Primeiros poemas brasileiros

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Os três primeiros poemas do recém-exilado Jorge de Sena, e os únicos escritos em 1959 desde que aportou no Brasil, glosam a saudade e o amor, em consonância com as primeiras cartas que dirigiu a sua mulher, que permanecera em Lisboa (vide cartas). Aqui os reproduzimos, acompanhados de bela foto de Mécia, retratada nos anos 40 por Fernando Lemos, fiel amigo do casal Sena.

 

 

 

Nas Terras de Além do Mar

Nas terras de além do mar,
está meu Amor assentado.
Seus olhos fitam a noite,
seu seio sobressaltado

respira em brandos soluços
nas cartas que está escrevendo
o meu silêncio de ausente,
de distante e de presente
no corpo que se torcendo
está de saudades por mim.

Ó meu amor, minha amada,
meus ouvidos, minha fala,
minha dama de amargura!

22/8/1959

 


Vespertino do Rio de Janeiro

Na noite as luzes furam treva, não
para além dela, mas de mim com ela;
não sei se arranha-céus, ou se favelas
que lado a lado arranham morros para
sustento de miséria. Imenso mar,
de altíssimas sombrias transparências,
na noite em que perpasso qual silêncio.
Não sei se amor me evita ou me protege,
ou se é de amor que eu velo o brando sono
ruidoso e povoado.

Meu coração é só de amor que sabe;
mas o que sabe, de saudoso esquece,
na angústia dúplice de não ter-te ao lado.

22/08/1959

 


Soneto ainda que não

Como quando indiscreto às coisas me insinuo
e de infinito amor lhes dou sentido
que de mim próprio é voz e precisão
de ser um ser que sendo as reconhece,
me vejo ambíguo e distraído e firme
na vã presciência que, rememorada,
é como um estar por sempre ininterrupto,
aliciando humanamente as coisas.

Mas, meu amor, por ti tudo contemplo.
Por ti penetro como em ti em tudo
e torno realidade este fortuito
encontro permanente de que vivo.

Se noutro mundo fora que existisses,
eu te criara neste e às minhas coisas.

9/9/1959