a 19 de dezembro de 1901, o açoriano Vitorino Nemésio faleceu em 20 de fevereiro de 1978.

 

De George Monteiro (2)

Mais uma vez, George Monteiro nos oferece um poema inédito, de sua autoria. Este, datado de 1988, evoca dados da biografia de Jorge de Sena facilmente reconhecíveis e as praias de Santa Barbara, propícias a meditações. A versão em Português é de Luciana Salles. 

 

Praia na costa escarpada de Santa Barbara

 
 
 
 
 

SEA LEGS

Let the record speak.
Cadet Sena would not

 

climb the mast, swim
the sea, refrain from

 

talking, wash out his
his whites. Bad boy.

 

Indifferent ephebe.
Good scores, good

 

family, but yet not
right for Salazar’s

 

navy. Ouster is the
right move, while

 

other trainees move
from the Sagres

 

to a career in starches
and creases. Ditched,

 

but peering heights,
still leery of notions

 

of cleanliness next
to godliness, still

 

talking up a kid’s
storm, still naively

 

thinking literature
matters, he launches

 

a life and plies a trade.
Accumulating nations,

 

he seeds poems along
his track. In his sixth

 

decade Sena sheds his
whites, stifles chatter,

 

and hunkers down in
Santa Barbara to beach,

 

once and for all, a suite
of land/ sea thoughts.

 

Providence, RI
Oct. 2, 1988

 

ANDAR MARINHEIRO

Deixem falar os registros.
O cadete Sena não iria

 

escalar o mastro, nadar
no mar, abster-se das

 

palavras, lavar seus
uniformes. Menino mau.

 

Efebo indiferente.
Boas notas, boa

 

família, mas não
o bastante para a salazarista

 

marinha. Expulsar
é o correto, enquanto

 

outros formandos
partem da Sagres

 

para uma carreira em rigidez
e rugas. Rejeitado,

 

mas aspirando às alturas,
ainda desconfiado da noção

 

de limpeza perto da
divindade, ainda

 

falando intempestivamente,
ainda ingenuamente

 

acreditando que a literatura
importa, ele se lança

 

a uma vida e a um ofício.
Acumulando nações,

 

semeia poemas ao longo
do caminho. Em sua sexta

 

década, Sena recolhe as
presas, cala os discursos,

 

e se ancora em Santa
Barbara para naufragar,

 

de uma vez por todas, numa suíte
de meditações em terra/mar.

 

Trad. de Luciana Salles

De Jorge Fernandes da Silveira

Professor Titular de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de diversos ensaios sobre a poesia seniana e orientador de trabalhos acadêmicos sobre o autor, Jorge Fernandes da Silveira aqui nos oferece o seu testemunho, recordando momentos de quando foi Professor Visitante na Universidade de Santa Barbara, California — espaço, como sabemos, por onde muito circulou o próprio Jorge de Sena. 

 

De Otília Lage

Como organizadora do volume dedicado à correspondência trocada entre Mécia e Jorge de Sena relativa ao “período brasileiro” do casal, Maria Otília Pereira Lage foi entrevistada pelo programa radiofônico “À volta dos livros“, transmitido dia 7 de agosto de 2013, que aqui reproduzimos
As fotografias registram o lançamento da obra no Auditório da Biblioteca Pública Municipal do Porto, dia 04 de maio de 2013, em sessão que incluiu a leitura de cartas e poemas, com acompanhamento musical.

 

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Capa do Livro
Capa do Livro
Otília Lage apresenta o volume; sentada, Maria do Carmo Castelo Branco - prefaciadora da obra
Otília Lage apresenta o volume; sentada, Maria do Carmo Castelo Branco – prefaciadora da obra
  Imagem parcial da platéia
Imagem parcial da platéia
amigas de colégio e juventude de Mécia de Sena
Otília Lage entre duas amigas de juventude de Mécia de Sena

 

Leia mais:

De Luís Amaro

Francisco Luís Amaro (1923) é um completo homem de letras, produzindo páginas como poeta, articulista, revisor literário, editor, memorialista, sendo hoje reputado como um dos mais atentos estudiosos da história literária contemporânea portuguesa. Durante largos anos atuou na Portugália Editora e na Revista Colóquio/Letras, colaborando paralelamente em diversas revistas literárias, como a Távola Redonda, a Portucale e a Seara Nova. Foi ainda co-fundador das celebradas folhas de poesia Árvore. Tendo privado de muito perto com alguns dos maiores autores portugueses do nosso tempo, reuniu vasto arquivo literário e epistolar que doou à Biblioteca Nacional de Portugal. Esta selecionou parte de tão precioso acervo para compor uma exposição (de 7 de maio a 29 de junho de 2013) em homenagem aos lúcidos e produtivos 90 anos do autodidata intelectual, que, segundo Vasco Graça Moura, é “a pessoa que mais sabe em Portugal sobre livros e escritores”. Transcrevemos a seguir o seu depoimento sobre Jorge de Sena em texto originalmente editado na «revista de poesia» lisboeta Relâmpago nº 21, de 2007 — revisto e atualizado em agosto de 2013 — e que inclui carta inédita de Sena a Amaro, ambos então jovens e amigos. (LJdS)

 

Data de muito cedo – teria eu apenas dezanove anos – a primeira vez que, em certa manhã de 1942, na antiga e lisboeta Livraria Portugália, da Rua do Carmo 75, me deparei com Jorge de Sena, amenamente à conversa com Manuel da Fonseca, talvez já o fulgurante autor de Aldeia Nova (contos, março daquele ano), edição da casa onde me empregara em setembro de 41. Deu-se o encontro provavelmente antes de maio, pois não tardei a avistar o poeta na Feira do Livro, na Avenida da Liberdade. Recordo a invulgar simpatia do escritor não famoso ainda, o interesse dele pelos clássicos quinhentistas (creio que trazia consigo o volume das Obras de Frei Agostinho da Cruz), aos quais chegou a dedicar no jornal O Globo (“Poesia enterrada viva”, 01-IX-1944) toda uma página antológica.

A extrema acessibilidade de Jorge de Sena, mais velho que eu só três anos e meio, fez com que o nosso relacionamento se firmasse, não direi intimamente, mas, da minha parte, com imprevisto à-vontade. Já de nome o conhecia, da única referência que tinha dele, a Ruy Cinatti ouvida na Livraria, proclamando, entusiástico, “o Jorge” a alguém que não posso precisar – Tomaz Kim, talvez – como a maior revelação crítica da época: revelação essa a lançar pela revista Aventura (no. 1, maio 1942), que ele, Cinatti, inesquecível “criança grande”, mas de notória maturidade cultural, poeta de Nós não somos deste mundo, dirigia com o puro ardor que em tudo punha.

Importa sublinhar, situando ou clarificando estas relações pessoais com o autor de Perseguição e o consequente intercâmbio epistolar que cresceu com o seu exílio, o importante papel que, de início Livraria Editora[1], e depois, simultaneamente, núcleo editorial autónomo na Avenida da Liberdade, 13-3°. Dt.º ambas as Portugálias exerceram no ambiente literário nacional de 30 até ao fim de 70 – para não recuarmos já à década de 20, ou, mais exatamente, à fundação, cerca de 1918, da PORTVGALIA EDITORA [sic], com Heitor Antunes principal sócio (mais tarde radicado no Brasil, onde morreu) e repartida a empresa, logo, pelo Rio de Janeiro: assim consta da edição, única que possuo de 1918 com a chancela “portugálica”, do livro “SOLDADO:QVEVAES Á GVERRA…// Novas:Redondilhas //De Antonio Corrêa d’Oliveira //Impresso em Lxª. MCMXVIII.  Na respectiva loja, de não vasta dimensão, se reuniam, segundo testemunhos epocais, relevantes figuras das letras, das artes, da política, de heterogéneos sectores – como, é agora de supor, o tão queirosiano Conde Sabugosa (um dos “Vencidos da Vida”, gloriosa mentira…), o mais aristocrático autor da casa e ao qual a PORTVGALIA EDITORA consagraria, em 1924, opulento ln Memoriam, desveladamente organizado por José António Correia, também sócio-gerente, até 1937, da Livraria.

Essa frequência intelectual mantinha-se ainda qualificada quando, há sessenta e seis anos (!), ingressei no histórico estabelecimento, apenas quatro meses volvidos sobre a inauguração da Livraria Portugal, no prédio fronteiro e sob a gerência dos mesmos sócios, Pedro Ferreira de Andrade, Raul Luís Dias, acrescidos de Henrique Pinto e com dois capitalistas. Moderna e ampla, a Portugal, em 5 de maio de 1944 fundada, encerrou há meses as suas portas, devido à crise que nos avassala, finda a euforia de Abril. E também já não existem os que lhe deram vida, à Livraria Portugal.

Regressando à casa-mãe: nela convergiam, como antigamente, os mais diversos e adversos grupos convivenciais, cada um para seu lado (em quantas ocasiões António Sérgio se cruzaria com o seu feroz antagonista Alfredo Pimenta! De ambos, por sinal, guardo boa lembrança). Acrescente-se que a Livraria Portugália, no limiar dos anos 40, distribuía, por vezes lançava (Alves Redol, o de maior êxito, e Manuel da Fonseca…) as obras dos novos enquanto prosadores, não se arriscando a editar poetas (que me lembre só o Mário Beirão de Novas Estrelas [1940, Prémio da Academia], o Alfredo Pimenta de Últimos Echos de Um Violino Partido [1941], o João Saraiva de Sol-Posto [1942])… Das novas gerações, designadamente a dos Cadernos de Poesia (Cinatti, Kim, o próprio Sena de Perseguição), da neorrealista (Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, 1940), e da de Eugénio de Andrade (Adolescente, 1942; As Mães e os Frutos, 1948), a casa era simplesmente depositária ou distribuidora, e sê-lo-ia, já Portugália Editora, da estreia de Sebastião da Gama (Serra-Mãi, 1945). Assim prosseguiria, salvo raras exceções, até 1961, quando a Editora propriamente dita, então literariamente orientada por Augusto da Costa Dias (após efémera passagem, nela, de Jorge de Sena), criou a coleção “Poetas de hoje”, com predomínio neorrealista (ouvi, um dia, Joaquim Namorado, que por acaso não chegou a ser incluído na coleção, lamentar, receoso, ao seu camarada ideológico, a inclusão, na mesma, de Saúl Dias, Cabral do Nascimento…). Dos “Poetas de hoje” saíram 39 volumes até 1972 (último, de José Augusto Seabra: Tempo Táctil). O nº. 33 foi, precisamente, de Jorge de Sena (Peregrinatio ad Loca Infecta, 1969). Também da iniciativa de Costa Dias, a série dos “Novos”, que revelou ou reafirmou jovens poetas, dramaturgos, contistas, romancistas – Fiama, Gastão Cruz, Casimiro de Brito, Luiza Neto Jorge, José Augusto Seabra, César Pratas, Herberto Helder (Os Passos em Volta), Almeida Faria (Rumor Branco), Almeida Faria, António Rebordão Navarro, Ivette K. Centeno, Baptista-Bastos…

Anteriormente, e já propriedade exclusiva de Agostinho Fernandes, que nos anos 20 financiara a revista Contemporânea, a Editora convidara Jorge de Sena a organizar a 3ª. série da magna antologia Líricas Portuguesas (1958). Passados tempos, e ascendendo ele, no exílio em São Paulo (Brasil), a professor catedrático, a casa editou-lhe imponentes estudos camonianos (Uma Canção de Camões, 1966…), os contos de Novas Andanças do Demónio (id.), exaustivos prefácios-ensaios, e, a exemplo do que já Gaspar Simões fizera em relação ao amigo no limiar dos anos 40, traduções de célebres autores ingleses e americanos.

De tal operosidade intelectual, verdadeiramente assombrosa, e com o autor vivendo, a partir de finais de 59, no estrangeiro, resultou que a correspondência entre o escritor e o “secretário” da Portugália – editora que, de resto, não poderia absorver-lhe a torrencial produção – fosse crescendo sempre. Do material epistolográfico seniano a mim dirigido e que, nas múltiplas andanças domiciliárias em Lisboa, me foi possível guardar, há um total de 135 documentos (datados de outubro de 1943 a 23 de setembro de 1977) na Biblioteca Nacional-Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, desde dezembro de 1981, quando o saudoso João Palma-Ferreira dirigia aquela instituição.

Mas, para além de motivações editoriais de ordem bibliográfica ou, digamos, prática, Jorge de Sena manteria até morrer, a 4 de junho de 1978, generosa estima pessoal ao camarada obscuro: facto que se comprova não só na correspondência, ou nos sucessivos encontros em Lisboa, também em dedicatórias nos livros que ia publicando, a partir da sua estreia poemática, Perseguição (Ed. Cadernos de Poesia, 1942). É certo que algumas, raras, intermitências houve em tais ofertas senianas, talvez devidas, as lacunas, ao abismo cultural entre nós e que me levava a, com a audácia dos tímidos, não calar a primária dificuldade em seguir-lhe os voos, no verso e na prosa[2]. Lembro-me de, provavelmente no seu primeiro retorno a Lisboa (dezembro de 1968), lhe ter falado nisso e, a propósito da fase inicial da sua obra, jamais renegada aliás, ele me responder, tolerante: “Não me admira que você não compreendesse. Eu queria ser surrealista … “. Noutro encontro, a uma vaga objecção quanto a um seu texto juvenil, volveu-me: “Mas eu já existia nessa altura?!”

Enganoso seria, porém, pressupor “humildade” (!) em quem não escondia a exacerbada consciência de seus altíssimos méritos. Quando muito, haveria nele uma risonha autocrítica, que se depreende destoutra dedicatória, numa separata de Resenhas, da época brasileira: “Ao Luís Amaro, estas sábias ironias sobre o exercício da crítica, doutamente subscritas pelo sempre seu / Jorge de Sena / Araraquara, São Paulo, Brasil / agosto de 1965.

”
Imagine-se a comoção com que recebi, já morto o autor inestimável, o seu derradeiro volume publicado – Régio, Casais, a “presença” e Outros Afins (Porto, Brasília Ed., Out. 1977): “Ao Luís Amaro, infalível e insubstituível, que talvez saiba de algo mais que eu escrevi e esqueci neste livro, com o velho abraço amigo de algumas décadas de / Jorge de Sena / St. Barbara, Março 78.

Não valerá a pena anotar que o elogio incidia no meu inalterável “devotamento” presencista, de que, julgo, dei algumas provas. As restantes palavras são como que uma despedida, um adeus final e corajoso, em letra firme e lúcida, a breves e fatais semanas de nos deixar.

Ele era, antes de tudo, e a coincidir com o ser complexo e exigente, não raro contraditório e explosivo porque incompreendido na sua altitude – um afetivo, leal às antigas amizades, solidário nos momentos sombrios daqueles que estimava. Virtudes que não excluem o implacável espírito crítico, o irritado melindre, a desenganada reserva quanto às relações literárias (mas quantas exceçõesabria também!), a causticidade ora oportuna ora injusta; ou, ainda, a humaníssima falibilidade. Facetas, elas todas, que se refletem nas temíveis Dedicácias(ed. póstuma, 1999) ou se desprendem da enorme massa epistolar seniana vinda já a lume e, decerto, na que está inédita ou em vias de publicação. No monumental conjunto, porém, a sua obra espelha uma das mais ricas, multímodas, fascinantes (e perturbantes) individualidades da história literária portuguesa contemporânea e, porque não?, de sempre.

MASSAMÁ, 2007, 2013.

 

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Carta de Jorge de Sena a Luís Amaro

Tancos, 25/10/43[3]

 

Meu caro Amaro

 

Recebi a sua carta em que me pede colaboração para a página[4] que V. está prestes a dar à luz. Engana-se redondamente quando supõe que a província me não interessa. A província interessa-me por ela própria, é o caso, e não como extensão da capital, maior palco para a exibição citadina dos talentos literários. E se até aqui nunca colaborei em nada de provinciano (passe o adjetivo), foi apenas porque nunca as circunstâncias me proporcionaram esse poleiro pa. informação. A província, por culpa de quem escreve, tem falta de vista e, portanto, falta de óculos com que a possa corrigir. E depois… , a maior parte das vezes, as lunetas que de boa mente lhe fornecem não lhe assentam no nariz. E digo boa mente, para não me referir ao mais vulgar aspecto da questão: o fornecerem-lhe lentes de cor, que ela usa sem saber que as usa nem os erros de visão que elas provocam.

É tão fácil dizer cobras e lagartos de quem os outros não conhecem! É fácil, cómodo, seguro: e a justiça é assim, quantas vezes também na capital, sacrificada a altos fins. Desconfio sempre dos altos fins que confundem a justiça necessária com a justiça suficiente.

Os originais que me diz ter são, de facto e em princípio, uma garantia de qualidade. Que o J. P. de Andrade[5] lhe tenha dado teatro e não prosa especulativa é coisa para deitar foguetes em louvor do bom senso e bom gosto que, parecia, ele ia perdendo. Quanto ao meu envio urgente, será uma urgência até ao fim da semana, o mais tardar. Não tenho nada e vou tentar escrever depressa e bem, com a melhor boa vontade. Crítica a livro português recente? Ensaio? Não sei ainda. Mas é de lembrar que ando bem fora das novidades e, felizmente, das pugnas…

 

Creia sempre no

Jorge de Sena

 

 

P. S. Comecei a escrever uma prosa; vai mais depressa do q supunha. Mando-lha amanhã ou depois.

 

NOTAS

[1] Remeto o leitor interessado (como eu próprio, afinal…) por estas minudências para a p. 48, nota 1, do catálogo Presença de João Gaspar Simões, “Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento”, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2003. A nota, no meu “Esboço de Uma Bibliografia Crítica, com presença dentro”, diz respeito a um parágrafo da carta de Fernando Pessoa, em 28-VI-30, para Gaspar Simões: “O que vem a ser o conteúdo de dentro de um manifesto, assinado por três dos rapazes vossos amigos e colaboradores, de que me deram um exemplar na Livraria Portugália?” (subl. meu). É lícito deduzir que também Fernando Pessoa frequentava, ao tempo, o “centro intelectual” da Rua do Carmo. Em cuja Livraria funcionara outrora um Gabinete de Leitura de que Florbela Espanca era utente (cf. também o meu texto introdutório do álbum homenageando Agostinho Fernandes […], Lisboa, 2000, p. 11 e passim).

 

[2] Disse que muitas vezes me não era acessível a poesia de Jorge de Sena, de nobre elocução sempre, de início de timbre surrealizante e, a partir de Pedra Filosofal (1950), menos “difícil” embora, dum classicismo cultista porventura afim do de Nemésio (Nem Toda a Noite a Vida), mas dele tão diverso (felizes os leitores que “decifrarem”, na íntegra, a Mensagem pessoana!). E, todavia, dois casos houve em que o ingénuo lírico (eu) e o grande poeta ultramoderno (Sena) talvez se encontrassem, por interpostas vias: intitulam-se os textos “Dádiva” / “Uma pequenina luz”, e “Nada mais quero … ” / “Súplica final”. Será precisa, aqui, a autoflagelação?

 

[3] Com o timbre, riscado, da Companhia Nacional de Navegação / Lisboa. Rigorosamente, a “primeira carta” foi… um bilhete-postal, emitido de “Tancos, 19/10/43″ por “Jorge de Sena / Cadete do C.O.M. / E.P.E. / Tancos”, e do teor seguinte:

 

Caro Amaro

Cá recebi o jornal, e mto. obrigado. Fiquei, assim, bem ciente do que, em tempos, disse. Então de provas nada?

Creia sempre no amigo

Jorge de Sena

 

À distância de tantos anos, não me é possível lembrar de que jornal se tratava. Quanto às provas, seriam da 2.ª edição, revista por Sena a convite de João Gaspar Simões, o fundador literário da Portugália Editora, de Os Melhores Contos Americanos – 1.ª série, com traduções de Fernando Pessoa (dois contos de O. Henry, extraídos da revista Athena, nº. 2, Lisboa, 1924), de Tomaz Kim e de João de Oliveira, nas “Antologias Universais”. A casa em que eu, desde a primeira hora, trabalhava – a referida Portugália Editora, criada em setembro de 1942 sob a gerência de Raul Luís Dias – distinguia-se, na época, por uma atividade intensa, só comparável à da Editorial Inquérito, dirigida, também em Lisboa, por Eduardo Salgueiro, a cuja memória de grande editor ex-poeta devo igualmente preito.

 

[4] As condições em que, sem família na capital, então vivia, por quartos ou pensões, não me possibilitaram o projeto, no semanário Ecos do Sul, de Vila Real de Santo António. Todavia, já tinha assegurado o apoio não só de Jorge de Sena e de João Pedro de Andrade como de Castelo Branco Chaves, Alberto de Serpa, Tomaz Kim, António de Navarro, Manuel do Nascimento e outros com quem privava. Na minha carta-convite, datada de 23-X-43 e cuja cópia me foi gentilmente facultada por Mécia de Sena (ah, prodígios de organização!), traçava eu considerações sobre a pretensa “aridez” cultural da província, tema desenvolvido na resposta do poeta.

 

[5] Sublinho que João Pedro de Andrade (1902-1974), dramaturgo, crítico, ensaísta e novelista, havia posto algumas reservas, naturalmente provindas duma formação cultural autodidática (no superior sentido!), ao seu livro de estreia, Perseguição (cf. Seara Nova, nº. 798, de 28-XI-42), e, mais tarde, à Coroa da Terra, também de poemas (cf. Diário de Lisboa, 19-VI-46). Apesar de ambos se estimarem e admirarem, João Pedro de Andrade, com a isenção que lhe era peculiar, tornaria a não se mostrar incondicional de Sena, agora enquanto autor, este, da peça em verso O Indesejado (António, Rei) (cf. Seara Nova, 05-IV-52; reprod. em Reflexões sobre o Teatro Português, Lisboa, ed. Acontecimento, 2004, pp. 100-107). O dramaturgo respondeu-lhe, na mesma revista, n.º 1252-53, de 31-V-1952, seguido de comentário de J. P. de Andrade (apud J. Fazenda Lourenço e F. G. Williams, Uma Bibliografia Cronológica de Jorge de Sena, Lisboa, I.N.-C.M., 1994, p. 102). Anteriormente, ainda na Seara Nova, nº 1248-49, de 29-III-52, Sena manifestara, ao “retomar sozinho” (?) as “crónicas de teatro que durante tanto tempo […] [partilhara] com J. P. de A.”, “o [seu] apreço pelo crítico honesto – e pelo dramaturgo de mérito […]“; reprod. em Jorge de Sena, Do Teatro em Portugal, Lisboa, Ed. 70, 1989, p. 153. Em 1969, num ensaio acerca de “A Crítica Portuguesa no Século XX”, inclui João Pedro de Andrade, muito justamente, nos críticos “mais abertos [nas hostes neorrealistas] a uma compreensão menos proselítica da literatura”, colocando-o, nesse contexto, a par de Joel Serrão e Mário Sacramento (cf. Estudos de Literatura Portuguesa – III, Lisboa, Ed. 70, 1988, p. 102).

 

 

De Rita Azevedo Gomes

A cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes, realizadora, entre outros, do premiado filme “A vingança de uma mulher”, tem como próximo projeto cinematográfico a sua leitura pessoal da correspondência trocada entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen. É sobre isto que aqui nos fala. 

 

De F.S.S

Disponibilizamos abaixo a entrevista radiofônica ao organizador do volume de Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões, no programa “À volta dos livros“, transmitido dia 28 de junho de 2013. Complementando a entrevista, um depoimento mais pessoal sobre o convívio de F.F.S. com Jorge, Mécia e com suas obras literárias. 

 

 

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Eu estou profundamente grato à Mécia por ter confiado em mim, por me ter dado essa oportunidade extraordinária de editar uma fração tão importante do espólio seniano.

