O Futuro, a Luz, a Eternidade

Quando encerramos o ano de 2010, ano da criação do site “Ler Jorge de Sena”, preparamos esta pequena antologia, com alguns dos poemas que tratam de uma questão recorrente na poesia seniana: a eternidade. Que sirvam de reflexão para todos os anos que terminam e, possam ser ainda uma “pequenina luz” de esperança para todos os que nascem.

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* “Eternidade” (PerseguiçãoPoesia I)
* “Os Soldados de Chumbo e a Eternidade” (Post-ScriptumPoesia I)
* “Ode para o Futuro” (Pedra Filosofal Poesia I)  – Em audio
* “Uma Pequenina Luz” (FidelidadePoesia II)

 

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.

Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

22/9/1941

 

Os Soldados de Chumbo e a Eternidade
Nunca entendi tão perfeitamente as coisas
como desde que os homens se deixaram sê-las.

Quando, na minha infância, eu enterrava,
com solenidade imensa, dos meus soldados de chumbo
aqueles que eram mortos por decreto meu,
e, quando para continuar o combate,
os ressuscitava e desenterrava sem nenhuma pompa,
alinhando-os apressadamente para morrerem de novo
e tantas vezes quantas as que havia
até à condenação à frigideira fatal
onde acabavam e pareciam o mercúrio dos termómetros partidos
apenas com ligeiras escamas da tinta azul da farda,
como eram sempre outros, gerações,
sempre diferentes, sempre de arma ao ombro,
e os pés em marcha soldados à base.

A verdadeira consolação que me restava
– e que eu não sabia – :
Aquele pedaço de chumbo arrefecido
fôra soldados, generais, cavalos,
irremediavelmente.

Maio – Junho? /1947

 

 

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
– apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós – de nós! – como de um sonho.

7/10/49

 

 

Uma Pequenina Luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

25/9/1949