O Exílio e as Pátrias

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Desenho de Jorge de Sena

Como escreve em seu poema “Em Creta com o Minotauro”, Jorge de Sena foi cidadão de muitas pátrias: “Nascido em Portugal, de pais portugueses / e pai de brasileiros no Brasil / serei talvez norteamericano quando lá estiver”. Nesta seleção, apresentamos alguns dos poemas escritos em cada uma de suas pátrias, sobre cada uma delas, pelo poeta que nasceu português e morreu brasileiro em solo norteamericano.

 

Portugal:

•    “Pão” (de Visão Perpétua)
•    “Os Paraísos Artificiais” (de Pedra Filosofal, Poesia I)
•    “De relance, o Alentejo” (de Post-scriptum, Poesia I)
•    “A Portugal” (de Quarenta Anos de Servidão)
•    “Glosa de Guido Cavalcanti” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “O Douro preso em barragens” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Aviso de porta de livraria” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Lisboa um domingo” (de Visão Perpétua)

Brasil:

•    “Vespertino do Rio de Janeiro” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Vigília Cívica” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Borboleta brasileira” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Os nocturnos merecem respeito ou A salvação do Brasil em 1o. de abril” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Natal – 1965” (de Visão Perpétua)

Estados Unidos:

•    “Do Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Primavera no Wisconsin” (de Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III)
•    “Noções de Linguística” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Duas paisagens da Califórnia” (de Exorcismos, Poesia III)
•    “Sobre esta praia… , III” (de Sobre esta praia… Oito meditações à beira do Pacífico, Poesia III)

 

Pão

Centeio novo do Minho
cresce depressa,
acompanha a vida:
o povo está sozinho
e vai partir.

Levanta-te bem verde.
A serra tem velas
e voa com nuvens
rolando nas velas.

Ergue-te e volta outro:
o povo parte sozinho,
não parte devagarinho.
(19/4/1942)

 

Os Paraísos Artificiais

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3o. andar e papagaios de 5o.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
(3/5/1947)

 

De relance, o Alentejo

Um céu abafadiço, um ar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.
A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,
roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem de esquecida Primavera.

Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,
menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante
conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.

De súbito, num alto que a planície esconde,
as casas surgem brancas e compactas.
Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.
Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.
Um rio se adivinha. Mas, de ao pé da ponte,
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.
(30/5/1950)

 

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido dela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejeto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pro ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser’s minha, não.
(Araraquara, 6/12/1961)

 

Glosa de Guido Cavalcanti

                              “Perchi’ I’ no spero di tornar giammai”

Porque não espero de jamais voltar
à terra em que nasci; porque não espero,
ainda que volte, de encontrá-la pronta
a conhecer-me como agora sei

que eu a conheço; porque não espero
sofrer saudades, ou perder a conta
dos dias que vivi sem a lembrar;
porque não espero nada, e morrerei

por exílio sempre, mas fiel ao mundo,
já que de outro nenhum morro exilado;
porque não espero, do meu poço fundo,

olhar o céu e ver mais que azulado
esse ar que ainda respiro, esse ar imundo
por quantos que me ignoram respirado;

porque não espero, espero contentado.
(11/6/1961)

 

O Douro preso em barragens

Verde tão verde e as árvores no fundo.
No fundo os rápidos que de água se quebravam
subindo à sirga em de rabelos barcos.
Mais baixas as alturas se reflectem calmas
de rochas casas e arvoredo fundo.

Verde tão verde o rio se não corre
de lago é preso e um barco noutra margem
parado se contempla a esbelta proa arqueada
sobre o telhado inverso do solar antigo.
Só brisa matinal se encrespa de água e morre.

Verde tão verde era de espuma e rocas
polindo-se tranquilas no fiar das águas.
Vinham descendo os montes em socalcos que
lambidos se inseriam no passar dos barcos.
No fundo como nuvens se enverdecem rocas.

Verde tão verde era de rijas águas
de espumas e de pedras e de alteadas margens.
Tão verde ora de névoa surda
em que de gritos não barqueiros remam.
Que rio se era escuro e já de verdes águas.

Parado e sempiterno e velho de águas rio
não passas repassando as águas de outro tempo,
verde tão verde na manhã parada.
(Douro, 30/8/1971)

 

Aviso em porta de livraria

Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prémio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n’alma.
(25/1/1972)

 

Lisboa um domingo

              1

Dominical a rua
e branco de silêncio
Agosto varre o sol
e papéis velhos das
soleiras carcomidas
por beirais de sombra.

