Odes de Jorge de Sena

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A ode é forma poética canônica muito revisitada por Jorge de Sena, sobretudo nos anos 40 e 50. Das 14 que nos legou, já aqui editamos a "Ode ao surrealismo por conta alheia", "Ode aos livros que não posso comprar" e "Ode para o futuro". As que se seguem bem comprovam a variedade de modulações com que JS recria forma tão arcaica que varou os séculos.

  

 

 

 

Ode a Alberto de Lacerda

Ao longe, entre palmares e brumas
e ventos de monção erguendo espumas,
uma visita recebeste, gélida e ardente.
Beijou-te os olhos de menino doente,
as mãos ingênuas de menino arguto –
e tu, olhando as coisas e tocando-as leve,
ouviste que falavas
do que não tocavas,
e pelo mar partiste.

A ti, quem te chamou? Quem te expulsou?
Quem te acordou? Quem te mantém dormido?
Quem com palavras nuas te comprou?
Quem te despe da vida como a um deus vestido?
Ai nunca saberemos que ninguém!
E nem palmares, nem brumas, nem visita ardente
ou gélida, nem mesmo a tua velha infância,
nem mesmo tu, que morres de ser só
o sopro que te anima.

Mas tu, fechando os olhos, vês Diotima.

2/9/1951


 

 

Ode à Beira Nada

Eu leio estes poetas com imensa amargura.
É tão verdade que todos desejamos
( todos, menos quem deseja o sossego dos outros)
a liberdade mais perdida a cada sonho com ela
como flor tranquila vicejando algures
onde contemplá-la é só chilreio vago
do campo antigo!…Eu espero, eu vejo, eu quero,
mas há em tudo isto um travo exacto
a deslealdade, a fuga, a evasão, e não a luta,
um travo a imaginar que a outra humanidade
será melhor apenas para nós sermos os mesmos
com auditório melhor. Tudo será igual,
no fundo querem tudo igual, pois quando gritam
por este vácuo de universo e acaso,
delírio de estruturas consumindo-se
voltadas para um fim que não possuem,
pois quando gritam (e dizem nomes belos,
imprecações brilhantes, vocativos mágicos)
por este claro monstro que em mim trago,
de que não há cesariana que me salve,
não é por ele que chamam; não procuram
saber que existe, desconfiam, temem,
agarram-se uns aos outros, temerosos,
fingindo rir da ingenuidade aflita
dos que, outrora, se curvavam solícitos,
sonâmbulos, seguros, para a poeira do mundo,
nela beijando os sinais, patadas, marcas,
dos deuses que brincavam aos humanos,
como os humanos a imortais brincavam,
brincavam a invisíveis, a sem peso,
primeiro ainda orgulhosos de que as coisas
fossem a pedra com que faziam outras,
depois já tristes de que as pedras fossem
como o regresso ao ventre entressonhado,
mais tarde atentos à evidência de estar vivos,
e quase agora aflitos sem saber porquê.
Não, não, toda esta gente é ignóbil, miserável,
não posso deixar de os ler com imensa amargura.
Passam cantando inúmeros disfarces
contra a morte dos deuses e das leis, das classes,
de tudo o que por séculos inventou palavras
com que eles cantam; e, no calor do canto,
há um consolo atroz, gramatical, de sobrevida,
relento a vida viúva e mal lavada.
Não! tudo isso é falso! Acudam que é traição!
Ainda é tudo o mesmo, a mesma teatrada,
a margem da verdade que não é a verdade,
se não há razões, se nós, os que sabemos,
é que andamos cá por ver andar os outros?
Que fidelidade eu devo, mais que a de voluntário escravo,
a novas grades com que se preparem
para prender quem grite que não há uma causa,
que não há um fim, nem uma razão,
que de nos agarrarmos uns aos outros
não nasce outra razão além dos gestos?
Confessai, por uma vez, cobardes,
que até por corbadia particais heroismos!
confessai por uma vez, que não tendes coragem
para lutar alegremente e sem motivos!
confessai que não sabeis amar a vida,
que não a amais senão na dor dos outros!
Confessai, confessai, apenas uma vez!
E, se depois cantardes, se ainda então
o sexo a mais ou a menos que vos subiu à garganta
ainda for o pipilar das avezinhas,
por entre os ramos mentais de um arvoredo
que os montes não conhecem, nem os rios
reflectiram nunca, nem os homens viram,
então, sim, então podereis ser líricos.
Sereis só líricos sem máscara. Repipilareis
na doçura da tarde( ai como é doce!),
no silêncio da noite ( ai como é escura!),
no estalido róseo da madrugada próxima…
…………………………………………………………….

