Dedicatórias a seus contemporâneos

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Não são poucos os poemas que Jorge de Sena dedicou aos amigos, ao longo de seus vários livros. Já aqui transcrevemos alguns, como os magníficos “A morte, o espaço, a eternidade“, “À memória de Adolfo Casais Monteiro” e “Eleonora de Toledo“. Ampliando o leque dessas ofertas aos seus contemporâneos, selecionamos mais outros, em vários tons, dedicados àquelas fiéis amizades de toda a vida: Casais, Sophia, Eugénio, Cinatti, José Blanc, França, Quadros… 

 

 

 

Posse

(a Adolfo Casais Monteiro)

Passaram pelos meus ombros longínquos as gaivotas negras
da esperança do poente erguido na extremidade do molhe
que as ondas adoram,
ou mansas ou duras com o amor ansioso
de atingir e penetrar o deus que sentem mesmo
sobre aquela fronteira da morte conquistada,
rolando a própria carne em volta dos pedaços,
quebraram-no, quebraram-no,
e aqui chegam os cadáveres
alheios ao mar
e erguem os olhos para a profundidade perdida
e entrevista ao voltear da queda
ao sufocar da espuma
e volteiam agora e lá está a outra profundidade
no poente erguido.
Rochas talhadas, nuvens vermelhas,
nunca mais
ferrugem sobre a areia
sobre a água
sobre o rombo que, aberto, não conheceu vazio.
Mas vêm gritos da alegria nova
de pairar ao rumo das camadas,
de obedecer apenas cautelosamente
e ver de cima
os mastros cheios de saudade do ar.
E a terra em fuga
e maiores gritos dentro da alegria suprema de descer…
Que a dor do corpo à morte é alegria suprema,
dor da nossa virgindade perante a morte em peso,
não dói a terra em fuga
areia de crepúsculo
areia de esperança
areia luminosa do abraço puro
de aquém
de além
rechina o Sol nas águas,
pousa na ponte erguida,
voam contra ele as últimas gaivotas,
são já verdes por baixo!…
A dor!… A dor… Ouçam-na inteiros!
E uma única onda há-de quebrar tranquila.

16/11/40

 

Caverna

(ao José Blanc de Portugal)

Tanta coragem, meu Deus, em perguntar por dúvida,
não vão os meus actos, amanhã pensados,
ser resposta,
vertigem à beira de um poço mais estreito que largo,
de Te querer tão puro e longe
isento do meu mundo.

Este pavor, meu Deus, de Te purificar em excesso,
de me afastar demais
para que não me compreendas ao dizer-Te o Nome…
Eu tiro-Te tudo, tudo, se principio a odiar-me!

Este pavor, meu Deus,
de Te reduzir ao som, à música das quatro letras;
e anda no tremer do ar,
quando o Teu Nome circula
e o ar não treme para as coisas,
fica afastamento
que não a força da Entrada em nós.

Chega o silêncio
passa uma aragem,
as árvores enchem-se de intervalos de nuvens,
– e eu assistindo completo ao ar em movimento!…
Este pavor, meu Deus, de Te confundir com o vento!

De Ti,
só o meu reflexo é irreparável.

19/6/41

 

“Era tão doce uma verdade…”

(a José Augusto França)

Era tão doce uma verdade entressonhada!

Mas quando, em torno dela, já verdade,
as outras vinham como pétalas
e pouco a pouco eram, também pétalas
de outras flores que também eram verdade
mas não entressonhada,
e uma rede florida se estendia
sobre o jardim ansioso da memória,
como era amargo entressonhar verdades!

Na teia tão florida os olhos se perdiam…
Da terra, um vago cheiro a coisa oculta…
E,
mergulhar no oculto,
ou desfolhar a teia?

16/8/48

 

A Sophia de Mello Breyner Andresen enviando-lhe um exemplar de Pedra Filosofal

Filhos e versos, como os dás ao mundo?
Como na praia te conversam sombras de corais?
Como de angústia anoitecer profundo?
Como quem se reparte?
Como quem pode matar-te?
Ou como quem a ti não volta mais?

15/12/1950

 

Para o aniversário do Poeta

(ao Ruy Cinatti)

Não passam, Poeta, os anos sobre ti,
embora sejas mais mortal que os mais:
no tempo, viverás longe daqui,
no espaço, apenas deixarás sinais.

E quando, pelos campos silenciosos,
lá te encontrarás nas ondas dos trigais,
repara como fogem receosos,
para o poente, os ventos luminosos
— antes que os homens nasçam teus iguais.

7/3/44

 

Dupla Glosa

(Para o  Ruy Cinatti, em Timor, pelo seu aniversário, em 1952)

“Não passam, Poeta, os anos sobre ti”
– eis o que em tempos uma vez te disse.

Não é bem verdade; passam sobre ti
como por sobre os seres que perecem.
Apenas sempre tu soubeste como
se vive no intervalo entre os instantes.