2

Não nada
e que fica
só mentira
alheia.
Não há nos defenda:
perfídia
alheia.
Que resta
e o durar mais
só como queira
maldade alheia.

3

Um vento que ouço de árvores:
nenhuma voz humana.
Ninguém me ouve ninguém:
um vento que ouço de árvores.

4

Do alto da ponte
encostas de cidade
e prata rio e mar.

5

Rapazes conversam
em gritos grosseiros.
Silêncio de alegres mortos.
(26/8/1973)

 

Vespertino do Rio de Janeiro

Na noite as luzes furam treva, não
para além dela, mas de mim com ela;
não sei se arranha-céus, ou se favelas
que lado a lado arranham morros para
sustento de miséria. Imenso mar,
de altíssimas sombrias transparências,
na noite em que perpasso qual silêncio.
Não sei se amor me evita ou me protege,
ou se é de amor que eu velo o brando sono
ruidoso e povoado.

Meu coração é só de amor que sabe;
mas o que sabe, de saudoso esquece,
na angústia dúplice de não ter-te ao lado.
(22/8/1959)

 

Vigília Cívica

No planalto da Pérsia,
enquanto Quetzalcoatl se espaneja, arrasta a cauda,
eles votam pela adopção da ementa parlamentarista.
A ementa é:
sopa de nabos, feijão guisado, arroz com carne seca.
Seca?      Sim, minha senhora,
é na secura que os dentes encontram, exploram
e desenvolvem
as mais lídimas virtudes mastigativas.
Acredita V. Exª, senador, na selecção natural,
ou prefere, peito de rola, o outro mundo como
vontade e representação?
Eu sei, Excelência, que a resposta é impossível,
que o vento sopra no altiplano irânico
por uma forma que a serpente pode –
– o quê? Minha senhora, que entende de serpentes,
a senhora, emplumadas? Não
interrompa as meditações patrióticas dos sábios da Grécia
que eram sete e não houve, que se saiba,
outros.
Sirva-se V. Exª, senador, e a madame
também,
deste precioso guisado. O nabo é,
como diria Freud, um símbolo.
Acreditam V. Ex.as  no inconsciente colectivo? –
– pode a serpente levantar voo,
com as penas adejando e a cauda pendurada.
Nem sempre, eu sei, minha Senhora; mas,
em sopa cozinhada a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode. Recorda-se, pai da pátria,
da sua juventude no planalto da Pérsia?
E de Édipo (o complexo), e de Jasão (o velo),
e de Ulisses (as sereias), naquela madrugada em que,
com ligeiro atraso, almoçámos juntos?
A cotação do café firmava-se nos astros
que Zaratustra lia apaixonadamente.
Foi nesse almoço que, na mesa ao lado, o cardeal falou,
citando CIF New York o Tigre de Bengala.
Creia, minha senhora, que de Ganimedes
nunca mais se soube, tranquilize
o coração maior que o mundo. Sobremesa?!
Mas como, senador, esta madama,
quando as serpentes passam exibindo as plumas,
deseja ainda pêssego em calda?!
O seu voto, senador, e o delas,
nesse altiplano irânico, Pamir, tecto do mundo,
são a derradeira garantia das instituições.
Mas pêssego, madame, com feijão
guisado e arroz com carne seca,
não é possível. Lembre-se de Ísis.
Repita a sopa. De nabo. Eu sei,
minha senhora, mas, a fogo lento,
esse legume simbólico reage
como pode.
(Araraquara, 4/9/1961)

 

Borboleta Brasileira

Patas de prata
losango de asas brancas
de negro debruadas
plumas cinzentas como cauda insólita
e a longa e fina tromba alaranjada
instantânea língua
olhos de esfera negra que me fitam
da estática assustada imóvel calma
que as patas pousam na vidraça
um animal        ser vivo       e borboleta
a mosca como eu olha-a espantada.
(5/3/1964)

 

Os Nocturnos merecem respeito ou A Salvação do Brasil em 1o. de Abril

Como podem chamar noite
a isto?
Há uma dignidade e uma nobreza
das trevas.
Isto
é outra coisa: a luz do dia
lá fora (onde?),
os sons e os cantos de alegria
lá fora (onde?),
o amor
lá fora
(onde?),
e a vergonha
lá fora
(aqui).
Como podem chamar noite
a isto?
(7/4/1964)

 

Natal – 1965

(Cartão de Boas-Festas a Sidónio Muralha)

“Quando São Paulo só tinha
quatro milhões de habitantes”
este mundo em que vivemos
não era melhor do que antes.
E muito menos São Paulo:
nenhum de nós lá vivera,
nenhum de nós lá escrevera,
nem nossos filhos havia
com que São Paulo aumentasse.

