Sobre esta praia… Oito Meditações à beira do Pacífico

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Dos poemas da “fase americana” de Jorge de Sena, talvez nenhum outro exceda a qualidade e importância dos oito que compõem a sequência californiana de “Sobre esta praia… Oito Meditações à beira do Pacífico”, que, depois de ter publicação isolada (1977), encerra a grande coletânea Poesia III, a última a sair das mãos do autor. E, tal como nas redondilhas de “Sobre os rios que vão…” Sena lê o “testamento poético” de Camões, podemos nós aqui ler o seu próprio. Tendo seguramente Camões em seu horizonte, nas palavras de Ida Ferreira Alves é este poema octogonal “obra exemplar para compreensão de seu projeto poético atento ao encontro/desencontros de culturas, [conduzida por] um sujeito que se debruça sobre um determinado espaço, com seu olhar examinador e comparativo, configurando/desfigurando paisagens que se lhe apresentam na sua experiência de homem e intelectual, o qual viveu três realidades nacionais diferentes e muito percorreu e conheceu por viagens em diversas direções” (Alves, I.F. “Sobre esta praia, sobre esta página. Um estudo de paisagem com Jorge de Sena“).

Além da conhecida nota que Sena lhe apôs, transcrevemos também o elucidativo prefácio da edição italiana do livro.

 

I

Sobre esta praia me inclino.
Praias sei:
Me deitei nelas, fitei nelas, amei nelas
com os olhos pelo menos os deitados corpos
nos côncavos da areia ou dentre as pedras
desnudos em mostrar-se ou consentir-se
ou em tombar-me intentos como o fogo
do sol em dardos que se chocam brilham
em lâminas faíscas de aço róseo e duro.
Do Atlântico ondas rebentavam plácidas
e o delas ruído às vezes tempestade
que em negras sombras recurvava as águas
me ouviram não dizer nem conversar
mais do que os gestos de tocar e ter
na tépida memória as flutuantes curvas
de ancas e torsos, negridáo de pêlos,
olhos semicerrados, boca entreaberta,
pernas e braços se alongando em dedos.
Aqui é um outro oceano.
Um outro tempo.
Miro dois vultos na silente praia
pousada rente à escarpa recortada abrupta
que só trechos de areia lhes consente:
dois corpos lado a lado como espadas frias.
Ainda que desça a perpassar recantos
onde se acolherão mais corpos nus,
é um outro oceano, um outro tempo em outro
diverso em gente organizado mundo.
Ambíguos corpos, sexos vacilantes,
um cheiro de cadáver, que ao amor não feito
concentra de tristeza e de um anseio
de matar ou ser morto sem prazer nem mágoa.
Aqui mesmo de olhar-se um qual pavor gelado
pinta de palidez o rosto que sorria,
o corpo que se adiante ao gesto desenhado.
E nem mesmo de outrora e de outros mares
se atrevem a deitar-se imagens soltas
que uma vez alegria acaso tenham sido.
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado.

27/9/1972
 

II

Pargunto-me a mim mesmo — tão curioso
Como a criança a ser-se adolescente
que mal se entende em como os corpos agem —
a que diversos jogos ou não-jogos
se dão na intimidade estes que vejo
Inteiramente nus no areal da praia
entre uma escarpa que os esconde e o mar
que tudo aceita em ondas sucessivas.
Deitados no saber de ao sol queimarem
o mais oculto de si mesmos são
dois |ovens e uma jovem misturados.
Um dos rapazes se recosta contra o corpo
do outro rapaz que alonga dorso e pernas,
enquanto neste se debruça e dobra,
pendendo os frescos seios e os cabelos,
o corpo feminino associado aos de ambos.
Mas nada Indica excitação nos machos
de quem se pousa o sexo ou distendido pende
em de sereno indiferente como
a só vazia ausência de mistério
que a corpos dava um fervor quente e humano.
Suo, como deuses, animais sem cio?
Ou são, como animais, humanos que se aceitam?
Ela é de quem? De um deles só, dos dois?
Um deles será dela mas também do outro?
Será cada um dos três dos outros dois?
Ambos os machos serão fêmeas do oulro?
Ou só um deles? Qual dos dois? O que
sentado se recosta? O que deitado
aceita contra o seu o corpo recostado?
Os três são muito belos, e não só
daquela de escultura juvenil audácia
cifrada em curvas duras de suaves linhas,
mas igualmente da pureza límpida
que só em torno ao sexo se enegrece um pouco.
Quem se pergunta como eu me pergunto
confessa claramente que distância
existe entre o passado e este presente
assim deitado ao sol à beira de água
como estes três se deitam ou recostam
sem que sequer com as mãos os sexos toquem,
senão o de outrem, mesmo o de si mesmos.

