De Vasco Graça Moura

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Porto, 10/01/1969, sessão de autógrafos na Livraria Leitura. Na imagem (além de Jorge de Sena): Óscar Lopes e Vasco Graça Moura, entre outros.

Em 2005, num encontro com jovens, Vasco Graça Moura foi surpreendido pela leitura de “Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya”, com que o quiseram homenagear. Ao agradecer, valeu-se do ensejo para ampliar o conhecimento dos presentes sobre o autor do poema. Sacou da memória elementos da vida e obra do escritor e improvisou uma apresentação em traços largos desse Jorge de Sena que lhe inspira uma admiração sempre reiterada. Abaixo, transcrevem-se as palavras finais da breve “aula” (segundo http://www.(…)vascogracamoura03.pdf):
Um homem com uma obra vastíssima no domínio da investigação, ensaio, romance, teatro, tradução… Não há praticamente nenhuma área da criação literária que ele não tenha percorrido.

Tinha uma capacidade inovadora extraordinária. No livro em que sai esta obra [o poema “Carta a meus filhos…”], Jorge de Sena faz uma coisa inovadora: ligar um livro inteiro (Metamorfoses) a obras de arte visuais. Depois veio a ligar um outro livro inteiro a obras de arte musicais. Isto é extraordinariamente moderno na vida e cultura do séc. XX e tem a ver com o chamado ekfrasis – um “palavrão” grego que designa a descrição verbal de uma obra de arte visual, precisamente isto que ele faz com o quadro “dos fuzilamentos”. E tem coisas semelhantes, como quando se reporta a um busto de Camões, uma gazela da Ibéria encontrada numas escavações, etc. Esta visão do Jorge de Sena foi extremamente inovadora. Havia um poema do Jaime Cortesão, dos anos 15 ou 16, sobre Botticelli e um poema de Eugénio de Andrade sobre uma pintura de Augusto Gomes, dos anos 40, mas não havia praticamente mais nada. Depois de Jorge de Sena, muitos outros seguiram esses passos.

Ele é muito importante porque também representa a consciência de Portugal vista por um exilado. A partir de 59 viveu fora de Portugal (embora tenha vindo cá em 77 e em 69, quando eu o conheci pessoalmente). Sendo ele um homem de esquerda e avesso àquele Portugal e ao salazarismo, teve sempre um olhar muito amargo sobre a nossa realidade, porém, extremamente lúcido. Um pouco como aquilo que encontramos em outros pensadores que viveram ou vivem no estrangeiro, já desde o séc. XVIII, os chamados “estrangeirados”. Ou aquilo que vemos em Eduardo Lourenço, figura incontornável que tem vivido basicamente em França.

Gostava de salientar que o Jorge de Sena se bateu sempre pelo livro e pela cultura portuguesa, não em termos de paroquialismo fechado mas com abertura ao mundo e em contacto vivificante com outras culturas. Penso que é exemplar ter sido aqui lido um dos grandes poemas políticos da Literatura Portuguesa. Este é um dos maiores gritos em favor da dignidade humana que a Literatura Portuguesa produziu.

Na sua própria produção poética Vasco Graça Moura evoca Sena em vários momentos. O mais marcante encontra-se no poema “Jorge de Sena na Ilha de Moçambique”, do livro Os Rostos Comunicantes, 1984. (Já pelo título do poema, é impossível não pensar num imediato diálogo com os versos senianos de “Camões na Ilha de Moçambique”)

 

jorge de sena na ilha de moçambique

debruçado a esta janela quinhentista sobre a água lilás
do pôr do sol, jorge de sena repousava os olhos, ainda ofuscado
pela brancura da pedra e de tanta memória gastando-se
até onde pobremente o camões se arrastara

e um d.joão de castro está sepulto. fora uma tarde desmedida
de amargos deslumbramentos, de intimidades fragmentárias, de
coisas a ressoar (“e nunca pude saber dele”
diz-se, na década oitava, de um manuscrito roubado).

jorge de sena andou por aqui enxugando o suor com um enorme lenço
e rugidos na alma, e nem viu as acácias, o seu fogo insolente, as mulheres de máscara branca,
crispado entre os amigos nesta escala da passagem
de nada para parte nenhuma, por ruelas e pátios de má fortuna abandonados.

viu sim os rebocos desfeitos pela traça do tempo, tanta textura de flores esboroadas,
tanto mapa perdido de aventurososo destinos,
e viveu tudo isso como se o próprio orgulho, a prumo, com o seu nobre olhar
de exilado, fosse uma altiva insensatez.

sentia essa embargada transparência, um tão ágil amor desesperado,
e tinha de ter raiva: nem há neutralidades anódinas, é-se apanhado
por estas evidências a crescerem em nós como o coral insuportável
ramificando-se desta luz, desta água, desta força honrada do lugar.

a tarde foi caindo até ao cinzento escuro
e era parda a vela subitamente içada (ou rósea ainda?)
de algum barco pequeno cuja sombra partia. como é possível o trabalho
de peregrinar sem vir aqui? possível que isto vá morrer?

“o coração da vida está na lucidez das cicatrizes
que nos povoam” disse-lhe circe na praia transformando-o
no vulto que descia a correr as escadas da prelazia até
à misericórdia, ao palácio do governador, à rua dos arcos,

desprezando a quem implorava. ou não desceria
porque lá esteve antes, mas que interessa?
se andava por aqui crivado de dívidas e de versos
e lhe haviam tirado o seu parnasso e foi furto notável

e muito mais do que isso é comover-nos
este adobe de lembranças a destempo, esta severa condição
de um jogo limpo em que o real
só é dizível porque algumas palavras o destroem

e algumas palavras lhe resistem. anonimamente
jorge de sena voltou a pagar os duzentos cruzados da dívida:
camões parte amanhã mas continua aqui.
nem é desterro nosso que assim seja.

Vasco Graça Moura, Os rostos comunicantes, Lisboa, D. Quixote, 1984 p. 22-25