O meu interesse pela obra do Jorge começou por alguma identificação temperamental com ele. Foi o primeiro poeta que me marcou no Liceu, tinha eu uns 15 anos e me puseram seus livros nas mãos. Até hoje eu sei de memória alguns poemas e traduções dos XX Séculos… Mais tarde, professor universitário de Cultura Portuguesa, escolhi e propiciei aos meus alunos poemas senianos com o entusiasmo que se adivinha. Admirei o crítico lúcido do regime saído de 1974, algo que era quase um tabu em Portugal, mas que tinha, infelizmente, precedentes históricos recorrentes, não fosse outro grande lúcido, Fialho de Almeida, ter escrito no rescaldo da revolução republicana: “hemos de convir que afinal o começo deste regime novo cheira diabolicamente ao fim do velho”… Frase que bem poderia ser do Jorge – foi rara a visão, rara a coragem, rara a independência de espírito que ele demonstrou face aos poderes novos, velhos e de sempre.

E a Mécia revelou-se uma personalidade ao nível da do marido – se é que o caso Mécia de Sena não é mesmo mais admirável que o do Jorge. Eu aprendi muito com as edições dela, que considero a Grande Senhora da epistolografia portuguesa e que é autora de cartas admiráveis de humanidade – e até de alguma parte da obra epistolar (e não só…?) que passa por ser do Jorge. Juntos marcaram dois dos meus começos: ele, as primícias da minha vida poética – e ainda hoje a minha poesia me sai bastante à la Jorge de Sena –; ela, os honrosos inícios da editorial. E me comove que a Mécia sempre faça questão de mencionar que se lembra de mim desde os meus 8 anos de idade…
Apesar dos condicionantes que se lhes reconhecem e das dificuldades pelas quais passaram, os dois se ergueram à altura de modelos para qualquer tempo, em qualquer latitude, um Casal à dimensão dessa Obra diferente e necessária, agentes de um tempo novo, de uma possível mentalidade pós-burguesa que afinal não vingou – pois que é uma herança renegada nos tempos atuais de conformismo e de hipocrisia, de moralismo e mesquinhez.

A ambos o meu “Muito Obrigado” e o “Sempre ao Vosso Dispor”.

 

F. S. S.

De Sofia de Sousa Silva

Sofia de Sousa Silva é professora de Literatura Portuguesa na UFRJ e aqui nos expõe algumas considerações sobre a correspondência trocada entre os amigos Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen — autora à qual se dedicou em sua tese de Doutorado. De toda a correspondência editada que tem Jorge de Sena como interlocutor, certamente foi este volume, lançado em 2006, o que alcançou mais sucesso de público e vendas, posto que já se encontra em 3a. edição. 

 

De Luci Ruas

Luci Ruas, professora de Literatura Portuguesa na UFRJ, nos traz de viva-voz seus comentários sobre a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Vergílio Ferreira — autor que exaustivamente estudou em sua tese de Doutorado. A este volume, de 1987, que reúne o carteio dos dois escritores dedicou ensaio que já aqui reproduzimos

 

 

Leia mais:

De Stephen Reckert

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Grande amigo de Jorge de Sena, incumbiu-se o lusitanista Stephen Reckert de lhe escrever o necrológio para The Times. Marcando o 35º ano de falecimento do escritor, cumprido em 4 de junho de 2013, aqui o transcrevemos (a partir dos Estudos sobre Jorge de Sena, org. Eugénio Lisboa,IN-CM, 1984, p. 490-1).

Norte-americano de nascimento, o Prof. Reckert cursou universidades inglesas e nelas prioritariamente desenvolveu sua profícua atuação acadêmica, vindo a ser titular da Cátedra Camões da Univ. de Londres de 1967 a 1982, quando se jubilou. Renomado estudioso de Gil Vicente, alargou a outros séculos e autores seu olhar crítico, ensejando convites como Pesquisador e Professor Visitante em várias universidades européias, inclusive as portuguesas. Falecido em janeiro de 2013, legou-nos importantes livros e ensaios sobre temas medievais, renascentistas e oitocentistas.

 

JORGE DE SENA

 

A morte de Jorge de Sena, aos 58 anos, priva Portugal do seu mais destacado académico e de um dos melhores poetas modernos. Sena era uma figura de dimensões invulgares: e era-o inconfortavelmente para o «establishment» cultural do seu país, que só lentamente foi reconhecendo a sua estatura, mesmo depois da revolução. A Ordem de Henrique o Navegador e a Grã-Cruz de Santiago no leito de morte ajudaram a corrigir a desatenção inicial, mas a candidatura ao Nobel, lançada imediatamente antes de a doença o atingir, teve a sua origem em Londres, no King’s College, que visitara anualmente nos últimos dez anos. Veio pela última vez à Europa em 1977 para receber o prémio de poesia Etna-Taormina.

Mesmo ocupando simultaneamente duas cátedras na Califórnia, nunca se ajustou à imagem convencional do dirigente académico, e o seu maior êxito erudito foi revelar Camões não como um respeitável monumento nacional, mas como um dos poetas europeus mais complexos e subversivos. Ele próprio um formidável touro no armazém de louça sufocante que foi Portugal durante a maior parte da sua vida, escreveu alguma da poesia de amor mais ultrajantemente explícita da sua língua («não, não pornográfica», explica pacientemente ao censor, «simplesmente obscena»); um punhado de novelas e de contos terão também lugar duradouro na literatura de língua portuguesa. Como engenheiro, Sena fez parte, antes do seu exílio para o Brasil, em 1959, da equipa que planeou a grande ponte sobre o Tejo, em Lisboa.

A força serena de sua mulher e seu suporte intelectual, durante 30 anos, Mécia, amparou-o na sua doença final, contra a qual lutou com a mesma raiva lucidamente sardónica que sempre desferira contra outras indignidades: hipocrisia, estreiteza de vistas, injustiça. Para ela e para os seus nove filhos vão o amor e simpatia dos amigos de quatro continentes para quem uma luz se apagou.

 

(in The Times, 13 de Junho de 1978.)

De Horácio Costa

Poeta, crítico e professor da USP, Horácio Costa é autor de diversos artigos e estudos sobre a poesia de Jorge de Sena, mas também de versos a ele dedicados. E é justamente com um poema que se inicia este seu depoimento, em que o poeta, o professor e o crítico se unem para falar de Sena.

 

De José Augusto Cardoso Bernardes

José Augusto Cardoso Bernardes, Professor Catedrático de Literatura Portuguesa na Universidade de Coimbra, e atual diretor da magnífica Biblioteca joanina, aqui nos traz seu depoimento sobre Jorge de Sena, no qual tanto destaca, com olhar crítico, os estudos camonianos que Sena nos legou, como o romance e o filme Sinais de Fogo — estes também evocados com base em sua particular vivência na Figueira da Foz.

 

 

Cabecinha de Milreu

 

Nas escavações da villa romana de Milreu, ou ruínas de Estói (distrito de Faro, Algarve), iniciadas já em fins do século XIX, dentre outras preciosidades, vieram à luz esculturas em mármore, com destaque para os bem conservados bustos imperiais, como os de Agripina e Adriano, hoje expostos no Museu Infante D. Henrique, de Faro. No entanto, a peça que mais chamou a atenção de Jorge de Sena, de apenas 29 cm. de altura, merecendo-lhe o poema de Metamorfoses, encontra-se hoje no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa (havendo uma réplica em Faro) assim descrita (em http://www.mnarqueologia-ipmuseus.pt/?a=3&x=3&i=12):  "Cabeça-retrato de uma jovem mulher, bem modelada, de traços expressivos e grande naturalidade. Tem o nariz fragmentado e pequenas falhas na superfície do queixo e do pescoço. É um bom retrato, realista, de feições correctas, tecnicamente bem executado, boca ligeiramente torcida, de lábios salientes e nariz arrebitado, mostrando secura e decisão. Ostenta um característico penteado em "ninho de vespa", a testa curta quase desaparece sob o diadema formado por uma cadeia tripla de caracóis sobrepostos, que as damas romanas mandavam armar sobre uma rede de fio ou de metal, e na parte anterior da cabeça uma mecha de cabelo enrosca-se em largo carrapito sobre a nuca descobrindo as orelhas. A moda deste penteado foi criada por Júlia filha de Tito e esposa de Domiciano, no período flaviano, tratando-se talvez mesmo de um retrato da própria imperatriz. Esta escultura terá feito parte de um busto ou mesmo de uma estátua hoje desaparecida. Proveniente da villa romana de Milreu, este retrato espelha da melhor forma a riqueza, importância e a plena actualidade e inserção socio-política das elites municipais da Lusitânia meridional em finais do século I - inícios do século II d.C., adoptando posturas e modas estereotipadas de evidente prestígio pela sua conotação com a casa imperial".  Homenageando Jorge de Sena, a Junta da Freguesia de Estói inaugurou, em 25 de abril de 2010,  um painel de azulejos na Rua da Barroca com a reprodução do poema, tendo ao lado, em placa acrílica, a versão em língua inglesa, com a foto e dados biográficos do autor.
Nas escavações da villa romana de Milreu, ou ruínas de Estói (distrito de Faro, Algarve), iniciadas já em fins do século XIX, dentre outras preciosidades, vieram à luz esculturas em mármore, com destaque para os bem conservados bustos imperiais, como os de Agripina e Adriano, hoje expostos no Museu Infante D. Henrique, de Faro. No entanto, a peça que mais chamou a atenção de Jorge de Sena, de apenas 29 cm. de altura, merecendo-lhe o poema de Metamorfoses, encontra-se hoje no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa (havendo uma réplica em Faro) assim descrita (em http://www.mnarqueologia-ipmuseus.pt/?a=3&x=3&i=12): “Cabeça-retrato de uma jovem mulher, bem modelada, de traços expressivos e grande naturalidade. Tem o nariz fragmentado e pequenas falhas na superfície do queixo e do pescoço. É um bom retrato, realista, de feições correctas, tecnicamente bem executado, boca ligeiramente torcida, de lábios salientes e nariz arrebitado, mostrando secura e decisão. Ostenta um característico penteado em “ninho de vespa”, a testa curta quase desaparece sob o diadema formado por uma cadeia tripla de caracóis sobrepostos, que as damas romanas mandavam armar sobre uma rede de fio ou de metal, e na parte anterior da cabeça uma mecha de cabelo enrosca-se em largo carrapito sobre a nuca descobrindo as orelhas. A moda deste penteado foi criada por Júlia filha de Tito e esposa de Domiciano, no período flaviano, tratando-se talvez mesmo de um retrato da própria imperatriz. Esta escultura terá feito parte de um busto ou mesmo de uma estátua hoje desaparecida. Proveniente da villa romana de Milreu, este retrato espelha da melhor forma a riqueza, importância e a plena actualidade e inserção socio-política das elites municipais da Lusitânia meridional em finais do século I – inícios do século II d.C., adoptando posturas e modas estereotipadas de evidente prestígio pela sua conotação com a casa imperial”. Homenageando Jorge de Sena, a Junta da Freguesia de Estói inaugurou, em 25 de abril de 2010, um painel de azulejos na Rua da Barroca com a reprodução do poema, tendo ao lado, em placa acrílica, a versão em língua inglesa, com a foto e dados biográficos do autor.

 

Jorge de Sena no Tejo

Jorge de Sena dá nome a uma das novas embarcações que cruzam o Tejo. Apesar de excluído da Marinha, é como se continuasse a navegar -- agora sobre as águas que bem conheceu como engenheiro, ao integrar, a partir de 1953, o Serviço de Pontes da JAE e sua Comissão para o Estudo das Ligações Rodoviárias e Ferroviárias entre Lisboa e a Margem Sul do Tejo.
Jorge de Sena dá nome a uma das novas embarcações que cruzam o Tejo. Apesar de excluído da Marinha, é como se continuasse a navegar — agora sobre as águas que bem conheceu como engenheiro, ao integrar, a partir de 1953, o Serviço de Pontes da JAE e sua Comissão para o Estudo das Ligações Rodoviárias e Ferroviárias entre Lisboa e a Margem Sul do Tejo.

Sinais de Jorge de Sena e outros escritores portugueses contemporâneos

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1998 foi um ano marcado pelas celebrações em torno do vigésimo aniversário da morte de Jorge de Sena. Entre os eventos realizados pela comunidade acadêmica brasileira, merece especial destaque a exposição “Sinais de Jorge de Sena e outros escritores portugueses contemporâneos”, realizada no campus de Araraquara da UNESP entre 31 de agosto e 4 de setembro. Elaborada em parceria com dois eventos, um na própria UNESP (Congresso Internacional “Sinais de Jorge de Sena”, de 30/08 a 02/09) e outro no Rio de Janeiro, produzido pelo Real Gabinete Português de Leitura e a UFRJ (Colóquio Internacional “Jorge de Sena e outros escritores portugueses num Brasil recente”, de 25 a 27 de agosto), a exposição apresentou diversos painéis com a vida e a obra de Jorge de Sena e seus contemporâneos. Reproduzimos aqui os painéis diretamente ligados a Jorge de Sena, ressaltando que todos esses, bem como os demais painéis que compunham a exposição, encontram-se disponíveis em http://www.fclar.unesp.br/centrosdeestudos/jorgesena/paineis.htm, página do Centro de Estudos Jorge de Sena, da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP e ainda, parcialmente, em http://www.iel.unicamp.br/cedae/Exposicoes/Expo_JSena/index.html .

 

De Luís Maffei

Ainda no rastro da rememoração de mais um aniversário de Jorge de Sena, o poeta e docente de Literatura Portuguesa na Univ. Federal Fluminense (Niterói, RJ), Luís Maffei, nos traz seu depoimento de leitor fiel e entusiasta das páginas de nosso escritor.

 

De George Monteiro

Já aqui, reproduzimos a crônica “Em Providence, com os minotauros“, de Onésimo Teotónio Almeida, em que é mencionada uma fotografia do que teria sido o último encontro entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões. Publicado o texto e a dita foto, recebemos uma mensagem e uma surpresa: um poema inédito, escrito há alguns anos por George Monteiro, inspirado pela mesma imagem. Originalmente em inglês (apesar do título), apresentamos aqui o poema, gentilmente cedido por seu autor, acompanhado de tradução por ele autorizada. 

 

GM

 

As Aparências Não Iludem

To me he will never be entirely the robust figure
that shows forth in the photographs, for on the one
occasion when I was with him over two or three days,
he was slim and dry, bony and wrung-out, talking about

Pessoa as the predictive avatar of the concocted courier
the British salted in the sea off Spain to mislead the Nazis.
This emaciated, old-before-his-time poet, already sick
with the sickness that would in less than a year put him

in his grave, is the one who (to me) wrote all the poems,
all the stories, the criticism, and (my God!) all the letters.
The man in his last year—gaunt, hollow-cheeked, wearing
the tam that had by then become a bit too-big-for-him—is

to me the one who dated his manuscripts and drafts (but of
course there were no drafts). Here was the essential man,
parboiled and, more, still simmering. See him in the photo
with Gaspar Simões, generals talking war and rumors of war.

Windham, CT August 19, 2010

 

Para mim ele jamais será a figura robusta
que demonstra nas fotografias, pois na única
ocasião em que estive com ele por dois ou três dias,
era magro e seco, ossudo e torcido, falando de

Pessoa como o profético avatar do mensageiro inventado com que
os ingleses salgaram o mar da Espanha para enganar os nazistas.
Este poeta emaciado, velho-antes-da-hora, já doente
com aquilo que o levaria em menos de um ano

ao túmulo, é aquele que (para mim) escreveu todos os poemas,
todos os contos, a crítica, e (meu Deus!) todas as cartas.
O homem em seu último ano – esquálido, de rosto encovado,
vestindo a boina já então um tanto grande demais para ele – é

para mim aquele que datou seus manuscritos e rascunhos (mas,
é claro, não havia rascunhos). Aí estava o homem essencial,
escaldado e, mais, ainda fervendo. Vê-lo numa foto
com Gaspar Simões, generais discutindo a guerra, os rumores da guerra.

(Trad. Luciana Salles)

De Onésimo Teotónio Almeida

Na revista LER de outubro/2012, a crônica-testemunho de Onésimo Teotónio Almeida relembra, com seu habitual bom-humor, o que seria o último encontro de Jorge de Sena e João Gaspar Simões, felizmente efusivo, durante o 1º colóquio internacional sobre Fernando Pessoa, em 1977. E, generosamente, o cronista cede-nos a foto que menciona. A completar o clima de confraternização que desta ressuma, sugerimos a leitura do artigo, com menções pessoanas, que JGS dedica a JS, já depois do falecimento deste. (ver em Jorge de Sena “Estrangeirado”)

 

JSenaJGSimoes.jpg

Arriba-me um e-mail com pedido. Alguém de longe quer dados sobre o relacionamento entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões. Dirige-se-me por saber que estiveram ambos em Providence, no que foi o primeiro colóquio internacional sobre Fernando Pessoa, em outubro de 1977, a última aparição pública de Sena. Procura memorabilia, fotos, se existirem, e estórias. Destas tenho q.b., pois fui motorista e guia deles por estas paragens. Gaspar Simões, já na casa dos oitenta, farto de ouvir o respeitável e supererudito Sena que, ensinando obsessivamente, não dava tréguas aos ouvidos de ninguém ao seu redor, segredou-me ao fim de dois dias: «Já não posso mais! Vamos aí a um centro comercial ver umas moças!»

Íamos a caminho de New Bedford para uma entrevista na rádio portuguesa local, a WJHJ-EM, e eu bem que espreitava uma aberta para explicar «Aqui vive a maior comunidade portuguesa», «Ali em Dighton há um monumento que assinala a suposta primazia lusa», e Sena, ininterrupto, seguia explicando a Simões tudo sobre a literatura da Nova Inglaterra. Eu mencionava New Bedford e ele lembrava Melville, eu Boston e ele Henrv James, eu apontava o verde denso das matas e ele, Henry David Thoreau e o Walden. A Mécia, sua mulher-e-seu-tudo repetia-lhe insistente e suplicante «Jorge cala-te! Não te podes cansar assim tanto e sabes isso muito bem!», e o Jorge sem nunca fazer caso.

Já cá estava Gaspar Simões quando Sena chegou. Levei-o connosco quando, com o George Monteiro e outros colegas, fomos esperá-lo ao aeroporto. Ao encontrar-se com Sena, caíram nos braços um do outro (não se falavam há muito, suponho que por via de uma nicada de Simões em crítica no Diário de Notícias, onde pontificava às quintas-feiras).

O abraço de paz redundou em conversa fiada entre ambos; Sena no controlo perene do verbo na proporção de 10-1 desancando na pátria, e ambos nos ausentes, como só os portugueses sabem fazer porque no estrangeiro caem em amplexos e saltam de imediato a descascar no Retângulo, que amam e odeiam com carinho e devoção. Nós, circunstantes, resignadamente calados à espera de eles perceberem ser tempo de irmos à vida, mas tive de ser eu, malcriado já na altura, a interromper o enleio.

Dei notícia ao meu correspondente internético de termos emoldurada na sala de conferências do Departamento uma foto dos dois em abraço e recebi a reação satisfeita num e-mail, no momento em que ia para a mesa de almoço com um amigo de engenharia, de literatura apenas amador. Não surgiu qualquer razão para lhe falar no caso. No final, ao despedir-me, parou-me porque quase se esquecera de algo. Queria entregar-me uma fotografia. Tinha-a lá em casa há décadas e achava que, se alguém poderia ter interesse nela, seria eu: era do conferencista que abriu o simpósio sobre Pessoa na Brown, precisamente João Gaspar Simões. Agarrei no iPhone e abri-o para lhe mostrar a mensagem que, nem de propósito, acabava de receber a pedir memorabilia. E quando, horas depois, emailei ao George a inquirir se guardara correspondência, reagiu imediatamente, estupefacto, porque ainda naquela mesma manhã, ao preparar uma coletânea de textos para um livro, decidira escrever justamente sobre esse evento.

E para fechar: porque o simpósio pessoano ganhou relevo, o Senado de Rhode Island resolveu declarar «Dia de Fernando Pessoa» o da abertura do dito. Quando telefonaram a perguntar se o Sr. Pessoa já tinha chegado de Portugal, pois gostariam que dirigisse umas palavrinhas ao Senado, ficaram desapontados ao saber da morte do poeta 42 anos antes. Mas não houve problema. A americana, decidiram democraticamente alterar o nome no diploma, declarando aquele dia o João Gaspar Simões Day. Contente, o crítico levou o papiro de souvenir.

Chronicae non fingo, concluo eu a parafrasear Newton, que dizia não inventar hipóteses.

Filmografia: a vida e a ficção senianas levadas às telas

Deixando de lado inúmeros “clips” do Youtube, videos (como “JS reads his poems“) e documentários televisivos (como o da série “Grandes Livros” dedicado ao romance Sinais de Fogo) que já integram os arquivos deste site, listamos abaixo os filmes relativos a Jorge de Sena que ganharam os ecrãs de cinemas ou cinematecas. Sem dúvida, um saldo muito positivo na abordagem audiovisual do autor e de sua obra — variados testemunhos expressos na linguagem da sétima arte.

 

SINAIS DE VIDA

Sinopse: Interessado pela obra de Jorge de Sena, Luís Filipe Rocha dedica dois anos (1982-1984) à preparação de Sinais de Vida — Breve Sumário da Vida e da Obra de Jorge de Sena, uma viagem pelos temas da obra do autor, nas áreas da poesia, da ficção e do teatro.

Ficha Técnica:
Realização: Luís Filipe Rocha
Roteiro: Luís Filipe Rocha
Produtor: Henrique Espírito Santo
Fotografia: João Abel Aboim
Edição: Ana Luísa Guimarães e Luís Filipe Rocha
Som: Carlos Alberto Lopes
Ano: 1984
Gênero: Documentário
Duração: 75’

Participações:
Luís Miguel Cintra
Clara Joana
Costa Ferreira
Lucinda Loureiro
José Wallenstein
São José Lapa
Pedro Wilson
Tiago Henriques
Mécia de Sena

 

OS SALTEADORES

Sinopse: Dentro de um carro, numa viajem à noite ao longo da costa portuguesa, nos anos 50, ouve-se uma discussão sobre a identidade de um grupo de homens, capturados e mortos há alguns anos no decorrer da guerra civil espanhola. (Abaixo integralmente reproduzido)

Ficha Técnica:
Realização: Abi Feijó
Roteiro: Abi Feijó, Sérgio Andrade
Produtor: Jorge Neves, Filmógrafo
Fotografia: Martin Koscielniak, Pedro Serrazina
Música: Tentúgal
Animação: Filmógrafo
Técnica de animação: desenho em grafite
Ano: 1993
Gênero: Animação (Curta-metragem)
Duração: 14’

Vozes:
António Paulos
João Paulo Seara Cardoso
Jorge Mota
Raul Constante Pereira

 


SINAIS DE FOGO

Sinopse: Portugal, Julho 1936. A ditadura de Salazar está consolidada e controla totalmente o país.Um grupo de adolescentes passa as suas férias de Verão na Figueira da Foz. Do outro lado da fronteira começou aGuerra Civil da Espanha e, apesar da distância, a sua violência vai repercutir-se na vida destes jovens, lançados num turbilhão de intrigas políticas e paixões desencontradas que marcará tragicamente a sua passagem à idade adulta.

Ficha Técnica:
Realização: Luís Filipe Rocha
Argumento: Luís Filipe Rocha e Izaías Almada
Produtor: Tino Navarro
Música: Enrique X. Macías
Ano: 1995
Género: Romance, Drama
Duração: 101’

Elenco:
Diogo Infante (Jorge)
Ruth Gabriel (Mercedes)
Marcantonio Del Carlo (Ramos)
José Airosa (Rodrigues)
Rogério Samora (Almeida)
Henrique Viana (Tio)
Caroline Berg (Tia)
Manuel Pereiro (D. Juan)
Alberto Arizaga (D. Fernando)
Joaquim Leitão (Oficial do Partido)
Álvaro Correia (Matos)
Mário Redondo (Macedo)
Miguel Assis (Rufininho)
Glicínia Quartin (Mãe da Tia)
Cristina Carvalhal (Criada)

 

ERROS MEUS

Sinopse: Camões, na velhice, é um homem doente, sifilítico, praticamente incapaz de se movimentar, de tomar conta de si próprio, de suportar as dores que o achacam (é a mãe que cuida dele). Sofre da nostalgia da sua juventude e da debilidade física em que se encontra. Constantemente atormentado pelos credores, por gente que lhe encomenda trabalhos de que nem sempre gosta, mas que tem de aceitar por subsistência, perseguído pela loquacidade desconcertante da mãe, pela doença, pela recordação das venturas e deboches do passado, suporta e cala. Mas quando se encontra sozinho no silencio da noite, há uma voz sobrenatural que fala de dentro dele e dita imperiosamente. Adaptação do conto “Super flumina babylonis”, de Jorge de Sena.

