Outras Metamorfoses

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Narciso. Óleo sobre tela de Cossiers, Museu do Prado, Madrid.

A Metamorfose, seja como termo, como conceito de transformação em processo, ou como exercício ecfrástico de diálogo com outras artes, não se restringe na poesia de Jorge de Sena apenas aos volumes de Metamorfoses e Arte de Música. Como já deixamos anteriormente registrado, nos Verbetes para um modo de ler as Metamorfoses de Jorge de Sena, “é o próprio Jorge de Sena quem relembra a seus leitores sua primeira incursão pelo diálogo da poesia com as artes plásticas. Diz ele: “De longa data me interessou uma repercussão poética das outras artes. […] Na minha coletânea, Pedra Filosofal, publicada em 1950, mas reunindo poemas de anos anteriores, há uma sequência de três pequenas líricas – Primitivos – que, comentando “Uma Anunciação”, “O Patinir das Janelas Verdes” e “Bonnard”, antecipa, a uma escala miniatural, os poemas longos sobre objetos pictóricos, escultóricos, ou afins, que constituem estas Metamorfoses” (Sena:151). Em direção oposta, recorde-se que depois das Metamorfoses, Sena publicou vários poemas que poderiam integrar a coletânea, como, por exemplo, “Chartres ou as pazes com a Europa” (Peregrinatio ad loca infecta), “Piazza Navona e Bernini” (Exorcismos), “O Hermafrodito do Museu do Prado” (Conheço o Sal…).” 

Apresentamos então, uma breve antologia com algumas dessas “outras metamorfoses”(ou talvez “off-metamorfoses”).

 

Metamorfose – (Coroa da Terra, Poesia I)
Primitivos (I, II, II) — (Pedra Filosofal, Poesia I)
Vila Adriana — (Peregrinatio ad Loca Infecta, Poesia III)
Piazza Navona e Bernini — (Exorcismos, Poesia III)
O Hermafrodito do Museu do Prado — (Conheço o Sal…, Poesia III)
Narciso – (Conheço o Sal…, Poesia III)

 

 

Metamorfose

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter…
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.

25/10/42

 

Primitivos

I – (Uma Anunciação)

Que música sabeis de mensageiros,
de alados, silenciosos tocadores,
curvados sobre a expectativa
ansiosa, fervorosa – ao fundo,
nuvens esbranquiçadamente azuis,
um pórtico, palmeiras, prados,
animais que passam, gente que trabalha.

E quem junto de nós, no limiar,
pôs numa jarra flores?
Vós, a quem pergunto
que música sabeis?

31/10/49

 

II – (O Patinir das Janelas Verdes)

Imenso o bosque verde, e o céu azul
imenso.
Corre sereno um rio. O ar dourado
estaca.
Sobre o pequeno prado resplandece
um manto.
Vermelho, roxo, alaranjado – um manto.

31/10/49

 

III – (Bonnard)

(a Miguel Barrias)

Montanhas de arvoredo na distância,
e casas de paredes velhas, frustes,
telhados curvos do voar dos anos,
uma fita de estrada entrecortada,
nem luz nem sombra, nem volume ou forma:
de vós o olhar, qual o tempo e a chuva,
só cores destila.
Do imo sobem a experiência e a amargura.
Condensa-se do ar a expectativa pura.
A vós só cores convergem os sentidos
– só cores, não uma, não esta sobre aquela,
mas esta, aquela, todas,
presença fervorosa em gradações conjuntas:
a vossa idade calma de existir,
de estar pousado sobre a terra humana
como coisa alada que repousa.

19/2/50

 

 

Vila Adriana

De súbito, entre as casas rústicas, e a estrada,
e o monte agreste e Tivoli, o invisível
oásis gigantesco.
Ao sol que passa
um arvoredo esparso, os campos verdes e
paredes, termas, anfiteatros, lagos,
e a paz serena e longa do Canopo
onde como antes cisnes vogam.

Palácio, o império em miniatura,
e sobretudo a solidão povoada
de guardas, secretários, servidores,
e gladiadores, e de uma sombra hercúlea,
ao mesmo tempo ténue e flexível,
e em cuja fronte os caracóis se enredam.

Neste silêncio em ruína, as sombras descem frias.
Mas para sempre o Imperador está vivo,
e o sonho imenso de um poder tranquilo
em que até mesmo escravos fossem livres
e as almas fossem corpos só tementes
de não salvar na vida o ser-se belo e jovem.

 7/5/1969

 

 

Piazza Navona e Bernini

Palácios com aquele ar que em Roma
descasca de velhice o mais moderno prédio.
E a fonte de Bernini. Essa água toda
de que ele tinha em Roma o monopólio.
Mas noutra parte a colunata ascende.
E Santa Teresa, ante a seta do anjo,
vem-se de penetrada em vôo de pintelhos
que o hábito lhe roçam esvoaçante
num pélvico bater que a estoura de infinito.

Chambéry, 27/7/1971

 

 

O Hermafrodito do Museu do Prado

Do deus que as almas aos infernos leva
e a toda a parte o que se compra e vende,
e da que, deusa, por amor da morte
aos altos céus o espírito conduz
ou corpos incendeia contorcidos
pelo desejo de só carne serem,
o filho és tu e mais que o filho a forma
do jovem deus teu pai porém quebrada
em gestos ondulados como se
tiveras seios e ancas invisíveis
qual é da carne a tua mãe a imagem.
Quanto ele viril penetra, tu penetras
com igual membro tenso ardente e duro
de que te pendem fluidas iguais bolas.
Ou quanto ela é uma fêmea em sua boca
e no outro extremo desta é o estrangulado
e obscuro porto às fezes penetrado
serás quando te entregas dorso e ventre
ao que te imita a frente varonil.
Hermafrodito – com teu leite geras
almas e corpos de mulheres e de homens,
mas em teu seio intestinal não tens
cavernas que se selem recebendo-o
para que almas e corpos lá germinem.
E se a teu dorso for fiel teu membro
o leite que ele projecta nada gera
senão nas almas corpos como o teu:
amor comércio inferno e a doce imagem
do jovem deus que dorme reclinado
sonhos de morte humana e de possuir-se
o deus que nos possui além dos astros
lá onde o Nada se revela Ele mesmo.

Madrid, 18/1/1973

 

 

Narciso

De n’água contemplar-se onde se vê Narciso
se inclina sobre si para beijar-se e a imagem
avança em lábios trémulos que o respirar
ansioso escrespa o espelho prestes a partir-se.

Não foi de contemplar-se ou de a si mesmo amar-se
que em limos se fundiu com sua imagem vácua
mas de não ter sabido quando não de olhar
nem só de húmidos beijos se perfaz o amor.

9/7/1970  

 

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