Poemas Angolanos

Luanda_14.jpg
Baía de Luanda, 1972

* Aves na baía de Luanda

* Café cheio de militares em Luanda

* Foi há cem anos, em Angola

* Senhora da Nazaré em Luanda

* Na Igreja dos Jesuítas em Luanda

 

AVES NA BAÍA DE LUANDA

Cegonhas? São marinhas e se pousam
ora nas águas baixas, ou telhados
de cumeeira embranquecidas a pensamentos
de uma ave que medita intestinal
sobre as alfândegas da terra firme.

Pescoço curvo atrás de um longo bico
pairam-se lentas entre os seus dois pousos.
Água de espelho estanho sem reflexo.
Não creio que de imagens tão pernaltas
se adense por tranquila neste céu de névoas
que se concentram amarelas sobre
uma cidade agora boçalmente nova
onde não há lugar para cegonhas.
Cegonhas que não sejam – como podem
ficar nesta poeira de bancárias
e militares empresas que se espetam
em doze andares na névoa, em vez das casas
baixas e velhas, ao chão presas por
portas iguais de armazenar negócios
do patrão que por cima co’a família
tinha andar de sacadas em que recostar-se?

Cegonhas? São marinhas, e se pousam.
Luanda, 4/8/1972

 

CAFÉ CHEIO DE MILITARES EM LUANDA

O jovem Don Juan de braço ao peito
(por um dedo entrapado)
debruça as barbas para a mesa ao lado
numa insistência pública de macho
que teima em conversar a rapariga
(no dedo aliança, azul em torno dos olhos)
a escrever cartas e a enxotá-lo em fúria.

Um outro chega e senta-se de longe.
Cara rapada, pêlo curto, ombros erguidos,
é dos que o queixo pousam sobre as mãos,
e de entre o fumo lento do cigarro,
dardejam olhar fito para a presa
– é dele, é dele, os olhos dizem tesos.
Numa outra mesa, três outras fardas miram
de esguelha, enquanto falam vagamente atentos,
e os olhos ínvios de soslaio despem
a pouca roupa da que escreve à mesa.

Feito já seu papel para que conste,
oh ares de cavalão… outras à espera…
o Don Juan comenta pró criado a vítima,
saída num repente. Riem-se ambos.

Quando ela se ia embora, dois empatas
entraram e sentaram-se na mesa
do que ficara olhando o espaço aberto
pela partida dela. Conversam que ele não ouve.

Gingando a barba mais o braço ao peito,
vai-se o vencido (pagará uma puta,
para amanhã contar como dormiu com esta).

Os outros três, mais tarde, em casa, na retrete,
vão masturbar-se a pensar nela (e voltarão
amanhã ao café para contarem
de uma grande conquista que fizeram todos).

E aquele que – quem sabe – era a quem ela
acaso se daria (ou será que ele
é dos que só penetra com o olhar suspenso?)
foi quem não teve nada. Olhou demais,
e não saiu a tempo de escapar
à companhia idiota dos seus dois amigos.
Luanda, 4/8/1972

 

FOI HÁ CEM ANOS, EM ANGOLA

Minha avó subia de tipóia
de Mossâmedes para o planalto.
Dias e dias pela serra acima,
de acampamento a outro acampamento,
o esposo e os filhos dela noutras
tipóias pelos negros carregadas.
Ao lado dela, o chefe caminhava
de lança em punho. Conversavam ambos.
Uma figura estranha perpassou (quadrúpede?)
no mato poeirento e verdejante.
O que era aquilo? E o chefe respondeu
sorrindo levemente: – Aquilo é o diabo,
mas eu não tenho medo que não sou cristão – .
Enfim chegaram, professora régia
Como rainha se instalou. E o chefe,
tão agradado dela, não voltou
a comandar comboios de tipóias,
ficou vivendo co’a “senhora grande”,
Padre José da régia cardinala.
Caía a tarde um dia em rubros sóis
redondos no céu pardo. Minha avó,
sentada na varanda, conversava
com o chefe cachimbando acocorado.
Porque tão preguiçosos eram todos
os negros por ali? E o chefe disse:
– Senhora sabe que diferença que há
entre macaco e negro? Não? No tempo
em que chegou aqui primeiro branco,
macaco não falou, ficou calado.
Por isso não trabalha. Entende agora?
Sorriram-se entendidos um e outro.
Luanda, 5/8/1972

 

SENHORA DA NAZARÉ EM LUANDA

Em 1664, o governador destes reinos,
André Vidal de Negreiros (que nome,
ao fim de dois séculos do negócio
em vão visível no seu escudo de armas)
fundou esta capela. Os azulejos
representam a patada de D. Fuas
à beira do penhasco a que o demónio
pensava que o levava pra o deitar ao mar.
Ou do cavalo que estacou de espanto
e não se sabe se de susto ao ver
o cervo a despenhar-se das alturas,
se porque viu suspenso de entre as nuvens
o virginal clarão da mãe por obra e graça
do Santo Sprito em Roma agora banco.
Era devoto dela André Vidal,
embora este outro nome cheire a esturro
ardido noutros lumes.
Branca e de arcos,
pousou-a aqui à beira da Baía.

Luanda, 5/8/1972

 

NA IGREJA DOS JESUÍTAS EM LUANDA

Conversa a negra no recanto em sombra
da igreja tão de limpa restaurada.
No chão sentada e velha, se abre os braços
em frases de silêncio para o Cristo
que pende morto acima dela, imóvel
e silencioso. Que dirão os dois?
Qual a confusa indecisão que passa
angustia intimidade de sem línguas
nessa cabeça antiga de outra raça
e sobretudo de outros deuses que
falavam por sinais mas claras frases
como as sibilas feiticeiros sabem?
Na solidão vazia de seu espaço
em que de brancos Roma escureceu a luz
embranquecida de cacimbo e ardor
de longos rios, praias sinuosas,
e de planaltos as ravinas duras,
que deus pode inventar-se que não seja
dor de miséria de não ser-se, de não ter
de país a filhos a linguagem livre?
Que liberdade pede? Que morrer deseja?
Será que em frente do altar-mór não tremem
dentro da simples laje os ossos de
um Paulo Dias de Novais? Que de imbondeiros
os frutos como ratos suspendidos
ainda lhe roem um tutano seco
no fogo de queimadas e de incêndios
em que de povos só as cinzas ficam?
Porto, 24/8/1972

* Poemas de Conheço o Sal... e outros poemas, in Poesia-III.