As flores da poesia seniana

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Tapeçaria flamenga "mille-fleur", do séc. XVI, Victoria and Albert Museum

Maio, mês das flores, mês das rosas. Não faltam flores do bem e do mal na poesia de Sena e disso já aqui demos exemplos, como Variações sobre cantares de D. Dinis (Quarenta Anos de Servidão), Os Paraísos Artificiais (Pedra Filosofal, Poesia I), Equinócio da Primavera (de Pedra Filosofal, Poesia I), Camões dirige-se aos seus contemporâneos (Metamorfoses, Poesia II), ou mesmo o longo rimance das rosas de leite e sangue na "novela poética" O Físico Prodigioso. No entanto, como o tempo é propício e como nas corbeilles sempre há lugar para mais completas nuances, ampliamos o florilégio…
 

 

 

Génesis II

Nenhum altar te resta que o não sejas
no breve tempo entre morrer e estar.
E quando não estiveres, como desejas,
não menos pedra o ventre há-de encerrar

a perspicácia anónima. Não vejas!
Não queiras adorar nem comparar,
porque não estão suspensos nas igrejas
pálidos do tempo ou sombras do lugar.

Como esta aurora, purgação doirada,
ara serás da noite já entrada,
que, enquanto altiva, a noite é mais funesta.

Tudo não és. Basta que as flores nocturnas
se humilhem, uma a uma, sobre as urnas.
Não entres mais agora: esse te resta.

18/2/43

 

 

De relance, o Alentejo

Um céu abafadiço, um ar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.
A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,
roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem de esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,
menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante
conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,
as casas surgem brancas e compactas.
Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.
Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.
Um rio se adivinha. Mas, de ao pé da ponte,
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.

30/5/1950

 

 

Solícitas as flores

Tão junto a mim, roçando-se por mim
que numerosos corpos me palpitam!
Na sombra crescem tensos porque me sabem esperando
o momento em que o desejo de se libertarem
vence a muralha que defende a dádiva.
Imóvel, trémulo por dentro, aguardo a denúncia,
uma leve contracção que enfim me reclama.

E logo milhares de silenciosos gritos
em mim mesmo me expulsam para tão longe
que novamente numerosos outros me palpitam
e só bebendo-lhes o sangue me consolaria da ebriedade instantânea
em que possuo tocando.

Apenas um leve toque –
– as flores, solícitas, desfolham-se.

4/9/50

 

 

Bucólica e não

Há sempre poetas para fazer versos à terra,
às plantas, animais, num cheiro de bucólico,
mistura de verduras podres, resinas escorrendo,
flores perfumadas, terra humedecida, e o adocicado
e acre também estrume: é sexo o que cheiram?
Amor o que respiram? As ervas que no vento
se abaixam e se entesam, e o arvoredo erecto,
de ramos balançando mas retesos,
é de si mesmos sem baixar os olhos
ao longo do seu corpo e sem tocar-se
com as mãos – que lhes recordam?
E aqueles nós peludos de musguentos
em troncos, ou no chão buracos de formigas,
é de si mesmos, fêmeas, que lhes lembram?
E orvalho em flores ou folhas ou nos troncos,
e rios e regatos murmurantes – que serão?
Acaso podem ser opacos e leitosos,
jorrando intermitentes num agudo jacto?
Que terra o amor mostra que não seja
o amor que não se abriu ou não saltou,
o amor que não foi feito ou não se deu?

Londres, 13/6/1971