Os poemas Wagnerianos de Jorge de Sena

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Wagner é um dos compositores mais evocados por Jorge de Sena em Arte de Música: são a ele dedicados nada menos que três poemas (o que o coloca num empate com Bach, perdendo apenas para Mozart e suas cinco representações). E, ao final do volume, escreveu sobre cada um destes, em notas que esclarecem as fontes de inspiração dos versos.

No caso de “A Morte de Isolda”, afirma não se referir particularmente “a qualquer das muitas interpretações da Liebestod do Tristão“, trecho do terceiro ato da ópera Tristão e Isolda que, em sua lista de eleitos, “ocupa naturalmente um primeiro lugar”. Sobre o “Final da ‘Valquíria'”, afirma “ter em mente a interpretação de Ferdinand Frantz, com a Orquestra Filarmônica de Viena, dirigida por Furtwängler (…), segundo a qual Votan é, ao mesmo tempo, o deus e um pai humaníssimo, cheio de tristeza ao condenar Brunhilde”. Por fim, sobre a “Marcha Fúnebre de Siegfried”, peça do terceiro ato do Crepúsculo dos Deuses que é, segundo Sena, “uma das coisas mais terríficas e grandiosas que alguém terá composto”, afirma escrever “sob a influência da interpretação de Klemperer, com a Orquestra Philarmonia”.  

Seguindo, portanto, as instruções do poeta, apresentamos aqui sua seleção wagneriana, acompanhada de suas respectivas influências sonoras. 

 

 

A Morte de Isolda

Nesta fluidez contínua de um tecido vivo

que se distende arfando como um longo sexo

viscosamente se enrolando em torno ao mundo

que não penetra mas ansiosamente

estrangula em húmidos anéis

fosforescentes de ansiedade doce

e resignada à morte

em roncos e estridências lacrimosas,

palpita a frustração do amor maldito

porque de um filtro só nasceu.

Por mais que de crescendo delirantes

se evolem as volutas de uma chama ambígua,

nesta fluidez sem tempo não há gozo algum,

mas o prazer remoto do que não foi vivido

senão como entressonho e fatal gesto;

e mesmo este balanço largamente harmónico

que se exaspera e expira em tão agudas poses

é cópula mental.

Nesta doçura que ao silêncio imóvel

acaba retornando, não há uma paz dos rostos que se pousam,

enquanto os sexos se demoram penetrados

no puro e tão tranquilo esgotamento da chegada

que só ternura torna simultânea.

Não há, mas só tristeza infinda e fina

e tão terrível de que, estrangulado,

o amor no mundo é morte impenetrável: dois

seres que o sexo destruiu,

estéreis como o sopro da serpente eterna.

Fica-nos o gosto da piedade.

E uma vontade de enterrá-los juntos

p’ra que talvez na morte – imaginada – se conheçam

melhor do que se amaram. E também o ardor

de uma impotência que se quis só sexo

virgem demais para um amor da vida.

8/3/1964

 

Final da “Valquíria”

Deuses podiam de um Valhala em chamas

sumir-se nos escombros quando o Reno

cantante como o fogo inundaria verde

o palco e o catafalco dos heróis:

cavalo ardente de Valquíria amante

que o pai sofrendo humanamente triste

condena ao sono não de eternidade mas

da inércia solitária de quem espera

o amado herói que há-de tocar-lhe os lábios

soprando-lhes ardências de fatal destino.

O anel dos deuses, dos mortais esse ouro

(mas por agora é só Votan partindo,

e do futuro ainda é que desastres pendem):

“Assim de ti o deus se afasta agora,

num beijo te roubando a divindade”.

4/7/1973

 

 

Marcha Fúnebre de Siegfried, do “Crepúsculo dos Deuses”

Na tarde que de névoas se escurece

escuto a marcha que ao herói transporta

fúnebre e doce, tão violenta e fluida,

à sua pira em que arderá cadáver

a cinzas reduzido. Erguem-se os metais

nos ares entreabertos, terra se contrai

onde tambores reboam, e as madeiras

e cordas acompanham o cortejo

descendo para o rio que perpassa

igual sempre a si mesmo de outras águas

como os heróis que morrem tão humanos.

E é o que nos diz este mostrar por música:

os semi-deuses morrem como nós,

como nós sofrem mágoas de derrota,

e como nós desejam, amam, gozam

ou raivam da tristeza de não ter.

Mas nós não possuímos quanto a eles cabe,

neste fervor de imaginá-los, quem

nos cante o fim de tudo o que foi grande,

o que foi puro, o que de consentido

foi gesto dedicado sem usura

ao simples existir além de nós

na terra que nas trevas se nos fecha

de noite enevoada só distância

nas pálpebras cerradas deste corpo,

o herói que assassinado me transportam

neste cortejo em majestade e lágrimas.

Não temos isto mais do que em só música,

mas os deuses também não, que aos heróis mortos

nunca sobrevivem.

13/1/1974