Alto! Alto aí! Não vos inspireis! Deixai nascer o Sol!…
Deixai que ele nasça, que, sem todos vós – el' nasce.


20/7/48

 

 

Ode à Incompreensão

De todas estas palavras não ficará, bem sei,
um eco para depois da minha morte
que as disse vagarosamente pela minha boca.
Tudo quanto sonhei, quanto pensei, sofri,
ou nem sonhei ou nem pensei
ou apenas sofri de não ter sofrido tanto
como aterradamente esperara –
nenhum eco haverá de outras canções
não ditas, guardadas nos corações
alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.

Não por mim. Por tudo o que, para ecoar-se,
não encontrou eco. Por tudo o que,
para ecoar, ficou silencioso, imóvel –
– isso me dói como se ausência a música
não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso,
eminente, destinado, isso me dói
dolorosamente, amargamente, na distância
do saber tão claro, da visão tão lúcida,
que para longe afasta o compassado ardor
das vibrações do sangue pelos corpos próximos.

Tão longe, meu amor, te quis da minha imperfeição,
da minha crueldade, desta miséria de ser por intervalos
a imensa altura para que me arrebatas
– meu palpitar de imagem à beira da alegria,
meu reflexo nas águas tranquilas da liberdade imaginada-,
tão longe, que já não meus erros regressassem
como verdade envenenando o dia a dia alheio.

Tão longe, meu amor, tão longe,
quem de tão longe alguma vez regressa?!

E quem, ó minha imagem, foi contigo?

(De mim a ti, a mim,
quem de tão longe alguma vez regressa?)

9/10/49 – rev. 1950

 

 

Ode à Mentira

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos… – como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.  

31/3/49

 

 

Ode a Ricardo Reis

Rosas raquítas te of'reço, poeta,
porque é da ode of'recer rosas
e não há doutras nas palavras de hoje.

Desfolha-as sabiamente nos teus lábios
e fala esse perfume que el's não têm;
ah diz-me como é vão o vão das pétalas,
se as rosas que te ofereço não são rosas
para criar em ti novo desdém.

Dilui-te um pouco nesse amor vendado;
e, quando o teu cuidado nos buscar,
aventa a hipótese da morte inglória:
se algum de nós morrer da morte de ambos,
é que estas rosas te serviram tais
que assim raquíticas duravam mais.

8/4/1942 – 1947

 

 

Ode a um reformador do mundo

Outros, que não tu, puseram nos teus braços 
o mundo imprimido por ti à sede de justiça.
Mas foi como nascendo que lhes deste
o sangue de mais outros que já estavam mortos
tão antes de raiar o novo dia
a quem, também, traçaste o círculo da terra!

E a sede era maior porque vivia,
porque era, sobre o campo da alegria,
uma seara ardendo ao tempo que crescia,
um pão de eternidade sem um deus presente
abandonando os gestos ao fervor de outrora.

… … … … … … … … … … … … … …

A nós as cordilheiras entre as terras
suspensas dos montes como de um senhor!
A nós a perspicácia dos olhares impuros,
quando olham corpos que pertencem sempre!
A nós a mancha que as nuvens negras
passeiam parda sobre a terra seca!
A nós as cores do inatingível termo
em que a justiça embalará os homens,
se falsos homens há para atingi-lo!
A nós os dedos que emprestaste às mãos,
a que obrigaste as mãos dos que não entendem!
A nós a liberdade de cantar vitória
por cada espezinhar de um velho mundo!
A nós o círculo sempre traçado à terra!

E a mim o amor das searas invencíveis!
A mim as lanças das bandeiras do universo
e não as franjas de ouro do caminho andado!
Quero que a tua glória seja do meu rasto!

A mim todo o futuro e a multidão que o encha!
À minha voz, a dor da vida quando exige tudo
e rasga em homens a ilusão de paz!
Que eu grite a angústia firme da exigência eterna,
grito após grito, quanto um grito custa:
– e nem o meu mundo é já o que me dás.

8/2/42

 

 

Ode ao Amor

Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor…
            ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele… amor… amor…
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria…
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.

Distantemente, irónico, esquecido.  