Ficha Técnica:
Realização: Jorge Cramez
Argumento: Jorge Cramez
Fotografia: Mario Masini
Som: Pedro Melo e Branko Neskov
Edição: Pedro Marques
Ano: 2000
Género: Curta-metragem
Duração: 12’

Elenco:
Luís Miguel Cintra (Camões)
Isabel Ruth (Mãe)

 

O ESCRITOR PRODIGIOSO

Sinopse: Um documentário sobre o escritor português Jorge de Sena. Pela voz da sua mulher, Mécia de Sena, e na sua casa em Santa Bárbara, Califórnia, Estados Unidos da América, vai cruzar-se a sua vida de escritor, pai de família, professor e português exilado, com a obra que deixou, com as memórias do tempo em que viveu, memórias social, política, literária e familiar.
“O Escritor Prodigioso” é a procura de Jorge de Sena, um dos mais importantes poetas portugueses, trinta anos após a sua morte. Com este filme a realizadora busca os motivos pelos quais a voz do poeta nos chega, ainda hoje, forte, amargurada, afirmativa e de uma intensidade lírica única. Coma ajuda da sua mulher, Mécia, e de alguns dos seus amigos e companheiros políticos e literários, somos levados a perceber as razões pelas quais este poeta maior foi mal amado pelo seu país, sendo embora respeitado e temido.

Ficha Técnica:
Realização: Joana Pontes
Produção: Laranja Azul
Ano: 2005
Gênero: Documentário
Duração: 62’

Participações:
Mécia de Sena
Fernando Lemos
Helder Macedo
José Saraamgo
José Augusto França
Eduardo Lourenço
João Bénard da Costa

From the interview in “O Tempo e o Modo” (1968)

For the June 10, 1979 celebrations of the “Day of Portugal, Camões, and the Portuguese Communities,” the Secretaria de Estado da Cultura published a compact anthology titled Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena. Eugênio Lisboa was responsible for the selection of texts. Included was this paragraph extracted from the interview Sena accorded the journal O Tempo e o Modo in 1968. The excerpt bears the editorially provided title of “Auto-exame.” The translation, done more than thirty years ago, has not been previously published.

Em celebração ao “Dia de Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas”, em 10 de junho de 1979, a Secretaria de Estado da Cultura publicou uma breve antologia intitulada Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena. Eugênio Lisboa foi o responsável pela seleção dos textos. A edição incluiu este parágrafo extraído da entrevista concedida por Sena à revista O Tempo e o Modo em 1968. O excerto recebeu o texto editorial de “Auto-exame”. A tradução, feita há mais de trinta anos, nunca havia sido publicada.  
SELF-ANALYSIS

I am not myself one of my more steadfast admirers. The only reason, it appears, that I proclaim my talent at every opportunity is that, until recently, if I did not do so, no one else would; and given that I’m acutely sensitive to injustice in all its forms, should I allow injustice to work with impunity in my own case? Very few Portuguese writers of merit owe as little to the critics as I do. From every corner the rule for nearly thirty years has been either to remain totally silent or to under-evaluate. Where is that body of commentary on my work for the past thirty years? With rare, if notable, exceptions, I have been for years honored by nothing more than some book dedications or the receipt of personal letters, admiring and devoted, to be sure. But where on my behalf has been the equivalent of that great public acclaim accorded to my illustrious comrades? Every once in a while, there will be a tantalizing bit in some preface or other, or some grudging praise in a work of literary history. That is the most that I get, while mediocrities get great acclaim because they are sufficiently reactionary, or, sufficiently “one of them,” are garlanded with flowers. Grant it that I do not believe in immortality of any kind, that I’m sufficiently well informed to know that cemeteries are the real libraries and the true literary histories, and grant it as well that I’m not given to playing at what partisanship offers as a sub-stitute for immortality-—the illusion of immortality—and it will become crystal clear why I insist on recognition for the widespread good I have done. To tell you the truth, I detest false modesty. But even more than that, I abhor that mediocrity which will not allow itself to recognize excellence. No, I am not one of my more secure admirers. If I were, I would be like the majority of those living the Portuguese literary life, so utterly self-satisfied with themselves that each one of their books is worse than the last. The problem is not that I think I am so great but that the others, the majority of them, are such small fry. But one thing more: I should say a word in all justice and with grateful recognition about many of the lesser fry, those who do not insist that they are great, and to whom for many years I failed to extend even a single word of re-ciprocal praise, and who in honesty and impartiality, paid more at¬tention to me than did the official criticism emanating from all public sources, individually and collectively. To them, for a long time, I have owed thanks for the touching initiative, one that too often I did not accept as coming from friends. And I want to ask one last question, How many great writers have spent as much of their time working on behalf of so many of their contemporaries as I have over the past thirty years’? How many, I ask? The most that the “others” have done is to praise some piece of mediocrity or, occasionally, dig up some dead man, fearing that otherwise he might cast a shadow upon them. The difference between me and them is that I fear no future judgment, and that I make no attempt to catch sunlight in a sieve. Not at all. My self-confidence is total; it is absolute. No one can destroy me, unless I do the job myself.

 

AUTO-EXAME
Não sou [um dos seus mais seguros admiradores]. A única razão pela qual parece que eu proclamo a cada instante o meu talento é porque, até muito recentemente, se eu o não fizesse, ninguém o faria. E, se eu sou agudamente sensível a todas as formas de injustiça, haveria de deixar que ela se exercesse impunemente comigo? Poucos escritores portugueses de relativo mérito deverão tão pouco à crítica como eu. De todo os sectores, o silêncio ou o amesquinhamento foram de regra durante quase trinta anos. Onde está a bibliografia a meu respeito durante trinta anos? Com raras e dignas excepções, eu, durante anos, recebi apenas dedicatórias de livros ou cartas particulares, ou devotadamente admiradoras, mas onde estão os equivalentes públicos de tanta admiração dos meus ilustres camaradas? Uma ou outra dentada em prefácio, quando muito. Elogios «à contre–coeur» em histórias literárias é o mais que eu recebo, quando notórios medíocres são coroados de flores, por serem suficientemente reaccionários, ou suficientemente «dos nossos». Dado que eu não acredito em nenhuma forma de imortalidade, e tenho erudição bastante para saber que cemitérios são as bibliotecas e as histórias literárias; e dado ainda que não me dou a participar de partidarismos que me ofereçam, por substituição, a ilusão da imortalidade, será bem clara a razão de exigir o reconhecimento que me cabe pelo muito e bom que tenho feito. Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida literária portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos que escrevem sempre um livro pior do que o anterior. O problema não está em eu me considerar muito grande — mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. De resto, devo acrescentar uma palavra de justiça e de grato reconhecimento: foram muitos dos pequenos que não se julgam grandes, e aos quais durante anos não dei nem uma palavra de correspondente louvaminha, quem honestamente, e com isenção, se ocupou mais de mim do que a crítica oficial das várias chafaricas individuais ou colectivas. A eles devi, por muito tempo, um comovente incentivo que muitas vezes não recebi de amigos. E, ainda, quero fazer uma pergunta: quantos escritores de categoria se têm ocupado tão largamente e tão numerosamente dos outros seus contemporâneos, como eu fiz durante trinta anos? Quantos? O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.

 

De uma entrevista concedida à revista O Tempo e o Modo, n.° 59, Moraes Editores, Lisboa, Abril de 1968.

De António Carlos Cortez

 

* Professor de Literatura Portuguesa, crítico e ensaísta, é colaborador permanente, com crítica de poesia, no Jornal de Letras, nas revistas Colóquio-Letras (Fundação Calouste Gulbenkian), Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava), Agio (Ed. Artefacto), Pessoa – revista da Casa Fernando Pessoa e Letras Convida – revista de artes, literatura e cultura do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador pelo mesmo centro, CLEPUL, e do Instituto de Estudos do Modernismo, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Publicou cinco livros de poesia – Ritos de Passagem, 1999; Um Barco no Rio, 2002; A Sombra no Limite, 2004; À Flor da Pele, 2008 e em 2010, Depois de Dezembro (Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores / RTP – melhor livro de poesia de 2010). Em 2005 publicou Nos Passos da Poesia – estudos sobre a pedagogia do texto lírico. É conselheiro para a leitura do Clube UNESCO, em Portugal. Prepara doutoramento em Estudos Portugueses – poesia contemporânea (sobre a poesia de Gastão Cruz).

De Ana Luisa Amaral

Ana Luisa Amaral, poetisa e professora da Universidade do Porto, reaparece em nosso site — agora com o seu testemunho de especial leitora crítica e criativa de Jorge de Sena. Sendo uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa contemporânea, debruça-se sobre nosso autor e, vincando sua dicção feminina, o recria em seus belos versos.

 

De Carlos Drummond de Andrade

Na exemplar crônica-necrológio “Jorge de Sena, também brasileiro”, o poeta de Claro Enigma recorda Sena e sua passagem pelo Brasil.

Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade encontraram-se algumas vezes no Brasil, solidificando uma amizade que se iniciara epistolograficamente. Como prova de inquestionável admiração, também perceptível nos textos críticos que lhe dedicou, o poeta português chegou mesmo a agir, debalde, em prol de uma indicação do poeta mineiro ao Nobel. Com o comedimento que lhe é peculiar, Drummond deixa claro neste necrológio, além de seu grande apreço pelo confrade, um sentido de perda que largamente ultrapassa a esfera das relações pessoais.

 

 JORGE DE SENA, TAMBÉM BRASILEIRO.

«Morreu um dos raros portugueses universais do nosso tempo» — disse em Lisboa o poeta Eugénio de Andrade, ao comentar o falecimento de Jorge de Sena em hospital de Santa Bárbara, na Califórnia. E disse bem, mas poderia chamar-lhe igualmente «um dos raros brasileiros universais do nosso tempo». Porque Jorge de Sena tinha duas nacionalidades. Nascido em Lisboa, e formado culturalmente na Europa, tornou-se cidadão brasileiro por força da áspera condição que a ditadura salazarista impunha aos intelectuais não submissos, e aqui leccionou em cursos universitários. Como certa vez eu o declarasse brasileiro pelo sentimento, corrigiu-me em carta de 1972:

«Olhe que não sou brasileiro apenas pelo sentimento. Sou cidadão brasileiro desde 1963 (naturalização requerida em 1962, e que só saiu em princípios do março de 1965, por se não saber em Brasília, nas confusões da época, parlamentarismo, etc., quem assinava o decreto… que foi ainda o Goulart quem assinou e que está depositado em Araraquara, aonde a recebi), nacionalidade que mantenho, passaporte que possuo. O que no Brasil nunca foi muito público, por não se acreditar na nacionalização brasileira de portugueses que não sejam o padeiro da esquina. Por isso é que sempre me apresento como escritor português, cidadão brasileiro e professor norte-americano. Mas as minhas lealdades não são triplas e sim duplas, no que não vejo incompatibilidade alguma (para lá do respeito que devo às instituições do país que me emprega e onde vivo). No plano cultural e de amor aos países (amor bastante infeliz, porque a luso-brasilidade é uma raça danada), já que no plano político não a devo tecnicamente a Portugal. Este é que me deve a mim.»

Esta situação curiosa, quer civil quer psicológica, mostra como os regimes políticos de excepção podem influir no destino das pessoas jogando-as à mercê dos ventos num mundo gerido por fórmulas burocráticas e incompatibilidades políticas. Jorge de Sena acabou sendo um exilado profissional, buscando aqui e ah elementos de vida e de estudo. Foi fiel à culturalidade portuguesa, e seus ensaios sobre Camões, Fernando Pessoa, a pintura, a música, a filosofia do país natal, comprovam a permanência de suas raízes, entrelaçadas com um pensamento supranacional que justifica o juízo de Eugénio de Andrade: Jorge foi mesmo um espírito universal, completamente livre de pressões e interesses de grupo literário, magisterial, classista ou nacionalista. Seu feitio áspero, polémico, atingindo a agressividade, o terá ajudado no exercício da independência, traço distintivo de sua vida de intelectual rebelde.

Havia muitos «eus» pensantes e sentintes em Jorge de Sena professor, poeta, contista, crítico literário e de artes plásticas, dramaturgo, historiógrafo, ensaísta… homem pulsante, inquieto, brigão, generoso, buscando conciliar pensamento e sensibilidade numa poesia que, ao beirar inicialmente o surrealismo, alcançou a criação verbal destituída de apoio etimológico e semântico, em proveito da livre sugestividade. Isto sem perder de vista as potencialidades de sarcasmo, sátira e revolta do verso. Há composições suas que parecem escritas em estado de fúria, em protesto contra a mediocridade, a burrice, a hipocrisia, a injustiça, mas ainda nelas observo menos um panfletário em verso do que um ser ferido pelos desregramentos do mundo, um ser que não se adapta e sofre com a falta de autenticidade das fórmulas e dos homens.

(Jornal do Brasil,  Caderno B, quinta-feira, 8 de Junho de 1978 - pág. 5) CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA
(Jornal do Brasil, Caderno B, quinta-feira, 8 de Junho de 1978 – pág. 5) | CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA

Faltou a Jorge de Sena uma pátria constante e receptiva, que agasalhasse o seu destino de intelectual e erudito a serviço exclusivo do espírito. Teve de procurar outra e mais outra, afirmando-se, porém, mas ao mesmo tempo mutilando-se na aventura de errar pelo mundo, servir-se de bibliotecas alheias, ter um pouso de ocasião em vez da morada estável que é hoje impossível para tantos escritores e sábios. Teve assim a sorte de espanhóis, russos, latino-americanos, inclusive brasileiros, e de muitos outros países, a quem a intolerância mudou ou truncou o programa de vida. Não se deixou vencer, mas pagou alto o direito de amar a liberdade da inteligência, preservando a consciência crítica. Imagino, entretanto, que nenhum «cidadão do mundo» se console realmente de, por uma ou outra razão, lhe haver faltado a consonância por assim dizer musical entre sua vida e sua terra de nascimento. Haverá muitas maneiras de superar o desencontro, mas resta sempre a tristeza de nos haverem roubado alguma coisa de inalienável. Mas Jorge de Sena foi, durante anos, exilado mesmo em Portugal. Esta a vida que lhe tocou viver, mas que ele encheu com as ocupações do magistério errante, de análise e da invenção literária e com o sarcasmo, o ácido penetrante de sua poesia, explodindo em revolta contra as mentiras do nosso tempo.

Não soubemos conservá-lo conosco, nem sequer chegamos a conhecê-lo na plenitude de seu espírito. Foi um professor que passou pelo Brasil, de 1959 a 1965. Mas que sonhou em dar ao Brasil, através da língua portuguesa, uma situação de prestígio na literatura mundial. Se não o conseguiu, não foi por omissão. Merece a nossa lembrança, embora tardia.

 

De Francisco Cota Fagundes

 

Francisco Cota Fagundes, Professor do Department of Languages, Literatures & Cultures — Spanish and Portuguese, na University of Massachusetts, Amherst, é, de longa data, um estudioso da obra de Jorge de Sena, tendo contribuído com numerosos e conhecidos títulos para a fortuna crítica do autor. Simultaneamente, tem promovido a expansão dos estudos senianos nos USA, quer através dos cursos, teses e dissertações acadêmicas sob sua orientação, quer através dos colóquios e publicações que organizou. Muito gentilmente, aqui nos traz seu testemunho sobre essa já larga convivência com o nosso autor prodigioso.

 

De Mécia de Sena

Os últimos momentos de Jorge de Sena, segundo sua viúva. O dorido relato de quem testemunhou o fim irremediável daquele a quem devotara a vida.

OS ÚLTIMOS MOMENTOS DE JORGE DE SENA

A noite foi horrível de sofrimento. Pelas seis da manhã telefonei para casa dizendo que era melhor que fossem. A vida fugia-lhe em cada minuto mas crescia a impaciência, a agitação. Agarrava-me constantemente pedindo-me ajuda ou levantava as mãos para mas colocar na minha cara onde às vezes nem forças tinha para chegar – as mãos descaíam-lhe antes de me tocar. A certa altura disse-me com ternura infinita: “Oh my little… little… little flower…

Os pequenos foram chegando. Ia-os reconhecendo. Quando todos estavam à volta da cama, agarrando-me mais uma vez, perguntou: “So many people… Am I dying?” Disse-lhe que era domingo, todos tinham vindo visitá-lo e, perguntando-lhe se os conhecia foi dizendo o nome de todos até que os olhos se lhe fecharam, ou a distância lhos não permitia reconhecer. Pelas nove horas o sofrimento e a agitação dele eram aflitivos apesar de o pulso se não sentir – o coração, esse sim, via-se pulsar, fortemente. Mandei chamar o médico para que lhe desse algo que lhe minorasse o sofrimento. Demorou e veio a besta-médica que nos olhava como se fôssemos todos pestilentos. Examinou-o brevemente e veio a enfermeira com uma injecção que pouco o acalmou – falava e gesticulava permanentemente, buscando as nossas mãos e depois claramente indicando que lhe incomodavam os tubos, pedia-me que o despisse – undress me.

Pelas dez horas mandei de novo chamar o médico – não podia mais vê-lo sofrer e ordenei que se lhe tirassem todos os tubos e remédios inúteis senão para lhe aumentar o sofrimento. Voltou o animal – já não se sentia o pulso nem quase acusava tensão arterial mas ainda se agitava e falava e ainda, vendo entrar o Panikar, lhe falou em espanhol. O Pedro não suportara mais – tinha que fazer no trabalho… A Mariana acocorara-se no chão. Deram-lhe outra injecção.

O Jorge entrou numa espécie de modorra. Gesticulava ainda uma vez por outra mais fracamente, balbuciava mas nada se ouvia até que comecei a ver-lhe voltar aquela sinistra cor esverdeada que já lhe vira duas vezes e um rictus incrível lhe baixou o lábio do lado esquerdo – vi uma mão que se estendia por sobre cabeças com um Cristo pequeno, de madeira. Coloquei-lho ao lado da cabeça. O P. Huerta tirou-lhe do dedo as alianças e pô-las na minha mão que tinha acabado de fechar-lhe os olhos – a minha vida, essa, foi contigo naquela atmosfera de total suspensão pesada e silenciosa.

De José Saramago

Profundamente emocionado morte Jorge partilho sofrimento família e tristeza do país inteiro” — eis as palavras do telegrama que Eduardo Lourenço enviou de Vence a Mécia ao saber do falecimento do amigo Jorge de Sena, aos 59 anos de idade, na Califórnia. O passamento ocupou o noticiário dos periódicos e várias crônicas-necrológios foram assinadas por significativos nomes da cultura em língua portuguesa, dentre os quais Carlos Drummond de Andrade, Vergílio Ferreira, José-Augusto França. Também José Saramago se deteve nessa morte, mas em texto que nega ser um necrológio, publicado no Diário de Lisboa, a 12 de junho de 1978, a seguir transcrito. Nele, evoca principalmente o Sena epistológrafo, o “possesso” no “Discurso da Guarda” e, acima de tudo, o “Português e desprezado”.

 

José Saramago

 

Como se sabe, José Saramago, pela Fundação que leva seu nome, promoveu a 10 de julho de 2008, uma concorrida sessão de homenagem a Jorge de Sena no Teatro Nacional de São Carlos, com o título de “Um regresso”. Dela, participaram como oradores, dentre outros, Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva e o então ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, além do próprio Saramago. Este frisou: “Ele amava com desespero a sua pátria. Sentia como poucos o significado do desencontro entre um cidadão e a sua pátria“. Sem dúvida, a homenagem serviu de forte estímulo à trasladação dos restos mortais do escritor para Portugal, consumada no ano seguinte (ver http://fundjosesaramago.blogspot.com.br/2008/07/o-reencontro-de-jos-saramago-com-jorge.html).

 
Também conheci Jorge de Sena. Não muito bem (se alguém se pode gabar de tal), mas por aquela via que talvez dê para conhecer melhor: as cartas. Contadas, foram pouquíssimas as falas que trocámos. Escritas, são larguíssimas dezenas (ou centenas?) as páginas que de um lado e do outro se escreveram. Eram elas de razão editorial, mas quem alguma vez recebeu carta de Jorge de Sena, sabe que nela sempre esteve, além do motivo imediato que a justificasse, um outro motivo que em todas obsessivamente se exprimia: o autor delas. Diz-se que Jorge de Sena era vaidoso, egocêntrico, parece mesmo que megalómano. Talvez fosse tudo isso e muito mais, talvez concentrasse em si quanto de defeitos a espécie humana tem vindo a coleccionar: seria uma outra singular forma de grandeza. Mas Jorge de Sena usava o admirável impudor de não poupar precisamente as palavras que mais riscos comportassem. E, pelo que julgo saber, nunca Jorge de Sena terá sido tão franco, tão brutalmente afrontador, como nas cartas que escreveu. Se algum dia se publicar a correspondência de Sena, receio bem que metade da catedral literária portuguesa vá pelos ares. E se é de revulsivos desses que estamos a precisar, temos a medicina à mão.

Este artigo não é um necrológio, muito menos um elogio fúnebre. Há evidente indecência no habitual derramar de louvores e lamúrias quando morre alguém que justamente foi para o outro mundo com a boca amarga de repugnância por incensadores póstumos e carpideiras. A morte de Jorge de Sena é uma vergonha para Portugal. Não foi português o cancro que o matou, mas é portuguesa a indiferença que torna as mortes mais dolorosas. Não sei que últimas palavras foram as de Jorge de Sena, se teve tempo e paciência de as ditar para a história, se não preferiu o desprezo do silêncio precisamente para calar palavras de desprezo. Se uma carta pudesse ter escrito, estou que não seria uma carta, mas um rugido. Mas Portugal é um país de surdos, depois de ter sido um país de mudos.

Revejo Jorge de Sena, exactamente há um ano, acompanho na televisão o seu gesto de provocação desesperada, a imprecação lançada contra os ouvidos rolhados dos espectadores de perto e de longe, e pergunto a mim mesmo quantos Jorges de Sena precisarão ainda de morrer para que enfim esta terra comece a valer pelo que saiba e cultive, e não pelo que de si mesmos cuidam os atletas da mediocridade nacional que foram e desgraçadamente continuam a ser os que em nosso nome falam. Na Guarda, Jorge de Sena tocava a rebate, possesso, quase patético, algumas vezes (que importância tem isso?) roçando o ridículo para melhor insultar o corte que o ouvia. E, feito o seu número, tendo dito muito mais do que se lhe pedira, tendo posto diante de um País inteiro a sua profunda ferida (sua, de ambos), foi-se ao que lhe restava de vida, um brevíssimo ano, para continuar o que sempre fizera: escrever. Se algum dos portugueses de agora encarnou dramaticamento a dignidade de ser escritor, esse foi Jorge de Sena. lsso que Jorge de Sena soube ser melhor do que ninguém, e não falando agora no que a sua obra representa, é provavelmente a grande lição quo aos escritores portugueses conviria aprender. Ou não mereceremos sequer o pão que comemos.

Em geral, quando morre um escritor, um artista, a benevolência colectiva acode a pedir que se esqueça o homem e se fale da obra, vem isso da velha impregnação cristã do perdão dos pecados, e do pequenino orgulho de nos julgarmos cada um de nós senhores desse perdão, só porque continuamos vivos. No caso de Jorge de Sena, prefiro não esquecer o homem que mal conheci. Prefiro reflectir sobre os seus defeitos de carácter, apurar razões que não se dêem por satisfeitas com as banais (mesmo que rigorosas) explicações que a psicanálise dá. E ver se são defeitos. Ver se não se trataria antes de uma hipertrofiada consciência do valor do homem, da inteligência do homem, da acção transformadora do homem. E concluir, enfim, se este patriarcal país, se esta pastosa e desvertebrada classe intelectual (em sentido lato) que do país melhor ou pior se vai servindo, não estará antes precisando de adquirir urgentemente alguns dos defeitos de Jorge de Sena. Se não formos capazes de lhe continuar a obra, ao menos prolonguemos o homem.

