Poemas de Natal

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Jorge de Sena costumava dizer que era católico sem ser cristão, por reconhecer o quanto a Igreja de Roma soube, como nenhuma outra, captar, manter e sublimar tradições antiquíssimas. Eis porque em muitos dos seus livros encontramos poemas de Natal, modulados em vários tons. Aqui selecionamos os três editados em Quarenta Anos de Servidão, de anos bem espaçados e com diferentes modos de meditar sobre esse tempo misterioso do Advento.

 

Natal de 1951

No silêncio da noite que ruídos cortam
habituais, comuns, e nem sequer tardios,
procura-me, flutuando mansamente,
ao lume de não estar pensando,
um desejo hábil de recordar outras noites como esta,
de enternecer-me, esquecido de mim e do mal que busco,
sobre o espetáculo delicioso da inocência,
que seria nem prazer aniquilar,
da virgindade, cujo sangue mal me saciaria,
da bondade, que tão ignobilmente me conhece
em horas de vício ou de traição,
da paz que ansiosamente nos procura nos caminhos do crime.

Ai com que habilidade esse desejo me cerca,
me amolece, me penetra e inunda!
Lágrimas são já, e de ternura,
as que me assomam aos olhos e embaciam
carinhosamente os rostos que me cercam,
tão queridos e tão próximos! Sorrio,
e é já discretamente que sorrio humilde,
com misericordiosíssima ironia.
E havia imensa gente, e luzes, e cantava-se,
e bolos se comiam que eram só dessa altura do ano,
enquanto à volta da mesa o círculo se formava mágico,
em comovido e misterioso contacto com outros círculos distantes.

Em repetir-se não perde, em recordar também não;
e amanhã será tarde, inoportuno, mesmo impossível,
além de que ficaria apenas um amargo na boca sem memória doce
que amanhã mesmo dará tão esquisito gosto,
ao amargor já velho e conhecido.

24/12/1951

 

Sobre uma Antologia Lírica do Natal

Natal de 69

Dos céus à Terra desce a mor Beleza
(não foi Camões quem disse realmente)
Queimando o véu dos séculos futuros
(disse Bocage – inquisidores à espreita)
Jesus nasceu! Na abóbada infinita
(sem fé com só Parnaso é de Bilac)
Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
(Fernando António Nogueira Pessoa)
De novo a noite longa escura e fria
(o Cristo Régio Cristo dos Reis Pereira)
Fosse eu Jesus do céu e não viria
(era Moreira só e mais das Neves).
Brinquedos, prendas, doces, bacalhau,
missa do galo, o sapatinho, o abeto
a concorrer pagão com o presépio,
cartões de Boas Festas, e as cantigas
nacionais importadas e folclóricas,
e pombinhas da paz de maus poetas,
e a fé sem fé da crença que não crê,
ou escreve versos de Natal raivoso,
e peste e fome e guerra e dor de não
doer o coração que não existe.
Mais dia menos dia todos vão
pôr um versinho bom ou mau como ovo
e não se sabe o que nasceu primeiro
se a galinha se o ovo. Antes calar
que este sofrer de prometida glória
sem ter vivido em honra e liberdade
amando os outros como se a nós mesmos.
Que saudade de alma, e que brandura
(Fr. Agostinho espera edição crítica)
Amor que tudo vence e tudo apura
(talvez que seja Baltazar Estaço).
Dormes, Jerusalém? Acorda, acorda
(clamava o árcade Garção, coitado)
Bairro elegante – e que miséria! (disse
em raros octossílabos Feijó)
Ó noite santa, e clara, inda que escura
(Diogo Bernardes escreveu tranquilo)
Turvou-se de penumbra o dia cedo
(por certo Ereira onde este Afonso estava)
Crianças se sumiram num incêndio…
Que rósea aurora as ressuscitará?
(há já vinte anos perguntei – não digam).

Dezembro de 1969

 

Natal 77

Natal mais uma vez. Setenta e sete.
Há anos já que não escrevia como
por alguns outros sempre me escrevi
do que Natal não foi, não há, nem será nunca,
senão em desejar-se enfim com ele ou não
quanto de humano em nós seja o divino
que humanos nos constrói do nada em que persiste
sem de existir saber mais que pensarmos nós
ou nós querermos sem conhecimento
não de do mais além, ou mais aquém,
ou só de nós, mas só conhecimento
deste circunviver a que Natal se chama.
No mundo mais que nunca o sangue corre,
de todos escondido, por todos pago para
que se morra ou se mate em juro dos impérios.
Na pátria as hidras erguem as cabeças
e é perigoso gritar “não passarão”
como na Espanha há mais de quarenta anos,
quando co’a benção das potências todas,
elas passaram cilindrando tudo.
Culpados todos – porque não dizê-lo,
em vez de acusações que nada salvam?
Porque não confessar erros horrendos
que fizeram haver uma Direita
que não houvera nunca além de uns quatro asnos
ou gente ingénua defendendo a pátria
como lhe diziam que ela fora sempre,
ou meia dúzia de malandros que se enchiam
naquelas negociatas que o próprio Salazar
dizia consentir aos mais malandros deles?
Natal setenta e sete. Todos sentem
que foram ou têm sido sabotados,
traídos, ou vendidos. Mas só poucos
podem dizer que, mesmo santamente,
honrando os sonhos ou seus compromissos
até com as ideias que não tinham,
não sabotaram, ou venderam ou traíram,
em nome da liberdade e da democracia.
É triste mas é vero: com essas duas palavras
que juntas desejámos longamente
só é possível ainda o escrever-se
um verso inteiramente erado.

24-25/12/1977