Cinco Natais de Guerra, seguidos de um Fragmento em Louvor de J. S. Bach

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Desenho de Jorge de Sena

Os Natais de Jorge de Sena tratam […] de uma ausência que dói e nos incrimina, de uma impossibilidade que agrava a sede e a fome, de um vazio que insistimos em não encher, falam, em suma, dos antinatais que somos, por culpa de tudo e de cada um de nós que os não vive dentro de si, como exigência e responsabilidade que se não podem transferir… (Eugénio Lisboa*)

 

Jesus, Alegria dos Homens

 

1944

Possivelmente, meu Deus, a vossa existência não passa
de uma piedosa mentira com que vos embalam os homens
(e tanto vos embalaram, meu Deus, que respirais tranquilo
nos braços destes milhares de gerações sofrendo a vossa vinda).

Acordai, Senhor; nascei, Senhor; olhai
como se amam estes numerosos povos
que se entre-destroem furiosamente sem saber por quê,
inventando razões, procurando razões, acreditando em razões,
à semelhança do enamorado que persegue uma eterna visão,
e é (julga), porque as pernas são belas, os cabelos são louros
e o seio saltava mansamente ao cruzar por ele.

Mas basta, Senhor: não demoreis a conquista.
Deixai que vos esqueçam, que descansem, que se alegrem,
sem que a morte espalhe uma violenta alegria,
e um feroz desejo de ter imensos filhos,
e uma tremenda raiva de que levem tanto tempo a crescer,
e uma simples saudade de um azul do céu,
sob o qual se morra tranquilamente de cancro ou de tuberculose
ao conspícuo abrigo dos códigos e do Governo Civil.

24/12/44
1945

Toca a silêncio o clarim no silêncio já feito
do quartel que dorme. Como é fria a noite
e prolongada ao mais fundo fundo da treva
por estas notas lentas, sossegadas, graves.
A noite é igual às outras, e o clarim que toca
repete, com variantes, os clarins do mundo.
Toca a silêncio pela terra, longe, do outro lado,
e há homens que dormem sonhando com a paz,
que chegou desconhecida e pálida. Quem dorme
acordado ouvindo os clarins a tocar? –
– a silêncio na noite de Natal, que passa
igual a tantas, desde que há Natal, e a guerra
continua, continua sempre. Ah nunca, nunca
a guerra acaba! Morrem oprimidos
povos e povos, crentes de uma paz, da mesma
prometida outrora e por penhor rasgada.
Morrem os homens, quando a sonham mais,
e os que não sonham, e os que não a sabem
e morrem, já da paz, e não serão lembrados
sob um nome comum, com monumentos e festas.
Mortos da paz! Anónimos! Perdidos! Não dareis
um feriado às crianças que da escola
sairiam correndo, ignorando até
que poderiam estar com elas vossos filhos,
se os tivésseis tido.
Toca a silêncio, ó clarim do mundo!
Toca a silêncio, agora, manda adormecer
esta humanidade frenética de saber que existe,
manda que durma e sonhe de si própria
a existência que sabe e que não tem!
Toca a silêncio, ó clarim do mundo!
E na alvorada, quando na alvorada
acordarem todos para mais um dia,
não toques para todos nunca mais!
Acorda apenas os que não viveram,
os banidos, os perseguidos, os traídos, os infames,
os que te ouviram sempre com o desejo nas mãos,
os mortos juvenis, os mártires de todos os tempos,
de todas as guerras, de todos os tratados
– e chama-os para que vejam com os seus próprios olhos
a terra imensa: era tão grande a terra! E depois, logo depois, na noite extrema
que os abrigará materna em pleno dia
– toca de novo a silêncio, ó clarim do mundo!,
é silêncio o que eles pedem, só silêncio, mais nada.

5/1/46
1946

É muito fria a minha mágoa
neste Natal que, à beira de água,
referve em multidões embriagadas
por frios tão de outrora, que, apagadas
as brasas de uma esperança já perdida,
acordarão sozinhas junto à vida.

A mágoa, se é do mundo,
talvez não seja apenas de tão fundo
ser o desvão em que estou frio e só.
E o céu azul, e a raiva de o olhar
neste mau hábito infantil de paz sonhada,
e a solidão do amor, e o presunçoso dó
de longe haver a esperança de o cantar:
ridículo Natal, miséria e nada.

25/12/46
1947

Mécia:

Não é já de Natal esta poesia.
E, se a teus pés deponho algo que encerra
e não algo que cria,
é porque em ti confio: como a terra,
por sobre ti os anos passarão,
a mesma serás sempre, e o coração,
como esse interior da terra nunca visto,
a primavera eterna de que existo,
o reflorir de sempre, o dia a dia,
o novo tempo e os outros que hão-de vir.

31/12/47
1948

Dentro do frio os coros cantam docemente
em louvor de deuses por nascer
se os deuses nascem deste amor de um instante
como acontece aos homens
se da perpétua noite desesperada
que alegremente os coros tiram de julgar os astros
se pela terra massacrada as águas fogem
à ténue melodia da amargura
dentro do frio noite solidão
murmúrios de revolta silêncio rebelado
gritos de amor por tanta ausência pura
os deuses nascem de nenhum nascer
humanos passam como a terra em nós
até ao fim dos séculos dos mares
dos átomos descritos coração que pede
mão que se fecha lágrimas que secam.

Cantai cantai na hora mais que breve
a vossa dor de virgens só mentais
o parto ameno do ventre imaginado.

24/12/48
Fragmento

… … … … … … … … … … … … … … … … … …

Em ti está a alegria
e tu não estás em parte alguma nem no céu,
na terra, sobre o mar, entre as trevas das magnas profundidades,
não, não estás no rosto amigo, no sorriso de amor
acompanhando o doce apertar de mãos antes ou depois das últimas palavras,
não, não estás na esperança de felicidade para os outros
sem que nunca serei feliz dessa alegria em ti,
nem estás na angústia das traições que vi
virem já dentro dos sonhos, dentro dos cânticos,
não estás em nada, nem no nada estás,
mas onde, aonde esta alegria, esta certeza, esta música,
mais silenciosas, mais humildes – tão orgulhosas,
tão altivas, tão amantes perpétuas de um tu sussurrado
com doçura firme, autêntica, viril,
e femininamente áspera e cortante,
sussurrado tudo, à luz do sol, à escuridão nocturna,
a qualquer sombra do amor fugidio, fugitivo, imenso.
… … … … … … … … … … … … … … … … … …

5/5/47
* “Os Antinatais de Jorge de Sena”. In: As Vinte e Cinco Notas do Texto. Lisboa, IN-CM, 1987 p. 45-50 (Texto destinado a uma coletânea de poemas de Natal de JS, nunca publicada)

**in: Poesia I (Lisboa: Edições 70, 1988). No áudio: Jesus, Alegria dos Homens – J. S. Bach