Poemas de Natal – III

Dos 15 poemas de Natal assinados por Jorge de Sena, ainda nos faltava a transcrição de quatro — que agora aqui oferecemos aos leitores. Dentre estes, está o primeiro de todos, escrito em 1938 pelo jovem Sena, meses depois de excluído da Armada. O de 1943, descortina um cenário de guerra. Em 1965, há duas versões de um texto, com a mesma data, e uma delas explicitamente endereçada ao poeta Sidónio Muralha,  companheiro de exílios. O de 1971, reiteradamente interrogativo, explicita contradições e impasses entre o que seria a essencial mensagem natalina  e o “mundo todo bombas” em que se vive, particularmente em tempos de guerra colonial portuguesa. Sem dúvida, a melancolia e as inquietações expressas nestes versos continuam a fazer todo sentido hoje.  

 

António Santos-Natal_73

Cartão de boas-festas da guerra colonial portuguesa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Natal de 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma Justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido.
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se.
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé.
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm.
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Novembro 71

 

Natal  1965 (a)

(Cartão de Boas-Festas a Sidónio Muralha)

«Quando São Paulo só tinha
quatro milhões de habitantes»
este mundo em que vivemos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
nenhum de nós lá vivera.
nenhum de nós lá escrevera,
nem nossos filhos havia
com que São Paulo aumentasse.

 

E nestas neves que tombam
exactamente na véspera
do Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.

 

Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem
se poetas portugueses
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal que não há
nem nunca ainda haverá
neste mundo em que vivemos,
e de que sempre podemos
cantar São Paulo ou a lua.
Venha pois poesia tua,
apaixonada ou serena,
que gratamente a recebo
«ex corde»

 Jorge de Sena.

24/12/1965

 

(b) (Versão original )

Quando São Paulo só tinha
4 milhões de habitantes
este mundo em que vivíamos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
Nenhum de nós lá vivia,
nenhum de nós lá escrevia,
nem filhos nossos havia
com que São Paulo aumentasse.
E nestes neves que tombam
exactamente na véspera
de Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.
Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem,
se dois poetas portugas
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal vivo que pode
mesmo cantar de São Paulo
que tinha por habitantes
não quatro milhões, mas quatro
brasucas de Portugal.

24/12/1965

 

Natal – 43

Nos aviões que o mar imenso cruzam,
para que as ondas desçam das alturas
à terra em que se espraiam, ninguém vai.
Quais pássaros, se os move o coração,
ficou na primavera a esperança do regresso.
Descem com a noite, pousam no arvoredo,
e, afinal, mais longe é que pousaram…

 

Não há já folhas secas, este ano;
o vento frio leva papéis velhos
sobre a terra húmida… E as ervas
encurvam-se, e levantam-se manchadas
de alguma tinta: como a humanidade.
Em toda a parte, os mortos se demoram,
os feridos se recordam… Será sangue, então.

 

“Há dois mil anos…” – dizem várias vozes,
e várias letras, várias forças de hábito.
No entanto, quem nasceu foi um segredo,
um querer encher de nomes uma ausência
e de confiança as mães que nos embalam.
…  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …  …

Crianças se sumiram no incêndio…
Que rósea aurora as ressuscitará?

27/12/43

 

NATAL

Fim… Não se sabe donde sopra o vento…
As terras e o mar olham com espanto
a extensão afogada em desencanto,
em falsa verdade, em legal tormento.

 

Houve, dizem, em tempos um momento…,
Deves saber, de sacrifício santo…
se houve… nós fizemos do teu manto
o inverno deste nosso pensamento.

 

Sim… Procura ter dentro da bondade
um sentimento de oportunidade
e vê na lama… a cor azul que é linda…

 

E vê que nunca a noite foi tamanha…,
nem houve tantos, em torno da montanha,
olhando o céu, esperando a tua vinda…

24/12/38