4/10/1972
 

III

Sobre estas águas a que luz de inverno
dá não sombrias cores, ou nestas praias
em que uma brisa fria não levanta areias,
paira ou perpassa a calma e tamisada
serena paz das tardes infinitas.
Rareia só a gente num silêncio
de corpos isolados que deambulam
dispersos na distância ou que se deitam nela
a dissolver-se glabros na ondulada linha
de linhas sucessivas em que as algas secas
são como escuras crespas cabeleiras nuas
de sexos e cabeças de gigantes que,
sumidos no sem tempo, mais não deixam deles
que essa memória solta por gastado em águas
o corpo que o seu foi por sobre a praia em rochas.
Nesta nudez total do que ainda se demora
dispersamente humano ou imagem sobre-humana,
o que fisicamente não tem voz nem gestos,
ou nem mesmo de olhar se comunica além
de uma presença solta pelo espaço límpido,
é como se do mundo espelhos se partissem
que nem sequer em estilhas neste sol dardejam.
e como se Narciso os não tivera para
se contemplar lá onde as águas o chamassem
para afogar-se mesmo em olhos que o fitassem.

6/10/1972
 

IV

Escurobscuro cendriplúmbeo e vento
em de rajadas pálido céu-tempo
o sol esconde e luz só de calor
esfria de suspensa na manhã rompente
além do manto-sombra como espessa
apenas uma ausência de azul duro
que ardido ardente em torno à pele humana
a nua gente insectos voar fizesse
ao longo desta margem serranias
do mar lambidas em pequenas praias
onde pousaram de entre rochas forma
em por de areia o espaço procurado
a solidão sem nome de se verem nus
como rosados pontos distendidos
ou caminhantes pela de água-areia
fímbria molhada em que perpassam lentos
deambulando o quanto na nudez se move
cm danças do que preso se balouça e salta
a cada passo de hesitante voo.
Visão estival.
Mas hoje só memória.
E é tarde já, no dia como no ano,
até que voltem mais do que manhãs
de sucessivas em continua série
bastante a despertar o gosto habituado
em estios que hoje súbitos se acabam,
ou a – que é mais – a novos que antes nunca
se haviam visto assim por praias de si mesmos
morder a tentativa que até aqui os traga
à mesma solidão de humano corpo Inteiro
em vértice cruzando o céu, a terra, o mar,
numa diagonal de enviesados olhos
que a todos os perfure na inocência
com que se entregam de distância e luz,
virgens de nada menos de ali estarem,
ali se desnudarem e passarem nus.
Num outro tempo hão-de voltar ou não,
se como enxames ou marinhas aves
uma outra margem mais deserta encontrem
de humanidade que se não despindo
é como olhar que os veste das suadas roupas
com que de humana a carne se envergonha
o quanto desejou não ser vergonha ali.

7/10/1972
 

V

Ansiosamente que o sol nasça espero
olhando as nuvens pelo céu tão claro
que é ainda incerto o sol romper de entre elas.
Últimos dias estes são estivais
e um frio se desliza no ar imóvel
anunciando já os dias sucessivos
a só de luz não serem como inverno
(aqui, não mais inverno que este engano
bastante a remover desnudos entes
para dentro das roupas tão cingidas
que menos se adivinha o que cingir mostrara).
Assim, se o sol sair, talvez que seja
este hoje um pouco de calor por horas
de ardência e mar, e os poucos pertinazes
em não perdê-lo venham junto às águas
sempre outros que não voltam repetidos
passear no espaço os corpos invisíveis
no dia a dia que se abeira rápido.
Ainda de vê-los me contentarei,
neste país aonde a vida esconde
de todos e si mesma até um gesto vago
em que de alguém a natureza espreite
como uma confissão de estar-se nu
em pensamento ao menos (de quem olha
ou de quem por olhado se aumentara
daquela carne que saliente ou funda
se aponta a quanto se abra, ou se abre ao que se aponta).

