De volta a Portugal: matéria do "Diário de Lisboa", 23/12/1968

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Chegado a Portugal, a 23 de Dezembro de 1968, Jorge de Sena volta a ser notícia no “Diário de Lisboa”, jornal que menos afecto ao regime ditatorial de então, publicara a entrevista já divulgada (vide seção Antologias/Declarações públicas). Relevam nesta significativa matéria adiante transcrita, as declarações de Sena elucidativas quer do seu notável trabalho de investigação sobre a História de Portugal, quer da sua esclarecida posição face ao sistema de ensino americano, à crise da juventude então em foco e à débil expressão da cultura portuguesa no estrangeiro. Estes temas, menos conhecidos e estudados na vida e obra de Jorge de Sena, adquirem aqui uma outra visibilidade susceptível de abrir para novas pistas de estudo.

Jorge de Sena em Lisboa

O escritor Jorge de Sena já na casa que sempre conservou em Lisboa e à qual chega após nove anos de ausência. Vem trabalhar como investigador histórico, com uma bolsa de estudo da Universidade de Wisconsin, onde é catedrático. Vem também rever e abraçar amigos firmes de longa data e revisitar esta Lisboa.

 

O escritor Jorge de Sena (que prepara o Romance “Sinais de Fogo”) entrou hoje em Portugal depois de nove anos de ausência

Ao cabo de uma ausência de nove anos, durante os quais tem sido professor catedrático das Universidades de Assis e Araraquara, no Brasil, e do Wisconsin, nos Estados Unidos, reentrou em Portugal o escritor Jorge de Sena.

O infatigável trabalhador do espírito veio à Europa com uma bolsa de estudos daquela Universidade norte-americana, para prosseguir as suas investigações históricas sobre Camões e iniciar uma pesquisa histórica sobre os príncipes portugueses que viveram noutras nações europeias, desde a Idade Média até ao fim do séc. XVI, “Príncipes e princesas que foram gente grada da Europa de então, que demonstraram que Portugal tinha voz na Europa desse tempo.

Jorge de Sena era esperado ontem, na Estação de Santa Apolónia, mas, devido a complicações fronteiriças geradas por um engano só hoje pode entrar em Portugal.
Um dos seus grandes amigos de sempre, o advogado e escritor dr. Sousa Tavares quis ter uma gentileza: resolveu ir buscá-lo à fronteira, esta madrugada, no seu automóvel.
Nele seguimos e às 8h 30 de hoje no café da estação vizinha de Marvão – Beirã, vimo-lo sair com duas malas, por entre o nevoeiro ante a expectativa enregelada de uma dúzia de ferroviários verificadores das alfândegas, guarda-fiscais e polícias.
O poeta regressado teve um ar hesitante de início, e logo um largo sorriso ao ver os amigos. Os abraços fizeram ressoar o cavername das costelas.
Depois foi a viagem até Lisboa o encanto da conversa de um dos mais altos valores da intelectualidade portuguesa.


Visita a 12 países e 60 cidades da Europa

A bolsa que a Universidade de Wisconsin concedeu ao seu catedrático consiste em pagar-lhe os ordenados normais, as viagens e uma ajuda de custo para fotocópias e microfilmes. Aquele estabelecimento de ensino norte-americano tem 67.000 alunos e 1500 professores dos quais 150 são catedráticos.

[J.S.] – “ Devo acentuar que esses catedráticos são eleitos por voto livre e responsável de todos os seus colegas. Estes, ao votarem, explicam francamente as razões do seu voto. A cátedra não é uma posse definitiva, mas sim um posto que tem de justificar-se sempre com próprio valor.”

E Sena acrescentou:
– “Não há sebentas, e todos os professores procuram variar e renovar os cursos de ano para ano. Os materiais de estudo são a bibliografia, os textos e as prelecções.”