Têm agora a palavra os críticos, os historiadores, os que decompõem e recompõem. Por mim, que não chego a tanto, tirarei da obra de Jorge de Sena o que for capaz de receber e manterei os ouvidos bem abertos à sua furiosa voz, à sua cáustica insolência, ao seu infinito gemido de ser Português e desprezado.

(in Diário de Lisboa, Lisboa, 12 de Junho de 1978.)

De Nea de Castro

Tão logo lançamos na web o site “Ler Jorge de Sena”, recebemos, dentre as muitas mensagens, este conciso depoimento, que, por todos os motivos, não podíamos deixar de transcrever…

 

O dia em que ouvi Jorge de Sena

Não lembro quando foi exatamente, nem onde…
Jorge de Sena dava uma palestra e lá estava eu, ainda muito jovem…
O que ficou, isso sim muito nítido, é que foi um grande impacto.
Eu já era leitora dedicada da literatura portuguesa: Eça de Queirós meu romancista predileto; e lia com amor os poetas da pátria de Sena.
Saí dali impactada tanto pelo intelectual, o pensador da literatura, como por ser Jorge de Sena um homem da resistência.
Em Portugal, e aqui também no Brasil, havia governos de exceção…
Não me lembro do assunto exatamente, mas sim da força que emanava dele.
Não era um local muito grande, e havia muita gente… é uma memória embaçada, mas vejo gente em volta dele, ele fala… e há, em tudo, respeito e admiração.
Na minha memória, é como uma reverência de todos nós que estamos ali, vendo-o de perto, ouvindo-o.

 

Jorge de Sena quando estudante de Engenharia visto por um amigo

Amigo de Jorge de Sena desde os tempos da juventude no Porto, João Alves deixou registradas em seu testemunho as impressões que teve do jovem poeta que frequentava as tertúlias literárias nos intervalos dos estudos de engenharia. Reproduzimos a seguir o depoimento, publicado originalmente no “Dossier Jorge de Sena” organizado por Luis Adriano Carlos para o Jornal Letras & Letras em 1988, seguido de nota de Mécia de Sena.

 

Conheci Jorge de Sena por 1940, no Porto, quando ele aí frequentava a Faculdade de Engenharia.

Teve lugar a apresentação na Livraria Tavares Martins, ao fundo da Rua dos Clérigos, esquerda de quem desce, Porto, livraria que tora sempre e era frequentada, em termos de tertúlia, por vários intelectuais, e assim, por épocas: Visconde de Vila-Moura, Gomes Teixeira, Mendes Correia, Antero de Figueiredo, Januário Leite; — Teixeira Rego, José Marinho; — Alberto de Serpa, Jorge de Sena, Abreu e Souza (escritor teatral).

Foi Alberto de Serpa quem nos apresentou.

Alberto, no seu hábito de chão humorismo, frequentemente designava Jorge de Sena às pessoas de convívio por «o meu amigo bonito».

Uma vez por outra endereçava este epíteto, relativo ao Jorge, à empregada da caixa da livraria, no intuito, creio, de jocosamente meter em apuros quer a compostura profissional dela, quer a verdura juvenil dele, mas não conseguia abalar qualquer desses redutos.

Travado esse conhecimento, passei a tratar com o Jorge, tanto na dita livraria, como em encontros eventuais de rua e cafés.

Daqueles, ocorre-me um no jardim da Rotunda da Boavista, por onde ele, residente num quarto da Rua de Cedofeita, ia espalhar os seus pesos de vésperas de actos universitários (exames); dos outros, alguns no extinto Café Palladium, ângulo sul-poente do cruzamento das ruas Santa Catarina e Passos Manuel, Porto.

Entretanto, ele tinha já pronto para imprimir o livro de poemas Perseguição.

Mas, sujeito à escassez pecuniária com que as famílias costumam formar o senso admi-nistrativo dos seus rebentos, faltavam-lhe posses para enfrentar o então maior dos encargos, que era o do papel.

E que ao tempo já decorria a Guerra Mundial e por isso faltava no mercado o papel de impressão, que, quando escassamente obtido, ficava por peso de ouro.

Quando eu soube da contingência, disse-lhe com aquela maravilhosa transparência que distingue, além do mais, os jovens dos seres humanos similares dos crocodilos velhos.

— Ó Jorge, não se preocupe, eu resolvo-lhe essa dificuldade.

Ele teve uma vertigem de grata emoção.

E, para o convencer da probidade da minha oferta, logo o levei à minha casa, a de meus pais, rua do Paraíso, 49, Porto.

Chegados, descemos à cave onde ele me viu abrir uma grande caixa de pinho, tão maravilhado como quem vê abrir o cofre do tesouro dos contos de piratas: dentro estava um bem farto lote de papel de imnressão da melhor qualidade, que, por contingências, eu possuía.

Logo ali o declarei dono desse pequeno tesouro, a troco duma insignificância em dinheiro, que, para salvaguarda do brio dele, logo fixámos.

E, logo no dia seguinte, antes que houvesse algum terramoto ou cataclismo equiparável, eis Jorge a aparecer em minha casa e a levar em táxi as resmas de papel que o acaso tivera longo tempo à espera dele.

Dos percalços da época académica de Jorge no Porto ocorre-me um, que define dois temperamentos e não chega a desonrar qualquer deles.

Pedro Homem de Melo, que nunca fez rebuço da sua conhecida exuberância e que não podia ter deixado de entrar em convívio com o Jorge, desafiou este para uma castiça digressão pelo Minho, ao que o desafiado anuiu sofregamente, exilado, como era, no severo burgo portuense, além de solitário mancebo ávido de quanto pudesse animar o seu melancólico giro diário de discente.

Partiram de comboio e foram, que, esperando, era inverno, são, descendo em várias estações da linha do Minho, para escala da respectiva povoação, onde Homem de Melo quase sempre se separava do companheiro e tempo depois reaparecia a contar a maravilhosa recepção que lhe fora feita por senhoras e castelãs da sua privança, assim como, cerimónia que nunca fez de clamar as suas sensações, a descrever minuciosamente as requintadas iguarias que lhe haviam sido servidas em pala-ciano ágape.

O Jorge, que pelo tom do desafio inicial ficara a entrever um apoio de amigáveis confortos à sua magra bolsa de estudante e que, esperando, era Inverno, ficara sobre o famélico a tiritar na solitude do seu quarto, mordia os lábios raivosamente e fazia íntimos propósitos de sangrenta vingança.
Regressados ao Porto, berrava de punhos cerrados, expressionistamente:

— Eu mato-o! Eu mato-o!

Mas não matou, claro.

Aliás — Homem de Melo não mereceria ser morto por isso.

Mas quadrava-lhe muito bem ser executado em efígie.

Porto, 4 de Setembro de 1983

 

Nota — Esta saborosa rememoração continha, na sua versão original, dois pequenos erros de facto, tão naturais de quem lembra do passado, neste caso mais de quarenta anos depois, que me permiti corrigir, para evitar confusões futuras. Eram eles os seguintes. Referindo-se o Dr. João Alves [Gomes dos Santos] ao ano em que conhecera Jorge de Sena, apontava para 1938, data em que este estava ainda a frequentar a Faculdade de Ciências de Lisboa. A sua ida para o Porto deu-se em fins de Outubro de 1940.

E, referindo-se ao papel salvador, dizia destinar-se ele a Coroa da Terra, livro que só foi publicado em 1946, quando Jorge de Sena estava já regressado a Lisboa, com o curso concluído em Novembro de 1944.

Se alguma dúvida, no entanto, pudesse subsistir, teria uma carta dirigida a José Blanc de Portugal, datada de 8/11/42, cujo passo esclarecedor transcrevo: «Como V. sabe a publicação do meu livro nasceu da oferta do papel a um preço de mais que amigo pelo João Alves (conhece-o?) e de, em face dessa oferta, o [Thomas] Kim e o Ruy [Cinatti], com uma dedicação que nunca esquecerei, me terem prometido o empréstimo «sine die» de 250$00 cada».

Está, pois, fora de causa que se tratava de Perseguição, publicada em fins de Agosto desse ano, e onde há um poema dedicado a João Alves («Ascenção») e até a completar indicação da exacta quantia da amiga e providencial transacção.

Quanto ao episódio da «secretária da caixa», sem dúvida que era aivo de gracejo deles, uma vez que Alberto de Serpa também se refere ao facto numa sua carta da mesma época.

Cumpre-me deixar aqui um agradecimento póstumo a João Alves, que me permitiu em vida a publicação deste texto, bem como a sua Viúva, que confirmou essa autorização.

Santa Barbara, 17-Abril-1988       Mécia de Sena

 

Jorge de Sena quando estudante de Engenharia visto por um colega

O engenheiro João António Ferreira Lamas seria mais tarde um pesquisador fascinado pelo oriente e publicaria um livro sobre A Culinária dos Macaenses, mas durante os primeiros anos da década de 40 era apenas um estudante de engenharia na Universidade do Porto, como Jorge de Sena.  Seu depoimento sobre o antigo colega, que reproduzimos a seguir, foi originalmente publicado no “Dossier Jorge de Sena”, organizado por Luis Adriano Carlos para o Jornal Letras & Letras, em 1988.

 

Convivi com o Jorge de Sena, como colega de estudos, de 1938 a 1943, mais de perto nos últimos 3 anos daquele período, no primeiro dos quais fomos companheiros de quarto no Porto, quando alunos da Faculdade de Engenharia, para onde ele seguiu por lhe terem arrancado a sua verdadeira vocação, como ele próprio escreveu, excluindo-o da admissão à Escola Naval.

Quem com ele conviveu então, pelos seus 20 anos, podia aperceber-se da sua timidez, do receio de riscos, da falta de confiança nas capacidades físicas, de uma certa aparência de pouca virilidade.

Não se pode ter tudo, e o Jorge de Sena não tinha, sem dúvida, grande desembaraço físico.

Grande propensão para actividades políticas, não as tinha também então ele, fossem de que quadrante fossem, o mesmo acontecendo com todos os que foram no mesmo ano lectivo de Lisboa para a Faculdade de Engenharia do Porto.

Quanto à Guerra de Espanha, que entretanto já tinha acabado, a atitude era de condenação dos morticínios fraticidas de parte a parte e de discordância passiva para com o regime que se instaurou em seguida no país vizinho.

Quanto à II Guerra Mundial, a posição era a favor dos Aliados, mas sem extremismos de ideologias.

Relativamente à situação em Portugal, tinha uma posição crítica sem uma oposição frontal e, muito menos, qualquer tipo de actuação concreta. Não havia, por assim dizer, uma preocupação com a coisa política, o que constituía então o caso normal, ou médio, uma vez que se vivia nessa altura com a preocupação da guerra, que todos queriam afastada do nosso País e que, apesar de cá não ter chegado, nos ameaçava e nos atingiu fortemente, embora de forma indirecta.

Em termos de religiosidade ou de fé, o Jorge de Sena, não sendo de todo ateu, ou agnóstico, nem sequer descrente, vivia naquilo a que se poderia chamar uma situação de religiosidade angustiada. Numa ânsia de encontrar Deus como o veado a água viva, para usar uma expressão bíblica. Mas não era o Deus que os outros lhe mostravam, nem um Deus que fosse como ele quisesse fabricá-lo, como muitos há que pretendem. Ele ansiava por uma revelação de Deus directamente a ele, sem a mediação nem a presença de ninguém nem de mais nada. Leiam-se os quatro poemas criados nessa altura e publicados em Perseguição: «Declaração», «Unidade», «Purificação da Unidade» e «Caverna».

Espiritualmente, Jorge de Sena era irrequieto, inconformado, insatisfeito, sentia-se irrealizado, ou pelo menos não completamente realizado, e não compreendido nem capaz de se fazer compreender completamente.

Não era humilde, apesar das grandes dificuldades financeiras, nem soberbo ou arrogante, mas orgulhoso do valor que reconhecia ter. Não se mostrava assim para nós, colegas, como bom camarada que era, embora pouco comunicativo.

Possuía uma cultura geral invulgar para a sua idade e uma cultura literária excepcional e actualizada, tanto de língua portuguesa como francesa ou inglesa.

Era espantosa a sua capacidade de apreensão e de correlacionação das coisas, dos factos, das ideias e dos sentimentos, no espaço e no tempo, e a consequente lucubração e elaboração analítica e crítica.

Demonstrava nitidamente uma autêntica vocação para a criação literária, com todos os atributos que ela pode encerrar em si: inclinação, tendência, chamamento, predestinação, talento, apesar de ter que estar empenhado nas ciências da engenharia, que não deixaram contudo de contribuir, tal como se veio a verificar mais tarde, para a sua valorização integral como estudioso e como escritor, dando-lhe uma visão global mais alargada e uma soma de conhecimentos que pôde e soube utilizar e que, de outra forma, lhe seriam mais difíceis de adquirir.

Nota: O Eng.° João Lamas publicou na Revista da Ordem dos Engenheiros, Ingenium (Fevereiro de 1988), de que saiu Suplemento, o texto «O Sena que eu Conheci — Jorge de Sena, Estudante de Engenharia», transposição de duas conferências proferidas em Lisboa e no Porto, respectivamente em 2/11/87 e em 8/1/88.

Do "Tio" Rui

Na semana em que assinalamos a partida de Jorge de Sena de Portugal e sua chegada ao Brasil, 52 anos atrás, consideramos oportuno um depoimento de alguém muito próximo, familiar em todos os sentidos, que em Lisboa sempre ficou à espera de seu(s) regresso(s). Seu cunhado Rui de Freitas Lopes (militar reformado, mas carinhosamente chamado “Tio Rui” pelos mais jovens a quem abre a casa dos Senas no Restelo) com toda simpatia e gentileza atendeu a nossa solicitação.

 

De Luís Filipe Castro Mendes

 

 

Poeta, ficcionista e diplomata, Luís Filipe Castro Mendes é o atual Embaixador de Portugal na UNESCO, em Paris. Era o Cônsul-Geral de Portugal no Rio de Janeiro quando nesta cidade se realizou o Colóquio Internacional “Jorge de Sena e outros escritores portugueses num Brasil recente”, no Real Gabinete Português de Leitura, em agosto de 1998, com a presença de Mécia de Sena — fato a que alude neste seu depoimento.

1919-1959: Portugal

1919, 2 de novembro: nasce em Lisboa Jorge Cândido de Sena, filho único de Augusto Raposo de Sena, comandante da Marinha Mercante, natural de Ponta Delgada (Ilha de S. Miguel, Açores), e de Maria da Luz Telles Grilo, natural da Covilhã.

1922 Com três anos de idade, começa a ler.

1923 Escreve as primeiras letras num bilhete para o pai.

1926 Entra para o Colégio Vasco da Gama (Lisboa), que frequenta até o 3º ano liceal.

1929 Inicia o estudo de piano, que se estende por cerca de seis anos.

1932 Transfere-se para o Liceu de Camões, onde será aluno de Rômulo de Carvalho (o poeta António Gedeão).

1933 O pai sofre um acidente a bordo que o leva à amputação de uma perna, sendo obrigado a retirar-se da Companhia Nacional de Navegação depois de mais de 40 anos de serviço, e a família passa a viver da parca mensalidade que lhe é concedida.

1935 Férias de verão na Figueira da Foz, em casa de seu tio Jaime Teles Grilo.

1936 Com 16 anos, conclui o Liceu (julho) e faz os preparatórios (outubro) para a Escola Naval, na Escola Politécnica (Faculdade de Ciências). Sob o impacto de ouvir “La Cathédrale Engloutie”, de Debussy, inicia a sua carreira de poeta. A 11 de junho, escreve “Desengano”, o seu poema mais antigo de que há registro. Escreve a narrativa histórica, inacabada, “Século XII (D. Fuas Roupinho)”.

1937 A 7 de setembro escreve o conto “Paraíso Perdido” (Génesis). A 15 de setembro, ingressa na Escola Naval com as mais altas classificações. Como Chefe do “Curso do Condestável” embarca a 1º de outubro para a viagem de instrução e adaptação no navio-escola “Sagres”, que dura até fevereiro de 1938. Visita Cabo Verde, Brasil (Santos e São Paulo), Angola (Lobito e Luanda), São Tomé, Senegal (Dakar) e Canárias (La Luz, Grã-Canária) – lugares assinalados em sua obra.

1938 A 14 de março é excluído da Marinha de Guerra. De 28 de março até ao fim do ano escreve 256 poemas e, no ano seguinte, 168. Começa a transcrever a sua produção literária para uns cadernos escolares com o título de “Obras”, dividida em “Volumes”. Em abril, escreve o conto “Caim” (Génesis). Em maio, escreve a comédia em 1 ato, Luto. Em junho, começa o romance inacabado A personagem total, cuja escrita só foi suspensa em 1940. Verão na Figueira da Foz. Em setembro, compõe um lied inspirado no poema “Pobre velha música”, de Fernando Pessoa. Em outubro, inicia os preparatórios para Engenharia Civil na Faculdade de Ciências de Lisboa, onde conhece José Blanc de Portugal, de quem será grande amigo.

1939 Sob o pseudônimo Teles de Abreu, estreia no “quinzenário universitário” Movimento, com o poema “Nevoeiro” (no n°1, de março) e o ensaio “Em prol da poesia chamada moderna” (no n° 2), graças a José Blanc de Portugal.

1940 Colabora no último número da presença, com uma carta sobre o poema “Apostilha”, de Fernando Pessoa. Conhece Adolfo Casais Monteiro, que se tornará seu grande amigo e compadre. Participa nas reuniões do grupo fundador (Tomaz Kim, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal) dos Cadernos de Poesia, onde colabora, ainda sob pseudônimo, no fascículo 2, vindo a organizar o fascículo 5. Inicia o curso de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia do Porto. Vive em quartos alugados, com permanentes dificuldades financeiras e de saúde. A 7 de dezembro, conhece Maria Mécia de Freitas Lopes (Leça), filha do compositor e folclorista Armando Leça, num baile de calouros da Faculdade de Farmácia do Porto.

1941 Assina pela primeira vez como Jorge de Sena (seguido ainda do pseudônimo entre parêntesis) os poemas que publica no fascículo 4 dos Cadernos de Poesia. Durante as férias de verão, faz um estágio de Topografia na zona de Lisboa. Em 20 de dezembro, profere sua primeira conferência, “Rimbaud ou o dogma da trindade poética”, na Juventude Universitária Católica (Lisboa), a convite de Ruy Cinatti.

1942 Em maio sai a sua primeira crítica literária, sobre Poemas de África, de António Navarro, no n° 1 da revista Aventura, de que é redator nos dois primeiros números. No nº 2, publica aquela sua primeira conferência, integrando a separata “Homenagem a Rimbaud” que contará com mais colaboradores. Em junho/julho, publica Perseguição, primeiro livro de poesia, editado sob a égide dos Cadernos de Poesia, pago por Ruy Cinatti e Tomaz Kim, e impresso na tipografia Atlântida, de Coimbra, graças ao papel ofertado por João Alves Gomes dos Santos. Em setembro, frequenta o 1° ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, em Penafiel. Interrompe os estudos devido ao agravamento do seu estado de saúde, ficando em Lisboa no período letivo de 1942/43.

1943 A 11 de fevereiro começa a colaborar no Diário Popular, como crítico literário. Frequenta o 2° ciclo do Curso de Oficiais Milicianos. Regressa à Faculdade de Engenharia do Porto.

1944 Em janeiro morre-lhe o pai e, em fevereiro, sua avó materna – grande apoio de sua infância e juventude. Em março, publica traduções de poemas de Paul Verlaine no Primeiro de Janeiro. Em setembro, publica n´O Globo uma página dedicada à poesia surrealista: apresentação e tradução de poemas de André Breton, Paul Éluad, Georges Hugnet e Benjamim Péret. Figura na antologia de Cecília Meireles, Poetas novos de Portugal. Faz o último exame da Licenciatura em Engenharia Civil e conclui o curso, graças à ajuda financeira de Ruy Cinatti e José Blanc de Portugal e ao apoio de José Osório de Oliveira, que lhe faz um adiantamento sobre futuras publicações na Portugália Editora. Começa a tragédia em verso O Indesejado.

1945 Cumpre o serviço militar no Batalhão de Engenharia 2, em Lisboa. Em maio, participa numa operação de transporte de tropas para os Açores, que lhe permite conhecer S. Miguel, ilha natal de seu pai. Em outubro, ainda oficial miliciano do Exército, subscreve listas públicas exigindo eleições livres. Não é deportado para a prisão do Tarrafal (Cabo Verde) por intervenção direta, junto a Salazar, de Ribeiro Couto – poeta e diplomata brasileiro. Em novembro termina O Indesejado.

1946 No começo do ano, é licenciado do serviço militar. A 28 de janeiro, no Clube Fenianos Portuenses, tem grande êxito a sua conferência “Florbela Espanca ou a expressão do feminino na poesia portuguesa”. Em fevereiro, graças à intermediação de Ribeiro Couto, sai seu segundo livro de poesia, Coroa da Terra (Lello, Porto). Em maio, começa a colaborar no Mundo Literário. Em dezembro conclui o estágio do curso de Engenharia, na Barragem de Vale do Gaio. A 12 de dezembro, faz a conferência “Fernando Pessoa, indisciplinador de almas”, no Ateneu Comercial do Porto, tendo Manuela Porto como declamadora. Saem as Páginas de doutrina estética, de Fernando Pessoa, com seleção, prefácio e notas de sua responsabilidade.

1947 É publicada sua conferência sobre Florbela. Obtém a Carta de Engenheiro e trabalha para a Câmara Municipal de Lisboa e a Direção Geral dos Serviços de Urbanização (Monumentos Nacionais) do Ministério de Obras Públicas. Inscreve-se na Ordem dos Engenheiros (sócio n°2496). Em março, estreia como crítico de teatro na Seara Nova e faz a palestra inaugural do Círculo de Cinema na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

1948 A 12 de junho, profere, no Clube Fenianos Portuenses, a primeira de muitas conferências sobre Camões: “A poesia de Camões – ensaio de revelação da dialéctica camoneana”. Entre 24 de junho e 16 de setembro adapta treze textos ao teatro radiofônico, para o programa de António Pedro, “Romance policial”, no Rádio Clube Português, de Lisboa. Em novembro, entra para a Junta Autônoma de Estradas (JAE), onde permanece até 1959.

1949 A 12 de março casa com Maria Mécia de Freitas Lopes. Em maio, começa a publicar O Indesejado na revista Portvcale. Em julho, começa a comentar filmes nas “Terças-feiras Clássicas”, organizadas pelo Jardim Universitário de Bela Artes (JUBA) no cinema Tivoli, até 1955. A 10 de dezembro, nasce no Porto Izabel Maria, a primeira filha, que terá Ruy Cinatti como padrinho.

1950 Publica Pedra Filosofal, seu terceiro livro de poesia. A 22 de novembro, nasce no Porto o segundo filho, Pedro Augusto, afilhado de Óscar Lopes.

1951 Co-dirige o IX Congresso Internacional da Estrada, cuja excursão final o leva à Madeira, a 5 de outubro. Co-dirige a 2ª série dos Cadernos de Poesia, redigindo o texto-manifesto de abertura “A Poesia é só uma”. A 7 de junho, faz conferência sobre o “Conceito de Poesia”, no Ateneu Comercial do Porto. Sai em volume O Indesejado (António, Rei), e A Poesia de Camões (Ensaio de Revelação da Dialética Camoniana). A 9 de dezembro, nasce no Porto Maria Joana, afilhada de Adolfo Casais Monteiro.