E nestas neves que tombam
exactamente na véspera
do Natal, por propaganda,
fico à espera dum livro
que de São Paulo me manda
a tua camaradagem.

Dos trópicos ao Wisconsin
não é uma longa viagem
se poetas portugueses
dos que andam pelo mundo
conservam preso no fundo
um Portugal que não há
nem nunca ainda haverá
neste mundo em que vivemos,
e de que sempre podemos
cantar São Paulo ou a lua.
Venha pois poesia tua,
apaixonada ou serena,
que gratamente a recebo
“ex corde”
Jorge de Sena.
(24/12/1965)

 

Do Trópico de Capricórnio aos Grandes Lagos

Deste Outono em árvores despidas
que em mil ramículos cruzados o livor enredam
celeste e nevoento de que as águas
tão crespamente se embranquecem frias,
eu não sabia já. Envelhecia
num Verão chuvoso ou num Inverno claro
em que de noutras árvores a folhagem viva
apenas de ser verde persistia.
Agora não. Neste hirto esbracejar de tantos dedos
que o ar sem unhas cortam tão tranquilos,
melhor hei-de saber que o tempo passa
em que sou eu quem passa como tempo
neste ficar do mundo sempre renovado,
com que da nossa vida é feito o tempo alheio.
(4/12/1965)

 

Primavera no Wisconsin

Na limpidez tranquila da manhã diáfana
em que as despidas árvores imóveis
são como nervos ou expectantes veias
no corpo transparente do azulado ar,
as águas quietas, mas não tanto que
nelas se espelhe mais que a concentrada cor
do ar tranquilo, nem tão menos que
pareçam gelo perto as águas mais distantes,
pousam na margem delicadamente
como na mesma terra infusas se dispersam
dos ramos e dos troncos sombras confundidas.
A terra se amarela de ante-verde
e, sêca, espera, entre a neve que foi
e o ténue estremecer da seiva que desperta.
(Madison, 15/3/1966)

 

Noções de Linguística

Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguez daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.
(Outubro, 1970)

 

Duas Paisagens da Califórnia

– As ilhas de Santa Bárbara

Tão lúcidas recorte no horizonte
a névoa ergue-as do mar em que flutuam
violáceas quietas pela tarde imóvel
até nas brandas ondas que esta praia pousam
recurva apenas de uma luz sem cor
e do silêncio da distância em ilhas.

– Big Sur

Do alto da escarpa escarpas se prolongam
em que de praias se entelaça o mar
sobrevoado de aves. Os rochedos
somem-se e brotam de sem espuma em volta
que só ressaca é depois deles areia.
(Janeiro, 1971)

 

Sobre esta praia…

                   III

Sobre estas águas a que luz de inverno
dá não sombrias cores, ou nestas praias
em que uma brisa fria não levanta areias,
paira ou perpassa a calma e tamisada
serena paz das tardes infinitas.
Rareia só a gente num silêncio
de corpos isolados que deambulam
dispersos na distância ou que se deitam nela
a dissolver-se glabros na ondulada linha
de linhas sucessivas em que algas secas
são como escuras crespas cabeleiras nuas
de sexos e cabeças de gigantes que,
sumidos no sem tempo, mais não deixam deles
que essa memória solta por gastado em águas
o corpo que o seu foi por sobre a praia em rochas.
Nesta nudez total do que ainda se demora
dispersamente humano ou imagem sobre-humana,
o que fisicamente não tem voz nem gestos,
ou nem mesmo de olhar se comunica além
de uma presença solta pelo espaço límpido,
é como se do mundo espelhos se partissem
que nem sequer em estilhas neste sol dardejam,
e como se Narciso os não tivera para
se contemplar lá onde as águas o chamassem
para afogar-se mesmo em olhos que o fitassem.
(6/10/1972)

Leia mais:

* Seleção dos poemas por Luciana Salles