Música erudita do século XX


O século XX é marcado pelo domínio da música popular, pela evolução do jazz, do rock n’ roll, e de uma infinidade de gêneros. No entanto, alguns compositores eruditos ainda resistem e até influenciam as novas modalidades musicais, por meio das experimentações rítmicas e harmônicas da modernidade, em especial nas primeiras décadas do século. Apresentamos aqui os poemas de Arte de Música dedicados a tais compositores e suas obras.

 

FINAL DA SEGUNDA SINFONIA DE SIBELIUS

Se alguma vez clamor pela grandeza
há sido concebido em majestoso fogo
que em contraponto avança triunfante,
foi este acumular de força e de vitória,
sempre mais amplo de si mesmo, sempre
mais alto, mais confiante na verdade
com que insistente o som se cria eterno
mas não-palavras que o transportam como
sédia gestatória da nobreza humana.

Será pomposo e grandiloquente. Ingénuo mesmo.
Até ridículo. Será fácil demais
na pretensa complexidade de uma orquestra
em que Brahms, Dvorak e muita Scherazade
se entrelaçam sem vergonha. Será cantante
de mediocridade. Tudo o que quiserem
os eunucos da certeza de que a vida
é vale de lágrimas, infâmia, grosseria,
é porca e suja, e só se lava em finas
rendinhas de alta manga, em que os Mozarts limpavam
as ventas refinadas mas ranhosas qual
as dos ranhosos que seremos. Todavia
do mundo o mundo se não vê nem ouve,
se alguma vez os olhos se nos não marejam
felizes e esmagados sob as ondas de
este teimoso confirmar do inteligível
lá onde o ter sentido é sonho de grandeza
apenas grande, apenas majestosa,
sem mais significado que o estrondear que pisa
aos pés o chão da mesquinhez e do «distinguo»:
o chão, reparem, nenhum céu, o chão.

27/3/1966
 

ERIK SATIE PARA PIANO

As notas vêm sós por harmonias
como de escalas que se cruzam
em sequências descontínuas de figuras
singelamente acorde surpreendido
de se encontrar num instante pensativo.
São como vagas vindo no perlado
tão diminutas, solitárias mas ligadas
de pura sucessão ocasional
que se rebusca em cálculos descaso
contrário ao hábito de estarem escritas,
ou juntas ou seguidas. Mas é como
se desde sempre este hesitante fluido
houvera de estar pronto a ser pensado
e a soar tranquilo em espaço diminuto
não por ser breve mas por ser silêncio
de uma memória em que a surpresa ecoa
lembranças perpassantes de quanto não foi,
não existiu, não foi vivido e entanto
pungente fere as águas espelhadas
onde de imagens passam vultos claros
em túnicas voando transparentes
e muito curtas sobre membros duros
que dançam devagar a dança juvenil
num salpicar de pés além do tempo antigo.

9/1/1972

 

 

OUVINDO O «SÓCRATES» DE SATIE

Tão sábio, sereno e calmo,
irónico e risonho, deram-lhe
cicuta. Alcibíades descreve-o
como um Sileno cheio
de suaves imagens divinas.
Fazer que os homens se nascessem
de si mesmos no contido
ardor de um diálogo incorpóreo
era o seu mister. Não ensinava
nada senão o mais além
de em nós — o juvenil
interrogar do corpo até á morte
sem responder-lhe nunca.
«Críton, devemos a Asclépios
um galo. Não te esqueças
de pagar esta dívida». E calou-se.
Havia amado a terra e os homens
como se os deuses não
fizessem mais que existir:
«Que encantador lugar para o repouso!
Como esse plátano é tão alto e forte!»
Um sátiro: «Que fascínio exerce
em mim a flauta dele», disse Alcibíades,
A música soprada e linear
do espírito que fala e não se entrega.

8/1/1972

 

 

CONCERTO PARA ORQUESTRA, DE BELA BARTOK

Como amargura leve brinca com a morte,
a sua própria morte. E, músico que ê,
brincar com ela é música dos outros,
que perpassa irrisória entre lamentos
desgarradores mas parecendo ser
solenes pretensões ridículas: pudor
de uma pureza que se não contenta
com a medida comum das mais humildes coisas,
nem com a incomum das mais extraordinárias:
e fica neste dilacerar das harmonias em invenções de orquestra,
vingando-se em rigor que a morte, a Rigorosa,
não pode ter. De quando em quando
o rigor entreabre-se, e uma treva funda
é como abismos que se sobrevoam
no escárnio inútil de voar sobre eles.

29/5/1964

 

«NOITE TRANSFIGURADA», DE SCHÖNBERG

Como tão tensas cordas
vibram assim, apaixonadamente,
a dor dos gestos que nos arcos vai
e volta em contrapontos tão contínuos
que a tessitura de inconsútil música
é como um mar de luz sombria
em que se afunda este rigor furioso?

Depois do desespero destas formas puras
que se entregeram sem cessar abrindo-se
em novos horizontes sempre iguais
num repetir-se dos acordes que
se vão do espaço-tempo renovando
no próprio desdobrarem-se em suspensas
pausas de som chorando cataclismos,
sussurros e murmúrios, gritos, e, sem voz,
o cântico dulcíssimo que volta ansioso —
depois de tais excessos de ser música
a música que nasce de sentir-se
o próprio ser abstracto de ela ser escrita —
que música podia haver?

Tão tensas as arcadas, tão furiosas,
tão grandiosamente este pavor que canta
— que humanidade resta após o dissipar-se
deste sonho de som perpetuado em cordas
vibrando assim frementemente humanas?

28/9/1964

 

CONCERTO DE PIANO, OP. 42, DE SCHÖNBERG

Seria pouco dizer que é o desespero,
a derrocada monstruosa e caricata
das presunções melódicas e harmónicas
de uma sociedade vil e condenada à morte,
Multo pouco. Porque o mais terrível
desta dissertação heteróclita
e rigorosamente prosseguida no seu próprio tempo
de que o piano marca os seriados sons propostos
é que não há sentido em dar sentido
a uma estrutura musical, já que o sentido
é ele mesmo a sequência falsa que não significa.
É que o desmascarar da música
reduzida à sua mesma inumanidade
reduz tudo o que somos e julgamos ser
nas horas de melancolia
a este beco sem saída:
uma raiva melancólica e cordata
sem qualquer nexo com a própria solidão que exprime.
Se a solidão sobre si mesma fica
como a serpente que se morde a cauda,
neste chinfrim tão comovente por não cornover-nos,
não há nada que escape ao inescapável, nada,
a não ser isto mesmo, mesmo, na seriação
tão implacável que nem se dá por ela.
Música do vácuo, do vazio, do inútil, do insensível, do sem vida,
mas, mais terrível que isso, não do nada,
já que o nada, a negação, seria
ainda um pouco de consolo dúbio,
um pouco de ternura e ilusão.

21/10/1963

 

 

* Poemas de Arte de Música, Poesia II