1952 Co-dirige a 3ª série dos Cadernos de Poesia. Começa a traduzir poemas ingleses de Pessoa. Em outubro, vai pela primeira vez à Inglaterra para estágio na firma de engenharia civil Blackwood Hodge. De 17 de outubro a 28 de novembro lê na BBC uma série de seis crônicas intituladas “Cartas de Londres”. Projeto de mudança para Angola, como engenheiro civil, que não chega a se concretizar. Na revista Tricórnio publica “Ulisseia Adúltera – farsa em 1 acto”.

1953 Em fevereiro é transferido para o Serviço de Pontes da JAE e logo integra a “Comissão para o Estudo das Ligações Rodoviárias e Ferroviárias entre Lisboa e a Margem Sul do Tejo”. A 16 de maio nasce, no Porto, sua filha Maria Manuela, afilhada de Alberto de Lacerda. A 22 de maio, conferência sobre literatura e cultura inglesas no Instituto Britânico do Porto. No Comércio do Porto, de 9 de junho, publica o primeiro texto português sobre o poeta grego Constantino Cavafy, seguido de 5 poemas traduzidos. Publicação, pela JAE, de Algumas Considerações sobre Estatísticas de Trânsito.

1954 Em janeiro, muda-se para o bairro de casas econômicas do Restelo. Em abril viaja à Galiza. A 25 de novembro, em Lisboa, no Restaurante Irmãos Unidos, profere conferência sobre Orpheu, por ocasião do descerramento do quadro “Fernando Pessoa”, de Almada Negreiros. Saem Alguns dos “35 Sonetos” de Fernando Pessoa (São Paulo), em colaboração com Adolfo Casais Monteiro.

1955 Publica o livro As Evidências: Poema em Vinte e Um Sonetos, distribuído em fevereiro, depois de ter sido apreendido pela PIDE, sob acusação de “subversivo” e “pornográfico”. Torna-se “consultor literário” da Editora Livros do Brasil. Publica em fevereiro, na Tetracórnio, o ensaio “Tentativa de um panorama coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950”. Em setembro, viagem à Espanha (Badajoz, Mérida, Córdoba, Granada, Málaga e Sevilha).

1956 A 25 de abril, conferência sobre Manuel Bandeira no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa. É um dos sócios-fundadores da Sociedade Portuguesa de Escritores e, temporariamente, consultor literário da editora Portugália. Mécia de Sena conclui a Licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A 19 de dezembro, nasce em Lisboa sua filha Mariana, afilhada de José Blanc de Portugal.

1957 Sai a tradução de Porgy e Bess, de DuBose Heyward. Em setembro, viaja pela segunda vez à Inglaterra, para novo estágio na área de engenharia. Conhece em Londres Manuel Bandeira. Visita a França e a Bélgica. Traduz Long Day´s Journey into Night, de Eugene O´Neill, para o Teatro Experimental do Porto, com encenação de António Pedro. A 12 de dezembro, em Lisboa, nasce seu sexto filho, Paulo Jorge, batizado pelo Pe. Manuel Antunes, afilhado do casal Fernando Pereira Basto. Ainda em dezembro falece a mãe de Mécia de Sena.

1958 A 15 de janeiro, nova conferência sobre literatura e cultura inglesas no Instituto Britânico do Porto. Colabora na Gazeta Musical e de Todas as Artes, incumbindo-se principalmente da crítica teatral. Em novembro publica Fidelidade, seu quinto livro de poesia, e a antologia Líricas Portuguesas – 3ª série.

1959 Em 11/12 de março participa do frustrado “Golpe da Sé” (seria Ministro das Obras Públicas num almejado governo provisório). Em abril, sai Da poesia portuguesa, seu primeiro livro de ensaios. A 4 de maio, em Lisboa, nasce o sétimo filho, Vasco Manuel (nome em homenagem aos sacerdotes Vasco Miranda e Manuel Antunes, dois grandes amigos da família Sena), afilhado de Francisco de Nascimento Ferreira e Dora Maria da Silva Setao Ferreira. A 27 de junho, começa a colaborar no jornal Estado de S. Paulo.

 

Dados cronológicos ordenados a partir de:
Jorge Fazenda Lourenço, Cronologia de Jorge de Sena, in:—, ed. Jorge de Sena – Antologia Poética. Lisboa, Guimarães, 2010. p. 308-321.

Jorge Fazenda Lourenço & Mécia de Sena, org. Jorge de Sena – a voz e as imagens. Lisboa, IEP/UNL, 2000. (fotobiografia)

Mécia de Sena & Isabel M. de Sena, Jorge de Sena: bio-bibliografia, in: Quaderni Portoghesi 13-14. Pisa, Giardini, 1977 p. 13-22.

1959-1965: Brasil

1959 A 7 de agosto, chega ao Brasil, desembarcando no Recife e seguindo para Salvador, a fim de participar, a convite do governo brasileiro, do IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, que transcorreu, de 10 a 21 de agosto, na Universidade da Bahia. Começa assim, com quase 40 anos de idade, seu exílio voluntário. No Rio de Janeiro, faz conferências na Faculdade Nacional de Filosofia. Em outubro, a convite de António Soares Amora, entra para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (São Paulo), onde rege as cadeiras de “Introdução aos Estudos Literários” e de “Teoria da Literatura”. De 9 de outubro a 13 de novembro, nessa Faculdade, conduz um curso sobre “A criação poética e a crítica de poesia”, que origina o seu “Ensaio de uma tipologia literária”. A 17 de outubro, Mécia e os 7 filhos chegam ao Brasil. Integra o Conselho de Redação (até 1962) do jornal anti-salazarista Portugal Democrático, publicado em São Paulo desde 1956.

1960 Dirige a seção portuguesa da coleção “Nossos Clássicos” da Editora Agir, Rio de Janeiro. Recusa convite de trabalho numa firma de engenharia de São Paulo. De 22 a 24 de janeiro, participa da primeira Conferência Sul-Americana Pró-Anistia dos Presos Políticos Espanhóis e Portugueses, realizada em São Paulo, na Faculdade de Direito. A 30 de abril, conferência sobre “Portugal e a Monarquia”, no Centro Republicano Português de São Paulo. A 1 de junho, em Lisboa, nas comemorações pessoanas do Centro Nacional de Cultura, seu texto “O poeta é um fingidor” é lido por David Mourão-Ferreira. De 7 a 14 de agosto, participa do I Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, na Universidade do Recife, onde apresenta o “Ensaio de uma tipologia literária”. Sai Andanças do Demônio, sua primeira coletânea de contos. Publica o “Ensaio de uma tipologia literária”, no número inaugural da Revista de Letras, de Assis (SP). Sai, em Lisboa, dos Estúdios Cor, a História da Literatura Inglesa de A. C. Ward – “revista, anotada, prefaciada e completada na época contemporânea por Jorge de Sena”.

1961 Em janeiro, sai Poesia-I (com o inédito Post-Scriptum), primeiro volume da obra poética completa. De 24 a 30 de julho participa do II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, em Assis. Em agosto, muda-se para Araraquara e para a respectiva Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, como professor contratado de Literatura Portuguesa. A 7 de dezembro, em Araraquara, nasce sua filha Maria José, afilhada de Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza. Demite-se, com Adolfo Casais Monteiro e Paulo de Castro, da direção da Unidade Democrática Portuguesa, de que fora co-fundador. O conto “A noite que fora de Natal”, com desenhos de Paulo-Guilherme, é distribuído pelos Estúdios Cor de Lisboa como brinde natalino a seus clientes. Publica O Reino da Estupidez e O poeta é um fingidor (ensaios). Em tradução, saem Palmeiras Bravas, de Faulkner, e Ti Coragem e os seus filhos, de Brecht (co-tradução de Ilse Losa).

1962 Escreve a tese Uma canção de Camões, destinada a provas de livre-docência na Universidade Federal de Minas Gerais, que não chegam a se realizar por questões burocráticas relacionadas com a sua naturalização brasileira e outras. Em Araraquara, além de Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura, passa a lecionar Literatura Inglesa no 2º semestre. É ainda professor visitante na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto. No início de junho, palestra sobre a poesia moderna portuguesa na Mostra Internacional de Poesia, em São Paulo. Publica os “Quatros sonetos a Afrodite Anadiómena” no n° 2 da revista Invenção, dos concretistas de São Paulo. Em setembro/outubro, conferências no curso sobre o “Barroco literário”, organizado por Antonio Cândido, na Fundação Armando Álvares Penteado, sob patrocínio da USP. Nasce seu nono e último filho, Nuno Afonso, afilhado de Antonio Soares Amora.

1963 A 31 de janeiro, discursa no Centro Republicano Português, em São Paulo. Em março torna-se oficialmente cidadão brasileiro, o que lhe permite prestar provas de Livre-Docência. Em junho, começa a colaborar no recém-fundado O tempo e o modo. A 14 de agosto, conferência na “Semana euclidiana” de S. José do Rio Pardo. Em setembro, inicia a publicação da série de Estudos de História e de Cultura na revista Ocidente (Lisboa). Publica Metamorfoses, seguidas de Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena (Lisboa); A Literatura Inglesa (São Paulo), Novelas inglesas (São Paulo) e A Sextina e a Sextina de Bernardim Ribeiro (Assis).

1964 Trabalha na edição do Livro do desassossego, de Fernando Pessoa, que abandona em 1969, por impossibilidade de controle dos manuscritos. Em março, escreve as peças em 1 ato A Morte do Papa e O Império do Oriente. Em Araraquara, a 2 de abril, discursa como paraninfo dos formandos. Ainda em abril, nas perseguições políticas subsequentes ao golpe militar de 31 de março, ou 1° de abril, é demitido, por telefone, da Faculdade de São José do Rio Preto. Em maio, escreve a novela O Físico Prodigioso. A 12 de julho, sofre grave acidente de automóvel. Em 28 e 29 de outubro presta provas de Doutoramento em Letras e de Livre-Docência em Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, com a tese Os sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular. Inicia o romance Sinais de Fogo.

1965 Na revista O Tempo e o Modo, sai o ensaio “Edith Sitwell e T. S. Eliot” (janeiro) e o estudo sobre “O Sangue de Átis”, de François Mauriac (agosto).

 

Dados cronológicos ordenados a partir de:
Jorge Fazenda Lourenço, Cronologia de Jorge de Sena, in:—, ed. Jorge de Sena – Antologia Poética. Lisboa, Guimarães, 2010. p. 308-321.

Jorge Fazenda Lourenço & Mécia de Sena, org. Jorge de Sena – a voz e as imagens. Lisboa, IEP/UNL, 2000. (fotobiografia)

Mécia de Sena & Isabel M. de Sena, Jorge de Sena: bio-bibliografia, in: Quaderni Portoghesi 13-14. Pisa, Giardini, 1977 p. 13-22

1965-1978: Estados Unidos

1965 A 6 de outubro, parte de S. Paulo e chega a New York no dia seguinte, rumo à University of Wisconsin, Madison, como Visiting Professor, iniciando assim seu segundo exílio. Publica Teixeira de Pascoaes – Poesia (Col. “Nossos Clássicos, da Ed. Agir, Rio de Janeiro).

1966 Sai Uma Canção de Camões. São-lhe diagnosticadas “pedras visiculares”. É eleito membro da Hispanic Society of America, da Modern Language Association of America e da Rennaissance Society of America. Em agosto, sai Novas Andanças do Demônio (com O Físico Prodigioso). De 7 a 13 de setembro, participa do VI Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, em Harvard. O tempo e o modo de setembro publica o conto “Homenagem ao papagaio verde”. A 15 de novembro, conferência sobre literatura brasileira e hispano-americana, na Pennsylvania State University. Primeiras traduções de poemas seus para o inglês, por Jean R. Longland – Selections from Contemporary Portuguese Poetry.

1967 A 21 de março, conferência “Realism and Naturalism in Portugal and Brazil: with reference to French and other western literatures”. A 27 de maio, morre sua mãe. Ainda em maio, muda de casa, dentro de Madison. É impedido pelo governo português de continuar o pagamento de sua casa no Restelo. É nomeado Full Professor with Tenure de Literatura Portuguesa e Brasileira do Departamento de Espanhol e Português da Universidade do Wisconsin. Pede demissão da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara. Em julho, sai o 1°vol. de Estudos de História e de Cultura – 1ª série.

1968 Em abril, O Tempo e o Modo dedica-lhe número especial, onde publica uma breve autobiografia e fragmentos de Sinais de Fogo sobre a “aparição da poesia”. Sai Arte de Música. A partir de 6 de setembro, graças a uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e à licença de um semestre da Universidade do Wisconsin, regressa pela primeira vez à Europa. Viaja (investigando, fazendo contatos e conferências) extensamente: Inglaterra, Escócia, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Alemanha, França, Áustria, Suíça, Itália, Espanha e Portugal, aonde chega às vésperas do Natal. A 4 e 5 de dezembro, ministra um curso na University of London. Em 22 de dezembro é detido pela PIDE, durante 24 horas, na fronteira espanhola, em Valencia de Alcantara. Após conversações telefônicas, nomeadamente de José Blanc de Portugal com o Chefe do Governo, Marcelo Caetano, é-lhe concedido visto de entrada. A Censura autoriza o relato do sucedido como um “equívoco de fronteira”. Muitos reencontros e entrevistas até seu regresso aos USA.

1969 A 19 de janeiro, é operado à vesícula, em Lisboa. Publica Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular. A 12 de fevereiro, conferência sobre Almada Negreiros, na presença do poeta, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa. A 14 de fevereiro, regressa aos Estados Unidos. Graças à intervenção de amigos, como António Alçada Baptista e Eduardo Lourenço, é-lhe restituída a posse de sua casa no Restelo. Em setembro, sai Peregrinatio ad Loca Infecta, nono livro de poemas. Em setembro e outubro, saem seus prefácios às edições portuguesas dos Manisfestos do Surrealismo, de André Breton e dos Cantos de Maldoror, de Lautréamont. Em outubro e dezembro, participa nos encontros do MLA em St. Louis e Denver.

1970 Simpatiza com a agitação política estudantil contra a guerra do Vietnã, na Universidade do Wisconsin. Em agosto, muda para a University of California, Santa Barbara (UCSB). Em novembro, participa no congresso anual da Pacific Coast Council for Latin American Studies, em Santa Bárbara. Publica A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI. Conferências na University of Illinois, Cincinnati, e na Tulane Univesity. Publica 90 e mais quatro poemas de Constantino Cavafy. O poeta Carlo Vittorio Cattaneo apresenta na Universidade de Roma a primeira tese universitária sobre a sua obra.

1971 Escreve a peça em 1 ato Epimeteu, ou o Homem que Pensava Depois. A 14 de maio, conferência “Antero revisited”, por ocasião das comemorações do centenário da “Geração de 70” na University of Califórnia, Los Angeles (UCLA). A 9 de junho, chega a Londres para nova viagem à Europa e Portugal. A 29 de julho. participa do I Colóquio Internacional sobre o Romanceiro, na Universidade Complutense de Madrid. Chega a Lisboa em 31 de julho. Em 2 e 3 de setembro, participa, em Salamanca, do Congresso da Associação Internacional de Hispanistas. A 21 de setembro, regressa a Santa Barbara, via Londres. Em dezembro sai Poesia de 26 séculos – I (de Arquíloco a Calderón).

1972 Passa a dirigir o Programa de Literatura Comparada da UCSB. A 4 de março, chega à Europa, via Paris, para viagem largamente motivada pelo IV Centenário d’Os Lusíadas. A 9 de março, conferência sobre Camões no Centro Cultural Português da Fundação Gulbenkian, em Paris; a 16 no King’s College (Londres); a 17, na Universidade de Bruxelas. A 15 de março, lê uma crônica na BBC, em Londres, sobre os seiscentos anos da Aliança Inglesa. A 30 de março, regressa a Santa Barbara. De abril a junho, conferências em várias universidades americanas. Em maio, sai Exorcismos, décimo livro de poesia. A 28 de junho, chega a Atenas, dando início ao terceiro périplo camoniano do ano. Em julho e agosto, visita espaços africanos: escreve in loco o poema “Camões na Ilha de Moçambique”; faz palestra na Universidade de Lourenço Marques a convite da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra; revê Luanda. Ainda em julho, sai Poesia de 26 séculos – II (de Bashô a Nietzsche). Em meados de setembro regressa a Santa Barbara, depois de passar por Lisboa e Paris. Em dezembro, sai a antologia Trinta anos de poesia. Saem as edições comemorativas de Os Lusíadas e das Rimas Várias de Luis de Camões comentadas por Manuel Faria e Sousa, com prefácios de Jorge de Sena.

1973 A 8 de janeiro, chega a Lisboa para nova viagem pela Europa (conferências em Madrid, Paris e Londres). A 6 de março, conferência “Literature and Society”, durante a convenção da Universidade do País de Gales. A 31 de março, regressa a Santa Barbara, via Lisboa. A 9 de junho, palestra na Semana Portuguesa de San Jose, California. Entre 26 de julho e 3 de setembro, viaja por Portugal e Espanha. Em dezembro, sai Camões dirige-se aos seus contemporâneos e outros textos e Dialécticas da Literatura. Participa da convenção anual do MLA.

1974 Em janeiro, sai Conheço o sal… e outros poemas. Em maio saem Amparo de Mãe e mais 5 peças em 1 Acto; Maquiavel e outros estudos. Em junho, Francisco de la Torre e D. João de Almeida. A 24 de julho chega a Lisboa, experimentando um Portugal finalmente em liberdade. Entre 6 de agosto e 20 de setembro, viaja por Espanha e França, participando do V Congresso da Associação Internacional de Hispanistas, em Bordeaux (2 a 8 de setembro). Em dezembro, saem os Poemas Ingleses de Fernando Pessoa (com traduções também por Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal).

1975 No trimestre de inverno, ensina Literatura Portuguesa também na UCLA, em virtude do falecimento do professor Machado da Rosa. Em abril, faz o discurso de abertura da IV Convenção Anual das Comunidades Portuguesas, em Sacramento, California. Em julho, na UCSB, passa a dirigir o Departamento de Espanhol e Português e o Programa Interdepartamental de Literatura Comparada. A 8 dezembro, em San Jose, California, palestra comemorativa pelo “1° de dezembro”. A 20 de dezembro, mensagem à comunidade portuguesa nos EUA, transmitida pela rádio.

1976 A 6 de fevereiro, participa do Colloquium on the International Repercussions of the Portuguese Revolution, na California State University de Long Beach. A 25 de março, sofre um ataque cardíaco, sendo-lhe implantado um pace-maker. Em abril, envia comunicação ao Congresso da Associação Internacional dos Críticos Literários, em Lisboa, a que não pode comparecer. Em maio, vem à luz Os Grão-Capitães. Em setembro, viaja a Portugal e Itália, proferindo uma conferência na Universidade de Roma sobre a poesia do século XX. Entre 27 e 29 de dezembro, fala em Nova York, num simpósio sobre Garcilaso de la Vega, durante a convenção anual do MLA.

1977 A 25 de janeiro, morre seu sogro, Armando Leça. A 25 de abril, recebe o Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina, na Sicília. A 3 de junho, conferência sobre Camões na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris. A 7 de junho, participa nas comemorações do cinquentenário da revista presença, em Coimbra. A 10 de junho, discursa na Guarda, no “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Em junho, saem O Físico Prodigioso (1ª edição isolada) e Sobre esta praia… Oito Meditações à beira do Pacífico, o seu “testamento poético”. Em agosto, publica Dialécticas Teóricas da Literatura. A 13 de setembro, conferência sobre Alexandre Herculano, no centenário da sua morte, no Consulado de Portugal, em San Francisco. Em 7 e 8 de outubro, participa do Simpósio Internacional sobre Fernando Pessoa, na Brown University. Ainda em outubro: sai Régio, Casais, a presença e Outros Afins; participa no VI Congresso da Associação Internacional de Hispanistas, em Toronto e na Conferência Inter-americana, em Albuquerque, Novo México. Em novembro, reedita Poesia-I.

1978 A 19 de março, escreve o último poema: “Aviso a cardíacos e outras pessoas atacadas de semelhantes males”. Em março, publica Dialécticas Aplicadas da Literatura. Em abril, envia comunicação ao I Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, no Porto, impedido de comparecer por razões de saúde. A 4 de maio, já muito doente, grava, em vídeo na UCSB, Jorge de Sena reads his poetry¸ entrevista a Frederick G. Willians, seguida de leitura de poemas. A 13 de maio, discursa na cerimônia de despedida de Robert Wilson da UCSB. Em maio, saem Poesia-II, Poesia-III e O Reino da Estupidez-II. A 1 de junho, envia a comunicação de abertura ao I Simpósio sobre as Tradições Portuguesas, na UCLA, a que não comparece por motivo de saúde. Sai Antigas e Novas Andanças do Demônio. A 4 de junho morre vítima de câncer em Santa Barbara, onde fica sepultado, em campa-rasa, no Calvary Cemetery. Aparece, em julho, Poesia do Século XX (de Thomas Hardy a C.V. Cattaneo). É condecorado, postumamente, com a Ordem de Santiago da Espada – concessão que lhe fora anunciada telefonicamente pelo Presidente da República, Ramalho Eanes, na ante-véspera de sua morte.

 

                                                                     * * * * * * * * * * * * *

 

1980 Graças à colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian, é inaugurado o Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na University of California, Santa Barbara.

1983 Em setembro, em Araraquara, inauguração do Centro de Estudos Portugueses Jorge de Sena da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (UNESP).

1999 Em novembro, no Departamento de Letras Vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi inaugurada a Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Afro-Luso-Brasileiros, com substancial apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Ver http://catedrajorgedesena.letras.ufrj.br/

2009 A 11 de setembro, dá-se a trasladação de seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, depois de solene homenagem na Basílica da Estrela, à qual compareceram várias autoridades e nomes destacados do cenário cultural português.

2010 A 2 de novembro, lançamento online do site Ler Jorge de Sena.

2010 Instituído pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa), com o patrocínio de mecenas anónimo, o Prêmio Jorge de Sena, assim atribuído:

2010 – Vitor Manuel Aguiar e Silva

2011 – Jorge Vaz de Carvalho

2012 – Jorge Fazenda Lourenço

2013 – Gilda Santos/Ler Jorge de Sena

 

 

 

 

Dados cronológicos ordenados a partir de:
Jorge Fazenda Lourenço, Cronologia de Jorge de Sena, in:—, ed. Jorge de Sena – Antologia Poética. Lisboa, Guimarães, 2010. p. 308-321.

Jorge Fazenda Lourenço & Mécia de Sena, org. Jorge de Sena – a voz e as imagens. Lisboa, IEP/UNL, 2000. (fotobiografia)

Mécia de Sena & Isabel M. de Sena, Jorge de Sena: bio-bibliografia, in: Quaderni Portoghesi 13-14. Pisa, Giardini, 1977 p. 13-22.

Poemas para Jorge de Sena

Celebrando o primeiro aniversário deste site, no dia em que Jorge de Sena completaria 92 anos, apresentamos uma breve seleção de poemas dedicados ao poeta, escritos por amigos, admiradores e herdeiros de sua escrita.  

 

 

A Jorge de Sena, No Chão da Califórnia

É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em ti
o rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

Agosto, 1978


 

Carta(s) a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde


II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

 

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

 

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

 

in: Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004. p. 41-42.

 


Presente-Pretérito: Futuro-Pretérito

Que vida longa e tempo incerto,
O longe perto, o perto longe,
E entre longe e perto, no tempo,
O presente a morrer em cada instante
Até que ressurja no passado
Ou se adie para um futuro esperado
Inseminando o tempo para a geração,
No futuro de um presente que,
A ser nascido logo passa e
Será ou não presença sensível
Do passado: a realidade única
Que alimenta o fluir dos tempos:
O passado que é o fruto das sementes
— instantes que, no passado,
Germinam, crescem e florescem
Para inventar um futuro que mal nasce
Para morrer para o passado.
Oh presente nado-morto
Que não chega para viver ou ser vivido!
«Um barão a menos ou a mais
Que diferença faz? (….)
O que é preciso é assinar papeis.»
N'As Três Irmãs de Tchekov
Ouvi qualquer coisa assim
E lembrei-me demais de mim,
O que suponho terá acontecido
Reflexivamente a todos os si-próprios
Que como eu ouviram e
Barões nem sequer conhecem
Mas têm de assinar papéis…

1988

In: Nova Renascença, Porto, out.1988/ mar.1989, p.373.