17/7/49


 

Ode ao destino

Destino: desiste, regresso, aqui me tens

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais,
das ameaças
do recolher felino das tuas unhas retráteis
– ah então no silêncio tranquilo, eu me
acolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe
inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas
as coisas chegavam
em bandos,
que eu de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as
dos outros,
para dominar a tempo um gesto de
amizade inoportuna.
Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças,
em audácias;
descendo à fé em mim próprio, até busquei
sentir-te . imenso, exacto, magnânimo
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem razão constrói
de um Deus ínvio caminho, capricho
dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falia de vontade
minha,
superstição, metafísica barata, medo
infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos
freudianos,
contradição ridícula não superada pelo
menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito,
a solidão da vida,
existirão ou não, serás tudo isso ou não,
só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.
……………………………………………………
Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar
morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e de todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

17/10/47 


 

Ode aos Plátanos

Queda de folhas com que a aragem soa
a luz do sol em sombras sobre os vossos troncos
de esverdinhado ouro secular
– ó plátanos dourados e nodosos! –
que sempre o mesmo Outono vos consola,
dormência igual, Inverno já tão próximo,
carícia vegetal de esquecer tudo,
folhas tombando, esguios ramos hirtos,
tão doloroso e fácil contemplar-vos!,
tão lentidão de sombras mais antigas
que a dança cadenciada de escutar-vos.
Troncos, rochedos, grenha de braçadas,
chiar de sonhos, solidão musgosa,
e as folhas caem por entre a limpidez
de um ar sonoro levemente azul.
Ligeiras, secas, já de sempre ouvidas,
as folhas correm pelo saibro húmido.
Nas noites frias, rígidas, metálicas,
de sono lúcido e profundo além da névoa,
com vossos ramos nus tão numerosos,
que nevoeiros calmos esfarrapareis!
– ó plátanos dourados e nodosos!…

6/12/49


 

Ode às Ideias Irresponsáveis

Estou só, deitei ao nevoeiro que rodeia a fronte
à hora da partida para a dúvida já física
todos os mundos… Ó minhas irmãs,
como estou só! sem flores, sem barcos,
sem a minha voz, sem alma,
sem a alegria de um nascer diário
na força de astros múltiplos, sensíveis,
confiando auroras ao carrear do vácuo
e ao pálio de ondas que as falésias deixam
desdobrar em franjas,
                                       franjas que o azul alonga
ee já verde, enquanto um pássaro
persiste nos rochedos e o rochedo é o pássaro
pousado e as asas são a espuma
                                                           a um lado e outro,
e já verde o azul imita o frágil mar…
Ó minhas irmãs, cabelos sois e um corpo sempre virgem
e o que ele brilha, próximo do fim,
                                                         junto à inocência,
por ambição e medo do contacto!

Ó minhas irmãs, demora-se o destino
a ponto de ser vossa a tempestade
que a tempestade enfrenta, esmaga, calca,
nas nuvens lúcidas e livres,
nenhum vento,
                           nenhum vento aqui.

Ó minhas irmãs, dentro de mim,
numa insistência de lágrimas traídas,
elevam-se montanhas prenhes de raízes,
                                                                     ruge
essa cascata de que emana Deus,
emana a Sua Imagem rápida e vulgar
de eu não viver convosco,
mas para vós no espaço tão completo!

E bem sabeis
                        que a violência foi e não voltou ainda,
que não caminha nela o canto que a antecede,
que não existe um laço entre ninguém,
que nada é invisível,
                                  nada injusto,
nada um êxtase de pálpebras marinhas,
nada o vosso corpo e a multidão dos povos,
de cérebro convulso, em luta pelas margens
do rio que vós sois porque ela existe!
existe apenas, basta,
ó minhas irmãs, não sei chorar.

Não sei, minhas irmãs, e perdi tudo:
a confiança, a fé, a independência,
o amor único do arado em espírito.

Ó minhas irmãs, chorai por mim. Se foi,
no centro ardente dos bailados que dançastes
sobre a minha esperança, o meu lugar prateado
pela angústia humana de extorquir imagens,
se foi a minha esperança a erva das montanhas,
que, orvalhada de sangue, vos ungiu os pés,
se os vossos pés ungidos transportam pólen,
se o pólen era estéril longe dos meus olhos,
se os meus olhos não souberam ver
que uma verdade é só de estar contida
e prisioneira, e não sentido ou acto,
ó minhas irmãs,
                             as lágrimas traídas
são vossas, são do pássaro
que enegreceu na rocha
e da sua pupila
fixa e convexa
– e não minhas, que as não sei chorar…

Ó minhas irmãs, se montanhas vagueiam,
vagueia o Sol com a esfera dos planetas
e o firmamento vagueia na audácia dos homens…

E que homens há levando a verdadeira noite
nas pontas dos dedos com que vos tocaram
amorosamente,
                             recolhidamente,
para que a verdade suba vitoriosa,
neles e eles nela, ao miserável encontro
dos sublimes astros?
                                    Ó minhas irmãs,
é vossa a tempestade, eu perdi tudo,
eu deitei ao nevoeiro as minhas vestes
e o vosso orgulho, a vossa humanidade,
e o vosso heroísmo…

Estou só, minhas irmãs. Foram-se os séculos.
Não tendes vós os séculos da vida?!

Eis que vos peço que choreis por mim.

1/7/1942