Sobre a viagem de estudo que tem efectuado pela Europa nos últimos cinco meses, referiu:
{J.S.] – “Visitei, sucessivamente, a Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Suiça, Áustria, Itália, de novo França (onde fiz conferências na Sorbonne) e Inglaterra (onde deu a lição inaugural no King’s College), Espanha e Portugal. Em todos estes países encontrei textos e códices jamais lidos pelos investigadores históricos portugueses, respeitantes a Camões e aos príncipes a que aludi. Faz pena ver o material de investigação desprezado pelos investigadores nossos compatriotas, a maioria dos quais, nos últimos 50 anos, se limitaram a copiar um restrito número de obras”

Referiu, ainda, que na Universidade de que é professor dois terços dos alunos estudam de graça e só um terço paga anuidades que são de 200 dólares para os naturais do Estado de Wisconsin e de 400 para os de fora.

Membro da “Hispanic Society of América”

Em certo passo da conversa, Jorge de Sena (que enquanto viveu em Portugal, a despeito dos seus reconhecidos méritos, nunca foi promovido para além de engenheiro de 3ª classe, até porque nunca poupava críticas justas a quem quer que fosse) informou em tom bem humorado:

[J.S.] – “Imaginem que me fizeram académico da “Hispanic Society of América”. Eu académico! Com o meu feitio independente, quem é aqui capaz de acreditar nisso?”

Veio à baila a nossa Academia das Ciências, e logo se obteve de Sena uma reacção pronta:

[J.S.] – “Não, dessa não. Já era assim como hoje quando foi criada. Encontrei nas bibliotecas dessa Europa, dezenas de cartas em que se podem verificar as brigas, as intrigazinhas e o provincianismo dos pseudo-intelectuais que se apressaram a pedir ao rei para nela ingressarem.”

Quanto a projectos literários, além daquelas investigações históricas e da edição dos respectivos volumes, Sena pensa publicar brevemente um livro de poemas recentes não incluídos nos seus dois últimos volumes. Está também a escrever
[J.S.] – “um romance enorme de que já completei 600 páginas. Constituirá uma história das nossas gerações desde 1936 a 1959.Nele haverá a minha experiência pessoal e muita ficção. Pretendo que seja una obra dura. Não há nada que eu não tivesse escrito ou que não venha a escrever. Já tem título: “ Sinais de Fogo”. Será uma obra cíclica e não sei em quantos volumes, nem sequer sei se chegarei a escrevê-la toda. Sei é que insisto, será enorme.”

Falou-se depois da cultura portuguesa:
[J.S.] – “Lá fora vemo-nos por vezes, muito embaraçados ante perguntas de alunos nossos que inquirem de nós como é possível ver propagandeados certos autores portugueses que eles logo verificam não valerem nada, e, por outro lado, verificar que lhes omitem outros que eles consideram essenciais. Uma das maiores dificuldades com que sempre tenho deparado é a indicação de bibliografia sobre assuntos portugueses, a pedido de alunos meus…

Por fim Jorge de Sena considerou a actual crise da juventude como resultante, em todos os países capitalistas, da evolução da tecnocracia. Para progredir, essas nações tiveram de formar técnicos em massa. Agora dão-se conta, pela primeira vez, que aquilo que na realidade vale são os técnicos e não as máquinas. E estes, são na realidade quem manda ou virá a mandar. Até porque ou formam técnicos ou entram em decadência. A Universidade é que é actualmente a maior riqueza de um país. E os técnicos não podem manobrar-se como máquinas.

Entretanto, chegávamos à encosta do Restelo, junto da vivenda que Jorge de Sena sempre ali conservou e que alguns dos seus nove filhos (nascidos já no Brasil e nos Estados Unidos) não conhecem. Foi com emoção que o poeta abriu a porta e entrou, após nove anos de ausência.

Jorge de Sena deverá regressar aos Estados Unidos em meados de Fevereiro, mas poderá dilatar a sua estadia em Lisboa, no caso de vir a ser necessário submeter-se a uma intervenção cirúrgica “Gostaria de ser operado por um médico português”.

* “Diário de Lisboa”, 23 de Dezembro de 1968, 1ª e última páginas. Transcrição e introdução de Maria Otília Pereira Lage, docente da Universidade Lusófona do Porto e investigadora do CITCEM da Faculdade de Letras da Universidade do Porto