 

 

Para o Jorge, à sua maneira

Sobre essa praia tantos amigos teus
fazendo amor de forma intensa e longa
– e nesta, onde tu foste e que deixaste,
outros terás, que já amor não fazem.
Não só porque tu faltas, porque neles
acaso a tua voz, a tua voz irada,
chamou de dentro e os chamou do nada
ao palco evanescente onde o amor fingiram:
mas também porque quem sempre te negou,
por se negar, não sabe dizer sou
além do fingimento do seu amor fingido.

Maio 84
 

 

A Jorge de Sena

É porta aberta com, ao fundo, a casa
a dar para essa luz de transparência
onde animais, com os seus nomes, pastam
a incorruptível chama da tristeza.
E as urzes ardem. E o comércio aclama
a indústria do espírito. Mas, mais que tudo, a empresa
de ir navegando, quando a maré levanta
esse magma de nomes aurindo inteligência.
É porta aberta com, dentro das muralhas,
o exílio subindo a residência.

Paris, Fevereiro de 88

In: Letras & Letras, 1/6/1988.

 

 

Anti-Epitáfio para Jorge de Sena


meço os passos neste quarto
dum hotel com o nome pretensioso dum rei português
lá fora Lisboa é vento e chuva
e a tua ausência
                                 este inverno
tão estranho para mim que chegava sempre em agosto
— eu com o tanto calor de Roma nos olhos tu com as praias
tecnocráticas made In Califórnia — e a tua casa
do Restelo os teus amigos de desvairadas línguas
em camas improvisadas as corridas nocturnas para o telefone
vozes do outro lado do mundo indecifráveis
e os teus filhos: Paulo Zezinha: os tantos filhos teus
todos os anos diferentes e Mécia longe por quem choravas
— esposa mãe amante — Mécia mulher telúrica
por cada amigo sonhada quase mãe impossível

mas vou pensar-te morto? não posso:
procuro um alibi na distância entre Roma
e Santa Barbara: procuro-te
por estas ruas de Lisboa onde uma chuva subtil
me faz voltar a tantos verões que nos julgavam estrangeiros
nessa tua cidade — com surpresa não ouço
a tua voz (tu que sabias tudo) guiando-me
entre palácios igrejas monumentos: a tua impaciente voz
de quem tinha feito arder dia a dia a vida com paixão

não creio que a morte exista: apenas uma fractura
entre o estar aqui e noutro lado: como
poderia perceber então teu pensamento
o prazer da luta num coração permanecido menino
a tua agressividade de tímido sem remédio?

queimo um a um todos os ritos para defender-te
ando pelo teu país como um cego — falo
de ti nas entrevistas faço subtis distinções
sobre a tua poesia entre os que te amaram
e os que diários te matavam com o veneno
terrível do silêncio — conferências sobre ti?
sinistras ironias dum amor (filial quase) — conferências sobre ti?
discursos em memória? que burrice
estás vivo Jorge vivo: ora então salta
aqui para esta plateia de vaidade humana
ri-nos nas trombas conta-nos as histórias mais obscenas
mija no chão e ri-te ri-te ri-te
de toda esta canalha que pensa que estás morto

Lisboa, 8/12/1978
(trad. de Fernando Assis Pacheco, Joaquim Manuel Magalhães e João Miguel Fernandes Jorge)

In: Sema, Lisboa, nº 2, 1979, p.96.

 

A Jorge de Sena

Da terra que se torna nevoeiro
em que a poesia nasce e sobrevive,
dessa escura distância de estrangeiro
que fez de ti escravo de seres livre,

sei que nunca direi quanto queria.
E não da consciência que a ti era
saber que em cada verso há outra vida –
– tão só deste fascínio que me espera

junto ao olhar vazio de que a grandeza
desesperadamente é feita ou faz-se:
pois aprendi contigo que a beleza
do nada dessa angústia é que nos nasce.

Poesia é voz do exílio e só dura
entre a névoa que a terra faz escura.


In: Jorge de Sena em Rotas Entrecruzadas, Lisboa: Cosmos, 1999. p. 9

De Ana Hatherly

 

 

A polifacetada artista Ana Hatherly, apesar de ainda debilitada depois de delicado problema de saúde, muito gentilmente nos oferece este vivo depoimento, gravado em Lisboa em fins de maio de 2011, no qual evoca seu amigo Jorge de Sena e alude a fotos assinalando um encontro londrino — fotos que Mécia guardou e aqui também disponibilizamos, na seção iconografia.

 

 

 

Alguma toponímia

Um reconhecimento topográfico…

 

Jorge de Sena empresta seu nome a vários endereços portugueses, espalhados por cidades diversas. Em geral, tem como vizinhos, em ruas transversais ou paralelas, outros escritores: Almada Negreiros e Bocage em Sintra, Vitorino Nemésio em Beja, Gil Vicente em Oeiras, Fernando Pessoa em Odivelas, José Régio em Seixal, Florbela Espanca em Setúbal, etc. Mas talvez o poeta ficasse mais satisfeito com a companhia que lhe deram na toponímia de Amadora, afinal, como se vê no mapa inserido abaixo, este é o lugar em que a rua Jorge de Sena faz esquina com a rua da Liberdade.

 

Listagem Google Maps (endereços localizados na internet com links para os mapas):

  1. Largo Jorge de Sena, Sintra
  2. R. Jorge de Sena, Sintra
  3. R. Jorge de Sena, Lisboa
  4. R. Jorge de Sena, Charneca de Caparica, Setúbal
  5. R. Jorge de Sena, Quinta do Torrão, Guarda
  6. R. Jorge de Sena, Salvador, Beja
  7. R. Jorge de Sena, Estoril, Cascais
  8. R. Jorge de Sena, Montijo, Setúbal
  9. R. Jorge de Sena, Oeiras, Lisboa
  10. R. Jorge de Sena, Odivelas
  11. R. Jorge de Sena, Arrentela, Seixal
  12. R. Jorge de Sena, Pinhal Novo, Palmela
  13. R. Jorge de Sena, São Lourenço, Setúbal
  14. R. Jorge de Sena, Rio Tinto, Gondomar
  15. R. Jorge de Sena, Amadora
  16. R. Poeta Jorge de Sena, Bougado-São Martinho, Trofa

 

Listagem por Códigos Postais:

2005          Santarém (Rua Dr.)
2635          Sintra (rua)
2635          Sintra /Rio de Mouro (rua)
2650          Amadora
2675-392  Odivelas (rua e praceta)
2745-135  Sintra/Queluz (largo)
2765         Cascais/Estoril (rua e praceta)
2780         Oeiras
2820-085  Charneca de Caparica/Almada (rua)
2820-086  Charneca de Caparica/Almada (travessa)
2855         Corroios/Seixal
2870         Setúbal/Montijo
2955-201  Setúbal/Palmela
2925-173  Setubal/Azeitão (brejos dos clericos)
3700         Lisboa/Aveiro-Santa Maria da Feira
4405         Vila Nova de Gaia (praceta)
4435-045 Gondomar-Rio Tinto/Porto
4460         Matosinhos
4510         Gondomar/Porto
4560         Penafiel/Porto
4745-265  Guidoes/Trofa
4745-409  Coronado-Sao Mamede/Trofa
4785-134  Bougado-Sao Martinho/Trofa (rua poeta)
4785-598  Castelo/Trofa (rua poeta)
6300         Guarda
7800         Beja
7900         Ferreira do Alentejo
8200         Monte Choro/Albufeira (Travessa)

 


Exibir mapa ampliado

De Maria Gabriela Llansol

Dedicatória de Maria Gabriela Llansol a Jorge de Sena em exemplar de Depois de os Pregos na Erva:

 

Jorge de Sena:

Se a sua escrita não existisse, o que teria sido a minha?

Com a “cumplicidade” de

                         Maria Gabriela Llansol

                              Lovaina, Dez. 73

De José-Augusto França

A 4 de junho de 1979, no dia em que se completava um ano sobre a morte de Jorge de Sena, iniciava-se uma série de 4 programas radiofônicos sob o título “Portugal de Camões e das Comunidades”, alusiva ao 10 de junho, já então “Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas”. Muito justamente, essa primeira emissão é dedicada a Jorge de Sena e, entre outras evocações, temos o magnífico testemunho de José-Augusto França, que, generosamente autorizados, a seguir transcrevemos — e ouvimos.

 

 

Jorge de Sena morreu exactamente há um ano. Deixou a todos quantos com ele contactaram uma sensação de saudade irremediável, de revolta também: era um homem de menos de sessenta anos que tinha uma longa, longa obra feita, e uma longa, mais longa ainda, obra projectada. É sempre injusta a morte quando cai sobre artistas, poetas, criadores. No caso de Jorge de Sena, mais do que triste, foi uma traição que ela fez a um homem que tanto contou com a vida, que tanto pela vida se bateu, e que, em Portugal primeiro e depois num exílio, num exílio voluntário mas que foi sentido, profundamente sentido como um desterro, um desterro ligado a uma imensa, a uma feroz, a uma inclemente saudade do Portugal deixado, e para o qual sempre, mas sempre, ele continuou a escrever, ao qual ele sempre, mas sempre, continuou a dirigir-se…

Ontem mesmo, e como por acaso, me chegou às mãos a edição de um livro, uma plaquete, feita em Santa Bárbara, na universidade onde ultimamente ensinava, um poema, “Sobre estas praias”, um poema em cinco episódios, em cinco cantos se quisermos, traduzido em inglês também.[1] E passei uma grande parte do dia a lê-lo e vendo nele como que uma decantação de tudo quanto na poesia anterior Jorge de Sena dissera. Da poesia anterior, eu comecei a ler muito cedo, logo que apareceu a Coroa da Terra; e eu próprio contribuí para a edição da Pedra Filosofal.[2]

Porque Jorge de Sena para mim é também uma memória de tempos há muito passados. Nos anos 40, e durante 30 anos, ele me acompanhou e eu o acompanhei; em Lisboa primeiro e depois nas várias vezes que com ele voltei a encontrar-me no Brasil. Jorge de Sena foi um colaborador de uma revista minha, de anos atrás, chamada Unicórnio [3], um colaborador constante, aquele para quem sempre se podia apelar. E foi, antes de o conhecer, o homem que no Mundo Literário [4], um semanário publicado em 1946-47, me pareceu sempre encarregado de escrever os artigos mais difíceis naquele momento da vida portuguesa. E, agora mesmo, vejo um romance dele, um romance há muito anunciado, chamado Monte Cativo [5], que tem que ver com a sua experiência do Porto, do Porto onde ele estudou, do Porto que foi uma segunda cidade natal para ele. E este romance, que Jorge de Sena queria incluir num ciclo mais completo, e no qual depositava uma grande fé, este romance vai ser, com certeza, para todos nós, mais uma lembrança que, para além da linguagem da poesia, para além do ecrã que a poesia nos oferece, um quotidiano vibrante de que já tivemos anúncio nas páginas dos seus contos.

Eu estou necessariamente misturando a lembrança do Jorge de Sena meu amigo à lembrança e à presença da sua obra. Uma coisa e outra, para quem foi companheiro dele, naturalmente que constituem uma unidade, uma só situação. Mas, para além daquilo em que nos misturemos, e para aquilo que a sua obra seja, objectivamente, outra coisa há, que é a presença de Jorge de Sena na cultura portuguesa. E essa, aqui e acolá, em Portugal, no Brasil, ou ultimamente nos Estados Unidos, é uma das grandes presenças de que o nosso tempo português pôde beneficiar. Mais o nosso tempo português do que o próprio poeta, por razões óbvias. Mas esse benefício que se traduz em muitos livros publicados, em muitos estudos de extrema erudição, e também por uma polémica permanente que, por seu próprio feitio, Jorge de Sena naturalmente animava, são para os historiadores destes dois, três decénios que acabam de passar, e para aqueles que mais tarde sobre este nosso tempo venham a debruçar-se, um indício extremamente importante, sem o qual muito daquilo que foram nossos anseios, daquilo que foram nossas esperanças, daquilo que foram nossos dramas, daquilo que foram, em suma, umas vivências aflitas, ficaria sem explicação. Esta explicação está, livro a livro, na obra de Jorge de Sena, está no seu próprio destino de poeta, está naquilo – que uma vez escrevi e ainda há pouco o disse –, nessa imensa, feroz, inclemente saudade que ele teve de Portugal e que, todos nós, os jovens, sobretudo, que o lêem hoje pela primeira vez, podem ter dele, já numa situação quase que mítica, na qual os grandes poetas, como Camões, como Fernando Pessoa, como Jorge de Sena vivem na memória possível do tempo.
Notas:

1 JAF refere-se à edição bilíngue Over This Shore… Eight Meditations on the Coast of the Pacific, com tradução de Jonathan Griffin e publicada em 1979 pela Mudborn de Santa Barbara (27 p.). A troca de número de poemas é evidente lapsus linguae.

2 Lê-se no “Prefácio à Segunda Edição” (1977) de Poesia I: “Foi [Pedra Filosofal, 1950] editada pela Confluência, então pertencente a António Pedro e a José-Augusto França. […] O França tornara-se meu amigo desde os tempos preliminares do surrealismo, e na roda de António Pedro, e veio a juntar-se aos directores dos Cadernos de Poesia, e a mim, como um dos dirigentes da 2ª. série, em 1951; a ele, tanto ou mais que a António Pedro, devi que aquela edição se fizesse”. O primeiro ensaio da revista Unicórnio intitula-se “Um Caminho para a Poesia (a propósito da ‘Pedra Filosofal’, de Jorge de Sena)” e foi escrito por Adolfo Casais Monteiro, a pedido de JAF.

3 Jorge de Sena colaborou na Unicórnio (maio/1951) com a “peça em um acto” Amparo de Mãe e conduzindo e comentando o “Inquérito sobre André Gide”; na Bicórnio (abril/1952), com o texto “D.H.Lawrence, D.H.Lawrence, D.H.Lawrence… e um poema de D.H.Lawrence” e respondendo ao inquérito “Como vivem os intelectuais portugueses a sua relação com a cultura passada em Portugal”; na Tricórnio (novembro/1952), com “Ulisseia adúltera: peça em um quadro” e com o artigo “Considerações sobre a revolta”; na Tetracórnio (fevereiro/1955), com o ensaio “Tentativa de um panorama coordenado da Literatura Portuguesa de 1901 a 1950” e respondendo ao inquérito “Quais os livros que vale a pena ler? Quais os livros que valeu a pena escrever?”; na Pentacórnio (dezembro/1956 – último número da revista), com o poema “Mensagem de finados”.

4 A revista Mundo Literário foi publicada em Lisboa de 1946 a 1948, tendo Jaime Cortesão como diretor e Luís de Sousa Rebelo como editor de seus 53 números. Entre o nº 3 (maio/1946) e o nº 52 (maio/1947), Jorge de Sena tem 40 entradas, que incluem ensaios, recensões a livros portugueses e estrangeiros, crítica de cinema e de teatro, crônicas e ficção.

5 Como se sabe, do projetado “ciclo romanesco ‘Monte Cativo’”, só veio à luz o romance inacabado Sinais de Fogo. A este propósito, ler a esclarecedora “Introdução” de Mécia de Sena ao romance, a partir de sua 3ª edição, 1985, e ainda a que precede Monte Cativo e outros projectos de ficção (Porto, ASA,1994).

Andanças… Alguns endereços onde esteve Jorge de Sena*

Sena globe trotter

Lisboa:
Nasceu na Rua José Falcão, nº 55 – 1º (que era então nº 11)
Rua 18 (depois Rua Dinis Dias), nº 18 (desde 11/1/1954)

Porto:
Rua dos Bragas, nº 40 ou 41 (em 1940)
Rua da Boavista, nº 276 – 1º (em 1942)
Rua de Cedofeita, nº 503 (em 1942)
Rua de Cedofeita, nº 478 (em 1942)
Rua Miguel Bombarda, nº 243 (em 1944)

Assis:
Rua 9 de julho, nº 311 (out.1959/ jul. 1961)

Araraquara:
Rua Itália, nº 1437
(jul.1961/ out. 1965)

Rio de Janeiro:
Hotel Nelba – R. Senador Dantas, nº 46
Hotel Nice – R. Riachuelo, nº 201 (em 1965)

São Paulo:
Hotel Pão de Açucar – R. Conselheiro Nébias, 314 (em 1959)

Madison:
314, S.Broom Str. (out. 1965/ mai. 1967)
1938, Rowley Av. (mai. 1967/ ago. 1970)

Santa Barbara:
939, Randolph Road (desde set. 1970)

Londres:
Hotel Chelsea – 9, Cheyne Row (em 1957)
Crescent Hotel – 49, Cartwright Gardens (em 1971-2)

Paris:
Hotel St. Pierre – 4, rue École de Medicine
Hotel Excelsior – 20, rue Cujas (em 1972)

 

[*] Excluem-se as casas de inúmeros amigos onde se hospedou.

Auto-apresentação

Das Líricas Portuguesas, 1969

Ao organizar a antologia Líricas Portuguesas, incluindo-se no volume I, assim se apresenta este polifacetado escritor, que, segundo costumava dizer, acima de tudo considerava-se poeta:

 

Nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919, onde viveu exercendo a profissão de engenheiro civil em que se formara na Faculdade de Engenharia do Porto. Esteve então em África, no Brasil, nas ilhas do Atlântico e em alguns países da Europa. Ensaísta, dramaturgo, contista, crítico e historiador da cultura, etc., tem várias obras publicadas em volume e larga colaboração dispersa por jornais e revistas, sendo de destacar: Seara Nova, onde exerceu a crítica teatral, O Comércio do Porto, Portucale, Mundo Literário, O Primeiro de Janeiro, Árvore, etc. Um dos fiéis colaboradores de Unicórnio e números subsequentes, foi o animador e co-director das 2ª. 3ª. séries de Cadernos de Poesia, em cuja 1ª série já colaborara. Dedicou-se largamente a traduções de poesia e de romance. Tendo partido em 1959 para o Brasil, onde foi catedrático de Teoria da Literatura e de Literatura Portuguesa, e se doutorou em Letras, vive desde 1965 nos Estados Unidos da América, onde foi catedrático de Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira, e também de Literatura Comparada, na Universidade de Wisconsin, e o é actualmente na Universidade da California. Segundo declarou uma vez numa entrevista, a sua poesia “representa: um desejo de independência partidária da poesia social; um desejo de comprometimento humano da poesia pura; um desejo de expressão lapidar, clássica, da libertação surrealista; um desejo de destruir pelo tumulto insólito das imagens qualquer disciplina ultrapassada (e assim: a lógica hegeliana deve sobrepor-se à aristotélica; uma moral sociologicamente esclarecida à moral das proibições legalistas); e sobretudo, um desejo de exprimir o que entende ser a dignidade humana – uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo”.

Como pode constatar qualquer leitor que se aproxime das páginas de Sena, as características essenciais que aí aponta em sua poesia estendem-se ao restante de sua vastíssima obra, numa interna coerência conceptual rara de ser encontrada.
Mas, de 1969 – ano em que a nota foi escrita – até 4 de junho de 1978 – data de seu falecimento em Santa Barbara, California, USA – muito ainda produziu esse “escritor português, cidadão brasileiro e professor norte-americano”, ou esse intelectual que “já se sentia exilado mesmo antes de deixar Portugal”, como também costumava apresentar-se. Produção que se materializa nos livros que ainda viu editados, nos póstumos que Mécia de Sena, sua viúva, organizou e publicou e ainda numa boa soma de inéditos que repousam no seu espólio.

Uma autodefinição

De Poesia-I, 1977

O texto abaixo transcrito constitui o parágrafo final do “Prefácio à Segunda Edição” de Poesia I, datado de um ano antes do falecimento do escritor, o que, além do evidente caráter retrospectivo, lhe atribui valor quase testamentário.

 

Permitam-me que termine estas linhas citando a definição que dei de mim, quando escrevi o texto que me havia sido solicitado para o Encontro Internacional de Grado, na Itália, e que li em Roma, em Setembro de 1976, encontro esse que precedeu a honra insigne de haver-me sido concedido em Abril deste ano o Grande Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina de 1977, ao conjunto de minha obra, sem que, para tal, se tenham movido as mínimas influências diplomáticas em meu favor (e que aliás seriam descabidas, dada a organização do prémio que é efectivamente uma honra extraordinária que recebi tanto por mim como por Portugal a cuja literatura pertenço). Não é que proponha “explicar-me”. Mas creio que isso resume e ilumina o que eu sou, nas minhas convicções que, pior ou melhor, a minha poesia reflecte. Naquele escrito (que aparecerá em Portugal na reedição ampliada de Dialécticas da Literatura, a qual terá o título de Dialécticas Teóricas da Literatura) eu digo o seguinte: “Sou pessoalmente contra qualquer igreja organizada ou qualquer partido organizado, mas reconheço o direito de qualquer pessoa a ser um membro seja do que for, desde que a minha liberdade pessoal não seja com isso afectada. Religiosamente falando, posso dizer que sou católico mas não um cristão – o que apenas significa que respeito na Igreja Católica todo o velho paganismo que ela conservou nos rituais, nos dogmas, etc., sob vários disfarces, tal como a Reforma protestante não soube fazer. Acredito que os deuses existem abaixo do Uno, mas neste Uno não acredito porque sou ateu. Contudo, um ateu que, de uma maneira de certo modo hegeliana, pôs a sua vida e o seu destino nas mãos desse Deus cuja existência ou não-existência são a mesma coisa sem sentido. Filosoficamente, sou um marxista para quem a ciência moderna apagou qualquer antinomia entre os antiquados conceitos de matéria e espírito. Mas, politicamente, sou contra qualquer espécie de ditadura (quer das maiorias, quer de minorias), e em favor da democracia representativa. Não tenho quaisquer ilusões acerca desta – pode ser uma máscara para o mais impiedoso dos imperialismos. Mas isso também o podem ser outros sistemas. Sou a favor da paz e do entendimento entre as nações, e espero que o socialismo prevalecerá em toda a parte, mantendo todas as liberdades e a democracia representativa. Não subscrevo a divisão do mundo em Bons e Maus, entre Deus e o Diabo (estejam de qual lado estiverem). Apesar de minha formação hegeliana e marxista, ou também por causa dela, os contrários são para mim mais complexos do que a aceitação oportunista de maniqueísmos simplistas. Moralmente falando, sou um homem casado e pai de nove filhos, que nunca teve vocação para patriarca, e sempre foi a favor de a mais completa liberdade ser garantida a todas as formas de amor e de contacto sexual. Nenhuma liberdade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto uma igreja, um partido, ou um grupo de cidadãos hiper-sensíveis, possa ter o direito de governar a vida privada de alguém. Do mesmo modo, não devemos nunca pactuar com a ideia de que qualquer reforma vale o preço de uma vida humana. Mais do que nunca, num mundo onde as vidas humanas se tornaram tão baratas que podem ser gastas por milhões, aos escritores cumpre resistir. Poderemos ter revoluções: mas tenhamos esperança de que nelas as pessoas podem morrer por acidente, mas nunca assassinadas”. E por agora basta, quando Portugal – a quem a minha obra primordialmente pertence – tem de aprender a praticar as ironias democráticas, para sobreviver e ocupar, no mundo, o lugar que lhe cabe de antiqüíssima nação gloriosa: por uma vez, nesse país, que haja, na garantia da liberdade e da justiça, lugar para todos, como tão raras vezes houve. Do país subitamente falei. De lugares na literatura é melhor não dizer mais nada.
                                                                                                      

Santa Barbara, Julho de 1977
 

Quem é Jorge de Sena (à maneira de Curriculum)

De O Tempo e o Modo, 1968

Nasceu em Lisboa, em 2 de novembro de 1919, numa casa da Rua José Falcão, esquina com António Pedro, a Arroios, onde viveu até 1953. Essa casa foi demolida poucos anos depois desta data (mas é o cenário do conto "A janela da esquina", do volume Andanças do Demónio). Filho único e tardio de Augusto Raposo de Sena, natural dos Açores e comandante da Marinha Mercante, e de Maria da Luz Grilo de Sena, natural da Covilhã, ambos falecidos já. A família paterna era largamente de origem ou fixação açoreana; a da mãe era do Porto, com raízes transmontanas em cristãos-novos ou cripto-judeus. Ambas as famílias da alta burguesia, e a família paterna mesmo com presunções de aristocracia velha e predominância de militares, altos funcionários, etc., enquanto a materna era sobretudo de poderosos comerciantes portuenses. Nos fins do século XIX, os avós maternos, após a derrocada da sua casa, transferiram-se para Angola, onde vários tios nasceram e a descendência deles se multiplica. Mais tarde, os avós maternos regressaram a Portugal, fixando-se em Lisboa, onde vieram a morrer. A avó materna, depois de viúva, foi viver com o casal Sena, que, segundo as suas rígidas normas matriarcais, tinha direitos de primogenitura, já que Maria da Luz era a filha mais velha dos catorze filhos que tivera; e essa senhora teve uma influência cultural notável em quem foi o seu neto predilecto.