10/10/1972
 

VI

Como de outrora deuses pelas praias
(ou na Camargue de hoje aldeões marinhos)
desnudos cavalgam rente às ondas
na húmida areia e vasta pela baixa-mar
deixada a descoberto com seus molhos de algas,
e as patas dos cavalos chapinavam
num mesmo brilho em que do sol fulgiam
claror e sombras nos divinos corpos
cujo cabelo voava como crinas, caudas,
dos animais, flutuando entre o limite de águas
e o céu que de centauros se recorta,
estes deslizam dois, silêncio não
mas pares de rodas de estrondeantes máquinas
ao próprio mar calando o som tranquilo,
centauros (sim e não) nessa unidade
entre nádegas nuas e mãos duras
e o mecanismo a que transmitem quanto
não de vida recebem de animais unidos
em pele contra pele, suor contra suor.
Chapinam chispas e cabelos voam,
mas doura o sol com brilhos de metal
as máquinas e os torsos que fulgiram
melhor noutro silêncio. Ainda resta,
e mais violenta, a graça de correr
montando-se o que corre às ordens do
impulso de existir-se em corpo e sexo
absorto no de voar pelos espaços
que de cortados ares se rasgam brisa.
Mas não existe já essa unidade
de ser-se em quatro patas duas pernas
mais que de prometido salta sexo
em movimentos fluídos e dormentes,
e que duro viria sangue e carne
(e não metal da máquina ruidosa)
a penetrar a carne entreaberta
e quando o centauro as quatro patas deixe
e se desmonte em duas mais terceira
erguida no ar como os cavalos erguem,
num sacudir de crinas, a cabeça
de olhos arregalados, boca espumejante,
e o corpo tombe horizontal no abraço
em que de humanas línguas e entrelaços
se façam deuses de que os homens sejam.
Como de outrora deuses — mas não deuses
nem mesmo aldeões de agora antigos tanto:
e não qual sendo humanos se desmontam,
as máquinas largando silenciosas.
Os corpos de esbelteza, ei-los tão frios,
ao se alongarem solitários tais
que aos sexos um tremor lhes não acode
de quando no metal eram vibrados,
e o mar que se ouve agora não convoca
à luz do sol os sonhos repousados
de que ligeiramente, só ligeiramente,
um pouco se engrossassem distendidos,
qual em leito de pêlos se destacam,
de que também mais claras pendem bolas
tão flácidas como eles, uns e outras
como que exaustos antes de uma posse
que só abstracta se cumpriu na força
de duas rodas cintilando acasos,
fortunas não cumpridas e em si mesmas
fechadas, prisioneiras, no volver velozes
por patas que não houve que ao destino cravem
na terra como em carne a suspensão do tempo,
apenas por instantes (mais não seja),
de ser-se um corpo visto que deseja sê-lo
no que de amor centauros se prometem.
Neste ficar de corpos e de máquinas,
cavalos não passeiam na memória
pastando com seus dentes e seus lábios
as ervas cujos dedos se levantam
mas nada tocam do que os não conhece.

