Primavera em prosa poética

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Página inicial do texto de JS na coletânea As quatro estações

“Humanamente verde” é a primavera de Jorge de Sena, numa meditação poética que, além de evocar os parágrafos iniciais da sua novela O Físico Prodigioso, traz excelentes aportes aos estudos sobre paisagem/texto literário, agora tão em voga.

 

I

Neste anseio desenhado em claros píncaros de montanha, ao longe o mar que perto é de águas frias se espraiando em lâminas de metal opaco, a luz se faz tão plácida, tão ténue escurecendo, que é de silêncio memorado o vácuo espaço sob o céu de branco azul, em que perpassam fímbrias de manhãs, farrapos de floridas tardes coloridas, e um de ouro ardente crucial meio-dia em halos purpurinos. Além da muita idade acumulada em minuciosa angústia solitária, o que se irrompe inominado como os contornos de preciosa alvura é de expectante insónia transdiurna a persistência aguda. Que mais se desejar neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, em seiva se concentra e liquefaz, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo. Desabrochar fluindo em de escorridos passes, concêntrico de círculos e de ecos, por rochas de água entretecida em verdes não ainda o verde mas lembrança, música sem fio de harmonia, só cadência e pulsação que pelo corpo vai de longos cílios.

Uma claridade se insinua pelo que é noite adentro, enquanto em lentidão tenteante mas irresistível se aproximam saudosas imagens sem feitio, que se desdobram em leves duplas sombras de outros dias. Que foram ou não foram alastra suspendido entre névoas matutinas de imaginar-se visões de luz aberta, desenhando acessos interiores de expectativa. Ao longo do fluir de espaços repetidos, que de Outono e Inverno se vão continuando, vem devagar a presença viva de explosões sangíneas. É como se houvera veias por toda a parte. E humanas formas assumem tons silvestres, e os gestos das árvores e arbustos parecem de animais.

Vozes não há até que pelos campos e as encostas se ouçam vindos do interior das coisas dispersos gritos como cortes no silêncio das crostas e cascas que se animam. Goteja lenta seiva sob as rugas áridas da dormência hibernal; e os ramos, que estremecem como as mãos se aquietam, distendem-se de internas contorsões que pela superfície apenas são os nódulos de folhas invisíveis.

Nos ares que mesmo em tempestade conservam por detrás uma frieza tranquila, começam a formar-se estrias de trémula transparência, sopros de brisas tão ligeiras, que é como alheio, longínquo e sem futuro, o leve ardor que nelas se acalenta. Nas águas reclina-se em murmúrios um frescor que vai perdendo o gélido crispar-se de ainda há pouco, mas não se esvai de estagnação estival. E o térreo de entre as pedras amolece friável, sem que nenhuma poeira se levante.
II

Não há que pressentir ou que fitar. Tudo se coordena para além do sentir-se, como um movimento que, por incerto, não menos se destaca em passo inexorável. Isto sucede sempre com todas as mutações. Mas nesta é como se as outras viessem porque esta veio, e dela ascendessem e declinassem no ciclo repetido. Espera-se da vida humana que renasça mas ela não renasce senão em outrem, fugindo pouco a pouco ou de repente num outro plano mais ou menos fundo, que não coincide com este tremor prenunciado. Todavia, por ele se conhece que o despertar se situa nesse espaço temporal entre o movimento da Terra que provoca o circular repetir-se, e o esvair-se da vida em cada corpo único. De um e de outro lado deste espaço, em margens que ora avançam ora se retraem, cada corpo enfrenta a visão de um movimento em que vai mas não é o seu. De um lado e de outro deste tempo (como intervalo e não como diferença), as margens multlpllcam-se e refluem som se tocarem nunca, e cada corpo adquire a consciência física de não ser um outro, recorta a sua imagem e a sua semelhança, mas também a sua superfície intransponível.

Ill

Desde dentro ou como do que é fora do existir-se, assim se desenham no ardor as coisas e os seres. Um leve ardor que é rapidez, ou intermitência que prossegue, ou lentidão que é uma certeza de tensões seguras. E um dia, sem que da noite se adivinhem mais que por estalidos indistintos os contornos, a madrugada acende o seu clarão alheado sobre o que já era um transformar contínuo. Como que vapores nimbam as formas, como que fosforescências brilham por sobre elas. Do negro ou claro e cor de terra de que montes e campos se constroem, emerge como musgo um verde esparso e tenro. Aqui e ali as hastes se levantam, esguias e flexíveis, tal como em ramos brota desenroladamente o que será folhas ou flores. Os animais se movem com gestos de quietude ou de instantânea graça, qual o suspendido imóvel do arvoredo. E os ramos entrecruzam-se na imobilidade de uma brisa que apenas os rodeia, e quedam-se no ar com a mesma curiosidade do animal que estaca, erguido em suas patas rápidas.

IV

Humanamente verde, como puro imaginar do acontecido, o corpo humano agita-se iludido, arrastado na fusão de coisas e paisagem, esquecido já, no curto instante do estourar das seivas, de que o seu tempo e o seu espaço são outros e um só, no intervalo que não é tempo do mundo nem tão-pouco espaço da Terra. Esquecido de que para ele as estações coexistem num longo Inverno do nascer à morte, engana-se a si mesmo, crendo-se uma coisa, ou então um ser vivo apenas entregue ao fluxo de ser-se. E, por suas mãos que se contraem, seus olhos que fitam persistentes, seu anseio que o faz erguer-se abrupto e vertical, sente em si mesmo o tudo que não sente, e pensa que renasce como a terra em que pisa.

Assim a Primavera chega em desenlace e espuma de humida-des ao homem que imagina a primavera que vê. Ao animal humano separado de todos os ciclos menos o de ser mortal. Humano porque se separou e viu as coisas e lhe deu os nomes da sua voz aprendida. Animal porque conserva em si mesmo o jogo de existir. Mas animal humano abandonado a si mesmo, que estende as mãos para pro¬messas de flores e frutos que lhe são exteriores, que contempla embevecido o mover-se da vida pelos seres adiante para além dele, e que se levanta diverso de tudo o mais para contender com o perigo de não ser como eles.

É como se, nesse encontro imaginado com a Primavera, houvesse para o homem um retorno que não há ao espaço sem tempo mas só ciclos, em que não era ainda o ser que se tornou; é como se, deixando-se penetrar, pelas ondas que atravessam os mais entes vivos, ele regressasse ao tempo sem espaço em que tudo fluía como se não houvesse distâncias, nem as formas estivessem fechadas nos seus mesmos contornos. É como se, neste anseio desenhado em claros píncaros de montanha, ao longe o mar que perto é de águas frias, a luz se fizesse tão plácida, tão ténue escurecendo, que no céu de branco azul perpassassem fímbrias de outras manhãs, farrapos de tardes coloridas, e halos purpurinos de crucial meio-dia. De além de muita idade — acumulada em minuciosa angústia solitária — irrompe a persistência aguda de uma expectante insónia trans-diurna. Que desejar-se neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, concentra-se de seiva e liquefaz-se, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo, quando, só cadência e pulsação de longos cílios que pelo corpo vai, a música sem fio de harmonia, concêntrica de círculos e de ecos, desabrocha por rochas de água entretecida em verdes não verdes mas lembrança.

Humanamente verde, a Primavera chega.

Santa Barbara, Dezembro de 1974.

 

* Originalmente publicado em As Quatro Estações, Porto, Inova, 1977, p. 9-21. Posteriormente inserido em Visão Perpétua, Lisboa, Ed. 70, 1989, p. 207-209