Vilancetes

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Forma poética comum no Renascimento Ibérico, o vilancete é um poema construído em medida velha e a partir de um mote de dois ou três versos. Quando o último verso do mote é repetido no último verso do poema, temos um vilancete perfeito.

Homem de vocação renascentista, ainda que em pleno século XX, Jorge de Sena experimentou a forma algumas vezes. Todos com o mesmo título (roubado à forma, à guisa de rótulo), dois perfeitos e um imperfeito, eis os vilancetes senianos:

 

Vilancete

No instante da partida
há sempre uma demora
não do tempo – da vida.

Na verdade, não chora
quem sabe o espaço e o casto
abraço dessa hora:
instante só mas vasto
e ausência concebida.
Se ninguém deixa rasto
de verdade perdida,
tenuemente se cora
o escasso perfil gasto:
não do tempo – da vida.

13/7/46

(Pedra Filosofal, Poesia I)

 

Vilancete

Teus olhos deste: não queiras
outra esp’rança, outras maneiras
do amor buscado e perdido.

Olhando os corpos que passam,
olhando os olhos num lance
em busca de outro relance
da mesma sede… Não queiras
prender-te aos gestos que façam.
Teus olhos deste: não queiras.

Logo depois e mais tarde,
na sede sempre mais louca,
nenhuma imagem não arde,
todas se esfumam ligeiras,
nada lembras… E é tão pouca
outra esp’rança… outras maneiras!

Olhando os olhos num lance,
a vida entregas, vencido,
em busca de outro relance
do amor buscado e perdido.

23/8/47

(Post-Scriptum, Poesia I)

 

Vilancete

– Meu corpo, que mais receias?
– Receio quem não escolhi.


– Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
o corpo torna-se inteiro,
todos os outros ausentes.

Os olhos olham no vago
das luzes brandas e alheias;
joelhos, dentes e dedos
se cravam por sobre os medos…
Meu corpo, que mais receias?

– Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
me lembram quantos perdi
por este outro que terei.

23/12/49

(Pedra Filosofal, Poesia I)