"Pot-Pourri Final"

 

“Pot-Pourri” Final

Chegou e disse: – Caríssimo! –
Carissimus, carissimi, compositor de opereta
para violoncelo de igreja. Ergui
– oh – os olhos da persiana, e respondi:
– Cameta adinomata apropicterón –,
Sorriu e, lentamente, começou a despir-se.
Não direi que falámos. Nem que me despisse
eu. Para quê? Porquê? Adinomata.
Quando tudo acabou, para ganharmos tempo
era mister que falássemos. De quê?
Trifles, trifles. Bagatelles. Como
se conta assim a infância que não tivemos,
as estreias amorosas – tantas desde o bico do peito –
que não foram assim, os sonhos e amarguras
mais condizentes com o físico – não o nosso –
ao nosso lado. Nosso?… Meu, talvez.
De resto, a posse, ó cara, a posse,
não sei que seja: um gorgolejo interno?
Quem de nós dois se possuiu? Tolice.
Adinomata – e sussurrei, atento
aos dedos que avançavam, música.
Trifles, trifles, estou velho, meu amor,
para recomeçar. Amanhã. Ou antes,
dentro de uma hora ou duas. Conversar?
De quê? Porquê? Carissimus, carissimi.
Para quê Mozart? E Palestrina?
Missa do Papa Marcelo. Apropicterón.
Quão bagatelle! Avia-te. Cameta.
Sempre caro mi fu quest’ermo colle…
Ah, ritrovata, adonimata, adinimata!
Pff… Piazza d’Espagna.
Ave Caesar, morituri te salutant. Que bonito.
Andrócles, então, escuta, escuta,
converteu o leão ao catolicismo.
Romano? Pois se foi em Roma.
Tal como numa aurora que se estraça,
os homens mijam no recanto da praça,
avec l’assentiment des grands héliotropes.
Abre a boca e fecha os olhos. Isso.
Se o heliotrópio é cucurbitácea? Bissexuado?
Francamente, não sei. Engole. Esqueci a botânica,
pela mesma época em que – la plaza tiene una torre –
descri por completo das noções de posse.
Nil humani (ou vice-versa) a me alienum puto.
Não, não é palavra feia, é só latim.
Acredita. Compreendo. É melhor que tu saias
primeiro. Ou que eu saia,
primeiro. Não, combinar, para quê?
Não há como este acaso que jamais
repetirásse. Ass? Que jamais, repito,
se repetirá. Pensemos gloriosamente:
como éramos bem um para o outro,
como éramos bem um para o outro,
como éramos, não éramos, e bem,
a surpresa agradável de não sermos.
Undo this button. Thank you, adinomata.
Amanhã… se eu morresse amanhã…
O botão. São mais cómodos aqueles fechos
de correr. Mas arrepelam. Guarda esse botão,
contigo.
Addio! O “Mayflower” apita.
Ouvem-se as fanfarras do Novo Mundo (a sinfonia,
feita com temas do Velho). Vai, não percas
a passagem, as estribeiras, a cabeça:
as pradarias esperam-te.
Pasta nelas.
E, para mim mesmo, murmurei: Carissimi!…

29/2/1962

 

Nota do poeta:

É evidente que este poema não se refere directamente a experiências musicais, embora contenha alusões a Carissimi e a Dvorak, etc. Alusões ou citações literárias serão reconhecíveis imediatamente: pela ordem, Leopardi, Bernard Shaw, Rimbaud, Antonio Machado, Terêncio, Shakespeare, Álvares de Azevedo, além de dicta bem conhecidas como a saudação dos gladiadores romanos.

* De Arte de Música, Poesia II. Em áudio, Jephte, de Carissimi (oratório sacro para 6 vozes, órgão e baixo contínuo), por Le Parlament de Musique sob condução de Martin Gester..