23/10/1972
 

VII

Não sonharei da névoa cobre os montes
e o mar se faz de névoa sem distância
que o sol não rompe senão baço e pálido.
Uma friagem resta mesmo quando
a luz aquece esta paisagem parda
e a aclara em escarpas que o silêncio rói
num simples de cascalho tombam pedras.
Ao longe, entre os arbustros ressequidos
na areia sobrevivos onde o mar não chega,
o brônzeo e róseo de um desnudo corpo
as nádegas redondas e por certo duras
alteia em curvas luminosas como
o dorso e as pernas que ali estão também
na escura confusão de areia suja
e desses ramos nunca verdes antes.
Se se voltara para o sol volvendo
aquela frente que de ambíguos corpos
separa os que têm seios e de pêlos
na inserção das pernas só triângulo,
daqueles que só liso o torso têm
pendente a tripla parte que os diz homens
lá de onde os pêlos mais espessos sejam,
nada seria no deserto a imagem
da livre humanidade que é só carne
e encontro eventual de dois desejos
com que se esgrimem sexos ou penetrem
o que estrangule e precipite o fim.
Não há metamorfoses nestes mundo
que mesmo ardendo ao sol se esconde no
mostrar-se inteiro qual por outros mundos
apenas se entremostra o já desejo ansiado
as pernas apertando ou separando
na mesma força tensa, macho ou fêmea,
não existente aqui nas nádegas visíveis
ainda que tão duras de redondas
e do rosado brônzeo mal dourado ao sol.
Tão longe está de por onde outros passem,
nâo para que lá passem vendo ao longe
adivinhado corpo que se esconde
atrás de arbustros ressequidos. Longe
de todos e si mesmo. Um pobre corpo
esplêndido mas triste de o tão ser
que só distante aos ares se apresenta
como num espelho sem cristal a não
sequer o reflectir para lembrar-lhe
a própria imagem de que seja humano.
Mas aqui não. Aqui apenas é
na solidão do mundo a solidão buscada
para ter corpo inteiro sem que o saiba alguém,
nem mesmo ele saiba se é mulher, se é homem,
senão quando vestido for como lhe ordenam
que nas cidades vá como hábito de ser-se.

24/10/1972
 

VIII

Um fósforo lançado ao chão do estio seco
as sarças incendeia no caminho
que desce à beira de água.
Em vão tento apagar as chamas que se ateiam
por de estalidos fogo
a propagar-se pela encosta acima.
Lá em tudo as águas silenciosas, rochas,
areias em que corpos
jazem desnudos se queimando ao sol
na frigidez da aragem
que distraída pousa como os sexos dormem
nos ventres de que são portas cerradas ou
colunas que se ignoram.
Não descerei lá hoje, o incêndio queima
este descer incógnito e vazio à praia
algidamente ardente
a que formas de corpos vieram procurar
só uma inocência que não têm na vida.

Crepitam sarças mas os corpos não.

6/12/1972
 

Nota: Esta sequência de oito poemas, escritos, como se vê das datas, entre 27 de Setembro e 24 de Outubro de 1972*, e referente a praias desertas ou semi-desertas dos arredores de Santa Barbara, Califórnia, havia ficado Inédita (excepto o primeiro e o último dos poemas, aparecidos em NOVA, Inverno de 75/76) até que, em Junho de 1977, apareceu numa edição muito restrita, plaquete de luxo, publicada pela Editorial Inova, Porto. A sequência poderia ter sido incluída em Conheço o sal… e outros poemas, que continha poemas de 1972-73, cujo período cobria o da escrita desta sequência octogonal. Duas razões, porém, impediram o que chegou a estar planeado: a convicção do autor de que a sequência merecia a possibilidade de uma edição separada, que entretanto me foi oferecida e seria de grande luxo, e acabou sendo, com menos luxo mas igual distinção, por ser realizada, anos depois, por outro editor; e a consciência de que esta sequência de poemas longos, inserida naquela colectânea de poemas mais breves, a desequilibraria (não digo que a esmagaria, porque penso, contra uma que outra opinião, conter Conheço o sal dos poemas melhores e/ou mais importantes que já escrevi). Tratando-se do nudismo nestes oito poemas — tema que vimos absurdamente ligado em Portugal, por quem já foi distinto oposicionista e é esclarecido espírito, à pornografia e ao aborto, questões inteiramente diversas — cumpre dizer que, conquanto alguns teimosos, pelas praias mais perdidas da Califórnia, perslstam em desnudar-se, dificilmente o fazem ante o tremendo aparato de barcos da Guarda Costeira, helicópteros policiais, patrulhas pelas praias, etc, etc, uma colossal e contínua operação para-militar, custando fortunas, e destinada a impedir que alguém mostre o pirilau, os seios ou o triangulozinho, ou o rego inteiro das nalgas, a quem não se importa de os ver. Como se vê, o puritanismo, lá mesmo onde o autor se arrepiou de não ver sexualidade alguma, não desarma, ao contrário do que pensam os que sempre imaginam a América dissolvida em horríveis decadências. Infelizmente, os reaccionários vigiam… — e estes poemas já quase são história antiga, se eles ganham.