Os anos passam: mas, desta passagem,
a permanente essência em nós se cumpre,
que para testemunho só nascemos.

Mas de que falas tu? De ti? Do mundo?
Ou do intervalo em que te aceitas outro,
precisamente quando mais te julgam tu?

A pouco e pouco, nascerás de tudo.
Tu próprio, todavia, não disseste que
“anoitecendo a vida recomeça”?

3/3/1952

 

A Eugénio de Andrade, por «Véspera da Água»

Esta água vesperal que sobe em ti
e escorre em regos por areias campos
de verde negro crespas cabeleiras
levando flores vai e estrias brancas
do que tão chamas cal no ardor de tê-las.

Rumor de secos ramos e de olhares,
visões que os dedos têm tocando os troncos
e os caules duros por momentos longos.
correndo vai essa água transportando-os
a um mar que ondas recurva silenciosas.

Descendo pelo tempo que o desejo
anseia seja uma demora tensa
ante um passado a dissolver-se agudo –
essa água véspera de ser-se é tarde
pousando na paisagem das palavras.

Silêncio de só gestos que elas dizem
menos que dizem lembram ou contentam
na solidão sem rosto da nudez –
esta água corre escorre pedra em pedras
e sobe em ti como ervas sobre a terra
em que ninguém nos fita ou já nos vê.

28/1/1974

 

Epístola a Grabato e Quadros

António Quadros,senhor meu, chegou-
-me, nesta desconversa de correios
distantes tanto pelo globo e os fados
que acaso nos retardam as missivas,
a vossa mui prezada e laurentina,
sem data como cumpre a eternas prosas,
mas carimbada a treze deste mês.
Trocou-se ela coás décimas solenes
de minha fraca inspiração mandadas
em como que resposta áquela carta
grabática qual esta mas em verso
de suplicante pelas sacanagens
quibiricófilas e prefaciais
entanto enviadas por vosso amigo
enlanguescendo em praias do Pacífico,
roído de saudades africanas,
enquanto o sol se esfria o só bastante
a que de corpos elas se esvaziem,
qual não mais acontece em Califórnias,
se o Inverno se aproxima,como agora.
Grabato ou Quadros ou Grabatus Frei,
e não de quadras mas de oitava e quadro,
nenhuma gratidão vós me deveis.
Naquela minha prosa, tudo fiz
para provar-se o que não é de prova:
quem foi que algo escreveu, mesmo assinado,
quando possesso de altas Musas ou,
como é segredo, elas se alongam diante
o que se chama de fraqueza humana
e se não fora duro as não honrara.
Qual haveis visto em vossa tripla vista
de poeta de hoje e de ontem que é pintor
por símbolos e monstros minuciosos,
ninguém citei ou nada( quase nada)
que realmente exista. Assim se fritam,
em seu azeite mesmo, as sábias bestas.
No centenário da epopeia que
cavalos da instrução pensam ter sido
feita “a Bem da Nação” como de ofício
a prosa de Excelências se termina,
igual paixão usei nesse delírio
de pura fantasia vingadora,
qual a que punha no prefácio sábio
para a edição dos comentários que,
tão louco como nós, Faria e Sousa,
há trezentos e trinta e três anos,
publicou ao poema dos “lusíadas”.
Pensava a gente oficial comprar-me
com ser fingidamente proclamado
crítico-mor do nosso amigo Luís?
Para sacana só sacana e meio,
ao que dizia Sócrates bebendo
esta cicuta amarga que nos servem
só gota a gota de tarracha para
não de veneno mas de nós morrermos.
E assim, António, se lhes dou nas fuças
a ciência toda de que arrotam vácuos,
nos cuses rebolados lhes assesto
o pontapé que as fuças reclamavam.
A vós, Senhor de Quadros, vos sou grato
e temo apenas que as gorgonas pátrias
se quedem no prefácio furibundas,
e não penetrem pela poesia adentro
que não é de piada mas daquela
trágica farsa que em poesia agora
é quanto em grave troça nos compete
imaginar poesia neste mundo
tão torpe e tão vil, que as rosas e os encantos
são de deixar-se às putas rimadoras,
e às que, menos que putas, se deslaçam
em verso livre, ou se contraem tanto,
que menos que biputas são concretas.
Concreta é só a porra que nos roubam.
Lembrai-me, senhor meu, ao Quenofílico
de tanta minha estima, e ao Mafalalo
sobrequem vou escrever galante prosa.(1)
E ao que Lisboa tem no nome e não
na força com que urze asnos benditos,
de Nixon e de Mao dilectos filhos.
E a todos por aí, como é devido.
Deste palácio vosso em Santa Bárbara
(aposentada santa dos trovões)
de Califórnia, Outubro o dezanove,
JORGE DE SENA vos saúda e firma.

19/10/1972

(1) Quenofílico = Rui Knopfli; Mafalala = José Craveirinha, que vivia nesse subúrbio de Lourenço Marques; Lisboa = Eugénio Lisboa.