As cantigas de D. Urraca e outros poemas medievais

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D. Urraca I de Leão e Castela, filha de Afonso VI, e a Doña Urraca de Jorge, em selo comemorativo

Nome comum na Península Ibérica ao longo de toda a Idade Média, Urraca é uma personagem recorrente na escrita de Jorge de Sena. Além da participação em O Físico Prodigioso, ela já aparece numa cantiga bastante anterior à novela, escrita em 1942. Na Espanha do pós-guerra, a partir de 1948 Dona Urraca passa a ser personagem também de outro Jorge (pseudónimo do autor de quadrinhos Miguel Bernet), que a transforma numa espécie de bruxa, cruel, sarcástica, vestida sempre de preto e com um guarda-chuva como arma.

Marcas de ambos os Jorges, a ironia e o humor negro podem ser vistos na antologia a seguir, especialmente nos poemas acerca de Dona Urraca, mas não vêm sós – têm por companhia os exercícios senianos de experimentação da estética medieval, em seus componentes de estrutura, ritmo e linguagem. Todos os poemas abaixo foram publicados em Visão Perpétua (1982), inclusive os que já haviam aparecido anteriormente em O Físico Prodigioso (escrito em 1964 e publicado em 1977). 

 

* Cantiga Dita de Escárnio
* “Ao rio perguntei”
* “Ao castelo o cavaleiro”
* “D. Urraca tem um físico”
* “Morra o bispo e morra o papa”

 

Cantiga Dita de Escárnio

Dona Urraca tinha dentes
afiados e compridos
Ai minha vida!
Com eles serrados rentes,
os dias não eram idos.
Ai minha vida!

Vinham dias após dias,
as guerras não se cansavam.
Ai minha vida!
Cansaço, tu não fugias…
e com fome, te compravam.
Ai minha vida!

Teimavam luzes acesas,
mesmo na chuva pegada
Ai minha vida!
Havia prados, represas
de ternura desolada.
Ai minha vida!

Coragem, manhã, coragem;
as noites cortam-se à faca
Ai minha vida!
Não pagarás mais portagem
aos dentes de Dona Urraca.
Ai minha vida!

13/5/1942

 

“Ao rio perguntei…”

Ao rio perguntei por meu amigo
aquele que há tanto é partido,
e por quem morro, ai!

Ao rio perguntei por meu amado
e u será que ele se há banhado,
e por quem morro, ai!

Aquele que há tanto é partido
u lavou triste seu corpo velido,
e por quem morro, ai!

Aquele que há tanto é longado
e u será que se foi lavado,
e por quem morro, ai!

Ao rio perguntei por meu amigo
e u se lavou de dormir comigo,
e por quem morro, ai!

Ao rio perguntei por meu amado
e u se lavou de nosso pecado,
e por quem morro, ai!

E u se lavou de dormir comigo
e seu retrato foi nas águas vivo,
e por quem morro, ai!

E u se lavou de nosso pecado,
aquele que há tanto é longado,
e por quem morro, ai!

5/1964

 

“Ao castelo o cavaleiro”

Ao castelo o cavaleiro
vinha vindo sua via,
sem saber que procurava,
nem saber que encontraria.
As armas eram de ouro,
a lança na mão trazia.
Fechadas eram as portas,
mas co’a lança já batia.
As salas eram escuras,
e ninguém nelas vivia.
Só na torre uma princesa
esperava e gemia.
Prisioneira ali ficara
à espera de quem viria,
sem dama que a cuidasse,
ou donzelas e honraria.
Com a lança o cavaleiro
contra as portas investia.
Sentindo as portas forçadas
a princesa gritaria,
se não fora a liberdade
que a lança lhe prometia.
Já se rompem essas portas
com que o pai a defendia
dos homens e suas lanças
que mais que tudo el’ temia.
Mas este de lança erguida
já está na sala sombria.
E pela escada da torre
logo logo ali subia,
ao encontro da princesa
de que ele não conhecia.
Ao cimo, ouvindo seus passos,
[já] a princesa tremia,
e sua lança rebrilhante,
antes de o ver, ela via.
E cega de seu esplendor
aos braços dele corria,
sem contar que a lança em riste
já nela se cravaria.
Mortalmente trespassada
nos braços dele caía,
e morrendo e suspirando
estas palavras dizia:
De longe vinhas, senhor,
de tão grande valentia
para matar-me de morte
que o teu amor não sabia.
Donzela tão bem guardada,
para ti me guardaria,
que nestas salas escuras
só por amor eu vivia.
Descai-lhe morta a cabeça,
mais palavras não diria.
E ao lado da suja lança
o seu sangue refulgia.
Olhando-a morta e donzela
nas lajes em que a estendia,
o cavaleiro jurou
que nunca mais forçaria
as portas desses castelos
co’a lança que quebraria.
E os pedaços da lança
que mais que tudo ele queria
enterrou com a princesa
na cova que já lhe abria.
E triste o triste partiu
para seguir sua via
até ao negro mosteiro
em que p’ra sempre estaria.
Mas da cova nascem rosas
que ninguém colher podia
sem que a mão lhe mirrasse
no ramo que se partia:
rosas de sangue e de leite
que só a terra bebia.

5/1964

 

“D. Urraca tem um físico”

Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.

Dona Urraca é boa dama
para as donzelas que tem.
Quando elas adoecem
logo o físico ali vem.
Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.
Põe o gorro na cabeça,
não se vê como está nu.
Mas ao dar a medicina
é como tutano cru.
Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.
Físico prodigioso,
que tudo cura por bem.
Mas doenças de donzela
el’cura como ninguém.
Dona Urraca tem um físico
que cura toda maleita.
Quando Dona Urraca geme,
logo o físico se deita.
E dor’s de mal maridada,
Dona Urraca que o diga.
Pois antes que el’apareça
aqui se acaba a cantiga.
Dona Urraca tem um físico…

5/1964

 

“Morra o Bispo e morra o Papa”

Morra o bispo e morra o papa,
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras,
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra o rei e morra o conde,
maila toda fidalguia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco,
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos,
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher,
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante,
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente,
vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!

5/1964