31 de Dezembro

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O último dia do ano não foi particularmente inspirador para Jorge de Sena. Segundo os indispensáveis Índices, organizados por Mécia, escreveu apenas 5, ao longo de toda a vida. Destes, já integram nosso site o fundamental “La Cathédrale Engloutie, de Debussy”, de 1964, e “Não é já de Natal…”, de 1947 (inserido em “Cinco Natais de Guerra”). Aqui trazemos, pois, os demais (de 1961, 1971 e 1975), nesta última edição de 2011 do “Ler Jorge de Sena” — convidando os leitores que nos vêm prestigiando a meditarem, com estes versos, sobre o correr do tempo. E, deste modo bem despojado, que propõe o introspectivo em meio ao alarido circunstante, desejamos a todos um excelente 2012.

 

“Por este anoitecer…”

Por este anoitecer, o ano acaba.
Cinzento e azul no céu por entre as árvores,
acaba o calendário. Muitos crimes dele
serão futuras efemérides nos outros
que, folha a folha, acabarão também.

Como anoitece igual este ano às noites
com que, dia por dia, o ano foi passando
gregorianamente. O mundo ocidental,
cesáreo, atlântico, ex-mediterrâneo,
conta do Cristo. Mas os outros mundos

também contarão dele, quando este ocidente
deixar de fingir dele – os deuses morrem –
para funções de calendário laico.
O tempo passa, os calendários mudam,
na vida e morte as horas se sepultam.

E, no entanto, o tempo vai conosco;
é desta Terra só, e só por haver outros
que de outros astros são por haver este
diverso tanto a cada movimento.
Por este anoitecer, o ano acaba.

31/12/1961

 

“Deste mundo que morre…”

Deste mundo que morre como pedra
a dissolver-se em lama e poeira humana,
destruído de maldade e de mentira,
envenenado de cobiça e raiva,
não me despeço. Morrerei tranquilo,
ciente de que isto acaba de acabar-se,
e uma outra raça há-de nascer na Ibéria
que será minha como esta não:
um povo aguarda e espreita, e sabiamente espera
que os ratos se devorem uns aos outros.

31/12/1971

 

“Os calendários mudam…”

Os calendários mudam, são diversos,
povos contaram o tempo de outra maneira,
mas mais curtos ou mais longos desde sempre,
os anos passam. Como medida em que os dias
morrem agrupados numa série que mais longa
morre. Por eles e com eles somos gerações
uma após outra que desaparecem. Alguns ficam
na memória, nos museus, ou transformados
em ideias, sonhos, pesadelos, as imagens
do que fomos ou não, quisemos ser ou não.
Os anos passam. Este, como os outros,
está já nos últimos minutos que tão longamente
se não contaram quanto agora contam.
Foi como os outros sempre um ano triste
de mortes e massacres, insensatos crimes,
traições e mesquinhez, maldade e vis paixões,
e algumas guerras encobertas, exilados,
e foragidos, gente espoliada, tudo
o que sempre se fez na humanidade que
existe em nós maligna além aquém de quanto
às vezes nos faz grandes: um gesto, amor,
a música, e a bondade, as artes, toda a fé
seja em que for de puro e de profundo,
num só que se dedica, em todos que no dia
a dia vão perdendo o tempo que lhes resta.
Este ano morre, outro virá igual,
melhor, pior, terrível, este horror contínuo
de ser-se humano enquanto o ser-se humano é pouco
um pouco mais apenas que existir-se à sombra
do que nos rouba a liberdade clara
de sermos nós e amor, de sermos só sem ódio.
Vai-te como os outros, ano que terminas.
Outro virá cheio de morte e vida,
feito de tudo o que nos cria mais
tristes e mais velhos quando somos velhos,
raivosos e mais velhos quando somos jovens.
Vai-te e que se vá contigo o fétido clamor
de um ano mais. E que outro venha e traga:
oh nada, nada, nada, que não seja só
o tempo que se esvai neste sonhar da vida
como algo de viver-se dentro em nós e em todos.

31/12/1975