Desta vergonha de existir ouvindo

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O segundo soneto do livro As Evidências (1955) habitualmente não figura na listagem de “entradas” de Jorge de Sena no Portugal Democrático. No entanto, como lembra Douglas Mansur em seu verbete, é com estes 14 versos a sua primeira “aparição” no periódico: na página 5, do Portugal Democrático nº 29 , de outubro de1959, encimada pelo título de “Uma frente de batalha chamada poesia”, ao lado de mais 6 poemas, assinados por Alexandre O’Neill, Armindo Rodrigues, José Gomes Ferreira, Afonso Duarte, Carlos de Oliveira e Carlos Maria de Araújo. De organizador anônimo, a sucinta antologia (com textos datados de 1939 a 1958) é assim justificada: “Colhidos de livros e revistas publicados em Portugal, os poemas ora apresentados evidenciam a prolongada resistência oferecida pelos poetas à desumanização da sociedade portuguesa levada a efeito pelo regime de Salazar”. Cumprem-se, deste modo, as diretrizes do mensário, que, desde o “programa” estampado em seu primeiro número, declarava indissociável o político do cultural: ” a cultura portuguesa, que nas últimas décadas tantos atentados tem sofrido, merecer-nos-á especial carinho”.

Recorde-se que os sonetos de As Evidências “surgiram” a Sena depois de 7 meses sem produzir poesia — “crise de criação que sempre relembrarei com terror e saudade”, dirá no prefácio ao livro — que correspondem a período de vida extremamente angustiado, conforme demonstra no diário que na altura escrevia (de agosto de 1953 a outubro de 1954). Mas, eis que no dia 12 de fevereiro de 1954 aí registra: “Hoje, pela manhã, surgiram-me vários fragmentos de versos ou versos inteiros, que se me organizaram num poema e num soneto, que espero seja o primeiro da sequência por que anseio há tanto. Julgo-os do melhor que tenho feito, e satisfazem-me em comparação com o que, e raramente, andava fazendo”. Fechando a data diarística, lê-se na última linha: “Das 24 [horas] à 1:15, um segundo soneto”. Portanto, o poema “Desta vergonha…” é um dos poucos da obra seniana cuja gênese está minuciosamente datada (a ponto de, se quiséssemos ser rigorosos, permitir deslocá-lo para 13 de fevereiro…).

No aludido prefácio, recorda ainda Sena que, uma vez impresso, As Evidências “foi logo apreendido pela PIDE […] e só pode ser distribuído um mês depois, após repetidas visitas à Censura […]. O livro era, além de subversivo, pornográfico”. Para a imputada “subversão”, certamente este segundo soneto muito teria contribuído…

 

Desta vergonha de existir ouvindo,

amordaçado, as vãs palavras belas,

por repetidas quanto mais traindo

tornadas vácuas da beleza delas;

desta vergonha de viver mentindo

só porque escuto o que dizeis com elas;

desta vergonha de assistir medindo

por elas as injúrias por trás delas

ao mesmo sangue com que foram feitas,

ao suor e ao sémen por que são eleitas

e à simples morte de chegar-se ao fim;

desta vergonha inominável grito

a própria vida com que às coisas fito:

Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

12/2/1954

 

* As Evidências, soneto II. In: Poesia I.