Jorge de Sena estudou a instrução primária e alguns dos primeiros anos do liceu, no Colégio Vasco da Gama, hoje extinto e substituído por um colégio de freiras, e concluiu os estudos liceais no Liceu Camões. Já noutros escritos (O Poeta é um fingidor, Lisboa, 1961) foi referido que uma sua tia-avó paterna era amiga de juventude da mãe de Fernando Pessoa (que, em casa dela, Jorge de Sena às vezes viu, quando não sabia ainda, nem estava em idade de pensar, quem ele fosse). E é interessante referir que, no 6o. e 7o. ano de Ciências, no Liceu Camões, Sena teve como professor de Físico-Químicas um jovem que iniciava a sua carreira e se chamava Rómulo de Carvalho e é hoje o poeta António Gedeão.

Os pais de Sena conheceram-se quando Maria da Luz, que se educara no Colégio de Santa Joana em Aveiro, instituição dominicana de grande prestígio na época (e que é hoje o Museu Regional daquela cidade), e onde ficara como instrutora, regressou à casa paterna em Angola, no planalto de Huila. Daí voltou ela pouco depois a Lisboa para casar, e em Lisboa viveu a sua vida inteira. Os navios, o mar, a vida marítima, foram uma realidade doméstica e pessoal de Jorge de Sena (parcialmente descrita no conto "Homenagem ao Papagaio Verde", publicado recentemente em O Tempo e o Modo), e a carreira com que sonhava e seu pai para ele sonhava (mas em termos mais "altos", a Marinha de Guerra…). Por isso, tirou os preparatórios para a Escola Naval, onde entrou em 1937, como no. 1 do seu curso. Como cadete de marinha, esteve em Cabo Verde, São Tomé, Brasil, Angola, Canárias. Algumas das suas recordações de viagens foram usadas no tríptico "Duas Medalhas Imperiais, com Atlântico", publicado em Andanças do Demónio, e no conto longo ou novela "A Grã-Canária", do volume inédito Os Grão-Capitães. Demitido da Marinha de Guerra, o seu desejo teria sido ingressar na Marinha Mercante, no que seu pai não consentiu, ou de prosseguir uma carreira de matemática, para o que o chamavam as altas classificações que tirara nos preparatórios para a Escola Naval. A isto se opôs violentamente a família toda, sobretudo paterna, que só aceitava carreiras militares, enquanto a materna não favorecia (na transformação social do antigo status comercial) senão carreiras liberais. Naquele tempo, as famílias tinham ainda um poder enorme na vida das pessoas, e tê-lo-iam bem mais, neste caso particular, após anos e anos de regerem o filho único de um pai sempre mitològicamente ausente, e que, sùbitamente, por um desastre e por doença, se tornara um inválido e se considerava desesperadamente e obsessivamente algo como um navio retirado de circulação e ancorado no Mar da Palha, antes de ser desfeito para sucata. 

Jorge de Sena começara a escrever conscientemente (e muito mal) nos princípios de 1936, sob a influência inicial de ter ouvido, pela rádio, La Cathédrale Engloutie de Debussy (o que é contado num dos poemas do último livro, Arte de Música). Mas era então, e no meio familiar, impensável (além de impossível para quem tirara o curso complementar de Ciências) um curso de letras. Foi então escolhido o curso de Engenharia, compromisso entre as matemáticas indignas e as profissões liberais condignas, que Sena tirou na Faculdade de Ciências de Lisboa e completou em 1944 na Faculdade de Engenharia do Porto. Naquela Faculdade de Ciências conheceu e teve por colega José Blanc de Portugal – e a sua estreia em letra de forma fez-se num jornalzinho efémero que nessa faculdade se publicou. De 1936 a 1939, Jorge de Sena desenvolveu a sua cultura literária, sem qualquer convívio com os meios respectivos (era de colegas de Ciências o conhecimento com José Blanc), e, quando a Presença publicou em 1939 o poema Apostilha, de Álvaro de Campos, como inédito, escreveu uma carta chamando a atenção para o facto de que esse poema havia sido publicado vários anos antes em Noticias Ilustrado, com variantes. A carta foi publicada por simbólica coincidência no último número daquela revista, de Fevereiro de 1940. E uma breve correspondência com Casais Monteiro, que acusara a recepção dela, culminou numa entrevista no 1o. andar do Café Chave de Ouro, no Rossio, que não existe já, e que era então um dos quarteis-generais, senão o quartel-general, do modernismo. Aí se reunia quase toda a gente que vivia em Lisboa, e aí apareciam os que a Lisboa vinham de vez em quando. Havia várias presidências de mesa, então apenas cordialmente hostis umas às outras, e que eram regularmente ocupadas por Gaspar Simões, Casais Monteiro e José Osório de Oliveira. Foi aí no Chave de Ouro que Jorge de Sena conheceu os rapazes dos Cadernos de Poesia. No n. 2 desta publicação, sob o pseudónimo de Teles de Abreu (apelidos seus de família), foram impressos os seus primeiros poemas a não aparecer em publicações sem repercussão nos meios literários. Foi isto em 1940. Em 1942, por cotização entre os directores do Cadernos e o autor, foi feita a edição do primeiro livro de poemas, Perseguição. Nesse mesmo ano, realizou Sena a sua primeira conferência pública, por acção de Ruy Cinatti, na Juventude Universitária Católica, a que não pertencia nem pertenceu nunca. O final dessa palestra (depois publicada na revista Aventura, e celebrando Rimbaud) foi marcado por um cómico incidente com o director espiritual daquela entidade, que ficou preocupado com o efeito deletério que Rimbaud e as interpretações expostas poderiam ter na pureza virginal das suas ovelhas.

De Outubro de 1940 até Novembro de 1944 (quando fez os últimos exames do seu curso), viveu Jorge de Sena sempre no Porto, com excepção de vindas a Lisboa pelo Natal e pela Páscoa, das férias grandes de 1940-1941 (passadas num estágio de topografia nos arrabaldes de Lisboa), e do 1o. ciclo de oficiais milicianos que foi chamado a fazer apesar de demitido da Marinha, no verão de 1942 em Penafiel, e do 2o. ciclo do mesmo curso militar que fez em Tancos, no verão de 1943. No ano lectivo de 1942-43, teve de abandonar os estudos no Porto e de ficar em Lisboa, por doença. Alguns aspectos da sua vida no Porto aparecem nos poemas de Coroa da Terra, que são desse período, assim como no conto A Campanha da Rússia do volume Andanças do Demónio. Experiências do curso de milicianos em Penafiel são dramatizadas no conto "As Ites e o Regulamento", do volume inédito Os Grão-Capitães. Outras experiências militares aparecem em outros contos desse mesmo volume, e reportam-se ao serviço como oficial miliciano que, em 1944, levou o autor aos Açores.

Em 1945, Sena começou a exercer a profissão de engenheiro, tendo sucessivamente servido na Câmara Municipal de Lisboa, na Direcção Geral dos Serviços de Urbanização, e na Junta Autónoma de Estradas, tendo entrado para o quadro deste último organismo, de que se separou ao fixar residência no Brasil em 1959. Após uma longa agonia que consumiu o que a família tinha e não tinha, seu pai morreu em 1944, e a avó materna oito dias depois. Casou em princípios de 1949. De 1949 a 1959 nasceram ao casal sete filhos. Em 1953, o casal mudou-se para uma casa do Bairro do Restelo, onde a mãe de Sena faleceu em 1967. Só em 1952, após as viagens de 1937 e a ida aos Açores em 1944 (mas após sete anos de conhecer Portugal de ponta a ponta, como engenheiro da J. A. E.), é que Sena saiu de Portugal para a Europa, numa viagem a Inglaterra. Dessa época em diante viajou muito por Espanha, e em 1957 voltou a Inglaterra, tendo também então visitado a Bélgica e estado em Paris.

Em Agosto de 1959, Sena, convidado a tomar parte no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros pela Universidade da Bahia e pelo Governo Brasileiro, partiu para o Brasil onde aceitou ficar como catedrático contratado de Teoria da Literatura, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, no Estado de São Paulo, experiência de nova estrutura universitária do governo daquele Estado do Brasil. Em 1961, transferiu-se para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, pertencente ao mesmo sistema universitário, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa, cargo de que se licenciou em Outubro de 1965 para partir para os Estados Unidos da América, e de que pediu a demissão em 1967. No Brasil deu cursos ou conferências em diversas universidades: a do Brasil, as de Recife, Ceará, Minas Gerais, Bahia, etc., e fez parte da comissão do Ministério da Educação Nacional, que propôs a reformulação dos currículos superiores de Letras. Na Universidade de São Paulo, foi membro de vários júris para doutoramento, livre-docência (que equivale, em Portugal, ao concurso para professor extraordinário) e cátedra. Em 1964, após numerosas dificuldades burocráticas ou outras, Sena conseguiu defender tese de doutoramento em Letras e de livre-docência em Literatura Portuguesa, e os títulos académicos foram-lhe concedidos "com distinção e louvor". O júri era composto por catedráticos das Universidades do Brasil (Rio de Janeiro), São Paulo, Minas Gerais, e Bahia. A tese é Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular, ainda inédita, para lá da edição original mimeografada.

Em 1965, convidado pela Universidade de Wisconsin (considerada uma das "ten top" nos Estados Unidos), Sena deslocou-se para os Estados Unidos, para reger cursos avançados de literatura portuguesa e de literatura brasileira, e dirigir teses de doutoramento em literaturas de língua portuguesa. Após dois anos como "visiting professor", foi nomeado catedrático do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Wisconsin, ou seja, na terminologia americana, "full professor with tenure". Nos Estados Unidos, tem feito conferências em diversas universidades; e falado ante agremiações de cultura. Foi eleito em 1966 académico da Hispanic Society of America, e é membro da Modern Language Association e da Rennaissance Society of America. No Brasil, teve bolsas do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, para as suas investigações camonianas. Tem-nas recebido também de instituições americanas e da sua Universidade.

Participação em congressos técnicos ou literários, secretarias de alguns deles, trinta anos de colaborações dispersas em jornais e revistas de vários países, etc., eis o que é impossível resumir mesmo brevemente num currículo como este, sendo de destacar a acção como crítico literário em Mundo Literário, como crítico teatral na Seara Nova e na Gazeta Musical e de todas as Artes, e como conferencista sobre cinema nas secções do Jardim Universitário de Belas Artes, além dos artigos que publicou em O Primeiro de Janeiro e em O Comércio do Porto. Poemas de Sena estão traduzidos e publicados em espanhol, francês, inglês, alemão, croata e lituano. 

De Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia_e_Sena

Carta(s)
a Jorge de Sena

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

 

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem –
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como o filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
– Grandioso vencedor e tão amargo vencido –
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

 

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

 

in: Ilhas. Lisboa: Caminho, 2004. p. 41-42.

 

A vida de Camões

Da vida de Camões pouco sabemos
E fantasias de historiadores pouco interessam
Bem mais reais e exactos me parecem
Poemas contos e as convocações
De Super Flumina Babylonis
Onde o inscreveu se inscreveu nos inscreveu Jorge de Sena

De Camões direi que nos é pátria:
Este preciso sabor de exílio
Que há muito nos conhece e há muito conhecemos

 

in: Jorge de Sena: Ressonâncias & Cinquenta Poemas. (org. Gilda Santos) Rio de Janeiro: 7Letras, 2006. p.248.

De Vasco Graça Moura

Em 2005, num encontro com jovens, Vasco Graça Moura foi surpreendido pela leitura de “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, com que o quiseram homenagear. Ao agradecer, valeu-se do ensejo para ampliar o conhecimento dos presentes sobre o autor do poema. Sacou da memória elementos da vida e obra do escritor e improvisou uma apresentação em traços largos desse Jorge de Sena que lhe inspira uma admiração sempre reiterada. Abaixo, transcrevem-se as palavras finais da breve “aula” (segundo http://www.(…)vascogracamoura03.pdf):
Um homem com uma obra vastíssima no domínio da investigação, ensaio, romance, teatro, tradução… Não há praticamente nenhuma área da criação literária que ele não tenha percorrido.

Tinha uma capacidade inovadora extraordinária. No livro em que sai esta obra [o poema “Carta a meus filhos…”], Jorge de Sena faz uma coisa inovadora: ligar um livro inteiro (Metamorfoses) a obras de arte visuais. Depois veio a ligar um outro livro inteiro a obras de arte musicais. Isto é extraordinariamente moderno na vida e cultura do séc. XX e tem a ver com o chamado ekfrasis – um “palavrão” grego que designa a descrição verbal de uma obra de arte visual, precisamente isto que ele faz com o quadro “dos fuzilamentos”. E tem coisas semelhantes, como quando se reporta a um busto de Camões, uma gazela da Ibéria encontrada numas escavações, etc. Esta visão do Jorge de Sena foi extremamente inovadora. Havia um poema do Jaime Cortesão, dos anos 15 ou 16, sobre Botticelli e um poema de Eugénio de Andrade sobre uma pintura de Augusto Gomes, dos anos 40, mas não havia praticamente mais nada. Depois de Jorge de Sena, muitos outros seguiram esses passos.

Ele é muito importante porque também representa a consciência de Portugal vista por um exilado. A partir de 59 viveu fora de Portugal (embora tenha vindo cá em 77 e em 69, quando eu o conheci pessoalmente). Sendo ele um homem de esquerda e avesso àquele Portugal e ao salazarismo, teve sempre um olhar muito amargo sobre a nossa realidade, porém, extremamente lúcido. Um pouco como aquilo que encontramos em outros pensadores que viveram ou vivem no estrangeiro, já desde o séc. XVIII, os chamados “estrangeirados”. Ou aquilo que vemos em Eduardo Lourenço, figura incontornável que tem vivido basicamente em França.

Gostava de salientar que o Jorge de Sena se bateu sempre pelo livro e pela cultura portuguesa, não em termos de paroquialismo fechado mas com abertura ao mundo e em contacto vivificante com outras culturas. Penso que é exemplar ter sido aqui lido um dos grandes poemas políticos da Literatura Portuguesa. Este é um dos maiores gritos em favor da dignidade humana que a Literatura Portuguesa produziu.

Na sua própria produção poética Vasco Graça Moura evoca Sena em vários momentos. O mais marcante encontra-se no poema “Jorge de Sena na Ilha de Moçambique”, do livro Os Rostos Comunicantes, 1984. (Já pelo título do poema, é impossível não pensar num imediato diálogo com os versos senianos de “Camões na Ilha de Moçambique”)

 

jorge de sena na ilha de moçambique

debruçado a esta janela quinhentista sobre a água lilás
do pôr do sol, jorge de sena repousava os olhos, ainda ofuscado
pela brancura da pedra e de tanta memória gastando-se
até onde pobremente o camões se arrastara

e um d.joão de castro está sepulto. fora uma tarde desmedida
de amargos deslumbramentos, de intimidades fragmentárias, de
coisas a ressoar (“e nunca pude saber dele”
diz-se, na década oitava, de um manuscrito roubado).

jorge de sena andou por aqui enxugando o suor com um enorme lenço
e rugidos na alma, e nem viu as acácias, o seu fogo insolente, as mulheres de máscara branca,
crispado entre os amigos nesta escala da passagem
de nada para parte nenhuma, por ruelas e pátios de má fortuna abandonados.

viu sim os rebocos desfeitos pela traça do tempo, tanta textura de flores esboroadas,
tanto mapa perdido de aventurososo destinos,
e viveu tudo isso como se o próprio orgulho, a prumo, com o seu nobre olhar
de exilado, fosse uma altiva insensatez.

sentia essa embargada transparência, um tão ágil amor desesperado,
e tinha de ter raiva: nem há neutralidades anódinas, é-se apanhado
por estas evidências a crescerem em nós como o coral insuportável
ramificando-se desta luz, desta água, desta força honrada do lugar.

a tarde foi caindo até ao cinzento escuro
e era parda a vela subitamente içada (ou rósea ainda?)
de algum barco pequeno cuja sombra partia. como é possível o trabalho
de peregrinar sem vir aqui? possível que isto vá morrer?

“o coração da vida está na lucidez das cicatrizes
que nos povoam” disse-lhe circe na praia transformando-o
no vulto que descia a correr as escadas da prelazia até
à misericórdia, ao palácio do governador, à rua dos arcos,

desprezando a quem implorava. ou não desceria
porque lá esteve antes, mas que interessa?
se andava por aqui crivado de dívidas e de versos
e lhe haviam tirado o seu parnasso e foi furto notável

e muito mais do que isso é comover-nos
este adobe de lembranças a destempo, esta severa condição
de um jogo limpo em que o real
só é dizível porque algumas palavras o destroem

e algumas palavras lhe resistem. anonimamente
jorge de sena voltou a pagar os duzentos cruzados da dívida:
camões parte amanhã mas continua aqui.
nem é desterro nosso que assim seja.

Vasco Graça Moura, Os rostos comunicantes, Lisboa, D. Quixote, 1984 p. 22-25

Jorge de Sena’s Biography

Critics and biographers himself generally emphasize the importance of biography, the concept of metamorphosis, and the experience of “double exile” when they write about Jorge de Sena. Although he spent much of his life in Brazil and the United States, Sena stated more than once: “I have always been in exile, even before I left Portugal.” The statement reflects the feelings of an intellectual who was born in a Portugal on the brink of the longest running European dictatorship of the twentieth century, and who grew up surrounded by all sorts of abuse of power and censorship.

Even family circumstances did little to attenuate the declared feeling of displacement that Sena kept for most of his life. Born in Lisbon on 2 November 1919, he was the only and late-coming child of a Merchant Marine Commander, Augusto Raposo de Sena, who was away from home for long periods of time and of a gifted, submissive woman of fine education, Maria da Luz Teles Grilo. Sena learned to read at the age of three, with his mother’s en-couragement and, at age ten, he could read French fluently. He found refuge from his solitude in books. His domestic environment appears to have been less than harmonious, judging from the short story “Homenagem ao papagaio verde” (Homage to the Green Parrot), which Sena always characterized as autobiographical. The situation became even worse when, in 1933, his father suffered an accident at sea and had to have a leg amputated. The family was forced to live on a small monthly allowance that the Companhia Nacional de Navegação gave the officer who had served them for over 40 years. The family was almost always in debt; this was the beginning of financial difficulties that Sena would face continuously throughout his life. From this less than happy childhood, only his grandmother on his mother’s side, Isabel, stands out. Sena was her favorite grandson, and it was she and his mother who gave the boy, who had shown an early artistic sensitivity, the greatest intellectual incentive. At age ten, he began piano lessons and continued to develop his musical taste for the rest of his life.

Sena studied in the best schools in Lisbon of the time. He finished high school in 1936, and that same year, took the preparatory course for the Escola Naval. With his family’s support, Sena entered the school with the highest grades of his class in the preparatory course. He earned first cadet in the “Curso do Condestável.” In February 1937, he set out on his first journey, on the teaching ship Sagres, visiting Cape Verde, São Tomé, Brazil, Angola, Sene-gal, and the Canaries, places that impressed him and were later pictured in his work.

For reasons still not exactly known, Sena was discharged from the Navy in March 1938. A naval career had been his major dream, so the discharge caused him enormous personal trauma, noted later in his work in the recurring theme of exclusion. Feeling sad, wronged, and humiliated, he shut himself up at home, until the beginning of the new academic year in October. When he finished his courses in 1940, he moved to Oporto, where he enrolled in the school of engineering.

The period between 1936 and 1940 was a formative one in Sena’s life. He started his career as a writer in the same year that the Spanish Civil War began, a fact noted in his novel Sinais de fogo (Signs of Fire). Influenced by Debussy’s La Cathédrale Engloutie, at age sixteen he began to write poetry, as reflected in the prologue-poem of Arte de música. He wrote the short stories “Paraíso perdido” (Paradise Lost) and “Caim” (Cain) during that period. Both stories contain autobiographical elements and, although written by a seventeen-year old, they reveal great narrative strength. The year 1938 was a particularly fertile one for the author. He started a novel, wrote a one-act comedy, a Lied inspired by the poem “Pobre velha música” (Poor Old Music) by Fernando Pessoa, and no less than 256 poems. His poetry pro-vided a catharsis during the anguished months of enclosure after his discharge from the Navy. The following year, 1939, he wrote 168 poems and published his first work: his poem “Nevoeiro” (Mist) appeared in a student’s review under the name of Teles de Abreu (which Sena used until 1942). In the following issue of the same review, he published the essay “Em prol da poesia chamada moderna” (In Favor of the So-called Modern Poetry). In 1940, he published a letter on Fernando Pessoa’s poem “Apostila” (Apostil) in the last issue of Pre-sença, and he began to collaborate on the journal Cadernos de Poesia. He later became co-director of the journal. During these early years, Sena was a voracious reader, focusing his attention on the established names in the literature and philosophy.

From October 1940 to November 1944 Sena lived in Oporto while attending the Uni-versity. He left the city only to go on vacation, for health reasons, and to fulfill his military duty, for which he was called in the summers of 1942 and 1943. The new military experi-ences, which lasted until 1945, are described in less than flattering terms in the short stories of Os Grão-Capitães (The Grand Captains). Sena’s years at the University of Oporto were extremely active ones. In 1941, he gave his first public lecture, “Rimbaud, ou o dogma da trindade poética” (Rimbaud or the Dogma of the Poetic Trinity), which initiated a long and bril-liant career as a lecturer. The following year, he published his lecture in a Lisbon magazine, and, under the aegis of the Cadernos de Poesia, his first poetry book, Perseguição (Persecution). In 1943, he started writing for the Lisbon paper Diário Popular, as a literary critic (later extended to film, music and theater), thus starting a career as essayist-journalist that he would pursue throughout his entire life. 1944 was his final year in engineering program, which with-out the financial help of his friends would not have been possible.

Sena finished his verse tragedy O indesejado (The Unwanted King), which he frequently read at gatherings of friends and other artists, in 1943. That same year, despite his status in the military, he signed one of the public lists that circulated in the country demand-ing free elections. He escaped prison by direct intervention of his Brazilian friend Ribeiro Couto, who was then in Portugal working at the Brazilian Embassy. The following year, Couto convinced editor Lello, from Oporto, to publish Sena’s second volume of poetry, Coroa da terra (Crown of the Earth), dedicated to that city.

In 1946 Sena started to work professionally as an engineer, first as an apprentice in some public organizations. He later took a permanent position with the Junta Autónoma das Estradas, where he stayed from 1948 to 1959, the year in which he moved to Brazil. The job assured him a regular though modest income, and it allowed him many trips around the coun-try, from which many of his historical and literary studies later benefited. He went to England in 1952 and 1957 for further professional training in engineering. During the first visit, he read a series of six chronicles entitled “Cartas de Londres” (Letters from London) for the BBC.

