Há 50 anos: poemas de 1961

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Imagens de 1961: o homem rompe a fronteira do espaço, mas ergue uma barreira em Berlim

O ano de 1961 foi extremamente produtivo para a poesia seniana, em todas as suas vertentes. Abaixo o índice de primeiros versos desses poemas que completaram 50 anos em 2011. Em destaque os links para os já editados no site.

Desse conjunto, destacamos aqui 5 exemplos, representando as múltiplas (e concomitantes) facetas de Jorge de Sena: o diálogo com as artes em suas Metamorfoses, o lamento do exilado, o trabalho com a linguagem nos poemas “incompreensíveis”, a reflexão sobre a música, a percepção do tempo como História, Ciência e acima de tudo experiência humana.  

 

Índice:

 

"Instalada a justiça, ..." -------------------------------------------- ?

"Quem muito viu, sofreu, ..." ------------------------------------- ?

"Tronchela adúvia corimata, ..." --------------------------------- ?

"De que tristeza me farei liberto" ---------------------------- 21/2

"Do deus da lira e dos ladrões, ..." --------------------------- 9/3

"De morte natural nunca ninguém morreu" ---------------- 1/4

"Como balouça pelos ares no espaço" ---------------------- 8/4

"Suspensa nas três patas, ..." --------------------------------- 8/4

"Pandemos" -------------------------------------------------------- 6/5

"Anósia" ------------------------------------------------------------- 6/5

"Urânia" ------------------------------------------------------------ 14/5

"Em teu ultimo poema, ..." ------------------------------------ 15/5

"Água da vida, em memória" ---------------------------------- 2/6

"...Mas, meus senhores, ..." ---------------------------------- 10/6

"Estes cânticos ouço repetidamente" ---------------------- 11/6

"Entre o céu e a terra passam" ------------------------------ 11/6

"Os deuses, ladrões" ------------------------------------------- 11/6

"Podereis roubar-me tudo" ------------------------------------ 11/6

"Porque não espero de jamais voltar" ---------------------- 11/6

"Amátia" ------------------------------------------------------------ 20/6

"Como me alongo, cansado..." ------------------------------- 22/6

"Não me peças, ó vida, ..." ------------------------------------ 23/6

"Senhor: não peço mais..." ------------------------------------ 23/6

"Na transtornância impiala..." ---------------------------------- 5/8

"No planalto da Pérsia," ----------------------------------------- 4/9

"Esta é a ditosa pátria..." --------------------------------------- 6/12

"Entre a esquadra que aclama" ----------------------------- 23/12

"Por este anoitecer, o ano acaba" -------------------------- 31/12

 

Poemas selecionados:

* “O Balouço” de Fragonard (Metamorfoses, Poesia II) – 08/04

* Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos (Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III) – s.d.

* Colóquio sentimental em duas partes (Peregrinatio ad loca infecta, Poesia III) – s.d.

* Estes cânticos ouço repetidamente (Visão Perpétua) – 11/06

* Por este anoitecer, o ano acaba (40 Anos de Servidão) – 31/12

 

“O Balouço” de Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!

 

Quem muito viu,…

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi-

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
qundo o buscar, há-de encontrá-lo morto.

 

Colóquio sentimental em duas partes

I

Tronchela adúvia corimata, que tuestes dilasta anquinudante,
furiça astria dova, retinuta, e quis? Nonória. A tutimão periva
a turidarta influva. Azis? Nocónia. Dimirita, aluina, dúria – oh
comisalva apene. Friscórida. Buliva? Nem ninúria. Que dívia alperidasta clido! Flara:
– Dumeste andorta oroladiara?
– Clande.
– I tru laridolosta zanque?
– Diata.
– Dileste me tisalva.

Aliara doriçara, tigorimenos. Erclusa atrisca duridanta,
merifluamos róvia. Diloguidermos:
– Verida turimana…
– Ciciarva…
– Ablera, ablera, diata.
– Anstria…
– Narva, adiarda, funje…
– Cerida!
Estuta. Nonôra dimirata.
II

Anaridassa, contrimat atuva, anadiramo trévia palpirada. Dimitidana
flurionca fliva. Mês conquiritanta nim puore avri discrote, undiva
aspranca fara, alima gêntia assunta etrétia i
vanta. Diloguidermos:
– Memorta oroladiara?
Nunda siventa ura pradona.
– Ovi trasida medirenta?
– Niata.
– Clito…
– Niata ciciarva anstria.
Arnuda transparara instívio. Impossidanta. Despridova, despridima, deses cara. Anfúria?
Estruta dimirasta.

 

Estes cânticos ouço repetidamente

Estes cânticos ouço repetidamente.
Hoje, atravessam o ar chuvoso e baço,
as ruas desertas, as janelas fechadas da manhã de domingo.
Não são a várias vozes do coro que os canta,
mas num cadenciado uníssono de fiéis devotos
fazendo por chegarem todos em congregação
juntos às Portas do Céu.

Ô-ó-ô-ó-ó…. Ô-ó-ô-ó-ó…
I-i-i-á-á… Ê-ê-ê-é-é…
Ô-ó-ô-ó-ó… Ô-I-ô-I-ô-ó-ó…
Ô-ó-ó-ó-ó…

E recomeçam teimosos, persistentes,
enquanto lá longe, em baixo, os sinos tocam
nas torres que não cantam, para o sacrifício
a que os fiéis assistem ante o cadafalso,
e curvam a cabeça silenciosos,
no momento da Transubstanciação,
tementes de pensar com o Céu ali.

Aqui sentado, eu ouço-os, entrevejo-os,
e fito além-telhados a parda brancura
do céu que é nuvens encobrindo o Sol.
Um automóvel passa chiando na rua molhada.
Provavelmente há pendente do volante
um grupo de amuletos que chocalham
uns contra os outros no ar morno.

ô-ó-ô-ó-ó…. ô-ó-ô-ó-ó…
ô-ó-ô-i-ó-ó… ó-i-ó-i-ó-ó…
O coro calou-se num estertor final.

 

Por este anoitecer, o ano acaba

Por este anoitecer, o ano acaba.
Cinzento e azul no céu por entre as árvores,
acaba o calendário. Muitos crimes dele
serão futuras efemérides nos outros
que, folha a folha, acabarão também.

Como anoitece igual este ano às noites
com que, dia por dia, o ano foi passando
gregorianamente. O mundo ocidental,
cesáreo, atlântico, ex-mediterrânico,
conta do Cristo. Mas os outros mundos

também contarão dele, quando este ocidente
deixar de fingir dele — os deuses morrem —
para funções de calendário laico.
O tempo passa, os calendários mudam,
na vida e morte as horas se sepultam.

E, no entanto, o tempo vai connosco;
é desta terra só, e só por haver outros
que de outros astros são por haver este
diverso tanto a cada movimento.
Por este anoitecer, o ano acaba.