1977
 

* JS refere as datas dos poemas de modo mais preciso quer no Prefácio abaixo transcrito, quer na edição isolada, da Ed. Inova (Porto, 1977), onde se lê: “Esta sequência de oito poemas, referente a praias desertas ou semidesertas dos arredores de Santa Bárbara, Califórnia, foi escrita, como das datas se vê, entre 27 de Setembro e 24 de Outubro de 1972, sete dos poemas, aos quais, em 6 de Dezembro desse ano, um último poema veio juntar-se.” (Poesia III, edições 70, 1978, p.263)

 

 

Prefácio à edição italiana* de Sobre esta praia…

Esta sequência de poemas foi escrita, sete deles, entre fins de Setembro e fins de Outubro de 1972, e aos sete veio juntar-se, em Dezembro desse mesmo ano, o oitavo e último do conjunto. Escritos assim há cinco anos, só vieram a ter publicação, e em edição restrita, em Junho deste ano de 1977, em que escrevo, para elucidação deles e dos leitores italianos que eles vão ter em tradução, estas breves linhas. Não é que poemas — para que leitores de poesia os entendam e amem — necessitem de explicações fora do propósito; e, sendo erótico como é, muito do que estes poemas são senão tudo, as explicações são mais do que despropositadas: poesia e ero-tismo constituem uma equação que toda a gente dotada de sexo, inteligência e sensibilidade não só pode como deve resolver, ou não vive por certo, ou não viveu nunca, ou ainda não começou a viver. As explicações são de outra ordem muito mais referencial e social, digamos. Em Setembro de 1972, havia dois anos que eu me transferira do Norte do Middle-West dos Estados Unidos para a Califórnia que é, ou era em sentido mais amplo, um outro mundo, inteiramente diverso do resto da América. É possível que a Flórida tenha o mesmo carácter irreal, de cenário hollywoodesco, sem que tenha a magnificência natural das praias, das escarpas abruptas sobre elas, e das montanhas da Califórnia. Mas eu, que em doze anos de Estados Unidos os tenho percorrido em tantas direcções e visitado tantos lugares, nunca fui à Flórida, e francamente não tenho vontade nenhuma de ir, para contemplar hotéis gigantescos ou colmeias de apartamentos medíocres, à beira de praias que parecem artificiais (ou o são), ou de pantanais imensos, aonde apodrecem lado a lado velhos reformados que se aquecem ao sol, e crocodilos não menos egoístas do que eles.