Sena met Maria Mécia de Freitas Lopes in 1940, and in 1949 they were married. Over the years they would have nine children, and she would become his greatest collaborator in life and work. With this new support by his side, Sena was very productive throughout the following ten years (the last ones he would live in Portugal) and defined his position in Portuguese literary and intellectual life. He published his third book of poetry, Pedra filosofal (Philosopher’s Stone) in 1950, followed by As evidências (The Evidences, 1955) and Fidelidade (Fidelity, 1958). In 1951 both O indesejado and A poesia de Camões. Ensaio de revelação da dialética camoniana (The Poetry of Camões. An Essay on the Camonian Dialectics) appeared in print. The latter, reproducing a lecture given at Oporto on 10 June 1948, is the starting point for his many critical studies on the sixteenth-century poet Luís de Camões. He published the book of essays Da poesia portuguesa (On Portuguese Poetry) in 1959, and as an anthologist, he produced the volume Líricas portuguesas (Portuguese Lyric Poetry). He started working as a literary consultant for the publishing house Livros do Brasil, and as a translator, he published the following: poems by Cavafy; Porgy and Bess, by DuBose Heyward; and Long Day’s Journey into Night, by Eugene O’Neill. Sena’s contact with literature in English was a novelty on the Portuguese cultural scene of the time, which was still heavily influenced by the French. Diversity of tasks and interests became a permanent aspect of Sena’s life, as seen in the volume and variety of his publications.

One activity about which Sena rarely spoke, perhaps owing to excessive caution, was that of a politically active citizen. He was always associated with those individuals who opposed the Salazar regime. After 1953, when he moved to the house in Restelo (which belongs to his family to this day), he was always willing to facilitate contacts or meetings of different groups. Special mention should be made of the failed attempt to overthrow the regime, known as the “Golpe da Sé”, which was to take place on 12 March 1959. Deeply involved in this, and witnessing the imprisonment and disappearance of companions who were as en-gaged as he was, Sena left for exile in Brazil.

The author arrived in Brazil on the 7 August 1959 (his family arrived a few months later). He had been invited to participate in the 4o Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, organized by the Universidade da Bahia, where his friends Adolfo Casais Monteiro and Eduardo Lourenço were lecturers. They had a decisive role in planning the event, which took place in Salvador from August 10 to 21. This was the first international confer-ence in literary and cultural studies in which Sena participated. Facing an audience of various specialists, he chose Fernando Pessoa as the theme of his lecture. Sena attended many important international conferences throughout the rest of his life.
The most important consequence of his Brazilian exile was the advancement of his academic career. Soon after his arrival, Antônio Soares Amora invited him to teach in the new Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras of Assis, São Paulo State. He stayed in Assis until July 1961, and then moved to Araraquara, where he taught Portuguese literature and literary theory until moving to the United States in 1965. In 1962 he taught a course on English literature, on which he published a book the following year. At that time, Assis and Araraquara had prestigious teaching staffs that contributed to the high quality of the intellec-tual atmosphere of both institutions at the time.

Sena always said he was born to teach, and in Brazil was always overbooked with classes, which, although he was not very well paid, still greatly satisfied him. Deeply involved in his new career, in 1964 he decided to take examinations, in Araraquara, to obtain his doctorate and professorship. He received the maximum grades from all examiners, as well as mention of “praise and distinction” for his thesis O soneto de Camões e o soneto quinhentista peninsular (The Sonnets of Camões and the Peninsular Sonnets of the Sixteenth Century). His was the first doctorate awarded by the Faculdade de Araraquara.

Sena always had a keen interest in research. In Brazil he had managed to obtain institutional support to develop his studies on Camões. His work led to volumes that are today fundamental references, such as Uma canção de Camões (A Song of Camões), A estrutura de Os Lusíadas (The Structure of Os Lusíadas) and Trinta anos de Camões (Thirty Years of Camões). These volumes comprise texts based on a thorough study of the photocopies of all editions and manuscripts of Camões’ works. Sena evaluates the state of Camonian studies and questions the work of established authorities, while proposing new ideas and notions on Camões’s dialectics and Mannerism.

In Brazil, Sena performed many functions at the same time. He lectured and did research; he gave seminars and conferences; he collaborated on literary and non-literary journals, did translations and editorial work, and travelled extensively. At the same time, for years he wrote the section “Letras Portuguesas” (Portuguese Literature) for the famous news-paper O Estado de São Paulo.

Sena’s literary production is truly astonishing. He took advantage of the freedom of the intellectual climate in Brazil, but he always insisted on being considered a Portuguese writer. And he published almost all his works in Portugal. He wrote around 120 poems, mostly found in the books Peregrinatio ad loca infecta, Arte de música (Art of Music), and Metamorfoses (Metamorphoses). At this stage, Sena wrote his first text in which Camões appears as the protagonist – “Camões dirige-se a seus contemporâneos,” (Camões Addresses his Contemporaries) from Metamorfoses – inaugurating one of the most fertile veins in his poetry: that in which the sixteenth-century poet is transformed into persona or alter-ego of the poetic “I”.

It was in Brazil between late 1964 and June 1965 that Sena wrote the first and most substantial segment of his only novel, which remained unfinished, Sinais de fogo. Although he returned to the text later in the United States, he never managed to complete it. The novel was intended to portray life in Portugal from 1936 to 1959. Sena only completed the part that takes place during some months in 1936, when the protagonist Jorge discovers love, poetry, and war. Although unfinished, the work is frequently included in the list of the best Portu-guese novels of the 20th century.

Sena’s only novella, O físico prodigioso (The Wondrous Physician) is dated Araraquara, May 1964. Praised by the critics, it represents an important moment if work. The allegorical atmosphere, with medieval and fantastic elements, created in the narrative accen-tuates the political reading allowed by the text in which it is easy to detect the Brazilian military dictatorship that had just come to power.

Of the eight short stories that constitute the book Andanças do Demônio (The Devil’s Doings), published in 1960, all but two (“Razão de o Pai Natal ter barbas brancas” [The Reason Why Santa Claus Has a White Beard] and “A Comemoração” [Commemoration]), written in the 1940’s, were kept unaltered. The others were either written or revised in Brazil. The seventeen short stories that make up Novas andanças do Demônio (New Devil’s Doings, 1966) and Os Grão-Capitães (The Grand-Captains, 1976) were written in either Assis or Araraquara. Some of these, such as “Super Flumina Babylonis”, “A Grã-Canária” and “Os amantes” (The Lovers), are true masterpieces of short fiction. Sena was fully aware of the difficulties of publishing this last collection. Extremely critical of the military life, they could not be distributed in Por-tugal before the Revolution.

While in Brazil, Sena wrote two one-act plays in March 1964: A morte do Papa (The Death of the Pope) and O império do oriente (The Empire of the Orient). The author himself pointed out the relation between the texts and the military assuming power in Brazil that year, attesting to how much the political situation had affected him. Rather than dedicating a lot of time to writing plays, Sena became involved with the people working in the Brazilian theater.

During the 1960s Sena also maintained close contacts with the Brazilian intelligentsia, some of whom he had known through reading or correspondence. His exchanges with poet Manuel Banderia deserve special attention, as does his encounter with the Concretist poets Augusto de Campos, Haroldo de Campos, and Décio Pignatari. He published his asemic poems that evoke Afrodite Anadiômena, of the final part of Metamorfoses, in their journal Invenção.

In Brazil, Sena was involved in his most intense political activity. He could never have done this openly in Portugal without running risks he could not afford with such a large family. Soon after his arrival in São Paulo, he joined the board of editors of the opposition newspaper Portugal Democrático, where he published thirty seven texts between November 1959 and October 1962. Most of these were signed, but some are anonymous or written un-der a pseudonym. Sena’s collaboration on Portugal Democrático, published by a group of intellectuals who shared anti-Salazarist ideas, lent prestige and respectability to the paper. Fighting against Salazar from a distance, quixotic as it may seem to some, was still a form of connection with his native land. The Portuguese political police (PIDE) maintained a dossier on Sena, with copies of his articles, and, in January 1962, issued an order of arrest against him. In July of the same year, he was banned from entering Portuguese national territory. This ban was only lifted in 1968. In addition to this intense participation in Portugal Democrático, Sena was also involved in other similar political activities, such as the Portuguese Republican Center in São Paulo, where he often lectured.

In spite of the physical distance between Sena and Portugal, his attention and activities remained focused on that country. Nonetheless, he also took an interest in the politics of his country of exile, of which he became a citizen in 1963. He followed Brazilian politics quite closely, but he did not take any conspicuous political stand. Many of his texts, however, reveal his close connection with events he witnessed in that country. He had arrived in Brazil under Juscelino Kubitschek; he followed the rise and resignation of Jânio Quadros, and the rise of João Goulart; and he witnessed the military coup of 1964. This last event, for many reasons, including the threat to his own survival, disquieted him. The evolution of the dictato-rial process only enhanced the anguish and sadness that he knew so well, and that was further increased by the wave of imprisonment and expulsion of many intellectuals and artists. As an inevitable consequence of this panorama of insecurity, Sena decided to leave Brazil. He ac-cepted an invitation as Visiting Professor at the University of Wisconsin, Madison, in the United States. He moved there, in October 1965, with Mécia and their children, two of whom had been born in Brazil.

The following year, Sena was promoted to the rank of Professor of Portuguese and Brazilian Literature and granted tenure. Sena plunged with characteristic intensity into the life of professor, scholar, and lecturer. He attended many conferences and meetings of professional societies and organizations. He also became a member of well-known American associations, such as the Hispanic Society and the Modern Languages Association. In 1968, he returned to Portugal for the first time after having left his country. From that point on, he would regularly return there, as well as visit other European countries to attending confer-ences and give lectures. It was his travels undertaken during his years in the United States that brought him the international renown as a writer and scholar.

Sena moved to the University of California at Santa Barbara in 1970 where he served as the Chair of Portuguese and Brazilian Literature and of Comparative Literature. Two years later, he had the opportunity to travel to Angola, South Africa, and Mozambique. His wife affirmed that the visit to the Isle of Mozambique, where Camões had lived in misery, was “one of the most touching moments in his whole life.” In 1974 Sena was named Chairman of the Spanish and Portuguese Department and of the Interdepartmental Program Comparative Literature, posts he held until his death. For his efforts in the diffusion of Portuguese culture, he was awarded the Order of Infante D. Henrique in Portugal in 1977. That same year, he received the Italian Etna-Taormina Poetry International Prize, and, invited by the President of Portugal, Ramalho Eanes, delivered the famous “Discurso da Guarda,” on June 10, Camões’s Day.

Sena died 4 June 1978, a victim of lung cancer. He posthumously received the Order of Santiago de Espada, the awarding of which was announced to him three days prior to his death, over the phone by the President of Portugal.

The multifaceted work of Sena is characterized by a profound internal coherence, based on an amazing network of intertextual sources. Sena considered himself to be, above all, a poet, and, indeed, it is easy to see that his poetry has repercussions in all the other genres he cultivated. Like other Potuguese poets of the post-Orpheu generation, Sena had to confront the awe-inspiring figure of Fernando Pessoa. He has been one of the few who, in his own innovative diction, has managed to respond to the challenges created by the polyphonic poetics of Pessoa. Sena is also one of the most recognized scholars of Pessoa’s work.

Associated since his early days as a writer with the Cadernos de Poesia, Sena, along with Eugénio de Andrade and Sophia de Mello Breyner Andresen, attempted to reconcile tendencies which competed on the Portuguese literary scene of the 1940s and 1950s. Backed by his theory of “testemunho” (witnessing), which he openly opposed to that of Fernando Pessoa’s “fingimento” (pretending), Sena proposed the creation in verse of what he called a “poetic diary.” The author explains: “um desejo de independência partidária da poesia social; um desejo de comprometimento humano da poesia pura; um desejo de expressão lapidar, clássica, da libertação surrealista; um desejo de destrurir pelo tumulto insólito das imagens, qualquer disciplina ultrapassada (e assim: a lógica hegeliana deve sobrepor-se à aristotélica; uma moral sociologicamente esclarecida à moral das proibições legalistas); e sobretudo um desejo de exprimir o que entende ser a dignidade humana—uma fidelidade integral à respon-sabilidade de esatarmos no mundo” (a desire for independence that favors social poetry; a desire for human engagement of pure poetry; a desire for lapidary, classic expression of the surrealist liberation; a desire to destroy, through the unusual rioting of images, any outdated discipline (and, thus: Hegelian logic must impose itself over the Aristotelian one; a moral which is sociologically aware over that of legalist prohibitions); and above all a desire to ex-press what it understands to be human dignity – a complete loyalty to the responsibility of us being in the world). One can see here Sena’s humanism, which echoes throughout much of his poetry, especially in the book Metamorfoses in poems such as the emblematic “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” (Letter to My Children on the Executions of Goya).

Sena participated in many aesthetic trends during his forty years of writing poetry. His early books reveal an influence of Surrealism; he wrote a-semic creations in “Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena (Four Sonnets to Afrodite Anadiómena); Sequências (Sequences) contains his private experimentalism; and he wrote excellent classical poems characterized by formal rigor and semantic depth. He was able, nonetheless, to establish his own style and build a solid oeuvre that has been (and will continue to be) influential to various generations. In fact, critics such as Eduardo Prado Coelho describe him as a “figura titular” (a guarding figure), who “condiciona, em níveis diversos, quase tudo o que a poesia portuguesa contemporânea considera e partilha” (conditions, in various levels, almost everything that contemporary Portuguese poetry considers and shares).

Love, homeland, and poetry, as seen in these verses, are the important themes that structure Sena’s work: “De amor e de poesia de ter pátria/aqui se trata” (Love and poetry and having a country/ are dealt within here). Love, often expressed through erotic and sexual metaphors and images, is a dominant concern of the poet. The language used to convey the poet’s feelings and ideas is often direct and daring, less to shock the reader than to celebrate a consecration of the body that is seen as a primordial, constructive, and cosmogonic force. The seizure of the book As Evidências (The Evidences, 1955), considered “subversive and pornographic” by the Salazar regime, confirmed the impact of Sena’s politico-erotic discourse on a strongly sexually repressed Portuguese nation. Later poems, such as some in Exorcismos (Exorcisms, 1972) continue the theme of “o sexo em tudo visto” (sex seen in everything) in Sena’s poetic universe.

The notion of homeland, closely linked to the concepts of pilgrimage, roots, and exclusion, constitutes an important aspect of Sena’s poeticization of his personal experiences. The poet’s relationship to his country is a complex, dichotomous one of love and hate; Portugal is often perceived as the mother that forced him out of his home into a life of wandering and into many exiles. The title of one his books of poetry captures well the result of the feeling: Peregrinatio ad loca infecta. A citizen of the world, images of Sena’s many travels appear in all of his works, which serve as witness to the chaotic historical moment of transformation in he which he lived.

Like his sixteenth-century predecessor Camões, Sena was torn between an acute sensitivity and the vicissitudes of his world. Sena’s work is characterized by an enormous capacity for indignation and ethical questions that he transforms into theological and metaphysical ones, as in the poem “A morte, o espaço, a eternidade’ (Death, Space, Eternity) in Metamorfoses. Sena’s numerous metalinguistic texts, in which he explores the notion of writing poetry, as well as the works in which he establishes harmonious dialogues between poetry and the other arts, especially the visual arts (Metamorfoses) and music (Arte de música), are numerous.

Most critics would agree that the single unifying link among the multifaceted body of works of Sena is the figure of Camões. In his dialogue with the sixteenth-century poet, Sena’s writings gain a dimension that is simultaneously one of deprivation and plenitude, one sought by all who use the word as an instrument of expression. Like the image of the Camões he created, Sena “era um grande poeta, transformava em poesia tudo o que tocava mesmo a miséria, mesmo a amargura, mesmo o abandono de poesia” (was a great poet, transformed everything he touched into poetry, even misery, even bitterness, even the abandonment of poetry).
 

Jorge de Sena in English:

* 1979Over this Shore… Eight Meditations on the Coast of the Pacific, translated by Jonathan Griffin.
* 1980The Poetry of Jorge de Sena, anthology by Frederick G. Williams.
* 1980In Crete, with the Minotaur, and Other Poems, translation and preface by George Monteiro.
* 1986The Wondrous Physician, translated from the portuguese by Mary Fitton.
* 1987 England Revisited, translated from the portuguese and with notes by Christopher Damien Auretta.
* 1988Art of Music. Translated by Francisco Cota Fagundes and James Houlihan.
* 1989By the Rivers of Babylon and Other Stories. Introduction by Daphne Patai.
* 1991Metamorphoses. Translated by Francisco Cota Fagundes and James Houlihan.
* 1991Genesis. Translated by Francisco Cota Fagundes, published in In the Beginning There Was Jorge de Sena’s Genesis: The Birth of a Writer .
* 1994The Evidences. Translation and introduction by Phyllis Sterling Smith. Preface by George Monteiro.
* 1999Signs of Fire. Translated by John Byrne.

 

About Jorge de Sena:

=> Studies on Jorge de Sena: Proceedings of the Colloquium in Memory of Jorge De Sena University of California, Santa Barbara April 6-7, 1979, by Harvey L. Sharrer and Frederick G. Williams, Santa Barbara, UCSB/Bandanna Books, 1981.

=> Francisco Cota Fagundes, A Poet’s Way With Music: Humanism in Jorge de Sena’s Poetry, Gavea-Brown, Providence, Rhode Island, 1988.

=> Francisco Cota Fagundes, In the Beginning There Was Jorge de Sena’s Genesis: The Birth of a Writer, Bandanna Books, Santa Barbara, 1991.

=> Maria José Azevedo Pereira de Oliveira, Art as a Mirror in the Poetry of Jorge de Sena: The Metamorfoses, King’s College, London, 1992.

Um guia de Lisboa pela mão de Jorge de Sena

Carta a Joaquim-Francisco Coelho, 13/11/1970

Que Jorge de Sena foi grande viajor todos sabemos. Que muito escreveu sobre os lugares que visitou, também. Mas, dando início ao mapeamento de suas muitas andanças pelos vários continentes, optamos por selecionar um texto sobre a cidade em que nasceu — que, como se poderá constatar, bem conhecia e amava.

 

 

 

“Este sucinto e muito admirável guia cultural e sentimental de Lisboa escreveu-o Jorge de Sena em Santa Bárbara, Califórnia, em 13 de Novembro de 1970. Faz parte de uma carta “pedagógica” sobre a cidade, enviada pelo grande camonista ao seu amigo e dilecto ex-aluno Joaquim-Francisco Coelho, àquela altura recém chegado a Lisboa (…). O guia, tal como a restante correspondência entre os dois amigos, conservou-se até hoje totalmente inédito, e aqui vai divulgado com a permissão de Joaquim-Francisco Coelho, no espírito das comemorações a Jorge de Sena, lisboeta de nascimento, nos vinte anos da sua morte.” [*]

 

Vejo que tem passeado Lisboa como eu a passeei desde que tive licença para passear sózinho: pela noite dentro, perdendo-me por quelhas e becos, andando-a a pé ouvindo os meus próprios passos ecoar no silêncio da noite. Não sei se o Almeida Faria terá mais que um conhecimento “popular” de Alfama, e lhe terá chamado a atenção para as muralhas que, perdidas dentro do casario, viram o cerco de 1383 para a rua da Judiaria, para os velhos palácios decadentes, tudo o que está desde o castelo (que deve visitar) até à Casa dos Bicos que foi dos Albuquerques. Alfama deve ver-se de dia, primeiro do Miradouro de Santa Luzia, que a tem aos pés, e depois descendo por ela dentro (S. Miguel de Alfama), e de noite, não tanto pelas falsas casas de fado para turistas. Estando naquele Miradouro, terá a seu lado o Limoeiro, prisão hoje, mas cujas fundações, para o lado do rio visíveis, são as do palácio real onde João I matou o Andeiro (ainda um arco está num cunhal, quando V. sobe a rua). Deve por aí ver a Sé, e os seus claustros e túmulos (uma capela especial é a dos Pachecos, e o túmulo mais belo é o do pai do Diogo Lopes Pacheco, um dos grandes homens ibéricos, depois de ter ajudado a matar a Dona Inês). E a igreja de Santo António, construída sobre o lugar onde nasceu esse ilustre Bulhões da família de Godefroy de Bouillon da Primeira Cruzada – a cripta é o lugar. Mais para cima e para o lado da Graça, passa V. pela Lisboa velha dos palácios senhoriais, e na Graça tem a igrejinha de S. Gens contemporânea da tomada de Lisboa aos mouros, e a Graça com o túmulo de Afonso de Albuquerque. Passará por S. Vicente de Fora, igreja do fim do século XVI (do maneirismo neo-clássico, e por isso parece haver séculos entre ela e os Jerónimos), panteão dos Braganças, como antes lhe disse. Vindo da Graça para o Rossio o Teatro Nacional está construído ou a ser reconstruído onde estava: sobre os cárceres da Inquisição, já que era ali o palácio dela. Em S. Domingos que ardeu há poucos anos, e que havia sido reconstruída pelo pai do Alexandre Herculano, Fr. Luis de Granada está sepultado na entrada do corredor da sacristia. Ao lado, tem V. o palácio dos Almadas, de onde saiu a revolução de 1640, e, acima, o Hospital de São José, construído sobre as ruínas do Colégio de Santo Antão, o primeiro que os jesuítas tiveram no mundo – a capela do hospital é a sacristia da antiga igreja e um dos mais perfeitos modelos do neo-clássico do fim do século XVI. Por aí ao pé, tem V. a igreja de Sant’Ana, onde ainda estará sepultado o Camões debaixo do chão – já que os ossos dos Jerónimos são hipotéticos (o túmulo dele e do Gama, cujos ossos não são hipotéticos, são do falso manuelino século XIX, o português “gothic revival” vitoriano, como a Estação do Rossio, onde se diz que o arquitecto deixou a assinatura nas portas em ferradura…). A ala direita do Terreiro do Paço, quando V. se volta para o rio, está construída sobre as ruínas do Palácio Real de D. Manuel, e, na rua da Alfândega para o outro lado tem V. uma fachada manuelina esplêndida, a Conceição Velha, tudo o que resta da igreja destruida pelo terramoto famoso (é a porta lateral da igreja desaparecida). Indo ao Museu das Janelas Verdes, aonde cumprimentará o Bosch da Tentação, e algumas pinturas de primeira, não muitas, estará V. no palácio que o Pombal comprou ao Matias Aires, paulista da Vaidade dos Homens. Aos Jerónimos e à Torre de Belém por certo já V. foi. Quanto a sepulturas ou túmulos de escritores, a mais dos que estão nos Jerónimos, toda a gente, desde o século XVIII, com raras excepções, está em dois cemitérios: o dos Prazeres, ou o do Alto de S. João – é onde o Pessoa e o Eça estão, em jazigos de família sem relevo algum. Não sei de repente dizer-lhe aonde cada um deles está, mas é em um desses cemitérios. Não deixe de ver a Igreja da Estrela, uma jóia do rococó comedido, aonde jaz a D. Maria I, e, descendo da Ajuda para Belém a igreja da Memória, construída aonde foi atentado contra D. José. Em Belém, as casas para a esquerda-lado-abaixo, e esquerda-lado/à frente, são, estas, do século XVII, as outras estão onde era o lugar da execução (ou do palácio) dos Távoras (lembrado por uma coluna atrás das casas). É interessante ver o Carmo, a igreja do Nun’Álvares, onde há peças arqueológicas de muito interesse, e o Bairro Alto, cheio de palácios do século XVII XVIII (e que foi o glorioso centro da prostituição lisboeta para os pobres e a classe média). Diz-me V. que já foi a Alcobaça, Tomar, Santarém, Óbidos, Nazaré – esqueceu-se de escrever Batalha, ou não foi lá? Shame, shame on you. Acrescente depois: Leiria, Évora, Coimbra, Porto, Viseu, o vale do Douro (por onde pode passar na Ilustre Casa de Ramires), e o Algarve (Sagres deve ser visto, pela imponência natural e lendária). Se fosse mais ao Norte: Barcelos, Guimarães, Braga, Viana – o outro Portugal.

 

[*] Texto inédito distribuído durante o colóquio “Jorge de Sena, vinte anos depois”, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em outubro de 1998, e depois reproduzido nas atas (Ed. Cosmos/CML, 2001, p. 173-4)