Se viajei e viajo muito pela América, em 1970 mudei-me de um habitat que era planura com lagos e um puritanismo equilibrado por muito catolicismo, o Wisconsin, para esta costa do Pacífico, aonde o clima não conhece Inverno por mais que algum frio, e as escarpas formam uma continuidade interminável de pequenas enseadas ou longas praias, muitas das quais distantes ou encobertas das vistas de quem vive perto ou passa na estrada mais próxima. Isto, uma certa liberdade de costumes, e o ambiente de rebeldia dos anos 60, criou, mais do que antes, o culto do nudismo, praticado por estas praias adiante. O desnudar-se alguém está perfeitamente certo; e não vejo mal algum na dialéctica implícita em que quem se desnuda conta que alguém o veja, como quem desce a uma praia que possa ser de nudistas sabe que poderá ver alguém nu — tal dialéctica é triste pensarmos que séculos e séculos de repressividade lhe roubaram a luz do sol ou o ar livre, quando o pudor não é o contrário disso, por mais que ladrem os moralistas, mas a aceitação disso mesmo sem exibicionismo mórbido que só a repressão criou (algum exibicionismo sempre foi, a todo o nível animal ou humano, parte da dialéctica erótica). Não pensaram nunca assim os puritanos de todas as cores e feitios, que só parecem ser maioria neste mundo, porque jogam com aterrorizara hipocrisia de imensa gente que não pensa como eles, mas não tem coragem de levantar a voz, quando se levanta a repelente gritaria dos castradores, religiosos ou laicos, que secularmente se empregam em reprimir nos outros o que temem em si mesmos. Já em 1971-72, se alguém passeava ou se demorava por essas praias semidesertas, percebia que barcos da guarda-costeira, um que outro aviãozinho, etc, passavam insistentemente em frente ou por sobre elas; e havia, é claro, as queixas indignadas de umas quantas criaturas pudibundas que vinham de binóculo, escondendo-se como podiam, à beira das escarpas observar os corpos nus, e corriam depois à polícia a manifestar a sua indignação. A polícia, um dia ou outro depois, descia em pequenos grupos à praia (um grande assalto, às vezes por uma escarpa aonde não há mais que um perigoso caminho estreito, não é inteiramente possível), as pessoas viam-na, vestiam um calção a tempo, etc, e não acontecia nada. Mas o caso é que os castradores precisam das polícias, e as polícias precisam deles, desde que o mundo é mundo. E, no mundo do puritanismo, o “vício”, a “desvergonha”, a “perversão”, etc, são coisas tidas por mais horrendas do que matar o nosso próximo a tiro (o que toda a gente, e a polícia ainda mais, é livre de fazer, havendo ocasião). Logo, os castradores começaram a multiplicar as queixas, e as polícias a multiplicar os assaltos. E chegou-se, contra desnudas criaturas que não tinham na pele um bolso para uma arma, a concentrar exércitos de helicópteros, polícia a cavalo, etc, enfim uma fortuna que se não gasta a liquidar o comércio das drogas, para acabar com o nudismo das praias, esse horrível crime contra a decência, tanto mais que, sem dúvida, actos sexuais se praticavam lá onde as pessoas se deitavam nuas (como se não pudessem praticá-los vestidos, que é o que a maioria da juventude americana, masculina ou feminina, teve como iniciação no banco traseiro do automóvel)… A seguir, as municipalidades começaram a ceder às pressões desses grupos de pressão, e a aprovar leis proibindo nudismos nas praias da área. Os nudistas mais convictos fazem-se prender, para levarem a questão aos tribunais, aonde o sistema judiciário norte-americano pode dar imprevisíveis resultados favoráveis. Mas a tendência actual é para a repressividade, com tremendas caçadas às prostitutas de rua, nas grandes cidades, etc, em paralelo com tudo isto. O trágico é pensar-se que o norte-americano pratica o pecado sem prazer, com a mesma seriedade com que é ferozmente puritano; e assiste a um filme da mais completa e real pornografia com a mesma atenta imobilidade com que assistiria a uma douta conferência, com projecção de slides, sobre a arte de fazer amor com invejáveis instrumentos. E, portanto, numa praia de nudistas, qualquer voyeur se arrisca seriamente, tal como qualquer exibicionista não se exibe para mais do que o próprio corpo indiferente, exausto do esforço de despir-se em público. E isto quando, naqueles meus anos gélidos de universidade nórdica, no Wisconsin, a piscina da puritaníssima universidade não permitia que os sexos se juntassem, pela simples razão de ser proibido usar-se calção de banho sequer; só nu alguém podia banhar-se ali… Contradições? Não. Mas o país que tem em horror os órgãos masculinos de um machismo obsessivo, inventado por mulheres frígidas que são mães-harpias. Nem todos são assim, felizmente: mas os apóstolos que gritam, os que intimidam os políticos e a polícia são isto ou filhos disto, ou os pais daquela juventude de sexo sem sexo, que se alonga nesta minha sequência de poemas.

Santa Barbara, Novembro de 1977
 

 

* Su questa spiaggia foi publicada em Roma, em 1984 (pela Associazione Culturale “Portucale”), em tradução de Carlo Vittorio Cattaneo (que traduziu este prefácio com o título de “Ai lettori italiani”) e de Ruggero Jacobi. A introdução foi assinada por Luciana Stegagno Picchio. (Poesia e Cultura, Porto, Caixotim, 2005, p. 199-202)

 

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